OS MELHORES ÁLBUNS DA MÚSICA BRASILEIRA EM 2018: Ouça a todos na íntegra [Seleção A Casa de Vidro]

“Eles querem um preto com arma pra cima
Num clipe na favela, gritando cocaína
Querem que nossa pele seja a pele do crime
Que Pantera Negra só seja um filme
Eu sou a porra do Mississipi em chamas
Eles têm medo pra caralho de um próximo Obama
Racista filha da puta, aqui ninguém te ama
Jerusalém que se foda, eu tô a procura de Wakanda.”
BACO EXU DO BLUES

Tudo junto e misturado, compartilhamos aqui um apanhado geral com alguns dos grandes discos da MPB (sigla considerada no sentido o mais amplo possível) que consideramos os mais significativos da safra 2018. Um ano em que tivemos o retorno de divas e gênios consagrados, como Elza Soares, Gilberto Gil e Gal Costa; tivemos bandas veteranas do cenário manguebeat pernambucano de volta com lançamentos, como Mundo Livre S.A., Eddie e Cordel do Fogo Encantado; tivemos a revelação e consolidação de novos talentos do hip hop (Baco Exu do Blues, Edgar) e no folk-rock (Joe Silhueta, The Baggios, Bemti) etc.

As mulheres arrasaram com discos de alta qualidade: Mulamba, Luiza Lian, Anelis Assumpção, Ava Rocha, Iza, Ceumar, Ana Cañas, Mahmundi, todas marcaram um ano que teve em Deus É Mulher uma de suas obras mais emblemáticas, reafirmando Elza como lenda viva.

Em específico no cenário goiano, que acompanho mais de perto, tivemos a consolidação do Carne Doce com seu terceiro álbum Tônus, o retorno do Cambriana com Manaus Vidaloka e o primoroso álbum de estréia do Ave Eva. Além disso, fortaleceram-se muito no cenário figuras como Adriel Vinícius, Vitor Hugo Lemes (assista ao video-clipe abaixo), Diego Mascate, Pó De Ser – que prometem excelentes lançamentos para 2019.

Além disso, o documentário Novos Goianos (de Isaac Brum) foi lançado, conquistando o prêmio de melhor curta nacional no Lobo Fest de Brasília, uma relevante premiação para um filme dedicado ao novo cenário musical autoral goianiense, encabeçado pelo sucesso de Boogarins, Carne Doce e Diego de Moraes.

Na sequência, aprecie os bons sons destes álbuns magistrais – uma seleção que A Casa de Vidro realizou baseada nas seleções e listas de melhores do ano de Tenho Mais Discos Que Amigos, Rolling Stone Brasil, Multimodo, Miojo Indie, Eu Escuto, dentre outras fontes. Suba o volume pro talo e boa fruição!

Vale mencionar, entre os eventos memoráveis de 2018, também a conturbada turnê brasileira do Roger Waters @ Pink Floyd, que marcou época em seus protestos contra Bolsonaro. Waters pediu resistência, ironizou a censura e aderiu ao movimento#EleNão, a principal mobilização cidadã ocorrida no Brasil em 2018.

Ao mandar no telão frases como Resist The Unholy Alliance of Church and State – Resistam Contra a Ímpia Aliança da Igreja e do Estado – o tiozão tornou-se um emblema de artista engajado na luta contra o fascismo. De lambuja foi entrevistado por Caetano Veloso em um excelente programa da Mídia Ninja (assista abaixo) e estes episódios renderam um dos melhores artigos de reflexão na crítica musical neste ano: Para o duplipensar brasileiro, Roger Waters é uma ameaçade Maurício Angelo na Revista Movin’ Up.

– Por Eduardo Carli de Moraes

ELZA SOARES – Deus é Mulher


GILBERTO GIL – Ok Ok Ok


BACO EXU DO BLUES – Bluesman


ANDRÉ ABUJAMRA – Omindá


MULAMBA


ANELIS ASSUMPÇÃO – Taurina


IZA – Dona de Mim


THE BAGGIOS – Vulcão [DOWNLOAD]


CAMBRIANA – Manaus Vidaloka


TUYO – Pra Curar


MATEUS TORREÃO


EL EFECTO – Memórias do Fogo


BIG PACHA – 11:11 [DOWNLOAD]


ILLY  – Vôo Longe


EDDIE – Mundo Engano


EDGAR – Ultrasom


JOE SILHUETA – Trilhas do Sol


DISASTER CITIES – Lowa


BLACK PANTERA – Agressão


MENORES ATOS – Lapso


CARNE DOCE – Tônus


AVE EVA


MARIA BERALDO – Cavala


LUIZA LIAN – Azul Moderno [DOWNLOAD]


WADO – Precariado [DOWNLOAD]


GAL COSTA – A Pele do Futuro [DOWNLOAD]


PENSE – Realidade, Vida e Fé


DINGO BELLS – Todo Mundo Vai Mudar


ANA CAÑAS – Todxs


MAHMUNDI – Pra Dias Ruins


HAMILTON DE HOLANDA TOCA JACOB DO BANDOLIM


MAURÍCIO PEREIRA – Outono no Sudeste


MUNDO LIVRE S/A – A Dança dos Não Famosos


AVA ROCHA – Trança


VIOLINS – A Era do Vacilo


TATÁ AEROPLANO – Alma de Gato [DOWNLOAD]


JOSYARA – Mansa Fúria [DOWNLOAD]


FELIPE RET – Audaz


INQUÉRITO – Tungstênio


NEGRA LI – Raízes


RODRIGO CAMPOS – 9 Sambas


E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE – Fundação


ADORÁVEL CLICHÊ – O Que Existe Dentro De Mim


CATAVENTO – Ansiedade na Cidade


BEMTI – Era Dois


MARCELO CAMELO – Sinfonia Número 1


MARRAKESH – Cold as a Kitchen Floor


CEUMAR, LUI COIMBRA E PAULO FREIRE – Viola Perfumosa
https://open.spotify.com/embed/album/3QngmgwnfNw5sQhvZ7iW5X


A SER CONTINUADO…
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A TRILHA SONORA DA INSURREIÇÃO: A Renovação da Revolta na Música Brasileira Atual – A Saga do Cavaco Profano do Machete Bomb

“Aqui ninguém nasceu pra ser domesticado (aqui não!)”
MACHETE BOMB, “Fatcap”

Há quem se recuse a ser o colonizado submisso, o conformado domesticado, o oprimido calado. Ainda pulsam, aqui e ali, nos subterrâneos da cultura, aquelas expressões subversivas que, apesar de não circularem no mainstream, são máquinas sônicas enraivecidas contra o Sistema. São artistas flamejantes e indiespensáveis (com a licença do neologismo estrangeirista).

