“No dia seguinte ninguém morreu” – José Saramago sonda a tragicomédia da existência em “As Intermitências da Morte” (2005)

Nunca houve, desde que há mundo, um único dia que tenha transcorrido sem mortes. Não há registro ou notícia, desde que há vidas nesta esfera que rodopia ao redor do sol, de um giro completo do planeta ao redor de seu próprio eixo em que não tivessem se entremesclado no Theatrum Mundi os primeiros gritos dos recém-nascidos com os últimos suspiros dos agonizantes (como já nos ensinava a poesia epicurista de Lucrécio).

Se na realidade nunca houve época em que a morte tivesse entrado em férias, na literatura pode-se fantasiar livremente sobre o inaudito, o inédito, o nunca-dantes-nos-anais-da-história: como aquela formidável época em que a gente parou de morrer. A crônica imaginária destes sucessos extraordinários foi realizada em As Intermitências da Morteromance publicado em 2005 por José Saramago e que assim se inicia:

“No dia seguinte ninguém morreu. O fato, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme… não havia notícia nos 40 volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenômeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas 24 horas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar.” (SARAMAGO – Cia das Letras, 2005, p. 11)

Na trajetória do escritor, este livro é da fase tardia, escrito após a consagração mundial de Saramago em 1998, quando o hoje defunto autor português foi laureado com o Nobel de Literatura, aquele prêmio que concede a tão poucos e seletos mortais a aura de sua glória, auréola de fama que promete a seu detentor que sua obra irá seguir ecoando, enganando a bocarra gigantesca da obscuridade do túmulo que engoliu quem esta obra pariu.

Neste livro, como de praxe, o Saramago é o cronista sagaz de nosso absurdo individual e coletivo. É o autor capaz de enxergar com profunda ironia, tingida de melancolia, todas as nossas adversidades, todas as nossas idiotices, todas as nossas incompletudes. É também o crítico mordaz das religiões instituídas, das máphias políticas, das velharias autoritárias, agindo como um iluminista tardio que age contra todos os obscurantismos que insistem em medievalizar a terra.

Saramago atua, através de sua caudalosa escrita, como um pedagogo sábio que quer nos ensinar a travessia que vai da cegueira à lucidez. Pela via régia do ateísmo, busca a emancipação do pensamento e da sensibilidade, libertos das cataratas de mentiras que nos vendam os olhos. O pior cego é o que não quer ver, o que pôs vendas em seus próprios olhos, em atitude análoga à daquele que está perecendo em uma cela de prisão sem perceber que a chave está por dentro.

Explorado em outras de suas obras, como Ensaio Sobre a Cegueira, o tema da cegueira – não literal, mas sim moral, existencial, relacional – parece estar correlacionado, na obra saramaguiana, com a condição mortal. Como se fôssemos demasiado covardes, a maioria de nós e a maior parte do tempo, para estar with eyes wide open diante de nossa condição.

Preferimos a semi-obscuridade – a falta de lucidez – de nossas fés e ideologias, que tanto contribuem para que vivamos com eyes wide shut (nome, aliás, do notável filme de despedida de Stanley Kubrick). Cegos de propósito, pois nunca suficientemente corajosos para encarar, no espelho, a caveira que nos olha de volta por detrás da pele da face. Crânio escondido por detrás da cara que é o retrato de nosso futuro incontornável.

O único animal que sabe que vai morrer inventa, através da história, os ópios e morfinas espirituais que mediquem sua angústia da finitude. A música do Morphine expressa isto à perfeição em Cure for Pain, uma das mais belas canções do finado Mark Sandman: “someday there’ll be a cure for pain, that’s the day I’ll throw my drugs away”.

Saramago sabe que as religiões instituídas, aí incluída a católica apostólica romana, sempre insistiram no tema da “morte como porta única para o paraíso celeste, onde, dizia-se, nunca ninguém entrou estando vivo, e os pregadores, no seu afã consolador, não duvidavam em recorrer a todos os métodos da mais alta retórica e a todos os truques da mais baixa catequese para convencerem os aterrados fregueses de que, no fim de contas, se podiam considerar mais afortunados que os seus ancestres, uma vez que a morte lhes havia concedido tempo suficiente para prepararem as almas com vista à ascensão do éden” (p. 133). A extinção da morte é um perigo para a sobrevivência das religiões instituídas, estas profanas criações humanas destinadas a pôr em circulação os ópios fantasiosos que acalmam os terrores e angústias do bicho que sabe que vai morrer.

Há muito tempo estou convencido – e nisto a leitura de Saramago muito contribuiu – de que as religiões e as mitologias são incompreensíveis em um horizonte onde não coloquemos, no cerne, a mortalidade humana e o nosso protesto contra ela. Diante da morte invencível, os seres humanos erguem suas catedrais e suas preces; imaginam-se triunfantes em um além-túmulo que o poeta Tennyson chamará de local do Segundo Nascimento; Idolatram a figura de um crucificado que supostamente voltou à vida depois de três dias morto. Só inventamos deuses pois morremos – e é porque morremos que “se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo.”

Pintura de Andrea Mantegna – “Lamentação de Cristo”

Mortais humanos apegam-se com esperanças fervorosas ao sonho de ressurreição, e olhando, seja de frente ou de soslaio, seus destinos de criatura temporárias, abraçando ou recusando esta ciência fatal, os seres que somos recusam-se a ir ladeira abaixo, no processo que conduz pra baixo da terra, em silêncio e resignação. Para lembrar o célebre estribilho poético: We not go quietly into that good night… We rage, rage against the dying of the light! (Dylan Thomas)

Como disse Albert Camus, “o ser humano é a única criatura que se recusa a ser o que é.” E a danada da morte tem tudo a ver com isso. Ela é, para os viventes, aquilo que Manuel Bandeira chamou de “a indesejada das gentes” – e os suicidas sempre foram minoria da humanidade, pois os que buscam com ânsia uma morte que lhes dê fim aos tormentos e angústias sempre foram menos numerosos do que aqueles que foram impelidos à sobrevivência resiliente até que o tempo os matasse com seus instrumentos do costume, como as doenças e as violências bélicas. Ainda assim, o suicídio e a eutanásia são fenômenos que nos obrigam a refletir sobre o direito de morrer, quando a vida não é mais sentida como digna de ser vivida, um tema abordado com muita sensibilidade e pungência por filmes como Mar Adentro de Amenábar ou Amor de Haneke.

Saramago, no espaço livre de seu livro, suspende as leis natural que estão por aí desde que o mundo é mundo. Mago plenipotente no espaço de seu romance, ele conta uma história fantasiosa: na alvorada de um ano novo, todos os 10 milhões de habitantes de um certo país subitamente descobrem que a morte saiu de férias. Por tempo indeterminado. Sem aviso prévio, abandonou o posto e desistiu de seu fatal ofício, há tantos milênios incansavelmente exercido.

Não se sabe os motivos de sua greve, e ninguém explicou se o fenômeno é uma casual e efêmera transformação da ordem cósmica, que logo re-entrará nos eixos costumeiros, ou se as regras da vida e da morte foram alteradas para sempre neste pequeno rincão da terra. A princípio, é o fervor patriótico e todos comemoram o privilégio. Logo depois, percebem que a morte sair de férias irá acarretar um imenso transtorno – tanto é assim que os fluxos migratórios irão se acentuar, com inúmeros nômades-peregrinos querendo chegar a outro país onde ainda se tem a possibilidade de morrer.

Tudo se transtorna com as férias que a morte resolveu tirar: os hospitais ficam repletos de doentes terminais, os asilos de velhos sofrem com o excesso dos agonizantes estão à espera de seu ocaso, os escritórios das companhias de seguros e os bancos onde elas depositam seus capitais entram em crise…

Os impactos na economia são tremendos – e não apenas no pequeno nicho que são as empresas funerárias, que fornecem aos que sobrevivem os necessários auxílios para o despojo daquelas partes do ex-vivo tão brutalmente chamados por alguns de “restos mortais”, aquilo que, abandonado pela chama da vida, apodrece logo com exalações de odores pútridos e que por isso corremos a afastar de nossas fuças e vistas.

A teledramaturgia, nos últimos anos, foi responsável pela criação de uma obra-prima das séries dramáticas com A Sete Palmos (Six Feet Under), da HBO, cujas 5 temporadas expuseram em minúcias as vidas da família Fisher e seus agregados afetivos enquanto tocam avante a difícil empreitada de gerir uma funerária.

Saramago também se interessa por todas as indústrias que lucram com a morte, mas é mais como um crítico ácido que ele atua, nunca como alguém que não enxergue a problemática complexa que envolve hospitais, asilos, funerárias e os elos que os conectam aos poderes políticos e eclesiásticos. As altas cúpulas do clero e as altíssimas autoridades do reino são alvo da pena mordaz de Saramago, que em inúmeros livros despeja sua ironia sobre o fenômeno da vinculação teologia-política (Memorial do Convento, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Caim etc.).

Em As Intermitências da Morte, o romance revela tudo o que ocorre no curto período em que a morte cessa de desempenhar suas funções.

“A igreja”, por exemplo: “saiu à arena do debate montada no cavalo-de-batalha do costume, isto é, os desígnios de deus são o que sempre foram, inescrutáveis, o que, em termos correntes e algo manchados de impiedade verbal, significa que não nos é permitido espreitar pela frincha da porta do céu para ver o que se passa lá dentro.

Dizia também a igreja que a suspensão temporária e mais ou menos duradoura de causas e efeitos naturais não era propriamente uma novidade, bastaria recordar os infinitos milagres que deus havia permitido se fizessem nos últimos 20 séculos, a única diferença do que se passa agora está na amplitude do prodígio, pois que o que antes tocava de preferência o indivíduo, pela graça da sua fé pessoal, foi substituído por uma atenção global, não personalizada, um país inteiro por assim dizer possuidor do elixir da imortalidade, e não somente os crentes, que como é lógico esperam ser em especial distinguidos, mas também os ateus, os agnósticos, os heréticos, os relapsos, os incréus de toda a espécie, os afeiçoados a outras religiões, os bons, os maus e os piores, os virtuosos e os maphiosos, os verdugos e as vítimas, os polícias e os ladrões, os assassinos e os doadores de sangue, os loucos e os sãos de juízo, todos, todos sem exceção, eram ao mesmo tempo as testemunhas e os beneficiários do mais alto prodígio alguma vez observado na história dos milagres…” (p. 75)

Descrente em milagres como bom ateu, Saramago brinca de imaginar as consequências que tomariam o mundo caso este milagre ocorresse e a “Velha da Capa Preta” parasse de trabalhar. O desemprego dos coveiros seria a menor de nossas encrencas. A editora Companhia das Letras sintetizou bem os charmes e graças do romance:

De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico logo se revela um grave problema.

Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder “passar desta para melhor”. Os empresários do serviço funerário se vêem “brutalmente desprovidos da sua matéria-prima”. Hospitais e asilos geriátricos enfrentam uma superlotação crônica, que não pára de aumentar. O negócio das companhias de seguros entra em crise. O primeiro-ministro não sabe o que fazer, enquanto o cardeal se desconsola, porque “sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja”.

Um por um, ficam expostos os vínculos que ligam o Estado, as religiões e o cotidiano à mortalidade comum de todos os cidadãos. Mas, na sua intermitência, a morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre. Então, o que vai ser da nação já habituada ao caos da vida eterna?

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Vale lembrar que, na arte brasileira, há também um magnum opus que se equipara a Saramago na capacidade de expressar de maneira criativa e expressiva o enrosco humano com a mortalidade: estou falando da música de Siba, depois regravada por Juçara Marçal em seu álbum Encarnado, “A Velha da Capa Preta”:

A morte anda no mundo
Vestindo a mortalha escura
Procurando a criatura
Que espera a condenação
Quando ela encontra um cristão
Sem vontade de morrer
Ele implora pra viver
Mas ela ordena que não
Quando o corpo cai no chão
Se abre a terra e lhe come
Como uma boca com fome
Mordendo a massa de um pão

A morte anda no mundo
Espalhando ansiedade
Angústia, medo e saudade
Sem propaganda ou esparro
Sua goela tem pigarro
Sua voz é muito rouca
Sua simpatia é pouca
E seu semblante é bizarro
A vida é corno um cigarro
Que o tempo amassa e machuca
E morte fuma a bituca
E apaga a brasa no barro

A morte anda no mundo
Na forma de um esqueleto
Montando um cavalo preto
Pulando cerca e cancela
Bota a cara na janela
Entra sem ter permisão
Fazendo a subtração
Dos nomes da lista dela
Com a risada amarela
É uma atriz enxerida
Com presença garantida
No fim de toda novela

Disse a morte para a foice:
Passei a vida matando
Mas já estou me abusando
Desse emprego de matar
Porque já pude notar
Que em todo lugar que eu vou
O povo já se matou
Antes mesmo d’eu chegar
Quero me aposentar
Pra gozar tranqüilidade
Deixando a humanidade
Matando no meu lugar

A personificação da morte não é novidade na história da arte – de Van Gogh (pintura acima) a Bergman (em um filme como O Sétimo Selo), artistas de várias vertentes já representaram a dita cuja de muitas maneiras, como um esqueleto que fuma um cigarro ou como uma jogadora de xadrez que oferece ao rival a oportunidade de adiar sua estadia entre os vivos, desde que consiga não tomar um xeque-mate.

No caso de Saramago, ele se deleita em imaginar as enrascadas em que a morte responsável por matar os humanos entraria caso mudasse seus métodos imemoriais. A morte, quando sai dos trilhos, acaba por descarrilhar todo o trem da vida. Primeiro, ela escolhe as férias, mas depois decide retornar à labuta, mas com outra estratégia: mandará pelo correio uma carta de cor violeta, avisando aos que estão na iminência de morrer que lhes resta apenas uma semana de vida…

Poética, a morte pensa em enviar, ao invés de cartas, borboletas – em especial a espécie acherontia atroposdotada pela natureza de um visual curiosamente fúnebre. São maneiras irônicas de Saramago nos sugerir, com muita graça, que a morte sempre fez parte da vida e que ainda bem que é assim. Esta funcionária exemplar causaria o caos caso falhasse no desempenho de suas funções. Hospitais engarrafados de tantos doentes, asilos às dúzias tendo que ser construídos às pressas, empresas de enterros indo à falência, e religiões instituídas caindo no colapso – tudo isso como resultado da temporária intermitência da morte em seu ofício.

Se a vida fosse impossível de perder, que valor teria? Não temos apreço senão por aquilo que é a um só tempo precioso e destrutível. Sabemos e sentimos que tudo de bom que vivemos é efêmero e temporário, e André Gide ensinava que quem não pensa suficientemente na morte não consegue dar o devido peso e urgência à vida: “Um pensamento insuficientemente constante sobre a morte”, escrevia Gide, “nunca deu valor suficiente ao mais ínfimo instante de vida.”

Nas páginas de Saramago, é como se a morte aparecesse como a necessária força de renovação das coisas. Sem morte, tudo estagnaria e o mundo viraria um amontoado de velharias. O fluxo cósmico perderia sua fluidez. As velharias se amontoariam, sufocando o novo. Só através da morte é que a vida pode inovar. No balé infindável de Eros e Tânatos, o palco do mundo vê a emergência sem fim de novas formas. Metamorfoses advindas interminavelmente da dialética inextirpável da vida e da morte.

Pintura de Michael Wolgemut, “A Dança dos Esqueletos”

Em seus momentos mais filosóficos, As Intermitências da Morte nos faz refletir sobre os diversos modos de findar a existência, de acordo com o organismo vivo que chega a seu ocaso, como no capítulo 6, em que um peixinho de aquário, alçando-se por sobre as águas, pergunta (perdendo seu pobre fôlego):

“Já pensaste se a morte será a mesma para todos os seres vivos, sejam eles animais, incluindo o ser humano, ou vegetais, incluindo a erva rasteira que se pisa e a sequoia giganteum com os seus 100 metros de altura, será a mesma a morte que mata um homem que sabe que vai morrer, e um cavalo que nunca o saberá. E tornou a perguntar, Em que momento morreu o bicho-da-seda depois de se ter fechado no casulo e posto a tranca à porta, como foi possível ter nascido a vida de uma da morte da outra, a vida da borboleta da morte da lagarta, e serem o mesmo diferentemente, ou não morreu o bicho-da-seda porque está na borboleta… Disse o espírito que paira sobre as águas do aquário, o bicho-da-seda não morreu, dentro do casulo não ficou nenhum cadáver depois de a borboleta ter saído, tu o disseste, um nasceu da morte do outro, Chama-se metamorfose, toda a gente sabe do que se trata, disse condescendente o aprendiz de filósofo….” (p. 72)

Morte e vida dançam o rock da metamorfose no fluido palco do universo, mas cada organismo tem seu modo de experenciar o seu próprio processo de dissolução: se é verdade que o homo sapiens é o único animal consciente de sua própria mortalidade, ainda que ele tanto se esforce para recalcar e reprimir esta ciência (através de métodos psicológicos brilhantemente iluminados por Ernest Becker em A Negação da Morte, belíssimo livro laureado com o Pulitzer), não se pode negar que outros animais dotados de sistema nervoso central e altamente sensíveis aos estímulos ambientais também batalhem com todas as forças de seu âmago contra quem quer lhes impor a morte. Ser um animal é estar animado pelo duro desejo de durar.

