SANGUE LATINO – Canal Brasil e Nepomuceno Filmes: entrevistas com Eduardo Galeano, Mia Couto, Leonardo Boff, dentre outros.

Alguns dos principais intelectuais da América Latina estão reunidos no Canal Brasil no programa Sangue Latino. O escritor e jornalista Eric Nepomuceno reuniu escritores, músicos, poetas, artistas plásticos e outros grandes pensadores do continente em conversas sobre a situação política, literatura, música, cultura e política dos países da região, entre outros temas que serão abordados na atração. As entrevistas de “Sangue Latino” tiveram diversas locações e foram gravadas no Uruguai, Argentina, Chile e no Brasil, sempre em clima intimista e sem uma pauta previamente determinada para cada convidado.Dirigido por Felipe Nepomuceno – filho do apresentador – e produzido pela Urca Filmes, o programa traz nomes de grande influência na cultura latino-americana. Entre os entrevistados, o escritor e compositor brasileiro Chico Buarque, o escritor uruguaio Eduardo Galeano – autor do premiado “As Veias Abertas da América Latina” – e o artista plástico argentino Leon Ferrari, considerado pelo jornal norte americano “New York Times” como um dos cinco artistas vivos mais provocadores e importantes do mundo. Sangue Latino foi gravado com câmeras de alta resolução, e com imagens apenas em preto e branco, o que dá ao programa uma linguagem documental. A trilha sonora foi composta em uma jam session com o pianista e acordeonista Marcos Nimrichter, apresentador do Estúdio 66, outro programa do Canal Brasil. – SITE OFICIAL


ASSISTA:

EDUARDO GALEANO


MIA COUTO


LEONARDO BOFF


DIRA PAES


EDUARDO COUTINHO


PEDRO JUAN GUTIÉRREZ


FERREIRA GULLAR


LEONARDO PADURA


ANTONIO TORRES


YAMANDU COSTA


ÁNGELES MASTRETTA


FERNANDO MORAIS


RICARDO DARÍN


RUY GUERRA


MATILDE CAMPILHO


ADRIANA VAREJÃO


WALTER CARVALHO


MILTON NASCIMENTO


LEON FERRARI


CAETANO VELOSO


LAURA RESTREPO


FERNANDO SOLANAS

AS VIDAS QUE QUASE NINGUÉM VÊ: Como o jornalirismo de Eliane Brum visibiliza a diversidade humana e a unicidade dos destinos [A CASA DE VIDRO.COM]

AS VIDAS QUE QUASE NINGUÉM VÊ

Como o jornalirismo de Eliane Brum visibiliza a diversidade humana e a unicidade dos destinos

por Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro

I. ENSAIO SOBRE A INVISIBILIDADE E SUA SUPERAÇÃO

Eliane Brum devota-se a visibilizar os invisíveis. É uma professora do olhar que ensina a enxergar aquilo que cotidianamente passa desapercebido. Apesar de escrever sempre em prosa, dá a sensação de ser uma poetisa de mão cheia, com similaridades de percepção e visão de mundo com um Manoel de Barros (1916 – 2014), o “apanhador de desperdícios” e autor do Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo.

Ambos, Brum e Barros, buscam dar importância ao desimportante, transvendo o mundo, em uma operação que supera as saramaguianas cegueiras que nos cobrem de cataratas a mente, tornando invisíveis os mistérios e maravilhas do cotidiano. Fazendo-nos cegos às unicidades irrepetíveis dos destinos de cada um e de todos.

Encantadora em seu uso da palavra pois capaz de encantar-se com tudo o que de extraordinário pode-se descobrir por trás das névoas da cotidianidade cinza, esta é Eliane Brum, uma das escritoras em atividade que melhor consegue conjugar a sensibilidade mais apurada com o senso crítico mais mordaz.

Ela parece ter também como mantra algo semelhante ao “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”, célebre canto do poeta Vinícius de Moraes. Cada reportagem de Eliane Brum é toda uma universidade do encontro, toda uma aula magna sobre a aventura de conhecer o outro. E ela tem o dom da contadora de histórias, que conquista o interesse do leitor-ouvinte com firmes garras, talento desenvolvido por um longo e fecundo convívio com os livros, desde a primeira infância como devoradora de Monteiro Lobato.

Eliane Brum têm revolucionado o jornalismo justamente pois subverte seus cânones, recusa seus clichês, revolta-se contra os estereótipos e realiza uma nova aventura no campo daquilo que convencionou-se chamar de jornalismo literário. Ela não refaz caminhos já pisados por um Gay Talese, um Tom Wolfe, um Eduardo Galeano, um Eric Nepomuceno, mas forja uma travessia própria, refulgente de originalidade.

Em seus textos, ainda que nunca percamos a sensação forte de que aquilo que está escrito tem forte ancoragem e enraizamento em um real vivenciado de corpo e alma, é vigorosa também a presença de um ímpeto de honestidade, de boa-fé, de autenticidade, que torna explícito novamente aquilo que o jornalismo institucionalizado, carcomido pelo capitalismo emporcalhante, esforça-se em esquecer: jornalismo é compromisso com a verdade.

capa_coluna_prestesEliane Brum é alguém que se recusa a mentir, a dourar a pílula, a semear ilusões. Tem pacto de compromisso com a realidade que ela desvela mas não inventa, que ela descreve mas não falsifica, que ela poetiza mas não transforma em quimera. Alguém que caminha pelo mundo em busca do avesso da lenda – nome, aliás, de seu livro-reportagem realizado ao seguir os rastros da Coluna Prestes.

Como relembra Marcelo Rech, uma das vivências de maturação mais cruciais na travessia da talentosa repórter gaúcha deu-se em 1993:

“Eliane havia ensaiado sua vida que ninguém vê numa histórica série de reportagens sobre a Coluna Prestes – ou melhor, sobre a Coluna Prestes que ninguém via. Ao percorrer 25 mil quilômetros empoeirados do Brasil, Eliane nutriu suas anotações com a matéria-prima das melhores reportagens: a gente comum. Das testemunhas anciãs da passagem da Coluna, a quem passou chamar de “o povo do caminho”, obteve o mais surpreendente e fiel relato sobre a marcha de homens que a parte do país com voz – 70 anos depois – considerava heroica mas que, na verdade da repórter, se delineava também como uma procissão de roubos e atrocidades. Ao contrapor seu “povo do caminho” à história oficial da esquerda, Eliane despertou a ira de quem erguia mitos com pés de barro, mas fez deitar em paz o maior patrimônio de um jornalista: sua própria consciência.” (RECH, prefácio à A Vida Que Ninguém Vê) [1]

A empatia que emana de Eliane Brum como uma aura invisível, nestes tempos em que é vigente uma persistente e onipenetrante crisis of perception (Fritjof Capra), é preciosa e inestimável para acelerarmos rumo ao ponto de mutação com alguma chance de que, desta vez, mutemos rumo ao melhor. Que mutemos na direção alguma possível evolução, ao invés de degringolarmos mais uma vez na fossa coletiva do pesadelo e do desespero, da discórdia e da guerra, da incompreensão e da incapacidade de diálogo e encontro.

A inestimável escola de humanidade que são os textos de Brum é uma que muito bem faríamos em frequentar mais e mais, em peregrino e perene aprendizado, aprendendo com esta aprendiz – ela que nunca se recusa a deixar-se ensinar por alguém (nem mesmo por um bicho detrás das grades de uma jaula de zoo).

Pois Eliane vê a miséria e a glória da vida, qualquer que esta seja, que com frequência demasiada não enxergamos. Ela vê o que pra quase todo mundo passa batido, e por isso ela – sua obra e sua práxis – é tão socialmente imprescindível quanto os médicos que operam cataratas e devolvem a visão aos olhos doentes. Aonde qualquer um de nós, num dia banal, no dissabor da sobriedade e do tédio, encontra somente um macaco na jaula ou um pedinte na rua, Brum encontra muito mais: encontra destinos. Entretecidos com outros destinos. Numa teia de acachapante complexidade – e beleza, e horror, e fascínio, e asco…

Ela sabe que cada indivíduo é parte de um todo, que não há pessoa desvinculável de um contexto. Pintora pertinaz e detalhista, sensível e empática, daquilo que eu chamei, em outro artigo, de Fios na Teia da Vida,  texto onde a defendo que a obra de Eliane Brum é um dos exemplos supremos de como o jornalismo pode ser uma práxis em prol da defesa e do incremento de nossa ameaçada sociobiodiversidade.

Há muita sabedoria a colher, como um néctar, nos textos de Brum. Ela parece veicular uma sophia que diz: apesar de todo o horror e injustiça que macula a vida humana em todas as latitudes e longitudes, algo reluz de sublime e misterioso nas vidas, até na mais aparentemente mísera; até um filhote de barata tem sua dignidade ontológica, por exemplo, como aquela baratinha que a criança Eliane matou e que lhe deu tais tormentos internos que ela precisou exorcizá-los escrevendo sua micro-versão d’A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector (como narrado no posfácio de A Vida Que Ninguém Vê).

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“Sempre gostei das histórias pequenas. Das que se repetem, das que pertencem à gente comum. Das desimportantes. O oposto, portanto, do jornalismo clássico. Usando o clichê da reportagem, eu sempre me interessei mais pelo cachorro que morde o homem do que pelo homem que morde o cachorro – embora ache que essa seria uma história e tanto. O que esse olhar desvela é que o ordinário da vida é o extraordinário. E o que a rotina faz com a gente é encobrir essa verdade, fazendo com que o milagre do que cada vida é se torne banal. Esse é o encanto de A vida que ninguém vê: contar os dramas anônimos como os épicos que são, como se cada Zé fosse um Ulisses, não por favor ou exercício de escrita, mas porque cada Zé é um Ulisses. E cada pequena vida uma Odisseia.” – ELIANE BRUM [2]

Leiam, por exemplo, “O Cativeiro” e “O Sapo”: no primeiro, ela transforma uma reportagem sobre os bichos no zoológico em uma profunda reflexão sobre o ser humano em sua relação com o restante do reino animal; na segunda, revela quem é aquele pedinte, sempre grudado ao chão da rua como um sapo (o que rendeu-lhe o apelido), por quem os transeuntes passam, com ligeiros olhares de pena ou desdenhosas desatenções, alguns deixando cair alguns moedinhas de esmola, restituído pela reportagem à dignidade intrínseca e à unicidade de destino que, de verdade, são dons de nossa comum humanidade, tão espezinhadas por nós humanos…

eliane-brum-a-vida-que-ninguem-ve-capa“Celebradas pelo Prêmio Esso de Jornalismo – Regional Sul de 1999, Eliane e suas A vida que ninguém vê foram como o encontro do cálice com o vinho. Fenômeno de percepção jornalística, Eliane iluminou um mundo recluso, obscurecido pela emergência da notícia ou pela máxima de que, em jornalismo, a história só existe quando o homem é quem morde o cachorro. A série provou o contrário. Ao extrair reportagens antológicas de onde outros só enxergariam a mesmice, Eliane deu a zés e marias do sul do Brasil a envergadura de personagens de literatura tolstoiana e reverteu um dos mais arraigados dogmas da imprensa. Um dia, quem sabe, algum desses acadêmicos da comunicação que se debruçam sobre aquelas teses herméticas deslocadas da vida real das redações também encare a tarefa de trazer à luz como Eliane traçou uma parte da história do jornalismo brasileiro ao escrever notáveis reportagens (ou seriam crônicas?) extirpadas das ruas anônimas.” (MARCELO RECH, prefácio.) [3]

Eliane Brum, nestas magistrais reportagens que perfazem as páginas deste papador-de-Esso-e-Jabuti que é  A Vida Que Ninguém Vêescritas em Porto Alegre, em 1999, para coluna homônima do Zero Hora, foi atrás de conhecer aqueles que não costumamos julgar dignos de ser conhecidos. Descobriu tesouros de humanidade e humor, de resiliência e resistência, de tragédia e drama, nas vidas que nunca aparecem na TV. F

az-nos conhecer o colecionador de refugos urbanos, que infunde beleza àquilo que outros legaram à lixeira. Expõe trabalhadores em situações bizarras, como o funcionário do aeroporto, carregador de malas por mais de 3 décadas, mas que nunca havia voado – até que, enfim, perde a virgindade em matéria de avião (“Alair Quer Voar”).

