GEORGE ORWELL (1903 – 1959) – “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 pgs, R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro)

por Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro

A liberdade de expressão, que era definida por George Orwell (1903-1950) como “o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir”, é um dos ingredientes que torna tão cativantes os escritos do autor de 1984 Revolução dos Bichos. Sem papas na língua, com uma prosa lúcida e sem firulas, sempre corajoso na manifestação de suas opiniões e impressões, o escritor inglês também tem uma significativa produção jornalística e ensaística que se torna cada vez mais disponível ao público brasileiro.

Com o lançamento de “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 pgs, compre por R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro), que contêm 24 artigos selecionados por Sérgio Augusto, já gozamos de acesso a 3 livros que coletam os ensaios políticos de Orwell – os outros dois são Como Morrem Os Pobres Dentro da Baleia. Além disso, podemos nos deliciar com relatos autobiográficos como Na Pior Em Londres e Paris e com romances excelentes, ainda que menos conhecidos, como A Flor da Inglaterra A Filha do Reverendo. 

Frequentemente descrito como um dos críticos mais perspicazes do totalitarismo, George Orwell defendia o que chamava de “socialismo democrático”. Tal tomada de posição não torna seus artigos na imprensa culpáveis de panfletarismo ou proselitismo. Sem afetar nenhum tipo de neutralidade angelical, aliás inacessível aos animais políticos que somos, Orwell mantêm-se fiel a certos parâmetros éticos que norteiam sua conduta na ação e na escrita, em especial sua convicção de que é preciso respeitar a verdade objetiva e sua noção de que a missão do socialismo é a invenção de uma sociedade baseada na fraternidade humana.

“A história é escrita pelos vencedores”, escreve Orwell em 1944. “Em última análise, nossa única reivindicação de vitoriosos é que caso ganhemos a guerra contamos menos mentiras sobre ela do que nossos adversários. O que é realmente assustador quanto ao totalitarismo não é que ele cometa ‘atrocidades’, mas que agrida o conceito de verdade objetiva: ele proclama que controla o passado tão bem quanto o futuro.” (p. 77)

É só lembrar que, em 1984, o Partido Único que governa a distópica sociedade que têm à sua testa o Grande Irmão também pratica a mentira em escala massificada: o protagonista Winston Smith trabalha no Ministério da Verdade, onde passa seus dias adulterando notícias de jornal e registros históricos de acordo com as ordens da elite, adaptando o passado conforme os interesses da ocasião.

Propondo-se a não mentir sobre nada do que acredita, ponto em ação sua notável capacidade de parrhesía, Orwell tem como um de seus principais temas o pensamento e a prática utópicos. No artigo Socialistas podem ser felizes? (p. 63 a 72), Orwell tece certas reflexões importantes sobre a utopia (“a propósito, a palavra não significa ‘um lugar bom’, mas ‘um lugar inexistente'”) e estabelece sua própria perspectiva socialista democrática em bases sólidas, nada quiméricas, bastante pé-no-chão, sugerindo que as lutas contra as distopias reais são o primeiro passo de qualquer mobilização sócio-política rumo a uma sociedade mais fraternal:

“Sugiro que o verdadeiro objetivo do socialismo não é a felicidade. O verdadeiro objetivo do socialismo é a fraternidade humana. Homens passam suas vidas em dolorosas lutas políticas, ou são mortos em guerras civis, ou torturados em prisões secretas da Gestapo, não para estabelecer algum paraíso com aquecimento central, ar condicionado e iluminação fluorescente, mas porque eles querem um mundo no qual homens amem uns aos outros em vez de trapacearem e se assassinarem reciprocamente. E eles querem esse mundo como um primeiro passo. (…) Neste Natal, milhares de homens estarão sangrando até morrer nas neves da Rússia, ou se afogando em águas geladas, ou fazendo uns aos outros em pedaços com granadas nas ilhas pantanosas do Pacífico; crianças sem-teto estarão vasculhando as ruínas de cidades alemãs em busca de comida. Fazer com que esse tipo de coisas seja impossível é um bom objetivo.” (ORWELL, 2017, p. 70-71)

Estas palavras mostram bem que George Orwell não era um utopista, ou seja, alguém que tivesse proposto um modelo ou arquétipo de sociedade idealizada, mas muito mais um crítico mordaz dos pesadelos reais de que foi contemporâneo em seu tempo histórico. A distopia é o seu terreno, muito mais que a utopia, e certamente ele não fabricou com uma imaginação sem freios os sistemas políticos opressivos e totalitários de 1984 Revolução dos Bichos, mas partiu de realidades que pôde conhecer e nas quais se engajou. Sabe-se bem que Orwell não foi autor de exilar-se das turbulências do mundo em um torre de marfim. Por exemplo: ele fez parte das milícias do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM) que insurgiu-se contra a tirania de Franco na Espanha, tendo lutado durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), tendo sido baleado no pescoço (sobre o tema, escreveu Homenagem à Catalunha).

Com sua inteligência vigilante e seu senso crítico sempre ativo e operante, Orwell, vivendo na primeira metade do século XX, testemunhou a ascensão de lideranças nazi-fascistas como Franco (Espanha), Mussolini (Itália) e Hitler (Alemanha), mas também viu a Revolução Russa de 1917 trair as suas promessas ao transformar-se no pesadelo stalinista, denunciado na literatura por romances como O Zero e o Infinito (Darkness At Noon), de Arthur Koestler, autor que Orwell comenta longamente em um magistral ensaio de 1946, incluído em O Que É o Fascismo? (pgs. 102 a 116).

Somado ao monumental estudo de Hannah Arendt em As Origens do Totalitarismo, a obra de Orwell condensaria a tese de que teriam existido dois totalitarismos neste século que Hobsbawn apelidou A Era dos Extremos: um totalitarismo de direita e outro de esquerda. Seria indigno que nos indignássemos, por exemplo, apenas contra o pesadelo do III Reich e todos os seus holocaustos e atrocidades bélicas, caso silenciássemos sobre os gulags e os expurgos do regime de Stálin; seria indigno criticarmos somente o autoritarismo e a arbitrariedade cruel dos regimes de um Mussolini ou de um Pinochet, mas sem criticar o autoritarismo soviético que esmagou a Primavera de Praga em 1968..

A atitude de Orwell é de crítica ampla e ilimitada a todas as faces da tirania, mas nota-se que ele não menospreza seus adversários: boa parte dos ensaios é dedicado a um debate com poetas reacionários e conservadores, alguns francamente fascistas, como é o caso de Ezra Pound (que aliou-se ao regime de Mussolini). Orwell analisa de modo crítico a obra de um T.S. Eliot e um Yeats, sem cair na falácia de repudiar totalmente suas obras literárias por discordar de suas posições políticas. Chega a admitir que aprecia Louis-Ferdinand Céline como escritor, apesar de seu vociferante e inaceitável anti-semitismo.

Orwell também fala sobre o Mein Kampf de Hitler, destacando que “o que impressiona é a rigidez de sua mente, o modo como sua visão de mundo não evolui”, mas admitindo que “Hitler não teria tido sucesso contra seus muitos rivais não fosse a atração de sua própria personalidade”. Em frases capazes de chocar alguns, escreve: “nunca fui capaz de não gostar de Hitler. Desde que ele chegou ao poder, acho que decerto o mataria se pudesse ter acesso a ele, mas sem sentir nenhuma animosidade pessoal. O fato é que há nele algo que é profundamente atraente…” (p. 29)

Pode parecer estranhíssimo que Orwell confesse que havia em Hitler algo de “profundamente atraente”, mas de fato é um enigma importante de se decifrar: o que constitui o fascínio do fascismo? Como é possível que tanta gente se filie a movimentos fascistas, que tantos soldados tenham sido obedientes às ordens de seus líderes fascistas e que tenham marchado para campos de batalhas onde massacrariam e seriam massacrados?  Que atração é esta que Hitler, Mussolini, Franco ou Pinochet – alguns dos mais célebres estadistas fascistas – puderam exercer sobre seus acólitos? Para Orwell, Hitler sabia fazer uma pose heróica, como se a história fosse uma epopéia, era cheio de posturas “napoleônicas”:

“Se estivesse matando um camundongo ele saberia fazer com que parecesse estar matando um dragão. Sente-se, como no caso de Napoleão, que ele está lutando contra o destino, que ele não tem como vencer, mas que de certa forma ele o merece. A atração de uma pose assim é, obviamente, enorme; metade dos filmes a que assistimos trata desse mesmo tema… Hitler também  captou a falsidade da postura hedonista diante da vida. Quase todo o pensamento ocidental desde a última guerra, com certeza todo o pensamento ‘progressista’, assumiu tacitamente que os seres humanos não desejam nada além de ter facilidade, segurança e evitar o sofrimento. Em tal visão da vida não há espaço, por exemplo, para o patriotismo e para as virtudes militares. O socialista que surpreende seu filho a brincar com soldadinhos costuma ficar aborrecido, mas nunca é capaz de pensar em um substituto para soldados de chumbo; pacifistas de chumbo, de certa forma, não iam funcionar.

Hitler, por sentir isso com força excepcional em sua própria e triste mente, sabe que seres humanos não querem apenas conforto, segurança, poucas horas de trabalho, higiene, controle de natalidade e, no geral, bom senso; eles também, ao menos intermitentemente, querem luta e autossacrifício, e isso sem falar em tambores, bandeiras e desfiles demonstrativos de lealdade. O que quer que possam ser como teorias econômicas, o fascismo e o nazismo são, em termos psicológicos, muito mais sensatos do que qualquer concepção hedonista da vida.” (New English Weekly, 1940, p. 30)

Este é um dos trechos mais questionáveis de todos os que já li de Orwell e sinto necessidade de debatêlo, e até contestá-lo: quando ele busca demolir a “concepção hedonista da vida”, parece compreender por esta expressão algo que pouco tem a ver com a ética epicurista (como se expressa também na obra de Lucrécio ou Horácio) ou com as propostas do materialismo iluminista (Helvétius, por exemplo). Ao falar contra o hedonismo, Orwell parece estar dizendo que o ser humano, longe de ser uma máquina simplória de perseguir o prazer pessoal e imediato, tem uma psiquê mais complexa e que pode admitir o martírio e o autossacrifício, caso acredite que através disso aumentará seu valor pessoal, seja no mercado intersubjetivo dos afetos humanos terrenos, seja no mercado transcendental em que alguns crêem e que pode incluir a noção de que compramos o tíquete de entrada no Paraíso através de certas afrontas que fazemos ao nosso próprio egoísmo.

Para Orwell, os líderes fascistas sabiam muito bem que as pessoas não desejam apenas conforto, segurança e entretenimento – em suma, sofás luxuosos onde deitarem-se para assistir TV enquanto comem salgadinhos com Coca-Cola. As pessoas têm necessidade íntima de sentido e não só prazer, e por isso fascinam-se por projetos que proponham aventura coletiva, heroísmo nacional, filiação e lealdade a projetos que transcendem a individualidade e a vida privada – e esta predisposição psíquica as conduziria a abraçar lideranças fascistas como Hitler. A tese orwelliana, bastante debatível, parece-me um pouco simplista, em especial quando a comparamos com aquilo que foi realizado pela psicologia de massas através de autores como Erich Fromm (O Medo à Liberdade),  Stanley Milgram (Obediência à Autoridade), Wilhelm Reich (Psicologia de Massas do Fascismo). Todas as reflexões de Hannah Arendt sobre o conceito de banalidade do mal parecem-me também de suma relevância.

fascínio do fascismo, segundo estes autores, tem a ver também com uma espécie de auto-demissão da autonomia, praticada por um sujeito que deleita-se em abandonar-se ao comando de algo mais forte que ele, gozando com a hedonê perigosa que é o alívio do senso de responsabilidade. Esta prazeirosa leveza da des-responsabilização, o hedonismo fácil que consiste em seguir o rebanho e ir com o fluxo, Orwell parece não ter considerado em suas incursões rápidas no território da psicologia social. Não se trata, para as massas arrebanhadas pelo fascismo, de anti-hedonismo, mas sim de um irracionalismo grávido de atrocidades onde os sujeitos sentem prazer no aniquilamento da própria autonomia e responsabilidade, mas o fazem, sim, em busca de um prazer pessoal por vezes bastante mesquinho e atroz, já que baseado em larga medida no prazer perverso ou sádico do ódio à alteridade  que o fascismo possibilita que se expresse, dando-lhe o estatuto de legalidade e garantindo-lhe os louvores e as salvas-de-palmas do regime.

Estes temas ganharam uma nova ocasião para reflexão em 1940 quando chegou aos cinemas O Grande Ditador (The Great Dictator), de Charlie Chaplin, obra que é objeto de um dos mais interessantes ensaios de Orwell em O Que É Fascismo?. No filme, Chaplin interpreta dois personagens: Hynkel, o ditador da Tomânia, inspirado em Hitler; e um barbeiro judeu que se torna soldado durante a 1ª Guerra Mundial, sobrevive à queda de seu avião e é trancafiado num hospício por 20 anos. Ao sair do hospício, retornando à sua barbearia, este personagem não sabe dos horrores que estão sendo praticados por Hynkel em seu frenesi antisemita e imperialista.

Após uma série de peripécias, repletas de humor pastelão entremeado com as ocorrências do lodaçal bélico em que a Europa chafurdou, a semelhança física entre Hynkel e o pobre barbeiro oferece ocasião para uma das cenas mais célebres da história do cinema e “o grande momento do filme”:

“A invasão de Osterlich (a Áustria) está prestes a acontecer, e Charlie, que foi preso por resistir às tropas de choque, foge do campo de concentração num uniforme roubado bem no momento em que Hynkel está para cruzar a fronteira. Ele é confundido com o ditador e levado à capital do país conquistado em meio à multidões que o aclamam. O pequeno barbeiro judeu vê-se guindado a um enorme palanque, com cerradas fileiras de dignitários nazistas atrás dele e milhares de soldados abaixo, todos esperando para ouvir seu discurso triunfal. Em vez de proferir a solene fala que dele se espera, Charlie faz um poderoso e combativo discurso em prol da democracia, da tolerância e da decência. É realmente um tremendo pronunciamento, uma espécie de versão do discurso de Gettysburg de Lincoln num inglês de Hollywood, uma das mais fortes peças de propaganda que ouvi em muito tempo.

(…) Qual é o dom peculiar de Chaplin? É seu poder de representar uma espécie de essência concentrada do homem comum, a inerradicável crença na decência que existe no coração de pessoas normais, pelo menos no Ocidente. (…) Mais do que qualquer truque humorístico, assim creio, o poder de atração de Chaplin reside em sua capacidade de reiterar o fato, encoberto pelo fascismo e, muito ironicamente, pelo socialismo, de que vox populi é vox Dei, e que gigantes são uma praga. Não é de admirar que Hitler, a partir do momento em que chegou ao poder, tenha banido os filmes de Chaplin da Alemanha!” (p. 39)

CHARLIE CHAPLIN, O Grande Ditador

Discordo do tom um pouco populista que Orwell utiliza-se para falar que o “homem comum”, as “pessoas normais”, teriam uma “inerradicável crença na decência”: não se trata, aí, de idealização excessiva das classes populares, quando sabemos que existem cúmplices do fascismo em todas as classes e que muitos daqueles que eram funcionários em campos-de-concentração e apertavam botões para soltar o gás letal Zyklon B não eram de classes economicamente privilegiadas?

Ademais, Orwell tem certos arroubos anti-marxistas que parecem inacreditáveis de tão toscos, como quando ele diz que “uma educação no marxismo e em credos similares consiste grandemente em destruir o senso moral” (p. 39), algo que poderia ter sido escrito por algum reacionário direitista apoiador de C.C.C.s (Comando de Caça aos Comunistas). Este “socialista democrático” parecia descrente de qualquer possibilidade de construir uma sociedade onde a felicidade pudesse ser permanente – e boa parte dos artigos reunidos em O Que É Fascismo revelam a crítica orwelliana dos pensamentos e práticas dos utopistas:

“Todos os esforços para descrever uma felicidade permanente têm fracassado, desde a história mais primeva”, sugere Orwell, relembrando alguns intentos utópicos nas obras de H. G. Wells nos anos 1920 como The Dream e Men Like Gods. “Ali se tem uma imagem do mundo como Wells gostaria de vê-lo. É um mundo cujas tônicas são um hedonismo esclarecido e a curiosidade científica.Todos os demônios e todas as misérias que agora nos afligem desapareceram. Ignorância, guerra, pobreza, sujeira, doença, frustração, fome, medo, sobrecarga de trabalho, superstição – tudo desapareceu. Expresso dessa maneira, é impossível negar que é o tipo de mundo que todos nós queremos. Todos queremos abolir as coisas que Wells quer abolir. Mas será que existe alguém que realmente quer viver numa utopia wellsiana?