Um pomar não nos dá a mesma impressão de resiliência, de perseverança na existência, de manifestação concreta do conatus conceituado na filosofia de Spinoza, o que torna bastante cômicos e risíveis os argumentos de certos carnívoros que, diante da argumentação de vegetarianos em prol da libertação animal, argumentam que as cenouras e os alfaces gostam tão pouco de terem suas vidas abreviadas quanto os porcos e bois abatidos nas milhares de factory farms desde nosso mundo.

Neste debate, Jacques Derrida foi ao cerne do problema ao dizer que a questão crucial a se colocar, diante da vida de um outrem não-humano, é esta: “esta criatura pode sofrer?” E só um mentecapto seria capaz de avaliar, no termômetro da sofrência, que um porco ou uma galinha sofrem menos que uma maçã ou um brocólis com a interrupção de sua existência para fins alimentícios humanos. O apego à vida é evidente maior quanto mais ampla é a consciência que o animal possui de sua condição existencial – e, como Peter Singer argumenta, é um escândalo global chocante o quanto nossas economias ainda estão baseadas no morticínio ultra-disseminado de criaturas que sofrem imensamente com o processo mortífero que os humanos lhes impõem, ao invés de adotarmos uma cultura culinária mais sábia pois atenta aos interesses de seres sencientes semelhantes a nós mesmos.

Passando ao largo dessas questões, o romance de Saramago prefere focar nas reações humanas diante da aproximação da data fatal nas novas condições impostas pela Dona Morte, que no âmbito do romance resolveu inovar em seus métodos. O affair quase romântico da morte com um violoncelista serve como emblema saramaguiano para os poderes transformadores da arte: sob o impacto da aproximação da morte, o músico toca seu Bach, seu Chopin, seu Beethoven, com tal feeling e potência expressiva que tudo transfigura a seu redor.

Saramago imagina então que a morte, encantada com a musicalidade deste mortal que ela não consegue se decidir a matar, escolhe fazer o que nunca antes fizera – é só lembrar que ela não teve piedades, em sua ação pretérita, de gênios musicais colhidos tão cedo do jardim da vida como Schubert, Mozart ou Janis. A morte depõe suas armas diante da música, adia suas tarefas, deixa para depois o único mandamento que segue – “matarás!” Enfeitiçada pela música que fazem os vivos, a morte que nunca dorme decide-se a deixar a foice encostada e vai tirar uma soneca – afinal suas pálpebras pesam após tanto tempo de ação em completa insônia. “E no dia seguinte ninguém morreu…”

“O que à morte impressionava era ter-lhe parecido ouvir naquela música uma transposição rítmica e melódica de toda e qualquer vida humana, corrente ou extraordinária, pela sua trágica brevidade, pela sua intensidade desesperada, e também por causa daquele acorde final que era como um ponto de suspensão deixado no ar, no vago, em qualquer parte, como se, irremediavelmente, alguma cousa ainda tivesse ficado por dizer… (p. 171)

É nossa sina de seres temporários que nunca possamos abandonar o palco depois de tudo termos dito. Resta sempre muito por dizer, e o resto é silêncio. Na literatura de Saramago, este incontornável da condição humana recebe um tratamento literário que é tonificante, não só pela liberação lúdica que nos fornece, aliviando a gravidade com que costumamos tratar do assunto e polvilhando tudo com um espírito de jocosa ironia, mas também pela intensificação de nossa consciência do quão tragicômico é este clarão entre dois nadas que cada um de nós chama de vida.

A morte saramaguiana tem muita graça e lendo este romance pude me divertir a imaginá-la como um funcionária exemplar, que desde a alvorada da vida exerceu suas funções de maneira impecável, mas que enfim decide reclamar seus direitos trabalhistas e reclamar do patrão (deus ou o universo, segundo o gosto do freguês…), já que ela já labuta há milênios, sem férias nem direito a greve, matando 24 horas por dia, inclusive em feriados religiosos e nos horários mais impróprios da madrugada.

A morte é parte inextricável e incontornável da vida de que cada um de nós não detêm a posse mas somente o fugaz usufruto. E a sabedoria epicurista sempre ensinou que não há carpe diem sem memento mori. Saramago, acredito, assinaria embaixo caso a morte tivesse lhe deixado mãos para escrever. Também assinaria embaixo, provavelmente, de duas idéias filosóficas que muito aprecio: a primeira, de Montaigne, que dizia que “filosofia é aprender a morrer”, e a segunda, de André Comte-Sponville, que ensina que “é preciso pensar a morte para amar melhor a vida – em todo caso, para amá-la como ela é: frágil e passageira.”

O pensamento de Saramago, tão filiado a um certo ímpeto de lucidez iluminista que batalha contra o obscurantismo e o fanatismo, busca conduzir-nos a esta sábia apreciação de nossa existência mortal que é tão rara e preciosa. Escrevendo logo após os atentados de 11 de Setembro de 2001, Saramago soube conectar com profundidade os fatores inextricáveis mortalidade religiosidade ao escrever “O Factor Deus”, excelente provocação filosófica-política que é recomendável como posfácio às Intermitências da Morte:

“De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta dos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas sem excepção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que isto seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel.

Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os taliban, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente os textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conluio pactuado entre Religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos, o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gémeas de Nova Iorque e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela acção dos homens, cobriram e teimam em cobrir de torpor e sangue as páginas da História.

Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o “factor Deus”, esse está presente na vida como se efectivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o “factor Deus” o que se exibe nas nota de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos e não a outra…) a benção divina. E foi o “factor Deus” em que o deus islâmico se transformou que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o “factor Deus”, esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem, acabou por fazer do homem uma besta.

Ao leitor crente (de qualquer crença…) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiram, não peço que passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento se não puder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do “factor Deus”. Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.” – SARAMAGO / O FACTOR DEUS

Por Eduardo Carli de Moraes, Goiânia, Julho de 2018

 

SIMONE WEIL: UMA FIGURA HUMANA FORA DO COMUM – Leia o texto magistral que José Paulo Paes escreveu sobre S. Weil, “Epopéia e Miséria Humana”

“Parece-me impossível imaginar para a Europa um renascimento que não leve em conta as exigências que Simone Weil definiu.” Albert Camus

Simone de Beauvoir

Uma das mulheres mais notáveis do último século, Simone de Beavoir, relembra com as seguintes palavras outra figura marcante do pensamento francês no século XX:

“Simone Weil me intrigava por causa de sua grande reputação de inteligência e seu modo extravagante de vestir-se. Uma grande fome acabara de devastar a China e me haviam contado que ao ouvir essa notícia ela tinha soluçado: essas lágrimas forçaram meu respeito ainda mais que seus dons filosóficos. Eu admirei um coração capaz de bater através do universo inteiro. Consegui um dia conversar com ela – e ela declarou num tom cortante que só uma coisa importava hoje sobre a terra: a Revolução que daria de comer a todo mundo.”

Além de Camus e Beavouir, muitos outros reconheceram em Simone Weil uma extraordinária aparição humana que, em tempos de cólera, surge para auxiliar no desabrochar da doçura, da serenidade, da lucidez, da coragem. José Paulo Paes, nosso brilhante poeta e ensaísta que chegou a escrever lindos versos de inspiração weiliana – “a posse é-me aventura sem sentido: só compreendo o pão se dividido” -, também pinta um retrato admirativo de Weil:

“Morta prematuramente aos 34, essa parisiense de físico frágil mas de inquebrável tenacidade de espírito foi uma figura humana fora do comum. Militante de esquerda, pensadora política, professora de filosofia, ela sempre se recusou ao institucionalizado e ao tacitamente aceito, fosse em que domínio fosse. Para poder analisar a condição operária e a opressão social, não se contentou em ler Marx, mas cuidou de fazer o que ele jamais fizera: trabalhar na linha de montagem de uma fábrica. Não se deixou obnubilar pela ortodoxia partidária: criticou abertamente o estalinismo e chegou a polemizar com Trótski.” (J.P. PAES)

Desde a mais tenra infância, a pequenina Simone já apresentava os primeiros sintomas do que mais tarde se tornaria um entusiasmo político tão efervescente que ela estaria pronta a saltar de pára-quedas em Praga, para ajudar os revolucionários, ou unir-se na Espanha às tropas que batalhavam contra o fascismo de Franco durante a Guerra Civil de 1936-39. Como relata Ecléa Bosi, a pequenina Simone, “travessa e indomável”, desde muito cedo manifestava ceticismo e desagrado diante das burguesices:

“Ao ganhar um anel de presente, com três anos, faz todos rirem com sua resposta: ‘O luxo não me agrada!’ […] Com vestidos novos fica encantadora mas desgostosa; queria que todos se vestissem iguais e com roupas baratas. […] Sua fotografia aos sete anos nos mostra uma fisionomia corajosa, paciente, o olhar de uma seriedade rara para a idade e de tão impressionante nobreza que, ainda que nada conhecêssemos dela senão esse retrato, nunca a esqueceríamos. Já são evidentes nesse rosto dois traços que vão permanecer: atenção ao mundo e vontade inquebrantável.” (ECLÉA BOSI)

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“Ainda que nada conhecêssemos dela senão esse retrato, nunca a esqueceríamos.”

Um episódio é exemplar da força, da audácia, do magnetismo desta figura fora-de-série:

“Em 1933, o presidente da república, Albert Lebrun, vem inaugurar um monumento em Saint-Etienne. Os sindicatos resolvem protestar num comício. A polícia de Paris intervém, militantes são presos e espancados. No dia seguinte, durante as cerimônias oficiais, os trabalhadores protestam numa rua próxima. Simone é içada numa janela pelos seus camaradas, que a protegem enquanto cantam a Internacional Comunista. Ela discursa contra a situação da Indochina (colônia francesa) e chama o presidente de lacaio dos fabricantes de canhões.

Mal se ouvem suas palavras encobertas pela banda militar que saúda as autoridades. […] Em dezembro do mesmo ano de 1933, em protesto contra os baixos salários e o desemprego, os mineiros organizam uma grande marcha. Desde seus míseros casebres até a prefeitura, milhares de mineiros marcham ruflando tambores e soando clarins. Todos cantam. Simone conduz à frente do cortejo a grande bandeira vermelha.” (Ecléa Bosi)

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Na sequência, compartilhamos uma coletânea de pensamentos e reflexões de Simone Weil, todos eles retirados da excelente obra A Condição Operária e Outros Estudos Sobre a Opressão, lançado pela Editora Paz e Terra e adquirível por R$43,00 (novo) ou usado na Estante Virtual. É um convite para que mais gente sinta-se entusiasmada a conhecer mais da vida e da obra desta criatura humana extraordinária.

O DESENRAIZAMENTO

“O amor pelo passado não tem nada a ver com uma orientação política reacionária. Como todas as atividades humanas, a Revolução extrai toda a seiva de uma tradição. Marx o sentiu tão bem que fez questão de buscar a origem dessa tradição nas mais longínquas idades fazendo da luta de classes o único princípio de explicação histórica. (…) A oposição entre o passado e o futuro é absurda. (…) Seria inútil desviar-se do passado para não pensar senão no futuro. O futuro não nos traz nada, não nos dá nada; somos nós que para o construir devemos dar-lhe tudo, dar-lhe nossa própria vida. Mas para dar é preciso possuir, e não possuímos outra vida, outra seiva, senão os tesouros herdados do passado e digeridos, assimilados, recriados por nós. De todas as necessidades da alma humana, não há nenhuma mais vital do que o passado. (…) A perda do passado, coletivo ou individual, é a grande tragédia humana, e nós jogamos fora o nosso como uma criança desfolha uma rosa. É antes de tudo para evitar essa perda que os povos resistem desesperadamente à conquista.”

“O pensamento da fraqueza pode inflamar o amor assim como o da força, mas é de uma chama muito mais pura. A compaixão pela fragilidade está sempre vinculada ao amor pela verdadeira beleza, porque sentimos vivamente que as coisas verdadeiramente belas deveriam ter assegurada sua existência eterna e não a têm.” (Ed. Edusc, pg. 111 e 158)

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A CONDIÇÃO OPERÁRIA

“São raros os momentos do dia em que o coração não está um pouco comprimido por alguma angústia. De manhã, a angústia do dia a se viver. Quem saiu em cima da hora tem medo do relógio de ponto. No trabalho, o medo de não estar na velocidade boa. O medo das broncas. Muitos sofrimentos são aceitos só para evitar uma bronca.

É só queixar-se de um trabalho pesado demais ou de uma cadência impossível de acompanhar, que brutalmente vem lembrar-lhe que se está ocupando um lugar que centenas de desempregados aceitariam de boa vontade. Corre-se o risco de ser posto pra fora. É preciso serrar os dentes. Aguentar-se. Como um nadador na água. Só que com a perspectiva de nadar sempre, até a morte. E nenhuma barca que nos possa recolher. Se a gente afunda lentamente, se soçobra, ninguém no mundo dará por isso. O que é que a gente é? Uma unidade na força de trabalho. A gente não conta. Mal existe.

A cada momento estamos na contingência de receber uma ordem. A gente é uma coisa entregue à vontade de outro. Que vontade de poder largar a alma no cartão de entrada e só retomá-la à saída! Mas não é possível. A alma vai com a gente para a oficina. É preciso o tempo todo fazê-la calar-se. Na saída, mitas vezes não a temos mais, porque estamos cansados em excesso. Se a gente se sujeita é, como diz Homero falando dos escravos, ‘bem a contragosto, sob a pressão de uma dura necessidade’.”

(Em “A Condição Operária e outros Estudos sobre a Opressão”, pg. 124-125)

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REFLEXÕES SOBRE A GUERRA E O COLONIALISMO (1933)

“A engrenagem monstruosa da sociedade atual parece-se com uma máquina imensa que está tragando continuamente os homens, e cujos comandos ninguém conhece; e os que se sacrificam pelo progresso social se parecem com pessoas que se agarram aos rolamentos e às correias de transmissão para tentar deter a máquina, fazendo-se moer por sua vez. (…) Em qualquer circunstância, a pior traição possível é sempre aceitar a subordinação a esse aparelho e pisar, para servi-lo, em si mesmo e nos outros, todos os valores humanos.” (pg. 218)

“A tentação cristã: sendo a colonização um meio favorável para as missões, os cristãos se sentem tentados a amá-la por isso, mesmo reconhecendo-lhe as taras. Ora, mas uma questão que mereceria exame detido é: um hindu, um budista ou um muçulmano, ou qualquer um dos que são chamados de pagãos, não possuem em sua própria tradição um caminho para a espiritualidade, diferente do que as igrejas cristãs propõem? Em todo caso, Cristo nunca disse que os navios de guerra devessem acompanhar, mesmo de longe, os que anunciam a boa nova. (…) Só os sacerdotes podem medir o valor de uma idea pela quantidade de sangue que ela fez derramar.

Com a colonização da África negra, os brancos causaram todos os danos possíveis durante 4 séculos com suas armas de fogo e seu comércio de escravos. (…) Privando os povos de sua tradição, de seu passado, a colonização os reduz ao estado de matéria humana.” (pgs. 227-231)

“Que idiotas espalharam o boato de que as idéias não podem ser mortas pela força bruta? (…) Nada mais cruel em relação ao passado do que o lugar-comum segundo o qual a força é impotente para destruir os valores espirituais; em nome dessa opinião nega-se que as civilizações apagadas pela violência das armas tenham um dia existido; isso é possível porque não se teme o desmentido dos mortos. Assim se mata pela segunda vez o que pereceu e nos associamos com a crueldade das armas. A piedade ordena que nos apeguemos aos traços, mesmo raros, das civilizações destruídas.” (Pgs. 243 e 276)

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OPRESSÃO E LIBERDADE

“Nada neste mundo pode impedir o homem de se sentir nascido para a liberdade. Nunca, aconteça o que acontecer, ele pode aceitar a servidão. Nunca deixou de sonhar com uma liberdade sem limites, seja como uma felicidade passada da qual um castigo o teria privado, seja como uma felicidade vindoura que lhe seria devida por uma espécie de pacto com uma providência misteriosa. O comunismo imaginado por Marx é a mais recente forma desse sonho. Já é tempo de renunciar a sonhar com a liberdade e de se decidir a concebê-la.