É o Emicida pondo o dedo na ferida e convocando a neo-guerrilha de Panteras Negras. É o Baiana System falando de uma Sociedade do Lucro que é “máquina de louco”. É a esplêndida Larissa Luz, musa-afro, cheia-do-axé, que manifesta todo o poderio de uma mulher empoderada e descolonizada. Os exemplos poderiam ser multiplicados.

Neste cenário, contrariando a tendência do rock brasileiro de tornar-se um tiozão bundão de Direita (como viraram o Lobão e o Roger do Ultraje A Rigor), chegou ao cenário, vinda do Paraná, a Machete Bomb. E declararam aberta a “Temporada de Caça”.

violência expressiva que se manifesta na sonoridade do Machete é reflexo da sociedade ultra-violenta que somos, com seus mais de 60.000 homicídios anuais e o maior índice global de mortes por arma de fogo.

Só faça o favor de não confundir a violência lírica e musical, estratégia dos oprimidos em seu processo de partejar um mundo menos opressivo, com a violência concreta e brutal perpetrada pelos opressores.

O Machete Bomb encena uma espécie de teatro insurrecional (falo aqui inspirado por Augusto Boal e sem sombra de intenção pejorativa ao evocar o “teatro”). Esses caras estão fazendo um som que parece convidar as massas ao levante de indignação, estão dizendo que aquilo que o Brasil precisa é de uma injeção, na veia, de altos decibéis de rebeldia. É uma sonzeira que fala daquele momento em que a “paciência do violentado” se esgota, a taça transborda, o vulcão entra em erupção, e a lava é feita de fúria.

O que domina é uma vibe de vendeta-dos-violentados, o som daqueles que se cansaram de serem esculhambados. Resolvem virar a mesa e tornarem-se os agentes da transformação social radical, utilizando-se das armas a seu dispor no vasto arsenal anarco-lírico.

É um tipo de música que parece embebida nas atitudes guerrilheiras de figuras como Malcolm X, Marighella, Che Guevara. É Guerrilla Radio. E os alvos da vendeta são muitos: “o colarinho branco com o poder da caneta”, “o empreiteiro bilionário que compra a licitação”, “o tribunal de faz-de-conta que aprova a corrupção”, “o bispo com os dedos pretos de contar notas de cem”, “o vendedor de milagre que faz o povo de refém” (acesse a letra completa).

A poética de “Temporada de Caça” deleita-se em espalhar imagens de figuras que merecem ser “caçadas”, instaurando uma explicitação de cenário convulsionado e bélico. Rompendo com o mito dourado do Homem Cordial, o Machete Bomb revela o Brasil como um caos e como um caso grave de guerra civil não-declarada. E eles vão elencando aqueles que são considerados como adversários políticos – políticos escrotos, pastores ricos, juízes injustos etc. -, que passam a estar na mira do mic, feito patinhos numa estande de tiro.

É uma atitude que faz pensar na Revolução dos Escravos no Haiti. Que lembra uma trilha sonora criada para acompanhar a leitura de Franz Fanon ou de Eduardo Galeano. É verdade que a banda aborda temas já “batidos”, em especial para quem acompanha o Movimento Hip Hop: a violência policial em “Giroflex”, a resistência aguerrida dos que “ocupam e resistem” em “Tiro e Queda”, mas quem disse que isso não é bem-vindo quando, na realidade concreta, estes continuam temas urgentes e atuais?

“Uma mente consciente engatilhada é um perigo!”, cantam eles nesta última, em estado de auto-celebração por serem uma frente anarcolírica anti-sistêmica. É o tipo de atitude que, lá fora, os críticos musicais podem descrever como guys who are proud to be rebels. 

MACHETE BOMB é: Vitor Salmazo (vocal), Rodrigo Spinardi (percussão), Rodrigo Suspiro (baixo), Daniel Perim (bateria) e Madu (cavaco).

São bandas assim que me fazem pensar que daria para escrever um livro inteiro sobre A Revolta na Música Brasileira. Uma trajetória do Homem Revoltado em sua encarnação tropical, ausente das explorações de Albert Camus no seu L’Homme Revolté. Poderíamos viajar nas ondas sonoras insurrecionais destas terras, indo do samba ao rap, do frevo ao punk, do baião ao manguebeat. Daria para explorar as múltiplas vertentes da canção de protesto: tão arrojada e cosmopolita na Tropicália, tão bruta e chuta-bundas nas mãos do Movimento Punk, tão malandra e periférica nos cronistas da marginalidade (de Bezerra da Silva a Planet Hemp…).

Daria para explorar diferentes períodos históricos, em seus contrastes e similaridades: na Ditadura Vargas do Estado Novo (1937-1945), os rebeldes eram aqueles que celebravam a boêmia, a vida “improdutiva” do artista-malandro, que não é otário de ficar amassado no Bonde de São Januário… prefere viver cantando e tocando, embriagado.

Mas na Ditadura Civil-Militar de 1964 a 1985, a rebeldia é outra, e aliás multiforme: a lírica buarquista, que combina a denúncia de tenebrosas transações, mas que insufla utopia e esperança (“amanhã vai ser outro dia”), difere bastante do clima de folk nacionalista de Vandré (que seguimos cantando enquanto caminhamos: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer), que também difere radicalmente daquela irrupção do Maio do 1968 parisiense no caldo tropicaliente de Caetano e Os Mutantes em uma das obras-primas da Tropicália (“É Proibido Proibir”!).

