“A VIRADA – O NASCIMENTO DO MUNDO MODERNO”, de Stephen Greenblatt [Leia alguns trechos do livro, vencedor do Pulitzer Prize e National Book Award 2011]

Greenblatt

SINOPSE DA COMPANHIA DAS LETRAS: Stephen Greenblatt, professor de Harvard e um dos acadêmicos mais respeitados do mundo, construiu neste livro tanto uma obra historiográfica inovadora como narrou a história incrível de uma descoberta, em que um manuscrito retirado de mil anos de esquecimento mudou o curso do pensamento humano e tornou possível o mundo tal como o conhecemos hoje.

 Segundo o poeta romano Lucrécio, tudo o que existe é fruto de algo que ele chama de virada (clinamen) – um pequeno desvio que tira as coisas de sua trajetória natural para criar o novo. Em uma colisão aleatória de diferentes moléculas, surge a vida; com uma mutação genética espontânea, cria-se uma nova espécie. Caso esses pontos de inflexão fossem visíveis e determináveis, certamente um deles remontaria a janeiro de 1417, quando o caçador de livros Poggio Bracciolini resgatou das prateleiras de uma biblioteca monástica a obra-prima de Lucrécio, o poema Da natureza (De Rerum Natura), até então dado como perdido.

Era um belo poema contendo as ideias mais perigosas: que o universo funciona sem o auxílio dos deuses, que o medo religioso está destruindo a vida humana, que prazer e virtude não são opostos, mas que estão interligados.  Bracciolini, porém, não tinha como adivinhar a reviravolta que estava por vir. Típico homem de seu tempo, era secretário de um papa corrupto e testemunha de excomunhões arbitrárias e execuções sumárias de hereges na fogueira. Seu fascínio pelos textos antigos parecia antes estilístico que ideológico. Este livro conta sua história, e mostra como sua descoberta deu origem ao que hoje chamamos de modernidade.

Lucrécio

Lucrécio

A VIRADA
por Stephen Greenblatt

Greenblatt3Quando você olha para o céu noturno e, sentindo-se inexplicavelmente comovido, fica maravilhado com a quantidade de estrelas, não está vendo o trabalho dos deuses ou uma esfera cristalina separada de nosso mundo passageiro. Está vendo o próprio mundo material de que faz parte e de cujos elementos você é feito. Não há um plano superior, não há um arquiteto divino, não há design inteligente. Todas as coisas, inclusive a espécie a que você pertence, evoluíram durante grandes períodos de tempo. (…) Nada — de nossa própria espécie ao planeta em que vivemos e ao Sol que ilumina nossos dias — se manterá para sempre. Somente os átomos são imortais.

Num universo constituído dessa maneira, argumentava Lucrécio, não há motivo para pensar que a Terra ou seus habitantes ocupem um lugar central, não há motivo para separar os humanos dos outros animais, não há esperança de subornar ou aquietar os deuses, não há lugar para o fanatismo religioso, não há vocação para uma negação ascética do eu, não há justificativa para sonhos de poder ilimitado ou de segurança total, não há lógica para guerras de conquista ou de engrandecimento, não há possibilidade de triunfar sobre a natureza, não há escapatória para a criação e recriação constante das formas.

De todas as obras-primas da Antiguidade, este poema – Da natureza (De Rerum Natura), de Lucrécio – é um que certamente deveria ter desaparecido, de forma definitiva e irrevogável, em companhia das obras perdidas que o inspiraram. O fato de ele não ter desaparecido, de ter reemergido depois de muitos séculos e começado de novo a propagar suas teses profundamente subversivas, é algo que poderíamos nos ver tentados a chamar de milagre. Mas o autor do poema em questão não acreditava em milagres. Ele achava que nada podia violar as leis da natureza. Propunha em vez disso o que chamava de uma “virada” — o termo latino mais usado por Lucrécio para isso era clinamen —, um movimento inesperado e imprevisível da matéria. O ressurgimento de seu poema foi uma dessas viradas, um desvio imprevisto da trajetória direta — neste caso, rumo ao olvido — que aquele poema e sua filosofia pareciam seguir.

(…) Embora discordasse vigorosamente de seus princípios filosóficos, Cícero reconhecia o maravilhoso poder de Da natureza. “A poesia de Lucrécio”, ele escreveu a seu irmão Quinto no dia 11 de fevereiro de 54 a.C., “é, como dizes em tua carta, rica de um gênio iluminado, mas muito artística.” A sintaxe de Cícero — e especialmente aquele “mas” ligeiramente estranho — registra sua surpresa: ele estava evidentemente impressionado com algo incomum. Havia encontrado um poema que juntava um “gênio iluminado” em filosofia e ciência a uma força poética incomum. A conjunção desses fatores era na época tão rara quanto hoje.

Cícero e seu irmão não foram os únicos a perceber que Lucrécio havia realizado uma fusão quase perfeita de distinção intelectual e maestria estética. O grande poeta romano Virgílio, que tinha cerca de quinze anos quando Lucrécio morreu, foi enfeitiçado por Da natureza. “Abençoado seja quem conseguiu encontrar as causas das coisas”, Virgílio escreveu nas Geórgicas, “e pisoteou todos os medos e os inexoráveis fados e o rugido do cúpido Aqueronte.” Presumindo que se trate de uma alusão sutil ao título do poema de Lucrécio, o poeta mais velho torna-se um herói de sua cultura, alguém que ouviu o rugido ameaçador do mundo inferior e triunfou sobre os medos supersticiosos que ameaçam secar o espírito humano. (…) A Eneida, o grande épico de Virgílio, era uma longa tentativa de construir uma alternativa a Da natureza: pio onde Lucrécio era cético; patriota militante onde Lucrécio aconselhava o pacifismo; advogando uma renúncia sóbria onde Lucrécio se entregava à busca do prazer.

(…) Os gregos e romanos antigos não compartilhavam de nossa idealização do gênio isolado, numa batalha solitária contra os mais complexos problemas. Tais cenas — Descartes questionando tudo em seu retiro secreto, ou o excomungado Spinoza calmamente raciocinando sozinho enquanto polia lentes — acabariam se tornando nosso principal símbolo da vida mental. No entanto, essa visão das questões intelectuais se baseia numa profunda mudança de prestígio cultural que só teve início com os primeiros eremitas cristãos, que deliberadamente abandonaram todos os valores pagãos; santo Antônio (250-356) no deserto ou são Simão Estilita (390-459) trepado em sua coluna.

Essas figuras, estudiosos modernos já demonstraram, na verdade costumavam ter bandos de seguidores e, embora vivessem afastados, muitas vezes exerciam um papel significativo na vida das grandes comunidades. Mas a imagem cultural dominante que elaboraram — ou que veio a ser elaborada em torno deles — era de um isolamento radical.

Não era esse o caso entre os gregos e romanos. Como pensar e escrever em geral requerem silêncio e o mínimo de distrações, os poetas e filósofos daquelas sociedades devem ter se afastado periodicamente do barulho e das atividades do mundo para realizar o que realizaram. Mas a imagem que projetavam era social. Os poetas se descreviam como pastores que cantavam para outros pastores; os filósofos se descreviam como pessoas envolvidas em longas conversas, que muitas vezes duravam vários dias. Esse afastamento das distrações mundanas era representado não como um retiro numa cela solitária, mas como uma tranquila troca de palavras entre amigos num jardim. Os humanos, escreveu Aristóteles, são animais sociais: realizar plenamente nossa natureza humana, então, era participar de atividades coletivas. E a atividade preferida, para os romanos cultos, como para os gregos antes deles, era o diálogo.

Os epicuristas, às vezes com fama de ateus, achavam que os deuses existiam, ainda que muito afastados das questões dos mortais. (…) As respostas para todas as perguntas, Lucrécio argumentaria com ardor, estavam na obra de um homem cujo busto e cujos escritos adornavam a biblioteca da casa, o filósofo Epicuro. Era apenas Epicuro, Lucrécio escreveu, quem poderia curar a condição miserável do homem que, mortalmente entediado em casa, sai correndo para sua estância de veraneio apenas para descobrir que lá se encontra tão deprimido quanto antes. Na verdade, na opinião de Lucrécio, Epicuro, morto mais de dois séculos antes, era nada menos que o próprio salvador. Quando “a vida humana jaz contorcendo-se ignominiosamente no pó, esmagada pelo peso terrível da superstição”, Lucrécio escreveu, um homem de suprema bravura surgiu e tornou-se “o primeiro que se arriscou a confrontá-la audaciosamente” (1.62ss).

Esse herói — um herói divergente em todos os aspectos de uma cultura romana que tradicionalmente se orgulhava de sua dureza, seu pragmatismo e sua virtude militar — era um grego que triunfou não pela força das armas, mas pelo poder do intelecto. Da natureza é a obra de um discípulo que transmite ideias desenvolvidas por Epicuro, o messias filosófico de Lucrécio, que nasceu perto do fim de 342 a.C. na ilha de Samos, no mar Egeu, onde seu pai, um mestre-escola ateniense de poucos recursos, havia ido parar como colonizador.