Uma visão clara do possível e do impossível, do fácil e do difícil, das dificuldades que separam o projeto da realização, faz, sozinha, desaparecerem os desejos insaciáveis e os medos vãos; é daí, e não de nenhuma outra fonte, que procedem a temperança e a coragem, virtudes sem as quais a vida é apenas um vergonhoso delírio. Além disso, toda espécie de virtude tem a sua fonte no encontro que faz o pensamento em seu embate com uma matéria sem indulgência nem perfídia. Não se pode imaginar nada maior para o homem do que um destino que o coloque diretamente no embate com a necessidade nua, sem que tenha nada a esperar senão de si mesmo, e de tal forma que a sua vida seja uma perpétua criação de si mesmo por si mesmo. Vivemos num mundo no qual o homem deve esperar milagres apenas de si mesmo.”

(Pgs. 326- 331)

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SIGA VIAGEM – LEIA TAMBÉM:

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“EPOPÉIA E MISÉRIA HUMANA”
Por José Paulo Paes

“Morta prematuramente aos 34 anos de idade, essa parisiense de físico frágil mas de inquebrável tenacidade de espírito foi uma figura humana fora do comum. Militante de esquerda, pensadora política, professora de filosofia, SIMONE WEIL (1909 – 1943) sempre se recusou ao institucionalizado e ao tacitamente aceito, fosse em que domínio fosse.

Para poder analisar a condição operária e a opressão social, não se contentou em ler Marx, mas cuidou de fazer o que ele jamais fizera: trabalhar na linha de montagem de uma fábrica. Embora tivesse participado ativamente das lutas sociais e antifascistas na França pré-Guerra, não se deixou obnubilar pela ortodoxia partidária: criticou abertamente o estalinismo e chegou a polemizar com Trotski. Suas iluminações místicas não a levaram nunca a aceitar o sacramento do batismo, pelo que foi tida como herética.

Philosophie magazine - Julien Pacaud • Illustration

Philosophie magazine – Julien Pacaud • Illustration

ROOTED

Cabe a Ecléa Bosi o mérito de ter introduzido no Brasil o pensamento por todos os títulos instigante e enriquecedor de Simone Weil através de uma bem organizada coletânea dos seus principais escritos políticos, literários e religiosos; com o título de A Condição Operária e outros estudos sobre a opressão, essa coletânea foi publicada em 1979 pela editora Paz e Terra, do Rio.

Capa

Entre os textos recolhidos neste livro (capa acima) figura A Ilíada ou O Poema da Força, um estudo realmente luminoso pelas reflexões que propõe e que debate. A obra de Homero já suscitou uma imensa quantidade de obras de erudição, no entanto nenhuma é mencionada por Simone Weil. Não porque as desconhecesse mas porque, imagino eu, elas não vinham ao caso para o seu enfoque de leitura. Diante do poema de Homero, Simone Weil não se deixou intimidar pela multissecular erudição a que ele deu origem e enfrentou-o em estado de inocência, por assim dizer, de candidez de espírito. Deixou-se impregnar por ele, em vez de se extraviar por suas glosas ou interpretações.

Esse contato direto é responsável pela força de persuasão do luminoso estudo de Simone Weil. Logo no começo ela diz que a Ilíada pode ser considerada sob dois pontos de vista: como documento de um passado irremediavelmente passado, ou como espelho de circunstâncias e pulsões ainda hoje presentes na história humana. Nisto, ela confirma de certo modo uma visão de Marx a respeito da perenidade da arte grega.

Na Crítica da Economia Política, Marx se perguntava por que, estando tão distantes de nós no tempo as condições históricas que acompanharam o nascimento da arte grega, esta ainda é tida como um padrão de excelência. A resposta dada por Marx é a de que o adulto sempre tem nostalgia da infância e é capaz de revivê-la pela imaginação. Os gregos, pelo esplendor de sua cultura, teriam representado, na história da humanidade, uma espécie de infância de ouro a que todos gostaríamos de remontar.

Simone Weil

Ao debruçar-se sobre a Ilíada com a sua retidão de criança – para usar uma frase feliz de Ecléa Bosi acerca de Simone Weil -, esta como que assumia, pois, o mesmo espírito auroral da cultura grega. Sua candidez de visão tinha outrossim algo a ver com o espírito dos Evangelhos: não disse o Cristo “Se não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus?”

Um aspecto fundamental de Ilíada ou Poema da Força, de S. Weil, é o de configurar uma visão retrospectiva do poema de Homero. Retrospectiva no sentido de que ele é ali considerado pela ótica dos Evangelhos, tidos pela própria Simone Weil como a última grande manifestação do gênio grego. (…) A Ilíada tem sabidamente como fontes básicas de interesse o tema da guerra e o tema do debate, vale dizer, as lutas de corpos e as lutas de espíritos.

As cenas de batalha, em cuja descrição brilha a arte do poeta, revelam, de sua parte, um surpreendente conhecimento da técnica militar. Tal ênfase no bélico não é de se estranhar quando se pensa no tipo de audiência para a qual os aedos costumavam recitar as estrofes da Ilíada: uma audiência aristocrática que tinha na guerra uma de suas ocupações preferidas.

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Corpo de Heitor sendo levado de volta a Troia – Alto relevo em mármore, detalhe de um sarcófago romano do século II, atualmente no Museu do Louvre.

Mostra Simone Weil que, por sob os episódios guerreiros – momentos em que é dado ao homem pôr à prova sua força física, sua coragem moral e sua destreza nas armas – há um empenho constante de mostrar o avesso da guerra, “tudo o que está ausente da guerra, tudo o que a guerra destrói ou ameaça.” Ela acentua que “na Ilíada, a fria brutalidade dos fatos de guerra não é disfarçada com nada, porque nem vencedores nem vencidos são desprezados ou odiados.” Uns e outros são vítimas do mesmo processo de desumanização que Simone Weil vê como o objetivo último da guerra.

A guerra transforma os homens em coisas, a matéria viva em matéria inerte. A morte é a própria sombra do soldado, a acompanhá-lo o tempo todo. Se para o comum dos homens, nas épocas de paz, a morte é o limite mais ou menos distante de um futuro, para o combatente ou para a vítima civil é o horizonte ameaçadoramente próximo, que os converte em pré-mortos, mortos em vida. Donde o poder coisificador da guerra, a manifestação mais catastrófica e mais teatral da violência…

O fato de a violência desumanizar, ou seja, alienar de si mesmos seus praticantes e suas vítimas, faz com que ela lhes pareça algo exterior, uma manifestação do destino. Mostra Simone Weil que, embriagado pela própria força, o guerreiro julga iludidamente que tudo lhe é permitido, pelo que acaba sendo atingido pelas consequências de seu abuso. É Nêmesis, a punidora do orgulho humano, o qual provoca a inveja dos deuses, e do excesso, que perturba o equilíbrio do universo.”

José Paulo Paes
Prefácio de “A Condição Operária”, de Simone Weil.
Ed. Paz e Terra, Rio.
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Acima: dois quadros de Giovanni Battista Tiepolo (1696 – 1770) representando a entrada em Tróia do Cavalo, repleto de soldados gregos escondidos em seu bojo, e a crucificação do profeta hebreu Jesus Cristo 


2SIGA VIAGEM:

Roger Bastide se debruça sobre o sonho, o transe e a loucura – por Reginaldo Prandi em Folha de S. Paulo

Roger Bastide se debruça sobre o sonho, o transe e a loucura

por Reginaldo Prandi em Folha de S. Paulo

O sonho desconserta, do transe se desconfia, a loucura amedronta: três processos psíquicos com os quais o homem ainda convive sem muito entender, e às vezes sem aceitar, como lixo que a vida comum faz transbordar sem sentido.

A psicanálise e outras ciências, ao tomar como objeto essas três manifestações não raro situadas nos limites da morte, nas sombras do que somos e fazemos quando “acordados” ou “conscientes”, procuraram entender, cada uma a seu modo, o que somos a partir daquilo que aparentemente nos nega. Para essas ciências, sonho, transe e loucura podem ser explicados pela história do indivíduo.

Ao interpretar o sentido social dos resquícios de antigas civilizações, sobretudo africanas, que encontrou ao estudar a formação do Brasil, o sociólogo Roger Bastide (1898-1974) de certo modo rompeu com as interpretações científicas correntes formulando uma instigante compreensão sociológica desses processos.

Roger Bastide, membro da missão que instituiu a USP

Para entendê-los, ele postulava o sonho, o transe e a loucura como canais de comunicação entre o mundo profano e o universo mítico, sobrenatural. A história do indivíduo não basta. É preciso entender o sentido de ser e agir no cotidiano à luz da mitologia do grupo, ou seja, do mito ancestral. Desobstrui-se, dessa forma, a passagem simbólica entre o individual e o coletivo.

Em populações africanas e afro-brasileiras e nas instituições por essas aqui constituídas como meio de inserção numa sociedade branca, adversa, de origem ocidental e religião católica, Roger Bastide reconheceu o sonho, o transe e a loucura como mecanismos que ligam a vida cotidiana trivial do homem comum ao universo mitológico e atemporal das divindades.

Não por acaso, na cultura híbrida desse Brasil negro moldado pela escravidão, o sonho pode ser decifrado pelo sacerdote como mensagem divina, orientação oracular para a vida comunitária. O transe é o artifício pelo qual a própria divindade se revela num corpo ritualmente preparado para se apresentar diante da comunidade. A loucura sobrevém quando as pontes entre esses mundos em permanente comunicação sofrem algum tipo de bloqueio, separando os humanos de suas origens sagradas.

SER LOUCO

A restauração do equilíbrio rompido, mediada pelo sacerdote, só pode ser alcançada com a renovação dos pactos religiosos negligenciados referidos à comunidade: ser louco é situar-se fora das referências coletivas.

Em nossa sociedade a própria visão de mundo está nas mãos de profissionais a serviço de grupos de pressão ou de um Estado separado da “comunidade”. Esse novo universo que nos é imposto enfraquece nosso interesse pela vida coletiva, pela família: o homem acha-se reduzido a si mesmo, explica Bastide.

No mundo de hoje, o homem e a mulher estão submetidos à condição de puro indivíduo, ensimesmado, sozinho, sem poder se apoiar numa gramática social que lhe permita a leitura de sua posição entre os outros, que dê um sentido social à sua vida.

Publicado na França em 1972 e somente agora no Brasil, com preciosa tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura, “O Sonho, o Transe e a Loucura” reúne ensaios publicados entre as décadas de 1930 e 1970 por Bastide, membro da missão francesa que instituiu a Universidade de São Paulo e um dos pais dos estudos afro-brasileiros.

Sua obra foi decisiva para dar ao candomblé o status de religião, respeitável como qualquer outra, numa época em que as religiões afro-brasileiras eram vistas como desprezível magia de negros.

REGINALDO PRANDI é professor sênior do Departamento de Sociologia da USP e autor de “Os Mortos e os Vivos” (ed. Três Estrelas) e “A Religião dos Orixás” (Companhia das Letras). Artigo originalmente publicado na Folha de São Paulo em 2016.



NA SEQUÊNCIA, A CASA DE VIDRO COMPARTILHA UMA SELEÇÃO DE TRECHOS DA OBRA:

SOCIOLOGIA DO SONHO
Por Roger Bastide

A sociologia se interessa apenas pelo homem desperto, como se o homem adormecido fosse um homem morto. Ela deixa à etnologia o cuidado de estudar o lugar do sonho nas civilizações tradicionais e à psicologia o de descobrir na trama de nossos sonhos as motivações profundas de nossa ação.

Para a sociologia, de acordo com as injunções de nossa cultura que atravessam todas as cortinas, de ferro ou de bambu, isto é, uma cultura da produtividade, o que se coloca em primeiro plano é a práxis, que supõe a tensão do homem desperto em luta contra o meio, físico e social, para mudá-lo. A sociologia considera que o trabalho exorciza os fantasmas nascidos da longa noite, caso eles venham a perturbar o ato de Prometeu.

A questão que me coloco é a de saber se os sociólogos tem o direito de ignorar a outra metade de nossa vida, de só querer encarar o homem que está em pé ou sentado e não o homem que se deita e sonha.

Ambos partindo de Bergson e quase na mesma época, o doutor Blondel definia a consciência mórbida como uma consciência não socializada ou mal socializada, e Halbwachs rejeitava as lembranças do sonho que se situavam fora dos quadros sociais da memória.

O sonho era para Bergson a memória pura, não a memória social – exatamente como a loucura era para Blondel a cinestesia pura, não a afetividade socializada. Esse corte radical entre o psíquico e o social, que é como o reflexo, no nível da ciência, dessas duas metades do homem – o sonho e o trabalho -, é fundamentado? E não convêm restabelecer entre esses dois mundos redes de intercomunição? Ver como os estados crepusculares, como a metade obscura e sombria do homem prolonga o social, da mesma forma que o social se nutre de nossos sonhos? Em poucas palavras, tentar um sociologia do sonho. (p. 55-56)

CONTINUA…

O CONGLOMERADO DAS CRISES E AS TAREFAS DA FILOSOFIA – Reflexões após o III Seminário NUPEFIL e VII Encontro de Filosofia no IFG Goiânia

O que pode a Filosofia diante da multiplicidade de crises que nos assolam? Que serventia podem ter os filósofos em meio ao redemoinho caótico do presente, grávido de catástrofes?

“Crise” é uma palavra na moda, que pipoca toda hora no noticiário: são crises econômicas (recessão, desemprego, cracks na Bolsa…); são crises políticas (como a tão falada “crise de representatividade” nas democracias liberais burguesas, em que sentimos a descrença generalizada nas instituições pois os políticos não nos representam de fato…); são crises da liberdade de expressão, com artistas censurados, shows cancelados, mostras em museu encerradas prematuramente, palestras proibidas; são crises dos direitos sociais, dos serviços públicos, todos cortados brutalmente pela tesoura da Austeridade neoliberal; são crises também ditas individuais, psíquicas, emocionais – desde a crise de depressão que leva um pós-graduando a suicidar-se na USP, até as crises de ciúme e possessividade que levam tantos machos humanos a cometerem as atrocidades do feminicídio de que esta terra de Pindorama ainda está excessivamente repleta.

São também crises sócio-ambientais, ou melhor: catástrofes ecológicas, como aquelas da contaminação de mais de 800km do Rio Doce (MG/ES) em 2016, ou como o incêndio da Chapada dos Veadeiros em 2017 (que põe em situação ainda mais péssima o tão essencial Cerrado brasileiro), para nos restringirmos a dois exemplos nacionais de recursos naturais postos em crise pela tresloucadas ações humanas. Com prognósticos de aumento da temperatura global entre 2º e 6º C, com as consequências múltiplas em termos de derretimento de calotas polares, acidificação de oceanos, queda brutal de biodiversidade, além de crises migratórias e Guerras Climáticas (Cf Harald Welzer), estamos em pleno processo de progressiva instauração do Caos.

São crises empilhadas sobre crises, feito uma matrioshka de pesadelo, e diante desse caos a Filosofia tem a inglória tarefa de apontar mais sábios caminhos.

Convicto de que uma das potências da Filosofia é sua audácia em pensar grande, inclusive mobilizando a categoria da totalidade (a Phýsis, o Cosmos, o Ser, o Deus de Spinoza…), tentei pensar qual seria a mais ampla e abrangente das crises que vivemos. Qual será a Crise maior que engloba todas as outras crises? E nisto senti o impuxo magnético das obras não só de Hans Jonas, mas também de Fritjof Capra, de David Attenborough, de Michel Serres, de Eduardo Viveiros de Castro, de Elizabeth Kolbert, de Davi Kopenawa/Bruce Albert, que me parecem ser os pensadores da Vida como aquilo que lamentavelmente acabamos por pôr em crise. A crise é vital, ou melhor, toda a vida sobre o planeta é a entidade sobre a qual a crise em curso pratica suas estripulias, suas devastações, seus imperdoáveis crimes impunes.