Mas o que nos interessa sondar aqui, no entanto, não é nosso passado, mas o presente e o futuro das canções revoltadas entre nós. E nesse contexto, precisamos sim falar do Machete Bomb e A Saga do Cavaco Profano.

Conheci a sonzeira destes caras no Goiânia Noise 2018, lá dentro daquela Panela de Pressão em formato de teatro que é o Pyguá do Martim Cererê. O Machete Bomb derrubou todo o suor que tinha – honrando o lema do Macaco Bong: artista = pedreiro – e fez um show que deixou uma excelente impressão.

O mais óbvio a dizer é que enfim o Brasil possui uma banda com potência comparável ao Rage Against the Machine. Mas com uma originalidade notável que é aquele cavaco endiabrado, plugado numa pedaleira de efeitos, cheia das pirotecnias. Quando tocaram no Estúdio Showlivre, o  Madu foi descrito como “O Tom Morello do cavaco”. E, naquela ocasião, o vocalista Vitor Salmazo também se definiu como anarco-indígena (porra, meu!) e falou de uma sintonia não só musical, mas também ideológica, com o R.A.T.M.

SHOW COMPLETO – ESTÚDIO SHOWLIVRE

É verdade que já existiu muita inovação nesta mescla de cavaco endemoniado com rock abrasileirado, e só lembrar do Mundo Livre S.A., uma das mais geniais bandas do manguebeat, que tem na comissão de frente o cavaco de Fred Zero Quatro.

Mas o Madu está explorando uma outra senda, uma trip mais extrema, é um músico extraordinário que está explorando a via inovadora do cavaco heavy. O cavaco com os sinais transtornados por uma pedaleira cheia das pirotecnias e dos scratches típícos de DJ, mas com uma potência que, quando o som está rolando ao vivo, ficamos de fato com a impressão de que Tom Morello está no recinto. Mas ao invés de uma guitarra elétrica preferiu algo de uma brasilidade mais explícita. A voz à la Zack de La Rocha de Salmazo só torna mais forte a impressão de combatividade da banda.

Também há algo de uma celebração das afrobrasilidades, com certas evocações da capoeira, dos tambores africanos. Um dos grandes momentos do show do Machete, segundo meu paladar, é quando eles decretam (com o som no talo, como de praxe): “o agogô chegou!”, com tambores de batuques afro mesclando-se linhas de baixo que não ficariam incoerentes dentro de um groove dos Chili Peppers. É aí que fica claro que o Machete Bomb veio para se pôr no campo-de-jogo cultural como uma daqueles expressões artísticas que Marcelo Ridenti chama de “brasilidade revolucionária”. E, como o Baiana System também promete, a Babilônia vai cair… se depender desses músicos.

Os vocais na confluência entre o rap e o hardcore não só evocam o Rage Against the Machine e o System of a Down, mas recuperam no cenário cultural brasileira pós-2013 um certo sabor de Planet Hemp. As letras de confrontação violenta do status quo (com o mais sincero “foda-se a vocês” que defendem o estabelecido) sugerem que no Brasil ainda sobrevive uma estética da resistência em que a música é vista não como entretenimento, mas como ferramenta para a motivação prática de nossas mobilizações coletivas.

E é bom saber que nosso povo não é achincalhado e fica calado. Nas voltas intermináveis que o mundo dá, a música múltipla e multiforme que não cessa de nascer sobre o planeta segue sendo uma roda viva rumo a novas paragens. Mais do que espelhar a época, a música às vezes dá voz e alto-e-bom-som às fúrias e rebeldias dos que não aceitam nem acatam que a época prossiga como está sendo. A música faz como Brecht dizia que a arte tinha que fazer: não ser espelho que reflete o mundo, mas um martelo com o qual escupi-lo.

A música às vezes atinge graus de intensidade impressionantes, capazes de desvelar as contradições sociais e explicitar as vontades e afetos complexos daqueles que levam a sério o direito humano fundamental: resistir à opressão. É um alento saber que ainda há produção cultural desta potência vinda daqueles que estão engajados em transformar esta época do mundo com as armas da linguagem. As munições sendo rimas, os tiros sendo de riffs! Tempos históricos catastróficos como os nossos exigem expressões artísticas de radicalidade.

E me parece que, por onde quer que passem – como fizeram no festival Psicodália (SC) – o Machete Bomb transforma o recinto numa Zona Autônoma Temporária (Hakim Bey). Numa área provisoriamente liberada. Num espaço de potencial insurrecional. E nele as lições de um dos mais geniais dos músicos revoltados que já viveu – Joe Strummer, do The Clash – seguem ecoando:

“Let fury have the hour
Anger can be power
Don’t you know that you can use it?”
THE CLASH – Clampdown


SIGA VIAGEM:

OUÇA OS EPs:




Escrito por Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro.com || Setembro de 2018

GRUNGY FEELINGS – Songs From Generation X [Coletâneas / Playlists em Spotify]

GRUNGY FEELINGS – Songs From Generation X [Volume 1]
Coletânea / Playlist @ Spotify

01. SCREAMING TREES, “Dying Days”
02. NIRVANA, “Heart-Shaped Box”
03. SOUNDGARDEN, “The Day I Tried To Live”
04. LIVE, “Lakini’s Juice”
05. DAYS OF THE NEW, “Touch, Peel and Stand”
06. ALICE IN CHAINS, “Down in the Hole”
07. STONE TEMPLE PILOTS, “Meatplow”
08. BUSH, “Machinehead”
09. SILVERCHAIR, “Freak”
10. PEARL JAM, “Do The Evolution”

SENTIMENTOS GRUNGY NA ERA TRUMP – O suicídio de Chris Cornell, a Renascença do Stone Temple Pilots, e a redescoberta do Hole

Como a mítica Fênix, que não cessa de renascer das cinzas, o GRUNGE renasce de suas tragédias. Sua maré no mainstream já passou, mas os sentimentos grungy sejam vivos na Era Trump. Fazendo frente ao baque tremendo que foi para este cenário pós-grunge o suicídio de Chris Cornell (Soundgarden / Audioslave), o cenário tenta se reinventar.
Stone Temple Pilots renasce agora após duas outras mortes: a de Scott Weiland (vocalista dos 6 primeiros álbuns) e a de Chester Charles Bennington (do Linkin Park, que gravou apenas 1 EP como cantor do STP, em 2013, tendo se suicidado em 2017). São os corações ensombrecidos pelas tragédias reais, que recolocam tudo em clima de “Hunger Strike”:

“I don’t mind stealing bread
From the mouths of decadence
But I can’t feed on the powerless
When my cup’s already overfilled…”

Temple Of The Dog (1991) – Com Eddie VedderChris Cornell, Jeff Ament, Mike McCready, Jeff Ament, Matt Cameron.