Ao contrário, não viver num mundo como esse, não acordar um dia num higiênico subúrbio-jardim infestado de rigorosas professorinhas nuas tem se tornado de fato uma consciente motivação política. Um livro como Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley é uma expressão do verdadeiro medo que o homem moderno sente da sociedade hedonista racionalizada que ele tem o poder de criar. Um escritor católico disse recentemente que, em termos técnicos, utopias são agora factíveis e que, por consequência, como evitar uma utopia tornou-se uma questão séria. Com o movimento fascista bem à nossa vista, não podemos descartar isso como se fosse uma mera e tola observação. Pois uma das fontes do movimento fascista é o desejo de evitar que se crie um mundo racional demais e confortável demais…” (ORWELL, 2017, p. 65).

A tentativa de construir uma sociedade perfeita pode acabar atingindo justamente o inverso: a instauração de uma distopia totalitária. Orwell insiste neste tema, comentando livros como o Nós de Zamyatin (pg. 141 a 146) e o Brave New World de Huxley, dizendo que a felicidade permanente de todos não é um objetivo factível, não é algo que possa ser de fato concretizado, é somente uma quimera inútil da qual ele pretende desenganar-nos:

“Quase todos os criadores de utopia se parecem com o homem que está com dor de dente e, por isso, pensa que a felicidade consiste em não ter dor de dente. Eles querem produzir uma sociedade perfeita mediante uma interminável continuação de algo que só foi valioso porque era temporário. Mais sábio seria dizer que há certas linhas ao longo das quais a humanidade tem de se movimentar, que a grande estratégia está mapeada, mas que profecia em detalhes não faz parte de nosso negócio. Quem quer que tente imaginar perfeição simplesmente revela seu próprio vazio.” (p. 72)

Orwell, portanto, está bem distante daquele dreamer evocado por Lennon em “Imagine”. O autor de 1984, vivendo em uma época histórica conturbada por conflagrações bélicas gigantescas, só podia mesmo enxergar com sarcasmo a proposta de que o ser humano chegaria um dia a constituir uma utopia sobre a face da Terra. Sua denúncia das realidades distópicas, porém, segue fornecendo alimento para nossa lucidez e permitindo-nos pensar em lutas necessárias e urgentes por um mundo menos pior. 

A perfeição, de fato, é inacessível, sonhá-la só nos trará desilusão. Trata-se de fazer com que tornem-se impossíveis os horrores e atrocidades que existem de fato nesta realidade em que convivemos e que muitas vezes nos faz pensar em James Joyce e sua frase lapidar: “a História é um pesadelo do qual estou tentando acordar”. Ao evocar um socialismo que é devotado à fraternidade humana, Orwell não fecha a porta à possibilidade de que esta fraternidade também possa manifestar-se como solidariedade no infortúnio, união na miséria, congregação coletiva que imperfeitamente improvisa o improvement de um mundo que, se nunca será perfeito, será sempre aperfeiçoável. Façamos juntos com que torne-se impossível aquilo que hoje é o mais horrível. E que esse seja nosso primeiro passo rumo a outro mundo possível.

Distopia que denuncia o totalitarismo, “1984” de George Orwell não era um manual de instruções…

“O Que é Fascismo? E Outros Ensaios”
(Companhia das Letras, 2017, 160 pgs)
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NASCER É UMA ENCRENCA: Leitura em paralelo de “Enclausurado” de Ian McEwan e “O Trauma do Nascimento” de Otto Rank (por Eduardo Carli de Moraes @ A Casa de Vidro)

I. PRELÚDIO: CARTOGRAFIA DOS QUE ENCRENCARAM COM O FATO DE TERMOS NASCIDO

Em uma das frases mais impactantes já paridas na história da literatura brasileira, Machado de Assis põe na boca de Brás Cubas, que narra suas memórias direto do além-túmulo, uma súmula de sua estadia entre os vivos: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”

Este sarcástico petardo de pessimismo Schopenhaueriano que serve de inesquecível epitáfio para as Memórias Póstumas revela o imenso talento de Machado para inserir em uma única frase todo um tratado de filosofia.  Na tradução do livro para o inglês, o título da obra tornou-se Epitaph For A Small Winnerde modo que o pensamento de Cubas ganha ainda mais destaque como “epitáfio de um pequeno vencedor”.

É uma frase tão magistral que o Emil Cioran (1911 – 1995), um dos melhores forjadores de frases assim, poderia tê-la invejado e ter sentido comichão por não tê-la escrito. Este filósofo romeno, aliás excelente escritor e talentoso estilista da prosa, explorou como ninguém, no pensamento do século 20, o fenômeno que chamou de “o inconveniente de ter nascido”. 

Estudioso voraz da história da filosofia, Cioran encontrou seus heróis bem longe de nomes consagrados como Platão e Kant, de quem foi antagonista e crítico feroz. Preferia mirar-se no exemplo de obscena lucidez do filósofo cínico Diógenes, “um santo da chacota”.  Também um profundo conhecedor e debatedor dos escritos de Nietzsche, Cioran decerto sabia muito bem que os pensamentos que problematizam a encrenca que é nascer circulam desde tempos imemoriais. Encontramos um excelente exemplo na mitologia grega: ela nos conta que Sileno, companheiro de Dionísio, teria sido questionado pelo rei Midas sobre qual era, dentre todas as coisas, a melhor para o ser humano.

Em O Nascimento da Tragédia, Nietzsche relembra o mito e conta que Sileno, após ser perseguido pelo Rei Midas pela floresta, foi capturado e questionado sobre o sumo bem para as pessoas, tendo dado uma resposta que atravessará os séculos como um emblema do niilismo:

“Forçado pelo rei, prorrompeu finalmente, por entre um riso amarelo, nestas palavras:

– Estirpe miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer.”

“Sileno Ébrio sustentado por sátiros”, pintura atribuída a Antoon van Dyck. Aproximadamente 1620. Copyright (C) The National Gallery, London.

Fico me perguntando, diante de idéias assim, rotuladas como niilistas ou pessimistas, se isso tudo é pra ser levado a sério. Em mim, confesso, idéias assim fazem cócegas. Isso de “não ter filhos para não transmitir a ninguém o legado de nossa miséria”, isso de ser delicado e generoso o bastante com os não-nascidos para evitar que sofram “o inconveniente de nascer”, são propostas éticas e existenciais a serem seguidas a risca? Ou estas propostas são veículos também de um certo escárnio, de um libertador humor que nos emancipa até mesmo daquele fardo que é crer na seriedade da vida?

O que fascina em idéias deste teor é a ousadia com que confronta-se o senso comum, que tende a conceber a vida como: um dom de Deus, o maior dos bens, a maravilha das maravilhas, valor absoluto e independente de quaisquer circunstâncias. Questionar o valor do nascimento ou da transmissão da vida é pôr em dúvida o próprio dogma quase nunca questionado da vida como um valor absoluto.

Ouvi outro dia que “a vida é uma doença sexualmente transmissível e com um grau de letalidade de 100%”. E não só encontrei aí motivos para o riso, mas também achei neste pensamento tragicômico um bom grau de verdade. Na filosofia budista, aliás, a pior coisa que pode acontecer ao sujeito é ficar empacado na roda do Samsara, renascendo sem fim neste mundinho de tédios e sofrimentos, retornando sempre para a mesma sede insaciável, a insatiable craving que nos torna, segundo Schopenhauer, parecidos a torturados míticos como Íxion ou as Danaides. Nada parece mais desejável aos praticantes do budismo, que aspiram atingir o Nirvana, do que cessar de (re)nascer!

Tendo a achar graça quando leio pensamentos desta estirpe – que abundam também nas páginas de Samuel Beckett ou de Louis-Ferdinand Céline… – pois decerto há algo de cômico nas hipérboles pessimistas, algo que as aproxima do chamado “humor negro”. Descrever o nascimento como um péssimo negócio pode inclusive aliviar o insustentável pesadume de ser: há possibilidade de alívio afetivo na expressão de nossas inquietações existenciais, inclusive aquelas que nos levam a pôr em questão se a vida vale a pena ser vivida.

Em O Mito de Sísifo, Camus dizia que o suicídio é a maior das questões filosóficas. Acredito que Camus pensava que decidir-se quanto à questão do suicídio, abraçá-lo ou recusá-lo, significa escolher entre permanecer na vida, apesar de todo seu absurdo e de todos os aspectos revoltantes e intragáveis da realidade, ou aniquilá-la de vez, manifestando assim, em ato e de fato, o veredito do sujeito sobre a indesejabilidade de viver. Decidir se nascer foi uma boa ou má coisa é algo que implica-nos na filosofia mesmo que não o saibamos; somos filósofos, ainda que inconscientes disso, quando por atos e palavras buscamos dar sentido, forma e mérito a isto que nos aconteceu a todos: nascer.

O aspecto mais enigmático de nascer consiste, certamente, no fato de que ninguém solicitou vir à vida: dão-nos à luz, é verdade, mas é à nossa revelia. Sempre podemos dizer, cada um de nós, com justiça: “não pedi para nascer”. O mundo é um espaço ao qual fomos lançados por forças que parecem transcender totalmente a nossa escolha. O nascimento prescinde da vontade do sujeito que nasce; ele é produto da união de outras vontades, mas vêm à existência sem ter escolhido este rumo, este destino, este fatum. Pelo menos assim parece ser àquele que segue a filosofia materialista, de matriz epicurista, que concebe o tempo de existência como rodeado, no passado e no futuro, por dois grandes e misteriosos nadas:

O filósofo romano Lucrécio (1º século antes de Cristo)

“Olhe para trás: nada foi para nós
Todo o tempo infinito antes da gente nascer!
Isto é como um espelho vazio onde vêm se refletir
Aquilo que será o tempo que se seguirá à nossa morte.
O que perceberíamos nisto de horrível ou de triste?
Não é isto um repouso mais doce que o sono?”

(LUCRÉCIO: Da Natureza, III, 972-977)

Lucrécio, no clássico poema epicurista Da Natureza, explicitará seu estarrecimento diante do quão pouco os seres humanos se espantam diante do fato de que um tempão gigante decorreu antes deles terem nascido. O tempo que precedeu nosso nascimento é como se não existisse. Tendemos a ficar mais angustiados com a perspectiva do tempo, supostamente infinito, que decorrerá depois que morrermos. No entanto, ambos os tempos – o que precede nossa chegada ao mundo, o que sucede à nossa partida – são enigmáticos, pois transcendem a duração em que está comprimida a efêmera vela de vida dos mortais.

O enigma do mundo antes de nós parece ter premência menor sobre nossa curiosidade do que o enigma similar do mundo depois de nós. Alguns dos mais belos versos de Lucrécio são dedicados a isso, e uma de suas missões na vida, como a de seu mestre Epicuro, era curar o ser humano de seu medo da morte.

Estes exemplos, evocados en passant, são alguns indícios da dificuldade humana de suportar nossa condição. Também mostram uma miríade de diferentes expressões deste desconforto que parece inerente à condição humana, afinal somos (lá vem clichê…) o único animal que sabe que vai morrer. Talvez esta expressão da angústia de ter nascido mortal seja terapêutica, talvez seja até mesmo aquilo que salva alguns do auto-aniquilamento: falar mal da vida e de ter nascido pode às vezes salvar alguém do desejo de morrer, fazendo-o ter pelo menos a ânsia de quedar entre os vivos pelo prazer de expressar os desacertos e desencontros de que nossa condição está repleta.

Sabe-se do potencial de terapia da expressividade autêntica dos afetos há muito tempo, bem antes do advento histórico da psicanálise e de sua terapêutica, batizada por Anna O, desde os primórdios, como talking cure (cura pela fala) e chimney sweeping (limpeza de chaminés). Eu ousaria dizer que toda a poesia – Octavio Paz que me perdoe… – bebe eternamente na fonte da angústia. E diria ainda que falar mal da vida é um dos prazeres mais puros destes viventes que somos diante da encrenca que é termos nascido mortais, passageiros, adoecíveis, frágeis, incompletos, além de condenados sempre a amar o que está fadado a terminar. 

Eis algo também encapsulado com perfeição por Woody Allen em uma frase hilária: “a vida é repleta de miséria, solidão e sofrimento – e o pior de tudo é que acaba rápido demais.”

Ora, se “a vida é cheia de miséria, solidão e dor”, não teríamos porquê lamentar seu rápido fim, muito pelo contrário: morrer rápido seria a segunda melhor de todas as coisas, como sugere Sileno ao Rei Midas (a primeira melhor coisa seria, é claro, nunca ter nascido). O brilhantismo da frase de Woody Allen está em explicitar o paradoxo que está em lamentarmos que esta vida-encrenca acabe tão rápido, quando a julgamos tão lotada de aporrinhações. É tão lamentável que esta vida que nos espanca, nos humilha, nos maltrata, que por fim nos destina à condição de comida na cadeia alimentar, tenha ainda o atrevimento e a insolência de ser tão efêmera!

Na sequência, gostaria de explorar duas obras que mergulharam fundo em toda a maravilha e todo o horror de nascer: o inspirado romance Enclausurado (Nutshell), de Ian McEwan (Companhia das Letras, 2016), e o heterodoxo clássico psicanalítico O Trauma do Nascimento, de Otto Rank (Cienbook, 2016). Ambos são contribuições muito originais aos seus respectivos campos e fornecem incontáveis pretextos para a reflexão de todos aqueles que um dia nasceram – vulgo “nós” ou “todo mundo”. São livros repletos de food for thought para todos aqueles que um dia serão food for worms. 


II. ENCLAUSURADO: DILEMAS HAMLETIANOS DENTRO DE UM ÚTERO

“Ser ou não ser: eis a questão” – o dilema hamletiano é subvertido por McEwan em Enclausurado e torna-se um “nascer ou não nascer, eis a questão.” O romance é inteiro narrado por um feto dentro do útero e inspira-se diretamente no plot da peça Shakespeareana Hamlet.

Relembremos. Há algo de podre no reino da Dinamarca, vocês sabem bem: o Rei Hamlet foi morto por seu próprio irmão Claudius, que assume o trono e casa-se com a rainha recém-enviuvada Gertrude. O fantasma do rei morto aparece ao príncipe Hamlet, exigindo vingança e reparação; corroído pela insegurança, pela confusão, pela sedução do suicídio, pelo dever da vendeta, o atormentado príncipe descrito por Shakespeare é célebre por monólogos onde reflete interminavelmente sobre o que deve fazer.

Pegando carona neste célebre plot, McEwan encena um genial Hamlet Intrauterino. Já em seu terceiro trimestre de gestação, nosso minúsculo narrador testemunha de dentro de sua clausura maternal um tenebroso conluio entre sua mãe Trudy e seu tio Claude para assassinar seu pai, John Cairncross. O romance extra-conjugal de Trudy e Claude, que logo transforma-se em plano de homicídio com intentos de lucro prodigioso, têm por testemunha fetal nosso pobre protagonista e narrador em primeira-pessoa.

Tanto o pequeno herói de McEwan, confinado na barriga de sua mãe, quanto o príncipe de Shakespeare, têm em comum uma angustiada sensação de impotência, somada à necessidade premente de agir, diante de situações pra lá de encrencadas.

Quando esteve no Brasil, participando das comemorações dos 30 anos da Companhia de Letras, Ian McEwan comentou que um dos principais temas de Enclausurado é a “agência” [agency], ou seja, aquilo que compele o personagem a agir mesmo em um cenário onde tudo conspira para reduzi-lo à total impotência. Pois não parece haver alguém mais utterly powerless, mais totalmente desempoderado, do que um embrião em gestação.