“A Sociedade de Mercado está incrustada no mundo natural, coisa que o mito do mercado autorregulado também procura negar. A civilização humana depende da ecologia da Terra, embora a estejamos explorando até sua morte – segundo algumas estimativas, a atividade humana aumentou a taxa de extinção de outras espécies em cerca de 1000 vezes (Cf. Millenium Ecosystem Assessment). No cercamento implacável do mundo natural, destruímos nosso planeta e, caso os sussurros ouvidos entre cientistas do clima devam ser levados a sério, talvez já seja tarde demais para fazer alguma coisa. A eterna busca por crescimento econômico transformou a humanidade num agente de extinção, por meio da contínua desvalorização dos serviços ecossistêmicos que mantêm nossa Terra viva.” (RAJ PATEL, O Valor de Nada, Ed. Zahar, 2009, p. 25)

A crise da Vida – ou da “biosfera”, como se diz com frequência – talvez seja a Crisona que engloba todas as crisinhas; é a mais grave de todas as crises, a pior de todas as guerras, pois, como disse o cientista canadense Hubert Reeves, “estamos em guerra contra a natureza, se vencermos… estamos perdidos.” A Crise das Crises, se soubermos compreender as mensagens dos pesquisadores ditos “alarmistas” e “catastrofistas’, tem a ver com as ações dos seres humanos como totalidade, que estão ameaçando a própria continuidade das condições de existência para as futuras gerações de seres vivos. Os vindouros, os viventes por vir, são aqueles que, por nossas ações atuais, estamos severamente lesando. Sem nem percebermos que a Humanidade, ao fazê-lo, age como um bicho burro que serrasse o galho onde está sentado. Seguindo no business as usual, nosso destino é o abismo – o dilaceramento de boa parte da teia da vida. Talvez de fato os ratos e baratas hão de herdar a Terra…

Nossos “crimes contra o futuro”: eis uma das preocupações maiores de Hans Jonas em O Princípio Responsabilidade. Já há organizações, como a World Future Council – Voice of Future Generations, que também buscam trabalhar com o conceito de crimes inter-geracionais e que visam criar meios para que a geração presente possa ser responsabilizada e punida por suas ações que geram legados de longo-prazo para os vindouros. É justamente um crime contra o futuro aquilo que decorre da irresponsabilidade da geração presente: pensar que a Humanidade é hoje uma espécie de vida que aniquila milhões de outras espécies de vida, porém, faz colapsar totalmente as bases do nosso humanismo. Parece convidar a uma nova sorte de misantropia onde o homo sapiens passa a ser visto como espécie daninha, praga ecológica, cataclismo encarnado.

Ando achando que só podemos descrever o desafio que o tempo histórico impõe à consciência humana propondo que adicionemos uma 4ª Ferida Narcísica ao célebre tripé proposto por Freud. Depois de perdermos os narcisismos vinculados ao geocentrismo, ao criacionismo e ao racionalismo – aniquilados, diz Freud, pelo heliocentrismo Copernicano, pelo evolucionismo Darwiniano e pela Psicánalise – teríamos agora a necessidade de enterrar aquele narcisismo que nos coloca como “melhor coisa que já aconteceu nesse planeta” ou “ápice da evolução da matéria orgânica”, para levarmos em conta a noção anti-narcísica, mas muito provavelmente verdadeira, de que a Humanidade está ferrando com toda a Árvore da Vida com a fúria irracional, multiplicada por um milhão, de uma tempestade de gafanhotos que arrasa uma plantação.

Que a Humanidade como um todo possa estar causando tamanhos danos à teia da Vida através da conjugação de todos os seus esforços produtivos de dominação da Natureza é algo que ainda não disseminou-se pelo corpo social, e a falta de esclarecimento sobre isto lançam-nos no pesadelo subsequente: o da inação. O pesadelo do deixa-estar, conexo ao pesadelo da hegemonia econômica do laissez-faire, do deixemos a Mão Invisível do Mercado cuidar de tudo. A baixa consciência da crise ecológica global, a recusa de muitos em enxergar a magnitude do problema, produz também o horror desta pasmaceira, desta falta de mobilização social, diante daquilo que mais solicita a urgência de nossa intervenção ativa.

Sempre que busquei propagar certas reflexões sobre o problema ecológico me vi tolhido por uma certa reação de retraimento, de levantar-escudos, por parte do ouvinte. O interlocutor costuma muitas vezes levantar um muro, dentro de si, ou pôr cera nos ouvidos, quando um filósofo-ecologista como Hans Jonas pede-nos que consideremos seriamente o prognóstico de que somos a causa de um desastre monumental que está em processo de concretizar-se. Este desastre de que somos causa e que derramará toda sua violência  somente sobre os vindouros, esta catástrofe possível deve estar, desde já e daqui em diante, no nosso horizonte de decisão ética e política.

Foi no redomoinho destes questionamentos que me pus a preparar minha comunicação sobre O Princípio Responsabilidade, de Hans Jonas, apresentado nesta Segunda (30 de Outubro do 2017) no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, câmpus Goiânia. Busquei comunicar – apesar do tempo limitado de apenas 30 minutos para exposição e debate – que a Crise da Vida é diretamente determinada pela ação humana. Este fato que ainda não raiou em muitas consciências, é nosso dever lutar para que se dissemine, para que esse sol se acenda nas mentes, ainda que seja a luz de uma verdade amarga.

Talvez precisemos recuperar Lucrécio e sua noção de que o remédio amargo pode ser ministrado para o paciente em uma taça cujas bordas estão embebidas em mel. Como falar de modo melífluo e sedutor, porém, a verdade amarga sobre a Humanidade como agente de extinção da biodiversidade terrestre? Talvez precisemos de toda a ajuda dos músicos e dos poetas, estes magos da estética, para nos ajudarem na tarefa de espalhar uma verdade importante que muitos se esforçam por não ouvir. Aos que tapam os ouvidos, precisamos berrar a eles em nossos punks! Aos avestruzes com as cabeças fincadas na areia, contestemos com os furacões de nossas hip hopísticas rimas!

Precisamos de uma arte que faça a experiência das massas dar o salto quântico, do atual pesadelo de cegueira voluntária, da inação fatalista, da subserviência a demagogias, dos espontaneísmos caóticos, rumo à consciência expandida da Vida como interconexão e interdependência, Vida cuja crise nos obriga à responsabilidades extremas e que só cumpriremos colaborando coletivamente. Somos a causa da crise da Vida, decerto, mas talvez sejamos também a única possível solução. O que demanda que nos revolucionemos. Nada menos.

Por que Hans Jonas seria um filósofo importante de conhecermos nesta atualidade onde vivemos nesta cornucópia de crises? Primeiro, penso, pois Jonas é alguém que manifesta em suas páginas um senso de urgência e de crise que parece-me ter muita ligação com a experiência judaica no século XX. A pessoa em carne-e-osso Hans Jonas sofreu na pele não só com um antisemitismo teórico, que se manifestasse apenas por preconceitos verbalizados ou agressões em palavrões, mas sim um antisemitismo psicopata e genocida, como foi o do III Reich e sua proposta, posta em prática a partir de 1942, da Solução Final. Neste contexto, a mãe do filósofo, assassinada em Auschwitz, ganha relevância como uma das chaves para compreensão de sua obra.

“O trabalho liberta”, inscrição na entrada do campo de concentração de Auschwitz

A mãe de Hans Jonas, assassinada pelos nazistas no campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, decerto se torna uma presença perene no pensamento do filósofo. Perder uma mãe nestas circunstâncias é o tipo de ocorrência capaz de levar um filósofo a questionar todo o sentido da presença humana sobre a Terra. O tipo de tragédia tão terrível que imaginamos conexa a uma atitude de “pára o mundo que eu quero descer!”.

Donde o interesse de Hans Jonas pelo “evento para o qual Auschwitz tornou-se símbolo”: além de sua mãe, Auschwitz “devorou as crianças e os bebês”. E isto conduz Jonas a colocar os pontos de interrogação bem fundo, questionando até mesmo a noção de um Deus providente e onipotente, conceito que entra em crise e colapsa: “a desumanização pela absoluta degradação e privação precedeu suas mortes, nenhum vislumbre de humanidade foi deixado àqueles destinados à solução final, dificilmente um traço de dignidade foi encontrado nos espectros esqueléticos sobreviventes dos campos libertados… E Deus deixou isso acontecer. Mas que Deus poderia deixar que isso acontecesse?” (HANS JONAS, O Conceito de Deus Após Auschwitz: Uma Voz Judia, Ed. Paulus, p. 20)

Trata-de um problema filosófico antiquíssimo, o do mal radical, o desafio supremo a toda teodicéia: é evidente que existe mal no mundo – Auschwitz é disso o símbolo! – e como Deus, sendo onipotente, o permite? A questão de Hans Jonas recebe eco no cinema naquele magistral God on Trial (2008)um filme de Andy Emmoni, onde prisioneiros de um campo de concentração decidem realizar um tribunal onde se sentará, sobre o trono dos réus, o próprio Deus. Ao invés do Juízo Final que tem Deus por juiz, o filme propõe, com tensa e envolvente dramaturgia, a inversão disso: a Humanidade erguendo-se como juíza (e justiceira) de Deus. É possível seguir crendo em um Deus bondoso, justo, que tudo pode, depois Dele ter permanecido silente e improvidente quando o “povo de Israel” clamou para ser resgatado do massacre total perpetrado pelas hordas nazistas?

A filosofia do século XX não seria o que é sem as contribuições daqueles que, como Theodor Adorno, Hannah Arendt e Hans Jonas, puseram-se a refletir nos “tempos sombrios” em que o dito progresso técnico-científico desembocou na calamidade triunfal, na vitória da desumanidade, no colapso de qualquer solidariedade em prol da atroz desunião odienta. Adorno destaca que a educação nunca poderá ser a mesma depois dos campos de concentração (cf. Educação e Emancipação, em especial o artigo “Educação Após Auschwitz”)Arendt dedica anos de esforços à compreensão histórica do que tornou possível a “banalidade do mal” sob os totalitarismos – em especial o nazista e o stalinista. Onde foi que falhamos tão feio que puderam nascer horrores como Eichmanns, como gulags?

 Já Hans Jonas aventura-se a refletir sobre o Conceito de Deus Após Auschwitz: um tema que, diz ele, “com temor e tremor eu o escolho. Pois creio que eu não deveria recusar a essas sombras algo como uma resposta a seu grito, após tanto tempo, lançado a um Deus silente.” (p. 17) Se é possível prosseguir crendo em Deus após alguns emblemáticos acontecimentos do século XX é uma questão que anima também a filosofia de Marcel Conche – que responde, no primeiro artigo de Orientação Filosófica, com convicção atéia: não é possível que exista um Deus que aprove, de braços cruzados, o morticínio de crianças. A teodicéia está morta e Nietzsche tinha razão – Deus morreu, e fomos nós que o matamos. Como celebrar o Criador diante de Hiroshima e Nagasaki após a bomba atômica?

“O que fez Auschwitz adicionar ao que sempre se pôde saber sobre a extensão das coisas terríveis e horrendas que os seres humanos podem fazer a outros seres humanos e que desde tempos imemoriais têm feito?”, pergunta-se Jonas (p. 19). Ele evocan uma distinção entre Auschwitz e o famoso terremoto de Lisboa, tão debatido no Iluminismo: “é o fato e sucesso do mal deliberado, mais que as aflições da causalidade cega e natural, o uso desse último nas mãos de agentes responsáveis (Auschwitz, em vez do terremoto de Lisboa) – com o que a teologia judaica tem que se confrontar no momento.”

Se a noção de uma providência divina, de um Deus bondoso e onipotente, entra em maus lençóis diante de um terremoto que faz milhares de vítimas – atualizando o exemplo, pensemos no Haiti em 2010 e seus mais de 100.000 mortos -, o Holocausto perpetrado pelo III Reich alemão também faz entrar em parafuso a noção tradicional de deidade a que estamos acostumados após tantos séculos de pregações monoteístas.

Jonas sabe muito bem que entre os atributos essenciais do conceito de Deus estão a bondade e a onipotência. Como prosseguir crendo em um Deus bom e onipotente quando sabemos muito bem que “durante os anos que Auschwitz assolou, Deus permaneceu silente?” (p. 32) O filósofo ateísta não tem maiores dificuldades em responder que Deus se manteve em silêncio pois Deus não existe. Se Deus não praticou uma miraculosa intervenção salvífica para resgatar o povo de Israel da bocarra devoradora da Solução Final nazista, não foi porque Deus teve um breve eclipse em sua onipotência ou sentiu-se incapaz de agir para consertar o mundo, simplesmente não havia ninguém no Céu com os poderes que a imaginação humana atribui à figura e ao conceito do Criador.

Jonas, não sendo ateísta, permanecendo enraizado na tradição judaica, precisará fazer altos malabarismos teológicos para explicar Deus após Auschwitz. A tentativa de solução proposta por Jonas faz colapsar a noção de onipotência divina. Já que “a bondade é inalienável ao conceito de Deus”, é preciso que caia a noção do todo-poderosismo divino. É preciso que Deus seja limitado em seu poder, que Deus não possa tudo, que os poderes de intervenção desse Deus estejam enjaulados em estreitos limites: “Depois de Auschwitz, podemos afirmar com mais forma do que nunca que uma divindade onipotente ou teria que não ser boa ou (em seu governo do mundo, no qual podemos ‘observá-lo’) totalmente ininteligível. Mas de Deus deve ser inteligível de alguma maneira e em certa medida (isso devemos sustentar), então sua bondade deve ser compatível com a existência do mal, e isso ocorre somente se ele não for todo-poderoso.” (p. 31)

Querer conservar o conceito de Deus-bondoso após o crepúsculo do Deus-todo-poderoso conduz Jonas a uma noção curiosa da impotência divina, formulando um mito de um deus que teria abdicado de seus poderes de intervenção em prol da existência de outros agentes que determinam o curso dos eventos – nós.

“Por razões decisivamente solicitadas pela experiência contemporânea, sustento a ideia de um Deus que por um tempo – o tempo contínuo do mundo processo – despojou-se de qualquer poder de interferir no curso físico das coisas; e que responde ao impacto de eventos mundanos sobre o seu ser não ‘com uma mão forte e braço estendido’, como nós, judeus, recitamos em cada Páscoa, recordando o êxodo do Egito, mas com o mudo e insistente apelo de seu objetivo não alcançado. (….) E aqui lembremo-nos e que a própria tradição judaica  não é realmente tão monolítica  em matéria de soberania divina quanto a doutrina oficial faz parecer. A poderosa corrente oculta da cabala, que Gershom Scholem em nossos dias trouxe novamente à luz, conhece um destino divino ligado ao vir-a-ser do mundo. Lá encontramos especulações altamente originais, muito pouco ortodoxas, em cuja companhia a minha não parece tão impertinente, afinal.” (p. 32-34)

O Conceito de Deus Após Auschwitz é um “fragmento de teologia especulativa” em um contexto sócio-histórico onde podemos dizer que a própria noção de Deus entra em uma de suas piores crises – como Nietzsche e Feuerbach haviam previsto no século anterior. A crise de Deus é tamanha que muitos de seus atributos essenciais – como a onipotência – são tacadas ao mar na esperança de salvar a embarcação, tornada mais leve pela exclusão daquilo que não poderia ser harmonizado com os males radicais do Holocausto ou da bomba atômica.

O tipo de especulação teológica que Hans Jonas realiza neste texto certamente tem seu esplendor, sua poesia, seu pathos tocante, já que estamos diante de um filósofo que não só perdeu a mãe para a máquina de genocídio alemã, mas que sente uma comunidade de destino com seu povo e que não pode impedir que sua filosofia fique marcada pela cicatriz indelével deste trauma. É algo que, parece-me, acaba por unir Jonas, Arendt e Adorno, tornando-os figuras tão eminentes da filosofia da “Era dos Extremos” analisada em minúcias por Hobsbawn. Mas diante da cornucópia das crises – muitas delas apontadas com muita contundência em O Princípio Responsabilidade – do que nos vale ficar especulando sobre Deus ao invés de arregaçar mangas contra a existência dos males e em prol dos potenciais transformadores e revolucionários que as crises também nos abrem?