Somando-se neste caldo as mortes trágicas de Kurt Cobain e Layne Stanley, pra não falar na overdose fatal de Andrew Wood (do Mother Love Bone) nos primórdios da saga Pearl Jam), temos um microcosmo cultural assombrado pela recorrência de fins-da-vida violentos, de pungente tragicidade, o que também se expressa nas sombrias e intensas paisagens sônicas que marcaram para sempre a estética contemporânea com as obras de Screaming Trees, Mudhoney, Nirvana, The Gits, dentre tantas outras bandaças.

“Roll Me Under” traz todo o peso e intensidade dos grandes dias do grungy noventista de novo ao primeiro plano, ilustrando sua mensagem sônica impactante com um clipe meio Into the Wild, evocando a vertente Steppenwolfiana que sempre nutriu o estilo grunge, este ethos do rock’n’roll que tão bem entremesclou o punk, o heavy metal e o indie-garage, reinventando para sempre a estética musical dos anos 1990.

Quem assume os vocais neste retorno do STP em 2018 é Jeff Gutt, que vem sendo chamado por alguns críticos de “um Scott Weiland bem-comportado”: “He nails how the late singer could slide from a snarl to a sigh, conjuring a bit of a snaky sexuality while still seeming a bit safe”, escreveu Stephen Thomas Erlewine em sua crítica para a AllMusic.

As 12 músicas novas demonstram uma banda ainda vigorosa e re-colocam o Stone Temple Pilots no epicentro do rock mainstream global para disputar as atenções com as mega-bandas Foo Fighters, em que Dave Grohl decolou após o naufrágio do Nirvana, e o Pearl Jam, já uma instituição consagrada da música global, que em breve completa 30 verões, merecendo um lugar de honra na História do Rock na companhia de um Neil Young & Crazy Horse ou de um Grateful Dead.

Já o STP, que sempre soou mais despretensioso e menos grandiloquente que o Pearl Jam, retorna para mostrar que um dos caminhos mais interessantes para a evolução do estilo grunge estava na tentativa de mesclá-lo com a new wave, o punk rock 77, o glam à la T.Rex. O poderio guitarrístico da banda sempre foi impressionante, desde os estupendos álbuns iniciais “Core” e “Purple”, e em 2018 eles não demonstram nenhum desejo de se aquietar. Os amps continuam no talo, o batera continua batendo forte, os riffs continuam te enganchando pelo queixo e batendo contigo nas paredes até tirar sangue.

O STP é uma daquelas raras bandas que pode soar alegremente subversiva como atos punk seminais como Johnny Thunders and the heartbreakers ou Richard Hell & The Voidoids, e na próxima faixa já se transmutar num denso e desesperador propagador de um estilo de rock grave e angustiante, à maneira das bandas históricas do movimento como Screaming TreesSoundgarden e Alice in Chains.
É um álbum que agrada e empolga por mostrar artistas grunge em plena forma, e prometendo ainda muito futuro. O grunge resiste! Ainda que o melhor álbum lançado ultimamente na estética grunge não tenha sido feito por uma banda que assim se rotule, ou que a este cenário cultural se vincule: me refiro ao “Wilderness Heart”, do Black Mountain, que fez neste álbum uma obra-prima do gênero, com canções magníficas como “Rollercoaster” e “The Hair Song”.

Com muito gosto ouvi este comeback do STP, um disco tão agradável de ouvir, tão lindamente executado, tão “radiofônico” (até mesmo no sentido Bon Joviano do termo), que quase nos convida a abandonar qualquer pose de crítico musical e simplesmente recomendar aos amigos: “ouve lá, é um discaço da porra!” A música fala bem em sua própria defesa e até nos desarma da iniciativa inglória de perguntar pelos interesses econômicos que possam estar envolvidos nesta empreitada, certamente acusável pelos críticos mais “cricos” de ser um “caça-níqueis”.

A indústria da música é de fato uma mina de ouro e não está fora de cogitação que o STP se enxergue como uma empresa, e das mais lucrativas. Mas isto não significa que estes caras não tenham algo a dizer artisticamente. Seria bem injusto, aliás, taxar de “comercial” uma banda que nunca abriu as pernas para o Sistemão do Rock Mainstream como fizeram os Creeds e Nickelbacks. O Stone Temple Pilots seguiu com seus fios elétricos plugados nas tomadas do Grunge noventista, soando como banda independente que teve acesso aos estúdios de gravação do Big Business – e soube se aproveitar disso.

Se o cérebro coloca estas questões, questionando se há vontade de grana alta por trás da nova encarnação do STP, os tímpanos e o coração simplesmente embarcam no rollercoaster deste álbum pulsante e cheios de belos thrills. Fazia tempo que um álbum de estilo grungy chegava com tamanho estrondo – que o Queens of the Stone Age  se cuide, pois tem rival forte de volta na cena!

Saudamos a chegada deste álbum como uma bela anfetamina musical para nossos tempos em que o Grunge segue tendo muitas razões para existir. Pois temos direito à divergência e a dissonância. E queremos nossa fúria tomando de assalto as ondas do rádio!

A alucinógena borboleta que estampa a capa do disco, e que parece a obra de algum artista das HQs que tomou um peiote, indica de modo simbólico o poder desta banda: dentro da borboleta, há uma teia de aranha.

