CONFLUÊNCIAS.RECs – 50 CANÇÕES CANNÁBICAS: Download gratuito da coletânea discotecada durante o “Confluências – Festival de Artes Integradas”, 4ª Edição

50 CANÇÕES CANNÁBICAS
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O Confluências #4 – Festival de Artes Integradas contou com uma discotecagem só com a fina flor das músicas, nacionais e internacionais, devotadas à cannabis sativa ou que exploram lisergias e brisas conexas ao consumo da ganja. As 50 canções foram escolhidas – naturalmente, sob o efeito – tendo em vista seja as canções que mencionam e/ou celebram explicitamente a erva, seja as que são cheias de indiretas ou referências cifradas, seja as que causam na mente do ouvinte um efeito sensorial semelhante ao dum bom beck…

O Confluências #4 rolou na Sexta, 23/6, na Trip, logo após a realização em Goiânia da Marcha da Maconha 2017, organizada pelo Coletivo Antiproibicionista Mente Sativa. No caderno de cultura do jornal Diário da Manhã, saiu nosso release. Agradecemos ao parceiro Heitor Vilela por estar sempre antenado às empreitadas de produção cultural independente da cidade e colocar-nos neste seu Roteiro!  

No Conflu rolaram shows de Chá de Gim, Distoppia, Tião Locomotiva e Veneno, Orquestra de Laptops de Brasília; exposição fotográfica e poética O Caminho do Cerrado, projeto de Mel Melissa Maurer (com a presença da modelo Mohara); além da discotecage-fumacê que aqui compartilhamos. Quem quiser baixar a coletânea na íntegra, em MP3 de qualidade (320kps), estamos disponibilizando o ZIPão de 350 MB para download:


DOWNLOAD – 50 CANÇÕES MACONHEIRAS QUE O POVO PEDE (CANNA)BIS
http://www.mediafire.com/file/8981uy24bvkag4o/50_CANÇÕES_CANNÁBICAS_-_CONFLUÊNCIAS_SATIVA.rar

Aí vai a playlist:

  1. Amy Winehouse – Addicted (2:45)
  2. BNegão & Seletores De Frequência – Nova Visão (5:42)
  3. BNegão & Os Seletores De Frequência – Proceder/Caminhar (3:26)
  4. The Beatles – Got To Get You Into My Life (2:31)
  5. Bezerra da Silva & Marcelo D2 – Erva proibida (2:56)
  6. Bezerra da Silva – A semente (3:08)
  7. Bezerra da Silva – Maladragem dá um tempo (3:50)
  8. Big Bad Voodoo Daddy – Reefer Man (2:54)
  9. Black Sabbath – Sweet Leaf (5:05)
  10. Black Uhuru – Sinsemilla (5:11)
  11. Bob Dylan – Rainy Day Women #12 & 35 (4:36)
  12. Boogarins – Doce (4:57)
  13. Cab Calloway – Reefer Man (3:00)
  14. Criolo – Pé de Breque (4:05)
  15. Curtis Mayfield – Pusherman (5:04)
  16. Marcelo D2 – A Maldição Do Samba (2:31)
  17. Marcelo D2 – Kush (3:16)
  18. Marcelo D2 – Sessão (2:33)
  19. De Menos Crime – Fogo Na Bomba (4:55)
  20. Erasmo Carlos – Maria Joana (3:44)
  21. Gabriel O Pensador – Maresia (5:37)
  22. Gilberto Gil – Eleve-se Alto ao Céu (Lively Up Yourself).wmv (4:24)
  23. Golden Boys – fumacê (2:34)
  24. Method Man & Redman – Redman / How To Roll A Blunt (3:21)
  25. Muddy Waters – Champagne & Reefer (4:38)
  26. Neil Young – Roll Another Number (for the Road) (3:04)
  27. Neil Young LIVE – Roll Another Number (5:21)
  28. Nirvana – Moist Vagina (2013 Mix) (3:33)
  29. O Rappa – A Feira (3:57)
  30. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Os Mutantes and Gal Costa – Panis Et Circensis (3:35)
  31. Paulinho da Viola – Chico Brito (3:12)
  32. Peter Tosh – Legalize It (4:41)
  33. Planet Hemp – Contexto (3:45)
  34. Planet Hemp – Fazendo A Cabeça (3:19)
  35. Planet Hemp – Legalize Já (3:00)
  36. Planet Hemp – Queimando Tudo (2:52)
  37. Primal Scream – Movin’ on Up (3:50)
  38. Queens Of The Stone Age – Feel Good Hit Of The Summer (2:43)
  39. Quique Neira ftt Alborosie – Yo Planto (4:52)
  40. Raimundos – Nega Jurema (1:53)
  41. Raul Seixas – Como Vovó já Dizia (3:25)
  42. Ray Charles – Let’s Go Get Stoned (3:03)
  43. Rick James – Mary Jane (10:39)
  44. Steppenwolf – Don’t Step On The Grass, Sam (5:42)
  45. Sublime – Smoke Two Joints (2:53)
  46. Tagore – Vagabundo Iluminado (3:24)
  47. Tom Zé – Botaram Tanta Fumaça (2:48)
  48. Tukley – Vampiro Doidão (4:00)
  49. Weezer – Hash Pipe (3:06)
  50. Willie Nelson – Roll Me Up and Smoke Me When I Die (4:52)