Ora, confessa Jonas, este seu ímpeto de fazer teologia, de filosofar sobre Deus, Alma e Liberdade, “certamente deixaria o velho Kant completamente atônito. Pois ele, ao contrário, sustentou serem estes alegados não objetos os mais elevados objetos de todos, sobre os quais a razão não pode deixar de ser concernida, embora não possa esperar que em algum momento se obtenha um saber sobre eles e que, por isso, sua busca esteja necessariamente fadada ao fracasso, graças aos limites intransponíveis do conhecimento humano. Todavia, este veto cognitivo, por tal preocupação ainda justificada, deixa aberta outra via além da completa renúncia: curvar-se ao decreto de que o ‘conhecimento’ nos escapa aqui e, mais que isso, até mesmo renunciar a esse grande objetivo de saída, não impede ainda o pensar sobre coisas dessa natureza em termos de sentido e significado.” (p. 18)

A filosofia, ainda que tenha consciência progressiva do quão são incognoscíveis estas antiquíssimas figuras de Deus, da Alma, do Outro Mundo, do Sentido Transcendente de Tudo, não se resigna facilmente a um ceticismo abstêmio. Em especial, a filosofia se sente compelida a ir além dos limites do conhecimento e especular sobre o que nunca se poderá saber com certeza. É o próprio sentido da vida humana sobre a face da terra o que entra em crise em situações históricas como aquelas da carnificina generalizada da 2ª Guerra Mundial – e é tarefa da filosofia encarar o desafio de formular conceitos e interpretações que nos ajudem a encontrar sabedoria em meio ao caos de tempos sombrios.

É o que Arendt fez ao propor a noção de “banalidade do mal” após testemunhar o julgamento de Eichmann em Jerusalém. Ainda que não possamos chegar a um conhecimento perfeito sobre certos temas, é preciso refletir e especular sobre eles, até porque a irreflexão é muito mais perigosa do que a reflexão infrutífera. Goya sabia: “o sono da razão gera monstros”. Gosto da atitude de Jonas em sua tentativa de refazer a teia teológica rasgada pelo evento de que Auschwitz se tornou símbolo, ainda que minhas convicções atéias me impeçam de segui-lo na sua tentativa de salvar Deus do completo naufrágil, forjando o mito de um deus frágil e abstêmio, resgatado em um barca de palavras e salvo da derrocada geral.

Porém, sinto que a filosofia corre sempre o risco de se perder num labirinto de abstrações, de se encerrar num interminável jogo de palavras e de conexões entre conceitos, muitas vezes tornando-se de um hermetismo que afasta o comum das gentes e torna os filósofos um clubinho seleto de gatos pingados que dialogam em linguajar cifrado. Quem já se arriscou a ler a Fenomenologia do Espírito de Hegel ou O Ser e o Nada de Sartre deve ter sentido o quanto alguns filósofos parecem indiferentes ou negligentes com a questão da comunicação com um público mais amplo – escrevem para outros filósofos, bichos sempre raros mesmo nas sociedades que mais valorizam a filosofia. Por isso, gosto muito quando ao fim de O Conceito de Deus Após Auschwitz raia com força no texto de Jonas – ainda que numa nota de rodapé – um destino individual, uma singularidade irrepetível, uma vida concreta: Etty Hillesum (1914-1943).

Hans Jonas sente-se comovido pelo destino de Etty Hillesum, a jovem judia holandesa que, “quando as deportações começaram na Holanda, deu um passo à frente e se ofereceu para o campo de concentração de Westerbrok, para lá ajudar no hospital e compartilhar o destino de seu povo.” (p. 36) Etty foi assassinada em Auschwitz em 30 de Novembro de 1943, mas legou à humanidade uma obra destinada a ecoar por muito tempo: Uma Vida Interrompida – Diários 1941-1943 (ed. Record.; tradução de Antônio C. G. Penna). Há mais de 10 anos atrás, li este livro com comoção e interesse – e escrevi o seguinte texto, que retomo e republico com pequenas alterações:

DIÁRIO DE UMA VIDA INTERROMPIDA

O Holocausto foi certamente uma das manchas mais vergonhosas da história humana (que não tem poucas). Algo tão monstruoso e demoníaco que é capaz de abalar para sempre, no coração de quem o reconhece de frente, uma série da crenças que caem em efeito dominó: a fé na humanidade, no progresso da história, na vitória certa do Bem, na existência de um Criador justo e bondoso que fica sentado em sua nuvemzinha a zelar pelos destinos de suas criaturas…

Mas é evidente que não é por isso que devemos esquecê-lo, fingir que não existiu, apagá-lo da memória. Não: é importante se lembrar desse gigantesco erro para que não se volte a repeti-lo nunca mais. Para que ele permaneça frente à nossos olhos como um exemplo supremo do Mal, como um souvenir do horror possível que deve sempre estar lá para nos deixar enojados e nos fazer repelir qualquer coisa que se assemelhe a ele…

Suspeito que muita gente quer mais é fechar os olhos para as merdas e mazelas do mundo e crer de maneira delirante em um mundo mais róseo em que as coisas são mais de acordo com o que gostaríamos que fossem. Mas fingir que o mundo é um conto de fadas nunca serviu para torná-lo mais vivível ou menos hediondo: melhor reconhecê-lo como é, por mais horrendo que seja, para poder combater nele toda a tropa de males que nos assola.

O problema, penso eu, é que não podemos e não conseguimos saber de verdade o que foi o Holocausto quando, nas aulas de história, ficamos sabendo da existência dos “fatos” a partir dos números de vitimas. Sim, enquanto alunos, ficamos sabendo que durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha nazista assassinou entre 6 e 9 milhões de judeus. Anotamos a informação no caderno, decoramos tudo pra poder passar na prova, alguns ficam profundamente chocados, outros fingem uma piedade um tanto artificial… Mas, se me lembro bem de minha atitude e daquela dos colegas, isso não era algo que mexia visivelmente com a vida e a paz de espírito de ninguém. Certamente que surpreendia pela grandiosidade do número, pelo tamanho descomunal do crime, mas não era algo que transtornava a vida ou que nos fazia arder de insuportável compaixão. Afinal de contas, somos todos, e mais ainda quando crianças e adolescentes, imensamente egocêntricos e o sofrimento dos outros é pra nós muitas vezes indiferente. Lembro-me que uma aula de História sobre o Holocausto não impedia ninguém de bocejar com tédio, de continuar com as conversinhas fúteis de sempre ou de desejar ir pra casa pois estava quase na hora do Chaves e do Chapolim começarem na TV.

Acho que só começamos a ter uma idéia verdadeira do horror quando começamos a ver as fotos e vídeos das sepulturas de massa, com aquele amontoado de esqueletos e crânios empilhados, ou quando vemos algum dos inúmeros filmes que o cinema produziu sobre o assunto (A Lista de Schindler de Spielberg, A Vida é Bela de Benigni, O Pianista de Polanski, Amém de Costa-Gravas, A Escolha de Sofia de Pakula, Noite e Neblina de Resnais, The Pawnbroker de Lumet, entre muitos outros). É que a coisa é tão monstruosa que se torna difícil de imaginar. Até hoje não consigo fabricar uma imagem mental de 6 milhões de pessoas e tenho que usar artifícios como “são 60 Maracanãs lotados”. Mas nem isso consigo imaginar direito… 60 Maracanãs de gente morta é o tipo de imaginação que leva a mente quase a dar tilt.

E mais: a coisa não nos abala quando é só um número, uma estatística, uma massa humana anônima. São 6 milhões que não conhecemos, que não amamos, que não são nossos amigos, nem mesmo conhecidos… Enfim, são gente com quem não temos nenhum laço mais forte (além daquele muito frágil que é o pertencimento à mesma espécie biológica), gente por quem não sentimos muita coisa. Como pedir que sintamos piedade desses judeus sem rosto, sem história, sem vida, que se amontoam para formar uma estatística? Não nos compadecemos de números, mas sim de destinos humanos. É somente quando alguns desses rostos assassinados começam a ganhar rosto, e seus rostos a ganhar uma história, que a dimensão da tragédia começa a ser notada de verdade – donde a importância histórica tremenda do documentário Shoah de Claude Lanzmann (com mais de 9 horas de duração e repleto de entrevistas com os sobreviventes dos campos de extermínio).

Podemos dizer também que nós, brasileiros, ao procurarmos saber da história de vida de Olga Benário, podemos fazer um massacrados ganhar um rosto e um passado – tornamos concreta a tragédia coletiva na encarnação de uma singularidade irrepetível. A piedade que então somos capazes de sentir por uma pessoa individualizada nos dá a dimensão da piedade monstruosa – e seguramente fatal – que nos tomaria se a sentíssemos por todos que pereceram.

Mais um rosto e mais uma história, pois.


Em 30 de Novembro de 1943, aos 29 anos de idade, Etty Hillesum foi assassinada no campo de concentração de Auschwitz junto com seu pai, sua mãe, seu irmão e mais algumas centenas de judeus, todos esmagados pela máquina genocida do Partido Nazista que havia subido ao poder estatal em 1933. Humanos tratados como se fossem moscas, baratas, amebas… chacinados com Zyklon B e outros produtos químicos destinados ao controle das pestes.

Foi somente nos anos 1980 que finalmente se publicou na Holanda pela primeira vez uma edição dos Diários que Etty escreveu entre 1941 e 1943, fato que serviu para elevar dos subterrâneos da história uma voz lírica, profunda e sábia que descrevia os horrores nazistas que sentiu na pele, até o fim, até o ponto em que teve sua voz rasgada e silenciada subitamente pela insânia genocida Nazi… Em 1941, quando o domínio nazista na Holanda começava a se intensificar, Etty Hillesum começou a escrever seu diário – e isso a poucos quilômetros de distância de onde a pequena Anne Frank também escrevia o seu.

Anne Frank (1929-1945) em foto escolar de 1940

Talvez não imaginando que acabaria por deixar para a posteridade um dos mais tocantes relatos sobre aqueles anos terríveis, Etty Hillesum começou seu Diário com pouca ciência de que acabaria gerando uma obra com interesse  histórico. Ela, aliás, está longe de ser um historiadora ou alguém com grandes conhecimentos de sociologia e ciência política. É apenas uma garota judia talentosa, sensível, doce e inteligente tentando prosseguir com sua vida em meio a uma situação exterior que vai gradualmente esmagando seu povo, seus amigos, sua família, sua vida.

A princípio, os Diários não parecem se ocupar muito com a guerra, o nazismo e o holocausto. Etty Hillesum, garota de tendência introspectiva, fã de poesia (especialmente de Rilke), interessada em psicologia, preocupa-se muito mais em se voltar para dentro de si em uma jornada de auto-conhecimento. Em sua viagem em direção ao mundo interior, vai sondando seu íntimo em busca de respostas para dúvidas sobre o amor, a sexualidade, a conduta na vida, sempre com um esforço muito estimável em tentar se manter o mais sincera possível, vencendo todas as suas inibições e todo desejo de glória: “Este é um passo doloroso e quase impossível para mim: confiar tanta coisa que esteve escondida a uma folha de papel…”, começa ela em sua primeira entrada, confessando que tem em si muito “medo de desabafar e de permitir que as coisas extravasem”: “É como aquele grito final e libertador que sempre fica timidamente preso na garganta quando se faz amor… no mais profundo de meu âmago algo ainda está aprisionado… no mais profundo do meu ser, algo como uma bola de fios de lã bem apertados amarra-me, sem me dar alívio…” (17)

O principal objetivo que Etty se coloca é escrever sobre sua vida íntima e seus sentimentos confusos a fim de adquirir um pouco de clareza e de lucidez. Nada por aqui é muito grandiloquente ou literário: ela até pode ter tido a ambição de publicar esses diários algum dia, mas a leitura nos faz notar uma espontaneidade e um ausência de artifício que só se encontram nos textos escritos na solidão e sem intento de publicação. O objetivo do Diário, aliás, não é de modo algum registrar o momento histórico; o Diário de Etty Hillesum, como todo diário verdadeiro, é uma tentativa dela pensar sua própria vida e seus próprios problemas – em suma, algo muito mais voltado para o individual do que para o social: “Talvez meu propósito na vida seja preocupar-me comigo, viver às turras comigo, com tudo que me incomoda e me tortura e que clama por soluções internas e por uma organização. Pois esses problemas não são apenas meus. E se ao fim de uma longa vida eu for capaz de dar alguma forma ao meu caos interior, terei cumprido meu pequeno propósito na vida” (47), diz.

E, apesar da preocupante situação política, ela parece atingir nesse momento de sua vida um alto grau de sabedoria e uma de suas fases mais felizes, como mostra um trecho como esse: “Antes eu vivia sempre por antecipação; tinha a sensação de que nada que fazia era a coisa ‘real’, que tudo era uma preparação para alguma outra coisa, algo ‘maior’, mais ‘autêntico’. Mas esse sentimento desapareceu de mim completamente. Agora eu vivo a hora e a ocasião, este minuto, este dia, integralmente, e a vida vale a pena ser vivida. E se soubesse que iria morrer amanhã, eu diria: é uma grande lástima, mas valeu a pena enquanto durou” (32). Além do mais, julga que “a morte é apenas um suave desaparecimento…”

Pouco a pouco, as medidas dos alemães intensificam a segregação e a humilhação dos judeus holandeses: primeiro eles são proibidos de usar bicicletas; depois não podem mais entrar em nenhum meio de transporte coletivo; depois são impedidos de circular em bosques, praças e outros locais públicos; depois são obrigados a ostentar a famosa Estrela de Davi colada ao peito… Não tardam as deportações para campos de trabalhos forçados, que muitas vezes rasgam famílias ao meio… E crescem os rumores a respeito das gigantescas e impiedosas matanças que os nazistas estão infligindo ao povo judeu em dezenas de campos de extermínio. Tudo atinge um ponto em Etty não tem mais condições de se enganar: “…o que está em jogo é nossa iminente destruição e aniquilamento, não podemos ter mais ilusões sobre isso. Eles estão em campo para nos destruírem completamente…” (156).

NAS GARRAS DO NAZISMO

E então o Diário de Etty, antes voltado quase que exclusivamente para problemas pessoais e afetivos, se transforma gradualmente num retrato da situação histórica desesperadora para o povo judeu. E o que acho mais bonito em Etty Hillesum é que ela, em nenhum momento, deixa-se tomar pelo ódio, pelo rancor, pela selvageria, pela ferocidade. Frente ao ódio nazista, ela se esforça para não pagar na mesma moeda, como se perguntasse: de que serviria aumentar a quantidade de ódio nesse mundo já transbordante de fúria? Por que nos tornaríamos tão horríveis e tão brutais quanto nossos inimigos?

Sobretudo é preciso se salvaguardar contra o grande erro que seria se tornar parecido com os nazistas: “Se permitirmos que nosso ódio nos transforme em animais selvagens como eles, então não haverá mais esperança para ninguém”, diz Etty, notando que um dos principais problemas que nota em seus concidadãos é que “o ódio aos alemães envenena a cabeça de todo mundo…”.

E continua: “Se houvesse apenas um alemão decente, então ele deveria ser admirado, apesar de toda aquela quadrilha de bárbaros, e por causa daquele único alemão decente está errado derramar ódio sobre um povo inteiro… o ódio indiscriminado é a pior coisa que existe; é uma doença da alma” (24-25).

O Diário inteiro persiste, obstinado, nessa recusa do ódio. É evidente que Etty não consegue evitar sentir “uma profunda indignação moral por um regime que trata seres humanos de tal forma”, mas essa indignação não se permite nunca utilizar meios brutais e raivosos para se manifestar. Ela recusa até mesmo qualquer tipo de rebeldia e qualquer tentativa mais forte de escapar das garras dos carrascos. Etty, antes de ser mandada para Auschwitz, vai voluntariamente para o campo de Westerbork.