McEwan, cuja trajetória artística têm consistido em ousadias narrativas cada vez mais arrojadas, é um dos gênios da literatura global contemporânea, autor dos magistrais Reparação (Atonement), Enduring Love, Amsterdam, Sábado, Solar, dentre outros. Este escritor britânico já faz por merecer um Nobel de Literatura ou o reconhecimento como autor destinado ao cânone futuro da escrita em língua inglesa. Qualquer crítica supostamente demolidora sobre a “inverossimilhança” de seu enredo cai por terra quando lemos Enclausurado, livro que demonstra que a literatura é um campo para a liberdade imaginativa e não para os realismos confinantes.

 De fato, é inacreditável que nosso narrador, com seus 8 meses de existência intra-uterina, tenha tal domínio linguístico e narrativo quanto está manifesto em cada frase, repleta de wit, de Enclausurado. Qualquer realismo foi chutado para escanteio, mas assim é também em grandes clássicos da literatura, e não somente do gênero ficção científica, que também não se deixaram engaiolar pela descrição realista. Caso a literatura tivesse se mantido agrilhoada ao realismo estrito, não teriam nascido obras-primas como o Frankenstein de Mary Shelley,  a Viagem ao Centro da Terra de Julio Verne, as Crônicas Marcianas de Ray Bradbury, nem as obras de Vonnegut, William Gibson ou  Philip K. Dick, nem… os exemplos são infindáveis.

Em Enclausurado, a leitura é tão deliciosa, a narrativa é tão arrojada, que não nos incomoda nem um pouco a absurdidade patente de que estamos diante de um bebê com uma inteligência e uma sensibilidade tão prodigiosas e precoces. Na real ele mais parece um bebê que tivesse o cérebro… de Ian McEwan.

“Então estou aqui, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda. Meus olhos se fecham com nostalgia quando lembro como vaguei antes em meu diáfano invólucro corporal, como flutuei sonhadoramente na bolha de meus pensamentos num oceano particular, dando cambalhotas em câmera lenta, colidindo de leve contra os limites transparentes de meu local de confinamento, a membrana que vibrava, embora as abafasse, com as confidências dos conspiradores engajados numa empreitada maléfica. Isso foi na minha juventude despreocupada…” (Cap. 1, p. 9)

O livro já começa encapsulando em poucas linhas muitas das melhores qualidades da prosa de McEwan: seu humor cáustico, que remete a Sterne ou Swift, explorado com magistrais efeitos também em seu romance Solar, tão genial e ainda subestimadoseu interesse pela vivência carnal, biofísica, de personagens que são enxergados sob o viés de um olhar “científico”, informado pela neurociência, pelo evolucionismo e pela pertença à complexas circunstâncias geopolíticas; sua capacidade de criar um suspense, uma thrilling vibe, através de situações extraordinárias que parecem desafiar a possibilidade da palavra escrita de descrevê-las.

O bebê que está enclausurado no ventre de Trudy, observando a mãe transformar-se em cúmplice do assassinato do pai, terá para si o dilema de Hamlet: vingar ou não vingar o ato horrendo de envenenamento de John Cairncross, não só pai da criança, mas talentoso editor de livros de poesia e “caça-talentos” no mercado editorial inglês. O bebê que antes curtia o resort aquático de seu oceano particular, curtindo a beatitude de um útero espaçoso, nutrido sem esforço algum (inclusive com doses embriagantes de bom vinho!), aproxima-se do momento de nascer quando a situação lá fora está pegando fogo.

Ele vê-se na necessidade de agir antes de nascer, de intervir no enredo de algum modo. Em cenas impagáveis e hilárias, descreve sua relação de ódio e rechaço diante da pica ereta de seu tio traíra; na hora do boquete, fica temendo que sua mãe engula a porra do tio e que aquilo acabe chegando para nutri-lo através do cordão umbilical; a certo ponto, desesperado, tenta suicidar-se, enforcando-se no próprio cordão umbilical. É um fracasso  (Cap. 13). A vida deste ainda-não-nascido não é mole…

Antes mesmo de ser plenamente, ele parece pender para a escolha do não-ser: “A gloriosa sociedade à qual em breve me reunirei, a nobre congregação de seres humanos, seus costumes, deuses e anjos, suas ideias ardentes e brilhante fermentação intelectual, já não me excitam… No meu estado de espírito, me inclino pela esterilidade do natimorto, depois as cinzas.” (Cap. 10, p. 97)

Em outros momentos, este mood suicida é vencido por um temperamento mais jovial, por uma ânsia de vida, em que o bebê mostra-se corajoso, cheio de audácia para enfrentar a aventura perigosa do viver: “Quero minha chance, a vida que me espera… Posso aguentar. Acredito na vida após o nascimento, embora saiba como é difícil separar a esperança dos fatos. Qualquer coisa mais curta que a eternidade vai servir. Setenta anos? Embrulhe, vou levar.” (p. 164)

Estas oscilações e mood swings são parentes próximas dos monólogos hamletianos. Mas McEwan sabe evocar temas que não poderiam estar nas reflexões de Hamlet enquanto procura determinar se deve ou não vingar a morte do pai. Hamlet não poderia, por exemplo, debater as idéias do filósofo político Thomas Hobbes, o que o bebê prodigioso de McEwan faz. Evocando o Leviatã do Estado, o bebê a certo ponto procura dissuadir-se da vingança:

 “Fazer a lei com as próprias mãos – isso é coisa do passado, típica de velhos albaneses com rixas de família e subdivisões do Islã tribal. A vingança está morta. Hobbes tinha razão, meu jovem. O Estado precisa deter o monopólio da violência, um poder centralizado que inspire em todos nós um temor reverencial.” (p. 61)

E é justamente o avanço dos agentes do Leviatã que servem de prelúdio ao nascimento do enclausurado: os policiais, a detetive de homicídios, despontam no horizonte existencial do embrião, enquanto ele assiste, de camarote, ao plano tétrico de sua mãe e seu tio chafurdar na lama de uma comédia de erros, daquelas que poderia ser filmada pelos irmãos Coen.

O bebê de McEwan vai percebendo, filósofo político mirim alimentado pelo noticiário, que a vingança sangrenta – o caminho Hamletiano, que arrastou em seu turbilhão de sangue os cadáveres de Ofélia, de Polônio, de Claudius, de Gertrude e do próprio príncipe, naquele banho-de-sangue palaciano que Shakespeare pinta em tão fortes cores – não será o seu.

“Hamlet e a Caveira de Yorick” – Pintura de Delacroix

“Vingança: o impulso é instintivo, poderoso – e desculpável. Insultado, enganado, ferido, ninguém pode resistir à atração de um pensamento vingativo. E aqui, nessa extremidade onde me encontro, um ente querido assassinado, as fantasias são incandescentes. (…) A vingança pode ser executada 100 vezes ao longo de uma noite insone. O impulso, a intenção sonhadora são humanos, normais, e devíamos nos perdoar. Mas a mão erguida, a execução violenta, essa é amaldiçoada. A matemática diz isso. Não há volta ao statu quo ante, nenhum refrigério, nenhum doce alívio – ou algum que dure. Só um segundo crime. Antes de embarcar numa viagem de vingança, cave duas sepulturas, disse Confúcio. A vingança desfaz as costuras de uma civilização. É um retrocesso rumo ao medo visceral e constante… A eliminação de Claude não trará meu pai de volta.” (p. 139)

Vocês vêem que o bebê, sábio apesar da tenra idade, consegue controlar seus impulsos de derramar o sangue do tio assassino e boçal; apesar das fantasias sangrentas que nutre, chega à decisão ética de que não vale a pena nascer para matar Claude, por vingança. O que vemos, na verdade, é o bebê transformar-se sorrateiramente em parceiro do Leviatã.

Legalista, o bebê enfim decide pela ação que dá desfecho à trama: diante do plano de fuga da mãe Trudy e do tio Claude, casal com as mãos sujas de sangue (ou melhor, de veneno…), ele toma a decisão de colaborar com a polícia. De dentro do útero, escolhe o momento mais inoportuno possível para romper a bolsa, forçando a barra para sair logo de sua bolsa de líquido amniótico. Sua vingança, ao invés de pagar na mesma moeda, consiste em sabotar o plano de fuga dos criminosos, contribuindo assim para a prisão dos homicidas.

“Depois de todas as minhas considerações e revisões, lapsos de percepção, tentativas de autoaniquilamento e tristeza pela passividade, tomei uma decisão. Chega. Hora de entrar em ação. Hora de começar… Duas semanas antes do tempo e unhas muito compridas…” (p. 193)

O rompimento da bolsa pelas unhas compridas da crianças, duas semanas antes do previsto, é também uma espécie de irrupção da liberdade na existência do bebê que narra Enclausurado. Ele tomou uma decisão, entrou em ação, sepultou a passividade, parou de pensar e passou a fazer. Nasce experimentando toda a glória e todo o horror da condição destas criaturas que, segundo Sartre, estão “condenadas à liberdade.”

Jovem grávida (2010) – de Dimitri Kozma

“Atravesso uma região que, eu sei, um pedaço do meu tio frequentou com demasiada frequência indo na direção oposta. Não me preocupo. O que nos dias dele era uma vagina agora tem o orgulho de ser um canal de nascimento, meu Panamá, e sou maior do que ele, um imponente navio de genes, enobrecido pelo avanço sem pressa, transportando minha carga de informações antigas. Nenhum caralho ocasional pode competir com isso. Durante algum tempo, fico surdo, cego e mudo, tudo me dói. Mas a dor é maior para minha mãe, que, aos gritos, faz o sacrifício de todas as mães por suas crias de cabeça grande e pulmões vigorosos…” (p. 198)

É como se McEwan fizesse o seu pequeno Hamlet decidir-se quanto aos dilemas do ser ou não ser, do vingar ou não vingar, de maneira mais “madura” e “civilizada” do que o príncipe da tragédia Shakespeareana. Apesar de todos os pesares, o herói em sua Nutshell – literalmente, “casca-de-noz” – vivencia altos dramas em seus 9 meses de vida, em que flerta com o pessimismo suicida mas termina como cúmplice do Leviatã. Nasce, como todos nós, berrando um primal scream saído dos pulmões de alguém que sabe que, ao nascer, a sua encrenca só começou. A última frase, genial, é simplesmente: “the rest is chaos” (“o resto é caos”).

Um aspecto pouco explorado do talento de McEwan está naquilo que eu chamaria de suas digressões geopolíticas, em que a literatura mostra-se profundamente antenada com os problemas coletivos globais, como o escritor já havia realizado, por exemplo, em Sábado, que se passa naquele memorável dia de mobilização global contra a Guerra do Iraque – 15 de Fevereiro de 2003 – e que levou às ruas de 600 cidades, em 60 países, mais de 5 milhões de cidadãos (Folha De São Paulo: “Maior Protesto da História Pede Paz”).

O protagonista de McEwan em Enclausurado têm sérias dúvidas sobre se nascer será um bom negócio, e isto não se deve somente à sua situação familiar e privada, mas também por sua percepção de que o mundo anda muito complicado e conflitivo. De dentro do útero, ele informa-se sobre a realidade do planeta através de podcasts e palestras ouvidas por sua mãe, de modo que transforma-se logo em alguém que debate internamente com pensamentos pessimistas e desesperados diante do estado das coisas:

“Uma especialista em relações internacionais me informou que o mundo não vai bem… A palestrante mostrou uma visão sombria de nossa espécie, em que os psicopatas constituem uma fração permanente, uma constante humana. A luta armada, justa ou não, os atrai. Eles ajudam a transformar desavenças locais em conflitos mais amplos. Segundo ela, a Europa, em meio a uma crise existencial, está irascível e fragilizada porque muitas variedades de nacionalismo autoindulgente estão provando dessa mesma poção saborosa… Unindo e nivelando toda a humanidade, os velhos e tediosos fatos da mudança climática, do desaparecimento das florestas, das criaturas e das calotas polares. A agricultura rentável e perniciosa destruindo a beleza biológica. Os oceanos se transformando em bacias de ácido diluído… Robôs roubando empregos…” (p. 32 -34)

Há páginas em que McEwan parece um sociólogo à la Bauman, fazendo leituras de conjuntura, mas isto está sempre inserido, como digressão, em sua teia narrativa. O bebê de Enclausurado, longe de ser totalmente narcisista e auto-centrado, focado apenas em sua intriga familiar, é alguém com interesse pela história, pela política, pelas relações internacionais, pela ecologia etc. Apesar da situação desgraçada em que ele vai nascer, num contexto tanto individual quanto coletivo dos mais encrencados, ele dá mostras de uma intensa ânsia de viver, mesclada com curiosidade, desejo de vivência, conatus em estado puro, invencível por quaisquer reflexões teóricas ou racionais.

“Quero ler até o final a Minha História do Século XXI. Quero estar lá, na última página, com oitenta e poucos anos, debilitado mas cheio de vigor, dançando uma música ligeira na noite de 31 de Dezembro de 2099. Pode ser que tudo acabe antes dessa data, sendo assim uma espécie de história de suspense, violenta, espetacular, altamente comercial. Um compêndio de sonhos, com elementos de horror. Mas está fadada a ser também uma história de amor e uma narrativa heróica de invenções brilhantes. Para sentir o gostinho, veja o volume anterior, de 100 anos antes. Uma leitura lúgubre, pelo menos até a metade, mas irresistível. Alguns capítulos que a redimem, digamos, sobre Einstein e Stravinsky.

No novo livro, uma das muitas tramas não resolvidas é a seguinte: será que os 9 bilhões de personagens vão conseguir escapar de um conflito nuclear? (…) E quanto nossos protagonistas estão decididos a superaquecer seus lares? Um ameno 1,6 grau, projeção ou esperança de alguns poucos céticos, criará montanhas de trigo na tundra, tavernas na beira das praias do Báltico, borboletas coloridas em territórios ao norte do Canadá. Na ponta mais sombria e pessimista, um aumento de 4 graus, caracterizado por fortes ventanias, provoca calamidades de inundação e seca, com o consequente agravamento do clima político…” (p. 133-134)

Eis um exemplo do quanto Ian McEwan é um autor plenamente embarcado no século 21, com suas sombrias perspectivas de disrupções climáticas, conflagrações nucleares e os fantasmas sempre redivivos do totalitarismo, do fascismo e do obscurantismo religioso militante. Pulsa nele também um forte espírito de valorização da empreitada tecno-científica, que não parece ser deslumbre acrítico diante de geringonças hi-tech e de prodígios como a Internet e os satélites, mas sim reconhecimento dos imensos avanços ocorridos, por exemplo, na área da neurociência, da genética e da medicina, sensível na ampliação inegável de nossa expectativa de vida (ao menos nos locais da terra onde há acesso à médicos e medicamentos…).

Enclausurado é um livro poderoso, que dá novo sentido à expressão “literatura visceral”, dialogando de modo fecundo e criativo com este clássico universal que é Hamlet. Revela também potência para ser debatido no âmbito da psicologia – tema do próximo capítulo, centrado na obra de Otto Rank, O Trauma do Nascimento. O protagonista de Enclausurado é alguém para quem nascer é um trauma, e mesmo aquilo que precede o nascimento está longe de ser um picnic de beatitude e despreocupação. Seus últimos momentos de vida intra-uterina e sua irrupção no mundo revelam um inesquecível personagem que sabe e sente, em carne viva, que nascer é uma grande encrenca.


III. OTTO RANK: O TRAUMA DO NASCIMENTO

O Trauma do Nascimento (Cienbook, 2016, 192 pgs) foi originalmente publicado em 1924 e levou seu autor, Otto Rank (1884 – 1939) a romper com o movimento psicanalítico fundado pelo “professor Freud”, com quem havia colaborado e debatido por duas décadas. Otto nasceu em Leopoldstadt, uma periferia de Viena, em 1884, em família de raízes judias, os Rosenfeld. Otto Rosenfeld, em certo momento, decide-se a mudar de sobrenome, adotando “Rank” por inspiração na peça de Ibsen, Casa de Bonecas. 