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A ESSÊNCIA DO BLUES – “Nobody Knows You When You ‘re Down and Out!”

A ESSÊNCIA DO BLUES / EXPLORAÇÕES DE UM TEMA INESGOTÁVEL
Por Eduardo Carli de Moraes

Algo da essência visceral do blues encontra-se encapsulada para a eternidade nesta maravilha da história da arte que é “Nobody Knows You When You ‘re Down and Out” (ouça no player acima). Minha interpretação predileta, de longe, é a da Bessie Smith, esta cantora de voz sublime e que só tem rivais, em capacidade de comunicar afetos intensos, em figuras como Nina Simone, Billie Holiday e Janis Joplin. O “lamento” que este blues expressa tem a ver, é claro, com uma crise existencial, talvez maníaco-depressiva; a “tônica afetiva” é o estar na fossa, “down and out”. Pois todo blueseiro sabe que o melhor local para tocar um blues é o fundo do poço. Desde que o fundo do poço não seja motivo para suicídio, mas sim ensejo para um lamento musicado que torna o sofrimento sublime e alivia-nos como uma nuvem carregada faz com sua tempestade descarregada… eis o blues, quintessencialmente, ao que parece a este bluephílico.

JLHooker

John Lee Hooker

Mudyd

Muddy Waters

Digo isso pois já cansei de ler, em livrinhos didáticos para músicos, uma certa explicação reducionista do sentimento que conhecemos por blues, como se houvessem algumas situações bem específicas que gerariam o feeling blue:  o blueseiro (a) chora a perda de seu amor, que se foi e deixou-o só; ou lamenta alguma crocodilagem de alguém que o prejudicou e depois largou-o no chão sem auxílio, sem dó nem piedade, atolado na fossa. Um autor como Sandy Weltman tenta ensinar o que é o blues escrevendo: “Digamos que você acorda uma bela manhã, sozinho e confuso. Dá conta de que há uma nota escrita que dorme no travesseiro a teu lado. Você decifra as palavras e toma consciência de que sua amada (ou amado) abandonou-te durante a madrugada. Você está devastado…”

Enfim: no exemplo vem embutida a tese de que o blues nasce da devastação emocional. Duvido da definição, pois o que me parece mais essencial no blues é justamente a força que nele se manifesta de sair da fossa, ao invés de nela chafurdar. Falo de seu “valor psicoterapêutico”, da cantoria como redentora do pesar íntimo. Penso no fato de que o blueseiro fica empoderado fortalecido pela expressão que realiza de seu estado emocional conturbado. O blues é lindo justamente como expressão de alguém que não se submete em silêncio à devastação, mas, justamente, canta seu blues, transfigurando a sua dor, fazendo da ferida beleza.

Não basta estar emocionalmente devastado para tornar-se por isso “veículo” do blues: quem está devastado pode muito bem cortar os pulsos, pular da janela do prédio ou ir à farmácia comprar Prozac. Se uma espécie de devastação emocional está na origem do blues, este se julga não só pela raiz mas pelos frutos, e o fruto é uma canção em que o sofrimento é trabalhado de modo a tornar-se um elo, uma ponte, que une o ser humano lamentante a seus semelhantes, todos eles mortais sofrentes; o blues é uma devastação emocional que não se cala mas, pelo contrário, se canta, e neste processo congrega o eu solitário que fez de sua ferida um belo cântico.

O mesmo autor citado acima, Sandy Weltman, logo derrapa na banana ao escrever umas abobrinhas sobre “devastação emocional”. Ele exemplifica as situações que gerariam blues citando um certo “Fulano que teve sua BMW novinha ginchada pelo repo man” ou certo “Sicrano que é acordado pela manhã pelo telefonema do patrão dizendo: ‘você já atrasou-se 4 vezes esta semana, dorminhoco! Está despedido, pegue seu cheque e suma!”

