A CAVERNA – ALEGORIA FECUNDA: Da pena de Platão à era dos memes, as mutações de um mito filosófico

A Alegoria da Caverna, exposta por Sócrates no Livro VII do diálogo “A República” de Platão (leia a transcrição), é uma das mais fecundas invenções filosóficas que já vieram à luz, pela História afora.

Ela continua eficaz em inspirar inúmeros comentários, interpretações, releituras, adaptações e debates: marca presença em filmes (como “Matrix”, dos Wachowski, ou “Truman Show”, de Peter Weir) e romances (como “A Caverna” de Saramago), tirinhas da cultura pop e palestras acadêmicas, memes viralizantes e artigos no Medium (com o perdão da auto-referência explícita)…

O legado “cavernístico”, sua fortuna crítica, suas diferentes versões, é um espanto de tão gigante, vasto e multiforme. Até mesmo as polarizações políticas brasileiras acabam raptando o célebre mito, subvertido e reconfigurado memeticamente em imagens que têm sua graça e seu charme:

 

 ALEGORIA DA CAVERNA adentrando a ERA DOS MEMES

Neste grupo dos “rebentos” mais recentes do mito, podemos também mencionar os quadrinhos de Maurício de Sousa — que aborda o tema em uma das historinhas protagonizadas pelo Pithecanthropus Erectus da Silva, ou melhor, o Piteco.

O personagem pré-histórico da Turma da Mônica é o responsável, neste caso, por uma intervenção pedagógica na caverna: adentra o recinto, alertando aqueles que estavam fascinados pelas sombras dançantes no muro de que lá fora é que, de fato, estava pulsando a verdadeira vida, sob a fulgurância dos raios de Sol.

Quando o pessoal vibra diante da sombra de uma mulher, Piteco lhes garante: “vocês deviam admirar é a dona desta sombra!” Um pedagogo platônico, ainda que um tanto fanfarrão? Ou um professor de empirismo, que rompe com o platonismo e manda procurar a coisa concreta ao invés de sua mera representação?

Estes quadrinhos ignoram a primeira parte da alegoria, em que um daqueles que estava acorrentado consegue libertar-se e sai pela primeira vez da obscuridade cavernosa rumo ao mundo iluminado pelo Sol. É como se Maurício de Souza desse o start em sua historieta já no momento onde o personagem que libertou-se decide retornar à Caverna, para contar a boa-nova aos que lá ficaram, abestalhados diante do precursor da alienação televisiva.

Quando, no final da HQ, a TV faz sua aparição, o comentário irônico é bem claro: seguimos preferindo as imagens às coisas, as sombras aos entes concretos, as mentiras televisionadas às verdades da carne. Uma leitura que pode aproximar o Peteco de uma visão “Black Mirror” sobre a atualidade, mas que certamente o afastam um pouco do sentido original transmitido pela parábola socrática.

No caso da lenda narrada por Sócrates, aquilo que fascina com sedução falseadora os acorrentados na Caverna é o mundo empírico — tudo o que cotidianamente vemos com nossos olhos, escutamos com nossos ouvidos, cheiramos com nossos narizes, tocamos com nossa pele, tudo isto não passaria de ilusão, sombra, reflexo.

Originalmente, a parábola quer instaurar uma espécie de condenação da credulidade humana diante dos dados sensíveis, afirma que há uma Verdade que se esconde para além do sensível, uma Verdade só acessível à alma humana capaz de suficiente ascetismo para ascender até ela…

A Verdade, sim, está longe das imagens — como sugerem tanto a HQ do Piteco, quanto a tirinha à la Black Mirror em que o Armandinho, em plena era dos celulares, diz que “vivemos no tempo das cavernas… vivemos na caverna de Platão!” — mas no caso de Sócrates a Verdade não está nas coisas, as “donas” das sombras, os corpos carnais cujos reflexos se projetam na parede, mas sim algo muito mais ideal, impalpável: os ideais eternos, os paradigmas incorruptíveis, eternamente em morada celeste.

O mais temerário de tudo, na teoria platônica, é a suposição de que os paradigmas eternos precedem no tempo as coisas tal como aparecem na empiria. O espiritual precedeu o material — tese platônica que, História afora, será perpetuamente contestada pela escola Materialista (de Demócrito, Epicuro e Lucrécio, na Antiguidade, a Holbach, Diderot e Marx na Modernidade…)

O Sol, similarmente, não é exatamente a estrela que aparece-nos à visão como bola-de-fogo, irradiante de calor e luz, sensível à nossa pele, estarrecedora para nossas retinas, mas muito mais um símbolo: o sol platônico representa a verdade do mundo inteligível, aquele que só podemos acessar “pelo pensamento”, domínio acessível somente à alma e não ao corpo.