Ainda com 20 e poucos anos, escreve um livro sobre um dos temas que mais o ocupará em sua vida: a criação artística à luz da psicanálise. O trabalho impressiona o próprio Freud, que ajuda a publicá-lo; o “pai da psicanálise”, “impressionado com as qualidades intelectuais e o entusiasmo do jovem Rank, não apenas lhe concede um posto de secretário da Sociedade Psicanalítica de Viena (entre 1910 e 1915, quando teve oportunidade de protocolar todas as discussões do período), como também financia seus estudos universitários até o doutorado em filosofia, em 1912, com a tese O tema do incesto na literatura e no mito. (…) Em 1920, começa a atuar como psicanalista, com uma clínica no coração de Viena. Ele gozava do respeito e do afeto de Freud mas não um diploma em medicina…” (Érica Gonçalves de Castro, p. 11-12)

Da esquerda para a direita, sentados: Sigmund Freud, Sándor Ferenczi, Hanns Sachs. De pé; Otto Rank, Karl Abraham, Max Eitingon, Ernest Jones. 1922.

A obra de Otto Rank, de fato, manifesta um desejo de libertar a Psicanálise do confinamento no âmbito da medicina e da cura dos transtornos mentais e emocionais; sua ambição é que a psicologia, para além de seu benefício prático/terapêutico, possa fornecer chaves de compreensão para os mais longevos e insistentes mistérios, enigmas e esfinges da existência humana. Na década de 1920, Rank exporá sua polêmica teoria, fadada a tornar-se razão para muitas desavenças com seus colegas, em que concentra-se no sentimento de desamparo que sentimos após o nascimento e que seria determinante, vida afora, como um anseio de retorno ao útero materno.

O nascimento como trauma universal geraria um fenômeno subjetivo muito disseminado, um desejo onipresente apesar de recalcado, encontrável numa inumerável amplidão de produtos culturais e fantasias individuais: a nostalgia do útero, a fantasia de retorno a um estado concebido como paradisíaco (e que foi perdido). Este ímpeto libidinal de retorno ao contexto intrauterino, do qual fomos expulsos pelo parto, marcaria não só o mundo onírico de nossas noites (tanto as amenas quanto as de pesadelo), mas estaria presente, ainda que de modo disfarçado, nos mitos, nas religiões, nos produtos culturais, nos artefatos, nas criações artísticas, nos sistemas filosóficos etc.

Trauma do Nascimento cai como uma bomba no seio da ortodoxia Freudiana: pela primeira vez, alguém ousava questionar os dogmas do Complexo de Édipo e sugerir que a ansiada chave de explicação para os fenômenos psíquicos podia estar em um momento anterior à própria emergência do curinga Freudiano. Antes do Édipo, o trauma do nascimento – nisto seria resumível a contribuição de Otto Rank a este ponto de sua reflexão.

Ele ousou sustentar que havia uma espécie de fato psíquico universal, que atinge os sujeitos em todas as épocas e espaços geográficos, vinculado à experiência que todos compartilhamos de termos vivenciado o contraste entre o ambiente intrauterino (pré-natal) e o extra-uterino (pós-natal). Nascer, para Rank, ainda que nenhum sujeito possua memórias claras e nítidas de sua vivência nas horas do parto, deixa profundas marcas não só no âmbito da psique individual, mas na determinação dos destinos coletivos.

Quando Otto Rank busca aclarar as obscuras maquinações da sexualidade humana, quando visa explicar as complexas criações culturais da libido sublimada e do amor socialmente codificado, chega a conclusões que, reconhecendo o poder do platonismo e suas concepções sobre o Eros, parece atingir Platão em sua raiz, ou seja, em seu idealismo, já que o corpo animado pela libido ganha a primazia, e não mais o mundo inteligível das idéias-paradigmas eternas, que  lá da transcendência exerceriam uma misteriosa atração sobre nós:

“O amor sexual, que atinge seu ápice na união sexual, surge como a tentativa mais admirável de um restabelecimento da situação original entre mãe e filho, que só se completa com a fertilização de um óvulo. E quando Platão, seguindo as tradições orientais, define a essência do amor a partir da atração de duas partes separadas que outrora estiveram unidas, esta é a descrição poética mais bela da maior tentativa biológica de superação do trauma do nascimento através do amor genuinamente ‘platônico’ – o da criança pela mãe.” (OTTO RANK, p. 56)

O Eros platônico – que, durante o Banquete, Aristófanes vincula à busca pela metade perdida – é re-inserido no âmbito da biologia por Otto Rank, que formula uma explicação que dispensa quaisquer elementos sobrenaturais ou transcendentais para a explicação do chamamo “amor platônico”. Este têm por paradigma original, não qualquer ideal eterno, mas a vivência carnal e concreta da gestação e posterior nascimento. Não foi o raio de Zeus enfurecido que cortou em dois as criaturas duais e conexas que éramos no passado mítico; foi simplesmente o trauma do nascimento que instaurou uma situação existencial originária de separação, em que o sujeito fica com seu desejo de certo modo atado ao desejo impossível de retorno ao útero. A proibição cultural do incesto, o poderio repressor do pai, a rivalidade entre irmãos, a competitividade social, tudo isto virá depois deste fato básico incontornável de que nascer foi uma ruptura orgânica que separou em dois organismos o que por 9 meses foi uma conectadíssima simbiose.

O componente de heresia e de heterodoxia que torna-se explícito quando lemos O Trauma do Nascimento está essencialmente na ousadia através da qual Otto Rank explica uma ampla miríade de fenômenos remetendo à experiência visceral da primeiríssima infância. Deuses e demônios, Édens e Infernos, não escaparão de serem explicados como projeções fantásticas realizadas por sujeitos que possuem complicadas relações com sua libido, que não se resignou à perda de seu paraíso primevo, o intrauterino. Estou simplificando muito, mas em última análise Rank afirma que o útero é a fonte de todos os paraísos e todos os infernos. A experiência visceral do parto é aquilo que explica todos os mitos da Queda e do – esqueçam Milton! – Paraíso Perdido.  “O problema do nascimento humano de fato está no centro do interesse mítico e do infantil, influenciando de forma decisiva no conteúdo dos produtos da imaginação.” (p. 78)

Quando rompe-se a bolsa de líquico amniótico, quando o cordão umbilical é cortado, quando o corpo migra de sua caverna maternal para todo o som e toda a fúria do mundo exterior, não parece haver bebê capaz de conter o grito. O que dará aos pessimistas de todos os tempos o pretexto de brincarem que, se choramos todos ao nascer, é por uma espécie de premonição de que estamos entrando numa baita encrenca. Otto Rank criará uma teoria da neurose que a vinculará a um ímpeto de regressão, a um desejo libidinal de re-entrar no ventre materno, o que é uma impossibilidade objetiva. Desejar o impossível adoece o sujeito que fixa-se nesta vontade retrógada, recusando a difícil empreitada do amadurecimento, o qual consiste necessariamente numa tentativa de lidar de maneira criativa e construtiva com as cicatrizes e saudades vinculadas ao trauma do nascimento.

“…por causa do longo período de gestação e com ajuda das faculdades intelectuais superiores que posteriormente foram desenvolvidas, o homem procura restabelecer, de todas as formas possíveis, enquanto por assim dizer criador, o estado primitivo. E isso ele consegue, até um nível elevado de prazer, por meio dos produtos socialmente adaptados de sua imaginação, como a arte, a religião, a mitologia; na neurose, porém, esses esforços adaptativos sofrem um fracasso lastimável.” (OTTO RANK: p. 45)

Otto Rank não pensa estar praticando nenhuma ruptura radical com Freud, ele concebe seu trabalho como uma espécie de continuação criativa das descobertas freudianas; não é, porém, um daqueles discípulos puxa-sacos, papagaios, que só sabem repetir o que já foi dito pelo mestre. “Não sabemos o que é mais admirável em Freud: sua coragem de descobridor ou seu caráter combativo e tenaz, com o qual ele sempre soube defender suas descobertas contra as resistências vindas de toda parte” (p. 162). Figuras como Breuer, precursor da psicanálise, que buscou tratar histerias, desde a década de 1880, com uma espécie de terapia dialogada que prenuncia o método psicanalítico, ou posteriormente Carl G. Jung, muito próximo de Freud por um tempo mas que tornou-se seu antagonista, são criticados por não admitirem a centralidade da sexualidade como fator essencial para o aclaramento da verdade sobre os sujeitos.

Uma psicologia que se esquive da libido será sempre suspeita de estar recalcando aquilo que melhor explica as dinâmicas afetivas do ser humano, e a teoria do trauma do nascimento é em essência uma espécie de epopéia que narra “os destinos da libido”. Perto do fim de seu livro, Otto Rank pontua:

“Por várias vezes, no curso de nossa exposição, nos esquivamos da questão de saber como é possível que o anseio – agora reconhecido como sendo a tendência primordial da libido – de reconstituir a situação primitiva e prazerosa no útero materno, e que temos de considerar como a expressão máxima da possibilidade de prazer, esteja ligado de maneira tão indissolúvel ao sentimento primitivo de angústia, como o revelam o pesadelo, o sintoma neurótico, mas também tudo aquilo que deriva desses fenômenos ou que se assemelhem a eles. Para que compreendamos este fato, precisamos ter em mente que o estado primitivo prazeroso é interrompido de maneira indesejada pelo ato do nascimento… e que toda vida posterior consistirá em substituir esse paraíso perdido, e que não pode mais ser encontrado, pelos já descritos, e extremamente complicados, atalhos dos destinos da libido.” (p. 164)

Trocando em miúdos: não existem paraísos senão os paraísos perdidos. Todo paraíso sonhado, fantasiado, ansiado, todo paraíso representado em pinturas ou filmes, em sonhos ou delírios, é uma espécie de fantasma compensatório. As religiões oferecem prêmios de consolação para estas criaturas que somos e que às vezes convivem mal com a necessidade de amadurecer e reconhecer que a vida é uma via de mão única, que não se entra duas vezes nem no mesmo rio, como diz Heráclito, nem no mesmo útero, como diz Rank.

Parece-me que a neurose, segundo Rank, usualmente está vincula com uma espécie de vontade regressiva, de desejo de retorno a uma situação primitiva perdida, de fixação (ainda que inconsciente, recalcada, não-reconhecida pelo sujeito) de reconquistar um paraíso que é sentido como perdido. A situação anterior ao trauma do nascimento seria a “tendência primordial da libido”, ou seja, nosso hedonismo infantil vincula-se àquela época (“minha juventude despreocupada”, como diz o bebê de McEwan em Enclausurado) quando éramos nutridos sem esforço algum de nossa parte, flutuávamos sem preocupações num lago amniótico, quentes e protegidos, e não precisávamos derramar o suor de nosso rosto no trabalho por um salário que nos permita comprar nosso pão, nossa vestimenta, nossa moradia; enfim, estávamos no paraíso dos preguiçosos. Estávamos fundidos, como no mito grego narrado por Aristófanes no banquete, antes do raio punitivo do Olimpo rachar-nos em pessoas inconclusas, incompletas, que vagam pela vida em busca de re-unificação.

Não é difícil de entender porque Rank insiste em descrever o ato do nascimento como um acontecimento extremamente traumático para a vida do bebê – tão traumático que deixará sequelas em nossa vida psicológica por toda a vida. Imaginem vocês que o bebêzinho estava lá, “numa relax, numa tranquila, numa boa” (para lembrar Tim Maia), só curtindo umas férias preguiçosas num resort aquático cinco estrelas, sendo alimentado sem precisar mexer um dedo, livrando-se de seus cocôs e xixis sem nem precisar ir ao banheiro, não tendo nem que trabalhar, nem que estudar, nem que acordar cedo todo dia… Ê maravilha! Uma vida de príncipe num trono de delícias!

E aí, de supetão, ele toma um pé-na-bunda súbito e é expulso de sua casa como quem não pagou aluguel e agora é despejado. Sem aviso prévio e sem o menor respeito por seu desejo, ele é evacuado – e com que grosseria! Ele vai sendo empurrado para fora do corpo que o acolhera, tendo que passar por um portal apertado, que lhe dá talvez a sensação terrível de asfixia e esmagamento… E eis que ele se vê num lugar estranho e bizarro, separado pela primeira vez do corpo de sua mãe, longe do calor protegido do seu antigo ninho, tendo o cordão que os ligava tão intimamente cruelmente rasgado, de pulmões entregues aos ventos do mundo poluído ao qual o trouxeram, sem nem antes consultá-lo…

E ei-lo ali, entregue ao frio, entregue a mãos estranhas, entregue, pela primeira vez, à solidão que tanto o fará chorar pela vida afora… É por isso que todos nós choramos quando nascemos. É por isso que todos os bebês humanos nascidos de mães de carne-e-osso, e não de tubos de ensaio ou de robôs, não importa o quanto a tecnologia se desenvolva, vão continuar para sempre a nascer berrando e chorando… Porque nascer não é exatamente divino, mas uma visceral vivência da qual a carne não se esquece. E Rank dirá algo assim: nascer equivale, em termos metafóricos, a ser expulso do paraíso.

Essa experiência primordial, segundo Rank, vai deixar no nosso psiquismo uma tatuagem perpétua e indelével. Nossa vida inteira ficará marcada por essa temporada no céu e por esse trauma da expulsão. O cristianismo, com o mito do Éden, não fez nada além de inventar uma historinha que serve como metáfora para a perda real do útero-ninho, sofrida por todos nós – e que é o fardo que carrega todo ser humano. Como bom ateu, discípulo de Freud em matéria de religião, Rank também dirá que as religiões, no fundo, inventam e imaginam um céu onde colocam somente projeções de desejos regressivos. Projetamos no além-túmulo a vida in utero!

E assim Rank vai explicando tudo como uma espécie de efeito do trauma do nascimento: a transformação da natureza pela técnica e pela ciência teria como objetivo principal transformar o mundo tendo como molde a vida intra-uterina e o nosso desejo de voltar a habitar num “ambiente” semelhante ao corpo maternal. A quem retrucar dizendo que tudo o que queremos através da transformação da natureza e dos avanços tecnológicos é nada mais do que “conforto” e “prazeres fáceis”, Rank responderia, provavelmente, que queremos essas coisas justamente em virtude da saudade que temos do conforto e dos prazeres fáceis que experimentamos na vida intra-uterina…

A arte, por sua vez, também teria relações umbilicais com uma tentativa de expressar a angústia, perpétua dentro de nós, associada com a expulsão do útero e com a impossibilidade de retornar a ele, de modo que a criação artística serviria para fabricar “satisfações substitutivas” que nos consolem de nossa sina de exilados… Ainda não tive acesso aos livros de Rank sobre o tema, como Art and Artist, mas parece-me que ele segue nos trilhos da teoria Freudiana que vê a arte como decorrente da “sublimação”, mas dá primazia a uma sublimação libidinal tanto do anseio de regresso quanto da angústia de ruptura com as quais convivemos desde que nos ocorreu esse evento espantoso e repleto de consequências – nascer. 

Se entendi bem, a sabedoria, para Rank, é conexa à conquista de uma maturidade, de uma vitória sobre o infantilismo, em que enfim percebemos que a vida é pra ser olhada com os olhos voltados para frente e não para trás; com os pés saudavelmente implantados num aqui-agora durável (penso na duração Bergsoniana) e não na nostalgia pelo impossível. Precisamos superar em nós a fantasia do regresso, o delírio de que um dia reencontraremos um amor de perfeita unificação e fusão, destruir a enorme atração da nostalgia que informa e deforma nosso imaginário… E acho que isso representa, no fundo, aquela velha necessidade, que Freud tanto destacava, de fazer triunfar o princípio de realidade sobre o princípio de prazer. Não para sejamos ascéticos e puritanos, mas, pelo contrário, para que nossas interações sexuais-afetivas possam ser sublimes, satisfatórias, sábias, crescidas, na plena aceitação de nossos limites e na gloriosa consumação de paraísos efêmeros e parciais possível àqueles que descrêem por completo dos paraísos eternos e totais.

Pode-se criticar, é claro, Otto Rank por ter uma espécie de idéia fixa: pelo menos neste livro, o trauma do nascimento parece ser como um Sol na galáxia teórica de Otto Rank; todo o resto parece orbitar ao redor desse conceito. Porém, uma leitura de outras obras, como o Mito do Nascimento do Herói, permite-nos vislumbrar um pensador profundo, eclético, que soube ir muito além deste seu conceito central e que inspirou também o trabalho posterior de figuras revolucionárias no âmbito da psicologia e da antropologia, caso de Ernest Becker, autor de A Negação da Morte, livro de 1984, vencedor do Prêmio Pulitzer, profundamente inspirado por Rank.