Bem, as “derrapadas” aí estão nos exemplos um pouco triviais de pequenas contrariedades cotidianas. Isso pode até dar um bluesinho, mas nunca um  bluesão! Não é matéria tão trivial, mas muito mais sangrenta e visceral, o que move afetivamente clássicos como “Spoonful” (de Willie Dixon, interpretada por Howlin Wolf ou Cream) e “Hey Joe” (do The Jimi Hendrix Experience).


Aqui estamos lidando com crimes passionais, homicídios impulsivos, a hýbris da afetividade humana em todo o esplendor das irracionalidades destravadas! O Joe que pega uma arma (“hey Joe, where are you goin’ with that gun in your hand?”) e mata a mulher infiel (“I’m gonna shoot my lady cause I caught her messin’ round with another man”), isso não é brinquedo, é sangue correndo. Já aquele eu-lírico que implora por uma colher-cheia (a spoonful) de amor, mas logo torna-se bélico e ameaçador, também não tá de brincadeira: “com meu revólver-45 eu te salvo do teu outro homem!” (“It could be a spoonful of water / To save you from the desert sand / But one spoon of lead from my forty-five / I save you from another man”). Não é moleza o tema do blues e tanto é assim que o tal do Joe, narrativa da folktale entoada pelo rapsodo-blueseiro, pode acabar com a cabeça na forca, mandado pra tumba pelo hangman…

RJ

Robert Johnson

Son_House_01

Son House

Weltman não desce ao fundo do poço para sondar o solo de onde fermenta a vegetação tropical extraordinária do blues. Não há pesar digno de um bom blues na histeriazinha miúda de um burguês diante de seu carro-de-elite que foi-lhe provisoriamente tirado! Não é blues o que sente o coxinha que tira selfies com a PM no dia da “Manifestação Patriótica Pelo Impeachment”. Os sentimentos mesquinhos, as “burguesices do coração”, não tem nada a ver com o blues. “São tudo pequenas coisas e tudo deve passar”, como cantou Renato Russo em um verso de altíssimo teor de blues no cancioneiro da Legião. Ainda que a sonoridade de “Meninos e Meninas” deva mais aos Smiths e ao Echo & The Bunnymen, há o sabor, no lirismo que inicia a canção, de um blues sentido: 


“Quero me encontrar mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui…”

A caretice e a covardia não dão bons blues – é, aliás, o que recebe pedrada de Cazuza em seu afiado “Blues da Piedade”! O blues nasce de um pesar autêntico que o sujeito musica e expressa tendo em mira a diminuição de seu fardo, já que ele dividiu-o conosco.


Blues da Piedade
Cazuza

“Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem.”

O que uma canção como “Nobody Knows You When You’re Down and Out” revela tão bem é a natureza desse pesar que o blues expressa. Eu diria que é um pesar multifacetado, mas que tem por fundo o fato do sofrimento subjetivo ser algo que dificilmente encontra abrigo no outro, por exemplo como consolação e escuta. A alteridade é com frequência o locus do desamparo e não do apoio, da solidão duramente experimentada e não da comunhão beatífica de eus que comungam. A música da Bessie Smith expressa muito bem o sentimento recorrente do “nobody to tell your troubles to” que está tão umbilicalmente conectado com o sentimento do blues. O que pesa, enfim, não é só a dor, mas não ter a quem contá-la, no sentido de: não há com quem compartilhá-la, não há quem divida comigo este fardo.

Bessie Smith chora com sua linda voz pela fossa que é “ninguém te conhecer quando você está down-and-out”. A noção, altamente blues, de que o mundo é assim: “ria, e vão rir contigo; chore, e chorarás sozinho!” Os maníaco-depressivos, os melancólicos, os rotulados como “esquizos”, os desviantes e divergentes de toda estirpe, com frequência precisam recorrer, quando dispõem de meios financeiros para tal, aos psicanalistas, estas “orelhas de aluguel” que estão lá, em larga medida, como escutas para um blues que quer ser expressado, um desconforto íntimo que deseja verbalizar-se, compreender-se, exprimir-se.