Longe, pois, de convidar-nos a abraçar tudo que é de carne-e-osso, tudo o que é carnal e pulsante de vida, a alegoria da Caverna convida ao ascetismo, ao racionalismo mortificador do corpo. Ao menos esta seria a interpretação mais coerente com o conjunto da doutrina filosófica hoje conhecida como idealismo, e que teve em Sócrates, em especial em sua expressão através da pena platônica, um de seus mais importantes plasmadores, forjadores, inventores.

O mito cai no mundo e não se pode controlar as interpretações dele: longe de respeitar a ortodoxia platônica, muitos artistas realizaram leituras heterodoxas da alegoria da Caverna — e a historinha do Piteco é uma delas. No cinema, o sci-fi “Matrix” (1999), dos Wachowski, que marcou época em fins de século, pretende lançar o mito para um cenário futurista e apocalíptico, em que após a rebelião das máquinas a Humanidade está sob a opressão de uma escravidão nova, condenados quase todos a uma Neo-Caverna cibernética, uma ilusão colocada diante de nossos olhos para nos cegar da verdade…

“Matrix” recupera muitos elementos da mitologia e da filosofia da Antiguidade, inclusive ingredientes pré-socráticos, e inclusive pré-filosóficos: inspira-se em certas vertentes da espiritualidade grega que estavam presentes desde muito antes da aurora da Filosofia em VI a.C. com os primeiros cosmologistas da Jônia (Tales, Anaximandro etc.). O personagem de Neo (vivido por Keanu Reeves) realiza algo análogo a uma peregrinação rumo ao Oráculo de Delfos em uma cena em que adentra a moradia oracular lendo uma inscrição, em latim, que recomenda: “conhece-te a ti mesmo”.

Neo, logo se vê, é um Sócrates pós-moderno. Quando consulta o oráculo, não está ainda cheio-de-si, arrogante, presunçoso, como depois se tornará — também à imagem e semelhança de Sócrates — quando estiver mais crédulo em seu status de Messias. A Caverna platônica e a Matrix cinematográfica envolvem ambas a noção de um Messias, um Salvador, um Libertador, o Cara Que É O Tal. E é necessário criticar os heróis construídos para nosso fascínio (e nosso consumo) — e isso deve valer tanto pra Neo quanto para o herói da alegoria (na verdade, uma figura através da qual Sócrates realiza um narcísico auto-elogio).

Neo é o “eleito” para salvar a Humanidade da Matrix assim como Sócrates havia sido eleito por Apolo — o próprio oráculo délfico o referenda!- para a missão divina que desenhava em Atenas através da práxis filosófica. O herói, aqui, através de suas peripécias deixa emanar de seu exemplo uma “moral da história” que convida, e nos confina, no individualismo: o indivíduo especial, extra-ordinário, com dons fora do comum, irá salvar-nos a todos, virá resgatar-nos de nossa estupidez, nossa ignorância, nossa violência, nosso caos social. A salvação coletiva é produto de um indíviduo salvador. O que conduz à subserviência aos ídolos que são os grandes líderes, fabrica o perigoso e fecundo em atrocidades “Complexo do Messias”.

O que hoje conhecemos por Platonismo, algo que plasmou-se tendo “A República” como um dos textos mais essenciais, pode ser lido por seus efeitos sócio-políticos, pelo tipo de ethos que recomenda, pelas consequências que traz para as relações humanas inter-subjetivas e políticas. A explícita recomendação de que o governante supremo, soberano, deve ser um filósofo-rei, faz com que se acendam os alertas: Sócrates, no texto platônico, pretende instaurar uma espécie de monarquia aristocrática onde o poder político está concentrado naquele que é “mais sábio”. Ora, cara pálida, mais sábio no juízo, no julgamento de quem?!? Quais são os critérios que nos farão definir quem é o detentor-mor de “sophia”, sendo portanto o mais legítimo dos governantes?

Naturalmente, a resposta é: o filósofo-rei é aquele que tem todas as qualidades de Sócrates. Deve reinar aquele que tem a alma mais forte que o corpo; aquele que sabe reprimir seus ímpetos sexuais e sensuais; aquele que tem o auto-controle, a moderação, a prudência, a razão controladora dos afetos; aquele que é cavaleiro firme, que doma o corcel desordenado da paixão.