A aparência mais englobante, da bela butterfly, é atraente e sedutora, mas na essência mais interna esconde-se o perigo, o aracnídeo.

Entre as asas desta borboleta, parece caber todo o caos e maravilha do mundo – e o som que fazem estas asas ao voar indica que, por mais agradável que seja esta rock-sinfonia, propulsionada pelos músicos como um foguete, pulsa aqui também algo de perigoso.

Algo que morde, que devora, como um aranha faz com o inseto que cai em sua teia.

As reações iniciais da imprensa musical parecem ser muito positivas, com reviews que destacam o quanto o álbum traz “a banda lidando emocionalmente com suas tragédias”:

The album comes after STP’s tragic last few years which saw the deaths of Scott Weiland and Chester Bennington. Losing two singers in such a short period is really one of the biggest tragedies in rock history, to see STP come back with a new album with some really triumphant sounding songs is powerful especially on the first few listens. Scott and Chester’s spirits are definitely felt throughout the album.” – Alternative Nation

Chester e Scott, dois mortos precoces do rock contemporâneo, somados à ausência monumental de Chris Cornell, também recentemente suicidado, mostram que a Era Trump, nos EUA, está sendo também a de uma maré cultural de redescoberta do grunge, em tudo aquilo que ele tem de problemático e obscuro. A Geração X ainda está entre nós, assim como o Fantasma de Kurt Cobain, assombrando com sua poesia atormentada a propaganda do cartão postal chamado American Dream, aquele em que só acreditam os que estão dormindo.

O grunge parece passar pela história da cultura humana como uma espécie de híbrido entre tragédia e resiliência. Um movimento cultural que sobrevive a todas as suas tragédias, que se reinventa na mudança: Mark Lanegan cantando com o QOTSA, Josh Homme e Dave Grohl (dos Foo Fighters) flertando com o que restou do Led Zeppelin (Them Crooked Vultures), Alice In Chains seguindo em frente com novo vocal após a morte de Layne Stanley… Para não falar da farta colheita que foram as passagens de Cornell e Weiland pelo mundo, já que eles também povoaram nosso horizonte artístico com as criações de Audioslave e Velvet Revolver, além dos respectivos álbuns-solo…

Enquanto seus heróis vão caindo mortos, o grunge segue em frente como pode, aos trancos e barrancos. E no epicentro deste drama, segue queimando supremo o inesgotável Nirvana: Cobain não precisou de mais que 27 anos de idade para causar um terremoto cultural que não dá sinais de que irá simplesmente desaparecer, e em pleno 2018 aquele som que smells like teen spirit está por aí, pulsando no coração do Império decadente!
O retorno, em tão boa forma, do Stone Temple Pilots nos mostra isso: o ímpeto nirvânico está sendo re-acendido. A Fênix grunge alça vôo outra vez. E ela vem enraizada no passado, atenta ao novo e disposta a ser ouvida em toda sua dissonância e dissidência.

Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro

* * * * *

OUÇA O ÁLBUM COMPLETO:


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No mundo da música, não faltam hits que gozam dos seus 15 dias de fama e que depois, passada a marola momentânea da moda, submergem no esquecimento e na insignificância. A indústria do pop exige que a fila ande… Já compor uma canção destinada ao status, bem mais duradouro, de Hino – aquele tipo de criação artística que dá voz a uma multidão de corações e mentes, que sentem-se plenamente representados pela obra – é proeza para poucos. A alcunha de Voz de uma Geração é sempre para raros.

Ao ouvi-la cantando no Festival Bananada 2018, tive fortalecida a impressão de que foi esta a façanha realizada pela Juliana Strassacapa, cantora-compositora do Francisco, El Hombre, com “Triste, Louca ou Má”, uma composição que, quanto mais o tempo passa, mais se sedimenta como uma Presença Perene na história recente da música popular brasileira.

As reações que desperta na platéia-partícipe são de um autêntico hino. E só atinge tais cumes pela importância de sua mensagem em tempos de ascensão do conservadorismo e do fascismo. Pois “Triste, Louca ou Má” é um salutar antídoto contra o machismo, a homofobia, a heterossexualidade compulsória, os velhos moldes em que querem seguir encarcerando os novos amores.

Nela, Juliana “expressa sua inquietação diante dos enquadramentos sociais aos quais as mulheres estão submetidas, e dos estereótipos que pesam sobre elas quando decidem rompê-los”, como escreveu Paula Guimarães em Catarinas.

A conjuntura do Bananada, 20ª edição, não podia ser mais propícia: em meio a esta grande celebração da potência dos festivais que resistem no Brasil, a canção do Francisco El Hombre trouxe o necessário momento reflexivo, de dor e luto, de resistência e luta.

A execução brutal de Marielle Franco, evocada no telão através de uma ilustração que entrou em amálgama com o video-clipe da canção, deu um tom dramático e trágico para uma performance vocal tão fenomenal, tão intensamente sentida, tão visceralmente entregue, que ficou a impressão de que aqueles que ali não se comoveram poderiam ir pegar no escritório dos burocratas os seus certificados de corações-de-pedra.

Com sua performance – que, muito além de vocal, é intensamente corporal – Juliana Strassacapa se alça às alturas de Cássia Eller ou de Elis Regina. Uma intérprete de corpo inteiro e de alma à flor da pele. Uma cantora que não realiza a mímese da gravação lançada no álbum (“Soltasbruxa”, de 2016), mas que modifica a melodia, a métrica, a rítmica, ao sabor do momento e seus sentimentos.

O poder das palavras também não é pouca: a letra de “Triste, Louca ou Má” tem méritos imensos, pela sua concisão, por seu desejo de afirmar com simplicidade a incapacidade de certas jaulas nos definirem, por sua poesia a um só tempo densa e acessível, qualidades também encontráveis em outro Hino recente: “Artemísia”, do Carne Doce. Com inúmeros laços e pontos de convergência entre suas propostas estéticas e suas práticas performáticas, Salma Jô e Juliana Strassacapa são hoje duas das forças vulcânicas mais impressionantes da música brasileira. E o Bananada, antenado nisso, fez muito bem em dar voz e vez a estes hinos.