Ouçam nas palavras que Bessie tão bem entoa que o ex-milionário, que protagoniza este blues maravilhoso, canta, na pobreza, sobre os tempos idos de bonança. É o drama da riqueza perdida, o pesar pela perda de algo maior do que o capital, o que canta-se em “Down and Out”. Em sua versão primorosa da música, o Eric Clapton também soube, com seu tom de voz um tanto aristocrático, very British and very gentleman, destacar esta temática do ex-rico, ou do rico decaído. O que mais dói, o pesar maior que o blueseiro expressa, não é a queda de classe social, a diminuição da bufunfa na conta bancária, mas algo mais: a falta de amizade, a ausência de solidariedade, a descoberta, enfim, de que todos os amigos eram falsos, amigos-da-onça, que só queriam a companhia do rico-feliz, e agora fogem para longe do empobrecido-miserável, que fica restrito à uma solidão lamentada em canção:

“Once I lived the life of a millionaire,
Spent all my money, I just did not care.
Took all my friends out for a good time,
Bought bootleg whiskey, champagne and wine.

Then I began to fall so low,
Lost all my good friends, I did not have nowhere to go.
I get my hands on a dollar again,
I’m gonna hang on to it till that eagle grins.

‘Cause no, no, nobody knows you
When you’re down and out.
In your pocket, not one penny,
And as for friends, you don’t have any.

When you finally get back up on your feet again,
Everybody wants to be your old long-lost friend.
Said it’s mighty strange, without a doubt,
Nobody knows you when you’re down and out.

When you finally get back upon your feet again,
Everybody wants to be your good old long-lost friend.
Said it’s mighty strange,
Nobody knows you,
Nobody knows you,
Nobody knows you when you’re down and out.”

É um clichê onirepetido que o o blues teve um filho rebelde chamado rock’n’roll. As obras de Rolling Stones, Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Cream, Eric Clapton, Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd, são evidências suficientes: de fato, estavam calcadaços no blues estes mamutes rockers da era-de-ouro. Mas será que deixou de ser assim? A vertente prossegue seu caminho histórico e hoje em dia The White Stripes ou The Black Keys, dois novos gigantes da música global, também estão enraizados no blues até o pescoço. Às vezes até a testa! Esta sobrevivência do blues só pode ser explicada pelo afeto que o anima, pois mais que um estilo musical o blues é uma espécie de experiência de mundo. 


blues, diante do pesar, da perda, do luto, da desgraça, da tragédia, oferece como medicina e bálsamo a própria expressão emocionada do sujeito sobre sua condição. Assim inventou-se uma das formas artísticas mais valiosas e duradouras a ser gerada no solo da América do Norte. E não é de surpreender que o blues esteja historicamente conectado com a Diáspora Negra, ou melhor, com o imperialismo europeu em seus ímpetos escravagistas e dominadores e seus efeitos perversos pelo globo e pela história afora. Sem a escravidão, talvez não tivesse nascido o blues, nem pudesse ele ter ganho tamanha força, tamanha representatividade como uma voz incalável da Cultura.

O humano escravizado, arrancado de seu lar pátrio e sua cultura própria em sua casa africana e conduzido por coerção e violência ao trabalho forçado, este sim tem uma razão ontológica radical de cantar seu blues. Por isso, aprendo bem mais sobre o blues lendo Frederick Douglass do que os manuais de “aprenda a tocar blues para dummies”. São lindíssimas as palavras que Fred Douglass dedica ao tema da expressão musical do sofrimento, subjetivamente vivenciado, do povo “de cor”, sofrido, humilhado, espoliado (mas que sempre encontra a fortitude e a coragem venerável para criar, em face dos opressores, monumentos perenes de sua humanidade como são os melhores blues). Uma boa máquina para demolir mentalidades racistas é uma boa vitrola que toque, sem parar, a obra de Howlin Wolf, Ella Fitzgerald, Son House, Muddy Waters, Little Richard, Chuck Berry, Jimi Hendrix, James Brown, Nina Simone, Ray Charles, Robert Johnson, Lauryn Hill, Sarah Vaughan, dentre inumeráveis outros mestrxs…

Quando leio as palavras de Douglass eu sinto que teria sido maravilhoso se ele tivesse nos legado também uns blues, cantados por voz própria, pois eis um escritor que tem uma profunda voz de blueseiro que o leitor sente emanando de suas páginas. O valor histórico delas está no testemunho que trazem de alguém que vivenciou em carne-e-osso a escravidão (algo que o cinema também conseguiu capturar com maestria em obras como Spartacus, de Stanley Kubrick, 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen, ou o clássico brasileiro Abolição, do Zózimo Bulbul).

Douglass revela a condição daqueles que estão sendo tratados, por seus “donos”, como mercadorias, livestock. O racismo institucionalizado pelo imperialismo europeu era bem isso: tratar um irmão humano como se fosse gado. E gado escravizável, como todo gado (é só visitar as atuais “fábricas da carne”, de nossa gloriosa pecuária industrial globalizada, para perceber o tamanho da escravização que o ser humano é capaz de impor a outros seres vivos…).