Acima de tudo, deve reinar aquele que sabe da hierarquia verdadeira entre a empiria (os dados sensíveis) e o intelecto (a razão descarnada) — o filósofo-rei é, à semelhança da figura que libertou-se da Caverna, aquele que sabe que a empiria é mentira, que só o intelecto tem acesso à verdade, e que a Verdade assim desvelada (os gregos falarão de “alethéia”, desvelamento do oculto) precisa ser ensinada aos enganados. O filósofo-messias, dono da verdade, senhor das paixões, faz-se tirano esclarecido, praticando em seguida a mais totalitária das “ortopedias”: ensina seus súditos que só há uma verdade, a sua, e que serão alçados à força para fora de seu chafurdamento vergonhoso na sensualidade empírica, antro apenas de engano e depravação…

Não está longe a tirania do puritanismo que grassará pela Idade Média afora; e encontraríamos aí, no Sócrates de Platão em “A República”, o protótipo do messias autoritário, cuja condenação à morte é um sintoma do quanto incomodava as autoridades com seus acólitos e discípulos fanatizados, ensinados na escola da intolerância que só os puros se salvarão…

Hannah Arendt afirma que precisou escrever “As Origens do Totalitarismo” pois, na História pregressa, não encontrou, por exemplo nas classificações que a filosofia política greco-romana propôs para os diferentes regimes de governo, nada que se assemelhasse aos sistemas políticos surgidos sob a Alemanha nazista (o III Reich) ou na fase stalinista da URSS. Poderíamos retrucar, provocativamente, que apesar de não ser adjetivada ainda com este termo “totalitário”, “A República” de Platão é aquilo que mais se aproxima, na Antiguidade, de descrever tal regime político…

É interessante o que Arendt diz, em conversa com Octavio Paz, reproduzida no livro “A Duas Vozes” (Org: Eduardo Jardim), em que ela reflete sobre a relação dos filósofos com a política:

“Os filósofos levaram a política muito a sério, e nem poderia ter sido de outra forma, pois foram motivos políticos que justificaram a condenação de Sócrates. Um ensaio de Heidegger — A Doutrina de Platão sobre a verdade  (saiba mais) — apresenta uma proposta de interpretação da conhecida alegoria da caverna… Ela descreve o percurso do personagem que representa a alma, em dois sentidos: do interior da caverna, onde se encontrava aprisionado, em um movimento ascendente, até a contemplação do sol — o bem ou a verdade suprema — e, em seguida, em sentido descendente, do ambiente iluminado do exterior da caverna até o seu interior, para libertar os que ficaram.

Heidegger observa que estão presentes neste relato duas expressões para designar a verdade. A primeira — “alethéia” ou desvelamento — tem a ver com o modo como tradicionalmente a verdade era concebida: associada a um procedimento por meio do qual algo é arrancado da ocultação e é trazido à luz. O termo aparece na descrição do percurso ascendente do personagem, em sua ânsia por contemplar o brilho das idéias, sobretudo da mais perfeita — a do bem, representada pelo sol.

Uma segunda forma de designar a verdade é, em seguida, mencionada, ao se descrever o percurso descendente do personagem de volta ao interior da caverna… Nesse momento, a verdade não motiva mais uma experiência de contemplação estética, como ocorrera anteriormente. Agora, a idéia é tomada como um padrão cujo significado é idêntido ao do modelo percebido pelo artesão ao iniciar a execução do seu trabalho. O termo “alethéia” desaparece. Em seu lugar, o texto faz menção a “orthótes”, que quer dizer correção, indicando desse modo que o acesso à verdade depende, agora, da posição correta do olhar na direção do modelo ideal…” (HANNAH ARENDT, conversa com Octavio Paz, pg. 58–59)

O que incomoda-me, preocupa-me, irrita-me, ou mesmo revolta-me, é que a alegoria propõe que a salvação dos acorrentados não é obra dos próprios, quebrando suas correntes de alienação, mas é obra de um salvador exterior, do messias “descendente”, aquele que porta-se como “dono da verdade” e que liberta os outros à fórceps (um pouco como os EUA levando a Democracia e a Liberdade para o Iraque e o Afeganistão, hoje em dia?).

