NÃO MATEM NOSSO FUTURO: Dos Tsunamis da Educação ao 57º Congresso da UNE. Assista ao documentário @ A Casa de Vidro

A Casa de Vidro apresenta seu novo documentário, filmado durante o 57º Congresso da UNE – União Nacional dos Estudantes, ocorrido entre 10 e 14 de Julho: NÃO MATEM NOSSO FUTURO! – Brasília, 2019, 28 minutos. Disponível em YouTube / Facebook / Vimeo.

Assista já:

Fundada em 1937, a UNE realiza seu Congresso a cada 2 anos para debater a conjuntura, articular as ações do movimento estudantil e eleger sua nova diretoria. Em 2019, cerca de 15.000 estudantes participaram do ConUNE e puderam elegeram seu novo presidente (Iago Montalvão / Estudante de economia da FEA-USP e integrante do movimento Canto de Esperança da UJS), sua nova-vice presidenta (Élida Elena / Estudante de história da UFPB e ativista do Levante Popular da Juventude) e toda a equipe que estará à frente da entidade na gestão 2019 a 2021.

Delegações de todas as regiões do país puderam vivenciar dias de intensas atividades políticas e culturais. Inclusive grandes shows, no interior do mesmo Ginásio Nilson Nelson que abrigou as plenárias, de artistas como Leci Brandão, Vera Veronika, RAPadura, Attooxá. Historicamente conectada aos CPCs (Centros Populares de Cultura), a UNE hoje possui na atualidade, através de seu CUCA, uma atuação cultural significativa através da UNE-Volante e do Circuitos de Festivais Universitários Inquietações.

O movimento estudantil, reunido neste 57º Conune, também pôde realizar uma urgente e necessária reflexão coletiva sobre o que estamos vivendo na sociedade brasileira, debatendo teses de conjutura. Houve aclamação majoritária da tese encabeçada pela Frente Brasil Popular, mas outros movimentos mostraram toda a sua força: como RUA – Juventude Anticapitalista, Juntos! (PSOL), Juventude Sem Medo (conexa à Frente Povo Sem Medo), Faísca, Quilombo, Afronte!, Paratodos etc. (ACESSE E CONHEÇA TODAS AS TESES)

Nos meses que antecederam o Conune, manifestações massivas em defesa da educação pública ocorreram em 15 e 30 de Maio, datas históricas em que milhões de cidadãos saíram às ruas de mais de 200 cidades do Brasil no movimento que ficou conhecido como TSUNAMI DA EDUCAÇÃO (a trilogia documental Tsunami da Balbúrdia capta estas mobilizações em Goiânia).

Além da cobertura do grande ato na Esplanada dos Ministérios em 12 de Julho – “Não Matem Nosso Futuro: Educação, Emprego e Aposentadoria” -, o filme contêm falas públicas de personalidades significativas da conjuntura sócio-política do Brasil tais como:

* Guilherme Boulos (MTST – Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto / POVO SEM MEDO / Candidato à presidência da república pelo PSOL 50 em 2018);

* Gleisi Hoffmann (Deputada federal e presidenta do PT – Partido dos Trabalhadores);

* Pedro Gorki (Presidente da UBES – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas);

* Leci Brandão (Cantora, compositora, lenda viva do samba, deputada estadual em São Paulo pelo PCdoB – Partido Comunista do Brasil);

* Iago Montalvão (UJS, eleito o novo presidente da UNE) e Élida Elena (ativista do Levante Popular da Juventude e nova vice-presidente da UNE).

Fotografia: José Carlos de Almeida / NINJA

Um filme de Eduardo Carli de Moraes (filmagem, montagem, direção geral), com apoio do Levante Popular da Juventude e dos Estudantes da Mídia Ninja (confira: fotos).  Pelas colaborações que tornaram este trampo realizável, agradecemos também a Kamilla Torres, André Gepeto e Ley Silva, sem os quais este filme jamais teria nascido.

A trilha sonora inclui trechos de “Me Gustan Los Estudiantes” (de Violeta Parra, na voz de Mercedes Sosa), do samba-enredo da Mangueira (“História Pra Ninar Gente Grande”, campeã do carnaval carioca em 2019), Francisco El Hombre fornecendo Fogo e Adrenalina, além da musa latinoamericana Anita Tijoux (“Somos Sur”). Além disso, a musicalidade deste curta tem uma dívida inestimável com o cancioneiro pulsante, propulsionado por batuques calientes, do Levante Popular da Juventude.

Acampar com 1.300 levantinos nas entranhas do Estádio Nacional Mané Garrincha foi uma experiência existencial incrível, sem a qual nada no filme “Não Matem Nosso Futuro” poderia ter nascido. Um salve imenso pro Levante, que Marielle siga semente e Paulo Freire sempre presente, rumo ao 13 de Agosto seguimos caminhando juntos rumo a tempos históricos menos sórdidos, e “é na luta que a gente se encontra!”

– Carli, 26/7/19

* * * * *

DIÁRIO DO CINEASTA – CRÔNICA 1: Espantando o sono e a apatia, na acampa levantina a alvorada de luta é convocada com batucada. Cânticos e batuques estrondam no ar da manhã, criando toda uma mística de luta, inserindo os agentes no campo da história-a-fazer, inelutavelmente aprisionados na teia das contradições sociais e das lutas de classes. De dentro da barraca, ao chão, carcaça descansando do show na noite anterior que fez bombar ginásio com tochas sônicas da Bahia, os camaradas do Levante passavam distribuindo a cafeína da insurreição. Música pra insuflar ânimo na militância, em prol de um novo Tsunami de participação cívica bradando de novo: “hoje a aula é na rua!”

Era 12 de julho e nos levantamos, de manhã bem cedo, ao som dos tambores e cânticos de uma estranha tribo, potente e diversa, formada por uns 1300 levantinos reunidos em Brasília. Provindos de todo canto do país, as delegações do Levante Popular da Juventude ficaram, como Jonas na baleia, acampadas nas entranhas do estádio nacional Mané Garrincha. O hit-canção “Levantem-se! Pela Revolução!” serve por aqui de imperativo categórico da razão prática. Dito com palavras menos filosóficas e mais pé-no-chão: levantar-se é sempre a coisa certa se fazer. Levantar-se pois é indigno viver de joelhos, lambendo as botas da opressão que nos pisoteia.

Junto com o Sol, levantamos os corpos já moídos de cansaço e nos preparamos para ir às ruas. Como faíscas de um mundo novo detonadas em praça pública. Prefigurando um.porvir menos sórdido que nosso lamentável presente de trevas. Éramos correntezas de gente protestando juntas nas confluências de rebeldias e indignações. Massacrados recentemente pela reforma da previdência, que veio a se somar aos cortes de bilhões impostos pelo MEC.

Durante o Conune mais um #TsunamiDaEducação tomou conta da Esplanada dos Ministérios em protesto contra a barbárie que nos desgoverna. Dentre as bandeiras que tremularam: “Marielle semente, Paulo Freire presente”; “Não matem nosso futuro”; “Não é mole não: tem dinheiro pra milícia mas não tem pra educação…”. Coisas que não passam na Globo nem dão capa da Veja, mas que deveriam.

O movimento estudantil brasileiro faz História com suas ações neste 2019 e boa parte da sociedade civil dorme, apática e semi-interessada, no sono alienado promulgado por mídias e templos. O movimento estudantil nada fará sozinho, mas inegavelmente assume protagonismo, toma a frente, vai na vanguarda, enquanto hordas de zumbis que tiveram atrofiado seus sensos de cidadania não colam junto nem somam forças na defesa, conosco, do bem comum. A pauta da Educação (pública, gratuita, laica, de qualidade…), que hoje os estudantes carregam à frente como vanguarda da luta, interessa a todos nós.

Por isso, a vontade de estar aqui, perdendo sono, dormindo no chão duro de uma barraca apertada, caminhando quilômetros sob o sol inclemente, na tentativa de captar toda a vivacidade e maravilha deste movimento quando vivido por dentro. Precários momentos que, na ausência de uma câmera filmadora, despencariam no esquecimento. Diante de um jornalismo exangue que se apega aos fatos ditos objetivos, tenho querido captar a sensação de estar no olho do furacão – e não num labirinto de estatísticas escritas numa tela.

Filmar desde as entranhas do movimento estudantil em levante. As entranhas ocultadas pela mídia, entranhas do organismo coletivo composto pelos nossos jovens mais conscientes, mais politicamente ativos, mais avessos ao conservadorismo e ao conformismo que hoje passam por virtudes não sendo senão nefastos vícios.

Esta é a juventude que renova a vida coletiva. E estes Tsunamis da Educação, longe de mimimi de derrotados, são o barulho que faz o mundo novo em seu dolorido partejar.

“A educação é revolucionária.”


CRÔNICA 2 – Os exterminadores do futuro que hoje nos desgovernam e nos oprimem não esconderam jamais que o projeto deles, anunciado nos palanques de 2018 junto com o gesto das arminhas, era fazer o país retroceder 50 anos. O ideal do Bolsonarismo é voltar a 1968 – não às insurreições libertárias de Paris ou da Primavera de Praga, mas o 1968 da ofensiva autoritária dos tanques e fuzis que como rolo compressor saíram esmagando a voz dos povos.

Ofensiva de direita cujas icônicas figuras históricas são, nacionalmente, o AI-5 (1968 a 1978), e possui como emblema global o massacre que o Estado Mexicano perpetrou às vésperas das Olimpíadas – o “Massacre de Tlateloko”, Outubro de 1968: https://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_de_Tlatelolco.