Muitos filósofos gregos, inclusive Platão e Aristóteles, vinham de famílias ricas e se orgulhavam de seus ancestrais distintos. Epicuro decididamente não tinha como dizer a mesma coisa. Seus inimigos filosóficos, refestelados em sua superioridade social, abusavam da humildade de suas origens. Ele ajudava o pai na escola por uma paga mínima, riam eles, e ia com a mãe de casebre em casebre ler encantamentos. Um de seus irmãos, acrescentavam, era um alcoviteiro que morava com uma prostituta. Não se tratava de um filósofo com que as pessoas de bem devessem se relacionar. O fato de que Lucrécio e muitos outros fizeram mais do que simplesmente se relacionar com Epicuro — eles o festejavam como alguém de sabedoria e coragem divinas — dependia não de suas credenciais sociais, mas do que consideravam ser o poder de salvação que existia em sua visão.

O núcleo dessa visão pode ser reduzido a uma única ideia incandescente: tudo que já existiu e tudo que ainda existirá é montado a partir de partículas indestrutíveis de dimensões diminutas, mas inimaginavelmente numerosas. Os gregos tinham uma palavra para essas partículas invisíveis, coisas que, como eles as concebiam, não podiam ser divididas em elementos menores: átomos. A noção de átomo, que se originou no século v a.C. com Leucipo de Abdera e seu aluno favorito Demócrito, era somente uma curiosa especulação; não havia como conseguir uma prova empírica, e não haveria como fazê-lo por mais de 2 mil anos.

Outros filósofos defendiam teorias contrárias: a matéria central do universo, diziam eles, era o fogo, ou a água, ou o ar, ou a terra, ou alguma combinação desses elementos. Outros sugeriam que, caso fosse possível ver a menor partícula do homem, o que se encontraria seria um homem infinitesimalmente minúsculo; e o mesmo aconteceria com um cavalo, uma gotinha d’água, ou uma folha da relva. Outros ainda propunham que a intricada ordem do universo era prova de uma mente ou um espírito invisível que cuidadosamente montava as peças segundo um plano prévio.

A concepção de Demócrito, de um número infinito de átomos que não têm qualidades além de tamanho, figura e peso — partículas que não são versões em miniatura do que vemos, mas formam o que vemos ao se combinarem umas com as outras numa inexaurível multiplicidade de formas —, era uma solução fantasticamente ousada para um problema que desafiava os grandes intelectos de seu mundo.

Aos doze anos de idade, Epicuro ficou contrariado porque seus professores não sabiam explicar o significado do caos. A antiga ideia dos átomos de Demócrito lhe parecia o caminho mais promissor, e ele se pôs a trabalhar para segui-lo aonde pudesse levá-lo. Aos 32 anos de idade, ele estava pronto para fundar uma escola. Num jardim de Atenas, Epicuro construiu toda uma explicação do universo e uma filosofia da vida humana. Constantemente em movimento, os átomos colidem uns com os outros, raciocinava Epicuro, e em certas circunstâncias formam corpos cada vez maiores. Os maiores corpos que se podem observar — o Sol e a Lua — são feitos de átomos, assim como os seres humanos e as moscas e os grãos de areia.

Se a ordem natural é inconcebivelmente vasta e complexa, continua sendo possível compreender parte de seus constituintes básicos e de suas leis universais. Na verdade, essa compreensão é um dos maiores prazeres humanos. Talvez esse prazer seja a chave para entender o vigoroso impacto da filosofia de Epicuro; foi como se ele tivesse exposto para seus seguidores uma fonte inesgotável de satisfação, escondida dentro dos átomos de Demócrito.

(…) Você não vai mais temer a ira de Jove quando ouvir o som do trovão, ou suspeitar que alguém ofendeu Apolo sempre que houver um surto de gripe. E vai se ver livre de uma terrível aflição — aquilo que Hamlet, muitos séculos depois, descreveu como “o pavor de algo após a morte,/ a terra desconhecida de cujas fronteiras/ viajante nenhum retorna”.

A aflição — o medo de algum castigo horroroso num reino além-túmulo — não tem mais efeito sobre a maioria dos homens e mulheres modernos, mas evidentemente tinha seu peso na antiga Atenas de Epicuro e na Roma antiga de Lucrécio, e também no mundo cristão em que vivia Poggio. Com certeza Poggio há de ter visto imagens desses horrores, amorosamente gravadas no tímpano sobre as portas das igrejas ou pintadas em suas paredes internas. E esses horrores, por sua vez, surgiam a partir de relatos da vida após a morte criados pela imaginação pagã.

É claro que nem todo mundo em qualquer um desses períodos, pagão ou cristão, acreditava nesses relatos. “Não ficas apavorado de medo”, pergunta um dos personagens num diálogo de Cícero, “do mundo dos mortos, com seu cão de três cabeças, seu rio negro, seus horrendos castigos?” “Achas que sou louco de acreditar em tais lendas?”, seu amigo responde.

O medo da morte não se refere ao destino de Sísifo e Tântalo: “Qual será a velhota tola que tem medo” dessas histórias de terror? Ele se refere ao pavor de sofrer e ao de desaparecer, e é difícil entender, Cícero escreveu, por que os epicuristas imaginam oferecer algum paliativo. Ouvir dizer que nós desaparecemos completamente e para sempre, alma e corpo, está longe de ser um consolo.

Os seguidores de Epicuro reagiam evocando os últimos dias do mestre, morrendo de uma dolorosíssima obstrução da bexiga, mas atingindo a serenidade de espírito ao relembrar todos os prazeres da vida. Não é claro que seu modelo fosse facilmente imitável — “Quem pode segurar nas mãos a chama/ Pensando só no gélido Cáucaso?”, como pergunta um dos personagens de Shakespeare —, mas também não é claro que qualquer uma das alternativas disponíveis, num mundo sem analgésicos opiáceos, tivesse mais sucesso em lidar com as agonias da morte. O que o filósofo grego oferecia não era ajuda para morrer, mas ajuda para viver. Libertado da superstição, Epicuro ensinava, você se veria livre para buscar o prazer.

Os inimigos de Epicuro fizeram um uso malicioso de sua celebração do prazer e inventaram histórias maldosas de devassidão, relatos que ganhavam mais peso por sua incomum inclusão de mulheres junto aos homens que o seguiam. Ele “vomitava duas vezes por dia, por seus excessos”, dizia uma dessas histórias, e gastava uma fortuna com festins.

Na realidade, o filósofo parece ter levado uma vida conspicuamente simples e frugal. “Manda-me um pote de queijo”, ele uma vez escreveu a um amigo, “para que, quando quiser, eu possa viver suntuosamente.” E lá se vai a suposta abundância de sua mesa. Além disso, ele incitava seus alunos a uma frugalidade comparável. O lema entalhado sobre a porta que levava ao jardim de Epicuro incentivava o estrangeiro a ficar, pois “aqui nosso bem maior é o prazer”. N

No entanto, segundo o filósofo Sêneca, que cita essas palavras numa famosa carta que Poggio e seus amigos conheciam e admiravam, o passante que entrasse receberia uma refeição simples de papa de cevada e água. “Quando dizemos, então, que o prazer é a meta”, Epicuro escreveu numa das poucas cartas suas que sobreviveram, “não nos referimos aos prazeres da prodigalidade ou aos prazeres da sensualidade.”

A enlouquecida tentativa de satisfazer certos apetites — “uma sucessão ininterrupta de bebedeiras e festejos […] amor sexual […] o consumo de peixe e outras iguarias de uma mesa requintada” — não pode levar à paz de espírito que é a chave do prazer duradouro. “Os homens sofrem os piores males por causa dos desejos que lhes são mais estranhos”, escreveu seu discípulo Filodemo, num dos livros encontrados na biblioteca de Herculano, e “negligenciam os apetites mais necessários como se fossem os mais estranhos a sua natureza.”

Quais são esses apetites necessários que levam ao prazer? É impossível viver de maneira prazerosa, Filodemo continuava, “sem viver de maneira prudente e honrada e justa, e também sem viver de maneira corajosa, temperada e magnânima, e sem fazer amigos, e sem ser filantrópico”.