Esta “liberdade” que o herói socrático-platônico propõe é fiel a um ideal ético-político baseada no racionalismo, no puritanismo, numa vida de ascese anti-corpórea, anti-sensual, anti-gozo, que com frequência degenera numa tirania dos que se julgam os melhores. É possível propor uma política, baseada numa certa interpretação do mito socrático-platônico, que parece uma aristocracia totalitária, que deseja impor à totalidade da sociedade os seus parâmetros de comportamento e de vida — aqueles que não se corrigirem, que não se adequarem, que não se conformarem, poderão e deverão ser excluídos do convívio social, mandados ao exílio, ou, quem sabe, como farão alguns no século XX, enviados aos campos de extermínio…

Longe de propor a auto-superação ou mesmo a auto-revolução dos encavernados, que por suas próprias forças romperiam sua ingenuidade e alçariam sua consciência ao patamar superior da consciência crítica, como seria possível numa re-leitura Marxizante ou Paulo Freirezante do mito, o que ocorre em Platão é propaganda reacionária: as massas, as maiorias, os meros mortais, estão na mentira. O filósofo-rei — puritano, racionalista, ascético, capaz de ir ao céu da verdade e voltar para forjar os outros, por ortopedia, em obediência a ela! — não passa de um aristocrata mandão, crédulo demais na sua própria via e na sua posse da verdade, a ponto de torna-se o impositor de um ethos específico à imensa diversidade humana.

Ao arco-íris do desejo, de que fala Boal, ele impõe o preto-e-branco, o 8 ou 80, de seu dualismo maniqueísta (a alma vale tudo, o corpo não vale nada…) Nasce daí um tiranete, enfim, o governante despótico de um idealismo tirânico, que expulsa poetas, condena desviantes, estigmatiza diferenças e já conheça a acender as chamas de futuras Inquisições e Expurgos…

A alguns pode parecer chocante, impertinente, excessivamente vândala, a atitude de acusar o Sócrates platônico de ser um precursor do totalitarismo, quando tantos o celebram, por seus diálogos intensamente animados pelo debate inter-subjetivo, como precursor da democracia. A verdade é que Sócrates é complexo e multifacetado demais para que nele algum rótulo cole a contento. E a verdade é que Platão é um escritor, um poeta e um dramaturgo genial demais para que seja possível crer que de fato existe algo como “o platonismo”, como doutrina fechada. Aliás, Platão ama ocultar-se. O papel protagônico é todo de Sócrates em sua obra filosófica-dramatúrgica. O texto de Platão, as falas de Sócrates, a vivacidade destes diálogos e desta dramaturgia, transborda todas as represas — é um oceano, imenso, fecundo. Há ainda futuro para o mito mutante da Caverna.

O que apenas desejo enfatizar com estas mal-traçadas críticas — e nisto sinto-me acompanhado, e muito bem-acompanhado, por figuras como André Comte-Sponville (O Mito de Ícaro) e Oswald de Andrade (A Utopia Antropofágica) — que o dito platonismo, que o legado do pensamento socrático, que o próprio mito da caverna, são fecundos também em perigos, inclusive e sobretudo aquele de uma certa “apropriação totalitária” deste mito.

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Por Eduardo Carli de Moraes
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THE TRUMAN SHOW – O SHOW DA VIDA, um filme de Peter Weir (1998)

A vida de Carolina Maria de Jesus, autora de “Quarto de Despejo”, em quadrinhos – Saiba mais @ A Casa de Vidro Livraria

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SINOPSE – Carolina Maria de Jesus foi um dos grandes fenômenos literários do Brasil nos anos 1960. Seu livro de estreia, Quarto de Despejo, ficou no topo da lista de mais vendidos e foi publicado em mais de 13 países. Negra, pobre, moradora da favela do Canindé, zona norte de São Paulo, e mãe de três, Carolina narrava no livro seu cotidiano na favela. Foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, que a ajudou a publicar o trabalho. A história de luta, fama e declínio de umas das mais marcantes vozes femininas da literatura brasileira está em Carolina, biografia em quadrinhos de João Pinheiro e Sirlene Barbosa. O livro narra sua infância pobre em Minas Gerais, sua vida sofrida em São Paulo, a fama, as ilusões, as decepções e o esquecimento. 128 páginas. Sirlene Barbosa é doutoranda em Educação pela PUC-SP e professora de língua portuguesa. João Pinheiro é artista visual e autor de histórias em quadrinhos, publicou os álbuns Kerouac (2011, Devir) e Burroughs (2015, Veneta). Já colaborou para revistas como Hipnorama (Argentina), Inkshot (Eua), Serafina, Rolling Stone e Bill.