Alguns podem até criticar a atitude de Etty Hillesum como “muito fatalista” ou “muito resignada”, como se ela tivesse aceitado muito facilmente ser conduzida ao matadouro, como uma ovelinha que pouco reclama. Uma atitude que está nas antípodas do Levante do Gueto de Varsóvia, por exemplo. De fato, Etty não se deixa nunca tomar pelo ímpeto insurrecional, nem por qualquer atitude mais enérgica no sentido de salvar-se, como se tivesse aceitado completamente seu destino. E se explica da seguinte forma, num trecho magistral que merece ser citado na íntegra:


“Não é como se eu desejasse cair nos braços da destruição com um sorriso resignado – longe disso. Estou apenas curvando a cabeça ao inevitável, e ao fazê-lo sou amparada pela certeza de que afinal de contas eles não podem roubar-nos aquilo que realmente importa. Mas não acho que me sentiria feliz se fosse excluída daquilo que tantos outros têm que sofrer. As pessoas insistem em dizer-me que alguém como eu tem o dever de esconder-se, porque tenho muitas coisas a fazer na vida, muito para dar. Mas sei que qualquer coisa que eu tenha para dar aos outros, posso dá-la não importa onde eu esteja, aqui no círculo de meus amigos, ou lá, num campo de concentração. E é pura arrogância uma pessoa imaginar-se boa demais para não compartilhar do destino das massas. E se o próprio Deus sentir que eu ainda tenho muita coisa a fazer, então muito bem, eu o farei, após ter sofrido o que todos os outros têm que sofrer. E se eu sou ou não um valioso ser humano, isso só ficará claro a partir de meu comportamento em circunstâncias as mais árduas.” (178)

Claro que a resignação de Etty ao seu destino terrível só podia mesmo se sustentar sobre uma crença religiosa que parece crescer em sua mente na mesma proporção em que cresce o perigo e a iminência da morte. Quanto mais difícil se torna a situação, mais ela se ajoelha para orar a seu Deus… Sintomático. Quando estamos impotentes, quando não há nada que possamos fazer para resolver uma situação, quando estamos nessa situação de radical dependência em relação a uma força externa, é aí que a religião se ergue mais do que nunca nos corações humanos. É este o sentido da famosa frase que diz: “não existem ateus a bordo de aviões com turbulência”. E, por mais incrível que pareça, o fato de esse Deus (suposto como bom e onipotente!) não ter movimentado um dedo para ajudar quem quer que fosse dentre as vítimas do massacre não parece razão nenhuma para Etty duvidar de sua existência… E ela prossegue tentando crer que “o mundo é belo e a vida é cheia de significação”. Pena que tantos de nós, frente aos relatos desse horror, não possam dizer o mesmo…

Longe de mim julgar se ela esteve certa ou errada a agir dessa maneira. Como saber o que é certo a se fazer numa situação extrema desse tipo? Deve-se aceitar com estoicismo as pancadas que o destino resolve nos infligir, ou então deve-se espernear, gritar, se revoltar, descer ao túmulo largando palavras do mais puro ódio contra os carrascos? Não sei. O fato é que a atitude de Etty é considerada por muitos de seus intérpretes – entre eles André Comte-Sponville – como sábia, serena, doce, encarnação da caritas ou da ágape (a amorosidade caridosa). Em Etty Hillesum, lê-se uma indignação que não descamba para a violência, uma luta que não degenera em ódio, uma recusa em somar raiva à raiva, um não ao incremento da quantia de fúria que já há no mundo. É uma mensagem até cristã aquela que emana destes diários da jovem judia: mostrar a outra face, recusar o combate, não se deixar arrebatar pelo ódio… Mas é também, antes de mais nada, a atitude de uma garota que se conhece bem demais para acusar os outros de todo mal e se fingir de santinha…

Etty sabe muito bem que no coração e na mente de todos nós repousam vários vícios em potência, várias sementes malignas que podem germinar e crescer se solicitadas pelas circunstâncias e pelas histórias de vida de cada um. Etty Hillesum se exime de condenar os outros pois ela mesma sabe que culpados somos todos, que a capacidade para fazer o mal existe em potência em cada um, apesar de só se manifestar em ato em alguns. “A podridão dos outros está também em nós… Não vejo outra solução a não ser voltar-nos para dentro e erradicar toda a podridão que ali existe. Eu não acredito mais que nós possamos mudar qualquer coisa no mundo antes que tenhamos mudado primeiro a nós mesmos. E esta parece para mim a única lição a ser aprendida desta guerra: que devemos olhar para dentro de nós mesmos e para mais lugar nenhum.” (92)

A medicina moral que Etty sugere, pois, é introspectiva: não se deve sair apontando o dedo para os males e vícios alheios antes de erradicar todo o mal pessoal (e ele é muito numeroso, em quantidade suficiente para que se leve uma vida inteira na faxina…). “Acredito que nunca serei capaz de odiar qualquer ser humano por sua suposta ‘maldade’, que só odiarei o mal que está dentro de mim…” (103). “A verdadeira paz só chegará quando cada indivíduo encontrar sua paz interior; quando tivermos todos dominado e transformado algum dia nosso ódio pelos nossos semelhantes, de qualquer raça, até mesmo em amor – embora isso talvez seja pedir demais. É no entanto a única solução.” (148) “Cada um de nós deve voltar-se para dentro e destruir no seu interior tudo o que pensa que deveria destruir nos outros”, diz Etty Hillesum, antes de concluir com um ensinamento de perene atualidade: “Lembre-se que cada átomo de ódio que acrescentamos a este mundo o faz ainda mais inóspito” (210).

Em seu livro Matéria, Espírito e Criação (Ed. Vozes, 2010), Jonas escreve, no capítulo 16, sobre o “testemunho de Etty Hillesum”: “Face ao acontecimento de Auschwitz – e desde o porto seguro de não ter estado ali, de onde se pode facilmente especular – fui impelido à opinião, provavelmente considerada herética para toda doutrina da fé, de que não é Deus que pode nos ajudar, mas sim nós é que temos de ajudá-lo.” (p. 67) É exatamente a opinião manifestada por Etty Hillesum antes de ser levada para a câmara de gás em Auschwitz: ela diz que “não é de Deus a culpa por tudo ter sobrevindo assim, mas nossa”; que “o Senhor não pode nos ajudar, mas nós é que devemos ajudar o Senhor a nor ajudar”; que “não há mesmo o que quer que seja que o senhor possa fazer a respeito de nossa situação” (p. 68).

Para Hans Jonas, portanto, “a ignomínia de Auschwitz não pode ser imputada a uma providência onipotente ou a uma necessidade dialeticamente sábia… Nós, seres humanos, infligimos isto à deidade, como mordomos ineptos de sua causa; sobre nós tal ignomínia pesa, e somos nós que devemos também limpar a vergonha de nossos rostos desfigurados, e até mesmo do próprio rosto de Deus.” (p. 59)

A noção tradicional de Deus, entendido como benigna providência onipotente, entra em grave crise com o fato histórico dos campos de concentração e extermínio. Entra em colapso qualquer possibilidade de crença em um Deus que intervenha na realidade para consertar aquilo que nela está moralmente errado. Poderíamos até dizer que seria difícil criarmos algum “experimento empírico” mais eficaz para comprovar a inexistência da providência divina do que o Partido Nazista e seu III Reich puderam fazer. Se Deus não se manifestou em tais condições, se manteve-se silencioso e de braços cruzados diante de tão colossal ignomínia, de tão hedionda injustiça, é pois, no mínimo, não é dotado da onipotência que algumas seitas religiosas costumam lhe atribuir. Hans Jonas tenta salvar a noção de Deus, purgado da onipotência, realizando complexos malabarismos teológicos e cosmogônicos – uma tentativa que, ele confessa, “se vinculou ao nome de Auschwitz, uma vez que para mim ele também foi um acontecimento teológico.” (p. 62)

A filosofia de Hans Jonas, sob o impacto dos fatos históricos vinculados ao Holocausto do povo judeu perpetrado pelos genocidas nazis, abandona qualquer noção de Deus onipotente, de providência divina – noções que já eram recusadas, cerca de 25 séculos atrás, pela escola epicurista. Epicuro e Lucrécio não pouparam esforços para mostrar que não passava de superstição dos mortais acreditar em deuses que se importavam conosco, que nos vigiavam de perto, que respondiam a nossas preces e sacrifícios. Hans Jonas, portanto, não faz senão reatar sua conexão com a sabedoria epicurista após o impacto de certos acontecimentos históricos que forneceram a prova da improvidência divina, isto é, da ausência de um “governo divino do mundo”, já que “muito do nosso conhecimento da natureza e da história, portanto teórica e moralmente, corre em direção contrária a ela.” (p. 49)

Na polêmica entre criacionismo e evolucionismo, Jonas toma partido, sem sombra de dúvida, em defesa da “descoberta factual da evolução”, recusando a noção fictícia – expressa no mito de Adão e Eva – segundo a qual “os seres humanos teriam aparecido de repente no mundo e prontos de uma vez por todas”:

“Satã observando o amor de Adão e Eva”, de William Blake (1807)

“A descoberta factual da evolução nos ensinou que os seres humanos chegaram a ter consciência de si mesmos através de uma longa pré-história de avanços desde a alma animal até o espírito; e os dados presentes referentes ao próprio espírito pensante nos ensinam que ele não é de modo algum separável do sensível e do anímico, tal como a percepção, o sentimento, o desejo, o prazer, a dor – coisas essas inteiramente ligadas ao corpo.” (p. 48) Ora, argumenta Jonas, é preciso que a “matéria primordial” do universo seja dotada da “possibilidade do espírito”: “tudo isso pode ser demonstrado pelo simples fato de seu surgimento, haja vista a inferência quase tautológica de que o que se tornou real precisava ser possível.” (p. 46)

A existência, na natureza, de subjetividade, de espírito, é prova suficiente de que a matéria universal é capaz de gerar tais resultados como estes que podemos testemunhar em nosso próprio ser.  A emergência do homo sapiens, alguns bilhões de anos após a explosão primordial, resultado de um longo processo de evolução da matéria orgânica, é prova de que matéria e espírito não são heterogêneas, imescláveis, mas muito pelo contrário: a matéria contêm entre suas possibilidades o desenvolvimento da espiritualidade, ou melhor, só há espírito encarnado, só há espírito como resultado da evolução orgânica da matéria universal.

Desde a filosofia pré-socrática, com Xenófanes, a crítica da mitologia tradicional denunciava o processo humano de fabricar deuses à nossa imagem e semelhança. Xenófanes ficava estarrecido diante da representação dos deuses olímpicos como se tivessem corpos extremamente semelhantes aos corpos humanos. Boticcelli pinta sua deusa Vênus com seios à mostra, indistinguíveis dos seios de uma mulher. Não faltam quadros onde Zeus é uma espécie de homem musculoso, e nos museus ao redor do mundo vocês podem observar que as esculturas de Apolo, por exemplo, são dotadas de um pênis. Xenófanes, provocativo, havia sugerido que se os cavalos e os bois pudessem desenhar seus deuses, acabariam por figurá-los como deuses-cavalos e deuses-bois.

Cega à esta crítica mordaz, a tradição judaico-cristã insistiu sempre em um Deus único que teria criado os seres humanos “à sua imagem e semelhança”. Hans Jonas, no capítulo 9 de Matéria, Espírito e Criação, encara a “objeção do antropomorfismo”, isto é, a “reprovação à vaidade humana” feita por aqueles que julgam como imperdoável vanglória a crença em um deus que criou o homo sapiens à sua imagem e semelhança. A filosofia de Jonas não é totalmente avessa a um certo “narcisismo” humano: afirma que “nosso espírito é a coisa mais elevada de que temos conhecimento no universo” (p. 44).  Nem búfalos, nem corujas, nem cobras, nem macacos, manifestam os poderes de consciência reflexiva e de linguagem que fomos capazes de desenvolver. Ainda que recuse a noção de Descartes dos animais como autômatos, máquinas sem alma, concedendo que as outras formas de vida são sim dotadas de anima e manifestam diferentes estágios da evolução anímica na cadeia da vida, Jonas ainda assim coloca o ser humano numa espécie de pináculo – ainda que com muitas ressalvas:

“A fórmula ‘coroa da Criação’ certamente não deixa de ser um tanto presunçosa.Mas se o orgulho da ‘dignidade do homem’ se estende dessa maneira presunçosa, logo destrói aquilo que reclama para si mesmo. Apenas enquanto um enorme fardo, enquanto um mandamento de se colocar à altura da condição de ser a imagem de Deus, pode ele mesmo dar prova dessa dignidade. E, nesse sentido, a vergonha, muito antes que o orgulho, é o que se constata quando observamos o drama humano, pois a traição a essa semelhança excede sobremaneira à fidelidade a ela. Devemos ser gratos pelas raras confirmações que vez ou outra resplandecem e, algumas vezes, exatamente nas horas mais sombrias, pois sem elas e ante o cortejo histórico-universal das provas contrárias a uma tal imagem, essa mistura de atrocidades e estupidez, teríamos que provavelmente nos desesperar quanto ao próprio sentido da aventura humana. O exemplo dos justos nos salva disso e, de fato, salva-se a si mesmo cada vez mais. Mas o gênero humano, Deus o sabe bem, não tem razão alguma para vangloriar-se.” (p. 46)

No último capítulo do livro, Jonas pergunta-se: “Que importância tem saber se há vida inteligente em outro lugar do universo?” Se encontrássemos ETs com civilizações avançadas a alguns milhões de anos-luz daqui, isso faria alguma diferença ética-política, impactaria os dilemas e as responsabilidades da atualidade? “A descoberta de vida inteligente extraterrestre alteraria algo em nossa responsabilidade? Poderíamos nos consolar com o fato de que se estragarmos nossa grande oportunidade aqui, ela seria levada adiante em algum outro lugar, estando, inclusive, em melhores mãos, e que portanto não depende apenas de nós?” (p. 76)

Jonas responde com convicção que não temos o direito de estragar a árvore da vida, que inclui os organismos capazes de subjetividade e espírito, em nenhuma hipótese:

“Somos responsáveis apenas pelo destino do espírito aqui onde dominamos, isto é, no distrito exclusivo de nosso poder – tal como o são aquelas hipotéticas inteligências, se é que existem, em seu próprio distrito. Ninguém pode assumir a responsabilidade de outrem… neste canto do universo  e neste momento de nosso poder funesto, a causa de Deus oscila na balança. Que nos importa que em algum outro lugar ela tenha prosperado, esteja em perigo, a salvo ou perdida? Que nosso sinal, uma vez interceptado, não importa onde no universo, não seja um mero anúncio de morte, pois temos muito trabalho a fazer. Preocupemo-nos com nosso planeta. Independentemente do que possa se passar fora de nossos limites, é aqui que se decide nosso destino e, com ele também, o destino da aventura da criação, que se encontra em nossas mãos, podendo ser por nós zelado ou destruído. Cuidemos dele, como se fôssemos, de fato, os únicos no universo.” (p. 76)

Dentre as tarefas urgentes da filosofia estaria, portanto, auxiliar as consciências humanas a perceberem a amplitude da responsabilidade pela Árvore da Vida que nos cabe neste momento na história do planeta – o Antropoceno – onde o nosso poder excessivo põe em risco aquilo que bilhões de anos de evolução cósmica geraram como frágil fruto. Temos que perceber que não há Planeta B.

Diante do conglomerado das crises que nos assolam, refletindo sobre as tarefas da filosofia, em busca de assumir as devidas responsabilidades que me cabem, fico pensando que seria um equívoco imenso esperar pela intervenção salvífica de um benigno deus. Além disso, no combate contra os males que desfiguram o mundo e às vezes nos chafurdam nos desânimos, precisamos estar atentos em relação aos métodos e táticas de combate, indo além do simplismo perigoso do “os fins justificam os meios”. Atribuir ao outro uma monstruosidade de que nos julgamos perfeitamente imunes – demonizar o outro no processo de autobeatificar-se! – é um passo gigante para que nos tornemos, através da transfiguração hedionda do ódio e da segregação, em seres tão monstruosos quanto aqueles que combatemos.

Decerto que é preciso, como Lênin na liderança dos bolcheviques há 100 anos atrás, saber vencer. Não gosto da filosofia derrotista, apática, que se recusa aos labores de transformação do mundo – Marx já disse: não se trata apenas de interpretar o que há, mas de transformá-lo! Não podemos nos resignar a estar entre os derrotados, os pisoteados, os deserdados. Não temos o direito de nos conformar com a derrota com a desculpa ilusória de que depois da morte seremos recompensados e que no além-túmulo “os últimos serão os primeiros”. A Justiça é pra já e por ela devemos coletivamente colaborar. Mas nem todos os métodos valem neste percurso rumo a uma vitória possível de um mundo menos injusto, mais solidário. Donde a perene importância da ética e da filosofia da práxis (como síntese entre reflexão e ação) no aclaramento das nossas encruzilhadas, no auxílio a nossas decisões.

Nossas responsabilidades são imensas, assim como são minúsculas nossas capacidades individuais de assumi-las: precisaríamos de um ombro de Atlas que só se configuraria por uma união de ombros, por um esforço coletivo e colaborativo. A ação coletiva condena-se à cegueira ou ao espontaneísmo ineficaz quando dispensa a reflexão ética. E Etty Hillesum ensina – “lembre-se que cada átomo de ódio que acrescentamos a este mundo o faz ainda mais inóspito” – que às vezes é melhor perder conservando a dignidade e a faculdade de amar do que, por uma vitória atroz, tornar-se apenas mais um monstro no cortejo hediondo da calamidade triunfal.