GREENBLATT, S.
A Virada (The Swerve)

Greenblatt2

A Torre de Babel e os Frutos da Terra

Pieter Bruegel, o Velho (1530-1569)

“Torre de Babel” – de Pieter Bruegel, o Velho (1530-1569)

A TORRE DE BABEL
E OS FRUTOS DA TERRA

Há tempos que eu não me chocava tanto diante do talento incomensurável de um artista quanto ando fazendo diante dos quadros de Pieter Bruegel, “o Velho” (“The Elder”). Uma de suas mais impressionantes criações retrata o mito judaico-cristão da Torre de Babel com uma tridimensionalidade tão perfeita, uma beleza arquitetônica tão estarrecedora, que os olhos ficam encantados de “passear” o olhar pela tela. Mas o que mais me impressiona é o caráter arruinado e caótico da construção que o quadro traz como protagonista, numa perfeita comunicação do fracasso e do desastre deste mítico empreendimento humano.

A Torre de Babel simboliza pra mim muitas coisas além do significado mais “escancarado” que é a discórdia entre os homens, a divisão que ocorre entre eles por causa da diferença de línguas e costumes. É, além disso, o símbolo de uma tentativa humana que fracassou, de um sonho que gorou, de uma esperança que se decepcionou…

Conta-nos o mito de Babel que tentaram os homens erguer uma suntuosa construção que os aproximasse de uma certa divindade que supunham habitar nas regiões celestes. Na versão oficial, com a qual catequisam as criancinhas e que os pregadores propagam de seus púlpitos, foi Jeová quem impediu que o projeto chegasse a bom-termo. Irritado com os homens por quererem estreitar as distâncias entre o sagrado e o humano, este deus teria confundido os idiomas, impossibilitando a comunicação entre os homens, agindo de modo a manter a hierarquia que estabelece um fosso entre o cá-embaixo e o lá-em-cima, entre os reles mortais e o soberano dos céus.

Eis um mito de um deus abscôndio, anti-social, que não quer papo com suas criaturas e deseja se manter como um inacessível e distante juiz das virtudes e pecados de seus rebentos, julgando-os com olhar severo e às vezes punindo-os com hecatombes, bolas-de-fogo e condenações à danação eterna. Desta matéria são feitos os delírios humanos derramados nos livros e nos mitos ditos “sagrados”….

O que mais me interessa no mito é que os homens, neste empreendimento coletivo alucinado de tentar atingir um “contato com a divindade”, não atingiram seu objetivo: não chegaram à Harmonia ou à Comunhão, mas sim à Discórdia e à Calamidade. Por mais alto que se erguesse a torre, nenhuma altura parecia ser jamais suficiente: subiam e subiam, e não trombavam com nada além de vento, atmosfera, vazio. Nenhum deus foi encontrado nesta marcha para cima de uma humanidade ávida por contatos sobrenaturais.

A Torre de Babel não tem um final feliz para as esperanças daqueles que empreenderam a construção: é muito mais um mito que desilude, desengana e põe a fé em maus lençóis. Naquele “experimento empírico” de subir rumo ao divino, a humanidade descobriu-se insatisfeita em seu anseio e, nas palavras de John Lennon, descobrimos “above us only sky”. Ou, nas palavras do astronauta russo Yuri Gagárin, ao chegar ao espaço sideral: “Não vejo deus nenhum aqui em cima…”.

A Torre de Babel mostra o ímpeto religioso levando-nos a empreendimentos absurdos, a imensos desperdícios de energia, em busca de um Papai-do-Céu que fantasiávamos que estava sentado nas nuvens, nos julgando e nos cuidando. Como depois comprovaríamos novamente com nossos aviões e foguetes, o Céu não tem nada de Paraíso: não passa de ar atravessável, espaço vazio, quietude a-linguística, presença muda do que não está aí para satisfazer nossos corações…

Pintura de Bruegel, "Paisagem Com Queda de Ícaro"

Pintura de Bruegel, “Paisagem Com Queda de Ícaro”

Os gregos, com o mito de Ícaro, representaram algo semelhante: o ímpeto alucinado de transcender os limites humanos, que leva Ícaro a tentar alçar vôo rumo ao Sol, acaba sendo severamente punido pelo derretimento de suas asas e sua queda abismal. De certo modo, um dos temas mais recorrentes da mitologia grega, a batalha entre Diké (Justiça) e Húbris (Desmesura), encontra-se também em Ícaro. Ele foi desmesurado em sua ambição de atingir um fim inacessível aos humanos (acercar-se do Sol, abraçar os astros distantes…). Acabou pagando o preço por sua tentativa fracassada de ascender a domínios que não são os seus.

Pode-se ver no quadro de Bruegel o tamanho diminuto da cidade diante deste colosso de pedra que é a Torre de Babel, toda incompleta e imperfeita, imagem e semelhança de seus mortais artesãos. Pequenos como formigas, os trabalhadores da construção, esparramados por todos os lados, não tem a mínima visão de conjunto: é o pintor que a detêm e que põe sua perspectiva privilegiada a serviço de quem se depara com o quadro. Este quadro possibilita a quem o observa ter sua consciência imediatamente amplificada a dimensões amplíssimas. Percebam que o topo da Torre penetra nas nuvens, bem mais envolto em névoa do que os andares inferiores; no entanto, é perto do topo que a feiúra e a incompletude parecem se manifestar com mais força. Quão eloquente!

Ao rés-do-chão, súditos de joelhos se submetem em silêncio a um nobre com cetro de ouro, acompanhado por um séquito de soldados com espadas afiadas.  Se fôssemos Brechtianos e perguntássemos a opinião daqueles trabalhadores sobre a construção em que estão obrigados a trabalhar, talvez muitos expressassem sua discórdia em relação ao projeto, julgando-o absurdo, ineficaz ou mesmo terrivelmente e opressor. É bom lembrar que muitos daqueles que foram obrigados a trabalhar na construção da torre, de modo similar aos escravos que penavam para erguer as pirâmides para os faraós egípcios, foram coagidos pelos poderosos-da-vez a este extenuante labor. Pobres de todos aqueles, História afora, que foram escravizados por homens com a idéia-fixa, maníaca e mirabolante, de “ganhar o Paraíso” ou “subir até Deus” (anseios que, julgo eu, cada dia mais serão tidos como material de reflexão mais para a psiquiatria do que para a teologia…).

Hoje, os arranha-céus que, no mundo capitalista desenvolvido, enxameiam nas metrópoles, e através dos quais algumas empresas e alguns milionários parecem envoltos numa trama sinistra de competitividade babélica, parecem ter esquecido a lição original da Torre, tão magistralmente pintada por Bruegel: não há Deus algum a se encontrar em Cucolândia das Nuvens. E só há hedionda opressão no fato de escravizar milhões a projetos faraônicos de poder teológico-político.

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moinho e cruz

O filme O Moinho e a Cruz foca sua atenção sobre outro quadro impactante e magistral de Bruegel, O Caminho da Calvário. Similar a outro excelente filme dedicado a um grande pintor – Sombras de Goya, de Milos Forman – O Moinho e a Cruz se passa também em um período histórico ainda chafurdado na medievalidade e assombrado pelos morticínios em massa ordenados pela Santa Inquisição, o braço armado da Igreja Católica.

A Inquisição, como todos sabem, era responsável pelo assassinato de pessoas tidas como hereges, descrentes, desviantes, feiticeiras, bruxas, pagãos. Foi um holocausto de milhões que foram acusados de crer nos deuses errados. Queimadas vivas eram as mulheres que preferiam louvar Dionísio a Javeh; aqueles que usassem ervas da mata e cogumelos mágicos em rituais eram decerto merecedores do suplício da roda; sequer supor a inexistência do deus que as autoridades doutorais da Igreja pregavam em seus sermões era o bastante para que a alma do incrédulo fosse prometida ao inferno, que seu caráter fosse declarado malévolo e que toda a violência contra o seu corpo estivesse justificada.

O historiador francês Jules Michelet soube narrar com eloquência inimitável estes horrores em seu livraço A Feiticeira, recomendado para qualquer um interessado em compreender como pôde a História humana chegar a tamanhas carnificinas e a tamanhos perigosos delírios…

“O Caminho do Calvário”

No filme, Bruegel (encarnado por Rutger Hauer, em um de seus melhores papéis desde Blade Runner – Caçador de Andróides) é honrado com uma descrição cinematográfica de seus métodos de trabalho que atinge alturas poéticas de inebriar. Como uma “aranha que constrói sua teia”, ele pretende “capturar” em sua obra toda a riqueza de diversidade humana que enxerga à sua volta. O quadro é pensado como uma representação de um momento da História Humana onde os mais lúcidos dentre os espectadores desejavam fazer parar o moinho do Tempo para que se pudessem consertar os males do mundo.

Pois os males são tão difíceis de remediar e curar justamente pois não cessam de modificar-se, são também eles fluidos e variáveis. O Tempo não pára e é no seio dele que devemos nos aplicar a remediar e vencer aos males que devêm. Cronos em sua fome insaciável não cessa um segundo sequer de mastigar seus filhos: nós, as devoradas criaturas do tempo. E males não faltam na obra de Bruegel e no filme dedicado a nos fazer mergulhar em seu mundo.