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“Embora em princípio qualquer um possa fazer literatura ou fazer política, o reconhecimento de um discurso como literário ou como político passa pela adequação aos códigos consagrados no campo. (…) Tomando como base os romances publicados pelas editoras de maior prestígio entre 1990 e 2004, verifica-se que 93,9% dos autores são brancos, 78,8% têm diploma universitário, 72,7% são homens. As personagens também são quase todas brancas, heterossexuais e pertencentes às elites econômicas ou às classes médias, com uma significativa maioria do sexo masculino, disparidades acentuadas quando são isolados os protagonistas. Num universo de 258 romances analisados, aparecem apenas 3 mulheres negras como protagonistas e uma única é narradora. Nesse cenário, surgem, vez por outra, vozes diferenciadas. O caso mais emblemático é o de Carolina Maria de Jesus, negra, pobre, favelada, mãe solteira, catadora de papel, descoberta por um jornalista e que publicou seu diário – Quarto de Despejo – em 1960.” (LUIS FELIPE MIGUEL, Democracia e Representação, Ed. Unesp, p. 228-29) – SAIBA MAIS

OUÇA:
Carolina Maria de Jesus – Quarto de Despejo (1961) Álbum Completo

VEJA:
Poética da diáspora – Pesquisa Fapesp

BOB MARLEY: Guerreiro Rasta

Daniel Pereira

Um dos muitos méritos desta graphic novel dos argentinos Diego Agrimbau (roteiro) e Dante Ginevra (desenhos) está em sua capacidade de revelar a enorme dimensão social, espiritual e artística de Bob Marley. Nascido em 1945, numa Jamaica que lutava para se libertar do domínio colonial inglês, Bob Marley viveu apenas 36 anos, mas tornou-se uma figura de notoriedade e relevância mundial, a ponto de produzir milhões de seguidores. Isto não se deve somente ao seu talento como cantor, compositor e músico, mas à força e à resiliência de sua mensagem à humanidade.

Estátua no Estádio Nacional de Kingston

Reggae’s most transcendent and iconic figure, Bob Marley was the first Jamaican artist to achieve international superstardom, in the process introducing the music of his native island nation to the far-flung corners of the globe. Marley’s music gave voice to the day-to-day struggles of the Jamaican experience, vividly capturing not only the plight of the country’s impoverished and oppressed but also the devout spirituality that remains their source of strength. His songs of faith, devotion, and revolution created a legacy that continues to live on not only through the music of his extended family but also through generations of artists the world over touched by his genius. – Jason Ankeny

Guerreiro Rasta não começa ao som de ska ou reggae, mas em chave mais trágica, evocando a África, onde as caravelas invasoras do imperialismo europeu vieram sequestrar milhões de seres humanos para o destino horrendo de escravizados. Filhos da diáspora, os afrodescendentes da Jamaica lutavam por independência e autonomia enquanto Bob Marley crescia: é no período entre 1958 e 1962 que a onda descolonizadora do Caribe ganha força e triunfa contra o império inglês, não só na Jamaica, mas também em Trinidad e Tobago.

Na capital da Jamaica, Kingston, os autores evocam de modo impressionante a presença da África, seja através do mega evento cívico que foi  a visita do imperador da Etiópia, Hailê Selassiê, em abril de 1966, seja no próprio cotidiano dos cultuadores de Jah, os rastafáris da sagrada ganja, tão perseguidos pela elite branca e que com tanta frequência tinham seus dreadlocks cortados e tomavam cruéis baculejos policiais.

Bob Marley até tentou migrar para os EUA – onde trabalhou em Delaware como operário da indústria automobilística em uma fábrica da Chrysler – mas retomou o caminho de Trenchtown: em uma das imagens mais memoráveis de Dante Ginevra, o avião de Marley decola nos Estados Unidos, ascendendo rumo a um céu onde paira, cheio de garbo e poder, desenhado pelas nuvens em interação com os raios de sol, um gigantesco Leão de Judá

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 Bob Marley permitiu que a criatividade de um país periférico conquistasse o globo e tornou-se um dos luminares não só da música reggae ou da religião rastafári, mas um ídolo popular em todas as latitudes onde há luta contra a opressão e em prol da paz e do amor. Filho de uma afro-jamaicana com um branco inglês, Bob Marley foi um mulato afroamericano de profundo enraizamento na cultura africana e no sonho de um retorno à África mãe, seja na Etiópia ou na Libéria (este é um ethos ou uma constelação afetiva que assemelha Bob Marley a Nina Simone).