Também vai perseguir histórias reais bem longe dos palácios e das coletivas de imprensa, vai aos fossos, vê as crianças saindo do poço do esgoto, frequenta os velórios e as UTIs. Em sua obra não há escassez de reflexões forjadas em cemitérios ou diante de cadáveres. Extraí daí não a morbidez, algum tipo de niilismo de desistente, mas sim a lição de que até diante da morte a multiplicidade de manifestações da vida humana embasbaca quem não é babaca e sabe abrir o olho pra enxergar. Ver a maravilhosa reflexão filosófica que vai de contrabando com a narrativa sobre o chorador profissional da aldeia ou no pungente Enterro de Pobre (click e leia na íntegra).

Nada nem ninguém lhe parece indigno de atenção. Histórias de vida dignas de serem contadas pululam por aí como pequeninos grilos saltitantes que não notamos pois estamos demasiado afundados, como avestruzes, na areia de nossos celulares e telas de PC. Eliane Brum, animada por sua estrela-guia íntima, sua irrefreável curiosidade em relação à multiplicidade da vida, habita um mundo polvilhado de prodígios narráveis que encontram-se largados pelo pó dos caminhos.

Mas não é só isso: seu olhar é tão penetrante, profundo, revelador, pois é um olhar todo mergulhado na história. E sua pena não é a de alguém que registra o presente, mas de alguém que sabe conectar-se ao passado, ao percurso transcorrido, de modo que sua prosa é a de uma memorialista. Isto é, de um combatente em franca insurgência contra as potências do esquecimento. Por isso, sua obra alinha-se ao formidável esforço jornalístico-memorialístico da Dani Arbex no livro Holocausto Brasileiro (click e saiba muito mais).

Ela está ciente de que muita glória, que pôde um dia ter parecido imorredoura, revela-se com o andar da carruagem do tempo como perecedoura, mera vanitas que se desfaz em névoa: diante da estátua do Conde de Porto Alegre, ela evoca alguém que foi glorioso outrora, alguém que quis ser celebrado em epopéias como um Aquiles ou Ulisses, reduzido a limada pedra onde mijam os mendigos e de quem às vezes comenta-se: “quem foi esse cara?!? o que será que ele fez na vida?”

Eliane Brum, ao invés de fazer-se memorialista dos grandes e privilegiados, parece sempre preferir aproximar-se daqueles de destino mais vulnerável, justamente aqueles que estão mais ameaçados por um olvido que não demora. Um olvido que chega a preceder a morte. Um olvido que se confunde com suas vidas. São as vidas que ninguém vê, as vidas dos esquecidos, cada um deles uma manifestação irrepetível e única da vida neste universo.

* * * * *

Eliane Brum em território Ianomâmi, em Roraima, em 2001. A reportagem é "A Guerra do Começo do Mundo", está em O Olho da Rua.

Eliane Brum em território Ianomâmi, em Roraima, em 2001. A reportagem é “A Guerra do Começo do Mundo”, está em O Olho da Rua.

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II. JORNALIRISMO REVELADOR DA POESIA POR TRÁS DA POEIRA COTIDIANA

O jornalismo e o lirismo dançam tão juntos no palco dos escritos de Eliane Brum que estes talvez mereçam o título de inauguradores do “Jornalirismo” brasileiro. Um professor ensinou-lhe que “jornalista era o homem (ou mulher) que estava lá, pessoalmente (e não por telefone ou por e-mail), com os dois pés enfiados na lama dos acontecimentos.” [4] A discípula seguiu a receita à risca: sem pudores, pôs seus pés nas agruras da realidade, na convicção de que “repórter de verdade atravessa a rua de si mesmo para olhar a realidade do outro lado de sua visão de mundo. Só assim pode chegar mais perto da verdade – ou das verdades – da história que se propôs a contar.” [5]

ebrum-0474Jornalista não é o papagaio de uma ideologia que a empresa que lhe emprega manda-lhe disseminar (e que ele, como cão amestrado e submisso, acata). Jornalista não é também aquele que brada “eu! eu! eu!” e quer ser a estrela da reportagem (argumento anti-gonzo que a obra de Brum discute e problematiza, já que ela também tem um texto que às vezes carrega alta carga confessional e “subjetivista”).

Jornalista é um bicho que, tal como Brum compreende este ofício (que ela hoje exerce no Brasil com raro e refulgente brilhantismo!), deve servir às verdades plurais, pôr-se a serviço daqueles que não são ouvidos, amplificar as vozes que são esmagadas ou silenciadas pelos poderes hegemônicos. Eliane Brum escuta a sinfonia da vida em todo seu desconcerto e polifonia; depois pinta em suas páginas alguns retratos, profundamente humanos, de gente que briga para criar sentido e graça em meio ao tsunami de nonsense, violência e descalabro.

Eliane Brum vai buscar seus personagens nas periferias, nos presídios, nas aldeias indígenas, nas estradas de terra distantes dos grandes centros urbanos, nas florestas repletas de bichos exóticos e parteiras xamânicas. Seu interesse etnográfico e sua disposição para escutar as diferenças torna-a assemelhada a Eduardo Coutinho, falecido documentarista brasileiro, que sabia fazer cinema – vejam Edifício Master, Jogo de Cena ou O Fim e o Princípio – com um lirismo que também encontramos às mancheias nas palavras de Brum. 

Escritora de talento comparável ao de Rubem Alves ou Lya Luft em seu manejo audaz do dom expressivo, Eliane Brum sabe pôr chama no verbo. Aquilo que ela escreve está simultaneamente animado com emoções intensas e diversas, de um lado, e ao mesmo tempo dotado de lucidez e clareza em seus diagnósticos críticos, de outro. Para o Brasil traz muito benefício ler, compreender, digerir, disseminar a obra (em processo, atualíssima!) de Eliane Brum. Eis um “remédio” – pharmakon de primeira qualidade! – que sugiro a todos que experimentem: serve para curar cataratas psíquicas, cegueiras do cérebro, preconceitos arraigados, dogmas imobilizantes. Oswald de Andrade recomendava “ver com olhos livres”. A obra de Brum indica o rumo para os que querem ver com olhos livres, e sem prescindir da indignação e da força criadora da união e da compaixão.

Além de repórter de rara capacidade de escuta, além de descomunais poderes de expressão verbal, Eliane Brum é uma pensadora – apesar d’eu suspeitar que ela talvez prefira um termo um tanto mais lúdico, como pensadeira. Seu texto carrega reflexões que a tornam digníssima de ser considerada uma das melhores filósofas brasileiras em atividade (na companhia de Marilena Chauí, Márcia Tiburi, Maria Rita Kehl, Maria Cristina Franco Ferraz, Viviane Mosé, dentre outras).

Brum é uma buscadora de respostas para alguns dos problemas que mais a solicitam e empolgam: em especial, ela busca descobrir, em cada pessoa que ela ouve e conhece, a maneira através da qual  a pessoa tenta criar sentido para sua vida. Pois Eliane é intensamente consciente da mortalidade que nos constitui, inescapavelmente, e sobre a qual realiza tantas de suas reportagens e investigações. Um de seus “nortes” na existência é conseguir o dom búdico de, diante de dores e prazeres, possuir a “serenidade de quem sabe que é efêmero.” [6] No trecho seguinte, ela revela alguns detalhes do que pesquisou sobre o tema do morte, citando o historiador Philippe Ariès, além do grande Rubem Alves:

História_da_morteA história humana pode ser contada pela maneira como cada sociedade, em diferentes períodos, lidou com a morte. O historiador francês Philippe Ariès escreveu uma das obras mais completas sobre o tema, primeiro num pequeno livro chamado História da Morte no Ocidente e depois em 2 volumes intitulados O Homem Diante da Morte. ‘A morte no hospital, eriçado de tubos, está prestes a se tornar hoje uma imagem popular mais terrífica que o trespassado ou o esqueleto das retóricas macabras’, afirmou.

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Rubem Alves

O psicanalista Rubem Alves deu um tom confessional à impotência do homem contemporâneo  diante da medicalização da morte: ‘Tenho muito medo de morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte. Muitos dos chamados ‘recursos heroicos’ para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da ‘reverência pela vida’, Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: ‘Liberta-me’.

Começamos a morrer no exato instante em que começamos a viver. E hoje estamos mais mortos do que estávamos ontem. Mas, neste momento, mais que em qualquer outro período histórico, nós, homens e mulheres do Ocidente, vivemos a morte como uma experiência marginal. Ela se passa, de preferência, oculta dentro do hospital. E, quando perdemos alguém, nossa dor deve ser superada rapidamente, de forma asséptica como um procedimento cirúrgico, sem muito barulho e sem perturbar os amigos.

Pela lei, se perdemos um parente direto, temos direito a nos ausentar por 3 dias do trabalho. Quem casa, tem 5. Quando nasce um filho, a licença é de 120 dias para a mãe. Como se chegou à conclusão de que três dias de luto é suficiente? Por que dois é pouco e quatro é demasiado? Seria o primeiro dia usado para enterrar o morto, o segundo para limpar os armários e o terceiro para chorar? E, depois, a vida continua?” [BRUM, 7]

Eliane Brum faz coro com outra das maiores pensadoras brasileiras – Maria Rita Kehl, em seu estudo sobre a depressão O Tempo e o Cão – na recusa da “solução medicamentosa”, ou seja, a resolução dos problemas por decreto bioquímico fornecido pela tecnociência hi-tech. Ambas – Brum e Kehl – põem em questão a medicalização excessiva da vida, que tanto agrada à multimilionária indústria farmacêutica. A consciência de nossa mortalidade, a percepção de nossa finitude, as angústias e temores que podem assolar a psiquê diante do reconhecimento pleno de nossa efemeridade, não são fenômenos que mereçam ser tratados como doença, nem “curados” com doses cavalares de Prozac. Um ente querido faleceu e o mundo só nos concede 3 dias de licença no trabalho; pior: “se sofremos além do período considerado socialmente aceitável, tornamo-nos um caso patológico. Os amigos mais queridos nos dão o telefone de um psiquiatra. O que nos falta não é um ombro humano, mas antidepressivo.” [8]

Contra este ideário, Brum fala da morte como de uma escola. Ela nos ensina, a morte, sobre “como lidar com dois fatos intrínsecos à vida humana: impotência e falta de controle. (…) Ela nos lembra do que gostaríamos de esquecer. Em nossa época vende-se a ilusão de que é possível controlar com pílulas sentimentos tão intangíveis como a melancolia e a tristeza, prender a juventude à força de bisturis e cosméticos, prescindir da tradição e construir-se a si mesmo sem dever nada a ninguém. A morte nos lembra que há algo de errado nessa equação. Podemos transformar o corpo, mas não evitamos que ele morra. Podemos decidir entre marcas na prateleira, mas não decidimos deixar de morrer. Podemos fazer nossas próprias regras, mas entre elas não está viver para sempre. A morte nos confronta com a questão fundamental de nossos limites.” [9]


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III. A CIDADE PARTIDA

Vivemos em cidades partidas, e o estranho é que nas selvas de concreto tão acostumados estamos a isso que quase nada nos estarrece, que as mais abomináveis injustiças não atiçam nossa “morna rebeldia” (Criolo). Eliane Brum, em A Vida Que Ninguém Vê, fez-se a cronista de uma Porto Alegre toda cindida. Cidade partida entre os privilégios e os andrajos, entre o morro e o asfalto, entre os popstars e os esquecidos. O destino da infância massacrada pela miséria no seio da megalópole – aquilo que o sociólogo José de Souza Martins chamou, em um livro que organizou, de O Massacre dos Inocentes – é um de seus temas recorrentes. Vejam, por exemplo, a reportagem-manifesto “Sinal fechado para Camila”, o tipo de texto que assombra o leitor muito tempo depois dele atingir a última linha. Ei-lo na íntegra:

“Sinal fechado para Camila 

– Tio lindo, tia linda do meu coração. Eu pergunto a você se não tem um trocadinho ou uma fichinha pra essa pobre garotinha

Quase com certeza você ouviu esse hino em algum cruzamento de Porto Alegre. Debaixo de um sinal vermelho, o som entrando pelo vidro fechado, ameaçador como um Alien. O som entrando pela janela que você cerrou para se defender do ataque à sua consciência. Você rezando para que o sinal mude de cor, fique verde, não de esperança, mas verde de fuga. Sinal livre para escapar do rosto da menina grudado na janela. Sujando seu patrimônio. Obrigando-o a tomar conhecimento da miséria dela. Você, que paga seus impostos em dia, colabora com a campanha do agasalho, que até é um cara bacana. Subitamente transformado em réu no tribunal do sinal fechado por um rosto ranhento de criança.