Depois de ler Otto Rank, é como se começássemos a enxergar o trauma do nascimento em locais e obras que antes pareciam-nos somente estranhas, absurdas, obscenas, malucas. Ele fornece-nos uma chave explicatória que parece fornecer frutíferos caminhos para a decifração, por exemplo, de mitos ancestrais e de sonhos aparentemente nonsense; mesmo coisas de que ele não trata em seu livro ganham um grau mais alto de inteligibilidade a partir de sua teoria – como é o caso, por exemplo, de quadros de Salvador Dali ou da arte de Kurt Cobain.

Um dos exemplos mais impressionantes na arte contemporânea de uma referência explícita à problemática analisada por Rank é decerto In Utero, o último álbum de estúdio lançado pelo Nirvana, uma obra que desde sua capa, em cada uma de suas distorções e dissonâncias, na sua lírica e na pregnância afetiva de uma angústia onipresente, está toda impregnada por uma imagética e uma ansiedade que estão explicitamente marcadas por uma psiqueê que têm a ânsia, confessada em “Heart Shaped Box”, de esconder-se dos percalços do mundo no refúgio do womb: Throw down your umbilical noose / So I can climb right back.”   Outras pistas impressionantes para a compreensão do universo psíquico Cobainiano estão nas análises de Simon Reynolds em Beijar o Céu (Ed. Conrad) ou no documentário-ensaio Montage of Heck (de Brett Morgen).

Continua em breve…

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Março de 2017
Contato: educarlidemoraes@gmail.com

“Se deveras existe um pecado contra a vida, talvez não seja tanto o de desesperar com ela, mas o de esperar por outra vida, furtando-se assim à implacável grandeza desta.” (Albert Camus)

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“Se deveras existe um pecado contra a vida, talvez não seja tanto o de desesperar com ela, mas o de esperar por outra vida, furtando-se assim à implacável grandeza desta.”
Albert Camus – 
“Núpcias, O Verão” [Compartilhar]

download“O homem que Camus ama é o homem que sofre e que o médico trata, o humilhado que precisa, aqui e agora, de ser levantado. Não prega um amor platônico do próximo, mas uma caridade que é defesa ativa de tal e tal homem. O acento da sua concepção está em que esta caridade age sem esperança de recompensa sobrenatural, ou mesmo de sucesso terrestre, mas unicamente porque um homem que se revolta deve agir assim para agir como homem. As personagens de A Peste não têm nada de filantropos ou de benfeitores: agem e morrem para combater o que consideram ser o mal. Para Camus, é a única ética que podem conceber os que pensam a moral sem Deus.”

Helder Ribeiro, Do Absurdo à Solidariedade: A Visão de Mundo de Albert Camus
(Lisboa, Portugal: 1996, Editorial Estampa, p. 139)

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“TODO O MEU REINO É DESTE MUNDO!”
ALGUNS LAÇOS ENTRE CAMUS & NIETZSCHE
(por Hélder Ribeiro)

“A origem da ética de Albert Camus está na monstruosidade que consiste em sacrificar os corpos às ideias. Encontramos talvez aqui o segredo do laço que une as concepções de Camus e de Nietzsche. Se Nietzsche empreende uma genealogia da moral cristã, para compreender como esta veio a produzir a negação da própria vida, e isto no contexto da sociedade burguesa do século XIX, Camus empreende uma genealogia da moral política do século XX, para compreender como esta veio a produzir a negação hitlerista e estalinista da vida.

Como na Genealogia da Moral, Camus pensa que a cultura e a moral do Ocidente chegaram a um envenenamento inexorável da vida e trata-se de tirar a máscara. (…) Que deve Camus a Nietzsche? Mais do que afirmações, o clima do seu pensamento, e acima de tudo a recusa global da ficção platônico-cristã dos dois mundos. Não há Além que repare a decepção multiforme de cá-de-baixo e que nos conduza ao Uno. Quando Camus suspira pela unidade, não a refere à ideia platônica que supõe o ultrapassar das aparências. As aparências são a única verdade. O Uno deve descobrir-se na própria dispersão do sensível e a tentação mística só pode ser naturalista.

“Todo o meu reino é deste mundo”, escreve Camus. É a fórmula mais flagrante desta convicção. O corolário é a exaltação do corpo e das verdades que o corpo pode tocar. A verdade do corpo ultrapassa a verdade do espírito. Ora, o mais alto poder do corpo é a arte, que opera uma transmutação do sensível sem o recusar.

O niilismo de Nietzsche, procedendo de uma experiência extrema do desespero, quebrando todos os ídolos do progresso com o mesmo cuidado com que recusava a sombra de Deus, chega, no entanto, a um consentimento radioso, dionisíaco, ao Todo do ser real do mundo, na sua totalidade e em cada realidade particular. O consentimento que dorme na revolta de Camus e lhe dá um sentido, esse “amor fati” que no sim à vida inclui a própria morte, de modo que chega a chamá-la de “morte feliz”, provém em parte de Nietzsche…”

Trecho do autor português HÉLDER RIBEIRO,
extraído de sua obra “Do Absurdo à Solidariedade: A Visão de Mundo de Albert Camus”
(Lisboa: Editorial Estampa, 1996. Pg. 89-90).

“REVOLTA E MELANCOLIA – O Romantismo na contracorrente da modernidade”, uma obra de Michael Löwy e Robert Sayre (Boitempo, 2015)

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“REVOLTA E MELANCOLIA – O Romantismo na contracorrente da modernidade”

Uma obra de Michael Löwy e Robert Sayre. Ed. Boitempo Editorial, trad. Nair Fonseca, 2015.

“Indiquemos de pronto a essência de nossa concepção: para nós, o romantismo representa uma crítica da modernidade, isto é, da civilização capitalista, em nome de valores e ideais do passado (pré-capitalista, pré-moderno). Pode-se dizer que desde a sua origem o romantismo é iluminado pela dupla luz da estrela da Revolta e do ‘sol negro da Melancolia’ (Nerval). (…) No presente livro, a ‘modernidade” remeterá à civilização moderna engendrada pela Revolução Industrial e a generalização da economia de mercado. Como já foi constatado por Max Weber, as principais características da modernidade – o espírito de cálculo, o desencantamento do mundo, a racionalidade instrumental, a dominação burocrática – são inseparáveis do aparecimento do ‘espírito do capitalismo’.” (p. 38-39)

* * * * *

“Dado que a sensibilidade romântica representa uma revolta contra a civilização criada pelo capitalismo, ela é portadora de um impulso anticapitalista. (…) O romantismo é uma crítica moderna da modernidade. Isso significa que, mesmo se revoltando contra ela, os românticos não poderiam deixar de ser profundamente influenciados por sua época. A visão romântica constitui uma autocrítica da modernidade. (…) De fato, na óptica romântica essa crítica está vinculada à experiência de uma perda; no real moderno uma coisa preciosa foi perdida, tanto no nível do indivíduo quanto no da humanidade. A visão romântica caracteriza-se pela convicção dolorosa e melancólica de que o presente carece de certos valores humanos essenciais, que foram alienados. Senso agudo de alienação, então, frequentemente vivido como exílio.

Há um desejo ardente de reencontrar o lar, retornar à pátria, no sentido espiritual, e é precisamente a nostalgia que está no âmago da atitude romântica. (…) O passado que é objeto dessa nostalgia pode ser inteiramente mitológico ou lendário, como na referência ao Éden, à Idade de Ouro, ou à Atlântida perdida. Contudo, mesmo nos inúmeros casos em que é bem real, sempre haverá uma idealização desse passado. A visão romântica toma um momento do passado real, no qual as características funestas da modernidade ainda não existiam e os valores humanos sufocados por ela ainda existiam, e transformam-no em utopia, moldam-no como encarnação das aspirações românticas… a imagem de um futuro sonhado, além do mundo atual, inscreve-se na evocação de uma era pré-capitalista.” (p. 43-44)

* * * * *

“Na perspectiva orientada para uma realização futura – a de Shelley, Proudhon, William Morris e Walter Benjamin, por exemplo -, a lembrança do passado serve como arma na luta pelo futuro. (…) Repúdio à realidade social atual, experiência de perda, nostalgia melancólica e procura do que foi perdido: tais são os principais componentes da visão romântica. Mas o que se perdeu exatamente? Quais são os valores positivos do romantismo? São um conjunto de valores qualitativos, em oposição ao valor de troca… O primeiro desses grandes valores é a subjetividade do indivíduo, o desenvolvimento da riqueza do eu, em toda a profundeza e complexidade de sua afetividade, mas também em toda a liberdade de seu imaginário. (…) A exaltação romântica da subjetividade é uma das formas de resistência à reificação e (…) representa a revolta da subjetividade e da afetividade reprimidas, canalizadas e deformadas.” (47)

* * * * *

“Numerosos são os românticos que sentem intuitivamente que todas as características negativas da sociedade moderna – a religião do deus Dinheiro, que Carlyle chama de ‘mamonismo’, o declínio de todos os valores e laços humanos qualitativos, (…) a morte da imaginação e do romanesco, a aborrecida uniformização da vida, a relação puramente ‘utilitária’ dos seres humanos entre si e com a natureza – decorrem desta fonte de corrupção: a quantificação mercantil. O envenenamento da vida social pelo dinheiro e o do ar pela fumaça industrial são entendidos por vários românticos como fenômenos paralelos, resultantes da mesma raiz perversa.

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Um exemplo para ilustrar o ato de acusação romântica contra a modernidade capitalista é Charles Dickens, um dos autores favoritos de Karl Marx – em “Tempos Difíceis” (1854) contêm uma expressão excepcionalmente articulada da crítica romântica à sociedade industrial. O espírito frio e quantificador da era industrial é magnificamente personificado por um ideólogo utilitarista e membro do Parlamento, Mister Thomas Gradgrind (senhor Triturador-Sob-Medida); a filosofia de Gradgrind era que ‘tudo devesse ser pago. Não se podia, em hipótese alguma, dar nada a ninguém, ou oferecer ajuda gratuita. A gratidão deveria ser abolida, e as virtudes que dela brotavam deveriam deixar de existir. Cada minuto da existência humana, do nascimento até a morte, deveria ser uma barganha diante de um guichê.’

Dickens também mostra em ‘Tempos Difíceis’ como a modernidade expulsou da vida material dos indivíduos qualidades como beleza, cor e imaginação, reduzindo-a a uma rotina fastidiosa, cansativa e uniforme. A cidade industrial moderna, Coketown, é descrita como ‘uma cidade de máquinas e chaminés altas, pelas quais se arrastavam perenes e intermináveis serpentes de fumaça, (…) feia cidadela onde a Natureza era mantida firmemente do lado de fora pelas mesmas paredes de tijolos que mantinham os ares e os gases letais do lado de dentro’; suas altas chaminés, lançando suas ‘baforadas venenosas’, escondiam o céu e o sol, e este estava ‘eternamente em eclipse’.” (59-60)

* * * * *

“Existe uma dimensão romântica significativa, ou até realmente dominante, em Marx e Engels – uma dimensão que não foi enfatizada com muita frequência e que, em seguida, foi eliminada pelo marxismo ‘oficial’, tanto da 2ª quanto da 3ª Internacional: nos escritos de um Kautsky, um Plekhánov, um Bukharin, para não falar de Stalin, seria inútil procurar traços de uma herança romântica.

A dimensão romântica presente nos pais fundadores do marxismo torna-se mais central em certos autores que se intitulam marxistas, mas são marginais ou excêntricos em relação à ortodoxia – como William Morris, Ernst Bloch, E.O. Thompson, Raymond Williams, Henri Lefebvre.

Aparentemente, Marx não tinha nada em comum com o romantismo. É claro que, durante a juventude, ele não foi insensível às cores rutilantes da cultura romântica. Escolheu, durante os anos de estudo na Universidade de Bonn, os cursos do velho romântico Schlegel sobre Homero. Seus primeiros escritos – poemas, dramas, peças de teatro – têm a marca visível da literatura romântica (especialmente Hoffmann) e atestam uma revolta tipicamente romântica. Enfim, sua primeira tentativa de crítica a Hegel é profundamente influenciada pela ‘Naturphilosophie’ [filosofia da natureza] de Schelling.

Marx vê o capitalismo como um sistema que ‘transforma todo progresso econômico em uma calamidade pública’. É na análise das devastações sociais provocadas pela civilização capitalista – bem como em seu interesse pelas comunidades pré-capitalistas – que ele se junta, pelo menos em certa medida, à tradição romântica.

Tanto Marx como Engels tinham em alta conta certos críticos românticos do capitalismo industrial, em relação aos quais tinham uma dívida intelectual indiscutível. A obra de ambos foi significativamente influenciada não somente por economistas românticos como Sismondi ou o populista russo Nikolai Danielson, com o qual se corresponderam por 20 anos, mas também por escritores como Dickens e Balzac, por filósofos sociais como Carlyle, por historiadores da comunidade antiga como Maurer, Niebuhr e Morgan – sem falar dos socialistas românticos como Fourier, Leroux ou Moses Hess. Na realidade, o romantismo é uma fontes esquecidas de Marx e Engels, uma fonte que talvez seja tão importante para o trabalho deles quanto o neo-hegelianismo alemão ou o materialismo francês.” (120-121)

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“O principal objeto de ‘O Capital’ é a exploração do trabalho, a extração do mais-valor (ou mais-valia) pelos proprietários capitalistas dos meios de produção. Mas inclui também uma crítica radical da própria natureza do trabalho industrial moderno. Em sua acusação contra o caráter desumanizante do trabalho industrial-capitalista, sem dúvida, há uma ligação entre essa crítica e a dos românticos. É evidente que Marx, ao contrário de Ruskin, não sonha em restabelecer o artesanato medieval; no entanto, entende o trabalho industrial como uma forma social e culturalmente degradada em relação às qualidades humanas do trabalho pré-capitalista.

Marx, citando o livro de Engels, ‘A situação da classe trabalhadora na Inglaterra’, diz que com a máquina capitalista, o trabalho se torna um ‘meio de tortura’, é reduzido ‘à morna rotina de um trabalho desgastante e sem fim’ e que ‘assemelha-se ao suplício de Sísifo – o peso do trabalho, como o da rocha, recai sempre sobre o operário exausto’ (MARX, O Capital, Livro 1).

O operário é transformado em apêndice vivo de um mecanismo morto, obrigado a trabalhar com a ‘regularidade de uma peça de máquina’. No sistema industrial moderno, toda a organização do processo de trabalho esmaga a vitalidade, a liberdade e a independência do trabalhador. A esse quadro Marx acrescenta a descrição das condições materiais nas quais o trabalho é realizado: falta de espaço, de luz ou de ar, barulho ensurdecedor, atmosfera impregnada de pó, mutilações e homicídios cometidos pela máquina e uma infinidade de doenças relacionadas à ‘patologia industrial’.

A concepção marxiana do socialismo está intimamente ligada à crítica radical da civilização burguesa moderna. Pressupõe uma mudança qualitativa, uma nova cultura social, um novo modo de vida, um tipo de civilização diferente (…) que exige a emancipação do trabalho não somente pela ‘expropriação dos expropriadores’ e pelo controle do processo de produção, mas também por uma transformação completa da própria natureza do trabalho.