Apesar de estar longe de ser uma figura teórica ou acadêmica, Marley tinha postura política convicta e aliou-se ao movimento do pan-africanismo propugnado por Marcus Garvey, evidente em uma canção como “Africa Unite”. Em sua meteórica carreira musical foi um porta-voz libertário cujo teor ideológico e raio de influência sobre as massas pode ser equiparado ao de figuras como Patrice Lumumba, Malcolm X, Martin Luther King, Fela Kuti etc.

Bob Marley & the Wailers
“Concrete Jungle”
The Old Grey Whistle Test, 1973

Suas letras repletas de crítica social transcenderiam o gueto e iriam muito além das fronteiras do reggae: iriam inspirar artistas do folk, do rock, do punk, da MPB, da world music etc. Não é possível imaginar nem o The Clash, nem Gilberto Gil, nem Manu Chao, sem a seminal influência de Bob Marley. O poder de sua arte é tamanho pois conjuga o anúncio e a denúncia, para lembrar Paulo Freire: Marley fala sobre one love em vibe similar à de John Lennon imaginando a brotherhood of men, mas também denuncia a “selva de concreto” (assista a “Concrete Jungle” assista) e os mais de “400 Years” de opressão imperialista sobre aqueles que foram roubados de sua terra nos “merchant ships” evocados por “Redemption Song”:

“Velhos piratas, sim, eles me roubaram.
Me venderam para os navios mercantes, 
Minutos depois me atiraram
Num buraco sem fundo…”

Guerreiro Rasta é uma leitura rápida mas que deixa rastros na memória; uma biografia em formato graphic novel de 60 e poucas páginas, mas que ensina uma imensidão neste curto intervalo de tempo e espaço. Ganham expressão nestas páginas toda a violência política nas ruas de Kingston e todo o esforço pacifista-diplomático de Marley; toda a trajetória dos Wailers, tendo como coadjuvantes importantes Peter Tosh e Lee Perry, de estrelas musicais locais a popstars idolatrados por Eric Clapton, Mick Jagger, Joe Strummer; toda a epopéia da diáspora, todos os horrores impostos pelo imperialismo racista e supremacista, em contraste com a sabedoria naturalista, cannábica, rasta-pacifista, desse liberador de mentes e encantatório musicista que foi Bob Marley.

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No cinema, sua vida e obra já ganharam belos retratos em filmes como Rebel Music ou na biopic documental de Kevin MacDonald. Porém a linguagem dos quadrinhos, aqui utilizada com maestria pelos hermanos argentinos, fornece uma impressionante oportunidade de imersão no microcosmo Marleyano. Na página 53, por exemplo, evocam-se em 5 míseros quadrinhos e um punhado de frases pungentes o dia em que a Jamaica enterrou Bob Marley. É uma página que não se esquece mais.

Era um “funeral de chefe de estado, com uma cerimônia que misturava as tradições rastafári e católica ortodoxa etíope. O caixão seguiu  um longo trajeto até sua terra natal, Nine Mile. Toda a Jamaica chorou a partida de seu filho pródigo. Em seu túmulo, foram colocados quatro objetos que representavam o que sempre foi importante para ele… o futebol, a música, a fé rastafári e a maconha. Nessa noite, toda a ilha cantou e dançou celebrando sua vida. Foi a melhor festa funerária que um rasta poderia esperar.”

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SIGA VIAGEM:

OUÇA…

burninBURNIN’ (1973)

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“SURVIVAL” (1979)

“Containing what is considered Marley’s most defiant and politically charged statement to date, Survival concerns itself with the expressed solidarity of not only Africa, but of humanity at large. The album was controversial right down to the jacket, which contains a crude schematic of the stowage compartment of a typical transatlantic slave ship. Survival is intended as a wake-up call for everyman to resist and fight oppression in all of its insidious forms. From Tyrone Downie’s opening synthesizer strains on “So Much Trouble in the World” to the keyboard accents emerging throughout “Zimbabwe,” the sounds of Survival are notably modern. The overwhelming influence of contemporary African music is also cited with the incorporation of brass, á la Fela Kuti and his horn-driven Africa ’70. While “Top Rankin’,” “Ride Natty Ride,” and “Wake Up and Live” are the most obvious to benefit from this influence, there are other and often more subtle inspirations scattered throughout. Survival could rightly be considered a concept album. Marley had rarely been so pointed and persistent in his content. The days of the musical parable are more or less replaced by direct and confrontational lyrics. From the subversive “Zimbabwe” — which affirms the calls for the revolution and ultimate liberation of the South African country — to the somewhat more introspective and optimistic “Africa Unite,” the message of this album is clearly a call to arms for those wanting to abolish the subjugation and tyranny of not only Africans, but all humankind. Likewise, Survival reinforces the image of Marley as a folk hero to those suffering from oppression.” – Lindsay Planer, AllMusic [http://www.allmusic.com/album/survival-mw0000194795]

