O Queens of the Stone Age​ acaba de lançar seu oitavo álbum de estúdio: “Villains” (2017, 48 min). Ouça já!

Difícil contestar que o Josh Homme seja uma das grandes figuras em atividade no rock’n’roll global. Um maluco fantasticamente prolífico e criativo. Um maverick das 6 cordas que pilota uma guitarra com uma maestria raríssima de se encontrar e sem cair na maioria dos equívocos dos virtuoses exibicionistas. Também vem se mostrando como um cantor e compositor versátil, com sua marca pessoal inimitável. Ele e sua trupe lançam agora o 8º álbum de estúdio do Queens of the Stone Age, “Villains” (2017).

Eis um cara que trampa incansável e sua a camisa por sua arte. Que se envolve em vários projetos: desde tenra idade fez história na gênese do Stoner Rock através dos 4 primeiros álbuns do Kyuss e soltou inúmeras viagens turbulentas e ruidosas pelo Desert Sessions. Já consagrado com o Q.O.T.S.A., formou o mega power-trio Them Crooked Vultures juntando Dave Grohl (Foo Fighters & Nirvana) e o baixista do Led Zeppelin, que lançou um álbum de estréia que está entre as melhores coisas realizadas no reino do rock pauleira neste século. Pra não falar na recente colaboração com o monstro sagrado do punk Iggy Pop em seu mais recente disco sem os Stooges.

Só o que não entendo é isso: porque Josh e sua esposa, a vulcânica Brody Dalle, uma das vozes femininas mais poderosas e comoventes que já lideraram uma banda de punk rock flamejante – o genial The Distillers – não criaram ainda um projeto em parceria. A voz de Brody Dalle sobre as guitarras de Josh Homme são aquele tipo de união que só de imaginá-la a gente fica pogando de entusiasmo.

Taí o oitavo álbum de estúdio do Queens, “Villains” (2017, 48 min); ouça já na íntegra:

01) Feet Don’t Fail Me

02) The Way You Used to Do

03) Domesticated Animals

04) Fortress

05) Head Like a Haunted House

06) Un-Reborn Again

07) Hideaway

08) The Evil Has Landed

09) Villains of Circumstance

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Confira o review de Stephen Thomas Erlewine em AllMusic​:

It takes nearly a minute for Villains to begin its slow ascent from the murk and even longer before the clenched funk of “Feet Don’t Fail Me Now” clicks in, a deliberateness that suggests Josh Homme has supreme confidence in the seventh album from Queens of the Stone Age. Perhaps some of this swagger flows in Homme’s blood, perhaps it stems from QOTSA finally reaching Billboard’s pole position with 2013’s …Like Clockwork, but there’s an undeniable assurance to Villains that surely has something to do with the band — or specifically Homme, who is the only constant in QOTSA’s career — knowing precisely who they are as they close out their second decade. To that end, the hiring of Mark Ronson — the man whose star rose with Amy Winehouse and who’s sustained his fame through Bruno Mars — as producer feels like the move of a group who knows no outside influence will dilute their music, and Villains proves this to be true. QOTSA doesn’t come to Ronson, Ronson comes QOTSA, sharpening their attack and adding spooky grace notes to the margins. On these asides, QOTSA conjures the dark magic that’s been their calling card since the start, but where …Like Clockwork gained strength from its foreboding, Villains feels designed to lift spirits. For one, it’s filled with ravers and boogies, alternating between taut vamps and louche glam grooves. Homme goes so far as to tip his stove pipe hat to Marc Bolan on “Un-Reborn Again,” one of a few classic rock nods scattered throughout the album. As classic as Villains can sound — and there’s no doubting that Homme and company pledge allegiance to the sounds and styles patented in the ’70s — it feels fresh due to execution. At this stage, Queens of the Stone Age don’t have many new tricks in their bag, but their consummate skill — accentuated by the fact that this is the first QOTSA album that features just the band alone, not even augmented by Mark Lanegan — means they know when to ratchet up the tempo, when to slide into a mechanical grind, and when to sharpen hooks so they puncture cleanly. All that makes Villains a dark joy, a record that offers visceral pleasure in its winking menace.