Nos ‘Grundrisse’ (1857-58), Marx diz que na comunidade socialista, o progresso técnico e a maquinaria reduzirão drasticamente o tempo do ‘trabalho necessário’ – o trabalho exigido para satisfazer as necessidades fundamentais da comunidade. A maior parte do tempo cotidiano será livre para o que ele denomina, seguindo Fourier, de trabalho atraente, isto é, um trabalho realmente livre, um trabalho que seja a autorealização do indivíduo. Tal trabalho não é simplesmente passatempo, mas pode exigir grande esforço e seriedade: Marx menciona como exemplo a composição musical.” (p. 130)

LÖWY e SAYRE.
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A CASA DE VIDRO RECOMENDA TAMBÉM:
“A ESTRELA DA MANHÃ – Surrealismo e Marxismo” (Ed. Civilização Brasileira, 2002)
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Como argumenta M. Löwy, o romantismo não deve ser compreendido apenas como uma escola literária do século XIX, mas como “algo muito mais vasto e profundo: a grande corrente de protesto contra a civilização capitalista/industrial moderna, em nome de valores do passado, que começa no século XVIII com Rousseau e que persiste, passando pela Frühromantik alemã, pelo simbolismo e pelo surrealismo, até os nossos dias. Trata-se, como o próprio Marx já constatara, de uma crítica que acompanha o capitalismo como uma sombra a ser arrastada desde o seu nascimento até o dia (bendito) de sua morte. Como estrutura de sensibilidade, estilo de pensamento, visão do mundo, o romantismo atravessa todos os domínios da cultura – a literatura, a poesia, as artes, a filosofia, a historiografia, a teologia, a política. Dilacerado entre nostalgia do passado e sonho do porvir, ele denuncia as desolações da modernidade burguesa: desencantamento do mundo, mecanização, reificação, quantificação, dissolução da comunidade humana. Apesar da referência permanente à idade de ouro perdida, o romantismo não é necessariamente retrógado: no decorrer de sua longa história, ele conheceu tanto formas reacionárias quanto formas revolucionárias.” (LÖWY, 2002. pg. 83)

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AMORES ILÍCITOS EM UMA ERA TRÁGICA – Reflexões sobre “O Amante de Lady Chatterley” (1928), de D.H. Lawrence (1885 – 1930)

O AMOR EM UMA ÉPOCA TRÁGICA

Reflexões sobre “O Amante de Lady Chatterley” (1928), de D.H. Lawrence (1885 – 1930)

por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

1O mínimo que se pode dizer é que a Inglaterra não estava preparada para acolher sem escândalo aquele livro ousado, devastador de tabus, dotado de um lirismo selvagem, e dionisíaco. Além do mais, a crítica social radical que o livro incluía, em sua denúncia da desumanização acarretada pelo industrialismo, era mais do que a época podia digerir. Tanto que a obra foi de pronto estigmatizada como pornográfica – uma calúnia hoje já desacreditada – e censurada por pessoas que auto-proclamavam como baluarte dos bons costumes da  da moralidade pública.

Hoje o bafafá e o frisson causado pelo magnum opus de D. H. Lawrence (1885 – 1930) parece-nos estranho, já que o romance não tem mais o poder de nos chocar tanto. O mais provável é que O Amante de Lady Chatterley tenha sido condenado sem ter sido lido por muita gente de mentalidade estreita, que não deseja permitir que o Livro exerça uma de suas mais preciosas vocações: a de libertar corações e mentes. E não há libertação – Lawrence ensina! – que deixe de fora os corpos e pretenda emancipar só no mental, no “espiritual”.

Qualquer livro libertário não tem opção senão a de encarar com coragem e contundência os adversários da liberdade, os obscurantistas de profissão e vocação, aceitando as consequências em prol de sua tarefa de quebrar correntes e coleiras. Foi o que Lawrence fez nesta notável obra-de-arte em cuja essência está o processo de emancipação de uma mulher que recusa uma submissão infeliz e uma dócil miséria conjugal. Ela ilustra, como  caso específico, um tema maior: os amores ilícitos em uma época trágica.

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D.H.-LawrenceFoi no fim de sua vida, terminada de modo precoce aos 44 anos de idade, que D. H. Lawrence (1885 – 1930) escreveu O Amante de Lady Chatterley, um livro que ficou pronto em 1928 mas só teve sua publicação permitida em solo inglês em 1960, 30 anos após a morte do autor.

As razões mais óbvias para o banimento deste romance são o puritanismo dos administradores sociais que defendem os tabus e as hierarquias antigas contra o assalto de novidades consideradas perigosas. Um perigo, no caso, era a idéia de libertação ou des-repressão sexual como algo desejável para a civilização como um todo. Há nesta literatura inovadora e precursora de D.H. Lawrence o anúncio do que viria a ser teorizado depois em pensadores já clássicos da psicologia social como Marcuse (Eros e Civilização) ou Wilhelm Reich (A Função do Orgasmo, A Revolução Sexual).

Parece-me que, para além do horror puritano a uma representação literária dos amores humanos em sua carnalidade, o que horrorizava os detratores do romance de Lawrence era a atitude da protagonista, repleta de posturas que os caretas não julgam adequadas a uma “moça direita”, em especial cometer um adultério com alguém que não é da sua própria classe. A aristocracia misturando-se com a riff-raff, a transa entre ricos e ralé, o amor que tripudia sobre estas barreiras artificiais de respeitabilidade, é que deixou muito conservador e muito reacionário de cabelos em pé.

Acredito, ademais, que o livro foi odiado, vilipendiado, apedrejado, censurado e caluniado com tanta crueldade por puro machismo da parte de seus carrascos. Pois Connie Chatterley é uma mulher que ousa afirmar sua própria vontade, dizer-sim a seu próprio desejo, pousar plenamente em seu próprio corpo, rompendo de modo rebelde com as coleiras do matrimônio infeliz, fugindo da jaula da ortodoxia de classe, corajosa e intrépida exploradora de experiências que são muito mais e muito além de “aventuras eróticas”, uma vez que são existencialmente transformadoras (e transtornadoras). 

Assim como Freud chocou os círculos burgueses e aristocráticos da Viena de sua época ao insistir na existência da sexualidade infantil e ao explicar o problema da saúde ou da normalidade psíquicas como necessariamente conectadas à gestão da libido, Lawrence também chocou-se headfront com um establishment que era cheio de melindres em relação à narração genuína dos amores carnais humanos. Ele pintou em Lady Chatterley uma figura feminina que ousa afirmar os anseios de seu corpo e ter uma vontade muito própria, ao invés de manter-se subalterna ou submissa. Uma expressão de Lawrence parece-me sintetizar a força desta mulher: “a will of her own”. Tanto que poucos machos da espécie podem se orgulhar de terem escrito um livro tão feminista quanto este.

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Lady Chatterley não é material para um convento; não lhe interessa morrer para o mundo e todos os afãs mundanos, entregando-se inteiramente a Deus, à pátria ou ao marido. O ímpeto, um tanto boêmio, dionisíaco, contracultural, que pulsa nela e lhe dá seu charme (ela é muito mais charmosa que a Madame Bovary de Flaubert, por exemplo), é o ímpeto de gozar de uma felicidade que quer ser sorvida aqui-e-agora, neste mundo, nesta vida. O romance é veículo para uma ética vitalista, sensualista, comunalista, levantando uma bandeira que poderíamos descrever com termos míticos: é a batalha do deus pagão Pã contra o “Mammon da ganância mecanizada”.

Como no Walden de Thoreau, os woods são em Lawrence uma espécie de território utópico, refúgio contra os horrores múltiplos do industrialismo – este complexo de forças de caráter modernizante e ecocida, poluidor de atmosferas e aniquilador de laços humanos. Em meio à distopia do Capital e da frieza cruel das relação de dominação, Connie e Mellors, ainda que sejam outlaws aos olhos de muitos, são exploradores daquela liberdade que somente em comum pode-se viver. Pois liberdade foi feita pra gozarmos juntos, jamais em solitude.

 Ainda que a narrativa de Lawrence seja tão lírica, que as transas sejam descritas através de expressões tão cheias de lirismo e singeleza, que nunca existam vislumbres de perversões (não procurem aqui por cenas sado-masô ou por zoofilia…), ainda assim os amores físicos de Lady Chatterley e Oliver Mellors lograram suscitar reações bastante negativas. Parece-me que padres puritanos, homens e mulheres sérios e respeitáveis (que coligam-se em trecos como “Ligas das Senhoras Católicas” ou “Cristãos Pela Temperança”), quando ficam horrorizados com um livro desta qualidade apenas mostram que há muito mais de errado com o censor do que o autor. Quem taca pedras em D. H. Lawrence não diminui o esplendor deste escritor, apenas revela a sua própria baixeza, estreiteza e mesquinharia. Quem taca pedras neste livro só confessa ser dotado de uma mentalidade que não desabrochou e que permaneceu cega por coleiras e cabrestos.

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Um caso contemporâneo ilustra algo semelhante: aquela que considero uma das obras-primas da arte cinematográfica no século 21, filmaço vencedor da Palma de Ouro em Cannes, Azul É A Cor Mais Quente de Abdel Kechiche, também despertou fúrias e censuras vociferadas por gente suficientemente medíocre para mobilizar uma homofobia estúpida e virar as costas para a obra, de maneira preconceituosa e estupidamente, com o argumento de que aquilo não passaria de “soft porn lésbico”. Quem assim agiu, ao invés de abrir coração e mente à comunicação com a obra, perdeu a chance preciosa de assistir uma magnum opus na história do cinema, um filme expansor-de-consciência, alargador-de-mentalidade, desabrochador de senciência, ensinador-de-amor.

Senciência – este conceito tão propagado pelos budistas, esta capacidade-de-sentir que une os humanos aos outros animais numa teia solidária – é também um conceito central para D. H. Lawrence. E o romance contêm quase um tratado de psicologia sobre as condições sociais que produzem o horror da in-senciência. Clifford é o melhor exemplo: o marido de Lady Chatterley, um aristocrata que é estropiado pela guerra e fica paraplégico, tenta manter-se na elevação de sua posição de elite econômica e cultural, mas revela no dia-a-dia dotado duma frieza, uma desumanidade, uma incapacidade de empatia, que é um dos grandes feitos de Lawrence esclarecer para o leitor. O processo de produção social da insenciência, da não-empatia, da negação da intimidade, é um dos grandes temas explorados pelo autor.

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No que diz respeito à batalha pra ter voz e vez que o livro teve que encarar – e isso quando Lawrence já havia tido seu cadáver roído pelos vermes -, um momento emblemático se deu quando a Penguin Books teve que recorrer às cortes de Justiça, em 1960, contestando o “Obscene Publications Act”, para conseguir a liberação da publicação deste que viria a ser um dos mais célebres romances da história literária do século XX.

Foi um best-seller imediato: conta-se que foram 200.000 cópias vendidas de supetão. O que só reitera a tese de que o proibido é mais gostoso. Não há campanha de publicidade melhor para um livro arrasa-quarteirão, devasta-tabu, repleto de thrills, do que ser abominado pelos fascistas e ser condenado pelos puritanos. Um livro que tanto irritou padres e papas, que tanto enfureceu carolas e caretas, que tanto escandalizou ortodoxos e fanáticos, só pode ser… bom pra diabo!

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E é o caso: o sabor, para o meu paladar literário, é de um livro saborosíssimo, refulgente de brilho, capaz de capturar o interesse. É quase impossível de ler só pela metade, sendo um daqueles page-turners que desafiam os críticos literários a explicar o mistério do craft de certos autore, que são espantosamente capazes de reter a atenção do leitor e conduzi-los adiante com curiosidade crescente. Quite thrilling! 

Este seria um livro bem pior caso de fato fosse sobre aquilo que as sinopses lhe atribuem como essência: um caso extra-conjugal, uma mera aventura extra-marital. O que está em questão é muito mais amplo e Lawrence era ambicioso o bastante para desejar, através da obra, nada menos do que questionar o conjunto da civilização dita “industrial” e “moderna” em uma época que o autor sente ser “essencialmente trágica”.

O Amante de Lady Chatterley é como um raio-X do Amor (adoecido, enfraquecido, dificultado em sua eflorescência) em tempos de guerra, de cólera, de devastação – de insenciência. Tempos de crise de percepção. Surge numa época histórica que hoje chamamos de entre-guerras, mas que era simplesmente, para Lawrence e seus contemporâneos, simplesmente o período que sucedeu à Grande Guerra, à maior das carnificinas já registradas pela História, em que o “avanço” das tecnologias bélicas havia atingido uma capacidade inaudita de destruição (eles ainda não conheciam a bomba atômica ou os aviões despejadores de napalm e outras mortíferas pestes químicas).

Não é com o amor, mas com os corpos dilacerados e mortos pelo clash dos ódios; não é com beijinhos doces, mas com membros decepados e som de tiros; não é com primavera florida, mas com o inverno das ruínas que o livro se inicia:

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“Ours is essentially a tragic age, so we refuse to take it tragically. The cataclysm has happened, we are among the ruins, we start to build up new little habitats, to have new little hopes. It is rather hard work: there is now no smooth road into the future: but we go round, or scramble over the obstacles. We’ve got to live, no matter how many skies have fallen.

This was more or less Constance Chatterley’s position. The war had brought the roof down over her head. And she had realized that one must live and learn…” (p. 1)

Em Lawrence, o romance é um gênero literário que mostra-se capaz de uma espécie de grande síntese sociológica, que resume uma época através do relato dos destinos específicos de que trata em primeiro plano, mas é também essencialmente algo destinado a agir sobre a emoção, educando-a.

“It is the way our sympathy flows and recoils that really determines our lives. And here lies the vast importance of the novel, properly handled. It can inform and lead into new places the flow of our sympathetic consciousness, and it can lead our sympathy away in recoil from things gone dead. Therefore, the novel, properly handled, can reveal the most secret places of life: for it is in the passional secret places of life, above all, that the tide of sensitive awareness needs to ebb and flow, cleansing and freshening.

But the novel, like gossip, can also excite spurious symphaties and recoils, mechanical and deadening to the psyche. The novel can glorify the most corrupt feelings, so long as they are conventionally ‘pure’. Then the novel, like gossip, becomes at last vicious, and, like gossip, all the more vicious because it is always ostensibly on the side of the angels.”

(D.H. LAWRENCE, “Lady Chatterley’s Lover”, chapter 9, pg. 129)

Eu resumiria o intento do autor – com o perdão de toda carniceria que é resumir 400 páginas em uma frase – dizendo que ele quis retratar o modo com as forças vitais do amor e da congregação tentam sobreviver às pilhas de cadáveres e aos céus tóxicos de uma época trágica.

Dito isto, acho que já se diz muito sobre a atualidade do livro, para nós que ainda não deixamos a era trágica para trás. Muito pelo contrário: como Elizabeth Kolbert argumenta em seu novo livro, o vencedor do Pulitzer A Sexta Extinção, vivemos numa era em que deixamos de temer as catástrofes que extinguem a vida em massa para termos nos transformado, nós mesmos, numa catástrofe colossal. Eis o Antropoceno, “the age of humans”, em que não tememos mais o asteróide que extinguiu os dinossauros e boa parte da vida sobre o planeta, pois somos nós o asteróide!

Lady Chatterley tem coisas à beça a ensinar ao Antropoceno, e não duvido ser possível uma leitura ecológica, de verve ecosocialista, do romance (“People are killing the very air. The stream of so much boredom, and discontent and anger out of all people, just kills the the vitality in the air. I’m sure of it. It’s man that poisons the universe” – p. 110). Nos corpos de Cliff – que volta da guerra com uma paralisia incurável da cintura para baixo -, de Connie e de Mellors, Lawrence pinta os destinos coletivos de tempos deveras trágico. Mas será que há algum tempo que não o seja?

Explorando os meandros do tecido literário com tanto esmero urdido por D. H. Lawrence, escrevi notas de leitura que a seguir compartilho em um longo hipertexto. São notas esparsas que fui tomando enquanto progredia na leitura e nas quais tento propiciar oportunidades para um mergulho mais fundo, uma reflexão mais demorada, um debate mais lúcido, sobre O Amante de Lady Chatterley e o que ele nos comunica sobre a realidade recorrente e bumerânguica do amor em tempos de tragédia.

* * * * * *

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TUDO QUE A GUERRA ESTROPIA

É incontável o total de horrores
Que acompanham a estropiante.
Ao invés de enumerá-los ao infinito,
evocando lágrimas de viúvas e bebês órfãos,
membros decepados e mortíferas baionetas,
lembremos de Cliff, o marido de Lady Chatterley,
retornado da 1ª Guerra Mundial aos pedaços (“in bits”),
condenado à cadeira-de-rodas e à dura lida
de colar os estilhaços de si mesmo.