É estarrecimento, assombro e discórdia o que Douglass sente por aqueles que “falam sobre o canto dos escravos como evidência de seu contentamento e felicidade”:

WAR AND CONFLICT BOOKERA: CIVIL WAR/BACKGROUND: SLAVERY & ABOLITIONISM

Frederick Douglass, autor de “The Narrative of the Life of an American Slave”, um clássico da literatura norte-americana

“I have often been utterly astonished, since I came to the north, to find persons who could speak of the singing, among the slaves, as evidence of their contentment and happiness. It is impossible to conceive a greater mistake. Slaves sing most when they are most unhappy. The songs of the slaves represent the sorrows of his heart; and he is relieved by them, only as an aching heart is relieved by its tears. At least, such is my experience. I have often sung to drown my sorrow, but seldom to express my happiness. Crying for joy, and singing for joy, were alike uncommon to me while in the jaws of slavery. The singing of a man cast away upon a deserted island might be as appropriately considered as evidence of contentment and happiness, as the singing of a slave; the songs of the one and of the other are prompted by the same emotion.” The Narrative of the Life of an American Slave

Outro autor que muito nos esclarece sobre a essência do blues é o “polaco loco paca”, Paulo Leminski, em seu livro devotado ao poeta Cruz e Souza, “O Negro Branco” (publicado em 1983). Nesta obra – que integra o livro Vida recentemente publicado pela Cia das Letras – Leminski sugere que o poeta Cruz e Souza foi uma espécie de proto-blueseiro: “Fosse um negro norte-americano, Cruz e Sousa tinha inventado o blues. Brasileiro, só lhe restou o verso, o soneto e a literatura para construir a expressão da sua pena.” (pg. 22)

Tanta pena cantou o Cruz, que quase inventou o blues!

O blues como gênero musical tem sua história, mas o que interessa a Leminski é analisar outra história: a de sentimentos, intimamente relacionados, apesar de provenientes de diferentes culturas, o blues, banzo, spleen, sabishisa. Para Leminski, o blues caracteriza um modo-de-sentir afro-americano vinculado às penas da escravidão e da opressão; o banzo, similarmente, denota uma nostalgia intensa que faz com que os negros, roubados de sua pátria, adoeçam de saudade e parem de trabalhar, sem que a tortura do chicote ou do ferro em brasa possam retirá-los da letargia; o spleen está mais conectado ao lirismo de poetas que lamentaram o tédio e a sensaboria de viver (como um Byron, um Baudelaire, um Álvares de Azevedo – ou no cinema de Antonioni, Tarkovsky ou Bergman); finalmente, o termo japonês sabishisa, que Leminski descreve como uma tristeza, um “abatimento emocional diante das coisas e do fluxo dos eventos: a tristeza de quem sabe que as coisas passam, nada dura, tudo é fluxo, metamorfose e impermanência, heraclitiano fundamento do budismo em geral. Sabishisa, para os poetas japoneses de haikai, é uma condição para a produção do haikai.” (pg. 23)

Neste contexto dos quatro sentimentos, historicamente determinados, que expressam o mal-estar na existência, Leminski situa o blues como algo que, antes de tornar-se gênero musical, foi “modo-de-sentir”:

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Paulo Leminski

“O fato é que o blues (sentimento) produziu uma das modalidades musicais mais poderosas do século 20. Basta dizer que todo o rock and roll deriva, diretamente, de blues e suas variantes (rhythm-and-blues etc.), traduzidas para um repertório branco e comercializadas (Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones). Musicalmente, tudo resultou de um cruzamento entre a musicalidade natural do negro e o contato com a parafernália instrumental branca.

O próprio jazz resultou da oportunidade que os negros tiveram de conseguir e usar, à sua maneira, os instrumentos de origem européia. Isso se deu, de modo especial, em New Orleans, nos EUA, ponte de conjunção de várias culturas, france, anglo-saxã, africana.

Isso que se entende como blues, gênero musical, não tem data de nascimento: parece se confundir com a própria expressão do sentimento do primeiro negro trazido para a América como escravo.

Quem saberia ouvi-la nos spirituals, os cantos corais das igrejas batistas, anabatistas e presbiterianas da Nova Inglaterra? Ou nas work-songs, canções de trabalho dos negros submetidos à alvamente irônica monocultura do algodão no sul dos Estado Unidos? Ou nos shouts, dos negros berradores, em cabanas à beira do Mississippi, esperando passar o próximo barco, cassino de rodas a vapor, shouting entre sapos, lagartos e outros seres estranhos do pantanal?