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Ouça também os outros projetos do líder Josh Homme​: Kyuss​, Them Crooked Vultures​, Desert Sessions

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PREDILETOS DE 2014: DISCOS, FILMES, LIVROS & SHOWS [A CASA DE VIDRO.COM]

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Aí vai, meu povo, uma “retrospectiva cult” do ano que acaba de terminar, em forma de listão de prediletos-da-casa; aí estão reunidas algumas das novidades culturais que mais marcaram meu 2014: são álbuns nacionais e internacionais, filmes de ficção e documentários, além de livros publicados recentemente, que eu prezo pra valer e estimo como alguns dos melhores lançamentos destes últimos tempos… Voilà!

DISCOS

[NACIONAIS]

* JUÇARA MARÇAL, “Encarnado”

* CRIOLO, “Convoque Seu Buda”

* CARNE DOCE, “Carne Doce”

* DIEGO MASCATE, “A.C.”

* CEUMAR, “Silencia”

* FAR FROM ALASKA, “Mode Human”

* TAGORE, “Movido a Vapor”

*ESTRELINSKI E OS PAULERA, “Leminskanções”

* NÔMADE ORQUESTRA, “Idem”

* RUSSO PASSAPUSSO, “Paraíso da Miragem”

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[INTERNACIONAIS]

* TEMPLES, “Sun Structures”

* THE WAR ON DRUGS, “Lost in the Dream”

* ROGER DALTREY & WILKO JOHNSON, “Going Back Home”

* SHARON VAN ETTEN, “Are We There?”

* DEATH FROM ABOVE 1979, “The Physical World”

* ST. VINCENT, “St. Vincent”

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SHOWS

* Queens of the Stone Age, Festival d’été de Québec
* Layla Zoe, Festival International de Jazz de Montréal
* Deltron 3030, Fest. de Jazz de Montréal
* Carne Doce, Festival Juriti de Música e Poesia Encenada
* Jello Biafra and the Guantanamo School of Medicine, Toronto’s Opera House
* Soundgarden, Festival d’été de Québec
* The Kills, Festival d’été de Québec


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FILMES

[FICÇÃO]

Snowpiercer-Poster

– SNOWPIERCER: EXPRESSO DO AMANHÃ, de Joon-ho Bong
– NINFOMANÍACA, de Lars Von Trier
– O LOBO ATRÁS DA PORTA, de F. Coimbra
– WE ARE THE BEST, de Lukas Moodyson
– BOYHOOD, de Richard Linklater
– RIOCORRENTE, de Paulo Sacramento
– MAPS TO THE STARS, de David Cronenberg
– LUCY, de Luc Besson
– NIGHTCRAWLER, de Dan Gilroy

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[DOCUMENTÁRIOS]

– THE MISSING PICTURE, de Rithy Pahn
– JE SUIS FEMEN, de Alain Margot
– WATCHERS OF THE SKY, de Edet Belzberg
– FAITH CONNECTIONS, de Pan Nalin
– FINDING FELA KUTI, de Alex Gibney
– THE INTERNET’S OWN BOY: STORY OF AARON SCHWARTZ, by B. Knappenberger
– BJÖRK: BIOPHILIA LIVE
– PARTICLE FEVER, de Mark A. Levinson
TEENAGE, de Matt Wolf

[LIVROS]

thischangeseverything

– NAOMI KLEIN, This Changes Everything
– 
ARUNDHATI ROY, Capitalism: A Ghost Story
– 
EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO E DÉBORAH DANOWSKI, Há Mundo Por Vir?
– PETER LINEBAUGH, Stop, Thief! – The Commons, Enclosures and Resistance
– 
RAJ PATEL, The Value of Nothing
– 
RODRIGO SAVAZONI, Os Novos Bárbaros – A Aventura Política do Fora do Eixo

[MELHOR ESCRITOR DESCOBERTO E LIDO PELA PRIMEIRA VEZ EM 2014…]

Arundhati RoyARUNDHATI ROY

 