“Having suffered so much”, escreve D. H. Lawrence,
“the capacity for suffering had to some extent left him.
He had been so much hurt that something inside him
had perished, some of his feelings were gone.
There was a blank of insentience.” (p. 2)

A guerra tinha matado em Cliff a vitalidade do sentimento,
a capacidade de sentir deste homem que a dor em excesso
empurrou ao vazio da insenciência.
Avesso de Buda, não-iluminado na cela de si mesmo,
Cliff Chatterley ainda por cima deve sofrer sobremaneira
Pela guerra ter-lhe estropiado o sexo e a fertilidade,
o tesão e a ereção, a potência para o amor físico.
Assim esmaga vida-sobrevivente a guerra-estropiante.

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D.H. Lawrence (1885 – 1930)

SHIPPED HOME SMASHED

Pode até ser que tenha caducado
A dicotomia corpo – espírito
Tal como concebida por teólogos e padrecos.
Permanece vivíssima a dualidade organismo-mente:
Cliff é da guerra re-enviado para casa “smashed”,
Cheio de hematomas e ossos semi-fraturados,
Membros desconectados da espinha dorsal,
E não é decerto unicamente na carne que sofre,
mas também no mais profundo de sua Psique:

“…one of the great laws of the human soul:
when the emotional soul receives a wounding shock,
which does not kill the body, the soul seems to recover
as the body recovers. But this is only appearance.
It is really only the mechanism of the re-assumed habit.
Slowly, slowly the wound to the soul begins to make itself felt,
like a bruise, which only deepens its terrible ache,
till it fills the psyche.” (p. 57)

Sofrer demais, na carne,
Pode conduzir à insenciência
Dos frios e insensíveis –
Esta, uma das lições
que ensina Lawrence
Através do “caso Cliff”
Determinante pro destino
de Connie Chatterley, sua esposa.

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Uma das melhores adaptações literárias do romance de D. H. Lawrence, dirigida por Pascale Ferran

GLEAM AND SPARKLE IN THE FLESH

Que o espírito possa independer da matéria,
que a alma consiga ser sem corpo,
é uma velha aposta hipotética que
talvez não seja mais tão acreditada,
uma desacreditada fantasia religiosa
que foi demolida pelos trabalhos
da razão crítica materializante.
A literatura de Lawrence integra
o zeitgeist de onde emergiu também Freud
e sua escola que tanta importância confere
à sexualidade nas discussões sobre a psicologia –
o “fenômeno sexual” seria quintessencial
à mente humana, e não um mero apêndice corporal.

O exemplo é o corpo, “velho aos 27 anos de idade,
de Connie Chatterley, que ao raiar do capítulo 7
fica nua diante do espelho e lamenta-se:
“Her body was going meaningless,
going dull and opaque, so much insignificant substance.
It made her feel immensely depressed and hopeless.
She was old, old at 27, with no gleam and sparkle in the flesh.” (p. 83)

Pro cintilar e resplandecer da carne
O amor físico é indispensável elemento –
O que equivale a uma revolução na medicina:
saudável agora passa a ser viver plenamente o sexo,
ao invés de reprimi-lo, não satisfazê-lo, atrofiá-lo;
Sensualidade não é mais coisa do demônio,
tentação de pecado ou coisa que o valha.

Na teoria psicológica manifesta pela obra,
Há perigo de patologia no intelectualismo exacerbado
de Cliff e seu círculo de conies, verbólatras e superciliosos,
que pretendem justificar sua posição privilegiada de classe,
de aristocratas letrados, com base numa suposta superioridade
Dos intelectuais e artistas sobre a reles ralé…
O arrogante desprezo Cliffordiano pela riff-raff
é uma espécie de alienação separatista e síndrome do não-me-toques.

Connie Chatterley, em sua juventude, rebela-se
contra os efeitos desvitalizadores do intelectualismo ascético:
“The mental life! Suddenly she hated it
with a rushing fury, the swindle!” (p. 83)

Nos homens de seu círculo social, Connie encontra
gente exangue, de vida apoucada por raciocínio excessivo
e repressão sexual instituída em caráter (cf. Wilhelm Reich).
Connie lembra de seus amores juvenis na Alemanha
com uma certa nostalgia da sensualidade sadia:
“the healthy human sensuality
that warms the blood
and freshens the whole being.” (83)

O amargume que ela sente por Clifford
É por sentir-se defraudada de seu corpo
(“defrauded of her own body”, p. 84),
Excluída da possibilidade de ter a carne a cintilar
Aos contatos vivificantes dos físicos amores.
Como pele pálida por falta de sol,
o corpo de Connie padece por sexo de menos.
“Unjust! Unjust!
The sense of deep physical injustice
burned to her very soul.” (p. 84)

* * * * *

LACK OF WARMTH

Falta calor humano na vida desta casal:
estão sob o mesmo teto, mas não no mesmo ninho.
Cliff e Connie são partes da catástrofe geral
de uma guerra estropiadora de corpos.
Mesmo que não mate, ela fere a vida na raiz
Ao trucidar a capacidade de gozar,
O deleite singelo de sentir.

Tolstói em Anna Karenina também foi o
genial pintor das dificuldades conjugais de Anna
e seu maridão Karenin, o “autômato ministerial”.
Com Lady Chatterley, Lawrence também retrata
uma mulher que sofre com a frieza do marido,
sua insensibilidade, sua insenciência.
No warmth, no glow!

A guerra escurecera a psique
Cravejada de bruises
Após ter estropiado o corpo
Tornando-o estéril, infértil.
Para além das crippled legs,
there was a crippled heart.

E John Lennon poderia ter composto
para Cliff Chatterley a sua canção magistral
“Crippled Inside” (“Aleijado Por Dentro”).

Não só a ressaca da guerra
Entenebrece o ar dos tempos
Mas a vigência secular duma
Cultura do ideal ascético
Que desvitaliza os corpos
Ao pregar o intelecto superior
Que deve controlar o sensível subjugado.
Resultado: “all the dreadful, carrion-bodied people.” (p. 101)

INSANA DESCONEXÃO

Desconectar-se ensandece –
e não falo da Internet
Que quando despenca
Pode deixar doidos
Alguns usuários adictos.
Estar sem conexão real com outros
é deprimente, enlouquecente.
Connie Chatterley teme
Por sua própria sanidade.
Pois em casa falta o toque:
ela e Clifford estão literalmente
“OUT OF TOUCH”.
A expressão captura bem a ausência de carnalidade –
pois pior que falta de intimidade, de diálogo fracassado,
trata-se aqui de contato corpóreo concreto
o que está em falta. Falta insanizante.

O amor físico inexiste –
Nem orgasmos, nem carinhos.
Nem êxtases, nem migalhas.
Quem pode culpá-la se ela
pula o muro e adentra
as woods do amor proibido?
Ela é compelida por sua
Situação de vida deprimente
A buscar o calor humano
Que Cliff não lhe fornece nem uma vela
(“no warmth at all” – p. 166)

Em Mellors, que o marido esnobe despreza
pois não passa de serviçal da classe inferior,
Connie busca o calor do mútuo encantamento
não só verbal e intelectual, mas corporal e emocional,
Que desde jovem ela julga quintessencial ao
Amor verdadeiro da intimacy.

Em D. H. Lawrence, parece-me, a ideia de amor íntimo
Jamais é reduzida à espiritualidade, ao conhecimento “cerebral”
que os amantes possuem um do outro como se fosse saber desapaixonado;
a noção de intimidade é inseparável da fisicalidade dos amplexos,
da transa de fato entre bocas e peles, vaginas e falos,
e Connie busca em Mellors não a conversa-fiada de salão
mas a fogueira ardente dos contatos físicos, o fogo do sexo,
o êxtase da beleza vivida na carne, os orgasmos simultâneos.
Lady Chatterley não acha que há felicidade possível aos intocáveis e intocados.

Com Mellors, ela afirma a fisicalidade amorável,
A sensualidade destravada que em casa com Cliff se atrofia.
Pois Cliff é intelectualóide e ascético,
Em seu crippled corpo there’s a coldness
(antegosto da morte e seus rigores)
Que tomou a carne – e calor dele não emana.
Ele lê Racine e conclui em prol
duma ética apolínea do controle: 
contra o desregramento passional que causa tragédias,
o redentor autoritarismo da razão controladora.
Ele diz: “The modern world has only vulgarized emotions
by letting it loose. What we need is classic control.” (p. 160)

Cliff quer pintar como virtude
e justificar sua posição aristocrática e privilegiada na comunidade
recorrendo a seu auto-controle (que é também um alter-controle),
sua capacidade de ter as emoções sempre em estreita coleira.
D. H. Lawrence o caracteriza como neurótico e histérico,
e em certos trechos do livro um autor outsider proto-punk
produz uma cáustica sátira de Clifford, the control freak,
que poderia inspirar um petardo hardcore que se chamasse:
“Fuck Your Control Freakyness, grumpy Clifford!”

Seu corpo, estropiado pela guerra,
Já está inapto para as libertinagens,
e Cliff é um homem com transas na memória
Mas nenhuma no futuro ou nos planos.
O trauma o impossibilita para o amor físico
e parece que sua visão-de-mundo arrogante
nasce como mecanismo compensatório,
de teor semi-alucinante,
em que ele transforma impotência e ressentimento
em virtude superior e justificativas para preponderância social.
(Nietzsche explica! Conferir a Genealogia da Moral)

Cliff, crippled, é um sujeitinho todo bossy supercilious,
que esconde do mundo sua ansiedade tremeluzente e seu
medo da morte ameaçante que já lhe mordiscou os membros.
Para Connie Chatterley, o controle de Clifford não é sentido
como mérito, valor, virtude, característica amável,
mas rima emocionalmente com coldness e cruelty.
Cold cruel controlled controlling Clifford
em sua controlfreakiness irá perder
– irremediavelmente –
a esposa que quis possuir.
Pois ela, em sua atitude mais rebelde que subalterna,
afirma seu corpo com toda a energia,
proto-roqueira que prenuncia futuras
cataratas de rock’n’roll libertário
a estrondosamente bradar
“LET IT LOOSE!”

* * * * *

EMOTIONAL IDIOCY

Em D. H. Lawrence há uma coleção de reflexões
Psicológico-existenciais sobre a emotividade humana
Sendo que o autor trabalha com uma espécie de escala,
De termômetro, de medido, de mensurador etc.
Do grau de maturidade ou idiotia da Emoção em certo indivíduo.
Muito antes e indo muito além dos livrinhos de auto-ajuda banais,
Lawrence pôs em ação a noção de inteligência emocional.

Sente-se a afirmação de que a forma artística do romance
pode servir à Educação Sentimental (que um Flaubert tb propicia),
e Lawrence fornece um arsenal conceitual-linguístico muito fecundo
para análises interessantes sobre os mistérios da Psiquê.
Lawrence atribui aos homens (machos) com frequência
uma imaturidade emocional que os deixa parecidos
com bebezões (big babies) ou mesmo cães irracionais
(a desenvolver: o brilhantismo dos metáforas animalizantes de Lawrence!).

Lawrence não separa o emocional do político,
não cinde subjetividade e objetividade,
mas procura reconectar o problema
da felicidade trans-individual (o amor)
ao quadro mais amplo da felicidade geral-coletiva (a utopia);
o background do romance é a Inglaterra do começo do século XX,
um pesadelo de carvão e ferro, repleta de insenciência,
de negação do sensível, de “culto à razão” que é no fundo emocional-idiotia.

Pulsa uma verve romântica neste romance anti-establishment
Que pinta o industrialismo capitalista como insânia,
Como destruidor das belezas naturais
Além de desumanizador de humanos.
Connie Chatterley, acordada, passeia como sonâmubula
pelos arredores de Wragby e Tevershall, onde mora,
sentindo-se atravessando um pesadelo:
“a nightmare of half-corpses”
(e isso não é um filme de zumbi!),
o horror de gente a viver a meia-vida,
de estar meio-morto e mamando nas tanatotetas de Mammon.

* * * * * *

"Mamon" de Collin de Plancy

“Mamon” de Collin de Plancy

THE MAMMON OF MECHANIZED GREED

Arranhando os céus como falos de concreto
Mil vezes maiores que as picas de seus construtores
“Balançam edifícios de 40 andares” (Siba)


“Com olhos de vidro de cores berrantes
Balançam edifícios de quarenta andares
Que olhados de longe se parecem altares
Do culto esquecido de uns deuses gigantes
Que rompem os tempos dizendo arrogantes
Que os ventos libertos não podem passar
E atrás das colunas que agarram o ar
Uns tantos se espremem sentindo os mormaços
Nas sombras de uns poucos que miram os espaços
Cantando ciranda na beira do mar.” (Siba)

Como outrora a Torre de Babel mítica
Dirigem-se com ímpeto de Ícaro ao alto
Os que idolatram, cá de baixo, criatura celeste

Podem chamá-lo God, Deus, Jeová,
Alá, Oxum ou sei lá quê mais,
Mas D.H. Lawrence chama-o Mammon.

Falemos de um deus chamado Dinheiro,
Servido não por preces pias mas muito mais
Por práticas de ganância egocêntrica.

Ídolo que os gregos chamavam Pluto,
Tema de Aristófanes em saborosa comédia,
É para Lawrence este tal de Mammon.

Uma sociedade devota de Mammon povoa
A face da terra com novidades perigosas –
Como a queima massiva e descontrolada

De carvão e petróleo, intoxicantes d’atmosfera,
Que adoecem-nos na carne envenenada
Enquanto enriquecem punhados de Cliffords Chartterleys.

Em Lawrence, indústrias são um pouco como
Os moinhos satânicos que moem até a geléia
A possibilidade do amor e a potência para ser-junto.

Estar-solidário é  que Connie busca,
desejando com intensidade “physical togetherness” (p; 197)
Companhia e camaradagem que vá pr’além

Do verbalismo e dos abismos de distância,
Do racionalismo e suas incomunicabilidade,
Do ortodoxismo e suas estreitezas de mentalidade.

* * * * *

THE BONDS OF LOVE ARE ILL TO LOOSE (P. 197)

O amor como fenômeno social complexo fica explícito
No caso de Connie e Oliver Mellors pelo antagonismo de classe
Que complica as coisas pro casal:
Cliff e Connie são aristocracia, descritos às vezes como
integrantes das “leisured classes”,
já Mellors é ex-soldado retornado à riff-raffness
(and it’s a rather rough ride!)

Quando Connie revela ao amante o plano de ter um filho,
Mellors pergunta-lhe se ela revelaria ao marido a identidade do pai
desta hipotética criança que Cliff pretende adotar.
Mellors percebe muito bem que
“He [Cliff] woud hardly swallow me
as a substitute breeder.” (p. 203)

Cliff, com pernas paralisadas mas arrogância intacta,
acredita-se superior à ralé e destinado a ser o boss.
Autodescreve-se como um “conservador-anarquista” (p. 216),
Oxímero bizarro (à la Borges) que significa no fundo
Algo próximo a anarco-capitalismo ou plutolatria.
“Industry comes before the individual”, é um de seus lemas,
não se deve fazer caridade aos pobres, mas investir em indústrias
que empregarão os pobres – “it’s the only way to feel all mouths
and clothe all bodies.” (p. 217)

Ao mesmo tempo que Cliff sustenta ser a fate
Quem define quem será boss of the show
Lida com as massas como se fossem subgente.
Dos escravos de Nero aos operários da Ford
A riff-raff laborante não passa de sub-classe
A ser comandada, controlada, assalariada, subjugada.
Pontifica capitalistopapa Clifford:
“The masses have been ruled since time began,
and till times end, ruled they will have to be.
It’s sheer hypocrisy and farce to say
they can rule themselves.” (p. 220)

Connie antipatiza com a arrogância de Cliff;
Há rebeldia em sua escolha de Mellors como amante,
Já que isto subverte os preconceitos e as baboseiras eugênicas
Das ruling classes inglesas que tem em Cliff um lord…

Connie está transando fora de sua classe,
Connie está amando fora de sua casta,
e presume-se que seja justamente isso
o fator escandalizante para a sociedade careta
e o fator que adiciona ao caldo de êxtases sexuais-afetivos
o célebre tempero do proibido.