Tem blues nas canções anônimas da anômala fauna de New Orleans, putas, seus gigolôs, drogados, ex-penitenciários, homossexuais, crupiês, marginais, mais que isso, negros marginais, destinos cortados, restos de vida, párias do mundo.

Big Bill Broonzy, Leabdbelly, T-Bone Walker.

As grandes damas: Bessie Smith (atropelada, em pleno delirium tremens de gim, não foi socorrida no hospital a que foi levada porque era negra. E essa suprema Billie Holliday, “Lady Day”, que soube tirar tudo que o som tem de dor.”

Voilà a essência do blues!


p.s. – Na abertura do post, lá em cima, o sublime Mississipi John Hurt. Ouça-o e desfrute-o:

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“Music is the universal language of human emotion.”
THEODOR REIK (1888-1969), “The Haunting Melody – Psychoanalytic Experiences in Life and Music”

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“Saxophoenix”, ilustração de Yves Archambault no poster oficial do FIJM 2014

Entre 26 de Junho e 06 de Julho de 2014, Montréal acolheu a 35ª edição de seu célebre Festival Internacional de Jazz. Todos os anos, no coração da metrópole francófona da América do Norte, o evento atrai um público estimado em mais de 2 milhões de pessoas.

Na aurora do verão canadense, o Jazz Fest ofereceu mais de 300 concertos gratuitos, a céu aberto, que ocorrem em palcos localizados no Quartier Des Spectacles, região da pólis devotada à expressão artística e onde se localizam a Place Des Arts, o Musée D’Art Contemporain e a Maison Du Festival, entre outros notáveis espaços culturais.

Além do amplo leque de eventos gratuitos, dezenas de shows pagos ocorreram em pubs, teatros e salas de concerto pela cidade, com ingressos disputadíssimos, que normalmente se esgotam meses antes da primeira nota musical ser tocada.

Alain Simard, que fundou o festival há 35 anos atrás e hoje atua como seu presidente, considera-o como “o maior evento cultural e turístico do Québec”: “O Festival Internacional de Jazz de Montréal representa a interação social no seu melhor, a essência mesma do icônico senso de festa dos Montrealeses, de seu convívio de espírito aberto com os visitantes vindos de toda parte. As distinções étnicas, linguísticas, políticas, econômicas e geracionais cessam de existir. A música e o calor humano são o denominador comum. O Festival é um pequeno oásis urbano, inclusivo e cool, onde nos encontramos aos milhares para relaxar em um deleitoso ambiente musical, onde reina a vontade de descobrir, compartilhar e se entreter em conjunto.” (Le Festival: Le Plus Social Des Réseaux!)

O Primeiro Ministro do Québec, Philippe Couillard, do Partido Liberal, em sua declaração oficial, não poupou nos arroubos autocelebratórios: “ao longo dos anos, este rendez-vous tornou-se o mais importante festival de jazz em escala mundial. Este sucesso testemunha nossos valores: somos uma sociedade ambiciosa, aberta, apaixonada e festiva – e isto para grande felicidade dos amantes da música nos quatro cantos do planeta.” (Mots des Dignitaires, p. 13) O que pode soar a alguns ouvidos como exagero, proferido por um estadista acostumado a fazer propaganda política, foi referendado em 2004 pelo Livro dos Recordes Guinness, que considerou o Jazz Festival de Montréal o maior do gênero em todo o mundo.

Montréal, a mais populosa cidade da província do Québec, com mais de 1 milhão e 600 mil habitantes, vivencia durante o Jazz Fest uma efervescência humana extraordinária, impulsionada pela quantidade impressionante de visitantes temporários que comparecem ao evento – incluindo os músicos, engenheiros de som, roadies, jornalistas, fotógrafos, documentaristas, dançarinos, artistas das mais variadas estirpes etc. Além, é claro, da multidão que constitui uma platéia pluri-étnica e multi-linguística, evidenciando o intenso cosmopolitismo que é uma das marcas maiores de Montréal.

Para que seja realizado a contento, este mega-evento precisa que trabalhem em sincronia os Ministérios do Turismo, dos Transportes, da Cultura & Comunicações, dentre outros. Além disso, parcerias com empresas privadas viabilizam financeiramente o festival, com destaque para Rio Tinto Alcan, Bell, TD e Heineken.