Os horrores vivenciados pelas massas daquela época foram espetacularmente retratados por este artista, tão imensamente talentoso que legou à posteridade retratos tão vivazes da desgraça de seu tempo: uma das personagens principais de O Caminho do Calvário é a mãe do condenado, uma velha senhora, com feições de Virgem Maria, mas que é apresentada já na velhice, ferida pelo fardo de uma experiência demasiado incompreensível e dolorosa. Esta figura se assemelha a Maria, mãe de Jesus, mas pintada cerca de 30 anos depois do assassinato de Cristo. Aquela mulher é uma das mais fortes representações de uma fraqueza absolutamente impotente, de uma tristeza profunda diante do rolo compressor das autoridades que estão executando seu filho.

Por que ele está sendo morto, este supliciado de um novo Gólgota? Principalmente pois os rigores dos tiranos da Espanha, nesta época, haviam convertido em rotina o assassinato sistemático de todos aqueles que não considerassem “bons cristãos”. Aqueles que se auto-proclamaram bons cristãos e defensores da verdade absoluta perseguiam, nestes tempos, uma seita que havia nascido no próprio seio do Cristianismo e que havia progressivamente se distinguido dele: a Reforma Protestante de Lutero já agia sobre o ar dos tempos e os defensores da nova seita já eram perseguidos pelos defensores dogmáticos das tradições antigas.

Há em Bruegel muito do zeitgeist que conduziu a horrores como o Massacre da Noite de São Bartolomeu, quando 30.000 huguenotes foram assassinados nas ruas de Paris a mando dos reis católicos, desejosos de calar a voz dos asseclas de Lutero e Calvino pelo método mais bruto conhecido: cortando-lhes as gargantas. Não é o próprio Sermão da Montanha que enuncia: “Se teu olho te escandaliza, arranca-o”?

Esta medicina grotesca, que equivale a de um médico que, para a enxaqueca de seu paciente, receitasse que ele cortasse fora a cabeça, ou de um dentista que só lidasse com cáries através da extração dos dentes, foi posta em prática também pelos piedosos defensores das “verdades sagradas” em relação aos considerados “males da alma”, também conhecidos, na linguagem dos teólogos, como “vícios” e “pecados”.

Aquilo que a Igreja Católica Apostólica Romana define como “pecado”, porém, não é assim compreendido por aqueles que são rotulados de fora como pecadores: quem louva Baco e Pã, cantando pelado pelos bosques, embriagando-se de vinhos e cogumelos, não necessariamente considera-se alguém que merece ser queimado vivo por estar ferindo um dogma eclesiástico ao qual aderem alguns monarcas supersticiosos e seu clero privilegiado…

Um quadro de Bruegel, quando compreendemos o que está por trás daquela imagem, quando conseguimos usar o quadro como uma espécie de janela que podemos atravessar rumo a um outro período histórico, tem a força e o impacto que a leitura de Voltaire ou Michelet oferece ao leitor que se aventura pelos sinistros labirintos da medievalidade.

Ao mesmo tempo, já se respira com mais liberdade em Bruegel o aroma liberador do Renascimento. Estes quadros nos ensinam também sobre o porquê da Revolução Francesa, ou melhor, nos ajudam a compreendem o que a tornou necessária. Era inevitável uma maré da revolta contra os horrores perpetrados num mundo onde vigia o dogma do Direito Divino dos Reis e onde eram correntes as carnificinas sectárias, ordenadas por certas facções religiosas contra inimigos de outras facções (e que conduziram a ciclos intermináveis de violências). Tudo isso já carrega em germe a indignação que daí brotou, a maré de oposição a este mundo babélico.

O Moinho e a Cruz é um dos melhores filmes que já vi sobre as artes plásticas: consegue a proeza de, partindo de um quadro específico, lançar o espectador para uma História repleta de horrores e de ensinamentos. A certo momento, Bruegel assim explica o significado do Moinho que ocupa a posição mais alta do quadro, envolto nas nuvens como o topo da Torre de Babel: “quase todas as representações de Deus o mostram acima das nuvens, olhando para baixo em direção à Terra com expressão de desgosto e desagrado”.

 Todos aqueles que cresceram sob a influência da doutrinação religiosa judaico-cristã conhecem esta figura de uma divindade furibunda, irascível, juiz inexorável dos pecadores, que inclusive inventou o Inferno para torturar pelas eternidades os seus desafetos. Deus é representado como uma figura que expulsa o desobediente às regras, por mais absurdas que as regras sejam. Afinal de contas, Adão e Eva deveriam por acaso obedecer à regra de manterem-se ignorantes? Porque uma Árvore onde se come Conhecimento seria proibida senão por aqueles que reinam através da Ignorância?

 Deus é representado como capaz de genocídios, como os de Sodoma e Gomorra, nos quais se mostrou especialmente homofóbico e genocida. Enfim: acreditam os crentes no monoteísmo que acima das nuvens haveria um Todo Poderoso capaz de fúria e vingança, que observa todos os atos e pensamentos dos homens, julgando-os moralmente para decidir se lhes dá a Beatitude Eterna ou o Suplício Infindo? Bruegel nos pinta este mundo com a voz discordante de quem sabe que tais fés não conduziram, no palco da História, à concórdia universal. É um pintor da luta fratricida e sectária, um retratador de horrores reais, ao invés de um propagandista ou marqueteiro de uma rósea fantasia de Redenção.

Tanto o Moinho no cimo da montanha quanto o topo da Torre de Babel roçam as nuvens mas só encontram ali a solidão.

É debaixo de um céu indiferente, todo éter e espaço transitável, que os seres na Terra penam, lutam, nascem, vivem, morrem. Da antiquíssima e lendária construção da torre que subia aos céus na Babilônia, aos atuais experimentos com arranha-céus, satélites e foguetes, a recorrente descoberta da Humanidade é a da ausência de qualquer Providência Benigna nas nuvens.

Dizem que o ateísmo não é comprovável, mas tenho minhas dúvidas: são milênios de experimentos empíricos feitos para tentar contatar um deus que permaneceu eternamente silente. E silêncio eterno é algo típico dos mortos, ou melhor, dos que não existem.

Talvez haja um deus nos confins do Universo, em alguma galáxia distante, preocupado em gerir a órbita de planetas e a incandescência de sóis de que nem temos ideia? Isso o mistério recobre. Mas o que já descobrimos é que nossos arredores galácticos estão desabitados por ETs e deuses. Apesar de só podermos dizer que não há vivalma nesta minúscula fração das redondezas galácticas que pudemos explorar deste Universo do qual desconhecemos ainda tanto…

Joseph Campbell, em O Poder do Mito, descreve dois modos opostos de se imaginar o início da aventura humana sobre a Terra: 1º) a ideia de que “caímos do céu”, tendo sido jogados aqui de uma “fonte” no alto; ou seja, uma Mão nas Nuvens nos confeccionou e depois nos fez descender ao rés-do-chão terrestre; 2º) a ideia de que emergimos do próprio seio do planeta, filhos de Mãe Gaia, rebentos da Natura Creatrix; o que eu gosto de chamar, usando uma expressão de André Gide, de teoria dos “Frutos da Terra”.

Que a primeira dessas ideias não nos tenha conduzido à concórdia e à harmonia é o que a História oferece provas em profusão. Que a segunda ideia tenha um poder maior de concretizar a fraternização, ainda resta a ser experimentado, tentado, avaliado, mas me parece muito plausível. Venceríamos o tenebroso colosso da Discórdia caso pudéssemos cessar de construir a Torre de Babel rumo a deuses que não existem e enfim nos compreendêssemos como Frutos da Terra, Filhos de Gaia, fios na grande teia terráquea em que a vida tece seu drama?


(Eduardo Carli de Moraes)

Outras obras do Bruegel…
Casamento Camponês
Parabola dos Cegos
Peixão come peixinho
Provérbios Flamengos

A Mulher À Sombra da Cruz – Reflexões sobre “A Feiticeira”, de Jules Michelet (1798-1874)

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“É certo que não havia bruxas, mas as terríveis consequências da fé nas bruxas foram as mesmas que se verificariam se tivesse havido bruxas…” 

FRIEDRICH NIETZSCHE (1844-1900)
Humano, Demasiado Humano
– Um Livro Para Espíritos Livres,
 Vol. II


I. “A CARNE É IMPURA!” – RETRATO DA NEUROSE PURITANA E SEUS MALEFÍCIOS

Quanto mais nos informamos sobre como as mulheres foram tratadas através da História pelas grandes religiões institucionalizadas, mais se torna impossível falar sobre o assunto “sem que a pena gema de indignação”, escreve Jules Michelet (pg. 92).