Das terríveis consequências da fé nas bruxas – Nietzsche, Michelet & Carl Sagan

bruxas“É certo que não havia bruxas,
mas as terríveis consequências da fé nas bruxas
foram as mesmas que se verificariam se tivesse havido bruxas…”

FRIEDRICH NIETZSCHE (1844-1900)
Humano, Demasiado Humano – Vol. II

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Leia também:

Artigo sobre “A Feiticeira”,
obra clássica do historiador francês Jules Michelet

“Uma multidão cega, cruel na medida de seu medo, podia, uma manhã, ataca-la a pedradas ou submetê-la à prova da água, o afogamento. Ou enfim, coisa mais terrível, podia arrastá-la, uma corda amarrada no pescoço, até o pátio da igreja, que disso teria feito uma festa piedosa, lançando-a à fogueira para a edificação do povo…” (Michelet)

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Trecho de “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, 
de Carl Sagan

“Em sua famosa bula de 1484, o papa Inocêncio VIII dava início à acusação, tortura e execução sistemáticas de inumeráveis “bruxas” em toda a Europa. Elas eram culpadas do que Agostinho descrevera como “o ato criminoso de bulir com o mundo invisível”. As meninas e as mulheres foram as principais perseguidas. Muitos protestantes influentes dos séculos seguintes, apesar de suas diferenças com a Igreja Católica, adotaram visões quase idênticas. Até humanistas como Erasmo de Roterdã e Thomas More acreditavam em bruxas. “Não acreditar em bruxarias”, disse John Wesley, o fundador do metodismo, “é na verdade não acreditar na Bíblia…”

A Bíblia tinha aconselhado: “Não deves tolerar que uma bruxa viva.” Legiões de mulheres foram queimadas até a morte. […] A crônica dos que foram consumidos pelo fogo, somente na cidade alemã de Würtzburg, apenas no ano de 1598, apresenta estatísticas que permitem que nos confrontemos com um pouco da realidade humana: houve 28 imolações públicas, cada uma com quatro a seis vítimas em média, nessa pequena cidade em um único ano. Isso era um microcosmo do que estava acontecendo por toda a Europa. […] A Santa Inquisição adotava esse modo de execução [a fogueira] aparentemente para garantir uma concordância literal com uma bem-intencionada sentença da lei canônica (Concílio de Tours, 1163): “A Igreja abomina o derramamento de sangue…” (Sagan)

A Caça às Bruxas (por Carl Sagan & Nietzsche)


BURN THE WITCH!

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“É certo que não havia bruxas, mas as terríveis consequências da fé nas bruxas foram as mesmas que se verificariam se tivesse havido bruxas. […] É verdade que até agora a fé não conseguiu mover nenhuma montanha real… Mas ela consegue pôr montanhas onde não há.”

F. NIETZSCHE, Humano Demasiado Humano – Um Livro Para Espíritos Livres (2º volume. Editora Companhia das Letras. Aforismo #225)

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Santo Agostinho acreditava que as bruxas eram o produto das uniões proibidas entre os demônios, que descem do céu e têm relações sexuais ilícitas com as mulheres. Na Idade Média, quase todo mundo acreditava nessas histórias. Os sedutores demoníacos das mulheres eram denominados íncubos; os dos homens, súcubos.  Há casos em que as freiras falavam, com algum atordoamento, de uma semelhança extraordinária entre o íncubo e o padre confessor ou o bispo… e despertavam na manhã seguinte, segundo um cronista do século XV, “descobrindo-se sujas como se tivessem estado com um homem”. Há relatos semelhantes na China antiga, só que em hárens, e não em conventos…

Em sua famosa bula de 1484, o papa Inocêncio VIII dava início à acusação, tortura e execução sistemáticas de inumeráveis “bruxas” em toda a Europa. Elas eram culpadas do que Agostinho descrevera como “o ato criminoso de bulir com o mundo invisível”. As meninas e as mulheres foram as principais perseguidas. Muitos protestantes influentes dos séculos seguintes, apesar de suas diferenças com a Igreja Católica, adotaram visões quase idênticas. Até humanistas como Erasmo de Roterdã e Thomas More acreditavam em bruxas. “Não acreditar em bruxarias”, disse John Wesley, o fundador do metodismo, “é na verdade não acreditar na Bíblia”.