 


Por Eduardo Carli de Moraes
Professor de filosofia do IFG – Câmpus Anápolis
Goiânia, Outubro de 2017

 

Este artigo complementa e dá sequência aos escritos Prometeu Desacorrentado – A responsabilidade pelos viventes vindouros na filosofia de Hans Jonas (1903 – 1993) A Árvore Da Vida Na Viagem Do Tempo

 

BLISSFUL IMPERMANENCE – A impermanência não é um argumento contra a vida, mas é parte essencial de seu esplendor: um tributo a Allan Alan Watts​

BLISSFUL IMPERMANENCE – A impermanência não é um argumento contra a vida, mas é parte essencial de seu esplendor: um tributo a Allan Alan Watts​

Mescla de poeta beatnik, dotado de linguagem vívida e irreverente, com sábio zen-budista, propagando sabedorias orientais entre os caras-pálidas do Ocidente, Alan Watts é uma daquelas figuras que salvam a figura do “guru” de ser sinônimo de charlatão, de mercador de ilusão. Falo por experiência própria que considero, com convicção, Alan Watts como uma figura que nos ensina um bocado sobre esta encrenca que nos foi dada pelo cosmos como tarefa: a arte de viver.

Ele diz que os mitos são imagens que criamos para tentar dar sentido a vida e ao mundo. Estas imagens – humanas, demasiado humanas – podem e devem ser criticadas através do critério de qualquer pensador lúcido: a adaptação do mito, da imagem-de-mundo, àquilo que podemos saber, conhecer, averiguar e concluir sobre a realidade objetiva. Por exemplo: um cristão de boa educação, aberto à busca pela sabedoria, fará muito bem a si mesmo questionando sua imagem mítica de Deus como “um pai cósmico, do sexo masculino, com uma barba branca, sentando em um trono de ouro por cima das estrelas.”

A crítica de Watts incide sobre a visão do mundo como artefato, em que Deus é descrito como artesão. Nas palavras de Watts, este mito propõe the world as artifact (o mundo como artefato) God as potter with obedient clay (Deus como artesão que manipula argila obediente). O mito de Adão e Eva propõe Deus como essa figura que fez os primeiros humanos como se manipulasse massinha. Deus como cosmocrata, como figura sobrenatural e transcendente, que nos faz como se estivesse construindo bonecos para uma animação stop-motion feitas com personagens de massinha… Que esta seja a imagem mítica que melhor descreva a emergência do ser humano em certo momento da existência cósmica é algo bastante discutível e contestável.

Watts quer ampliar o nosso cardápio de opções. Quer nos ensinar sobre o que pensaram outros povos, com religiões diferentes destas às quais estamos mais acostumados no continente americano. Quer nos levar para além do confinamento no âmbito da tradição judaico-cristã-islâmica, para além do nosso monoteísmo monotóno, esclerosado de ortodoxia. A tradição cristã, para Watts, é puro gambling, ou seja, uma espécie de jogo-da-sorte no campo da fé. Pascal havia visto isto muito bem ao argumentar em prol da fé como uma aposta. O crente cristão aposta que Deus existe pois, caso não exista, pelo menos ele viveu a vida consolado por uma reconfortante ilusão; e caso Deus exista de fato, então ele viveu uma vida na fé que agora será recompensada com inúmeros deleites no Paraíso dos prazeres imorredouros… É uma aposta auto-interesseira, é como um jogo de capitalismo selvagem mas sem moedas, onde o dinheiro que lança-se na mesa do cassino é a própria alma…

Acreditar em Céu e Inferno é visto, desde Epicuro, como uma das piores infelicidades que pode acometer uma mente humana. Uma espécie de vírus mental que só sabe fazer propagar a ilusão perniciosa, o tormento interior, a incapacidade para a ataraxia, a serenidade. Acreditar no Céu também pode ser uma crença atroz: São Tomás de Aquino dizia que os santos no Céu iriam se deleitar ao assistir os malfeitores sendo punidos no Inferno. O cristianismo é uma aposta num Deus vingativo, com requintes de crueldade, que tem no Inferno um campo de concentração cheio de danados que ficam sendo torturados. Ter a presunção de ser o eleito por um Deus assim é um perigoso sintoma de psicopatia!

Watts considera que a filosofia atual perdeu seu sendo de maravilhamento, de espanto. Os ingredientes que falta reinjetar no pensamento, na nossa compreensão de mundo, são o que ele chama de wonder, awe, astonishment. Neste sentido, técnicas como o ioga e a meditação aparecem-lhe não como dogmas ou mandamentos de um cosmocrata mandão, a bossy cosmocrat, mas sim como “técnicas experimentais para a mudança de consciência” cujo alvo é “ajudar seres humanos a se libertarem da alucinação de que cada um de nós é um ego contido dentro de nossa própria pele” (minha tradução apenas razoável para o trecho: “helping human beings to get rid of the hallucination that each one of us is a skin-encapsulated ego.” (p. 75)

A superação da alucinação egocêntrica talvez seja o grande intento da pedagogia de Watts. Lembro das semanas em que eu passava ouvindo, horas e horas por dia, às preleções de Alan Watts, realizadas em seu barco, para alguns seletos ouvintes, reunidas no audiobook Out of Your Mind. Foram palavras que ajudavam a atravessar o outono e o inverno de Toronto com o calor daquelas palavras de sabedoria que me garantiam: meu organismo não está separado do ambiente – pergunte ao frio nos teus ossos em meio a estas snowstorms canadenses! – mas sim é uma parte integrante do mesmo. Organismos e ambientes integram o mesmo processo, e neste há a unidade dos opostos: nunca um vendedor sem um comprador, nunca luz sem sombra, nunca vida sem morte, nem morte sem vida. Nunca yin sem yang. Nunca nirvana sem samsara. 

Para Watts, num jardim zen você torna-se novamente ciente de ser parte da natureza; e o mestre zen quer te ensinar o respeito à senciência, que se manifesta às vezes nas formas exteriores mais humildes, na aparição de uma espécie de mendigo esfarrapado que pode ter, por dentro, queimando a chama de uma sophia que olhos preconceituosos não enxergam. What seems a tramp or a wandering idiot can be in fact a sage, an awakened one… 

Do Taoísmo Watts acolhe a noção da vida como processo fluido, como fluxo em processo de escoamento eterno. “Man, and the mind of man, is not a separate entitu observing the process from outside, but it is involved with all of it.” É o Oriente unindo mãos, para uma ciranda, com o Ocidente em uma de suas manifestações culturais mais impressionantes: a Grécia dos pré-socráticos, em especial em Heráclito, inventor da dialética, propositor do panta rei, do tudo flui, do nunca se entra duas vezes no mesmo rio.

Estamos envolvidos em um processo de mutação cósmica para o qual não conhecemos nenhuma possibilidade de apertar, no controle remoto do Universo, a tecla pause. O cosmos não é algo que a gente possa estudar de longe, feito um quadro na parede que olhamos à distância, pois no rio cósmico estamos embarcados. Estamos por ele sendo arrastados e a um só tempo integramos este fluxo, como gotículas fazem, gerando com seus corpúsculos miúdos os maiores rios, mares e oceanos.

Alan Change

Lendo sobre essas coisas todas, eu buscava os meios para trazer um pouco de harmonia ao caos interior, pacificando aquilo que aprendi a chamar de mente-macaco, a monkey-mind, que fica pulando de ideia em ideia dentro do crânio como um macaco que vai de galho em galho em busca de bananas. Fumava a ganja maravilhosa comprada – sem carteira de usuário medicinal – nos mercados clandestinos de Kensington Market e deixava Alan Watts ser meu guia de viagem. A vivência me capacita minimamente para aconselhar: jamais se acanhem de misturar THC com Alan Watts. Dá jogo demais, dudes. E aí eu rabiscava nos meus cadernos versinhos em inglês um pouco bestas, que jamais se alçavam àquela sábia simplicidade dos koans haikais (aliás tão preciosos à formação de um dos maiores escritores brasileiros, Paulo Leminski). Jogava versos sobre o papel, ambicionando um dia poder musicá-los, querendo seguir o mestre até o limite, que era fazer da Sabedoria por ele comunicada algum tipo de música dançável (confesso que fracassei, mas eis uma estrofe de exemplo):

Pacify the monkey-mind!

Like a clear lake reflects sky!

No wobbling jazz inside!

Just hear the wings of butterflies

As they flow with you through time!

O misticismo, segundo Watts, é a experiência da abolição da separação (“experience of abolishment of separateness”). O misticismo é o que possibilita uma harmonia ou unidade com o ambiente, o que demanda que não estejamos em um frenesi de atividade, mas que possamos aquietar tudo para simplesmente ser (“with no frenzy of activity, simply to be” – p. 37). É a sabedoria dos Beatles: let it be. 

O misticismo é a superação da perspectiva estreita, limitante e falaciosa do ego. O ego é aquela crença alucinatória de uma consciência que sente seu próprio confinamento em um espaço exíguo. A ilusão egóica consiste em pensar que a nossa pele, os limites materiais de nosso corpo, esgotam o escopo de nossa existência. Que somos apenas uma pessoa minúscula sem conexão alguma com o cosmos lá fora. Um pedacinho de carne-e-osso que vai morrer e que existe em pleno estado de solidão e isolamento em relação a todo o resto. O ego é uma crença triste, uma amputação de nosso potencial.

Watts convida a pensar em nossa subjetividade como estando necessariamente conexa ao mundo objetivo, numa teia de interdependência. All insides have outsides and the outside of skin is the whole cosmos. É o tipo de coisa que a gente é capaz de compreender numa boa viagem de LSD, num setting adequado. E que raramente, durante a viagem, conseguimos pôr em palavras tão bem quanto Watts o faz com seu talento linguístico espantoso de poeta beat, frequentemente alçando-se às alturas de um Allen Ginsberg.

reconexão com o cosmos talvez seja o sentido originário do religare que dá na nossa palavra religião. E aí o prosélito do Budismo se manifesta em Watts, que considera o Budismo uma força inter-cultural, trans-cultural, que não é privilégio nacional nem da Índia, nem do Japão, nem da China, nem do Tibet, nem do Camboja, nem de ninguém: o Budismo pertence à humanidade e “todos os seres sencientes devem beneficiar-se dele.”

O Budismo não é uma religião policialesca, punitivista, que assusta os crentes brandindo a imagem de um Deus violento que ameaça-nos com o perigo de que sejamos assados eternamente nos espetos de um Inferno póstumo.

O Budismo está repleto de místicos, mas não de profetas. O Budismo não promete um futuro idealizado para o depois da morte, mas busca apontar o dedo para a Lua, não para que olhemos para o dedo, mas sim para que acordemos para a Lua e nossa conexão com ela.

O Budismo é um caminho de libertação, a way of liberation, e Sidarta Gautama é na história do mundo o “primeiro grande psicoterapeuta”, the world’s first great psychotherapist. O que interessa ao Budismo é propiciar uma radical transformação do estado de consciência.

O Budismo é o LSD antes da Ciência, antes da síntese farmacopéica dos agentes daquela “abertura das portas da percepção” de que nos falam William Blake, Aldous Huxley, Jim Morrison e os The Doors…

A desgraça humana está na nossa incapacidade de nos alçarmos à consciência das inter-relações que constituem a teia do mundo, a teia da vida (no eggs without chickens, no fingers without hands…). O Buda propõe que há uma doença, esta doença tem uma causa, e a cura chama-se nirvana, mas para atingi-la é preciso seguir um caminho. A doença está sediada na vontade, é a sede insaciável, é o craving, a incapacidade de controlar a possessividade e o desejo de permanência. Para Watts, o que nos condena ao samsara é a negação da impermanência, the denial of impermanence. 

Temos que acolher a impermanência de tudo que é, foi e será. Só acolhendo a impermanência poderemos acolher com amorosidade a nós mesmos e aos outros, afinal impermanentes somos todos. Esta também é uma das mais claras sabedorias veiculadas por Gilberto Gil nas suas conversas com Leonardo Boff e Fritjof Capra em Amoráveis Disposições. Trata-se de um caminho de libertação espiritual que passa por um ataque feroz contra as fronteiras, ou melhor, contra as segregações. O ego que se segrega do cosmo, o ego que se segrega do outro, a vida que não deseja a morte, o ser finito e temporal que recusa a finitude e a temporalidade, são os inimigos a derrotar, são os nossos carcereiros que nos mantêm na jaula do samsara. 

E o nirvana, ensina Watts, não é um Céu acessível para os que foram bonzinhos na vida e assim foram promovidos a uma realidade só de delícias. O nirvana é pra aqui e é pra agora, é um modo de consciência em que amplia-se nossa senciência, nosso senso de pertença, nossa certeza da interconexão. A separação se desvanece. Separateness vanishes (p. 10).

O Budismo, ensina Watts, não está nem no pólo do ascetismo auto-mortificante, tão escorraçado por Nietzsche, nem no pólo de um hedonismo da busca simplória por prazeres (o que não deve jamais ser confundido com a doutrina epicurista, muito mais aparentada à sabedoria budista do que se reconhece hoje em dia…). Epicuro e Buda são ambos excelente psicoterapeutas. A corrente budista Mahayana, segundo Watts, que forma-se entre 100 antes de Cristo e 400 depois de Cristo, é uma elaboração filosófica profunda dos ensinamentos originais do Buda e propõe nos acordar de um pesadelo, emancipando-nos de hábitos fixados de pensamento.

O Budismo quer isso: disseminar lucidez, e não alucinações. To awake from a bad dream. To emancipate yourself from fixed habits of thought. Watts cita um certo Lin Chi que teria dito a um discípulo: My duty is to beat ghosts out of you. O Budismo é um ghostbuster, é um mata-fantasmas. Quer que a gente esteja alerta e atento para o que é. E para o que somos no seio disso que é.

Quem nos ajuda nisso são os bodhisattvas, os seres sencientes que conseguiram jornadear pelo caminho de libertação o bastante para sentirem que tem algo a ensinar aos outros, companheiros de jornada. O bodhisattva é aquele que sabe compartilhar sabedoria ao invés de retê-la só para si, buscando um nirvana exclusivo, individual.

O bodhisattva é alguém que está no processo de chegar ao nirvana com os outros, não na vibe do cada-um-por-si. O bodhisattava nega o atman, o ego substancial, imutável. O budismo mahayana, tal como Watts o explana, não separa um ego-experenciador da massa da experiência, não propõe um ego que está separado da experiência. Jamais propõe que o sujeito que experencia o mundo é uma espécie de ego-alma imutável que não se mistura ao processo cósmico total. Watts diz que não há ego substancial e imune a mudança, “nenhum chofer imortal por trás do volante” (“there’s no substantial, unchanging ego, no immortal chauffeur behind the wheel”).

Watts assim é capaz de denunciar um tabu social milenar que reza que a sexualidade é um pecado, a sensualidade é suja e pecaminosa… Não faltaram padrecos, papas, aiatolás e outras autoridades eclesiásticas pregando, por exemplo, sobre os terríveis males que esperam os masturbadores no Inferno… Aos homossexuais promete-se o destino sangrento de Sodoma e Gomorra… Para Alan Watts, um pouco satírico neste dito, “most churches are sexual regulation societies”. Muitas das religiões instituídas pregam a fórmula ascética simplista: a espiritualidade cresce em proporção direta à decadência da sexualidade no sujeito. É espiritual quem nega sua própria libido. Que diferença há no Tantra, admira-se Watts!

Querer livrar-se da sexualidade é outra daquelas alucinações danosas que Watts diagnostica em certas imagens do mundo, em certos mitos. A sexualidade está aqui pra ficar. Ela é pra celebrar e amar, não pra recusar e tentar matar. Nascemos por esta via, repovoamos a terra com novas gerações sob seu eterno encanto, já celebrado lindamente por Lucrécio em seu hino à Vênus ao princípio do clássico epicurista Da Natureza Das Coisas (De Rerum Natura). Sexualidade, diz Watts, é aquilo you can’t get rid of. Life is sexual. Um beatnik-hippie cantando um anarco-blues Ginsbergiano sob os auspícios do Doutor Sigismundo Freud. Não tem como não curtir a viagem do Alan Watts…

Watts sabe que o mundo físico é marcado por uma transiência, uma impermanência, inegável e incontornável. Tanto que os corpos necessariamente decaem de vitalidade e viram esqueletos. Toda beleza é mortal e ambígua, tanto é assim que toda rosa acaba por murchar e não há nenhuma desprovida de espinhos.