O grande historiador francês tenta realizar em A Feiticeira, uma de suas obras-primas, a análise da condição feminina na Cristandade medieval, em especial a situação daquelas que eram estigmatizadas como bruxas ou feiticeiras, para em seguida serem encerradas em conventos, enterradas vivas em claustros ou queimadas vivas nas fogueiras.

Jules Michelet (1798-1874), historiador francês

Jules Michelet (1798-1874), historiador francês

“Por uma perversão de idéias monstruosa, a Idade Média via a carne como impura”, escreve Michelet em sua análise dos séculos ditos “das trevas” (pg. 109). Que o cristianismo tenha lançado o anátema sobre o corpo ajuda a explicar porque entraram para a História aqueles séculos medievais com fama de sombrios, tenebrosos e des-iluminados. A Humanidade, por um milênio afundada no breu dos dogmas, sob o jugo pesado de monarquias teocráticas e papados tirânicos, só voltaria a ensaiar auroras no Renascimento e no Iluminismo.

Nietzsche, dentre muitos outros, mostrou muito bem os males do fanatismo religioso quando este parte ao ataque contra o corpo: não se ataca o corpo sem atacar a vida na raiz, eis o ponto! Pois o corpo, único possível hospedeiro da vida, é a condição sine qua non da vitalidade. Não há vida senão corpórea. E a carne vivente, que carrega em seu seio o fogo vital do desejo, apta a todas as deleitosas sensações provindas das conexões e dos acarinhamentos entre os corpos, foi rotulada por fanáticos espiritualistas como pecaminosa, impura, condenável.

A moralidade puritana e o ideal ascético, na análise de Nietzsche, baseiam-se na ilusão de que um espírito imortal nos habitaria. Motivados por este delírio, alguns fanáticos perpetram atentados contra os corpos vivos; tornam as pulsões naturais e os instintos eróticos inatos algo que merece a vergonha, a pudicícia e a repressão; dão veneno a Eros e Afrodite e só recomendam o amor a Deus e aos espíritos…

Os teólogos criaram raciocínios enfadonhos de tão mirabolantes para nos provar que devíamos massacrar nossa própria carne, reduzi-la ao silêncio, deixá-la passar fome em suas vontades: “Mas a grande revolução que as feiticeiras fizeram, o maior passo às avessas contra o espírito da Idade Média”, escreve Michelet, “é o que podemos chamar de a reabilitação do ventre e das funções digestivas” (p. 108). Ou seja, foram justamente estas mulheres que quiseram reabilitar o corpo, retirá-lo do opróbrio em que a Cristandade o tinha lançado.

As feiticeiras representam, para Michelet, mulheres que superaram o pavor pelo mundo físico que era disseminado pelos pregadores cristãos e “professavam, com ousadia: ‘Nada é impuro e nada é imundo’. O estudo da matéria tornou-se a partir de então ilimitado, franqueado. A medicina tornou-se possível. (…) Tudo que é físico é puro; nada pode ser afastado do olhar e do estudo, proibido por um vão espiritualismo, menos ainda por um nojo tolo.” (pg. 109)

Que diferença marcante há entre a atitude materialista e fisicalista destas mulheres, por um lado, e o que dava o tom na Cristandade da Idade Média! Pois o cristianismo era uma doutrina radicalmente anti-corporal ou anti-física, no sentido de que “segundo ele, não só o espírito é nobre e o corpo não-nobre, como há partes do corpo que são nobres e outras, ao que parece, plebeias.” (p. 109) Este privilégio que se oferece a um suposto espírito incorpóreo não se efetiva senão sob a condição de oprimir a carne.

A tirania do incorpóreo sobre o corpo é uma das marcas destes séculos durante os quais, nos países cristãos, as mulheres eram obrigadas a se adequar a um modelo de feminilidade baseado na Virgem Maria. Deviam considerar tudo aquilo relacionado com a carne, todos os anseios sexuais, todos os deleites sensoriais, o domínio inteiro da sensualidade, como impuro, imundo e pecaminoso, tornando-se “humildes mártires do pudor” (p. 109).

Além do mais, eram convidadas a acreditar na ideia absurda de que uma mulher podia ser “escolhida” por Papai-do-Céu para nutrir em seu ventre um messias que nasceria sem necessidade daquilo que é a condição sine qua non de toda geração de vida humana: a relação sexual. Felizmente, este pesado jugo que a Cristandade impõe às mulheres não se realiza sem rebeldia e resistência de uma fração de suas vítimas: justamente muitas destas mulheres que foram condenadas a serem queimadas vivas nas fogueiras da Inquisição, por exemplo, e que “faziam tudo às avessas, ao contrário do mundo sagrado” (pg. 110).

Ora, se a moralidade judaico-cristã, devido a este anátema lançado contra o corpo e as realidades terrenas, representa um ataque ao próprio prosperar fisiológico da humanidade, não é de se questionar até que ponto o cristianismo é “necessário” e até que ponto é danoso? E não é a filosofia de Nietzsche um esforço no sentido de averiguar as consequências de termos sido cristãos por dois milênios? Será o cristianismo tão imprescindível quanto querem nos fazer crer seus padres, teólogos e pastores? Ou será que a efetivação de potencialidades humanas ainda inexploradas depende da superação do cristianismo? Não será preciso deixa-lo para trás como algo que caducou na História e lançar nossos navios para outros mares, em que a opressão e o genocídio das minorias discordantes não seja tamanha, e em que a carne seja menos oprimida, proibida, reprimida e escorraçada?

Ao menos a História registra amplos movimentos contrários à imposição de uma moralidade puritana e condenatória do corpo, sendo Nietzsche um de seus representantes mais eloquentes na filosofia. Como nos lembra Michelet sobre a história da Idade Média, o fato do cristianismo ser “dominante” nas instituições políticas, reinando sobre as populações em seu poderio teocrático-monárquico, não impediu que irrompessem do próprio seio das massas “imensas festas populares”, os sabás, que tornam-se historicamente significativos a partir do século XIV (um estudo  pormenorizado do Sabá pode ser encontrado no livro do historiador Carlo Ginzburg, História Noturna).

Nestas ocasiões “sabáticas”, para descansarem da fatiga torturante que é estar sob a sombra do Crucificado, as pessoas deixavam Dioniso à solta, invocavam Baco e outros deuses da embriaguez, cometiam as mais impudicas das buscas orgiásticas por êxtases da carne… E haviam mulheres numerosas na Idade Média que se mostravam desejosas de participar deste processo, ajudar em sua realização, não só participando das festas, das danças e das orgias, mas inclusive preparando os ancestrais do chá de ayahuasca e do LSD. Pois desde tempos remotos da história humana ansiava-se por substâncias inebriantes, que despertam aquela aptidão humana para o “Sim!” cheio de júbilo, estupefacientes possibilitadores de comunhões com os outros e com o mundo físico que nos circunda e nos contêm.

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II. POÇÕES MÁGICAS E OUTROS ABENÇOADOS E PERIGOSOS PHÁRMAKOS

feliz dia so sexo

A mulher rotulada pelas autoridades da Cristandade como feiticeira é, na perspectiva de muita gente do povo, vista como dotada de imenso poder. É venerada por suas capacidades de criar remédios abençoados, de soníferos a estupefacientes, de filtros-do-amor (afrodisíacos) a cogumelos mágicos… A mulher rotulada “feiticeira”, suspeita de ter relações ilícitas com os poderes satânicos e as forças das trevas, é sabida em “poções mágicas”.

Não só os doentes, os necessitados, mas aqueles que se sentem com vocações xamânicas procuram a elas, feiticeiras, a fim de degustarem de seus sedutores e perigosos fármacos. Um jovenzinho apaixonado desta época, caso tivesse sido flechado por Cupido ou tentado por Eros, “pagaria qualquer preço pela beberagem ardente capaz de perturbar o coração de uma grande dama, fazê-la esquecer as distâncias e lançar os olhos sobre ele.” (pg. 114).

Muitos sabiam que a Igreja, interditando os amores físicos, lançando sobre o sexo o anátema, só permitindo-o para fins de procriação de outros cristãos, acabava por cometer um atentado contra o amor em geral, o amor ele-mesmo. Alguns sentiam que não havia amor que não fosse físico, e que mesmo o amor à mente ou ao caráter do outro era sempre o amor a algo que está indissoluvelmente conectado ao corpo do outro. E que portanto só há amor de corpos amando corpos. O mais platônico dos amores ancora-se também no corpo; e é sempre um corpo que fantasia sobre o “espírito” do outro…

O casamento, segundo a dogmática católica, deveria ser um laço sagrado que une “até que a morte nos separe”, quase uma condenação a uma co-presença vitalícia, algo que, como lembra Michelet, não agradava a muitos homens e mulheres. Na Idade Média, as “feiticeiras” também são as mulheres incapazes de se conformarem ao ideal de feminilidade que lhes era imposto. Mandavam-nas ser “castas”, “puras”, “humildes”, “pacientes”, que agissem como vassalas respeitosas e obedientes de seus maridos, honrando o senhor da casa cá embaixo e o Senhor dos céus lá em cima.  E quem destoasse deste coro dos contentes era apedrejada como a Geni do Chico, ou torpedeada com torpes designações como “bruxa” ou “vadia”, ou posta pra arder por ordem dos “bons e dos justos”.