Você, quase com certeza, ouviu esse hino. Pois saiba. A menina que o compôs morreu no domingo. Nunca mais ela assombrará a sua janela. A menina se chamava Camila. Camila Velasquez Xavier. Tinha dez anos. Mas os dez anos dela equivalem a cem dos seus. Camila viveu muito, até. No bairro onde ela nasceu, o Bom Jesus, 17 como ela morreram antes de completar um ano em 1997. Camila nasceu na Fátima, uma vila da Grande Bom Jesus. Vila, modo de dizer. Becos e mais becos de barracos amontoados sobre o cimento. Lá, o controle da população é feito ao natural. Só em janeiro, já tombaram quatro. Assassinatos citados em notinhas de canto de página.

Camila nasceu na Fátima, num barraco de uma peça. Quando chovia, havia tanta água fora quanto dentro. Em dez anos a família progrediu. Conseguiu um barraco de duas peças. Camila dormia com os quatro irmãos num sofá esburacado ou no chão de tábuas podres porque não havia lugar para todos. Pai e mãe desempregados, o pai um homem triste, de olhos injetados, que descia o braço sobre a mãe sempre que bebia além da conta.

Aos seis anos Camila foi enviada aos sinais para ganhar a vida da família. Logo descobriu que a concorrência era enorme. Que as janelas dos carros eram a versão moderna das muralhas medievais. Camila começou a embelezar sua tragédia. Inventou versinhos que venciam fossos e arriavam pontes levadiças, arrancando um sorriso perplexo dos motoristas. Eu não posso ficar sem você, meu trocadinho. Essa tia, esse tio queridinho vai me dar um trocadinho. Camila conquistou a sua diferença nos cruzamentos da cidade. Seus hinos se espalharam pelas sinaleiras e, mesmo depois de sua morte, seguem ecoando pela boca de outras Camilas.

Aos seis anos, flagrada na rua, Camila entrou pela primeira vez no prédio sem cor da Febem. Entraria ainda outras duas vezes. Na sexta-feira, 15 de janeiro, ela e outras cinco meninas jogaram suas trouxinhas pela janela do prédio. Um ursinho Puff de segunda mão e algumas camisetas compunham o espólio coletivo. Quando a porta se abriu para brincarem na pracinha – uma ficção de armações de ferro que há muito perdeu os balanços e as gangorras, uma ficção como a infância de todas elas – iniciaram sua jornada rumo à liberdade. Que passou na forma de um ônibus lotado para o centro de Porto Alegre.

No dia seguinte, a direção da casa informou ao plantão do Conselho Tutelar. Que anotou. Estava cumprido o trâmite burocrático. Por todo o final de semana, Camila e suas cúmplices de desamparo vagaram pelas pontes da cidade sem que ninguém as buscasse. Crianças sob a tutela do Estado vagando ao léu sem que ninguém chorasse a sua falta. Fazia calor no domingo, todo mundo lembra. Um calor tão pesado que quase se podia tocá-lo. Às 14h, de calcinha e camiseta, Camila e duas das fugitivas mergulharam no Guaíba na altura do parque Marinha do Brasil. Camila não sabia nadar. Debatendo-se como fez durante toda a vida, Camila, a senhora dos cruzamentos, submergiu.

Às 8h de segunda-feira, a notícia da fuga e da morte de Camila despertou a família. Vai ter que esperar porque ainda não abrimos a menina, informou o funcionário do Departamento Médico Legal à mãe quando ela foi recolher o corpo da filha. Camila foi enterrada na manhã de terça-feira, no caixão branco dos inocentes. A Febem pagou o enterro, pagou até uma capela funerária com ar-condicionado. Que lugar mais lindo, repetiam os familiares, assombrados com o espaço tão grande e tão verde da morte. Acompanhada por um séquito de parentes de rostos derrotados, Camila foi enterrada no Jardim da Paz. No cortejo, um único terno. Puído e manchado, envergado por um homem em quem o sofrimento abriu sulcos no rosto. Um homem tentando agarrar a dignidade que escapava como o cós da calça maior do que ele. No cortejo, nenhuma flor para Camila.

Talvez você lembre de Camila. Talvez não. Sua marca registrada, além da cantoria dos cruzamentos, eram os dedos indicador e médio eternamente na boca. Sua imagem desvalida não voltará a assombrar as janelas sob os sinais. Camila morreu. Mas os versinhos de Camila cruzaram o ar e semearam as esquinas. Não se iluda. Você não vai escapar. Há um exército de Camilas pela cidade. Haverá sempre uma delas tentando arrombar o vidro do carro com a urgência de sua fome. Camila morreu. Você, e eu também, somos cúmplices de sua morte. Nós todos a assassinamos. A questão é saber quantas Camilas precisarão morrer antes de baixarmos o vidro de nossa inconsciência. Você sabe? E agora, tio lindo, tia linda, o que você vai fazer? [23 de janeiro de 1999] [10]

Na “cidade partida”, Eliane busca chaqualhar a apatia dos conformados ao reconstruir um fio narrativo que empreste ao menos farrapo de sentido às vidas destas vidas mutiladas, atropeladas, relegadas, abandonadas, sequeladas, invisibilizadas – e que tudo isso sofreram sem nenhum merecimento, sem nenhuma culpa que justificasse tal via-crúcis. Eliane Brum sabe escrever textos trágicos, pungentes de tragicidade sem açúcar nem consolo. Semelhante à reportagem “Sinal fechado para Camila” é “O Menino do Alto”, que foca a atenção no garoto que mora no topo do morro e acaba perdendo as pernas, tornando-se uma espécie de prisioneiro na torre da favela. Incapaz de transpor o fosso social entre o alto e o asfalto, torna-se protagonista de um texto-revelação, de uma reportagem-poema, onde iluminam-se os claros e escuros de uma existência que parecia destinada ao esconderijo e ao esquecimento.

A insurgência jornalística de Eliane Brum dirige-se contra o destino de serem esquecidos que parece ser imposto por forças superiores aos milhões de esquecidos da Terra – aqueles que Franz Fanon batizou de the wretched of the earth, les damnés de la terre. Dentre eles, Brum descobre um heroísmo secreto e nada ostensivo, lutas invisíveis e sem promessa de glória, de um pai que é um “Hércules subnutrido” e de moradores sofridos de uma comunidade obrigada a ser composta por “alpinistas da miséria”.

Na cidade das iniquidades solidificadas e da solidariedade na UTI, ela atenta para as “massas de crianças desvalidas”, mas sempre busca o delineamento de individualidades, com suas idiossincrasias, nunca decaindo no cinzeiro das abstrações pálidas e descarnadas. Todas as teses sociológicas ou filosóficas, psicológicas e existenciais, que Eliane Brum veicula através de seus escritos, parecem ancoradas firmemente em sua experiência vivida e em seus encontros reais com uma multiplicidade de outros. De cada outro ela constrói um emblema para uma de suas teses essenciais: a da unicidade de destino, ou seja, a noção de que cada um de nós é irrepetível, é uma travessia efêmera ímpar por esta rocha girante no cosmos pluridimensional.

Como aquele garoto, ladrãozinho de cavalos, destemido bandido mirim que parece saído de um faroeste. O menino rouba o pangaré do carroceiro, sai galopando por Porto Alegre em pleno delírio heróico, mas não tardam até que “os cascos da realidade esmaguem os sonhos do menino” (“O Encantador de Cavalos”). Com sua cabeça posta à prêmio por ser ladrão de equinos, poderia ser relegado a uma nota de pé de página no noticiário policial do Zero Hora. Poderia ter sido tratado com manchete de imprensa marrom, Recompensa-se pela cabeça do pequeno vândalo que rouba cavalos. 

Mas Eliane Brum nunca contenta-se com o beabá do jornalismo policialesco e proto-fascista que tanto pratica-se no Brasil. Ela quer ir atrás de um passado que ilumine o presente, e assim mergulha no destino do outro, desvelando no reles ladrãozinho um personagem digno de um romance infanto-juvenil de Charles Dickens ou Mark Twin. Após uma tragédia incendiária, em que uma vela acendida para iluminar sua casinha acabou por sepultar em trevas sua vidinha tão jovem, o pequeno perdeu sua companheira de infância, a égua Sabonete. O ladrãozinho, na verdade, era animado por sonhos de re-encontro com o cavalo perdido, e Brum transforma sua saga numa “busca por Pégasus” similar à de Alexandre, o Grande. A odisséia mirim de um audaz e temerário garoto que gostaria de ter asas para transpor o terrível fosso que separa, na cidade partida, o luxo da miséria, a vida fácil da via-crúcis dos esquecidos.

20080717 / Marcelo Min / Agência Fotogarrafa / Revista Época / Hospital Servidor Público Estadual Reportagem sobre o Cuidado Paliativo do Hospital dirigido pela Dra Maria Goretti Maciel. Internação de Ailce no Hospital do Servidor. Sedação paliativa. Eliane Brum.

Eliane Brum em ação na reportagem com a Sra Ailce, que acompanhou em seus últimos dias de vida.

Sabe-se também que Eliane Brum é uma das pessoas que melhor reflete sobre a loucura neste país, e não apenas como prefaciadora da magnum opus de Daniela Arbex sobre o hospício de Colônia (MG). Sondando a lucidez que há na loucura, o método que há na fantasia e mesmo a beleza que se esconde por trás de certos crimes, Eliane faz-nos estarrecidos cúmplices de uma reflexão a um só tempo psicológica, sociológica, filosófica, que se fosse resumível em uma frase lapidar talvez pudesse ser esta: “sempre que alguém não se encaixa no mundo da maioria, é logo chamado de maluco.” (“Frida”) Sobre empatia pelos malucos na prosa poética de Eliane Brum, que por vezes até escreve com sabor de humor Raul Seixista (vejam, por exemplo, a divertidíssima crônica “A Voz”).

Os rotulados como loucos, delinquentes, imprestáveis, merecem dela sempre a atitude mais demorada do que a rapidez estúpida dos preconceitos. Ela ensina a ver para além dos rótulos e a acolher a diferença “num mundo que se especializou em esmagar, eliminar e encarcerar a diferença” (“Frida”). Através de sua prosa, multifacetada como o caleidoscópio caótico-cósmico da Vida, ela comunica a revolta contra aqueles que agem como se destinos pudessem ser destinados à lixeira. E solidariza-se com tantas Evas – pobres negras mulheres cheias de cicatrizes – que recusam-se ao destino de meras coitadas.

Uma brilhosa chama de ativo ideário ético anima os escritos de Brum, problematizadora da caridade vendida como panacéia: “a mão da caridade”, escreve ela com pena pontiaguda de provocação, é “irmã da pena, prima da hipocrisia”, e é isto que Eva renega. Em textos que ainda não tiveram toda a sua potência enfatizada pela crítica literária feminista, Eliane Brum inaugura uma galeria de revoltosas que insurgem-se muito além dos limites delineados por Albert Camus. Poderiam integrar um futuro livro chamado La Femme Revolté, a merecer lugar nas livrarias e bibliotecas lado a lado com O Segundo Sexo de Beauvoir.

Brum revela no cerne de todos nós, pulsando junto com as sístoles e diástoles do coração, um pavor que não é somente da morte física, mas da amnésia dos que ficam, os sobreviventes, sempre tão mortais e esquecidiços. Frase emblemática, em “O Exílio”: “temeu que seu mundo fosse sepultado com ela”. Emerge destes escritos a imagem impressionante, pungente, avassaladora, de um mundo que é a um só tempo viveiro e morredouro. Onde nós, viventes-mortais, “seguimos nosso combate silencioso contra o naufrágio da vida.”  (“O Exílio”)

De acordo com ela, “a maior de todas as dores” é a “invisibilidade” (“O Homem Que Comia Vidro). E o que ela escreve sobre Venise e seu “talento singular” poderia ser dito da própria Eliane Brum: “tem o dom de dar importância ao desimportante, de dar significado ao insignificante.” (“O Álbum”) Cheia de tanto som e fúria, às vezes parecendo significar nada além de caótica cacofonia, nossa vida até parece fazer um fiapinho de sentido quando tecida na fina tapeçaria verbal desta magistral artista-da-palavra. Com as palavras que ela encerra A Vida Que Ninguém Vê, encerro também este breve percurso, na esperança de que tenha despertado apetite e curiosidade para que mais e mais leitores mergulhem nesta obra tão preciosa de Eliane Brum, alguém que sempre buscou

“estimular um olhar que rompesse com o vício e o automatismo de se enxergar apenas a imagem dada, o que era do senso comum, o que fazia com que se acreditasse que a minha, a sua vida fossem bestas. A hipótese era a de que o nosso olhar fosse sendo cegado, confundido por uma espécie de catarata, causada por camadas de rotinas, decepções e aniquilamentos, que nos impedisse de ver. Vemos o que todos veem e vemos o que nos programaram para ver. Era, com toda a pretensão que a vida merece, uma proposta de insurgência. Porque nada é mais transformador do que nos percebermos extraordinários – e não ordinários como toda a miopia do mundo nos leva a crer.