O que é importante lembrar, sobretudo neste País dos Deslembrados, é que o caminho que levou, em Dezembro de 1968, ao AI-5 e aos “anos de chumbo” da ditadura militar, esteve pavimentado por uma intensa efervescência do movimento estudantil. A juventude tinha tido seu pavio aceso pela faísca que foi a morte de Edson Luís no Calabouço, em Março. O fogo aceso pelo crime-de-Estado perpetrado por policiais contra o estudante foi impulso para a Marcha dos Cem Mil, uma mais gigantes passeatas desde o golpe de 64.

Não é nenhum absurdo de interpretação histórica propor que a Marcha dos 100.000 não teria tido esta massiva participação sem o protagonismo anterior dos estudantes. Eles que naquele mesmo 1968 ainda estariam, em São Paulo, no centro de uma Guerra Civil em miniatura destravada entre os alunos da USP e do Mackenzie na Rua Maria Antônia, antiga sede da FFLCH.

Parece-me que o AI-5 foi sobretudo uma resposta à radicalização estudantil e ao fato cada vez mais disseminado de que uma parcela que se agigantava da estudantada aderia à luta armada. O AI-5 veio porque a estudantada se Marighellizava.

Neste 2019, pergunto-me (sem encontrar resposta) o quanto iremos “repetir” nossa História pregressa, ou o quanto iremos saber forjar caminhos inéditos rumo a um futuro inaudito e imprevisto nos radares de profetas e analistas.

De novo, como em 1968, o movimento estudantil lidera a Resistência. O #TsunamiDaEducação foi, sem sombra de dúvida, o principal movimento cívico no Brasil neste primeiro semestre de governo Bolsonaro. O segundo semestre de 2019 já tem anunciado no horizonte a continuidade deste cenário de protagonismo dos estudantes na resistência ao desmonte da rede federal de educação que hoje vem tentando perpetrar o ministro Weintraub. Em 13 de Agosto, dia do estudante, um novo tsunami de rebeldia irá levantar-se. Em seu Twitter, o Ministro Bolsonarista tem chancelado e celebrado a truculência policial contra os estudantes, fazendo uso de um sarcasmo sádico que demonstra toda a irresponsabilidade de um senhor cuja função pública deveria ser zelar pela educação no Brasil.

Temos que estar conscientes que, de certo modo, na perspectiva do inimigo, a “radicalização” estudantil, caso se manifeste com irrupções de “vandalismo” e destruição de propriedade bancária ou empresarial, poderá ser utilizada como pretexto para uma nova Escalada Autoritária por parte do Bolsonarismo, desejoso de aprofundar a ditadura ainda de baixa intensidade (uma “ditadura sutil”, como sugerem Meteoro e Castells) – por hora instalada.

As hordas de eleitores do Coiso e dos defensores de Moro iriam, com toda a probabilidade, aplaudir a brutalidade de Estado na repressão contra estudantes pintados como agentes do caos, da anarquia e da balbúrdia, contra os quais todo rigor punitivo é permitido ao Papai-Estado, que deve sempre manter seu sacrossanto direito ao “monopólio da violência legítima”. Afinal, contra este bando de estudantes maconheiros, balburdianos, gayzistas, cotistas, roqueiros, petralhas, sacrílegos, infernalmente críticos… todo cacete no lombo é pouco!

“Paulada neles”, gritará a horda Bolsominion, confortavelmente sentada nas poltronas do privilégio reservadas àqueles que são os úteis cúmplices do fascismo. Preparem-se: os idiotas úteis que servem de fantoches dos tiranos não vão tardar a aplaudir, do conforto de seus sofás, as bombas de gás lacrimogêneo voando pra cima de professores e estudantes.

O problema, que torna este território do planeta um barril de pólvora numa época histórica com abundância de faíscas, é que a juventude de classe popular neste Brasil já está enfezada demais com todas as violências ilegítimas deste novo governo. Um governo aniquilador de direitos sociais duramente conquistados, desejoso não só de travar avanços como também de patrocinar – no porrete! – retrocessos de 5 décadas. O governo Bolsonaro é um trem desgovernado descendo rumo a barbárie num passo de caranguejo frenético que tivesse cheirado 39 quilos de cocaína (direto do avião da FAB…).

Enquanto dormem os cidadãos-de-bem com o sono-dos-bem-alienados, tem presidente da UNE tendo que fugir do cassetete do policial na frente do MEC… Enquanto dormem, tem professor sendo denunciado por “doutrinação ideológica esquerdista” e milícias do Escola Sem Partido estão pressionando por uma Educação com “esquerdistas” amordaçados (quiçá até torturados e presos)… Enquanto dormem, nosso lendário Estado Democrático de Direito vai entrando num colapso cada vez mais lamentável.

“Enquanto uns dormem”, gosto de estar entre aqueles que enxergam na Liberdade, como os zapatistas mexicanos ou os sem-terras brasileiros, aquilo que é preciso atravessar a madrugada pra encontrar na alvorada. Quem espera a Liberdade dormindo está ao lado do opressor. Só os que se levantam na noite e atravessam a madrugada para conquistá-la é que estão de fato, junto aos oprimidos, no autêntico gesto do “ninguém solta a mão de ninguém”.

Os que estão levantados, na luta contra a opressão, são justamente aqueles que o Governo do Cidadão-de-Bem já trata na base do spray de pimenta na cara e da bomba de dispersão de manifestação. Não sei se é meu temor ou minha esperança que me leva a prever que, em 13 de Agosto, a quase inevitável radicalização do movimento estudantil quase inevitavelmente produzirá episódios de repressão policial. Tudo indica que o Bolsonarismo, em seu 2º semestre, escancarando-se através de abortos como a Portaria da Besta (666/2019), estará mostrando mais explicitamente os dentes caninos de seu fascismo troglodita sobre o lombo da estudantada.

Resta saber o quanto a sociedade civil brasileira estará desperta para a justiça e a urgência da luta que a estudantada encabeça. A condição humana seria uma horrenda estagnação caso não houvesse, no nosso mundo comum, o fluxo das gerações que se sucedem, de modo que, como ensina a filósofa Hannah Arendt, todos nós nascemos em um mundo comum que precede nosso nascimento e sobreviverá à nossa morte individual, sendo ele, mundo comum e seu bem, o verdadeiro norteador de nossa ação ético-política.

Na atualidade, diante dos exterminadores do futuro, o movimento estudantil demonstra que não quer fugir de sua responsabilidade história atual, a de liderar a resistência e construir unidade na diversidade, partejando na prática, e quase no improviso, um outro mundo possível, menos sórdido e mais solidário.

Eduardo Carli de Moraes @ A Casa de Vidro, Goiânia, 17/07.

CRÔNICA 3 – Talvez eu nunca tenha gostado tanto de cantar um samba quanto gosto deste, ainda mais depois de testemunhar alguns integrantes da Estação Primeira de Mangueira sobre o palco no Conune. Nesta “história para ninar gente grande”, a Estação Primeira de Mangueira quer ensinar a todo nosso povo: “na luta é que a gente se encontra”! O samba-enredo da escola de samba campeã do carnaval carioca 2019 clama para que tiremos a poeira dos porões, para que celebremos “quem foi de aço nos anos de chumbo”, para que concedamos voz e vez a “Marias, Mahins, Marielles, malês.”

Foi extremamente acertada a escolha da UNE – União Nacional dos Estudantes de encerrar a programação de seu 57º Congresso com um evento cultural onde o samba pulsou no Ginásio Nilson Nelson com os shows da lenda viva Leci Brandão, que abriu alas para o carnaval oportuno da Mangueira, com destaque para a música mais significativa do Brasil de 2019 – destinada não só às antologias futuras dos melhores sambas-enredo de todos os tempos, mas também merecedora de estudos de poesia, música e história cultural de nossa gente.

Nesta canção épica, cabem muitos Brasis. Aí está encapsulada, numa obra prima da cultura popular coletivamente construída, as sementes de um outro Brasil possível, onde coubessem todos os Brasis, o de Dandara e Zumbi, o de tamoios e mulatos, de cariris e malês, de Lecis e Jamelões. É um samba que pede que ouçamos a voz dos amordaçados: “ó abre alas pros seus heróis de barracões!” Pede que lembremos lutas pretéritas, preteridas e injustamente esquecidas, mas essenciais ao nosso futuro. É uma poesia que expressa em versos inesquecíveis muito do que a História (oficial) silencia e não menciona. São “versos que o livro apagou: desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento.”

Eis o país que não está nos cartões postais. E é o melhor dos Brasis, o mais autêntico, o mais criativo, o afrobrasil que samba como quem pisoteasse na cara do opressor. Afinal não é meu carnaval senão pudermos viver, em nossos corpos dinâmicos, a própria evolução da revolução. Afinal, “não veio do céu nem das mãos de Isabel… a liberdade é um dragão no mar de Aracati.” A liberdade é nosso mais importante invento coletivo, sempre por fazer e refazer, e é “na luta é que a gente se encontra!”

Só agradeço ao CUCA da UNE por ter propiciado aos presentes no Conune a oportunidade rara dessa imersão intensa no samba de Leci e da Mangueira durante estes intensos dias de Julho quando Brasília, enfim, foi nossa e pulsou cultura, resistência, diversidade – e ânimo de luta em prol da construção de um melhor mundo possível.

“Levantem-se! Levantem-se!”