Através de toda a Cristandade, descrita com tintas sinistras por Michelet, a mulher aparece reduzida a um animal doméstico que o homem possui até a morte. Seja como for, circulou pela Idade Média a tese de que “não há amor possível entre esposos” – de modo que os sabás, onde dava pra pular a cerca rumo a orgias e festas bastante pagãs, foram amplamente frequentados.

Nesta sociedade monárquica e calcada na teologia, os reis e o clero, sentados em seus tronos ornados a ouro, dentro de seus castelos-fortaleza, tendo sob seu comando exércitos com alto potencial mortífero, são o topo da pirâmide social.  De lá faziam descer, pirâmide abaixo, a doutrina que exigia dos súditos a “obediência ao Senhor” – aquele que supostamente habita nos céus – mas igualmente a seus auto-proclamados representantes na Terra. Já os pobres camponeses, desprovidos de terra própria, obrigados a acatar a tirania dos latifundiários, “raspavam os pratos que os personagens de cima, sentados junto ao fogo, lhes enviavam muitas vezes vazios.” (p. 115)

Há, portanto, o equivalente a uma “luta de classes” neste quadro pintado por Michelet sobre a história medieval: de um lado, uma elite cujo poder se baseia numa teocracia latifundiária e que diz ser a servidora de Deus na Terra; de outro, uma massa de camponeses reduzidos à servidão e à miséria, mas com ânsias de melhorarem de vida e em revolta contra “a injustiça da sorte”. Em uma estrutura social radicalmente tão hierarquizada e nada igualitária, há uma fração das mulheres que se engaja num estilo de vida em que fazem tudo “às avessas do sagrado”.

Se a Igreja diz que sagrado é ser casto e mortificar todos os tesões, a feiticeira irá preparar beberagens afrodisíacas que tornam irresistíveis os chamados eróticos. Se a Igreja rotula como sagrado apenas o amor espiritual, a prática taciturna dos deveres e a contemplação dos ideais, a feiticeira será profundamente conhecedora do corpo, exploradora dos potenciais da carne, tornando-se íntima do mundo físico que a Igreja desdenha como profano. Enquanto a Igreja só permitia a embriaguez se fosse na contemplação da ideia de Deus, as feiticeiras faziam experiências amplas com a phýsis e criavam uma farmacopeia de excitantes, estimulantes e inebriantes. Num tempo sem drogarias, eram elas as farmácias ambulantes, sabedoras de receitas, capazes de aconselhar sobre ingredientes. Enfim: médicas xamânicas, proto-cientistas e dealers psicodélicas.

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Pintura de Francisco Goya,

Pintura de Francisco Goya, “O Sabá das Bruxas”

III. TUDO ÀS AVESSAS DO SAGRADO

No século de Dante, pois, explodem como fenômeno histórico os sabás e as missas negras, estes carnavais dos servos onde com frequência nascia uma revolta. Nestes sabás as pessoas davam livre curso aos ritos proibidos na Cristandade e veneravam, por exemplo, a Lua, tida como influência determinante nos destinos humanos. Velhas danças pagãs eram exercitadas até o frenesi. Servos unidos em rebeldia solidária, num sabá francês, compunham canções precursoras da Marselhesa, como esta registrada por Michelet:

Nous sommes hommes comme ils sont!
 Tout aussi grand coeur nous avons!
Tout autant souffrir nous pouvons!”

(“Somos tão homens quanto eles!
Temos o mesmo grande coração!
Tanto quanto eles podemos sofrer!”).

Se os sabás e missas negras eram tão mau-vistos e tão perseguidos pelo clero e pelos reis, era pois ali germinavam as sementes da discórdia e os planos de revolução: “o povo, educado pelo próprio clero na crença e na fé do milagre, bem longe de imaginar a fixidez das leis de Deus, durante séculos havia esperado um milagre, e ele nunca viera. Em vão clamava por ele no dia desesperado de sua necessidade suprema. A partir de então, o céu lhe pareceu como que o aliado de seus carrascos ferozes, ele mesmo um feroz carrasco. Por isso a Missa Negra e a Jacquerie” (pg. 123).

A Jacquerie, ou revolta dos Jacques, foi uma insurreição camponesa que teve lugar no Norte de França, entre 28 de maio e 9 de julho de 1358, durante a Guerra dos Cem Anos. Wikipedia.

Aqueles que, nesta sociedade, estão reduzidos à servidão e portanto à miséria, estes pobres camponeses cujas existências parecem “um inferno em vida” (pg. 14), são também aqueles que lotam os sabás, que chegavam a reunir de 5 mil a 12 mil pessoas, dependendo do povoado. Nestas “imensas assembleias” se tornava explícito a fraqueza dos dogmas propagados pela Igreja: “Grande e terrível revelação da pouca influência moral que tinha a Igreja, que acreditava que com seu latim, sua metafísica bizantina, que ela mesma mal entendia, estava cristianizando o povo; no único momento em que ele se libertava, em que podia mostrar o que era, mostrava-se mais que pagão.” (p. 17)

Os sabás e as missas negras seriam, pois, como algo que emerge espontaneamente no seio do povo, que sentia necessidade de escapar da tirania teocrática e cultuar dionisiacamente, “pagãmente”, deuses malquistos pelos monoteístas. Cultos proscritos e condenados – xamanismos, dionisismos, cultos à natureza, celebrações orgíacas e extáticas da existência… – recebiam então direito de cidadania. O carnavalesco sabá é uma festa de libertação provisória em relação à asfixiante dogmática ascética, condenatória dos prazeres e da sensibilidade, que então imperava na Cristandade.

Um exemplo indignante destes tempos, fétido costume e imundo direito, é exposto em detalhes por Michelet: na Cristandade europeia da Idade Média, por volta do século XII, numa sociedade cindida entre uma massa de servos empobrecidos e uma nobreza tirânica e teocêntrica que se isolava em seus castelos, considerava-se as mulheres camponesas (que constituíam, afinal de contas, a massa!) como “servas de corpo” . Ou seja, as moças, quando se casavam, não tinham o direito de uma noite de núpcias com o novo esposo, mas eram obrigadas a fazer o dom de sua virgindade ao senhor. Os senhores da terra impunham, com seu poder terreno, o privilégio de desvirginamento das camponesas sob seu jugo.

Lembremos que, nesta época, o teológico e o político estão intimamente conectados e imbricados: o senhor é, com frequência, ao mesmo tempo um eclesiástico e um leigo; nele se reúne a autoridade religiosa e a política. Estes homens, que se auto-proclamam os representantes de Deus na Terra, na realidade não conseguem viver em devoto retiro espiritual: acabam criando e conservando instituições e costumes falocráticos de opressão. Por exemplo: Michelet conta a história de um certo pároco de Bourges que, “sendo o senhor, exigia expressamente as primícias da esposa, mas de fato o que queria era vender ao marido, por dinheiro, a virgindade de sua mulher.” (pg. 70)

Revoltante dízimo exigido por um padre que, desejoso de riqueza, suborna um pobre camponês miserável! No geral, porém, o “preço” que estes párocos-senhores cobravam para não fazer uso de seu privilégio de desvirginamento eram tão exorbitantes que o pagamento beirava o impossível, de modo que a pobre mulher camponesa da Cristandade medieval era coagida, no dia de seu casamento, a deixar-se estuprar por aqueles que estavam mais alto na hierarquia social. “Todos os costumes feudais impõem à mulher subir ao castelo, levar até lá o ‘prato de casamento’…” (pg. 70)

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las nietas

IV. A NOÇÃO FALOCÊNTRICA DE DEUS

A expressão “Deus-Pai” já diz muito: a divindade da tradição judaico-cristã é claramente masculina e não é incomum que seja representada como um velhinho de barbas brancas sentado sobre as nuvens, que criou Eva a partir de uma reles costela, e que tem tendências fortemente homofóbicas, às vezes se enfurecendo com a sodomia e a homossexualidade (que pune com bolas-de-fogo genocidas).

 Ora, não é de se suspeitar que um deus caralhudo, viril e cheio de hombridade como o velho Jeová tenha sido inventado por gente caralhada, viril e cheia de hombridade? Deixo no ar a provocação, para que os teólogos (se ainda existirem…) se virem com ela, ou me condenem às fogueiras (que, ainda bem, estão em extinção!). O que me parece evidente neste personagem literário que encontramos nos escritos ditos “sagrados” do judaísmo e do cristianismo é que se trata de um deus macho-man – e que grande parte da desgraça e da opressão que despencou sobre as mulheres na história vem da idolatria de uma tal deidade pintuda, misógina, machistóide.