Inocêncio elogiava “nossos queridos filhos Henry Kramer e James Sprenger”, que “foram nomeados, por Cartas Apostólicas, inquisidores dessas depravações heréticas”. Se “as abominações e enormidades em questão permanecerem impunes”, as almas de multidões enfrentarão a danação eterna. O papa indicou Kramer e Sprenger para escreverem uma análise abrangente. Com citações exaustivas da Escritura e de eruditos antigos e modernos, eles produziram o Malleus maleficarum, o “Martelo das Bruxas” – descrito apropriadamente como um dos livros mais terríveis da história humana.

O que o Malleus significa é que se a pessoa for acusada de bruxaria, ela é uma bruxa. A tortura é um meio infalível de demonstrar a validade da acusação. O réu não tem direitos. Pouca atenção era dada à possibilidade de que as acusações fossem causadas por objetivos ímpios – inveja, vingança ou ganância dos inquisidores, que rotineiramente confiscavam para seu proveito pessoal as propriedades do acusado.

Esse manual técnico para torturadores também inclui métodos de castigo talhados para liberar os demônios do corpo da vítima, antes que o processo a matasse. Com o Malleus na mão e o incentivo do papa garantido, os inquisidores começaram a surgir por toda a Europa.

Os processos logo se tornaram fraudulentos no item despesas. Todos os custos da investigação, julgamento e execução eram pagos pela acusada ou seus parentes – até as diárias dos detetives particulares contratados para espioná-la, o vinho para seus guardas, os banquetes para seus juízes, as despesas de viagem de um mensageiro enviado para buscar um torturador mais experiente em outra cidade, e os feixes de lenha e a corda do carrasco.

Além disso, os membros do tribunal ganhavam uma gratificação para cada feiticeira queimada. O que sobrava das propriedades da bruxa condenada, se ainda houvesse alguma coisa, era dividido entre a Igreja e o Estado. Quando esse assassinato e roubo em massa, legal e moralmente sancionados, se tornaram institucionalizados, quando surgiu uma imensa burocracia para servi-lo, a atenção se desviou das velhas megeras pobres para os membros das classes média e alta de ambos os sexos.

Quanto mais as pessoas, sob tortura, confessavam participar de bruxarias, mais difícil ficava sustentar que toda a história não passava de fantasia. Como cada uma das “bruxas” era forçada a implicar outras, o número crescia exponencialmente. Tudo isso constituía “provas assustadoras de que o Diabo ainda está vivo”, como mais tarde se afirmou na América do Norte por ocasião dos julgamentos das bruxas de Salem.

A Bíblia tinha aconselhado: “Não deves tolerar que uma bruxa viva.” Legiões de mulheres foram queimadas até a morte. […] A crônica dos que foram consumidos pelo fogo, somente na cidade alemã de Würtzburg, apenas no ano de 1598, apresenta estatísticas que permitem que nos confrontemos com um pouco da realidade humana: houve 28 imolações públicas, cada uma com quatro a seis vítimas em média, nessa pequena cidade em um único ano. Isso era um microcosmo do que estava acontecendo por toda a Europa. […] A Santa Inquisição adotava esse modo de execução [a fogueira] aparentemente para garantir uma concordância literal com uma bem-intencionada sentença da lei canônica (Concílio de Tours, 1163): “A Igreja abomina o derramamento de sangue”…

CARL SAGAN
“O Mundo Assombrado Pelos Demônios”
Ed. Companhia das Letras (Cia de Bolso)
Pgs. 141-146

Outras obras recomendadas >>>

MICHELET, Jules. A Feiticeira.
NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo. 
HAWTHORNE, Nathaniel. A Letra Escarlate.
Sombras de Goya, filme de Milos Forman
As Bruxas de Salem, filme de Nicholas Hytner