HISTÓRIA PRA NINAR GENTE GRANDE

Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara
Tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati
Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo

Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês
Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasil que se faz um país de Lecis, Jamelões
São verde-e-rosa as multidões…

Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês…


 

ACESSE TAMBÉM:

A PRIMAVERA FEMINISTA E ANTIFASCISTA DO #ELENÃO – Assista ao documentário sobre uma das maiores manifestações de massa do século 21

Acima: as ruas brasileiras em 29 de Setembro de 2018 no Rio, em Sampa, em Belo Horizonte e em Curitiba; de acordo com Brasil de Fato, estima-se que 1 milhão de pessoas tenham participado das manifestações em todos os 27 estados do país.

#EleNão.doc – Mulheres Contra o Fascismo (Documentário, Goiânia, 2018, 16 min). Uma produção A Casa de Vidro.

“Companheira, me ajude, que eu não posso andar só! Sozinha ando bem, mas com você ando melhor!” – essa era uma das muitas canções que ressoaram pelas ruas neste dia histórico em que as mulheres do Brasil botaram a boca no trombone e se mobilizaram contra o fascismo, o racismo, a misoginia e o golpismo representados pelo “Coiso” e seus lambe-botas. Célia Regina Jardim Pinto, professora da UFRGS e pesquisadora da história do feminismo, afirmou em entrevista à BBC News Brasil  que o 29 de Setembro de 2018 “foi a maior manifestação de mulheres da história do Brasil.”

“Nem fraquejada e nem do lar, a mulherada tá na rua pra lutar!”: era o que também cantava-se a plenos pulmões em meio às batucadas e aos animados fluxos de gente guerreira pela cidade. Foram atos cívicos de grande beleza e potência, pluripartidários, unindo diversas bandeiras, num levante colorido em que a tônica era a luta intersecional contra a Opressão. Movimentos contra o racismo, a LGBTfobia, o machismo e a Cultura do Estupro estavam unidos e solidários às organizações estudantis, sindicais e anarquistas.

Em repúdio e repulsa às posturas machistas, racistas e armamentistas do candidato-a-ditador Jair Messias Bolsonaro, escudado por Mourão, Guedes e toda uma corja de Bozominions, mais de 3 milhões de mulheres reuniram-se ao redor da hashtag #elenão em um grupo de Facebook que demonstrou ser capaz de realizar com sucesso a jornada das redes para as ruas no 29S. Foi uma maré gigantesca de protesto que ecoou até na imprensa internacional – vejam, por exemplo, esta reportagem inglesa do The Guardian.

O maior fenômeno de mobilização de massas deste ano de 2018 é, sem dúvida, o movimento #EleNão, que transcende o cenário eleitoral e configura-se como “um movimento feminista e político que pode mudar o Brasil”, como defendem Rosana Pinheiro-Machado e Joanna Burigo em The Intercept Brasilhttps://bit.ly/2N99gyr. Estima-se que os atos cívicos levaram cerca de 1 milhão de pessoas às ruas nas mega-manifestações que ocorreram em todos os 27 estados do país em 29 de Setembro. Apenas no Rio de Janeiro, foram 200 mil cidadãos mobilizados, de acordo com Brasil de Fatohttps://bit.ly/2N89u93.

Neste curta-metragem documental, A Casa de Vidro registra os agitos no coração do Cerrado brasileiro neste dia de floração da Primavera Feminista. Em Goiânia, estima-se que cerca de 20.000 pessoas estiveram presentes ao ato, que concentrou-se na Praça Cívica, fluiu pela Avenida Goiás e Av. Anhanguera, para desaguar na Praça Universitária. O resultado é este documentário de 16 minutos, filmado por Eduardo Carli de Moraes e Renato Costa, que dá voz e visibilidade àqueles que tomaram o espaço de público para si neste momento histórico de tantas urgências e riscos.

Além de entrevistas com cidadãos que estão engajados com os movimentos democrático-populares, como Diane Lula Da Silva Valdez e Marnei Fernando, o filme registra também os agitos culturais e artísticos, como os batuques do Coró Mulher e as poesias declamadas por Pilar. O filme busca ser um registro histórico dos acontecimentos que já marcaram época, sendo também um projétil audiovisual de intervenção e de ativismo, animado pela convicção de que não há possibilidade de “ficar em cima do muro” em uma época como a nossa. Isto é cinema engajado e que abre-se às ventanias das polêmicas, sabendo que irá tomar muita pedrada e que terá que recolher muito vidro estilhaçado. Mas é a vida e o destino dos que tomam posição contra o que julgam ser as injustiças inaceitáveis e os intoleráveis discursos e práticas de intolerância que hoje sairam do armário e nos ameaçam com “o Horror, o Horror!” (Joseph Conrad).

Além dos agitos do dia 29 de Setembro, o filme também registra os eventos da véspera, quando ocorreu um grande comício petista com a presença do candidato à Presidência Fernando Haddad. Comentando declarações de Mourão, vice de Bolsonaro, que ameaçou extinguir o 13º salário, Haddad fez um forte discurso em defesa dos direitos trabalhistas constitucionais e elogiou as posturas de sua vice, Manuela D’Ávila, citada por muitas mulheres nas manifestações como uma referência de representatatividade e empoderamento feminino na política institucional da atualidade. Leia o relato completo da visita de Haddad a Goiânia neste post: https://bit.ly/2P35YyC.

Em seu texto “#EleNão: as mulheres e a resistência à desconstrução da democracia”, a cientista política Flávia Biroli destaca: “As novidades mais evidentes nas eleições de 2018 são o fato de um candidato de extrema-direita ter chances reais de ser eleito presidente e o fato de que uma linha divisória de gênero se apresenta como clivagem central nas intenções de voto. (…) Na pesquisa Ibope sobre as eleições presidenciais de 2018 divulgada em 24 de setembro, 54% das mulheres disseram que não votariam em Bolsonaro de jeito nenhum, enquanto entre os homens essa rejeição é de 37%.” (Publicado em Boitempo: https://bit.ly/2IrUbaE)

* São muitos os casos de mulheres brutalmente torturadas durante a ditadura de 1964. Ver o site do Memorial da Ditadura.

Todas as pesquisas indicam que o 2º turno das eleições presidenciais oporá a extrema-direita Bolsonarista ao projeto lulopetista vencedor dos últimos 4 pleitos. Muitos já destacam que este será o duelo entre a Barbárie direitosa e ditatorial da chapa Bozonazi e a Civilização defendida pela chapa encabeçada pelo ex-Ministro da Educação do governo Lula. Tendo isso em mente, este documentário vem para contribuir para a conscientização pública dos labirintos políticos da atualidade brasileira. De fato, não acreditamos em jornalismo ou documentarismo que se pautem pelo mitológico conceito de “neutralidade” ou “imparcialidade”. O que não quer dizer que aceitemos o sectarismo ou o fanatismo. No atual imbróglio, estamos clara e confessamente ao lado de todos que gritam #elenão, o que no atual contexto significa uma adesão ao projeto lulista que pode vencer nas urnas a ameaça fascista.

Como Naomi Klein sugere em seu livro, “Não Basta Dizer Não”, e nós aqui dizemos “Sim!” a  #HaddadPresidente, a #LulaLivre, a #ManuNoJaburu. Sabemos também que a luta contra o fascismo não tem data para acabar, é algo que transcende as urnas. Aqueles que não respeitam a pluralidade da vida serão sempre contestados pela pluralidade oprimida. Se fere minha existência, serei resistência! A fecundidade das lutas populares atuais só se intensificará se soubermos conectar as pautas dispersas num grande caldeirão fervente de mobilização intersecional contra as opressões de gênero, de raça e de classe. “Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”, disse Rosa Luxemburgo. Nós, hoje, estamos em pleno movimento não só para sentir as correntes que nos aprisionam, mas para quebrá-las com a força de nossa colaboratividade indomável.

Uma das maiores pensadoras e escritoras do Brasil, Eliane Brum, cujas palavras servem de epígrafe para este curta-metragem, expressou muito bem os desafios e as promessas de nossa tensa e intensa atualidade em sua coluna: “É com corpos que se recusam a ser determinados pelo ato de ser violentada ou pelo ato de violentar que podemos criar um outro jeito de ser e de estar nesse mundo.” Leia na íntegra.