O que pensar de um deus que age usando como meios de punição os dilúvios e as bolas de fogo? De um deus que criou um imenso campo-de-torturas chamado Inferno para desgraçar eternamente seus desafetos? De um deus que tem seus acessos de fúria e vingança de uma agressividade tamanha que nos leva a pensar num tirano com direitos absolutos? Um deus com muitos colhões, esse que ordena que um anjo destrua Sodoma e Gomorra!  Se a explicação tradicional para este massacre genocida, ordenado por um deus que dizem bom e generoso, é que as cidades mereceram tal hecatombe, por estarem repletas de pecadores, resta-nos frisar que há uma explicação bem mais plausível: homens profundamente homofóbicos e cheios de pudicícia neurótica inventaram uma mitologia que se adequava a eles como uma luva… Ou seja, fabricaram a noção de uma divindade que pune os “sodomitas”, os “libertinos”, as “feiticeiras”…

A desgraça é que estes homens, criadores destas sórdidas mitologias, não deixaram ao deus que idolatravam que cuidasse Ele de realizar o serviço: como “servidores de Deus na Terra”, decidiram dar aos que taxaram de pecadores um antegosto das punições que prometiam a eles para o inferno. Quantos milhares e milhares de pessoas não foram concretamente punidos, vítimas de danos materiais, nesta Terra e nesta vida, quantos não foram assados vivos ou afogados, por homens-de-fé megalomaníacos e cruéis, puritanos com fobia da diferença, cruéis de batina movidos por uma vontade de extermínio de toda e qualquer alteridade que desvie dos dogmas!

Este procedimento teológico falocêntrico se torna ainda mais explícito quando atentamos para os outros dois integrantes do “triângulo sagrado” da Cristandade, o tal do Filho e o tal do Espírito Santo. Que religião diferente não teria surgido com uma tríade mais feminil e primaveril, com uma Deusa-Mãe, uma Filha e uma Espírita Santa! Que cultura e que civilização imensamente outras não nascem quando o culto dominante é de Ísis, Deméter ou Gaia!

Infelizmente, como se sabe, a História registra uma predominância opressiva dos homens nas hierarquias das instituições religiosas e os próprios dogmas, em sua maioria inventados e escritos por sujeitos machistas e misóginos, revelam a opressão de gênero: na mitologia bíblica, Deus-Pai cria Adão à sua imagem e semelhança; já Eva, não passa de um mero subproduto, nascida de uma reles costela, e acaba depois, por sua incapacidade feminil de resistir à tentação do fruto proibido, desgraçando-nos e lançando-nos fora do Éden. A Bíblia, em suma, faz de Eva um subproduto secundário e pecador, um ser indigno de confiança e merecedor de punição…

Decerto que os cristãos idolatram também a Virgem Maria, mas também aí, neste ideal feminino, manifesta-se um preconceito milenar: a mulher valorosa é casta, pudica, dócil, assexuada. Isso não impedia, como nos lembra Michelet, em suas preleções sobre a Cristandade na Idade Média, que os conventos femininos frequentemente estivessem repletos de grávidas (p. 68) – obra dos monges e outros homens-de-fé, que idolatravam em teoria e no imaginário a virgindade de Maria, enquanto na realidade não resistiam ao estupro das freiras.

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Cena de

Cena de “A Paixão de Joana D’Arc”, de Carl Theodor Dreyer

V. O ÚNICO MÉDICO DO POVO, POR MIL ANOS, FOI A FEITICEIRA

“Ao ler as belíssimas obras escritas em nossos dias sobre a história das ciências, uma coisa me espanta: parecem acreditar que tudo foi descoberto pelos doutores, aqueles semi-escolásticos, que a cada instante ficavam enredados em suas togas e dogmas, nos deploráveis hábitos de espírito que a Escola lhes incutia. E aquelas que andavam livres dessas cadeias, as feiticeiras, não teriam descoberto nada? Seria inverossímil. No pouco que se conhece das receitas das feiticeiras, há um bom senso singular…” – JULES MICHELET, A Feiticeira, pg. 15

Muitas mulheres, através da História, foram vítimas de uma morte pavorosa após terem sido condenadas como “feiticeiras”. Normalmente, aqueles que as condenaram eram homens unidos em gangues – ainda que eles prefiram colocar isso em outros termos: são sacerdotes trajando batinas e fazendo o trabalho que Deus mandou… São todas masculinas as faces dos juízes que condenam Joana D’Arc, como se vê na clássica adaptação cinematográfica de Carl Theodor Dreyer. Dentre os muitos méritos da obra de Michelet dedicada à esta “classe infortunada” das mulheres ditas feiticeiras, está uma reconsideração do valor histórico destas, por exemplo quanto ao papel que desempenharam na evolução das ciências. Não seria crível pensar que estas mulheres, que experimentavam novas receitas, que buscavam criar novos filtros, em seu intenso intercâmbio com os vegetais e com a Natureza circundante, tenham contribuído – e muito! – no desenvolvimento da medicina e da farmacologia?

Na Idade Média assolada pelas epidemias – por volta de 1350, a peste negra devasta o globo conhecido e “mata um terço do mundo” (p. 14) – estas mulheres, que viveram em tempos onde não existiam hospitais nem farmácias, ousaram praticar medicinas – ou ao menos tentativas de cura – que muitas vezes levaram à sua condenação. Os homens que as condenaram, porém, nem sempre eram sábios ou peritos em ciência, muito menos médicos confiáveis. Conta Agrippa em De Occulta Philosophia sobre algumas “tolas receitas dos grandes doutores do século XIV”, convencidos dos “efeitos maravilhosos da urina de mula” (!).

Ora, as terríveis epidemias daqueles tempos ceifavam dezenas de milhares de vida: do século XIII ao XV, os flagelos horrorosos se sucedem – a lepra, a epilepsia, a sífilis. O que a Cristandade tinha a oferecer como antídoto? “Salvo o médico árabe ou judeu, pago a peso de ouro pelos reis, a medicina se exercia apenas na porta das igrejas, junto à pia de água benta.” (pg. 102) Pior que isso: as autoridades teológico-políticas da época não incentivavam de modo algum a pesquisa científica, a busca racional e empírica por remédios eficazes para combater estes tão grandes males.

Um terrível dogma cristão ordenava que se considerasse todo doente como um pecador: se ele tinha adoecido, devia receber sua doença como um “castigo de Deus”. As próprias epidemias eram vistas como uma resposta da fúria divina que caía sobre os homens por sua pouca obediência ou sua escassa fé. A Igreja só sabia recomendar a reza, o remorso e a resignação. A Igreja, ao invés de se engajar na busca por remédios, convidava os doentes a aceitarem sua sina, arrependerem-se de seus pecados e assim ingressarem na Vida Eterna com a alma purgada. Por séculos, tais dogmas foram uma imensa trava que impediu o progresso da ciência e da medicina e manteve um nível estratosférico de mortandade.

Mas ainda bem que nem todos são tão obedientes a sim aos “mandamentos de Deus”! A medicina era praticada por alguns judeus e árabes – e o próprio Avicena, árabe do século XIII, relata o uso intenso de “especiarias picantes trazidas do Oriente” e “bebidas fermentadas” que eram utilizadas – muitos séculos antes do Viagra! – como “estimulantes com que então se buscava despertar e reanimar as incapacidades do amor.” (pg. 104) Mas a autêntica medicina popular era praticada de fato pelas mulheres, pelas “sibilas”, aquelas que as autoridades se deleitavam em rotular “feiticeiras”. Numa época de calamidade, de grave crise de saúde pública, quando eclesiásticos imbecis pregavam o dogma pernicioso da doença como “castigo de Deus” , “transgrediram-se as proibições; desertou-se a velha medicina sagrada e a inútil pia de água benta. Buscou-se a feiticeira.” (p. 104)

Estas mulheres, maravilhosamente transgressoras, iam buscar no seio da Natureza os elementos para seus remédios: “empregavam muito, para os mais diversos usos – para acalmar, para estimular -, uma grande família de plantas equívocas, muito perigosas, que prestaram grandes serviços. Chamam-nas, com razão de as consoladoras.” (p.106) Além de excelentes parteiras, estas mulheres tinham a audácia de misturar ingredientes no fabrico de poções. Através de um insistente processo de tentativa-e-erro, e por transmissão oral dos conhecimentos adquiridos, puderam chegar a precisar as doses: certas poções são venenos se tomadas em excesso, mas bálsamos se ingeridos na dose ótima. Estas médicas e enfermeiras, vivendo em um mundo entrevado nas densas trevas da Cristandade medieval, eram muito mau-vistas por muitos que temiam seus poderes: “Uma multidão cega, cruel na medida de seu medo, podia, uma manhã, ataca-la a pedradas ou submetê-la à prova da água, o afogamento. Ou enfim, coisa mais terrível, podia arrastá-la, uma corda amarrada no pescoço, até o pátio da igreja, que disso teria feito uma festa piedosa, lançando-a à fogueira para a edificação do povo.” (pg. 107)

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Não terão sido estas mulheres essenciais, com seus experimentos químicos, com os encantamentos que visavam produzir nas cozinhas farmacológicas ancestrais, no sentido de descobrir substâncias benéficas para os humanos? E, no entanto, quanta perseguição sobre elas por parte de homens doutos, carregados de togas e dogmas! No brilhante filme de Alejandro Amenábar, Ágora (lançado no Brasil com o título Alexandria), acompanhamos a recriação de um episódio histórico bem simbólico disto: a astróloga e cientista Hypathia, que chegou a uma cosmovisão heliocêntrica mais de um milênio antes de Galileu e Copérnico, vê suas descobertas e obras destroçarem sob o impacto do fanatismo religioso que levou aqueles homens – de novo, do sexo masculino, em sua maioria – a reduzirem a cinzas a majestosa Biblioteca de Alexandria.