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Primeiras impressões do visitante extraterrestre sobre o bicho humano! Do filósofo espanhol Fernando Savater em “As Perguntas da Vida” (Ed. Martin Fontes, 2011)

Calvin

– Às vezes penso que o sinal mais seguro de que vida inteligente existe em algum outro lugar do Universo é que ninguém tentou nos contatar. (Calvin & Haroldo)

AS PERGUNTAS DA VIDA
por Fernando Savater

Suponhamos que um extraterrestre venha a nosso mundo e comece a nos estudar, a você e a mim. Tem à sua frente um ser vivo, talvez até o considere inteligente (sejamos otimistas!), mas uma das primeiras perguntas que se fará é: onde começa e onde acaba esse bicho?

A pergunta não é absurda… não é fácil determinar, por exemplo, se o casulo da crisálida também deve ser considerado crisálida como o resto do animal que o segregou. Do mesmo modo, o extraterrestre pode achar que eu também sou minha casa e que acabo na porta da rua, ou que pelo menos minha poltrona favorita e meu avental fazem parte de mim, ou que o cigarro que estou fumando é um de meus apêndices e a fumaça constitui minha respiração malemolente. Você, que tem carro e passa o dia dentro dele, certamente seria classificado pelo marciano entre os terrícolas de quatro rodas.

Mas, se o forasteiro interplanetário chegar a se comunicar conosco, explicaremos a ele que está enganado, que nossas fronteiras são estabelecidas por nosso tecido celular e que – por mais que amemos nossas posses e nosso alojamento urbano – nosso eu vivente só chega até onde abrange a nossa pele. Ou seja, nosso corpo. Ao que o marciano poderia nos responder: “Tudo bem, e isso, como vocês chegaram a saber?”

Responder-lhe adequadamente não é tão óbvio como parece. Não poderíamos explicar-lhe que quando falo em corpo estou me referindo àquilo que sempre vai comigo, diferentemente de outras possessões, pois meu cabelo, minhas unhas, meus dentes, minha saliva, minha urina, meu apêndice etc. são partes do meu corpo, muito minhas, mas apenas transitoriamente. Cedo ou tarde deixam de ser eu sem que eu deixe de ser eu, tal como a serpente se desfaz na primavera da roupa velha que é sua pele usada.

Nem sequer poderíamos afirmar para o curioso interplanetário que o corpo é tudo aquilo de que não podemos prescindir para continuar vivos, uma vez que às vezes é preciso trocar meu coração por outro para eu não morrer, e certos doentes dependem dos aparelhos de diálise que substituem seus rins, para não falar no ar ou no alimento, que me são corporalmente imprescindíveis quanto os pulmões ou o estômago e no entanto não fazem parte do meu eu.

Se o extraterrestre estivesse estudando uma mulher grávida, o problema se complicaria mais ainda, pois não é facil resolver se o feto é simplesmente uma parte de seu corpo ou algo distinto dele. Quanta complicação! O perspicaz Lichtenberg, no final do século XVIII, disse em um de seus aforismos que “meu corpo é a parte do mundo que meus pensamentos podem mudar”. Uma ideia engenhosa, porque para realizar a maioria das modificações da realidade – mudar uma poltrona de lugar, fazer um carro arrancar, trocar de roupa – preciso agir através de meu corpo, ao passo que me basta desejar ou pensar para levantar o braço ou abrir a boca.

E, no entanto, não parece ser meu pensamento que me faz respirar ou digerir, tampouco minha vontade pode me devolver o cabelo e os dentes erdidos… para não falar em mudar a cor de minha pele ou meu sexo! As metamorfoses de Michael Jackson ou dos transexuais necessitam de intervenções externas para serem realizadas. Francamente, satisfazer à curiosidade do extraterrestre pode nos colocar numa situação comprometedora…

No entanto, minha convicção profunda é a de que eu começo e acabo em meu corpo, sejam quais forem os embrulhos teóricos que essa certeza me traga. Talvez, vendo meu nervosismo, o amável marciano aceite esse ponto para não me irritar mais; então, ele poderia me fazer a pergunta do milhão: “De acordo, você começa e acaba em seu corpo, mas… devo assumir que você tem um corpo ou que você é um corpo?” Uma tal interrogação poderia ser causa justificada para uma guerra interplanetária!