A boa notícia, que dá um pouco de ânimo em meio a este pesadelo de tamanho continental que é a terra brasilis, está naquela comovente e arrebatedora Potência Popular que ficou manifesta nas ruas e nas redes em 29 de Setembro, um dia histórico na luta contra o fascismo na América Latina.
Foi uma demonstração de Poderio da Soberania Popular, um chega-pra-lá nos pretendentes a tiranos, e uma das mais lindas realizações político-culturais já realizadas no país sob protagonismo feminino. Equiparável à grandeza de alguns dos protestos das Jornadas de Junho de 2013, estes protestos coordenados e muito bem organizados, onde não houve repressão policial talvez pela força que demonstramos, são um sintoma salutar de que estamos acordados, unidos, solidários, na luta ampla e intersecional contra o que nos oprime e nos esmaga.
Surgiu no cenário político brasileiro um outro tipo de Gigante que parece ter acordado: a mobilização cívica, supra-partidária, que congrega o feminismo, o movimento LGBT, a luta anti-racismo e anti-apartheid, os movimentos estudantis e juvenis, além de boa parte da militância que está em plena a resistência aos desmontes e retrocessos de nosso estado pós-democrático, fraturado gravemente em 2016 com a deposição fraudulenta da presidenta eleita.
O Golpe não ficou em 2016: ele se “espraiou” até 2018; foi inaugurado pelo golpeachment, prolongou-se no cárcere político de Lula, e agora escancara-se como cadela no cio fascista ao propor a candidatura do Coiso – aquele golpista que não teve vergonha de elogiar o torturador Ustra em sessão da Câmara, de triste memória, onde tripudiou sadicamente sobre a dignidade da Dilma e, por extensão, estuprou com suas palavras todas as mulheres latino-americanas que já estiveram sob tortura ou cárcere devido a um Terrorismo de Estado.
Bolsonaro é a caricatura grotesca daquele famoso “entulho autoritário” que a Ditadura Civil-Militar nos legou como amargo legado. Derrotá-lo é urgente para que aquilo que nos sobrou de Civilização e Civilidade não chafurde totalmente no lodaçal da Barbárie totalitária. Elegendo esse violador contumaz dos direitos humanos, o Brasil inteiro estará perdido, e mesmo os que votam nele sairão perdendo, e perdendo feio. Elegendo isso, damos um tiro no nosso próprio pé coletivo, estragamos nosso futuro, mergulhamos nosso porvir no descalabro da guerra civil e de uma nova ditadura, prenhe de horrores.
A boa notícia, repito, foi que o #elenão experimentou a interseccionalidade na práxis. Colocou em movimento esta salutar confluência dos feminismos, das lutas contra a homofobia, das mobilizações estudantis, dos trabalhadores em busca de dignidades e de reversão das hecatombes de direitos que temos assistido, todos juntos e coligados, respeitando-se nas diferenças, somando forças na luta contra a barbárie opressora que nos rodeia, nos agride, nos promete o fuzilamento e a tortura.
Essa confluência de lutas, esta intersecionalidade na prática, este esforço de solidarização e confraternização, será importantíssima de sustentar e de cultivar em nosso futuro turbulento (aquilo a que já estamos condenados). Como disse Naomi Klein, não basta dizer não. Ao nosso não devemos somar o sim de nossa utopia concreta, em vias de realizar-se: um mundo onde caibam todos os mundos, onde se concretizem os nossos sonhos que não cabem em tuas urnas, onde os inéditos viáveis da justiça social e da confraternização na diferença se façam carne viva e não cadáveres aos pés dos fascistas e seus lambe-botas.
#LulaLivre
#FascistasNãoPassarão
#HaddadPresidente
#ManuNoJaburu

– Por Eduardo Carli de Moraes, 01 de Outubro de 2018.

LEIA TAMBÉM:

* * * * *

ASSISTA JÁ: #EleNão.Doc
(Goiânia, 2018, 16 min)
ABRIR NO FACEBOOK

VIMEO:

YOUTUBE:

VEJA TAMBÉM: #ELENÃO.DOC EM BELO HORIZONTE, por Tamyres Maciel

* * * *

🎶 Ele é o olho roxo
De quem não caiu da escada
Ele é a violência
Escondida na piada
Ele é aquele aperto nojento
Na condução
Ele é a Casa Grande
Rindo da escravidão
Ele é o país na contramão
Da caminhada
Ele é o patrão
Violando a empregada
Ele é o nosso salário
Um terço mais baixo
A política do ódio
Covardia, esculacho
A política do ódio
Covardia, esculacho
A barbárie de farda
Berrando no palanque
A hipocrisia mais truculenta
Ele é a mão suja de sangue
Que se diz
Ungida de água benta
Ele é o atraso
Que país nenhum
Merece ter
E nós somos as mulheres
Que não vão deixar ele vencer 🎶
Uma canção de Marina Iris

Artes visuais urbanas efervescendo em Goiânia: conheça o documentário curta-metragem Gastrite (2018, 20 min)

GASTRITE

“Imagine uma cidade em que o grafite não é ilegal, uma cidade em que qualquer um pode desenhar onde quiser. Onde cada rua seja inundada de milhões de cores e frases curtas. Onde esperar no ponto de ônibus não seja uma coisa chata. Uma cidade que pareça uma festa para a qual todos foram convidados, não apenas as autoridades e os figurões dos grandes empreendimentos. Imagine uma cidade como essa e não encoste na parede – a tinta está fresca.”Banksy

O documentário “Gastrite” é um curta-metragem idealizado e dirigido por Hugo Brandão. Conta com a colaboração de Eduardo Carli de Moraes  / A Casa de Vidro (Assistência de Direção e Entrevistador) e Débora Resendes Rodrigues / A Toca Coletivo (Produtora Executiva). Este projeto foi contemplado pelo Fundo de Arte e Cultura 2016, com apoio da Seduce e Governo de Goiás.

O filme “Gastrite” tem a cidade de Goiânia como cenário, ponto de partida para a discussão sobre o cotidiano das metrópoles e o protagonismo da arte de rua (como grafites, stencils, pixos, lambes, tipografia etc.) no contexto urbano contemporâneo. Nesse sentido, o documentário contextualiza o cenário controverso da arte urbana, retratando esse movimento por meio de um panorama de artistas dessa vertente, que se apropriam das ruas da cidade de Goiânia e a utilizam como plataforma de expressão.

Beco da Codorna – Museu de Arte Urbana (Fotos por Marcos Aleotti)

Pensando a cidade como um enorme organismo vivo, o filme sugere que a arte urbana é como um ruído, uma interferência, problematizando, denunciando e protestando, através de temas que vão da política à religião, nos fazendo refletir sobre a cadeia artística e a própria cidade. Sendo assim, a arte urbana se torna uma expressão singular da sociedade e do ser urbano.

A partir desta perspectiva, o principal objetivo do filme “Gastrite” é fomentar a discussão sobre esse movimento contemporâneo, abrindo espaço para debater questões como censura, espaço público e o papel que estas vertentes artísticas desempenham na nossa vida cotidiana, cultural e social.

O filme contêm entrevistas com:
Mateus Dutra
– Rustoff
Santhiago Selon
Juliano Moraes (FAV/UFG)
Bicicleta Sem Freio
Carol Viana
Kaiky Fernandez
– Eduardo Aiog
– Pixadores e artistas de rua
dentre outros

Trilha sonora: Vitor Hugo Lemes e DJ Saggaz Beats.

 

MAKING OF – Registros Fotográficos

GASTRITE - Documentário sobre arte urbana em Goiânia

ACESSE: Álbum em Flickr

* * * *

DEU NA IMPRENSA:

A GASTRITE NO CORPO URBANO – O filme goiano Gastrite, que terá Lançamento no dia 12 em A Toca Coletivo, contextualiza o cenário controverso da arte urbana

A Gastrite é uma erosão do revestimento do estômago, é o indício de que alguma coisa pode não estar muito bem. Ela pode ser temporária ou crônica, assim como qualquer elemento visual que está por aí pelas ruas da capital. Sob a perspectiva de que a cidade é um organismo vivo, portanto passível de demonstrar sintomas, foi construído o documentário “Gastrite”, um curta-metragem idealizado e dirigido por Hugo Brandão que aborda a arte urbana. O lançamento do filme será no dia 12 de Julho na Toca Coletivo.

O filme conta com a colaboração de Eduardo Carli de Moraes (Assistência de Direção e Entrevistador) e Débora Resendes Rodrigues (Produção Executiva). Este projeto foi contemplado pelo Fundo de Arte e Cultural 2016, com apoio da Seduce e Governo de Goiás. O filme “Gastrite” tem a cidade de Goiânia como cenário, ponto de partida para a discussão sobre o cotidiano das metrópoles e o protagonismo da arte de rua como: grafites, stencils, pixos, lambes, tipografia e outras erosões no contexto urbano contemporâneo.

O documentário contextualiza o cenário controverso da arte urbana, retratando esse movimento por meio de um panorama de artistas dessa vertente, que se apropriam das ruas da cidade e a utilizam como plataforma de expressão. O doc pensa a cidade como um enorme organismo vivo. O filme sugere que a arte urbana é como um ruído, uma interferência, problematizando, denunciando e protestando, através de temas que vão da política à religião, nos fazendo refletir sobre a cadeia artística e a própria cidade.

“Sendo assim, a arte urbana se torna uma expressão singular da sociedade e do ser urbano. A partir dessa perspectiva, o principal objetivo do filme é fomentar a discussão sobre esse movimento contemporâneo, abrindo espaço para debater questões como censura, espaço público e o papel que estas vertentes artísticas desempenham na nossa vida cotidiana, cultural e social” – explica a equipe de “Gastrite”.

Artistas em ação: Douglas do Bicicleta Sem Freio e Eduardo Aiog do Beco da Codorna. Fotos de Aleotti.

PONTOS CHAVE PARA O DIAGNÓSTICO

Hugo Brandão, o diretor, conta de onde começaram para chegar ao diagnóstico: “Partimos do centro, um ponto chave para a narrativa, e arredores, sempre buscando pontos importantes da cidade, que tivessem relevância para os temas que abordaríamos no documentário, como por exemplo espaço público, censura e abandono. Então, os locais escolhidos de alguma forma remetem a estes temas. E também buscamos os locais com maior número de intervenções e artistas urbanos diferentes.”

A equipe do filme correu a cidade para conhecer os personagens que gritam nos muros da cidade. “Conversamos com vários artistas de diferentes vertentes, que intervém na cidade. Desde grafiteiros, muralistas, pichadores, stickers, artistas de lettering e stencil. Consideramos a arte urbana uma manifestação contemporânea muito importante na construção da identidade da cidade. E gostaríamos, com esse projeto, fomentar a discussão sobre essa manifestação, que diz muito, basta parar para ouvir” relata Hugo.

Hugo Brandão resume a idéia do curta: “Durante a construção da idéia para esse projeto e a partir da pesquisa e entrevistas, percebemos que as intervenções urbanas ainda são vistas como um ruído, um corpo estranho, algo negativo, por uma boa parcela dos moradores da cidade. Daí que surgiu o paralelo com a gastrite e, de uma forma mais abrangente, a cidade como um organismo vivo, um corpo urbano. Então, a arte urbana não é só algo indigesto, como uma gastrite, é um indicativo, um alerta, para que olhemos com mais atenção para a cidade em que vivemos.”