* * * * *

A EMANCIPAÇÃO E SEU PROCESSO

Não há de fato um feminismo panfletário no livro
Mas as condutas de Connie Chatterley são sim libertárias
Já que é uma mulher que ousa ir além dos limites fixados
Pelas autoridades-machonas que pretendem controlá-la,
Domando seu corpo e enjaulando- no laço insano com Cliff.
O corpo vai em busca de sua saúde ao confrontar
A control-freakiness dos patriarcas dominadores
De que Clifford Chatterley é memorável espécimen.
Lady Chatterley é um dos emblemas da mulher inglesa
Que nascia refulgente da Era Suffragette
Conquistando direito ao voto democrático mas também
Direito ao corpo e ao gozo orgásmico, sexual-afetivo.

Annie Kenney and Christabel Pankhurst used violent tactics in Britain as members of the Women's Social and Political Union (WSPU)

Annie Kenney and Christabel Pankhurst used violent tactics in Britain as members of the Women’s Social and Political Union (WSPU)

Os capítulos 15 e 16 conduzem o drama a um clímax;
Lady na mata com o amante, experimentando erotismos,
inclusive pelados na chuva thunderstórmica,
enquanto o maridão Cliff surta de pavor e ansiedade,
na segurança do lar mas num “state of nervous frenzy” (p. 278).
Depois de uma noite aventurosa, de deslimite,
Connie se ressente por ter que voltar pra casa
Como se fosse uma cadela na coleira de volta à jaula.
A criada Mrs Bolton, que havia sido incumbida pelo chege
de encontrar a Lady desaparecida, quando a encontra
tem que ouvir iradas extroversões de insatisfação existencial:

“- How foolish of Clifford to make a fuss! – said Connie.
– It’s monstruous that I should have to be followed!” (p. 279)

Furiosa com Cliff, esta mulher está libertando-se
Também através de práticas subversivas das normas
E enfurecedoras de maridões tirânicos e frios,
O que prova que não há libertação possível
Que não irrite e horrorize os mantenedores da tirania.
Connie Chatterley busca jornada de libertação progressiva
E faz parte deste processo emancipatório que ela improvisa
O realizar de certas loucurinhas (ou melhor:
Comportamento que os caretas rotulam como insanos)
Como correr pela pela floresta na chuva.
Ela confessa a conduta a Cliff e ele acusa-a de doida.

“- I ran out in the rain with no clothes on.
– You must be mad!
– Why? To like a shower bath from the rain?” (p. 281)

Acusa-se de irracional aquele que quer
Transcender a estreiteza da razoabilidade administrada.
Dá pra ler o romance de Lawrence num viés foucaultiano –
Clifford como emblema do poder disciplinador
Que domina em prisões, escolas, manicômios.
Quando ele “explode” de autoritarismo no cap. 16
E torna-se um corno bravo e esbravejante
Seu caráter conservador e control freak
Vem à tona com enxurrada de grosserias:
“What the hell do you go to that bloody wood for?” (p. 280)

Cliff estigmatiza Connie por sua conduta,
Xinga a esposa livre-demais de maniac
Sem perceber que ela odeia a jaula conjugal
Em que é mantida cativa pelo tirano da cadeira-de-rodas.
Ademais, Cliff representa uma postura-de-classe
Aristocrática, separatista, pró-apartheid,
com repúdio racista à mescla,
ideário do you shouldn’t mix with the riff-raff.

9780140424584

A RESSURREIÇÃO DO CORPO

 “I feel that whatever God there is
has at last wakened in my guts.”
Connie Chatterley, p. 284

A coragem que é necessária para a ternura:
Disso raramente se fala na literatura.
Uma das canções mais sublimes do rock inglês
– “I Know It’s Over” dos Smiths (@The Queen is Dead) –
fala sobre isso: “it takes strenght to be gentle and kind”.

Desde Homero é mais comum que se frisem feitos bélicos,
viris combatências, proezas de duelistas violentos,
atos de heróis capazes de bravezas e urros…
Mellors é diferente: nada tem de Aquiles ou Ulisses,
sua postura é mais retraída e introverida
e seu refúgio na mata é quase ermitério.
Poderia ser o protagonista de um romance existencialista,
desesperado e descrente do futuro,
misantrópico por vivência própria da
horroribilidade humana:
” – People are always horrid.
I have such a terrible mistrust of the future.” (p. 334)

Seu caráter só se revela mais ao fim do livro,
Quando ele se auto-descreve, no diálogo em Londres com Connie,
Como outsider no mundo dos homens, como inconformista,
Como alguém que não quer caçar, nem quer ser militar,
Nem quer ficar rico, que nem mesmo deseja ser sociável.
Sua experiência pregressa no exército deixou legado:
ele odeia e não pode suportar as atitudes das chefias:
“- I can’t stand the twaddling bossy impudence
of the people who own this world.
I hate the impudence of money,
and I hate the impudence of class.” (p. 336)

Mellors revela-se então um rebelde,
Um pouco como Thoreau em Walden
É sua estadia na cabana nos woods de Wragby…
O futuro da humanidade, da civilização,
Parecem-lhe incertos, e ele tende a pressentir
A catástrofe muito mais que a utopia:
” – If there’s got to be a future for humanity,
there’ll have to be a very big change from what now is.” (p. 337)

Mellors defende uma filosofia-de-vida em que
É central o conceito de awareness – 
no sentido de Buda, ele apressa-se a esclarecer.
Atingir o Nirvana é levar ao auge a awareness.
Mellors pensa que temos necessidade urgente
De acordar para a vida, espantar da consciência
Todas as teias de aranha que ali se juntaram.
E não é à toa que rimam awareness e tenderness.
O sexo seria o contato sensível mais íntimo possível
Entre duas pessoas abertas ao vivificante e tonificante
Processo de autêntica entrega mútua que possibilita
Inclusive a rara bliss do “come together”.

“Sex is really only touch, the closest of all touch.
And it’s touch we’re afraid of.
We’re only half-conscious and half-alive.” (p. 338)

Tocar e ser tocado com tenderness,
apesar dos tabus repressores e ascéticos,
acorda, conecta, vivifica. Nirvaniza a dois.

Por isso D. H. Lawrence parece-me autor próximo
À Wilhelm Reich ou à F. Nietzsche em sua visão-de-mundo
Em que a repressão sexual aparece como doentia imposição
De uma civilização insana e de valores mortíferos.
A cultura que condena os “prazeres carnais” e os “deleites terrenos”,
Que ensina as crianças a sentirem vergonha da sexualidade
Desde suas primeiras manifestações primevas,
Que faz do adultério um pecaminoso escândalo
Contra os laços sagrado d’um matrimônio idealizado,
Tem tudo a ver com o industrialismo ecocida,
Com as guerras estropiantes, com a desconexão entre as gentes,
com a falta geral de warmth and kindness.

Connie Chatterley, na companhia de Mellors,
Foge da jaula de intelectualismo estéril
Que é a vida de Clifford, ele que talvez só defenda com ênfase
A superioridade do espiritual sobre o físico pois é um
Estropiado, um cripple, “a physical failure” (p. 283).
Entre este casal existe também um abismo filosófico,
um gulf mental que fica explícito no capítulo 16:
Cliff lê um livro “científico-religioso” que Connie confronta
Com sarcasmo e criticismo que já não se escondem detrás de pudores.
No livro que Cliff parece adorar, o autor defende que já no universo
“dois aspectos” – um físico, decadente, e outro espiritual, ascendente,
e que a evolução do cosmos, após alguns éons, fará que o mundo físico
vá desaparecendo, diminuindo, rumo a ser só um “ripple”,
“barely distinguished from non-entity” (p. 282).

Nesta teoria metafísica que profetiza o fim da fisicalidade
há também a afirmação temerária de um Deus
“upon whose wisdom all forms of order depend”
E Clifford parece aderir a um idealismo-dualismo platonizante –
o que o põe miles apart from Connie, que em seu affair
descobre-se, filosoficamente, como materialista-sensualista
(mais pra Diderot do que pra Sade, decerto!).

Filosofa Connie:
“I believe the life of the body is a greater reality
than the life of the mind:
when the body is really wakened to life.” (p. 284)

Clifford responde com o clichê espiritualista
Que despreza o corpo como meramente animal:
“The life of the body is just the life of animals.”

A resposta de Connie serve como súmula filosófica:

91pKUKoPtQL._SL1500_

“- That’s better than the life of professional corpses. But it’s not true! The human body is only just coming to real life. With the Greeks it gave a lovely flicker, then Plato and Aristotle killed it, and Jesus finished it off. But now the body is coming really to life, it is really rising from the tomb. And it will be a lovely, lovely life in the lovely universe, the life of the human body…” (p. 284)

Cliff, apolíneo e espiritualista, percebe bem que Connie está
no auge de uma espécie de transe dionisíaco
e até atribui a ela uma conduta de “bacante” (p. 284).
O dionisismo de Connie choca-se com o control freak do marido
Pois ela manifesta assim sua autonomia, a will of her own,
E ademais ela não idolatra a “vida da mente” quando
separada da carnalidade, intelecto descanrado,
já que ela está embarcada na aventura de descobrir
um misticismo sensualista bacântico
da ressurreição – neste mundo – do corpo.

BURNIN’ OUT THE SHAMES

A experiência existencialmente transformando de Connie e Mellors
Não é retratada jamais por Lawrence em tom condenatório, moralista, repressor.
O livro revela os benefícios de uma sensualidade libertada e aposta numa
ética sensualista, vitalista, hedonista, que está mais próxima de um
lúcido epicurismo do que de qualquer pornografia barata.
É como um requintado tratado psicológico-filosófico sobre
A indissolúvel unidade mente-corpo, a união psico-somática,
Que sugere que é sempre mentirosos o reducionismo que busca limitar
o sexo à carnalidade ou à animalidade, como se as mentes não transassem também…
A refulgência dos estados psíquicos de Connie enquanto transa
É uma das virtudes maiores da prosa de Lawrence
Como mostra uma das mais belas cenas eróticas
De que me lembro de que ter lido pela literatura afora:

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“It was a night of sensual passion, in which she was a little startled and almost unwilling. (…) The reckless, shameless sensuality shook her to her foundations, stripped her to the very last, and made a different woman of her. It was not really love. It was not voluptuousness. It was sensuality sharp and searing as fire, burning the soul to tinder. Burning out the shames, the deepest, oldest shames, in the most secret places.

In the short summer night she learnt so much. She would have thought a woman would have died of shame. Instead of which, the shame died. Shame, which is fear: the deep, organic shame, the old, old physical fear which crouches in the the bodily roots of us, and can only be chased away by the sensual fire, at last it was roused up and routed by the phallic hunt of the man, and she came to the very heart of the jungle of herself. She felt, now, she had come to the real bed-rock of her nature, and was essentially shameless.” (p. 298)

Há êxtase na morte da vergonha, na superação do pudor,
na entrega total ao amor físico e ao amplexo carnal apaixonado,
Quando a chama intersubjetiva queima o medo até as cinzas.
“We fucked a flamed into being”, resumirá Mellors (p. 370).

Connie descobre o quão revitalizante é a sensualidade afirmada,
e não só para o corpo mas também para a mente – exit dualismo ascetizante.
Agora há indissociabildiade entre corpo-mente e só há saúde vital
num dizer-sim ao corpo, aos sentidos, à vontade, ao mundo terrestre,
à vida do aquém e não à promessa quimérica e vã de paraísos além.
Há até tese ético-epistemológica que resulta duma boa trepada:
os humanos precisam de “sheer sensuality even to
purify and quicken the mind.” (p. 300)
Não há razão para supor que o intelecto se aprimora
Ao praticar o sacrifício corporal, a frieza, o ascetismo,
o rigor mortis dos auto-controles exageradamente autoritários.
No fim, Lawrence afirma o potencial político do amor liberto
Através de Mellors e sua “bandeira”: “I stand for
the touch of bodily awareness between human beings,
and the touch of tenderness. It’s a battle against the
insentient ideal monkeyishess of the world.” (p. 340)

 

Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro
Goiânia, Julho de 2016

* * * * *

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SAIBA MAIS:

ARTIGOS
D. H. Lawrence’s Critique of ReductionismD. H. Lawrence on the Unconscious; D. H. Lawrence’s Critique of Modernity – by Derek Hawthorne

LIVROS
Love and Sex in D. H. Lawrence – by David Ellis

MEMÓRIA ILUMINADA – Minisérie documental em 4 capítulos sobre a vida e a obra de Julio Cortázar [1914-1984] (Em Espanhol)

MEMÓRIA ILUMINADA

Miniserie documental de cuatro capítulos, sobre la vida y obra de Julio Cortázar. Realizado y producido por Ernesto Ardito y Virna Molina para canal Encuentro.

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Julio Cortázar [1914-1984]

Capítulo 1:

Capítulo 2:

Capítulo 3:

Capítulo 4:

Leia também:

Martín Schifino – El éxito incómodo de Cortázar

“A distopia de Truffaut adaptada de Bradbury: livros ardem a 451 graus Fahrenheit!”

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1<<< Fahrenheit 451 – quinto longa-metragem de François Truffaut e nono título de sua filmografia – foi realizado dois anos após Um só pecado (La peau douce, 1964) e um ano antes de A noiva estava de preto (La mariée etait en noir, 1967).

É adaptação da novela de ficção científica de Ray Bradbury. Para muitos, é um tropeção na carreira do diretor. Não é verdade! Mas pode ser classificado como a mais incomum e paradoxal de suas realizações. Nunca mais Truffaut manifestaria visão tão pessimista, árida, fria e francamente marcada pela desumanização.

Mais que estranhamento, Truffaut sentia verdadeira repulsa por filmes e livros de ficção científica. Contra o gênero, segundo consta, escreveu artigo dos mais virulentos. Alegou gostar apenas de O monstro do ártico (The thing from another world, 1951), de Christian.[1] Talvez por ter Howard Hawks na produção, realizador de sua particular predileção ao lado de Alfred Hitchcock e Jean Renoir.

787c8702fbb20e5076a38963a6b758d9Foi por recomendação do amigo Raoul Lévy que Truffaut chegou ao livro de Bradbury no começo dos anos 60. Gostou tanto que, de imediato, procurou o autor para lhe comprar os direitos de adaptação e conversar sobre a realização. Com esse exclusivo fim viajou a New York em 1962.

Fahrenheit 451, o filme, é ficção científica muito pessoal. Localiza a ação em futuro distante, num país de governo totalitário. São essas as únicas informações dadas ao espectador para a contextualização da história. A vida inteligente, a fruição intelectual e o prazer do conhecimento estão banidos de todos os setores da sociedade. Espaços e comportamentos foram padronizados. Ler não é permitido. Logicamente, não são admitidos livros e outros materiais escritos, considerados de alto risco à segurança nacional. Tais ameaças, quando surgem, são entregues aos cuidados da brigada incineradora, composta por bombeiros. Leitores são tratados como subversivos e podem, dependendo da gravidade do crime, receber punições como execração pública, prisão e morte. Apesar das analogias permitidas pelo tema, Truffaut desaconselhou qualquer identificação da sociedade imaginada de Fahrenheit 451 com as “democracias populares” do Leste Europeu.


Fahrenheit 451
permitiu a Truffaut dar vazão a duas de suas mais caras obsessões: o amor aos livros e o fascínio pelo fogo. Quanto à última, alegou sem nenhum pudor que sempre vibrou com cenas de incêndio e se considerava um pouco incendiário. O título do filme diz respeito à temperatura de combustão de uma folha de livro. (…)

2O tema da queima de livros é tão gritante que fala por si. O filme é a própria denúncia de fato tão ignóbil. Diante das cenas que mostram as labaredas envolvendo títulos os mais diversos, nada mais precisa ser dito. Principalmente quando a câmera se aproxima das chamas, permitindo ao espectador a identificação de exemplares de obras fundamentais. Por isso, Fahrenheit 451 não faz qualquer defesa da literatura, da cultura ou do saber. Cena alguma transmite mensagem de amor e respeito aos livros. A falta desse discurso a favor aumenta a secura da história, tornando-a mais contundente. Foi pensando nisso que Truffaut eliminou um dos personagens do original de Bradbury, o filósofo Faber. Suas falas,lamentando o destino dado aos livros, poderiam soar redundantes. >>> Jose Eugenio Guimarães

LEIA O ARTIGO COMPLETO @ ESPAÇO ACADÊMICO

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