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fijm_logo_2011_coul_custom-9e3d41135815c9fa4f82f07610583c7661399813-s6-c30Todos os anos, grandes figuras da música mundial visitam Montréal: a história registra, desde a 1ª edição em 1980, apresentações de “mitos” como Ray Charles, Miles Davis, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Astor Piazolla, Dizzy Gillespie, Tom Jobim, James Brown, Dave Brubeck, Tony Bennett, Cab Callaway, Van Morrison, Bob Dylan, Stevie Wonder, entre muitos outros. Em 2014, não foi diferente: dentre as atrações maiores do festival, estavam o bluesman B. B. King, a diva do soul Aretha Franklin, a pianista e cantora Diana Krall, além de artistas mais vinculados ao mundo do rock, mas muito respeitados também no universo do jazz – caso de Elvis Costello, Beck Hansen e Ben Harper. Esta 35ª edição prestou sua homenagem ao guitarrista de flamenco, recentemente falecido, Paco de Lucía (1947-2014), a quem o festival foi dedicado.

Em termos econômicos, o Jazz Fest de Montréal caracteriza-se como organização sem fins lucrativos, como explica a revista oficial do evento ao declarar: “as atividades são realizadas sem intenção de ganhos pecuniários e todos os lucros são reinjetados nas operações do festival e seus atividades gratuitas”. A edição mais recente foi realizada com um orçamento de 25,2 milhões de dólares canadenses e criou 1.500 empregos.

Um estudo publicado em 2011 nos fornece uma ideia dos impactos econômicos mais amplos sobre os setores de hospedagem, alimentação e transporte, que vivem nesta época um de seus maiores booms anuais: estima-se que os gastos de turistas e equipes de produção, cuja presença em Montréal é inteiramente ou em parte justificada pela ocorrêcia do festival, atingem 96 milhões de dólares canadenses. Já quanto às proveniências dos visitantes, as estatísticas apontam que 30% vêm dos EUA, 25% da própria província do Québec, 18% de outras regiões do Canadá, 18% da Europa e 9% dos demais países.

"Drifter's Escape", uma obra de Jimi Hendrix. Saiba mais.

“Drifter’s Escape”, uma obra de Jimi Hendrix. Saiba mais.

Apesar de ser um festival dedicado sobretudo à música, o FIJM também abre espaço para outras formas de expressão artística, incluindo espetáculos de dança-de-rua (veja vídeo exclusivo no fim deste post). O público teve acesso também a uma galeria de artes plásticas, de entrada gratuita, onde estavam em exposição pinturas raras realizadas por Jimi Hendrix e Miles Davis, além de inúmeras obras de artistas do Québec, com destaque para dúzias de trabalhos de Yves Archambault, que nos últimos 20 anos foi o responsável pela arte dos belos posters do festival. Abaixo, confiram alguns dos mais impressionantes desenhos de Archambault nos últimos anos:

2003
2008
2009
2011
2012
2013

O Festival Internacional de Jazz de Montréal também tem como um de seus nortes a missão educativa de permitir às crianças e jovens a descoberta do universo da música. Muitas famílias com seus pequenos rebentos, às vezes em carrinhos-de-bebê, no colo das mães ou nos ombros dos pais, circulam pelos acolhedores espaços do FIJM, que tem como uma de suas metas contribuir com as faíscas que acendem, desde cedo, as paixões musicais. Uma das principais iniciativas, neste sentido, é o Parque Musical Para Crianças (Parc Musical Pour Les Enfants), que procura fornecer um entretenimento ao público infantil que plante a semente do amor pela arte em tenra idade. Em uma das atrações do Parque, a criançada podia pular, dançar e rolar sobre as teclas de um piano gigante. Logo ao lado, um escorregador em formato de saxofone, onde deslizavam os pequenuchos em direção a uma piscina de bolinhas, onde caíam após serem expelidos, como notas musicais humanas, da boca do sax gigante.

Outro conceito muito interessante que norteia a organização do festival é o de CARBONEUTRALIDADE, ou seja, a intenção de realizar um evento que não tenha efeitos deletérios sobre o meio ambiente com o aumento das emissões de dióxido de carbono. Tanto o Festival de Jazz de Montréal quanto o Festival d’Été de Québec – que ocorrem ambos entre o fim de junho e o início de Julho – tem o comprometimento de serem “carboneutros”. Toda a poluição e sujeira – resultante do aumento do ritmo dos transportes, da ascensão do consumo de eletricidade, da maior produção de lixo etc. – é compensada pelos “projetos verdes” que ambos os festivais apoiam.

Além de oferecer ao público uma ampla gama de eventos culturais gratuitos, o que constitui uma excelente amostra de que é possível realizar, em termos de políticas públicas de cultura, a união entre qualidade artística e vasto acesso popular, os festivais de música do Québec mostram uma louvável preocupação ecológica, investindo o que for necessário em programas de reciclagem e plantio de árvores, por exemplo.