CINEPHILIA COMPULSIVA – Mais de 100 artigos sobre Cinema, por Eduardo Carli de Moraes @ A Casa de Vidro

Caros cyber-peregrinos que passeiam pela Casa de Vidro: nesta seção do site estão reunidos os artigos originais que escrevi refletindo e comentando sobre Cinema, que é uma paixão vital há muitos anos e que acabou me transformando de cinéfilo entusiástico em realizador de meus próprios filmes (documentários e video-clipes). Nestes hiper-textos aqui linkados, dou pitacos, faço análises, compartilho impressões, exponho ressonâncias das obras após os créditos finais, sempre buscando decifrar os filmes que mais me impressionaram e contribuir para expandir a experiência estética e a compreensão ético-política dos outros espectadores. Vale lembrar que criei anos atrás o Cinephilia Compulsiva, blog exclusivamente para assuntos cinematográficos, que hoje já está abandonado e sem nenhum post recente, onde boa parte destes textos foi originalmente publicado. Voilà, em ordem alfabética, as obras da sétima arte que este cinéfilo compulsivo sentiu-se inspirado a escrever algumas mal-traçadas linhas de crítica, análise e discussão (uma lista em permanente expansão!):

URL PRA PÁGINA: http://bit.ly/1K2KZWZ

CINEPHILIA COMPULSIVA – Escritos Sobre Filmes

  1. 2081, de Chandler Tuttle, da obra de Kurt Vonnegut [EUA, 2009] 
  2. À PROCURA DE ERIC (Looking for Eric), de Ken Loach [UK, 2009]
  3. AINDA ORANGOTANGOS, de Gustavo Spolidoro [Brasil, 2007]
  4. ALIAS GRACE (Vulgo Grace), Mini-série de Mary Harron, da obra de M. Atwood [Canadá, 2017]
  5. AMANTES DA PONTE NEUF (Les Amants Du Pont Neuf), de Leos Carax [França, 1991]
  6. ARRIVAL – A CHEGADA, de Dennis Villeneuve [Canadá, 2016]
  7. ASSASSINOS POR NATUREZA (Natural Born Killers), de Oliver Stone [EUA, 1994]
  8. BLADE RUNNER, de Ridley Scott [1982]
  9. BLUE JASMINE, de Woody Allen [2013] [em inglês]
  10. BJÖRK: BIOPHILIA, de Peter Strickland & Nick Fenton [2014]
  11. BROKEN RAINBOW, de Maria Florio and Victoria Mudd [1985] [doc]
  12. BUDAPESTE, de Walter Carvalho [adaptação do romance de Chico Buarque] ou Revista O Grito!
  13. CAÇA, A (Jagten / The Hunt), de Thomas Vinterberg [2012]
  14. CAÓTICA ANA, de Julio Medem [Espanha, 2008]
  15. CARTEIRO E O POETA, O, de Michael Radford [1994]
  16. CISNE NEGRO (Black Swan), de Darren Aronofsky [2011]
  17. CHI-RAQ, a Spike Lee joint 
  18. CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE (Quills), de Philip Kaufman [2000]
  19. CORAÇÕES LIVRES, de Susanne Bier [Dinamarca, 2002]
  20. CREPÚSCULO DOS DEUSES (Sunset Boulevard), de Billy Wilder [EUA, 1951]
  21. DAWSON – A Ilha Secreta de Pinochet, de Miguel Littin [Chile, 2011]
  22. DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, de Glauber Rocha [BRASIL, 1964]
  23. DIRTY COMPUTER, de Janelle Monáe [EUA, 2018]
  24. DUNKIRK, de Christopher Nolan [UK, 2017]
  25. EL OJO DEL CANÁRIO, de Fernando Pérez [2009]
  26. ERA O HOTEL CAMBRIDGE, de Eliane Caffé [Brasil, 2016]
  27. ESCOLHA DE SOFIA, A (Sophie’s Choice), de Alan J. Pakula (EUA, 1982)
  28. ESTÔMAGO, de Marcos Jorge [Brasil, 2007]
  29. ESTRANHO EM MIM, O, de Emily Atef [Alemanha, 2008]
  30. ESTRANHO NO NINHO, UM (A Flew Over The Cuckoo’s Nest), de Milos Forman [1975]
  31. EUA CONTRA JOHN LENNON (The US Vs John Lennon), de David Leaf e John Scheinfield [EUA, 2006]
  32. EUROPA, de Lars Von Trier [Dinamarca, 1991]
  33. FINDING FELA KUTI, de Alex Gibney [EUA, 2016]
  34. FORMA DA ÁGUA, A (The Shape of Water), de Guillermo Del Toro (EUA, 2017)
  35. FRIDA, de Julie Taymor [2000]
  36. GARAPA, de José Padilha [Brasil, 2009]
  37. GUERRA DOS MUNDOS (War of The Worlds), de Steven Spielberg [2005]
  38. GUERRA NECESSÁRIA, de Santiago Alvárez [Cuba]
  39. HANDMAID’S TALE, The – Série Hulu baseada na obra de Margaret Atwood [2017-2018]
  40. HISTÓRIA REAL (The Straight Story), de David Lynch [1999]
  41. ILEGAL, de Tarso Araújo (Brasil, 2015)
  42. INCEPTION – A ORIGEM, de Christopher Nolan [2010]
  43. JARDINEIRO FIEL, O (The Constant Gardener), de Fernando Meirelles [2005]
  44. LABIRINTO DO FAUNO, O, de Guillermo Del Toro [2003]
  45. LAERTE-SE, de Lygia Barbosa e Eliane Brum [Brasil, 2016]
  46. LITTLE GIRL BLUE: JANIS JOPLIN, de Amy Berg [EUA, 2015]
  47. LOVE LIFE, de Maria Schrader [Alemanha, 2008]
  48. LUA EM SAGITÁRIO, de Marcia Paraiso [Brasil, 2016]
  49. MARCAS DA VIOLÊNCIA (A History of Violence), de David Cronenberg [2005]
  50. MARTÍRIO, de Vincent Carelli [Brasil, 2016]
  51. MEDO E DELÍRIO EM LAS VEGAS (Fear and Loathing in Las Vegas), de Terry Gilliam [1998]
  52. MELANCOLIA, de Lars Von Trier [2001]
  53. MEU IRMÃO É FILHO ÚNICO, de Daniele Luchetti [Itália, 2007]
  54. MILK – A VOZ DA LIBERDADE, de Gus Van Sant [EUA, 2008]
  55. MOBY DICK, de John Huston [1956]
  56. MOINHO E A CRUZ, O (The Mill and the Cross), de Lech Majewski [2012]
  57. MONTANHA DOS SETE ABUTRES (Ace in the Hole), de Billy Wilder [EUA, 1951]
  58. MULHER SOB A INFLUÊNCIA, UMA (A Woman Under The Influence), de John Cassavetes [EUA, 1974]
  59. MY SUMMER OF LOVE, de Pawel Pawlikowski [UK, 2004]
  60. NA NATUREZA SELVAGEM (Into The Wild), de Sean Penn [EUA, 2007]
  61. NÃO ULTRAPASSE, de Elem Klimov (URSS, 1964)
  62. NETWORK – REDE DE INTRIGAS, de Sidney Lumet [EUA, 1976]
  63. NOVÍSSIMO TESTAMENTO (Le Tout Nouveau Testament), de Jaco Van Dormael [Bélgica, 2015]
  64. NOSTALGIA DA LUZ, de Patricio Guzman [Chile, 2010]
  65. OLHO DO CANÁRIO (El Ojo Del Canario), de Francisco Pérez [2009]
  66. POESIA (Poetry), de Lee Chang Dong [Coréia do Sul, 2003]
  67. PROIBIDO PROIBIR, de Jorge Durán [Brasil, 2002]
  68. PROCESSO, O, de Maria Augusta Ramos [Brasil, 2018]
  69. PROMESSAS DE UM NOVO MUNDO, de Justine Arlin, Carlos Bolado e B.Z. Goldberg [doc]
  70. REGRESSO, O (The Revenant), de Alejandro Gonzalez Iñarritu (EUA-México, 2015)
  71. REVOLUTIONARY ROAD – FOI APENAS UM SONHO, de Sam Mendes [2008]
  72. SEGREDO DO GRÃO (The Secret of the Grain), de Abdel Kechiche [2008]  Ou Revista O Grito!
  73. SICÁRIO, de Dennis Villeneuve (Canadá, 200x)
  74. SINÉDOQUE NOVA YORK, de Charlie Kaufman [2008]
  75. SPARTACUS, de Stanley Kubrick [1960]
  76. STYLE WARS, de Tony Silver [USA,1983, 69 min]
  77. TAMBÉM A CHUVA (También La Lluvia / Even The Rain), de Iciar Bollain [Espanha, 2011]
  78. TEMPOS MODERNOS (Modern Times), de Charlie Chaplin [1936]
  79. TERRA & LIBERDADE (Land and Freedom), de Ken Loach [UK, 1995]
  80. TERRA VERMELHA (Birdwatchers), de Marcho Bechis (Brasil, 2008)
  81. TRÊS ANÚNCIOS SOBRE UM CRIME (Three Outdoors Outside Ebbing Missouri), de Martin McDonaugh (EUA, 2017)
  82. THE TRUMAN SHOW / O SHOW DA VIDA, de Peter Weir (1998)
  83. THE U.S. AGAINST JOHN LENNON, by Leaf & Scheinfield [doc] [em inglês]
  84. TODAS AS HORAS DO FIM: TORQUATO NETO, de Eduardo Ades e Marcus Fernando (Brasil, 2018)
  85. TURISTA ESPACIAL (La Belle Verte), de Colline Serreau (França, 1996)
  86. VER-TE-EI NO INFERNO (The Molly Maguires), de Martin Ritt 
  87. VILA, A (The Village), de M. Night Shyamalan (EUA, 2004)
  88. VIOLETA FOI PARA O CÉU (Violeta Se Fue A Los Cielos), de Andrés Wood (Chile, 2011)
  89. VOYAGE OF TIME: LIFE’S JOURNEY, de Terrence Mallick (2016)
  90. VULGO GRACE (Alias Grace), de Mary Harron (Mini-série, Canadá, 2017)
  91. WE ARE MANY, de Amir Amirani [Doc, 2015]