A jornalista Larissa Ibúmi Moreira, que publicou recentemente seu livro “Vozes Transcendentes. Os Novos Gêneros na Música Brasileira” (Editora Hoo, 2018), fornece boas balizas para a compreensão destas novidades no cenário artístico nacional. Através de entrevistas biográficas com artistas como Liniker e os CaramelowsJohnny HookerAs Bahias e a Cozinha MineiraLinn da QuebradaRico DalasamLuana Hansen, dentre outros, a autora aponta para a emergência de uma nova turma de provocativos e ousados artistas que vieram para bagunçar o coreto da classificação binária de gênero e colocar a MPB onde ela deve estar: na confluência das diversidades, na expressão da multiplicidade que somos.

Nesta conjuntura é que “Triste, Louca Ou Má” serve não apenas como emblema, mas como obra de potência inesgotável, sem data de validade, que não vai cessar de nos comover:

“Triste louca ou má
Será qualificada
Ela quem recusar
Seguir receita tal

A receita cultural
Do marido, da família
Cuida, cuida da rotina

Só mesmo rejeita
Bem conhecida receita
Quem não sem dores
Aceita que tudo deve mudar

Que um homem não te define
Sua casa não te define
Sua carne não te define
Você é seu próprio lar

Um homem não te define
Sua casa não te define
Sua carne não te define

Ela desatinou
Desatou nós
Vai viver só

Ela desatinou
Desatou nós
Vai viver só

Eu não me vejo na palavra
Fêmea: Alvo de caça
Conformada vítima

Prefiro queimar o mapa
Traçar de novo a estrada
Ver cores nas cinzas
E a vida reinventar

E um homem não me define
Minha casa não me define
Minha carne não me define
Eu sou meu próprio lar

Ela desatinou
Desatou nós
Vai viver só.”

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AO VIVO NO PSICODÁLIA 2018, COM MULAMBA:



LIBERDADE É NÃO TER MEDO

Encarnação exuberante do empoderamento feminino, Larissa Luz agitou com sua música de rebeldia e resistência o Festival Bananada 2018 e o III Encontro de Culturas Negras do Instituto Federal de Goiás (IFG) – oficial, duas ocasiões em que mostrou, em Goiás, o que significa um artista estar à altura das urgências do tempo histórico.

No palco, Larissa Luz brilhava sob as luzes dos holofotes coloridos como uma pantera negra que, evocando Nina Simone, encarnava o lema “liberdade é não ter medo”. Esta definição libertária (“freedom = no fear!”), veiculada no excelente doc What Happened, Miss Simone?, é reativada por Larissa não somente em seu cantar e em seu poetar, mas em toda a expressividade do seu corpo em movimento. Ela discursa contra os retrocessos, puxa um Fora Michel Temer (“e toda sua corja maligna!”) e depois embarca com a carne em chamas na rubra rebeldia de “Território Conquistado” (dê o play e confira!).

Como que possuída pelos orixás do ritmo e enraizada numa densa ancestralidade, ela demoliu com sua atitude afropunk qualquer estereótipo da mulher como “sexo frágil”. Eclética e audaz, Larissa mescla vertentes com despudor, tacando no mesmo liquidificador o axé, o reggae, o soul, o funk, o rock, sempre com uma expressão corporal espantosa, leve e solta como quem não tem nenhuma corrente a lhe prender. Com seu black-maiô todo molhado de suor, com suas afro-tranças balouçando ao vento, ela não só dá a impressão de ser poderosa: ela emana poderio em meio à MunDança em que estamos. Faz-nos pensar no potencial ritualístico que a música desempenha desde tempos imemoriais, quando servia como força invisível a congregar os indivíduos em um mesmo caldeirão de fusão mística com a Cosmovência.

Evoca também a sabedoria valente de Angela Davis, de Bell Hooks, de Maya Angelou, de Carolina Maria de Jesus, de Jovelina Pérola Negra, de Clementina de Jesus, de Dona Ivone Lara, pois Larissa Luz é uma mulher cultíssima e seu show é pura Pedagogia do Oprimido. Ela é enraizamento na ancestralidade e abertura para o futuro a construir. E neste porvir, as aberrações do racismo, do machismo e do classismo vão – oxálá! – ficar enterrados numa história morta, num museu da antiga estupidez humana. Há chão pela frente – e ela prefere lutar dançando. “Nem vem como quem quer fazer de mim ninguém! / Eu sou uma mulher livre da sina e da obsessão / Eu sou o que eu quiser!”

Ela é, dentre as artistas brasileiras contemporâneas, uma das melhores encarnações do empoderamento feminino e da celebração ousada da negritude, que levanta a voz e faz do corpo inteiro uma bandeira que manifesta: “tire seu racismo do caminho que eu vou passar com minha cor”.

Descolonizada, ela adentra o recinto um pouco escondida detrás de um manto negro, um pouco pesado para o clima dos trópicos, e solta a voz poderosa, assustando os tímpanos dos incautos com uma sonzeira de volume ensurdecedor. De modo similar ao BaianaSystem e Russo Passapusso, Larissa sobre o palco é capaz de uma imersão profunda na experiência presente e convida o público a “mergulhar no descontrole”, de modo tão impressionante que estes artistas baianos estão entre as melhores vivências de que se pode participar hoje no Brasil se você frequenta os festivais de música que efervescem pelo território nacional.

Acompanhada por um percussionista e um guitarrista, além de duas dançarinas, Larissa é senhora do processo com tal confiança em si que ficamos com a sensação de esta não é uma mulher que aprendeu a hesitar. Nenhuma subserviência. Só exuberância. África e América de mãos dadas, fazendo música contra a opressão, mas celebrando a existência no interior deste vivo processo de luta e de partilha.

O que o Brasil tem de melhor – sua força mestiça, sua mescla afro-americana-indígena, sua capacidade de reinvenção diante das adversidades extremas, sua ritmicidade supra-racional, sua musicalidade sem limites – aparece encarnado em Larissa Negra-Luz. Ela carrega seu aprendizado pretérito junto ao Ara Ketu, seus muitos carnavais em Salvador já vividos, e chega como uma mulher que vem chaqualhar ainda mais o cenário musical do país. Caldeirão da diversidade, a música brasileira tem hoje em Larissa Luz uma de suas mais emblemáticas e relevantes artistas, capaz de levar rebeldia, resistência e utopia aos ouvidos e cinturas das massas que dançam. Evoé, saravá e axé!

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Eduardo Carli de Moraes @ A Casa de Vidro (www.acasadevidro.com).

SIGA VIAGEM:

Abaixo, espie Larissa Luz na canção “Território Conquistado”, ao vivo no Encontro de Culturas Negras do Instituto Federal de Goiás (IFG) – oficial – um vídeo exclusivo A Casa de Vidro. No texto anexo ao vídeo, faço uma defesa do valor artístico, cultural e político desta excelente artista brasileira – que serve como uma espécie de manifesto em prol de um “empoderamento” que vá para além da pose-pop mercantilizável nos hipermercados informacionais da indústria do hype. Assista no Youtube: https://youtu.be/FQiL_XCc_dk.



Anitta filmando “Vai Malandra” no Vidigal: ícone do “empoderamento feminino” ou exploradora de estereótipos machistas?

 

POP MOVIDO À VÁCUO, TRAVESTIDO DE EMPODERAMENTO – O CASO ANITTA

O mecanismo do hype é uma peste: por um lado, lança todos os holofotes sobre os artistas pop estouradões nas paradas de xuxéxo, como Anitta e Pablo Vittar. De outro, relega às sombras da relativa obscuridade muitos artistas independentes que realmente levam a extremos de radicalidade e significância o tal do “empoderamento” hoje tão em voga, como é o caso de minas geniais como a Larissa Luz e a Tássia Reis, aqui no Brasil, ou Anita Tijoux (Chile) e Rebecca Lane (Guatemala), no contexto latino-americano.

Se vocês nunca ouviram a arte de Larissa e Tássia, mas estão carecas de ouvir os pop-hits de Anitta e Pablo, ei-nos aí diante X do problema: uma indústria cultural que entroniza como ídolos não os artistas mais evidentemente expressivos e relevantes, dotados de sadia rebeldia, veículos de criticidade musicada, vontade libertadora e outras virtudes do “artista engajado”, mas sim os produtos identitários mais facilmente vendáveis e hypáveis, que lucram nas asas sujas dos estereótipos, vomitando clichês mal-reciclados sob a aparência enganosa do novo.

Eis um mundo onde o pop-lixo, descartável e fútil, é rei das paradas, enquanto 99% dos brasileiros nunca escutaram o Metá Metá, onde esplende todo o brilhantismo de Juçara Marçal, e não chegaram a experienciar o choque estético salutar do clipe “P.U.T.A.” do Mulamba:


Anitta rebolando a raba e cantando sobre porra-nenhuma-de-relevância foi um estouro – cerca de 80 milhões de acessos no Youtube em uma semana, o que fez de “Vai Malandra” um dos maiores hits brasileiros na história da música na era da Web. Diante do clipe, a única coisa que consegui pensar em termos de precedente histórico foi o estouro do É o Tchan… Anitta é uma popstar que evoca aquela onda epidêmica do “descendo na boquinha da garrafa”. E o mais curioso de tudo são os debates que Anitta pôde suscitar por ser, supostamente, um ícone de mulher empoderada – quando não passa, isso sim, de uma empresária-de-si-mesma, muito bem adaptada aos parâmetros do empreendedorismo anarco-capitalista aplicado ao cenário musical comercial.

O problema é a estreiteza de horizonte que se apodera de boa parte dos reféns da cultura de massa, que passam às vezes a crer que Anitta é um ícone do “empoderamento feminino” unicamente pois é uma mina bem-sucedida no mercado da música, quando deveríamos distinguir entre estar no top of the pops e realmente representar a causa feminista.  Diante de forças culturais como Tijoux e R. Lane, Anitta parece uma anã, uma títere da indústria cultural, ou uma oportunista que surfa nas ondas do hype. Na real, são Tijoux e Lane – e não Anitta – alguns dos exemplos autênticos de artistas que põe toda a potência exuberante de sua almas de guerreiras latino-americanas a serviço da demolição criativa do Patriarcado machista-opressor:


Ademais, aqui no Brasil, quando contrasto Larissa Luz e Anitta, fico com a impressão de que a primeira é a autêntica revolução estética e comportamental, o emblema da mulher negra empoderada e expressiva, enraizada e exuberante, união sincrônica de postura afropunk e discurso libertário e anti-opressivo, e que a segunda é muito mais uma mercadoria lucrativa para as corporações que a mercadejam, uma mina que pratica um funk-ostentação de mérito artístico quase nulo.

Por mais que eu a admire como pensadora e ativista, não engulo todos os volteios retóricos e intelectuais da Ivana Bentes, na Revista CULT (http://bit.ly/2BTPZiN), para provar a maravilhosidade do sucesso da Anitta, quando me parece que deveríamos é agir como caixas de ressonância e de divulgação de artistas muito mais relevantes. É inaceitável pra mim que grandes intelectuais brasileiros façam apologia à identificação massiva idólatra em relação à Anitta, enquanto temos figuras em atividade que merecem muito mais nossos louvores, mesmo no âmbito da cultura massificada – penso em Pitty, Karol Konká, Elza Soares etc..

Podem questionar: que parâmetros tenho pra julgar “mérito artístico”? E não seriam estes parâmetros culpados de elitismo? Não acho: Anitta e Pablo Vittar tem canções de uma rasidão lírica tão brutal que seria delirante alguém que julgasse que suas letras pudessem ser descritas como “poesia popular”, parecendo muito mais criações de publicitários antenados com o que bomba no baile. São letras tão rasas quanto aquela piscina de borracha na laje onde Anitta exibe-se no clipe bombadão de “Vai Malandra”.

Larissa Luz e Tássia Reis, por outro lado, são poetisas genuínas, com a língua em chamas, mestras da palavra que encanta e provoca, sábias griôs de raízes fincadas em ancestralidades. São o Verbo em estado de graça e a encarnação sublime do rap como Ritmo e Poesia em estado de sublevação.

Celebrar Anitta e passar em silêncio sobre um álbum genial como “Território Conquistado” de Larissa Luz parece-me um dos sintomas de tudo o que está errado com a “lógica do hype” que preside às ações da indústria cultural contemporânea. Idolatrar Anitta e não dar a mínima para o pujante cenário do rap-das-minas, com vários vídeos cypher geniais, também não faz sentido – o que merece o holofote continua na penumbra!


Podem contestar também que uma canção não se julga somente pela letra, e até concordo. Mas a mensagem da canção, se pode ser transmitida também pela expressão corporal, pela dança, pela mímica, pelas imagens do videoclipe, pela atitude ou postura do artista no palco, é sim, em larga medida, dependente  da palavra como veículo.

Não se trata de logocentrismo, ou verbalismo, mas de reconhecer que canção é sobretudo palavra cantada e que boa parte da relevância sócio-política provêm de mensagens expressas nos versos e rimas. E Anitta e Pablo Vittar são uma miséria em termos de palavra cantada – são letras ruins de dar dó. Numa hipotética batalha de MCs, Anitta e Pablo Vittar seriam totalmente trucidadas pela lábia de Larissa e Tássia.


“Vejo pedras preciosas no meio do lamaçal
Muita gente conformada com o serviço braçal
Só conseguem se enxergar na posição de serviçal
Sendo pau mandado de um ser humano boçal
Não é de igual pra igual
Tudo é muito desigual
Que Deus honre e abençoe meus irmão de Senegal
E de todos que estão mal
Vivendo na injustiça
Se afundando cada vez mais nessa areia movediça…”

Acesse a letra de “Da Lama / Afrontamento”

Elika Takimoto, em artigo polêmico publicado em Diário do Centro do Mundo, pôs vários dedos em múltiplas feridas e se perguntou: “o que o cu tem a ver com a causa?” O que Anitta lacrando na laje tem a ver com as lutas mais salutares do feminismo contra os horrores recorrentes da violência contra a mulher, os chocantes índices de feminicídio, a falta de autêntico direito ao aborto etc.? Poucos notaram, aliás, que a letra de “Vai Malandra” – clipe dirigido por um cara acusado de várias agressões sexuais… – inclui um trecho onde um rapper gringo fala, com a agressividade de um macho-alfa, que quer “espancar” a bunda dela; versos antes, havia dito que queria pôr uma taça de bebida sobre aquele bumbum; há necessidade de mais evidências da objetificação do corpo da mulher, reduzido a uma mesa de bar bunduda onde apoiar um copo ou a um bundona que pode ser espancada?

“Booty big, sit a glass on it
See my zipper, put that ass on it
Hypnotized by the way you shake it
I can’t lie, I’m try and see you naked
Anitta, baby, I’m try and spank it
I can give it to you, can you take it?”

Letra de “Vai Malandra”

Já Alceu Castilho escreveu uma crítica muito precisa sobre o tema – e que assino embaixo:

“Passo os olhos nos comentários sobre Anitta e Pablo Vittar e observo uma certa ingenuidade em relação aos meandros da indústria cultural. Como se a incorporação (cínica) de determinadas causas não fosse calculada pelas gravadoras. O entretenimento na era de sua reprodutibilidade identitária.

Ou supostamente identitária, no caso da Anitta, já que é possível ler o clipe a partir da tradição de exportação de estereótipos de sensualidade. Bumbum à brasileira como empoderamento de quem? Da Anitta? Chegamos a 2017 achando que é apenas o indivíduo que está em jogo?

Anitta e Pablo são peças tão descartáveis na indústria do entretenimento como foram outros tantos. Onde está a Carla Peres? Ela também foi “empoderada” há 20 anos? A discussão é velha, bem sei, mas impressiona não termos entendido como funciona o sistema – a indústria.

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Ou o paraíso possível da classe operária se tornou a ocupação ilusória de espaços cuidadosamente cedidos por executivos oportunistas? Algo como um Cavalo de Troia caminhando para trás, em clipe dirigido pelo (acusado de abusos sexuais) Terry Richardson?

Até as ilusões da indústria do entretenimento já foram objeto da indústria do entretenimento (vejam “Belíssima”, do Luchino Visconti, de 1951), mas seguimos lidando com as escolhas dos tubarões como se estivéssemos assistindo apenas a ascensões heroicas de gente-que-se-empodera.

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Como aquelas histórias cíclicas na imprensa (irmã siamesa de toda essa farsa) de gente que vendia alguma coisa por 20 centavos e se tornou uma mega empreendedora milionária. Histórias da carochinha capitalista, mais do mesmo da invenção midiática da meritocracia.

Chances dessa indústria estar, de fato, preocupada com revogação de preconceitos e discriminações, de dar visibilidade efetiva à vida nas favelas? Menor que a de ganharmos amanhã na Mega-Sena. Outros pilotos virão. Anitta e Pablo serão sacrificadas na próxima curva do S.

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O sistema é rude e cruel e não gira em torno de gostos (bons ou ruins), mas de cifras. Qualquer apresentador oriundo do mundo cão que atire bacalhaus na plateia poderá ser alçado à condição de cult, sempre que convenha. Ainda não entendemos nem mesmo Chacrinha e suas chacretes.” ALCEU CASTILHO

O que queremos de verdade é que o pop seja tomado de assalto por artistas que estejam à altura das emergências do tempo histórico, que não se vendam por sucessos fáceis a papaguear os clichês de comprovado potencial mercadológico. O que queremos é mais canções que venham, numa perspectiva intersecional de luta contra todas as formas de opressão, para demolir por infiltração subversiva o império nefasto do machismo, do racismo, do classismo. O que queremos é mais música que nos comova coletivamente, libertando-nos de todas as jaulas que buscam nos aprisionar ao nos definir, abrindo-nos ao céu ilimitado dos que sabem que livres são os que não tem medo.