(…) Esse olhar que olha para ver, que se recusa a ser enganado pela banalidade e que desconfia do óbvio é o primeiro instrumento de trabalho do repórter. Só pode ser exercido sem a mediação de máquinas. Não pretendo fazer aqui uma análise sobre as razões dessa mudança que faz com que muitos repórteres só vejam a vida – e os fatos, as pessoas – pela tela do computador. Só diria ainda que aqueles que se dobram à nova regra não-escrita são tão facilmente substituíveis – porque descartáveis – quanto os componentes eletrônicos das máquinas que elegeram para intermediar seu olhar sobre o mundo. E os primeiros a ser deletados numa das cíclicas crises das empresas de comunicação – porque deletaram antes a sua singularidade.

(…) Olhar dá medo porque é risco. Se estivermos realmente decididos a enxergar não sabemos o que vamos ver. Quando saio da redação, tenho uma ideia de para onde devo olhar e o que pretendo buscar, mas é uma ideia aberta, suficiente apenas para partir. Tenho pena dos repórteres das teses prontas, que saem não com blocos, mas com planilhas para preencher aspas predeterminadas. Donos apenas da ilusão de que a vida pode ser domesticada, classificada e encaixotada em parágrafos seguros. Tudo o que somos de melhor é resultado do espanto. Como prescindir da possibilidade de se espantar? O melhor de ir para a rua espiar o mundo é que não sabemos o que vamos encontrar. Essa é a graça maior de ser repórter. (Essa é a graça maior de ser gente.)

Se de perto ninguém é normal, de perto ninguém é herói. Essa mania de mitificar gente, alçar fulano ou beltrano ao Olimpo porque supostamente fez algo sobre-humano, empata a vida. Faz com que os supostamente pobres mortais se sintam exatamente isso: pobres mortais. Ou losers, na expressão do que a cultura americana tem de pior. Um ser humano, qualquer um, é infinitamente mais complexo e fascinante do que o mais celebrado herói. Mesmo os super, dos quadrinhos e do cinema, pode reparar: o Homem-Aranha só consegue duas horas de filme por causa do atrapalhado Peter Parker e até o Super-Homem, que veio de outro planeta, só tem atenção por conta de suas fraquezas bem terráqueas (ou quantas voltas ao redor da Terra ele precisaria dar até todo mundo roncar?). Inclusive demônios como o Hellboy só são interessantes pelo que têm de humano, da ternura ao mau humor. Vou ao limite dos super-heróis para falar de uma obrigação de repórter. Meu professor de jornalismo, um baixinho-gigante chamado Marques Leonam, dizia: “Lei Leonam número um: repórter não tem o direito de ser ingênuo. Lei Leonam número dois: repórter não tem o direito de ser ingênuo…” Acho que ia até o número dez repetindo essa máxima leoniana. Eu faria alguns adendos a essa lei fundamental. Um deles é: desconfie dos heróis, dê uma boa cheirada num mito. Eles só se aproximam da verdade quando virados pelo avesso e promovidos a homens.

Somos todos mais iguais do que gostaríamos. E, ao mesmo tempo, cada um é único, um padrão que não se repete no universo, especialíssimo. Nossa singularidade só pode ser reconhecida no universal. Tudo é um jeito de olhar. Você pode olhar para o infinito, como Carl Sagan, e descobrir que é feito da poeira de estrelas. E pode olhar para o chão e acreditar que é um cocô de cachorro. É o mesmo homem que tem diante de si o infinito e o chão. Mas é nessa decisão que cada um se define. Como olhar para você mesmo é uma escolha. Um exercício da liberdade, da autodeterminação, do livre-arbítrio. Seja generoso. Arrisque. Ouse. Olhe.” – ELIANE BRUM [11]

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Fevereiro de 2017


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] RECH, Marcelo. Prefácio de A Vida Que Ninguém Vê. Porto Alegre: Arquipélago, 2012.
[2] BRUM, Eliane. Posfácio de A Vida Que Ninguém Vê.
[3] RECH, M. Op cit.
[4] BRUM, A Primeira Pessoa Sou Eu?p. 347. In: O Olho da Rua – Uma Repórter Em Busca da Literatura da Vida Real. São Paulo, Globo: 2008.
[5] Idem nota anterior.
[6] O Inimigo Sou Eu, 2008, p. 333.
[7] A Morte Envergonhada. P. 360.
[8] Op cit, p. 362.
[9] Op cit, p. 363.
[10] Sinal Fechado Para Camila. In: A Vida Que Ninguém Vê. Op cit.
[11] Posfácio de A Vida Que Ninguém Vê.


SIGA VIAGEM:

ELIANE BRUM ENTREVISTADA POR ABUJAMRA NO PROVOCAÇÕES DA TV CULTURA (3 BLOCOS / COMPLETO)maxresdefault



DOCUMENTÁRIO “UMA HISTÓRIA SEVERINA”
De Eliane Brum e Debora Diniz

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LEIA ELIANE BRUM N’A CASA DE VIDRO:
O POVO DO MEIO
A GUERRA DO COMEÇO DO MUNDO

[Encontro de Culturas 2016 – Txt 07] “Tempo de Kuarup”: documentário revela detalhes do rito Kuarup realizado pelos povos do Alto Xingu

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Fotografias: Mariana Florêncio, X Aldeia Multiétnica / 2016

“TEMPO DE KUARUP”

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

Com direção e roteiro de Neto Borges, patrocínio do MinC (Ministério da Cultura) e do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o documentário “Tempo de Kuarup” é uma produção da Olho Filmes e foi realizada por uma parceria da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, do instituto Darcy Ribeiro e da AWAPÁ – Associação Yawalapiti. O documentário foi uma das atrações do cineclube que integra a programação do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros e foi exibido, para deslumbre do público, na noite desta quarta-feira, 27 de Julho de 2016. (Assista ao trailer oficial.)

É através do Kuarup, ritual sagrado praticado pelos povos do alto Xingu, que os viventes despedem-se de seus mortos ilustres. “Após o falecimento de um líder notório”, explica o doc, “a comunidade discute a pertinência de realizar o ritual.” Ao manter acesa a chama do Kuarup, honram os costumes dos antigos e expressam uma mitologia própria (saiba mais). Tradições milenares são assim preservadas e perpetuadas, ainda que elementos estranhos e hostis – como projetos hidrelétricos e sua procissão de devastações e etnocídios – rondem, como uma ameaça palpável, essas tribos ancestrais e suas celebrações.

Kuarup é o nome de uma das árvores da floresta que marca presença no ritual sob a forma de três troncos, representativos dos entes queridos que morreram. Os troncos são decorados e pintados pelos Yawalapiti em seus preparativos para uma grande congregação onde recebem na aldeia os convidados de várias outras etnias. Os preparativos para a cerimônia são longos e envolvem os cuidados culinários: a pescaria de uma fartura de peixes, a serem servidos aos convivas, e a preparação de alimentos à base de polvilho e pequi, dentre outros ingredientes. Tudo minuciosamente preparado para a consumação de um Encontrão de tribos durante as festividades Kuarupianas (em 2016, eles até mesmo incluíram uma alfinetada no traíra usurpador e teve #ForaTemer berrado pela pele).

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 A música e a dança são elementos essenciais para o bom andamento do ritual. A música é produzida tanto por chocalhos e maracás, que produzem a percussão e instituem um consenso rítmico, quanto por imensas “flautas” que, de acordo com Aritana Yawalapiti, tem por dono “o espírito da raiz”. Através dos sons, das danças, das pinturas corporais, dos movimentos  coreografados, o filme revela alguns ricos vislumbres da cultura xinguana, dotada de gramática rítmica própria e que expressa toda uma cosmologia, com seus mitos de origem e suas narrativas sobre a vida e a morte, a finitude e a eternidade.

O filme também é eficaz ao fazer a denúncia, sem nenhum panfletarismo ou demagogia, das devastações acarretadas por madeireiras e monoculturas, que vão invadindo e matando a mata, devastando a diversidade sociocultural e aniquilando a biodiversidade de fauna e flora. Revela também a discordância do povo Yawalapiti em relação às barragens hidrelétricas que estão sendo construídas e planejadas para a região do Xingu, devastadores projetos como Belo Monte, obras megalomaníacas que são terríveis para o equilíbrio do ecosistema todo no qual vivem a milênios os povos originários. Não são só os seres humanos que ali (re)existem que estão sendo tratorados pelo Brasil Grande das nossas elites, ecocidas, genocidas, golpistas; a Natureza sofre junto, colapsam seus equilíbrios, por exemplo nos peixes impedidos de realizar sua piracema.

“Tempo de Kuarup” é prova viva da potência do cinema-verdade para agir como expansor de horizontes. A câmera como janela que permite-nos aprender sobre perspectivas alternativas, modos-de-viver de múltiplas outras alteridades, permitindo um contato possível com culturas de densa ancestralidade. E que perpetuam a duras penas a beleza e a força de seus ritos e práticas em tempos sombrios de devastação institucionalizada. É um dos documentários essenciais para quem quer entrar em contato – ainda que mediado pelo audiovisual, o que não dispensa ninguém de outros modos de mais imediata e radical vivência de interação – com a vivacidade da tradição xinguana, que vive e resiste em rituais como o Kuarup. É todo o cotidiano existencial e arranjo político da aldeia Yawalapiti que encontra no filme um retrato à altura de sua beleza e complexidade.

SAIBA MAIS

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CONHEÇA OUTROS DOCUMENTÁRIOS INTERESSANTES DE TEMÁTICA SEMELHANTE:

* SERRAS DA DESORDEM, de Andrea Tonnacci
*  RAONI (1978), de Jean-Pierre Dutilleux e Luiz Carlos Saldanha
* ÍNDIO CIDADÃO?, de Rodrigo Siqueira
A GUERRA DE PACIFICAÇÃO DA AMAZÔNIA, de Yves Billon
MUNDURUKANIA – NA BEIRA DA HISTÓRIA, de Miguel Castro

P.S. Vale lembrar que Kuarup é também o nome de um filme brasileiro lançado em 1989, dirigido por Ruy Guerra e baseado em obra de Antônio Callado, cuja narrativa se passa no Parque Indígena do Xingu. O recente filme Xingu (2011), de Cao Hamburger, oferece uma reconstrução narrativa, altamente cinematográfica, da trajetória dos irmãos Villas-Bôas. Ambos filmes, apesar de serem obras ficcionais ou “biopics”, abrem janelas para o concreto da História real em que se inspiram.

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LEITURA SUGERIDA:

FRANCHETTO, Bruna e HECKENBERGER, Michael (orgs.). 2001. Os Povos do Alto Xingu: História e Cultura. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 496 pp.

FRANCHETTO, Bruna e HECKENBERGER, Michael (orgs.). 2001. Os Povos do Alto Xingu: História e Cultura. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 496 pp. Saiba mais.

[Encontro De Culturas 2016 – Txt 05] Os Deuses que dançam: vislumbres da cultura Guarani-Mbyá

Os Deuses que dançam: vislumbres da cultura Guarani-Mbyá

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (20 / 07 / 16)

Compartilhando seus saberes e fazeres, festas e rezas, mitos e ritos, alguns Guarani-Mbyá, vindos de Santa Catarina, marcaram presença nesta X Aldeia Multiétnica. Destacaram-se as presenças do pajé Alcindo Moreira (Werá Tupã), que tem 107 anos de idade, além de sua esposa. Rosa Mariane Potydja, que também já ultrapassou um século de vida, além do filho deles, Geraldo Moreira (Karai Okenda).

Pajé Alcindo, 107 anos. Foto: Pedro Henriques.

Pajé Alcindo Moreira, 107 anos, compartilha saberes e vivências na X Aldeia Multiétnica. Foto: Pedro Henriques.

Somados, Alcindo e Rosa já possuem mais de dois séculos de experiência vivida e servem como emblemas de uma cultura que valoriza e celebra o saber dos xeramoi, os avôs-conhecedores, verdadeiras bibliotecas vivas das tekoás (aldeias ou comunidades). Estes anciãos são respeitados por serem os detentores de uma sabedoria enraizada nos antepassados, que amadurece vida afora, como o fruto de uma árvore cultivada com esmero. São os avós que transmitem, pela tradição oral, saberes e técnicas que atravessam as gerações e são capazes, ainda hoje, de instruir e curar (como alguns conviventes deste XVI ECTCV puderam vivenciar na própria pele ao serem medicados pelos chás-do-pajé).

Em uma roda-de-prosa que contou com a presença de pai e filho, Alcindo e Geraldo, o fotógrafo gaúcho Danilo Christidis partilhou conosco um pouco do seu percurso de sete anos de convivência com os Guarani-Mbyá, no Rio Grande do Sul, que gerou um livro de fotografias inovador: Os Guarani Mbyá,publicado em Porto Alegre, 2015, pela Ed. Wences, que Danilo julga ser o primeiro, no âmbito da fotografia, a ter sido composto em co-autoria com um fotógrafo indígena, Vherá Poty (“Relâmpago Florido”). Saiba mais na matéria de Nonada.

Danilo relembra alguns momentos deste percurso: “Em 2008, uma família Mbya foi desalojada violentamente em Eldorado do Sul (RS). Recebi no meu e-mail um vídeo com um pequeno registro documental da retirada violenta desta família, e em seguida entrei em contato com o Santiago, um dos membros da família, pois tinha vontade de, por meio da fotografia, buscar estar junto com eles e formar algum tipo de parceria. Embarquei numa série de viagens com o Santiago, além de alguns antropólogos da UFRS, nas quais as lideranças indígenas decidiram pressionar o Ministério Público para que este processasse o Estado por causa da violência daquele processo de desalojamento. Os Mbyá acabaram ganhando a causa e o Estado teve que indenizar a família”.

Esta primeira vivência de Danilo junto aos Guarani-Mbyá propiciou seu encontro com Vherá Poty, uma jovem liderança que se tornaria seu parceiro para uma insólita aventura fotográfica. Danilo relembra que a princípio serviu como professor de fotografia, ensinando técnicas e truques para o Guarani.

Mas “o interessante é que os papéis se inverteram muito rapidamente: eu deixei de ser o professor e me tornei muito mais o aluno dele”, rememora Danilo. “Eu queria aprender como desconstruir o meu olhar, que é de um não-indígena (o que eles chamam de um juruá, um “boca-cabeluda”). Assim, pouco a pouco busquei entender de que forma poderia aparecer, na fotografia, um modo-de-vida. Foram sete anos convivendo para que fosse possível realizarmos este livro”.

Após esta jornada de convivência, Danilo tirou a conclusão de que “existe uma tremenda diversidade de povos originários e cada um possui uma cosmovisão própria”. No caso dos Guarani-Mbyá, o modo de conceber o universo passa pela divinização dos astros, em especial o Sol (Ñanderu Ñamandu), e tanto as danças rituais quanto o idioma estão sintonizados à esta cosmologia.

Um exemplo, explica Danilo, é a expressão em guarani que costumamos traduzir por “bom dia!”, e que na verdade é uma saudação à divindade solar que significa: “mais uma vez o Sol nos desperta”. Já a palavra tekoá, traduzida como “aldeia”, expressa uma relação da comunidade com o território, entendido como “o lugar onde pudemos ser o que somos”.

Uma das expressões da cultura Guarani-Mbyá é o xondaro, uma dança ritual onde manifesta-se também a cosmologia deste povo: através do xandaro, aqueles que dançam buscam entrar em contato com as entidades celestes conhecidas como nhanderu kuery – como o Sol e a Lua, astros que são considerados como irmãos. É interessante notar que, segundo a mitologia dos Guarani-Mbyá, “nas esferas celestes osnhanderu kuery estão dançando, cantando e fumando; na terra, os Guarani fazem como eles, em suas casas de reza (opy) e pátios”. [1]

Ou seja, quando os Guarani-Mbyá dançam, não estão apenas brincando, obedecendo aos pendores lúdicos, divertindo-se ou passando o tempo. Quando eles dançam, estão imitando os deuses. Esta religiosidade, politeísta e atenta aos fluxos e movimentos cósmicos, parece conceber também os deuses celestes como diferentes entre si, o que gera uma consequência incrível: dança-se para imitar os deuses que dançam, mas já que cada um dos deuses não dança a mesma dança, aqui na terra, concluem os Mbyá, “ninguém dança igual”.

Essas e outras portas de acesso à ancestral cultura guarani puderam ser transpostas pelos conviventes da Aldeia Multiétnica – que talvez nunca mais olhem para o Sol da mesma maneira depois de terem aprendido que, para os Mbyá, trata-se de uma divindade que, a cada manhã, desperta todos os seres e que nunca, por preguiça ou desleixo, falta ao encontro. Na aurora se pode ter uma fé absoluta: o sol não falha jamais em (re)nascer. E os astros, dançando em suas órbitas, fluindo pelo espaço, parecem pedir dos humanos uma mímesis ou imitação de sua dança.

Para abrir outros horizontes que convidem o leitor a conhecer mais sobre os Guarani-Mbyá, sua cosmologia, seus costumes, seu idioma, suas sabedorias, suas técnicas, na sequência compartilhamos as palavras de Vherá Poty, que ilustram o começo do livro fotográfico que ele co-criou na companhia de Danilo Christidis:

“Assim como as flores que atraem os pássaros e os insetos, possibilitando a formação de frutos e sementes que germinarão novas plantas, as belas palavras dos meus avós encantam meu pensamento: cores harmoniosas, aromas agradáveis e saboroso néctar.

No chão batido dos pátios ou no interior de nossas moradas, nos sentamos ao redor do fogo que nunca se apaga – há sepre alguém alentando as chamas inspiradoras com sopros e pequenos galhos -, e realçados pelas labaredas ouvimos, junto com o cocoricar dos galos, o guinchar dos bugios, o crepitar dos gravetos… as falas inspiradas dos anciãos sobre seus conhecimentos, lembranças, experiências.

Para nós, os que partilham a existência terrena, a transmissão de conhecimentos tem lugar privilegiado nos aconselhamentos dos velhos, inspirados pelos deuses, pois Eles se enfeitam e enfeitam o mundo. Suas falas são moderadas, agradáveis, plenas de cuidado, pronunciadas para fazer brotar bons e belos efeitos, voltadas para o bem-estar daqueles com quem se vive junto.

Vivemos baseados nos princípios da generosidade e da reciprocidade, que chamamos de mborayu. Viver na generosidade, compartilhando o excedente, é viver com alegria e beleza. Alegrar-se não é divertir-se, é estar tranquilo e saudável, com disposição para algum afazer e para o convívio com aqueles que estão por perto. Um mundo sem parentes é impensável. O simples, o moderado é belo, porã, e divino. Negar o excesso é entendido como um valor prescrito pelos deuses. O que é bonito assim o é porque se assemelha àquilo que é divino ou porque é mesmo divino.

 Meu nome é Vherá Poty, Relâmpago Florido, sou Guarani-Mbyá. Os velhos falam, eu escuto.” [2]

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] Artigo de Joana Cabral de Oliveira e Lucas Keese dos Santos, no livro Políticas Culturais e Povos Indígenas, ed. Unesp – Cultura Acadêmica, pg. 119.

[2] Livro fotográfico Os Guarani-Mbyá, de Danilo Christidis e Vherá Ponty. Porto Alegre, 2015, Ed. Wences.

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CONFIRA ALGUMAS FOTOS DO LIVRO DE VHERÁ POTY E DANILO CHRISTIDIS:

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mais em breve

[Encontro De Culturas 2016 – Txt 03] O DOM DA CURA: Milenares artes-da-cura revelam a densidade de saberes sobre o mundo natural conservada pelos povos indígenas através das gerações

Foto: Santi Asef na X Aldeia Multiétnica

Pajé Raimundo Dessana, na X Aldeia Multiétnica. Foto: Santi Asef.

O DOM DA CURA

Milenares artes-da-cura revelam a densidade de saberes sobre o mundo natural conservada pelos povos indígenas através das gerações

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (19 / 07 /2016)

As plantas que curam são parte integrante das culturas de povos indígenas através dos milênios. Os (con)viventes que estão na Aldeia Multiétnica têm tido várias oportunidades para conhecer mais sobre a medicina ancestral, vigente desde tempos imemoriais, que inclui chás energizantes, feitos com raízes e folhas, além de curiosos procedimentos xamânicos de intervenção curativa, hoje amplamente pesquisados pela ciência.

 Fenômenos como a disseminação transnacional da utilização terapêutica de substâncias naturais psicoativas, como o chá de ayahuasca ou o kampô (secreção cutânea da perereca Phylomedusa Bicolores), só vem corroborar a amplidão dos bio-saberes dos povos indígenas do planeta.

 Proveniente de São Paulo, a jovem Marília, uma das (con)viventes da Aldeia, compartilhou em uma roda-de-prosa um pouco de seu percurso de vida e de descoberta: “já fiquei muito doente e foram só os indígenas que foram capazes de me curar.” Esta vivência pregressa de uma cura através da maestria indígena fez com que ela buscasse saber mais e mais, numa jornada de conhecimento sem fim, sobre os saberes e fazeres destes povos que, segundo ela, “quanto mais a gente estuda, mais a gente descobre o quanto a gente ignorava.”

 A experiência de ter sido beneficiada por curandeiros indígenas foi também experienciada por uma colega de vivência, a jovem Dávila, que veio de Brasília e está pela primeira vez participando da Aldeia Multiétnica: “Passei por uma experiência surreal na madrugada de ontem”, relembra ela, durante os momentos-de-partilha com o grupo, lágrimas nos olhos e voz embargada. “Tenho bronquite, mas esqueci em casa os remédios e a ‘bombinha’. Comecei a passar muito mal, tossia demais e não conseguia respirar direito.”

 Dávila e sua amiga Samanta, que na ocasião estavam acampadas junto aos Kayapó, relatam que no meio da crise de bronquite que acometeu a adolescente ela estava desesperada para ir logo ao hospital. Velhos hábitos não morrem fácil. As duas amigas foram atrás da organização para tentar agilizar um transporte até um posto de saúde na cidade. Mas aí recomendaram à Dávila que se abrisse a um horizonte novo: talvez entre os indígenas ali congregados pudesse haver auxílio mais imediato e certeiro para seus males.

 Dávila foi assim conduzida aos cuidados do pajé Raimundo Dessana. Diante desta situação insólita, ela se confessa que se encontrava, a princípio, “meio descrente”: “Eu não tava acreditando que ia funcionar.” Para surpresa da própria paciente, através de bençãos, sopros e pedras energizadas, o pajé Dessana conseguiu controlar a crise de bronquite que afligia Dávila. Com seu saber-vivido, ele acompanhou-a até que ela melhorasse e pudesse pegar no sono. Dávila conta que acordou no dia seguinte já refeita e afirmando: “O pajé me curou.”

 Dávila atribuiu a piora em seu estado de bronquite tanto ao frio da madrugada – já que as temperaturas caem bastante nas noites da Chapada – quanto aos banhos que tomou nas águas frescas do rio São Miguel. Quando perguntadas sobre os porquês da terapia ter sido efetiva, Dávila e Samanta refletem sobre várias possibilidades, desde as mais místicas até as mais pés-no-chão.

 No primeiro caso, como relembra Dávila, o pajé não passou de um médium para a intervenção de uma influência invisível ou mágica que veio do alto: “ele disse pra mim que não era pra eu confiar nele, pessoalmente, mas sim apontou o céu e pediu que eu confiasse nele.”

 Não inteiramente convictas nesta explicação celeste, Dávila e Samanta também consideram a possibilidade que o pajé seria capaz de mobilizar, para fins terapêuticos, o que elas chamam de “energias positivas” que ele transfere para o fluxo da água receitava para a paciente por seu curandeiro. Também não descartam a possibilidade de uma ação benéfica sobre a psique da paciente gerada por um certo “pensamento positivo” que emanaria do ancião, que garantiu a Dávila, a todo momento: “Não precisa ir pro hospital não, eu vou curar você.”