JAzz

Este escriba não teria condições de julgar o festival por inteiro, já que chegou à Montréal 5 dias após o início da festa, tendo perdido dúzias de shows que animaram os primeiros dias; além disso, limitou-se aos espaços abertos e gratuitos, onde a multitude se aglomera. Mas este “fragmento” do FIJM que pude experimentar deixou uma excelente impressão, memórias que carregarei vida afora, além de uma vontade sincera de aplaudir Montréal com salvas de palmas e ruidosos “BRAVO!”s.

Apesar do foco ser o “jazz” – um vocábulo tão lúdico como costumam ser aqueles que nomeiam gêneros musicais: “rock and roll”, “samba”, “rhythm & blues”… – não se trata de modo algum de ser ortodoxo na seleção de artistas que se adequem aos cânones do que “jazz” significa. Montréal, oxalá, quer mais é deixar a diversidade reinar. Nenhum purismo delimita feudos, segrega estilos, condena tendências: é como se Montréal abrisse seus convidativos braços para acolher a Música em toda a variedade das suas manifestações. Sem apartheids, estimula-se a expressão musical em um amplo espectro etno cultural: marcaram presença os ritmos africanos picantes do Mokoomba, do Zimbabwe; a big band  australiana de ska Melbourne Ska Orchestra; o  grupo cubano de salsa, mambo e rumba Conjunto Chappottin y Sus Estrellas; o hip-hop futurista e orquestrado do Deltron 3030;o heavy-blues de alta-voltagem, e bem Janis Jopliniano, de Layla Zoe; dentre muitos outros exemplos.

O psicanalista Theodor Reik, citado na epígrafe, escreveu que “a música é a língua universal da emoção humana”. Esta ideia de que a música é o único idioma universal, transcendendo o verbal, expressando a Vontade e seus afetos, nunca fez tanto sentido quanto agora.  Em Montréal, por esta semana em que flanei pelas ruas, como um peixe nadando em um oceano de gente. Era impressionante estar diante de tão extraordinária diversidade de pessoas, de credos, de cores, de raízes, de backgrounds, de filiações, de idiomas, de vestimentas, de tatuagens, de idiossincrasias, de peculiaridades. Um caldeirão da multiplicidade como eu jamais antes havia experimentado. Nadei nesse mar de gente em infinitas variações como se o Quartier Des Espectacles fosse um holograma do mundo. E era.

2006

Montréal parecia acolher tal maré humana como quem recebe qualquer desconhecido como um amigo em potencial e que merece ser saudado com “namastê”. A metrópolis parecia orgulhosa, contente de si, por ter em suas ruas uma tal efervescência de convívio humano, celebrando e curtindo, em paz, música de tudo quanto é canto do globo. Sem xenofobia nem puritanismo, Montréal armou o cenário para que a música servisse como um cimento invisível que congrega e reúne, para além das diferenças, mostrando in práxis que um outro mundo é não somente possível. Já há certas Zonas Autônomas Temporárias, para emprestar o termo de Hakim Bey, onde o alter-mundo da convivência no seio da multiplicidade, da celebração da existência em meio ao reconhecimento pleno da diferença, já está vivo e pulsante.

Foi um dos melhores remédios que já tomei contra uma certa síndrome de misantropia que às vezes me acomete. Neste grandioso evento, ficou-me provado que é sim possível uma civilização que respeite plenamente a arte, que incentive devidamente seu florescimento e que forneça amplo alimento cotidiano àqueles que tem fome de beleza (e nós somos legião…). Neste belo verão québécois, a música jogava na posição de cimento social, de terreno comum, de realidade compartilhada, quiçá até de crença conjunta. Mas digo “crença” não no sentido religioso – crença, que pode ser plenamente laica, na música como bem, como valor, como força prática de congregação, como potência social de celebração coletiva.

Esta valorização cívica, popular, governamental e mesmo empresarial da música mostra-se claramente durante o Festival Internacional de Jazz de Montréal. Ano a ano, ele serve como oportunidade para uma redescoberta renovada do cosmopolitismo em ação, da diversidade cultural em convivência, de gente das mais diversas proveniências e raízes, juntas no mesmo espaço, vivenciando e celebrando. Para além das diferenças, dos contrastes, das discriminações, dos apartheids, descobrindo por experiência que é sim possível encontrar chão comum onde erigir a obra – tantas vezes na história arruinada e traída, ainda vastamente por construir – do que Lennon imaginou como “The Brotherhood of Man”.

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Documentário “Music Without Borders” / “Música Sem Fronteiras” (36 min)

Um filme de Eduardo Carli de Moraes