ARTIGOS SOBRE CINEASTAS, ATORES, LIVROS BIOGRÁFICOS OU ENSAÍSTICOS:

TEXTOS QUE ACOMPANHAM ALGUNS DE MEUS DOCUMENTÁRIOS:

– Eduardo Carli de Moraes

PARA ALÉM DO MEDO COMO AFETO SOCIAL DOMINANTE: Crítica do filme “A Vila” (2004) de Shyamalan, com Bauman, Safatle e Spinoza


Sobre o medo, pode-se sempre questionar: ele é justo e legítimo, ou seja, corresponde a um perigo real? Ou é inculcado de fora por aqueles que tem interesse em ver-nos trêmulos e acovardados?

O medo pode ser aquele afeto visceral que nos toma diante de um encontro inesperado com um tigre na selva, e que nos dá o ímpeto imprescindível da fuga que pode salvar nossa vida. Mas o medo também pode ser um afeto socialmente implantado, algo a que somos condicionados pelas ideologias de nosso entorno, em especial por aqueles que querem nos vender imóveis em condomínios fechados, seguros de vida ou revólveres para defesa pessoal.

Grandes pensadores e críticos de nosso contexto contemporâneo, como Zygmunt Bauman e Vladimir Safatle, tem destacado o quanto vivemos sob regimes sócio-políticos de cassino-capitalismo em que os mercados e Estados apostam as suas fichas no medo como afeto dominante. A insegurança pública ligada à violência urbana pode servir para um boom da indústria de segurança privada: altos lucros para empresas que vendem câmeras de segurança, carros blindados, apartamentos que são como fortalezas militares inexpugnáveis.

Paralelamente, governos podem justificar medidas autoritárias – da xenofobia islamofóbica de Trump à intervenção militar de Temer no Rio de Janeiro – com a noção de que é tudo feito para aumentar a segurança do cidadão-de-bem contra as forças do mal, hoje cada vez mais encarnadas pelos gestores do capitalismo nas figuras demonizadas de narcotraficantes, migrantes e refugiados – Os Estranhos À Nossa Porta, para lembrar de um livro atualíssimo de Bauman.

O filme de M. Night Shyamalan, A Vila (The Village, 2004), propõe uma trama que serve de emblema para uma sociedade que retira sua coesão do medo: isolados do mundo, sem contato com outras cidades, os cidadãos são desde o berço ensinados a temer Aqueles De Quem Não Falamos, criaturas temíveis que habitam na floresta ao redor.

Espalhando a farsa, os anciãos que governam a Vila pretendem permanecer isolados do mundo, sem contatos com uma alteridade considerada perigosa. O filme nos conta que os fundadores desta comuna isolacionista foram todos marcados por traumas vinculados à violência nas grandes cidades, perderam entes queridos em latrocínios ou sequestros. A solução que encontraram foi uma espécie de fuga para o meio do mato, onde pudessem viver sossegados.

Mas as aparências enganam: o que parecia ser um pacífico vilarejo vai se mostrando como uma sociedade do apartheid racial, onde vivem somente brancos (notem: não há nenhum ator negro no filme!), onde ninguém que se pareça minimamente com um estrangeiro – árabe, latino ou oriental – tem direito de cidadania. Também descobrimos, conforme a trama progride, que eles não estão exatamente em um local rodeado por natureza selvagem, mas sim entre os muros de uma mega-reserva ambiental chamada Walker, cujas fronteiras são defendidas por guardas armados.

Desde que assisti ao filme de Shyamalan pela primeira vez, fiquei pensando que ele instiga reflexões importantes sobre o tema da ideologia, em especial das ideologias que disseminam o terror como instrumento de controle social. Tanto é assim que A Vila poderia ter entrado na galeria de filmes comentados de modo tão penetrante, provocativo e cheio de bufonaria por Slavoj Zizek nos filmes O Guia Pervertido do CinemaO Guia Pervertido da Ideologia, dirigidos por Sophie Fiennes.

Os fundadores da vila isolacionista usam os monstros como espantalhos: querem povoar o entorno com terrores para que ninguém se arrisca a fugir da comunidade. Pensam que assim vão deixar bem longe os horrores do mundo e habitar numa pequeno enclave utópico de paz perpétua. Estão redondamente enganados.

Aquilo que Platão recomendava aos gestores da República, o uso de uma “fraude pia” (pia fraus), é também mobilizada pelos governantes da Vila inventada por Shyamalan. Porém a violência traumatizante irrompe na cena – e não vem de fora da comunidade, mas de dentro. As facadas infligidas pelo idiota-da-aldeia (interpretado por Adrien Brody) contra Lucius (Joaquin Phoenix) irão acarretar um terremoto nas regras e costumes locais.

O crime vai lançar a heroína Ivy Walker (interpretada por Bryce Dallas Howard, a mesma atriz que fez Grace em Manderlay) em uma jornada arquetípica: apesar de sua cegueira, ela irá enfrentar o seu medo dos monstros da floresta na busca desesperada pelos medicamentos de que precisa seu amado Lucius, agonizante numa cama.

Ela será, antes da aventura, informada por seu pai e mentor (William Hurt) de toda a farsa ideológica que envolve Aqueles De Quem Não Falamos, que de fato não passam de scarecrows utilizados pela casta dominante. É como se o pai-mentor iniciasse a filha nos mistérios da política, ou mesmo da teocracia, revelando: não há razão para medo legítimo pois o perigo é imaginário.

A heroína, encarando às cegas o território tão temido por todos aqueles que são crédulos cúmplices da ideologia dominante, irá rumo às cidades, atravessando os woods que sempre foram território proibido. É brilhante a cena em que o idiota-da-aldeia, esfaqueador de Lucius, depois de ter escapado de seu cárcere, ataca Ivy na mata. Ela dribla o monstro com malandragem de Garrincha. E o filme aproveita para sugerir que não existem monstros a não ser os seres humanos nas monstruosidades que fazem uns com os outros.

Por isso eu até ousaria dizer que esta obra de Shyamalan tem efeito desmistificador. Não há monstros sobrenaturais ou fantasmas incorpóreos, há só manipulação ideológica de espantalhos e os velhos afetos humanos que nos lançam às discórdias sangrentos. Nós somos os monstros de nós mesmos, o que parece reativar o velho mote, tão mobilizado na argumentação Hobbesiana do Leviatã: o homem é o lobo do homem. Aliviando esta estirpe de pessimismo misantrópico, o filme sugere também o inverso: que é a força do amor, corajoso e perseverante, tateando nas trevas que nos rodeiam, que faz do humano o bálsamo do humano.

A sociedade que se queria isolada, segregada, branquíssima, xenófoba, confinada em seu bunker, vivendo sempre os muros deste condomínio de alta segurança, enfim parece acordar para a verdade: a violência, nas relações humanas, não é integralmente extirpável. Um dos anciãos irá concluir: “Heartache is a part of life.” A jornada heróica de Ivy furou a tela protetora da ideologia do medo e lançou os raios de luz de uma utopia inversa: a do amor que ousa confrontar os interditos dos velhos gestores do terror.

A cega é aquela que vê melhor: sabe que os monstros foram inventados para que os cidadãos ficassem paralisados em suas covardias, isolados em seus pequenos bunkers, na idiotia hoje epidêmica dos que se encerram no âmbito do privado e recusam a esfera pública (a própria origem da palavra idiota, que vem do grego idiotes, está diretamente conectada à noção de indivíduo que recusa participação em uma sociedade mais ampla, encerrando-se na idiotia de seu círculo estreito de relações domésticas, como bem explorado pela Maria Cristina Franco Ferraz em Homo Deletabilis).

O filme A Vila, de Shyamalan, pode ser debatido em parceria com Bauman, Safatle, Zizek: é uma obra cinematográfica que fala sobre violência, traumas e utopias baseadas na lógica do condomínio (não muito diferente de um bunker para privilegiados) e na mixofobia (o horror à mistura e à miscigenação que Bauman teorizou tão bem). Mas também pode nos lembrar da filosofia política de Spinoza, que sempre recomendou a superação dos afetos tristes – entre eles o medo e a esperança – por afetos mais potentes: a amizade e a segurança.