Michelet é pródigo em exemplos para ilustrar o quanto a mulher foi oprimida durante a Idade Média cristã: “Na Idade Média, a mulher é esmagada de três lados. A Igreja a mantém no nível mais baixo (ela é Eva e o próprio pecado); em casa, é surrada; no sabá, imolada. (…) Mas é perigoso tornar tão desgraçada uma criatura. Sob essa saraivada de dores, o que não é dor, o que é doçura e ternura, pode transformar-se em frenesi. Eis o horror da Idade Média.” (pg. 18)  Os homens-de-fé, doutos com o nariz afundado nos livros, deleitavam-se em inventar argumentos machistas, denigridores das mulheres, e tentam justificar que se devem queimar as Joanas D’Arc deste mundo e que isto não só agrada ao Senhor como foi ordenado por Ele! Sprenger exemplifica uma das ideologias de que sacerdotes e monges apreciavam ser os partidários: “Fe-mina vem de fé minus; a mulher tem menos fé que o homem.” Diante de ideias semelhantes, Michelet não pode conter seu asco: “Que fecundidade de burrices!” (pg. 19)

Para reabilitar estas mulheres ousadas, tão cruciais no desenvolvimento da medicina, Michelet escreve: “O único médico do povo, durante mil anos, foi a feiticeira. (…) A sua planta favorita, a beladona, foi um antídoto dos grandes flagelos da Idade Média. (…) O grande médico do Renascimento, Paracelso, em 1527 queimou toda as obras de medicina (Galeno, Avicena e Rhazès) e declarou saber apenas o que aprendera das feiticeiras.” (p. 31)

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VI. FUROR MISÓGINO E VIOLÊNCIA SAGRADA

A acusação de feitiçaria recai quase sempre sobre as mulheres culpáveis de idolatrar falsos deuses, ou seja, entrarem em relações com demônios. A mulher mais devota, se acreditasse em duendes e fadas, estava madura para a perdição. “Que mulher seria inocente? Ao se deitar, antes de sua oração à Virgem, deixava leite para seu duende. A moça, a boa mulher, acendia de noite um foguinho para consolo das fadas e oferecia de dia um buquê para a santa.” (p. 22)

Por estes “crimes”, estas mulheres são condenadas pelos homens de batinas negras a serem queimadas vivas nas fogueiras dos inquisidores; ou então emparedadas e lacradas em minúsculas celas onde deitam-se sobre os próprios excrementos; ou são enfiadas em ossuários e se deitam sobre os ossos dos mortos; ou têm a testa marcada com uma cruz escarlate e tornam-se objeto de zombaria geral, tendo que dirigir-se todos os domingos à missa para se deixarem açoitar por um homem-de-Deus… Na Idade Média cristã, a mulher rotulada de feiticeira (e eram tantas!) “é caçada como um animal selvagem, perseguida nas encruzilhadas, aviltada, empurrada, apedrejada, forçada a sentar-se sobre carvões em brasa!… O clero não tem fogueiras, o povo não tem injúrias, a criança não tem pedras que bastem contra a desgraçada… À palavra feiticeira, vemos as velhas hediondas de Macbeth. Mas os processos revelam o contrário. Muitas morreram precisamente por serem jovens e belas.” (p. 30)

Este furor anti-feminino se explica, segundo Michelet, pois estas mulheres tem “por ajudante e irmã a natureza” e “nela começa a suprema perícia que cura e refaz o homem” (p. 30). Ao invés de confiar no poder da reza, muitas mulheres preferiam confiar nas flores do campo; diante da impotência do terço ou do rogo diante de doenças e epidemias, achavam mais sensato procurar na mata, na imensa diversidade das plantas, das folhas, dos frutos, dos cogumelos, aquilo que pudesse servir para curar.

O conflito com a Igreja, instituição exclusiva para homens e impregnada de misoginia, deve-se também aos dogmas nutridos por estes monges cretinos e inquisidores brutais: “a Igreja rejeitou a natureza, como impura e suspeita… A Igreja, que vê na vida apenas uma provação, evita prolonga-la. Sua medicina é a resignação, a espera e a esperança da morte.” (pg. 36) A realidade terrena, que a Igreja recobre com suas injúrias, acaba se tornando, sob a perspectiva dos beatos, no palco de Satã, que não à toa é cognominado de “Príncipe do Mundo”.

Todo gozo, todo riso e toda razão livre recebem o anátema dos asseclas do Deus-dos-Céus – “era dar de mão beijada a Satã um papel esplêndido, o monopólio do riso, e proclamá-lo divertido. Digamos mais: necessário. Pois o riso é uma função essencial de nossa natureza. Como suportar a vida se não podemos pelo menos rir, em meio às nossas dores?” (pg. 36) Tema nietzschiano! Pois também Zaratustra faz a apologia do riso – e da dança! – e recusa, em seu dionisismo, as lamúrias infindáveis daqueles que, na trilha do Crucificado, querem acreditar que o mundo não passa de um Vale de Lágrimas que merece ser negado por inteiro.

Proscritas e condenadas por praticarem os rudimentos do que se tornaria a ciência médica e farmacológica, estas mulheres ousadas descobriram um novo mundo ao transgredirem os dogmas da Igreja. Quando criavam remédios novos a partir de misturas impudicas de elementos naturais, ou quando levavam um corpo do cemitério para analisá-lo por dentro, foram salutares mãos atrevidas que se tornaram predecessoras da cirurgia e da anatomia – que tantos milhões de vidas ajudariam a salvar! Porém, o status quo eclesiástico as enxerga com péssimos olhos e “declara, no século XIV, que se a mulher ousar tratar, sem ter estudado, é feiticeira e morrerá.” (p. 38) Ora, todos os acessos às escolas estavam vedados às mulheres médicas, proscritas dos espaços onde os doutos-com-falos se faziam de eruditos. A medicina feminina, por mais eficaz que se mostrasse, era associada a transações suspeitas com Satã – e “a feiticeira urrando e assando, que alegria para a gentil juventude dos fradinhos e capuchinhos!” (p. 38)

Para recuperar a frase de Nietzsche citada na epígrafe, lembremos: nunca existiram de fato as bruxas, mas as consequências da fé nas bruxas foram absolutamente terríveis, como foram também as consequências da fé no Capeta e no Inferno. Deixar de crer nestas fantasias criadas pelos fanáticos – Bruxas, Satanás, Inferno… – já é dar passos largos na superação da Superstição, esta força das trevas que tantos oceanos de sangue, através da História, fez derramar.

A Cristandade, ao crer no Diabo, realizou atos de um diabolismo e de uma brutalidade que deveriam chocar a Deus, se Ele existisse. Mas o que seria do cristianismo sem a fé em Satã, sem o formidável auxílio que ele traz no sentido de explicar o Mal que se encontra espalhado por toda a Criação? Que Satã exista é algo salutar para um cristão desejoso de livrar seu Deus de toda culpa! Donde esta provocação de Michelet, com a qual terminamos este passeio tenebroso pela medievalidade:

“Não seria Satã um ator necessário, uma peça indispensável da grande máquina religiosa, hoje um tanto avariada? (…) O Diabo é nada menos que um dogma, que se liga a todos os outros. Tocar no eterno vencido não será tocar no vencedor? Duvidar dos atos do primeiro leva a duvidar dos atos do segundo, dos milagres que fez precisamente para combater o Diabo. As colunas do Céu têm os pés no abismo. O desatinado que abala essa base infernal pode provocar rachaduras no Paraíso…” (p. 38)


la sorciere

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Eduardo Carli de Moraes
Contato: educmoraes@hotmail.com