Provavelmente Descartes, que supunha que a alma fosse um espírito e o corpo uma espécie de máquina (segundo ele, os animais – que não têm alma – são meras máquinas… que nem sequer podem experimentar dor ou prazer!), responderia que eu – o espírito – tenho um corpo e me arranjo com ele o melhor que posso. Segundo uma certa visão popular, estamos dentro do nosso corpo à maneira de fantasmas encerrados em uma espécie de robôs que devemos dirigir e mover. Até há místicos que acham que o corpo é quase tão ruim quanto um cárcere e que sem ele nós nos moveríamos com muito maior ligeireza.

Sócrates talvez tenha se referido a isso em suas últimas palavras, conforme nos são citadas por Platão, em Fédon, quando ao notar que o efeito da cicuta estava chegando a seu coração, disse a seus discípulos: “Devemos um galo a Esculápio!”

Havia o costume de oferecer um animal como sacrifício de gratidão a Esculápio, deus da medicina, quando alguém se curava de uma doença.

Talvez Sócrates achasse que o veneno assassino estava prestes a livrá-lo da doença da alma que consiste em suportar um corpo. A verdade é que, com um sujeito tão irônico, nunca se sabe…” 

Fernando-Savater

Fernando Savater

FERNANDO SAVATER
No livro As Perguntas da Vida
Ed. Martins Fontes, 2001, pgs. 56 a 58
Disponível na biblioteca do IFG/Goiânia

A BANCADA DO MEDO, por Vladimir Safatle


Laerte

A BANCADA DO MEDO
por Vladimir Safatle
(Folha de São Paulo, 07/04/2015)

O Congresso Nacional conseguiu chegar ao seu ponto mais baixo nos últimos dias com o envio da proposta de redução da maioridade penal para o plenário da Câmara.

Lutando desesperadamente para ganhar alguma popularidade em uma situação de descrédito completo, comandadas por dois senhores diretamente indiciados no escândalo da Petrobras, as duas Casas dão agora seus primeiros passos no projeto de remeter o Brasil à Idade Média.

Por trás da proposta de redução da maioridade penal não está uma reflexão sobre as formas mais eficientes de se combater a violência. Na verdade, ela é apenas a expressão de um forte sentimento social de vingança e de tentativa desesperada de materializar uma sensação difusa de insegurança que anima setores da sociedade civil.

Para tais setores, o afeto político sempre foi o medo. É o medo que os mobiliza e que os leva a constituir personagens que encarnem seus fantasmas mais primários, como o “delinquente juvenil que pode matar impunemente”, mesmo se o percentual de assassinatos cometidos por pessoas entre 16 e 18 anos é menos de 1%.

Qualquer discussão séria sobre o assunto deveria começar lembrando que o índice de reincidência dos que passam por medidas socio-educativas é de 20% a 30%, enquanto o do sistema prisional é de 70%.

Mas para mascarar o medo patológico de setores da população, vemos a profusão de argumentos compostos de retalhos. Um dos mais usados ultimamente consiste em lembrar vários países “desenvolvidos” cuja maioridade penal é menor que a brasileira.

No entanto, eles deveriam começar por se perguntar se uma prisão brasileira pode ser realmente equiparada a uma prisão sueca.

Ao contrário, o Brasil é referência mundial para um sistema prisional medieval, ineficiente, criminoso, que prefere encarcerar sistematicamente a usar práticas punitivas alternativas. Apenas 10% das pessoas atualmente encarceradas estão lá por homicídio. Mas mesmo tendo a quarta população carcerária do mundo, uma das polícias mais violentas e assassinas da galáxia, nosso país não conseguiu diminuir seus índices de violência.

Ou seja, essa discussão sobre maioridade penal é mais uma cortina de fumaça usada por aqueles que, no fundo, não se interessam em combater a violência.

Se realmente estivessem, estariam a punir banqueiros que lavam dinheiro do tráfico, policiais que agem como bandidos alimentando um forte sentimento de revolta social, a lutar contra a extrema vulnerabilidade e invisibilidade dos que moram nas periferias.

O melhor remédio contra o crime nunca foi “a punição como espetáculo”, mas a construção da coesão social.

andredahmer_tirinha

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