O fim último do Estado, diz Spinoza, deve ser “libertar o indivíduo do medo a fim de que ele viva, tanto quanto possível, em segurança, isto é, a fim de que mantenha da melhor maneira, sem prejuízo para si ou pra outros, o seu direito natural a existir e a agir.” (Tratado Teológico-Político). Como explica Safatle, esta visão spinozista contrasta com aquela de Hobbes:

“Em Hobbes, o Estado se coloca como gestor da insegurança social, seu poder será sempre dependente da capacidade de fazer circular o medo como afeto social imanente às relações entre indivíduos. Já na obra de Spinoza, a segurança é o resultado de duas operações centrais: a moderação das paixões em relação aos bens incertos da fortuna, ou seja, o controle dos que ‘desejam sem medida’, e a conservação e ampliação das circunstâncias que estão sob nosso poder, o que fornece ‘os instrumentos de estabilização da temporalidade, ou seja, instituições políticas que estão e permanecem em poder dos cidadãos e da coletividade.'” (Safatle, O Circuito dos Afetos, p. 101)

Para além do Leviatã que nos aterroriza, não muito distante do Estado platônico e sua pia fraus, Spinoza nos convida a pensar numa comuna livre do medo, baseada na confiança, na amizade, no auxílio mútuo, cujo protótipo, na história da filosofia, foi oferecido pelo Jardim de Epicuro e cuja utopia foi avançada nos últimos séculos por pensadores anarquistas como Elisée Réclus e Piotr Kropotkin.

“Quanto mais nos esforçamos por viver sob a condução da razão, tanto mais nos esforçamos por depender menos da esperança e por nos livrar do medo, por dominar, o quanto pudermos, o acaso, e por dirigir nossas ações de acordo com o conselho seguro da razão”, explica Marilena Chauí (Desejo, ação e paixão em Spinoza, Cia das Letras, p. 321).

Viver sob a condução da razão implica uma política onde lutemos contra o reinado da superstição e seu cortejo de horrores. Ou seja, é preciso derrubar do governo o Medo e da Esperança, trazer abaixo as ideologias teocráticas que nos inculcam noções de Céu e Inferno post mortem, cessar de fazer do temor e da insegurança os afetos sociais dominantes, na construção difícil mas possível de uma comuna da philia, como queriam os epicuristas, ou do auxílio mútuo, como querem os anarquistas.

Prossegue a sempre atual oposição entre a biophilia e a tanatopolítica de que falam, cada um a seu modo, Paulo Freire, Erich Fromm e Björk. O medo nos segrega, o amor nos une; a injustiça social nos conduz aos bunkeres do segregacionismo, e só a justiça social tornaria plausível a comuna biophílica onde poderíamos largar lanças e escudos em prol dos abraços desarmados entre amigos.

Por Eduardo Carli de Moraes
Para A Casa de Vidro
11 de Março de 2018
Acesse outras críticas de cinema na seção Cinephilia Compulsiva

 

VÍDEOS SUGERIDOS:

CINEPHILIA COMPULSIVA 2018: A Lagosta; Guerra do Paraguay; Viver e Outras Ficções; A Vida Secreta dos Hipopótamos

GUERRA DO PARAGUAY (2015), um filme de Luiz Rosemberg Filho. Baixe a obra completa (em torrent): http://bit.ly/2jF3UBT.

ENTREVISTA COM O CINEASTA

1 – Como e por que um filme sobre a guerra do Paraguay, já que sabemos que foi uma guerra criminosa, como aliás todas as guerras de ontem e de hoje?

R – Não é exatamente um filme preciso sobre essa guerra trágica, vergonhosa e ainda hoje oculta ao saber. O roteiro e o filme partem do Paraguay para chegarmos às guerras de hoje. É uma metáfora poética e pensei em dedicá-lo ao “Dr. Fantástico” do Kubrick e aos “Carabineiros” do Godard. Tento levantar uma discussão ética-criativa sobre essa eterna doença da morte programada hoje por computadores, drones e bombas. Como é possível, em pleno Século XXI, esse massacre entre homens e nações? É pra isso que nos serviu o progresso e a política? É para isso que servem as palavras e os discursos? Por acaso nosso Império estava certo em manchar de sangue a nossa história? Não consigo entender ou aceitar nenhum tipo de guerra, já que somos vendidos como civilizados. Será? Por mais que se ache uma quantidade de heróis aqui e ali, não passam de bufões fantasiados de nobres! Ora, como justificar massacres, mortes de inocentes, medalhas por atos vendidos como heróicos, destruição, intimidação, medos… E tudo banhado de sangue! “O que foi que os Paraguayos nos fizeram?” Esta pergunta está no filme, e todos precisam ver a resposta voltando aos cinemas! E como diria Kafka: “No fundo sou um chinês”. E tendo como única paisagem o silêncio! O silêncio que tenta fazer calar a falta de lucidez, a vulgaridade política e a arrogância que de certo modo reterritorializa a caminhada para o fascismo. Fascismo que odeia todo tipo de saber. Daí as tantas e tantas convulsões e incertezas no atual sistema. Sistema onde o agenciamento das guerras é sempre um bom negócio! Mas para poucos!

PROSSIGA NA LEITURA DA ENTREVISTA: http://zagaiaemrevista.com.br/article/guerra-do-paraguay-de-luiz-rosemberg-filho/

* * * * *

CRÍTICA – Por Fernando Oriente

https://tudovaibem.com/2017/03/07/guerra-do-paraguay-de-luiz-rosemberg-filho/




O LAGOSTA (The Lobster, 2015, 128 min),

um filme de Yorgos Lanthimos.

Com Colin FarrellRachel WeiszLéa Seydoux

#CinephiliaCompulsiva2018

IMDbhttp://www.imdb.com/title/tt3464902/?ref_=ttawd_awd_tt

SINOPSE – Em um futuro próximo, uma lei proíbe que as pessoas fiquem solteiras. Qualquer homem ou mulher que não estiver em um relacionamento é preso e enviado ao Hotel, onde terá 45 dias para encontrar um(a) parceiro(a). Caso não encontrem ninguém, eles são transformados em um animal de sua preferência e soltos no meio da Floresta. Neste contexto, um homem se apaixona em plena floresta – algo proibido, de acordo com o sistema.

CRÍTICAS:

Cinematograficamente Falandohttp://cinematograficamentefalando.blogs.sapo.pt/the-lobster-2015-1583422

Disponível no Fórum Makingoff (só para membros)




ACESSAR NO FACEBOOK

VIVER E OUTRAS FICÇÕES (Vivir y Otras Ficciones) – Um filme de Jo Sol (Espanha, 2016). Torrent: http://bit.ly/2pMiiLt, Legenda em português:http://bit.ly/2zqIlfD.

Resenha de Claudio Alves: http://www.magazine-hd.com/apps/wp/artekino-vivir-y-otras-ficciones-critica/

O corpo enquanto objeto político tem sido um dos temas mais curiosamente prevalentes no panorama do cinema dos últimos dois anos. Mesmo no contexto do festival online ARTE Kino, podemos contar, pelo menos, quatro filmes onde pessoas com deficiências ou enfermidades mentais, motoras e anatómicas veem os seus corpos tornarem-se em símbolos vivos de crises sociais que transcendem a carne do indivíduo. Em “Scarred Hearts”, o realizador romeno Radu Jude perscrutou as sombras da Europa pré-Holocausto através do retrato de um jovem poeta paralisado. No caso de “Godless”, idosos senis e negligenciados e abusados por uma enfermeira toxicodependente tornam-se em sinédoques de toda uma nação num processo de apodrecimento pós-soviético. “The Giant” conta a história de um homem autista e gravemente deformado, traçando, a partir daí, uma dissecação da crueldade e dos limites do estado social sueco.

“Vivir y Otras Ficciones” do espanhol Jo Sol é um exemplo com importantes diferenças no que diz respeito à sua abordagem a este tema, sendo que, para começar, o filme é um documentário. Verdade seja dita, este trata-se de um híbrido um tanto ou quanto simbiótico entre documentário e ficção, construindo-se quase inteiramente a partir de cenas claramente encenadas em que os intervenientes se estão a interpretar a si mesmos. No contexto atual, a membrana porosa que delineia as diferenças entre estes dois tipos de cinema está a ser cada vez mais porosa e irrelevante, mas convém denotar os elementos não fictícios desta obra pois, aquando da sua passagem pelo Queer Lisboa, o filme ganhou uma menção honrosa na competição de documentários.

Independentemente de tais questões de género, “Vivir y Otras Ficciones” é, de facto, um poderoso documento sobre o corpo enquanto objeto político, podendo também ser caracterizado como um grito revolucionário pelo direito ao orgasmo. Pelo menos, presume-se que é assim que o seu protagonista gostaria de se referir ao objeto fílmico. Ele é Antonio, um escritor tetraplégico que decide contratar uma prostituta para poder ter alguma gratificação sexual apesar da sua condição, acabando por agir como um facilitador do mesmo serviço para outros seus conhecidos com problemas físicos semelhantes. A mulher que trabalha para Antonio como empregada e enfermeira mostra-se extremamente ofendida com tais ações, uma reação que é refletida nos amigos não deficientes do escritor.

O mais importante destes amigos é Pepe, uma espécie de coprotagonista do filme e um espelho da solidão e isolamento social sentidos por Antonio. Acabado de sair da prisão e de uma instituição psiquiátrica, ele é um velho cheio de ressentimentos para com a sociedade em geral. Um filho ausente que recentemente voltou a entrar na vida de Pepe serve de talismã humano à solidão venenosa desse homem, cuja moral é, apesar de tudo, ainda muito definida pelas tradições e normas sociais da Espanha católica. Segundo a retórica de Pepe, cada ato de masturbação é um pedaço de inferno e a luta por direitos, se não for feita com o seu ideal de seriedade respeitosa, é somente uma brincadeira.