Diante disso, diz Watts, é preciso aprender com o Oriente a arte de um certo desapego, detachment. Não se trata de ascetismo, mas de ser alerta, contemplativo, reflexivo. “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”, como canta Gal em “Divino Maravilhoso” (Caetano/Gil).

Watts não pede que nos miremos no exemplo do asceta que machuca sua própria carne em busca de uma purificação espiritual. Watts quer que nos miremos no exemplo do espelho. “Be like a mirror, free from dust and stains, just reflecting what goes on.” (85) O que a mente do sujeito senciente, desperto do samsara de seu ego, acaba por perceber durante seu nirvana, ou seja, durante o colapso da ilusão de separabilidade e durante o fim da sede insaciável que nos impede a serenidade? Descobrimos que a transiência do mundo físico é parte necessária de seu esplendor. “The physical world’s transiency is part of its splendor.” (86)

A impermanência não é pra ser rechaçada, mas sim abraçada. Isso necessita uma pedagogia radical que liberte a mente humana das ortodoxias, das carapaças rígidas, que nos abra os sentidos, que nos deixe, por assim dizer, com a senciência boquiaberta. Os símbolos e os mitos podem tornar-se nossos inimigos, se os confundirmos com o real. Gosto dos ensinamentos de Watts sobre o que não devemos confundir: “Don’t confuse clocks with time. Don’t confuse the menu with food. Don’t confuse money with wealth. Don’t confuse map with territory.”

Principalmente não confunda Deus com um Patrão. O Ocidente, segundo Watts, está doente de sua concepção da divindade como uma espécie de cosmocrata, do sexo masculino, controlador, chefão de tudo. The world has no boss, garante Watts.

O mundo é atividade eterna em um cosmos onde a vida nasce não por ditames e ditados do sobrenatural, mas do próprio seio transbordante de vitalidade da Natureza. É só pensar na rosa que saiu de dentro da roseira: a rosa não é filha de Deus, vocês sabem muito bem, mas sim filha da semente. A semente, as entranhas da Terra, os processos físicos do Universo, é que explicam tanto a rosa e os seus espinhos, quanto nós, humanos – cheios também de nossos espinhos.

Watts dirá que do mesmo modo que uma macieira dá maçãs, o mundo dá gente. A vida emerge do próprio pulsante tumulto imorredouro do cosmos em processo de fluxo onde tudo constitui uma unidade em interdependência. Diante de uma visão de mundo dessas, que abraça e ama a impermanência, é preciso lembrar dos ensinamentos budistas sobre a ética da delicadeza, da flexibilidade, da capacidade de mudança, da adaptação a novos cenários, da renovação perene, da ética do possível aprimoramento constante dos seres impermanentes que imperfeitamente estamos sendo. “The willow tree survives the winter by flexible branches.”

Alan Watts cita então Lao-Tsé e seus ensinamentos: “suppleness and tenderness are the characteristicas of life, and rigidity and hardness… of death”. O nirvana é dos que tiverem a coragem da ternura, dos que forem capazes de amar a impermanência. O samsara é dos rígidos e durões, incansáveis cúmplices da morte em seus esforços vãos de negar a finitude. O nirvana é dos que se sabem conectados, conectíveis, cósmicos. O samsara é dos que se pensam como egos, separados do que chamam de “resto”. O nirvana é dos que sabem que a impermanência não é um argumento contra a vida, mas é parte essencial de seu esplendor.

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Eduardo Carli de Moraes
Texto inspirado nas “Anotações de Toronto” 
Canadá, 2014
Brasil, 2017

Todas as citações do livro Eastern Wisdom, Modern Life
e do audiobook Out of Your Mind

 

SIGA VIAGEM:

“Why is it that we don’t seem to be able to adjust ourselves to the physical environment without destroying it?

Why is it that in a way this culture represents in a unique fashion the law of diminishing returns? That our success is a failure.

That we are building up an enormous technological civilization which seems to promise the fulfillment of every wish almost at the touch of a button. And yet as in so many fairy tales when the wish is finally materialized, they are like fairy gold, they are not really material at all.

In other words, so many of our products, our cars, our homes, our clothing, our food, It looks as if it were really the instant creation of pure thought; that is to say it’s thoroughly insubstantial, lacking in what the connoisseur of wine calls body.

And in so many other ways, the riches that we produce are ephemeral. and as the result of that we are frustrated, we are terribly frustrated. We feel that the only thing is to go on and getting more and more.

And as a result of that the whole landscape begins to look like the nursery of a spoiled child who’s got too many toys and is bored with them and throws them away as fast as he gets them, plays them for a few minutes.

Also we are dedicated to a tremendous war on the basic material dimensions of time and space. We want to obliterate their limitations. We want to get everything done as fast as possible. We want to convert the rhythms and the skills of work into cash, which indeed you can buy something with but you can’t eat it.

And then rush home to get away from work and begin the real business of life, to enjoy ourselves. You know, for the vast majority of American families what seems to be the real point of life, what you rush home to get to is to watch

an electronic reproduction of life. You can’t touch it, it doesn’t smell, and it has no taste.

You might think that people getting home to the real point of life in a robust material culture would go home to a colossal banquet or an orgy of love-making or a riot of music and dancing; But nothing of the kind.

It turns out to be this purely passive contemplation of a twittering screen. You see mile after mile of darkened houses with that little electronic screen flickering in the room. Everybody isolated, watching this thing. And thus in no real communion with each other at all. And this isolation of people into a private world of their own is really the creation of a mindless crowd.

And so we don’t get with each other except for public expressions or getting rid of our hostility like football or prize-fighting.

And even in the spectacles one sees on this television it’s perfectly proper to exhibit people slugging and slaying each other but oh dear no, not people loving each other, except in a rather restrained way.

One can only draw the conclusion that the assumption underlying this is that expressions of physical love are far more dangerous than expressions of physical hatred.

And it seems to me that a culture that has that sort of assumption is basically crazy and devoted – unintentionally indeed but nevertheless in-fact devoted not to survival but to the actual destruction of life.”

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Psychedelics and Religious Experience
by Alan Watts

“The experiences resulting from the use of psychedelic drugs are often described in religious terms. They are therefore of interest to those like myself who, in the tradition of William James, are concerned with the psychology of religion. For more than thirty years I have been studying the causes, the consequences, and the conditions of those peculiar states of consciousness in which the individual discovers himself to be one continuous process with God, with the Universe, with the Ground of Being, or whatever name he may use by cultural conditioning or personal preference for the ultimate and eternal reality. We have no satisfactory and definitive name for experiences of this kind. The terms “religious experience,” “mystical experience,” and “cosmic consciousness” are all too vague and comprehensive to denote that specific mode of consciousness which, to those who have known it, is as real and overwhelming as falling in love. This article describes such states of consciousness induced by psychedelic drugs, although they are virtually indistinguishable from genuine mystical experience. The article then discusses objections to the use of psychedelic drugs that arise mainly from the opposition between mystical values and the traditional religious and secular values of Western society.”

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“O SISTEMA DA NATUREZA” (1770) do Barão D’Holbach (1723-1789) – Leia alguns trechos da magnum opus de um dos mais importantes pensadores materialistas do Iluminismo francês:

“O SISTEMA DA NATUREZA” (1770)
do Barão D’Holbach (1723-1789)
Leia alguns trechos da obra-prima de um dos mais importantes pensadores materialistas do Iluminismo francês:

“Percorrendo o caminho que a natureza traçou para nós, assemelhamo-nos a nadadores forçados a seguir a corrente que os carrega. Acreditamos ser livres porque ora consentimos, ora não consentimos em seguir a maré que sempre nos arrasta. Nós nos acreditamos os senhores do nosso destino porque somos forçados a mexer os braços no temor de ir para o fundo. ‘O destino conduz aqueles que o aceitam e arrasta aqueles que resistem a ele’ (Sêneca).” – 266

“Tudo está em movimento no universo. A essência da natureza é agir e, se nós considerarmos atentamente as suas partes, veremos que não existe nela uma única que desfrute de um repouso absoluto. […] Mesmo os corpos que parecem desfrutar do mais perfeito repouso recebem – seja na sua superfície, seja no seu interior – impulsos contínuos da parte dos corpos que os rodeiam ou daqueles que os penetram, que os dilatam, que os rarefazem, que os condensam, enfim, mesmo daqueles que os compõem. […] Não existe nela nenhuma partícula que desfrute por um instante de um verdadeiro repouso. […] Como, sem movimento, conceber a maneira como o nosso olfato é afetado por emanações escapadas dos corpos mais compactos, dos quais todas as partes nos parecem em repouso? Enfim, nossos olhos veriam, com a ajuda de um telescópio, os astros mais afastados, se não houvesse um movimento progressivo desde esses astros até a nossa retina?” (48-51)

“A matéria sempre existiu, se move em virtude de sua essência e todos os fenômenos da natureza são devidos aos diversos movimentos das matérias variadas nela contidas, fazendo que – semelhante à fênix – ela renasça continuamente das suas cinzas.” (62)

“O homem é uma produção da natureza. […] Mas – dirão – o homem sempre existiu? O homem terá sido sempre aquilo que é, ou então, antes de chegar ao estado no qual o vemos, ele foi obrigado a passar por uma infinidade de desenvolvimentos sucessivos? O homem pode, enfim, gabar-se de ter chegado a um estado fixo, ou então a espécie humana deve ainda se modificar?” (115)

“A matéria é eterna e necessária, mas suas combinações e suas formas são passageiras e contingentes. […] A hipótese mais provável é a de que o homem é uma produção feita no tempo, peculiar ao globo que habitamos. […] As plantas, os animais e os homens podem ser considerados como produções particularmente inerentes e próprias do nosso globo, na posição ou nas circunstâncias nas quais ele se encontra atualmente. Essas produções se modificariam se este globo, por alguma revolução, viesse a mudar de lugar.” (117)

“Que absurdo ou que inconsequência existe, portanto, em imaginar que o homem, o cavalo, o peixe e o pássaro um dia não mais existirão? Esses animais seriam, portanto, uma necessidade indispensável da natureza, e será que, sem eles, ela não poderia continuar sua marcha eterna? Tudo não está mudando em torno de nós? Nós mesmos não nos modificamos? […] Como, pois, pretender adivinhar aquilo que a sucessão infinita de destruições e reproduções, de combinações e dissoluções, de metamorfoses, de modificações e de transposições poderá trazer em seguida? Sóis se extinguem e se solidificam, planetas perecem e se dispersam nas planuras dos ares; outros sóis se acendem, novos planetas se formam para fazer suas revoluções e para percorrer novas rotas e o homem, porção infinitamente pequena de um globo, que não passa ele próprio de um ponto imperceptível na imensidão, crê que é para ele que o universo é feito, imagina que deve ser o confidente da natureza, gaba-se de ser eterno, diz-se o rei do universo! Ó homem! Tu não conceberás jamais que não passas de um efêmero? Tudo muda no universo… e tu tens a pretensão de que a tua espécie não pode desaparecer, que deve ser uma exceção à lei geral, que quer que tudo se altere! […] Tu, que em tua loucura adotas arrogantemente o título de rei da natureza! Tu, para quem tua vaidade imagina que tudo foi feito… ” (120)

“…o homem não tem nenhuma razão para se acreditar um ser privilegiado na natureza. Ele está sujeito às mesmas vicissitudes que todas as suas outras produções. Suas pretensas prerrogativas são baseadas apenas em um erro. […] A ilusão que o predispõe em favor de si próprio…. não tem outro fundamento além do seu próprio interesse e da predileção que tem por si mesmo.” (123-124)

“…todas as faculdades intelectuais, ou seja, todas as maneiras de agir que são atribuídas à alma, se reduzem a modificações, a qualidades, a maneiras de ser, a mudanças produzidas pelo movimento no cérebro, que é visivelmente em nós a sede da sensibilidade e o princípio de todas as ações…” (153)

“…a impossibilidade em que cada um de nós se encontra de trabalhar eficazmente sozinho para se conservar e para se proporcionar o bem-estar nos impõem a feliz necessidade de nos associar, de depender dos nossos semelhantes, de merecer o seu auxílio, de torná-los favoráveis aos nossos desígnios, de atraí-los para nós para afastar, através dos esforços comuns, aquilo que poderia perturbar a ordem em nossa máquina…” (159)

“As hediondas quimeras da superstição nos desagradam porque elas não passam dos produtos de uma imaginação doente, que só despertam em nós ideias mortificantes. A imaginação, quando se desvirtua, produz o fanatismo, os terrores religiosos, o zelo irrefletido, os frenesis, os grandes crimes.” (167)

“…tomamos por ideias inatas aquelas das quais esquecemos a origem. Não nos lembramos mais nem da época precisa nem das circunstâncias sucessivas em que essas ideias foram consignadas na nossa cabeça. […] Nenhum de nós se lembra da primeira vez em que a palavra deus, por exemplo, feriu nossos ouvidos…” (209)

“Os teólogos só têm tanta dificuldade para concordarem uns com os outros porque, nas suas disputas, eles partem incessantemente não de proposições conhecidas e examinadas, mas dos preconceitos dos quais eles se imbuíram… raciocinam continuamente não sobre objetos reais ou cuja existência esteja demonstrada, mas sobre seres imaginários… Se tivessem posto os preconceitos de lado, teriam descoberto que os objetos que fizeram nascer as mais medonhas e as mais sangrentas disputas entre os homens são quimeras, teriam descoberto que lutavam e se degolavam por palavras vazias de sentido … Tudo deveria convencer da tirânica insensatez, da injusta violência e da inútil crueldade desses homens sanguinários que perseguem os seus semelhantes para forçá-los a se dobrarem às suas opiniões. Tudo deveria reconduzir os mortais à doçura, à indulgência e à tolerância – virtudes, sem dúvida, evidentemente mais necessárias à sociedade do que as especulações maravilhosas que a dividem e a levam muitas vezes a degolar os pretensos inimigos de suas opiniões veneradas.” (227)

“…o homem que não espera uma outra vida está mais interessado em prolongar a existência e em se tornar querido pelos seus semelhantes na única vida que conhece. Ele deu um grande passo para a felicidade ao se desvencilhar dos terrores que afligem os outros. Com efeito, a superstição tem prazer em tornar o homem covarde, crédulo, pusilânime. Ela adotou o princípio de afligi-los sem descanso; assumiu o dever de redobrar para ele os horrores da morte. Seus ministros, para disporem dele mais seguramente neste mundo, inventaram as regiões do porvir, reservando-se o direito de lá fazer recompensar os escravos que tiverem sido submissos às suas leis arbitrárias e de fazer serem punidos pela divindade aqueles que tiverem sido rebeldes às suas vontades. Longe de consolar os mortais, a religião em mil regiões esforçou-se para tornar a sua morte mais amarga, para tornar mais pesado o seu jugo, para tornar o seu cortejo acompanhado de uma multidão de fantasmas hediondos…

Ela chegou ao cúmulo de persuadi-los de que a sua vida atual não é mais do que uma passagem para chegar a uma vida mais importante. O dogma insensato de uma vida futura os impede de ocupar-se com a sua verdadeira felicidade, de pensar em aperfeiçoar as suas instituições, suas leis, sua moral e suas ciências. Vãs quimeras absorveram toda a sua atenção. Eles consentem em gemer sob a tirania religiosa e política, em atolar-se no erro, em definhar no infortúnio, na esperança de serem algum dia mais felizes, na firme confiança de que as suas calamidades e a sua estúpida paciência os conduzirão a uma felicidade sem fim. Eles se acreditam submetidos a uma divindade cruel que gostaria de fazer que eles comprassem o bem-estar futuro ao preço de tudo aquilo que eles têm de mais caro aqui embaixo.

É assim que o dogma da vida futura foi um dos erros mais fatais pelos quais o gênero humano foi infectado. Esse dogma mergulha as nações no entorpecimento, na apatia, na indiferença sobre o seu bem-estar, ou então as precipita em um entusiasmo furioso, que as leva muitas vezes a dilacerarem a si próprias para merecer o céu.” (318-19)

Paul Henri Thiry, o Barão de Holbach (1723-1789),
um dos mais importantes pensadores do Iluminismo,
no clássico O Sistema da Natureza (1770).
Editora Martins Fontes. Tradução Regina Schöpke.

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