 De todo modo, a certeza que ficou para Dávila é de nunca ter vivido nada parecido antes, o que ela apelidou de “uma experiência surreal”. Esta vivência serviu também como estopim para nada mais nada menos do que reflexões sobre a história humana como um todo. As duas amigas passaram a matutar sobre o bocado de tempo que transcorreu antes do advento histórico dos profissionais da medicina, dos centros hospitalares, dos impérios farmacêuticos corporativos, das tecnologias avançadas como pet-scans e neurocirurgias.

 Como argumentou Samanta, a medicina possui uma longa história construída sobre os inumeráveis testes empíricos realizados pelos povos ancestrais em interação com o mundo natural circundante. “Por muito tempo as pessoas tiveram que experimentar com as plantas até adquirir estes saberes”, é a hipótese que Samanta levante, “e nestes testes uns morriam, outros não. Nossa, o tanto de gente que morreu pra salvar a gente, vamos parar pra pensar!”

 O cinegrafista carioca Pedro Rodrigues, que trabalha na equipe de filmagem da série Índio Presente(estréia prevista para 2017 na TV Brasil), relata vivência semelhante. Após o que ele mesmo confessa ter sido uma “comilança”, ele passou mal, com diarréia e muita febre. Foi visitar o pajé dos Guarani Mbya, que tem 107 anos de idade, e o ancião logo se mostrou prestativo e foi buscar na natureza algumas folhas de poder curativo.

 “O pajé foi ali na mata buscar a medicina”, relembra Pedro, “e o que eu achei mais curioso é que esta aqui nem é a região dele. O conhecimento dele é absurdo, já que ele não está no Estado dele, está aqui na região do cerrado. Aí meu fiquei pensando: esse senhor é um compêndio botânico, conhecedor dos fitoterápicos naturais. Provavelmente o que ele me deu foi um antibactericida e um analgésico.”

 O paciente Pedro também relembra que o pajé retornou da mata com dois raminhos de folhas e consultou sua esposa, que aparenta ter quase 100 anos de idade e certamente é também detentora de profundos saberes botânicos e terapêuticos. A mulher deu o seu aval para uma das folhas pré-selecionadas, com a qual se fez um chá, “de sabor delicioso”, que Pedro passou a consumir em busca de melhoras. Quando falamos, antes do almoço, ele já dizia estar sentindo-se “50% melhor” em relação à crise da véspera.

 Diante da experiência, ele pondera: “Eu sou um cara muito científico. Como fotógrafo e cinegrafista de cinema, levo a parte técnica muito a sério. Fiquei muito assombrado com a técnica do pajé, ele não fez uma coisa qualquer: ele diagnosticou meu problema, conversando comigo e me apalpando; foi lá pra buscar a planta e fez uma comparação; tirou uma conclusão técnica; e veio com um remédio. Não foi que ele simplesmente sacudiu um negocinho, soprou uma fumacinha, houve todo um processo técnico que deu ao processo toda uma credibilidade.”

 Já Marília Cyrne, uma das viventes da Aldeia Multiétnica 2016, conta que tem se relacionado com os Guarani da região do Jaraguá (SP) há cerca de 1 ano e meio. Procurou-os pela primeira vez por interesse em aprender o idioma guarani e começou a visitar a aldeia, “criando laços com a comunidade”.

 “Enquanto isso caminhava, num determinado momento da minha vida eu comecei a ficar muito mal com transtorno de ansiedade, emagreci 8 quilos em 2 meses e comecei a ficar muito doente. Aí um dia o Tupã, um de meus melhores amigos lá da aldeia e que começou a me ensinar guarani lá na aldeia, me levou para uma aldeia um pouco mais afastada, há uma duas horas de distância, onde eles trabalham com permacultura e plantação de orquídeas. Passei a madrugada lá e ele fez um processo assim: rezava em Guarani, soprava e puxava o ar do meu corpo, enquanto ia aquecendo as mãos na fogueira. Depois disso, que durou um bom tempo, eu chorei muito e dormi muito. E daí em diante as coisas foram se resolvendo e melhorando.”

 Ela comenta que seu amigo Tupã não é o pajé da tribo, mas sim uma “liderança jovem”, enfatizando que a juventude guarani “também aprende algumas técnicas de pajelança”. A experiência mudou rumos em sua vida: “agora toda semana eu vou pra lá. É um lugar onde me sinto bem e entre amigos. Quando calhou d’eu estar mal, eles ofereceram o que eles podiam para me ajudar – e funcionou.” Marília matuta ainda, sobre a atualidade desta terapêuticas ancestrais, que os benefícios destes saberes e técnicas medicinais não se aplicam somente aos males do organismo, mas que os povos indígenas também possuem um rico e complexo arsenal de táticas para lidar com o que chamamos de problemas psiquiátricos ou psicosomáticos.

 Nada impede que os chás-de-pajé, as artes-das-curandeiras e as plantas-que-curam, que possuem tão denso passado histórico, tenham também um excelente futuro.

SAIBA MAIS: http://www.encontrodeculturas.com.br/2016/

[Encontro De Culturas 2016 – Txt 01] – A POLIFONIA DAS PROSAS: Aldeia Multiétnica chega à sua 10ª edição propiciando multiplicidade de encontros e vivências

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Pajé Raimundo Dessana fala numa roda-de-prosa durante a X Aldeia Multiétnica 2016. Foto: Pedro Henriques.

A POLIFONIA DAS PROSAS

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (16 / 07 /2016)

Catalisadora de interações interculturais e intersubjetivas intensas, a Aldeia Multiétnica 2016 chegou à sua 10ª edição e veio repleta de rodas-de-prosa. Estas propiciam ricas vivências aos presentes – indígenas, viventes, voluntários e visitantes – numa multiplicidade de encontros, debates, interconexões e partilhas.

A polifonia das prosas que emerge das rodas abarca vários temas, como extrativismo sustentável, segurança alimentar dos povos indígenas, artesanato indígena e economia criativa, convenções da Organização Internacional do Trabalho, dentre muitos outros (confira a programação completa).

Vivenciar uma roda-de-prosa revela-nos passado, presente e futuro dançando uma ciranda. Debatem-se assuntos urgentes da vida política presente, compartilham-se costumes e saberes ancestrais e abrem-se janelas para a construção de um futuro comum. Proseando é que se vão tecendo teias de solidariedade e resistência, circuitos de circulação de sabedorias. Cada um daqueles que toma a palavra busca sintetizar experiências vividas no esforço de tornar comum uma riqueza partilhável. E há magia infinda em perceber que a realidade fica enriquecida, e não diminuída, pela partilha.

A multiplicidade de oradores que se manifestam, buscando harmonizar suas diferenças, revelam várias abordagens sobre o poder do verbo e o trato correto com a palavra. Há quem não goste de palmas ao final de discurso: “eu não quero que meu espírito vá avoar e não vá voltar mais não”, reclama dos aplausos uma das lideranças indígenas.

Um exemplo da urgência do tempo presente que se impôs nas prosas deste sábado, 16 de julho, foram os rumos da FUNAI, já que neste momento histórico a ameaça de retrocesso pesa como uma nuvem ameaçadora no horizonte, como ficou claro após a possível nomeação do general Peternelli para a presidência da Fundação Nacional do Índio.

Movimento Ocupa Funai manifesta-se em Brasília, em  13 de Julho de 2016

Movimento Ocupa Funai manifesta-se em Brasília, em 13 de Julho de 2016. Acesse o blog da Mobilização Nacional Indígena.

A Aldeia Multiétnica raiou sob o impacto de eventos recentes, como a onda de ocupações e protestos do #OcupaFunai, que atingiu seu auge poucos dias antes do início do 16º Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiro, em 13 de julho, quando, como informa o Instituto Sócio-Ambiental,

“indígenas e servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai) promoveram ocupações em pelo menos 32 locais em todas as regiões do país, incluindo escritórios regionais da Funai e rodovias (veja abaixo mapa interativo). Eles protestam contra a revisão e paralisação das demarcações de Terras Indígenas (TIs), os cortes de verbas e servidores da Funai, o loteamento político da presidência do órgão, a municipalização da saúde indígena e as violências cometidas contra os povos indígenas. O movimento “Ocupa Funai” foi encabeçado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e servidores do órgão indigenista (leia a carta da APIB).”

As urgências do presente, debatidas com ardor, não impedem que os portadoras de sabedoria ancestral também se utilizem das rodas-de-prosa para comunicarem saberes e partilharem angústias, como fez o pajé Raimundo Dessana, proveniente do Amazonas. Ele refletiu em público sobre temas dos mais diversos, inclusive sobre o “fim do mundo” e a crise ecológica-civilizacional que nos assombra (saiba mais sobre Raimundo Dessana neste perfil).

Esta sinfonia polifônica de debates e partilhas constitui um mosaico onde passado, presente e futuro marcam presença conjuntamente. As rodas-de-prosa servem à transmissão dos saberes e fazeres consagrados que mantêm viva a chama da memória coletiva, mas também para discutir problemas candentes do presente que demandam a urgente ação coletiva. Assim deliberam-se rumos para a construção do futuro, no qual nada impede que floresçam iniciativas inovadoras e cheias de potencial, como a própria Aldeia Multiétnica e sua Tenda Multimídia Indígena. Ali ocorre no domingo (17/07), às 14h, a roda-de-prosa “Etnomídia e afirmação da identidade indígena”, com Denilson Baniwa, da Rádio Yandê, lideranças indígenas e convidados ligados ao tema. Vivencie!

CONFIRA ALGUMAS FOTOS DA X ALDEIA MULTIÉTNICA

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Foto: Mariana Florêncio

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Foto: Mariana Florêncio

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Foto: Mariana Florêncio

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Foto: Bruna Brandão

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Foto: Bruna Brandão

ACESSE O ÁLBUM COMPLETO COM MAIS DE 100 FOTOS

O POVO DO MEIO – Uma reportagem amazônica de Eliane Brum (2004)

O POVO DO MEIO

Por Eliane Brum

Raimundo Nonato da Silva não sabe quem é Luiz Inácio Lula da Silva. Entre os dois Silvas, o presidente do Brasil e o brasileiro sem presidente, há um vasto mundo no qual se chamar Raimundo nem é rima nem é solução. Ele vive num país desconhecido pelo próprio Brasil, onde a maioria dos homens atende por Raimundo. Sua república fica no coração da Amazônia e pertence a uma região cujo nome parece ter saído do universo mitológico de J.R.R.Tolkien em O Senhor dos Anéis: Terra do Meio. É um país invisível porque 99% dos habitantes não têm documentos. Oficialmente, os Raimundos e Raimundas não existem. Mas estão lá, insistem em existir, rasos de letras mas gordos de paradoxos. São analfabetos ou, como eles dizem, ”cegos”. Nunca votaram porque fantasmas só se tornam eleitores em currais de fins de mundo. E eles vivem um pouco mais além do fim do mundo. Esse povo pode ser exterminado antes que o país oficial se aperceba dele. Como a floresta em que vive, está ameaçado de extinção.

Descendentes de soldados da borracha, nordestinos levados para os confins da selva pelo governo de Getúlio Vargas durante a Segunda Guerra Mundial, por lá ficaram e multiplicaram-se formando uma só família com menos de 200 pessoas dispostas numa intrincada teia de parentescos. Vivem como os índios viviam antes de terem contato com a civilização. Caçadores e coletores, comem o que a floresta lhes dá. E ela lhes dá muito. Castanha no inverno, caça, pesca e óleo das árvores de copaíba e andiroba o ano todo.

Assim seguiriam com a vida no seu país sem moeda, não fosse terem sido descobertos pelos grileiros. Esses predadores da floresta são velhos conhecidos da Amazônia. Chegam empunhando armas e títulos de terra forjados. Apregoam-se donos de milhares, até milhões de hectares de floresta. O nome, ”grileiro”, surgiu pelo antigo artifício de confinar os títulos falsos numa caixa cheia de grilos: os insetos liberam uma substância que amarela e corrói o papel, dando-lhe uma aparência de velho. Como no tempo do Descobrimento, primeiro os grileiros ofereceram os espelhinhos: no caso, um punhado de reais. Depois, exibiram o cano de uma espingarda calibre 12 de repetição. Hoje, os Raimundos estão jurados de morte.

O empreiteiro Cecílio do Rego Almeida disputa na Justiça uma área que pode chegar a 7 milhões de hectares – um território com o tamanho da Holanda e da Bélgica somadas. Se conseguir, obrigará todo o Povo do Meio a abandonar suas terras. ”Só me arrancam daqui com uma arma na cabeça”, esperneia Raimundo Delmiro, um dos líderes da comunidade, de 39 anos, nove filhos. Ele é um homem quieto, com a coragem de quem faz o que o caráter manda apesar do medo. ”Um dia eu voltei do mato e os homens de fora estavam na minha casa. Depois vieram outros e não pararam mais de chegar. Me ofereceram R$ 10 mil pela minha terra. Eu disse não. Eles começaram a cercar o meu lugar por todos os lados. Passam no rio em rabetas (canoas com motor) cheias de pistoleiros armados. São armas garantidas, de repetição, não como a minha espingarda de caça que tem 23 anos. Querem me botar medo. E conseguem. Sou um homem jurado de morte.”

Raimundo e sua família haviam acordado naquela manhã sem nada para comer. Cada um embrenhou-se num ponto cardeal da mata em busca de alimento. Antes do meio-dia, Fernando, de 13 anos, voltava com uma anta de quase 300 quilos e Francisco, de 14, trazia duas queixadas. ”A floresta é assim, rica de um tudo. Por isso tô marcado pra morrer, mas fico.”

O PAÍS DOS RAIMUNDOS

Raimundo reedita a história de Chico Mendes, promovido a herói nacional depois de um assassinato anunciado que ninguém impediu. Seu mundo, porém, fica ainda mais longe. Com quase 8 milhões de hectares, a Terra do Meio transformou-se numa das derradeiras possibilidades de preservação da Amazônia. Encravada no Estado do Pará, tem esse nome porque fica entrincheirada entre os rios Xingu e Iriri. Cercada por territórios indígenas e florestas nacionais (Flonas), sua localização geográfica acabou protegendo-a por muito tempo da devastação: a oficial, representada pelas várias tentativas desastradas de ocupação da selva, especialmente pelos governos militares, e a privada, protagonizada por predadores disfarçados de empreendedores. Terra de ninguém, é reivindicada por muitos.

Nos anos 90, o assalto dos grileiros a suas fronteiras recrudesceu com a operação da máfia do mogno. Nos últimos meses, a notícia do asfaltamento da Transamazônica e da Cuiabá-Santarém multiplicou a pressão. A sudeste, em torno de São Félix do Xingu, a região já se transformou num faroeste. É de lá que vem boa parte dos flagrantes de trabalho escravo, extração ilegal de madeira e mortes por conflitos de terra que alimentam o noticiário nacional. Na fronteira nordeste, cuja porta é Altamira, a invasão ainda está em curso, em ritmo apressado. É a noroeste, à beira de um igarapé chamado Riozinho do Anfrísio, que vive a população de Raimundos – cada casa a horas de canoa de distância uma da outra.

O nome vem de Anfrísio Nunes, um sergipano que, como outros tantos, recebeu autorização do governo para explorar os seringais da Amazônia. Seus descendentes também reivindicam a posse da terra. ”O Anfrísio levou mais de 200 famílias de arigós do Nordeste para cortar seringa no Riozinho”, conta sua enteada e nora, Vicencia Meirelles Nunes, de 74 anos. ”Naquele tempo os índios dizimavam famílias inteiras de arigós. O Anfrísio criou 18 órfãos de gente morta pelos caiapós e pelos araras.”

Os Raimundos são justamente os descendentes dos ”arigós”. Abandonados à própria sorte quando a borracha deixou de ser lucrativa, moldaram seu destino à revelia do Estado: sem escola, sem saúde, sem registro de nascimento. Não querem a posse da floresta, só querem viver nela. Sua concepção de mundo não inclui cercas.

A TRAVESSIA DE HERCULANO

Para mostrar ao Brasil que seu povo existe, um homem miúdo chamado Herculano Porto, de 60 anos, foi escolhido para empreender uma viagem à cidade de Altamira. Único chefe de família com documento, só ele estava apto a realizar a travessia. Tornou-se o presidente da comunidade. Depois de um dia remando na sua canoa, alcançou a boca do Riozinho do Anfrísio e, de lá, pegou um barco. No caminho, chegou a topar com uma onça que atravessava o rio. ”A gente achou que era um veado e botou o barco por cima.”

Em 7 de setembro, Herculano iniciou a viagem de volta. Havia cumprido sua missão: carregava duas bolas de futebol e um documento elaborado pela Comissão Pastoral da Terra em que a comunidade pedia ao governo federal a criação de uma reserva extrativista. Abaixo da reivindicação, seu povo teria de gravar os polegares para valer como assinatura.

Mas entre Herculano e seu país acessível somente por água estendiam-se 328 quilômetros de rios. Sua saga só terminaria dias mais tarde, ao final de uma trama fluvial que conduz sempre para dentro. Depois do Xingu, o Iriri aprofunda-se na Terra do Meio sobre um labirinto de pedras. É preciso vencer meia dúzia de corredeiras, cada vez desembarcando e subindo a pé para depois içar o barco com cordas em meio à correnteza. Na empreitada, as mãos arrebentam até sangrar.

Homem alfabetizado na língua da água, Herculano não temia as armadilhas do rio. Só era assombrado pelos conselhos do proeiro, Benedito dos Santos, que em 62 anos de vida amazônica foi seringueiro, garimpeiro, cafetão, caçador de onça e jagunço. Não tem história contada por ele em que não morram uns dois ou três. ”Já botei muita gente pra fora de terra pros doutor nesta Amazônia. Tem mais facilidade tomar conta com agressão. Essa história já se repetiu tantas vezes e nunca vi posseiro ganhar. Sempre vai ter essa briga de terra no mundo”, ia desfiando rio afora. ”Homem, vende logo seu pedaço antes que lhe joguem fora.” Herculano esboçava um sorriso falhado de dentes, mas farto de persistência.

Até a boca de sua terra a jornada nos barcos de linha consome sete dias na estação da seca, se tudo correr bem. Muitas vezes, os passageiros são obrigados a acampar numa passagem mais difícil por semanas até conseguir vencê-la. Pelo caminho, homens como Herculano vão sondando o rio e a mata em busca da comida – em especial um tipo de quelônio chamado tracajá. Eles têm a selva por restaurante. Para ganhar tempo, só fazem uma refeição ao final do dia, depois que o sol se deita e as pedras do leito do rio tornam-se invisíveis e fatais. Pernoitam nas ilhas, atando a rede nas árvores.

Nessas noites, o silêncio da selva é feito de ruídos. Herculano Porto conhece cada um deles pelo nome. Tem a floresta dentro da cabeça. Os animais não atacam. Como o ecossistema é equilibrado, há comida para todos e o homem é um predador que nem as onças desafiam sem um motivo forte. Os jacarés limitam-se a manter os amarelos olhos fosforescentes a uma distância regulamentar enquanto os passageiros se banham com a lua alta. O pior inimigo são as arraias, abundantes, que aplicam ferroadas fundas quando se tem o azar de pisar nelas. Às vezes, uma sucuri. Um dia depois que Herculano passou, uma delas matou um homem quando ele nadava. A cobra triturou todos os seus ossos.

Enquanto Herculano singrava os rios de seu mundo primitivo, parte de sua terra era oferecida na internet por R$ 6 milhões pela imobiliária Sofazenda, de Varginha, em Minas Gerais. A oferta anunciava as maravilhas do Riozinho do Anfrísio: ”Dezenas de qualidades de madeiras de lei, em densas florestas, ricas em mogno…”. Assim como ”grande reserva de minério, cassiterita, ouro, diamante e outros”. Na quinta-feira, o corretor Aldamir Rennó Pinto explicou que a área foi tirada do catálogo ”porque estava enrolada”. Ofereceu outra, de 390 mil hectares, por R$ 27 milhões. ”Inclusive, a outra terra estava dentro dessa que estou lhe oferecendo. Ela pertence aos herdeiros do Anfrísio Nunes e já estou com os títulos, tudo certinho.”

Analfabeto, Herculano enfrenta a golpes de dedão o universo da grilagem cibernética. Quando finalmente desembarcou em casa, descobriu que seu castanhal havia sido posto abaixo. Faltava apenas a derrubada das árvores maiores. E depois o fogo. Herculano, também marcado para morrer, havia cumprido sua missão. Mas, quando o documento com as digitais de seu povo alcançar o país oficial em Brasília, ninguém vai ter a dimensão do tamanho da odisséia.

A DISPUTA DAS ALMAS

Até a chegada dos invasores, a Terra do Meio havia girado sem dinheiro. Os grileiros levaram moeda e cobiça. Foram penetrando pelas frestas das almas, dividindo para semear a discórdia. Francisco dos Santos, o homem que mais conhece o rio e suas manhas, foi o primeiro a ser assaltado por tentações. Chico Preto, como é chamado, vendeu-se por R$ 20 ao dia para botar e tirar peão e pistoleiro do interior do Riozinho do Anfrísio. ”Eu luto pela reserva, mas eles pagam em dia e aqui é difícil ganhar dinheiro de outro modo”, diz Chico. ”São pessoas alegres, prestativas, nem parece que matam gente.” Seu enteado, mais um Raimundo, tornou-se o homem de confiança de um grileiro conhecido por Goiano, cujas atrocidades já viraram lenda. Opera na boca do rio o rádio que denuncia a chegada de estranhos. ”É melhor vender a terra porque vão tomar de qualquer jeito. Aí botam a gente pra fora sem nada”, defende esse Raimundo dissidente.

Os grileiros aproveitam-se do abandono para oferecer o que o Estado não dá. ”Quero levar melhorias para aquele povo. Escola e posto de saúde. Já botei um carro à disposição deles”, disse a ÉPOCA Edmilson Teixeira Pires, de 51 anos, que reivindica a posse de algumas dezenas de quilômetros quadrados. Já riscou uma estrada a partir da Transamazônica, onde instalou mais de uma casa e dezenas de peões. Só não chegou ao rio porque encontrou no seu caminho Luiz Augusto Conrado, de 51 anos, conhecido como Manchinha por conta de uma mecha de cabelos brancos que ostenta desde bebê. ”Pode recuar. Na minha terra vocês não entram”, avisou.

Manchinha conhece bem a caridade dos doutores. Antes de casar com Francineide, parteira do Riozinho do Anfrísio, foi escravo em fazendas no Pará por mais de dez anos. Depois virou garimpeiro em Serra Pelada. Viu de tudo, menos ouro o suficiente para mudar a sina. Sabe muito bem de que matéria é feita sua resistência: ”A floresta é o único lugar que tem fartura pra pobre. Os homens vão nos cercando e a gente precisa da castanha, da caça, da pesca. Vão nos matando porque encolhem a terra. Quando uma das estradas, das tantas que tão cortando por aí, chegar ao rio, acaba nós e o mato”.

AMEAÇADOS DE EXTINÇÃO

Se os invasores vencerem essa que é uma das últimas guerras da Amazônia em que ainda é possível ganhar, com a selva desaparecem 346 espécies de árvores, 1.398 tipos de vertebrados, 530 qualidades de peixes. Boa parte dessas variedades são endógenas – ou seja, só existem na Terra do Meio. O mundo fica mais pobre em biodiversidade, que é o tipo de miséria irremediável. Mas, além da perda de milhares de espécies, o planeta fica também menos sortido de gente. O Povo do Meio está entre os últimos de sua estirpe, ceifada junto com a floresta. O isolamento – e o abandono – construiu nos confins do Brasil a extravagância de uma cultura sem imagem que ainda persiste no século XXI.

É por isso que se tornou uma terra de Raimundos. Sem TV, eles nunca batizaram filhos de ”Maicon” ou ”Dienifer” nem ficaram sabendo que João e Maria viraram nomes chiques. São consagrados a São Raimundo Nonato, que, por ter sido extraído do útero da mãe morta, ao tornar-se santo virou protetor das parteiras. Todo o imaginário é costurado de ouvido. As cenas são formadas a partir de fragmentos da Rádio Nacional da Amazônia, o único contato com o Brasil. É assim, por exemplo, que reinventam as jogadas de futebol a partir dos lances escutados – e jamais vistos.

Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho são ídolos sem rosto, cujas façanhas são reinterpretadas na cabeça de cada Raimundo. É no futebol que esses homens da floresta forjam seu RG de brasileiro. A identidade é a bola, trocada por 200 quilos de castanha no Regatão, espécie de shopping fluvial que passa meia dúzia de vezes por ano para o escambo da produção local pelos artigos da cidade.

Raimundo Nonato da Silva, o brasileiro que não sabe quem é Lula, tem um campo de futebol diante de sua casa de pau-a-pique coberta de babaçu. Nos domingos, seus meninos trocam a faquinha da seringa pela bola. É nesse cartório de chão batido que registram seu nascimento. ”Era bom saber o nome do presidente do Brasil por saber, mas diferença não faz”, diz.

Quem não conhece a sina de Raimundo poderia achar que ele é variado das idéias. Desde que nasceu, herdeiro de um soldado da borracha que caiu morto no seringal (”Meu pai se chamava Zuza, sobrenome Zé”), ele viveu uma vida sem Estado. Sabe apenas que para além do rio há um lugar chamado cidade, que ele imagina, enigmaticamente, como ”um tipo de movimento”. Para ele, tanto faz mesmo o nome do presidente. A idéia de país não pertence a seu imaginário. É o Brasil que precisa descobrir Raimundo, antes que seja tarde.

* * * * *

Impressões pessoais da repórter Eliane Brum sobre a viagem à Terra do Meio

VIAGEM AO PAÍS DOS RAIMUNDOS

”A melhor maneira de explicar isso a vocês é dizendo que, por um ou dois segundos, me senti como se em vez de ir para o centro de um continente, estivesse de partida para o centro da Terra.” (Coração das Trevas, Joseph Conrad)

Esse é o sentimento que ecoava, em mim e no Lilo (o fotógrafo Maurilo Clareto), quando penetramos na boca do Riozinho do Anfrísio, que apesar desse nome meigo é um igarapé selvagem. Troncos formavam cavernas sobre a água, um casal de ariranhas mergulhou bem na nossa frente e milhares, milhões talvez, de borboletas amarelas acompanhavam o percurso labiríntico. Parecia que tínhamos sido engolidos, numa piscada de distração, para uma dimensão desconhecida. Sentia como se mergulhasse cada vez mais para dentro e para dentro da terra. Por todo o tempo me ardia no peito a certeza de que, por melhor que eu conseguisse escrever, seria incapaz de alcançar a dimensão do que vi – e vivi.

Essa é uma angústia permanente, a da redução da vida quando é confinada em palavras. Mesmo quando as palavras são exatas, como no caso do trecho do Conrad aí de cima. Como testemunhar a luta de um punhado de brasileiros esquecidos, invisíveis e terrivelmente frágeis muito depois do fim do mundo e contar isso em alguns parágrafos, páginas? Poderia começar assim: “Levamos quatro dias navegando 12 horas por dia e dormindo na floresta para chegar à boca do Riozinho”. É verdade, mas não é nada. Ou: “O povo do Riozinho está ameaçado de morte pelos grileiros que cobiçam o mogno e o ouro da terra”. É um fato e não é nada. Não conta do que significa para aqueles homens e mulheres isolados, dia após dia, estarem ameaçados de perder tudo o que conhecem, inclusive a vida. Essa mesma angústia eu sentia quando as freiras do colégio em que eu me alfabetizei diziam: “Deus fez o mundo em seis dias e no sétimo descansou”. Como assim?!

Primeiro, dizer que fui para a Amazônia é o mesmo que dizer que fui aos anéis de Saturno. Mas qual deles? São muitas florestas, gentes e realidades diferentes dentro de uma mesma convenção geopolítica. O que importa ressalvar aqui é que, seja qual for das Amazônias, é sempre uma jornada de risco. Não falo da dificuldade do transporte, dos índios, dos carapanãs (uns mosquitos que têm o desplante de ignorar repelentes e picam no entardecer e no amanhecer, inclusive através da roupa, abrindo uma trilha de inchaços no corpo). Falo do maior risco para um repórter, que é errar o tom. Nem dá para ser babão e achar que tá no éden perdido, nem dá para ser blasé e achar que é um pouco mais do mesmo. Tem de se deslumbrar sem ser deslumbrado. Uma linha bem estreita.

Por isso fico meio sem graça de sair contando minhas aventuras na primeira pessoa. Não quero que fique parecendo que me acho alguma Indiana Jones. Depois de 10 dias convivendo com o Aldo e com o seu Bené, o piloto e o proeiro da voadeira que nos carregou pelo rio, e em seguida com o povo valente do Riozinho do Anfrísio, sei muito bem que todas as minhas seis viagens a Amazônia não valem um dia deles. Os caras são brilhantes. Conseguem enxergar ovo de tracajá onde eu só vejo areia, pedra pontuda onde eu só enxergo água, chuva onde eu só vejo azul. (Depois de testemunhar o cotidiano desse povo, se eu tivesse alguma pretensão de me sentir uma Crocodila Dundee, tinha afundado no brejo. Eu mal conseguia amarrar a rede num pedaço de pau na hora de dormir…).

O seu Bené, então, que é o legítimo homem amazônico, a quem prometi escrever um livro contando a vida, merecia uma estátua. Vida sofrida, como é a de todos, mas de uma intensidade… Nas suas andanças como seringueiro, mateiro, gateiro, cafetão, garimpeiro, seu Bené espiou mais para dentro do bicho homem do que a sanidade permite. Na última noite da viagem, tivemos de pernoitar num lugar de mata muito fechada porque o motor da voadeira quebrou antes que a gente chegasse no pouso pretendido. Ninguém se apavorou, mas eu confesso que fiquei com vontade de dormir de mão com o Lilo, caso a minha reputação de durona permitisse. Eu olhava aquele barranco de floresta fechada que se erguia sobre a minha pobre rede e ficava imaginando o que diabos havia ali atrás. Deixamos uma velinha acesa quase a noite toda pra dar uma animada.

Mas enquanto esperávamos o peixe cozinhar, seu Bené ia contando uma de suas histórias de garimpo. Dessa vez, foi um avião que caiu numa das pistas clandestinas. Seu Bené ajudou a arrancar os mortos e os vivos dos destroços. Eu achei até que a história estava meio fraca, com míseros dois mortos – na anterior ele tinha despachado uns 40 pro inferno. Mas eu não sabia de nada. “O mecânico queimou todinho. Só uma parte da polpa da bunda ficou assada”, desfiou ele. “Não é que o meu colega comeu a bunda do sujeito?” Nós todos logo pensamos que era um “comer” no sentido bíblico do termo (o que já seria, digamos, um absuuuurdo). Seu Bené esclareceu: “Passou a faca e comeu. Disse que era gostoso. Aquele cabra tinha um estômago que vou te dizer.”

O pior é que quando ele chegou nessa parte eu já estava engolindo a janta-almoço (só fazíamos uma refeição por dia para não perder tempo, depois que o sol se punha). Ajeitei tudo com mais um punhado de farinha. Aliás, viciei naquela farinha grossa, amarela, capaz de quebrar um dente facinho. Eu só entendi meeesmo o espírito da coisa depois da primeira ameaça de tempestade. Uma coisa feia, o rio virando mar, nada em nenhuma das margens parecido com abrigo, o caminho cheio de pedras e as nuvens engordando de escuridão. Eu pensando que os caras tinham um plano B para esse tipo de situação. Quando o céu finalmente caiu roncando sobre o mundo, só ouvi o grito de desespero: “Não deixa molhar a farinha!”. Nessa hora, todas as minhas pretensões de ser tratada como princesa, assim, na condição de única moça do grupo, foram literalmente por água abaixo. Eu que me ensopasse toda, já a farinha…

Tudo o que eu conto como aventura é da vida cotidiana do povo amazônico, ribeirinho. Seria mais ou menos como se o seu Bené viesse a São Paulo e fosse descrever a travessia da Ipiranga com a São João como um épico. A gente, aqui, urbanóide, ia morrer de rir. Bem, é possível que na história dele morresse uma meia dúzia atropelado… Seu Bené é muito melhor contador de histórias do que eu. (E ainda por cima ele me chamava de dona Maria. E o apelido pegou. Se ouvirem falar de uma dona Maria por lá, sou eu.)

Os dois primeiros dias foram os mais complicados pra mim. É como sair de um mundo e entrar num outro, sem escalas. Era muito de tudo: muito sol, muito 40 graus, muito carapanã, muito jacaré, muita arraia, muita aranha, muito mato. E eu estava no primeiro dia de menstruação e comigo tinha mais cinco homens e nenhuma privacidade. (Não vou contar como resolvi isso no meio do mato durante a viagem de ida porque, digamos, não é o momento…) Mas é para lembrar que também tem dessas coisas. Eu só pensava: “Mulher, o que você está fazendo aqui?!”

Mas aí acontece alguma coisa (e sempre me acontece essa coisa) e, no terceiro dia, eu já estava, como se diz em linguagem chique, mais feliz que pinto no lixo. Entendi muitas coisas nessa viagem. Muitas. Entendi, principalmente, porque a Amazônia precisa ser salva. Todas as que ainda dá para salvar. O mundo ia ficar pobre demais (vocês precisam imaginar quanto!) e o Aldo, o seu Bené, o seu Herculano iam desaparecer. Alguns deles reapareceriam em alguma favela ou no cadastro do Fome Zero, mas já seriam outros. Não digo isso porque é politicamente correto ou por caridade cristã, mas por egoísmo mesmo: é um mundo muito grande, muito rico, muito bonito e o povo de lá sabe muita coisa que a gente não sabe. Naquela região tudo é grande, imenso, generoso, mas se focar o olhar é pequeno, cheio de detalhes. De todas as Amazônias que eu conheço, aquela é a mais impressionante, a mais delicada. Ali, é muito mais fácil acreditar em Deus do que em Darwin.

Cada noite, na rede, eu ficava assim, de olho estalado, engasgada de sentimento. Eu tenho uma lanterna daquelas de amarrar na testa, tipo mineiro, para poder ler. Levei On the road, a bíblia beatnik do Jack Kerouac. Mas eu estava vivendo tantas coisas on the river que não cheguei a ficar arrepiada. Só no fim, mas não vou contar. Decorei a seqüência de ruídos de bichos noite afora, sempre a mesma, e então sabia mais ou menos que horas seriam. Quando acordava, tinha dúvidas se havia dormido. Na floresta, a gente fica toda instinto de sobrevivência, então o sono é leve, diferente, na iminência de algo.

Assim foi a viagem de ida e depois a de volta. Medo mesmo, medão, eu só tinha de arraia. Toda noite eu tomava banho no rio e não dava para enxergar o que tinha embaixo. E sempre havia muitas arraias. Basta a gente pisar sem querer, que elas já enfiam o ferrão no pé. Vi o pé de um homem que teve esse azar. O buraco tinha quase cinco centímetros, acho que beirava o osso, e purgava. Me ensinaram a arrastar os pés no fundo do rio. Não aconteceu nada com a gente. Nem malária pegamos.

Quanto ao povo do Riozinho, ainda é difícil contar sobre eles. Quando desembarcávamos em alguma casa na beira do rio, no caminho, as meninas, as mães de família, pensavam que eu era alguma autoridade. Sempre me pediam escola. Nunca vi tanta gente, novo e velho, pedindo para estudar com tanto brilho no olhar, tanta gana. “Aí vou casar com um homem daqui, cego de letras que nem eu, e vamos ser os dois ignorantes nesse mundo”, me disse uma menina chamada Deusa, de 16 anos, na beira do Iriri. Ou a Francineide, parteira do Riozinho, “se botarem uma escola vou aprender a ler mesmo se já tiver velha demais e tiver de ir me arrastando”.

É um povo que quando diz o número de filhos conta os mortos. E quando conta os mortos conta que morreram da febre, da malária. E morreram só porque não há remédio, porque basta remédio para não morrer de malária. Mas esse povo, quando precisa de remédio que não tem no mato, quando precisa de médico e não de benzedeira, tem de ir até o posto de saúde da Cachoeira Seca, a terra indígena mais próxima, a dias de canoa de distância.

Meninas, ainda, meia dúzia de filhos, sempre me rodeavam para perguntar como era possível que eu, já tão velha (bah!), tivesse só uma filha. Descobria então que elas nunca viram uma camisinha. E quando começava a falar de pílula anticoncepcional, sempre aparecia alguém para dizer que “a pessoa toma essa pílula, tá boazinha e de uma hora pra outra amanhece morta”.

Nunca vou esquecer do corpo de passarinho do seu Herculano, um rastro de gente no mundo, resistindo em cima da sua floresta, agarrado à beira do único mundo que conheceu. A gente não mergulha no mundo do outro impunemente. E depois vai embora como se nada tivesse acontecido. Toda viagem é sem volta. E eu ainda estou chegando.

ELIANE BRUM
In: Olho da Rua.
Ed. Globo.

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