Muito do filme vive das discussões entre estes dois homens, mas é claro que Jo Sol está do lado de Antonio, mesmo que permita ao espetador encontrar algumas hipocrisias no seu discurso, especialmente nos seus diálogos com a mulher que tanto cuida das suas necessidades. Para o escritor, é difícil para as pessoas “normais” discutirem os problemas da sexualidade dos deficientes pois isso normalizaria demasiado a vida desses doentes. É fácil sentir-se pena pelo outro, mas realmente aceitar as semelhanças, incluindo ao nível de desejos e necessidades, é algo mais difícil. Nas palavras de Antonio, tais ponderações forçam a pessoa “normal” a ver-se a si mesma na posição do necessitado, a interiorizarem mentalmente a fragilidade da sua própria carne. Para os privilegiados que podem escolher ignorar tais realidades, é mais fácil condenar a sexualidade destas pessoas a algo abstrato.

O próprio cinema é culpado desta sistemática assexualização de corpos tidos como imperfeitos. Afinal, qual foi a última vez que se viu um filme lidar com os desejos de pessoas feias, de idosos, de obesos, ou mesmo de pessoas de etnias discriminadas? Nesse sentido, “Vivir Y Otras Ficciones” é um choque tremendo, um filme que tenta espantar e até repugnar o espetador até que dessa estranheza floresça empatia. Quando, perto do final, um clube noturno se torna num cabaret de corpos “anormais” a reclamarem o seu direito a serem vistos como desejáveis e sexuais, sentimos uma genuína vontade de celebrar e participar nas festividades orgásticas. Infelizmente, como modo de calibrar a perspetiva da audiência, o filme acompanha os seus jogos de choque com grandes monólogos, negligenciando o seu esqueleto rítmico.

Tal displicência estrutural resulta num filme que, ocasionalmente, cai em momentos mortos e numa geral falta de energia. Com isso dito, as ambições e retórica política da obra muito compensam essas fragilidades e proporcionam momentos que transcendem mesmo o investimento intelectual do espetador e conseguem ativamente comover. Uma interação entre Antonio e a sua prostituta de eleição torna-se num dos momentos mais belos do filme e os interlúdios musicais são algo do outro mundo, propondo um diálogo entre o verso cantado e as ideias ativistas do escritor ao mesmo tempo que embalam o público com a beleza da voz e melodia em comunhão dançada.”Vivir y Otras Ficciones” é assim um filme importante, inteligente, frágil e portador de ideias incrivelmente urgentes sobre como, quando o nosso corpo é um objeto político, o próprio ato de existir se torna numa manifestação militante.

Cláudio Alves




A VIDA PRIVADA DOS HIPOPÓTAMOS

Gênero: Documentário | Biografia

Diretor: Maíra Bühler, Matias Mariani
Duração: 1h 31 minutos
Ano de Lançamento: 2014
País de Origem: Brasil
Idioma do Áudio: Inglês | Espanhol | Português

O mergulho na escuridão

“A resignação é necessária para quem está à porta do paraíso; não afrontemos o destino que é tão bom connosco (…) Depois… depois querida, queimaremos o Mundo, porque só é verdadeiramente senhor do Mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições estéreis.” (Machado de Assis, em ‘Carta a Carolina de Novais’, 1869)

Logo no início, há o testemunho de que Christopher Kirk, um técnico de informática que possivelmente vislumbrava o mundo por demais virtualmente (e quem sabe, até por isso), tem a ingenuidade de um Pinóquio. O enquadramento de sua entrevista impõe um contraste: pelo quadro negro ao fundo, poderia ser uma escola, mas o figurino indica a certeza de uma penitenciária. Kirk fora engolido pelo sistema-baleia ou, malandramente, retorceu as aparências? Seria o caso de um homem se insurgindo dentro de sua aparente e rotineira docilidade?

Essa pergunta queda em banho-maria durante quase todo o corpo do filme, desviando o problema central para sua namorada nipo-colombiana. Fica a impressão de que a suposta culpa necessária para a sua presença na prisão vai ser dela e da ingenuidade do amor que leva à derrocada. A narrativa poderia ser essa, se não fosse, no fundo, a própria idéia de se ater ao gesto de narrar. Maira Bühler e Matias Mariani tinham a idéia de fazer um filme sobre presos no exterior. Acharam um personagem que superou as expectativas e então a coisa se transformou. A princípio, poderia ainda ser um filme sobre um preso (americano) no exterior (Brasil), mas isso já não mais o define. A Vida Privada… é sobre um exímio contador de estórias e sua vontade de expressar um sentido maior para cada conjunção de palavra reverberada; sobre a capacidade de criar uma imersão narrativa a partir de elementos simples e brutos: a palavra falada de Kirk, a escrita proveniente dos chats e as fotos que mais escondem do que mostram para desenvolver um suspense. Kirk cria climas, gera suspense e o filme sabiamente o acompanha. A montagem, não à toa, é conjunta – muito se dá a partir do HD do próprio personagem.

Enquanto absortos nos mistérios de uma Capitu pixelizada, aos poucos entende-se que Kirk, por mais que diga que não aceita fazer parte daquele tipo de casal prenhe de jogos, acaba entrando por curtir desvendar o mistério e, ainda mais profundamente, por estar fazendo parte de uma cadeia de mistérios. O enigma, que sempre fora o de descobrir quem é aquela mulher sem face em meio a tantas viagens, passa, ao fim, meio de supetão, para o eixo que interessa: a partir da relação com a colombiana denominada “V”, desvenda-se a real faceta de um Pinóquio que decidiu conhecer o mundo fora dos limites que seu demiurgo Gepeto havia lhe incumbido.

Se existe um paralelismo entre Gepeto e a vida de Kirk, esta associação não cabe a Deus, mas a uma certa rotina aprisionadora, ao trabalho que nos move, define e restringe, ao labor castrador que nos impele à repetição de atos, afugentando pensamentos rebeldes que se embrutecem e evaporam como feixes de luz numa distante nuvem de mormaço. Se existe um perigo de se esmorecer na barriga da baleia, ficar lá para sempre velho e esquálido, esse esfacelamento vem do ato chapliniano de apertar os parafusos de uma engrenagem mundial sem qualquer inspiração para fazê-lo a não ser a necessidade. Independente dessa sobrevivência persistir necessária, continuamos apertando parafusos sem pensar, no embalo, para o resto de nossa vida útil – termo que associa o tempo de proveito justamente ao tempo de trabalho, da juventude à aposentadoria – e esse ato contínuo gera um automatismo impregnante à ingerência de nossas vidas privadas (o “quit stalling!” gritado pelo chefe no banheiro é justamente a interdição de um momento quando Chaplin poderia parar e pensar sobre seus próprios atos).

O termo “breaking bad” é uma gíria sulista que significa desviar-se do caminho correto. Muitas vezes, esse correto não é o teleologicamente certo a se fazer, mas, paradoxalmente, apenas o carente de correção. Um rumo sem desvios, balizado por um sistema, aquela velha palavrinha imaterial. Segundo o Wikipédia, sistema é um “conjunto de elementos interconectados, de modo a formar um todo organizado”, que, nesse caso, na sua própria formação, também organiza e delimita um norte aos novos elementos que se integram ao sistema. No primeiro episódio da série homônima americana – que adotou a gíria como título, transparecendo a trajetória de seu protagonista – Walter White recebe a notícia de que tem câncer e sua vida passa a ser contada ao avesso, de forma regressiva. A partir desse fato, resolve mudar os parâmetros que sempre o guiaram. Christopher Kirk enxerga o aprisionamento de uma rotina de condutas – regulado primariamente por um sistema de trabalho – que regula sua vida, e assim resolve, como Walter White, quebrar o pacto com o destino premeditado.

Enquanto White vai empreender o que sabe fazer de melhor – ser químico, independente das afeições morais – Kirk se joga no escuro, renegando seu aparente talento em informática em busca de algo ainda mais radical que ainda está para ser desvelado. Vai à Colômbia em busca de uma palpabilidade etérea, de uma transcendência mundana, de experiências concretas ressignificantes, remodeladoras de um olhar, de uma perspectiva, de uma visão de mundo conscientemente claustrofóbica, petrificada pelo seu dia a dia americano. Vai para lá por causa de Pablo Escobar, o grande traficante que, até certa altura da virada dos anos 1980 para os 1990, era um dos homens mais influentes, poderosos e perigosos do mundo e tinha em mãos um exército de soldados e criminosos, mansões por toda a Colômbia e até um zoológico aberto à visitação de toda a população local (para chegar até o zôo, ônibus escolares lotados passavam por debaixo da réplica do avião que carregou o primeiro carregamento de cocaína para os EUA).

Depois de sua morte, tudo foi confiscado, inclusive os animais de seu Jurassic Park privado, com exceção dos hipopótamos, que não cabiam mais em outros zoológicos e acabaram se adaptando perfeitamente ao ambiente local, que era propício à sua perpetuação. Hipopótamos, apesar de parecerem fofinhos e de muitos na região quererem adotá-los, são dos animais mais perigosos trazidos da selva africana. Escobar deixara de legado um novo ecossistema à sua semelhança. Ninguém, na pequena cidade perto de Bogotá onde habitam os hipopótamos, sabe até hoje como lidar com eles – uma mistura de sentimentos que reflete a ambígua relação que os colombianos tinham com o traficante. A faceta de Pinóquio se dissipa na viagem pela América: Kirk parece mesmo um hipopótamo, com um lado meigo que esconde o risco iminente. Mas, muito além da banalização de uma incorporação do mal, Christopher Kirk é o adágio de uma lembrança continuamente perdida: é preciso tomar as próprias rédeas para sentir-se dono de seu caminho. Para o bem ou para o mal.

SE LIGA NO ÁLBUM: