INSURGÊNCIA FEMINISTA – Milhares de mulheres, mobilizadas em repúdio à #CulturaDoEstupro e ao Machistério do Golpe, fazem raiar um Junho potencialmente libertário


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 UM NOVO JUNHO RAIOU

Não é para contestar o ineditismo deste Junho que agora nasce que é vale a pena estabelecer as devidas analogias com as Jornadas de Junho de 2013 (confiram as análises de Ruy Braga e Marcos Nobre): estes dois Junhos, separados por 3 anos de turbulentas ocorrências, entrarão para a história recente do país como épocas de efervescência da democracia direta, da participação social turbulenta, do tsunamis anarco-democráticos que pegam as instituições de surpresa pela magnitude que tomam. Como escreveu Eliane Brum no El País em 06/06/2016:

“O levante das mulheres contra a cultura do estupro no país governado pelo interino Michel Temer (PMDB) e pelo Congresso mais retrógrado desde a redemocratização forma o retrato mais preciso desse momento histórico tão particular do Brasil. A oposição atual não é entre um governo chamado de ‘golpista’ e um governo que já foi apresentado como “popular”. Ou entre a presidente afastada pelo processo de impeachment e o vice que conspirou para afastá-la. O embate é entre o Brasil que emergiu das manifestações de junho de 2013 e o Brasil que se agarra aos privilégios de classe, de raça e de gênero. É esse o confronto político mais amplo que determina o curso dos dias.”

Se Junho de 2013 pareceu colocar o Brasil no mapa global das mega-mobilizações cidadãs, que puseram a democracia direta  e digitalmente turbinada no epicentro do mapa geopolítico, com fenômenos como a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, os Indignados espanhóis ou os conflitos na Maidan da Ucrânia, 2016 já nasce com cara de mês onde as ruas e redes, no Brasil, não cessarão de estar animadas pelo ethos e pelo ímpeto das experimentações cívicas de radicalização das mobilizações democráticas e insurgentes, com muita pela desobediência civil e contestação organizada de um governo considerado ilegítimo e golpista por uma vasta proporção da população.

A Resistência Ao Golpe de 2016 analisada pelos mais de 100 artigos reunidos em livro recém-lançado, que contou com a presença de Dilma Rousseff em seu lançamento na UnB – já ganha corpo e força com a insurgência feminista, as ocupações dos estudantes, as greves universitárias, os atos das frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular; em comícios e passeatas, em assembléias e aulas públicas, nas redes e fora delas, ferve de indignação o asfalto e o morro, o litoral e o sertão… Segundo a Ninja, neste dia Primeiro de Junho,

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“cerca de 16 estados realizaram manifestações com o tema “Por Todas Elas” em mais de 50 cidades. (…) A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil – os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Porém, como apenas de 30% a 35% dos casos são registrados, é possível que a relação seja de um estupro a cada minuto”. – NINJA

(ASSISTA O VÍDEO DE JORNALISTAS LIVRES REGISTRANDO O ATO FEMINISTA EM SAMPA)

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São Paulo, Primeiro de Junho, Av. Paulista

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Aqui em Goiânia, estive em dois atos cívicos recentes, não só expressando minha solidariedade a esta bela maré montante de mulheres #BelasLibertáriasEDaLuta, mas também para documentar em vídeo um pouco do que rolou: os vídeos Caraca – A Mulherada Chegou Forte Transmutando Dor em Luta fornecem algumas janelas de acesso a este agito democrático que vem confrontando o poderio do Patriarcado e demandando uma transformação radical nos nossos enraizados modos de convívio, ainda tão brutais e cruéis em razão da dominação masculina ainda vigente (sobre isso, recomendo Pierre Bourdieu e seu Dominação Masculina, além das obras listadas ao fim deste post).


Aos que teimam com o discurso de que feministas são “cheias de mimimi”, talvez não haja melhor argumento do que este: “o machismo mata todos os dias,  o feminismo nunca matou ninguém.”  Alguns podem contestar a hipérbole de “o feminismo nunca matou ninguém” (Valerie Solanas, autora do Scum Manifesto, chegou perto de assassinar Andy Warhol…); já quanto ao machismo ser mortífero (além de estúpido…), isto beira o incontestável: é fato comprovado por estatísticas (obscenas) às mancheias como aquelas que, no blog da Boitempo, Flávia Biroli – co-autora do livro Feminismo e Política – oferece, dando as dimensões estarrecedoras do problema:

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Biroli

MACHISMO MATA – Precisamos falar sobre feminicídio

“A lei do feminicídio foi sancionada pela presidente Dilma Rousseff em 9 de março de 2015. O feminicídio corresponde ao assassinato de mulheres pelo fato de serem muheres. No Brasil, esse tipo de assassinato tem aumentado. Segundo os dados do Mapa da Violência de 2012, em sua atualização dos dados específicos sobre homicídio de mulheres no Brasil, há registro do assassinato de 92.100 mulheres no país entre 1980 e 2010. Em 2010, esse registro foi de 4.465 mulheres assassinadas. Um estudo mais recente do IPEA fala em 5,82 mortes a cada 100 mil mulheres entre 2009 e 2011 – reproduzindo o destaque do relatório, uma média de 5.664 mortes por ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, uma a cada hora e meia. Segundo dados presentes no Mapa da Violência, um número inferior, de 4,4 mulheres a cada 100 mil habitantes no ano de 2009, deu ao Brasil a quinta posição entre 84 países que tiveram seus índices de homicídios contra mulheres comparados pela Organização Mundial de Saúde.

A maior parte dessas mulheres é jovem e tem baixa escolaridade. Segundo o estudo do IPEA, 61% delas são negras. Dados apresentados pelo Mapa da Violência mostram que em 71,8% dos registros de atendimento, a violência ocorreu na casa das mulheres. Trata-se de um padrão fundamental para o entendimento do feminicídio: mulheres de diferentes faixas etárias são agredidas no espaço doméstico, por pessoas que lhes são próximas – pais, tios, namorados, companheiros. E apesar da enorme importância da Lei Maria da Penha, de 2006, os estudos disponíveis indicam que houve pouco avanço na prevenção do homicídio de mulheres por homens que lhes são próximos.

Não são dados novos para quem está atenta ao tema. O Brasil é uma sociedade na qual mulheres são violentadas e assassinadas rotineiramente.” (BIROLI. Leia o artigo completo)

É um muito bem-vindo sopro de vida e renovação que as mulheres brasileiras estejam se empoderando tanto e articulando esta ‪#‎InsurgênciaFeminista‬ contra o Machistério do golpe, numa “Primavera Feminista” prenunciada por Marchas das Vadias e das Margaridas, mas promete neste ‪#‎Junho2016‬ escrever páginas notáveis para a história do feminismo no país. Mobilizadas em repúdio à ‪#‎CulturaDoEstupro‬ e contra o regime ilegítimo de Michel Temer e sua corja de machos, velhos, corruptos, branquelos, destroçadores de direitos sociais, que só sabem governar para o 1% da cúpula (empresarial, midiática, jurídica etc.), as ruas em coro garantem: “machistas, golpistas, não passarão!” 

Emma Goldman, Rosa Luxemburgo e Simone Weil estariam orgulhosas de nossas “guerreiras” (não no sentido bélico e macho man, mas muito mais na vibe Clara Nunes!).

“Canto pelos sete cantos
Não temo quebrantos
Porque eu sou guerreira…”

Neste Domingo (29/05), estive no Lago das Rosas, filmando o ato cívico que ficou registrado em Transmutando Dor Em Luta (22 min): ao som dos tambores afro e com muita capoeira rolando no coreto, elas manifestaram toda a repulsa pelo (des)governo do Mr. Biônico, pai de Michel Laranjinha e da Srta Bela Recatada & do Lar. Michel Temer cuspiu na cara de mais de metade da população do país, depois do afastamento de Dilma pelo Senado, ao nomear seu Ministério da Testosterona. O #ForaTemer virou palavra-de-ordem entoada em altos brados pelas mulheres, mas também pelos movimentos negros, estudantis, LGBT, indígenas – já que nenhum deles se sente minimamente representado pelos “recém-chegados” (aqueles que jamais venceriam as eleições, com tal projeto neoliberal fundamentalista, e que chegaram ao poder só pelo atalho do golpeachment).

E que ninguém diga que o feminismo é só falação: a desobediência civil feminista já se manifestou ultimamente em episódios notáveis de ação direta. Por exemplo: em Maio, ao início da interinidade de Temer, elas acorrentaram-se às grades do Palácio do Planalto, impedindo a passagem do traíra, que teve que entrar, como bom usurpador, pela porta dos fundos. Dias depois, rolou “invasão” (com o perdão do uso deste termo maculado pelas patas do P.I.G.) do STF (cúmplice, se não co-partícipe, do golpe parlamentar-midiático).

Uma interessante reportagem do El País, A Justiça no Brasil não é divina, é feminina (de Carla Jiménez), também aponta um raiar alentador de insurgência feminista em meio à perseverante barbárie do patriarcado belicista e autoritário – simbolizado, melhor que ninguém, por Dudu Cunha, o crápula teocrático que chefiou o complô golpista e agora está recebendo a bolsa-bandido para ser nosso presidente oculto, e por Bolsonazi, o apologista da tortura (a guy who has shit for brains):

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“Há um dado alentador no meio desta barbárie. À medida que a incompetência na condução das investigações no Rio [sobre o estupro perpetrado por 33 homens] foi exposta, cresceu a coragem das mulheres de se manifestar. Nas redes sociais, e até na sede do Supremo, onde calcinhas manchadas de vermelho foram exibidas e flores depositadas na estátua que representa a Justiça. As mulheres deste país já não suportam mais. Neste exato momento em que algum tarado está assistindo a cenas de estupros clandestinas no Whatsapp, há mulheres criando grupos de apoio, buscando inspiração em exemplos de ações conjuntas contra o estupro em outros países, e organizando manifestações para repudiar esta cultura selvagem.” – El País

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Marcha das Vadias 2013, São Paulo, SP. Foto: Rony Marques.

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Rio de Janeiro, 2 de Junho de 2016

Rio 03Saiba mais sobre a #CulturaDoEstupro

MV5BMjA1OTkwMjg3MF5BMl5BanBnXkFtZTgwODI4NDAwNjE@._V1_SY1000_CR0,0,713,1000_AL_O cinema e a música ajudam a pôr o cenário em chamas: Sufraggette – As Sufragistas, de Sarah Gavron, apesar de focado no movimento britânico pelo voto feminino de mais de um século atrás, é um dos filmes mais memoráveis dos últimos tempos e ainda tem muito a nos ensinar sobre a desobediência civil não-violenta – que para além de Gandhi, Luther King ou Thoreau, também tem ilustres praticantes nos movimentos feministas.

Na Rússia, o “caso Pussy Riot” revelou também possibilidades estéticas de um radicalismo louvável, excitante, como na ocasião em que as “Sex Pistols do Putin” fizeram uma desbocada performance na catedral de Moscou e depois foram em cana (tema do delicioso doc A Punk Prayer), revelando todo o autoritarismo do Estado Policial putinesco. Outro documentário que está dentre os mais excelentes dos últimos anos, Je Suis Femen (Eu Sou Femen), de Alain Margot, é um retrato cheio de empatia e verve do coletivo ucraniano-francês [FEMEN], que também pode muito bem inspirar ações das ativistas latino-americanas.

Aqui no Brasil destaco também a relevância atual da teoria-e-práxis de intelectuais orgânicas como a filósofa Márcia Tiburi, uma das idealizadoras do #PartidADjamila Ribeiro, colunista de Carta Capitalsecretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo; Ivana Bentes, exonerada do cargo de Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura do Brasil no Golpe de 2016, que escreveu um belo relato sobre a mobilização feminista, no Rio, em 02 de Junho; dentre outras figuras que vale a pena acompanhar. Nas redes sociais, recomendo: Geledés | Instituto da Mulher Negra; Não Me Kahlo; Juntas.

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CONFIRA TAMBÉM:

LIVRARIA FEMINISTA – ALGUMAS OBRAS RECOMENDADAS
PELA EDITORA VERSO BOOKS

“A landmark manifesto” — Susan Faludi, New Yorker

An international bestseller, originally published in 1970, when Shulamith Firestone was just twenty-five years old, The Dialectic of Sex was the first book of the women’s liberation movement to put forth a feminist theory of politics.

Beginning with a look at the radical and grassroots history of the first wave (with its foundation in the abolition movement of the time), Firestone documents its major victory, the expansion of the franchise in 1920, and the fifty years of ridicule that followed. She goes on to deftly synthesize the work of Freud, Marx, de Beauvoir, and Engels to create a cogent argument for feminist revolution.

Ultimately she presents feminism as the key radical ideology, the missing link between Marx and Freud, uniting their visions of the political and the personal.The Dialectic of Sex remains remarkably relevant today—a testament to Firestone’s startlingly prescient vision. The author died in 2012, but her ideas live on through this extraordinary book.

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An examination of how mainstream feminism has been mobilized in support of racist measures

Feminist Christine Delphy co-founded the journal Nouvelles questions féministes with Simone de Beauvoir in the 1970s and became one of the most influential figures in French feminism. Today, Delphy remains a prominent and controversial feminist thinker, a rare public voice denouncing the racist motivations of the government’s 2011 ban of the Muslim veil. Castigating humanitarian liberals for demanding the cultural assimilation of the women they are purporting to “save,” Delphy shows how criminalizing Islam in the name of feminism is fundamentally paradoxical.

Separate and Dominate is Delphy’s manifesto, lambasting liberal hypocrisy and calling for a fluid understanding of political identity that does not place different political struggles in a false opposition. She dismantles the absurd claim that Afghanistan was invaded to save women, and that homosexuals and immigrants alike should reserve their self-expression for private settings. She calls for a true universalism that sacrifices no one at the expense of others. In the aftermath of the Charlie Hebdo massacre, her arguments appear more prescient and pressing than ever.

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Barrett - Womens Oppression Today - PRINT

Women’s Oppression Today: The Marxist/Feminist Encounter

Women’s Oppression Today is a classic text in the debate about Marxism and feminism, exploring how gender, sexuality and the “family-household system” operate in relation to contemporary capitalism. In this updated edition, Michèle Barrett surveys the social and intellectual changes that have taken place since the book’s original publication, and looks back at the political climate in which the book was written. In a major new essay, she defends the central arguments of the book, at the same time addressing the way such an engagement would play out differently today, over thirty years later.

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Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis

During the ferment of the New Left, “Second Wave” feminism emerged as a struggle for women’s liberation and took its place alongside other radical movements that were questioning core features of capitalist society. But feminism’s subsequent immersion in identity politics coincided with a decline in its utopian energies and the rise of neoliberalism. Now, foreseeing a revival in the movement, Fraser argues for a reinvigorated feminist radicalism able to address the global economic crisis. Feminism can be a force working in concert with other egalitarian movements in the struggle to bring the economy under democratic control, while building on the visionary potential of the earlier waves of women’s liberation. This powerful new account is set to become a landmark of feminist thought.

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OUÇA TAMBÉM:

Cobain

“O estupro é um dos mais terríveis crimes na terra e isso acontece a cada poucos minutos. O problema com os grupos que lidam com o estupro é que eles tentam educar as mulheres sobre como se defender. O que realmente precisa ser feito é ensinar os homens a não violar. Vá à fonte e comece por aí.” – Kurt Cobain @ Nirvana


ESCUTA TAMBÉM NA JUKEBOX:

RIOT GIRLS & GRUNGY CHICKS – 25 músicas poderosas do “rock’n’roll das minas”

DESLACRANDO A LIBERDADE: O Festival Bananada em meio ao caos da Republiqueta de Bananas

DESLACRANDO A LIBERDADE

O Bananada em meio ao caos da Republiqueta de Bananas

por Eduardo Carli de Moraes

“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta,
não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”
CECÍLIA MEIRELLES (1901-1964)

PRELÚDIO ETIMOLÓGICO

DESLACRANDO = gerúndio do verbo deslacrar
DESLACRAR = abrir o que está lacrado

I. A BLITZKRIEG LIBERTÁRIA DE LINIKER E OS CARAMELOWS

Quiseram os rumos da História que o Festival Bananada 2016, em sua 18ª edição anual consecutiva, acontecesse logo nos primeiros dias do (des)governo interino de Michel Temer. Com o punho direito no alto – um gesto típico do Black Power e celebrizado nas Olimpíadas do México em 1968 pelos atletas afroamericanos Tommie Smith e John Carlos, Liniker começou seu show no Bananada garantindo: “estamos aqui pela liberdade, sempre!” Quando a música começou a rolar, como uma maná de frescor e vida que caía em exuberância, era difícil resistir à blitzkrieg libertária, mezzo Dzi Croquettes e mezzo Itamar Assumpção e Isca de Polícia, que tomou conta do recinto.

Para o jovem multi-artista de Araraquara (SP), liberdade tem tudo a ver com a afirmação jubilante do empoderamento. Quando despontou com vídeos que viralizaram na Internet – “Zero” já tem mais de 2 milhões e 500 mil views – o Liniker apareceu para confrontar todos os códigos do politicamente correto: quando ele canta “deixa eu bagunçar você”, está pondo em prática um programa anarco-estético ousado, que tem na ruptura das ortodoxias um dos seus principais nortes. Deixe-se bagunçar! Pois o atual discurso de “salvação nacional” da “Ponte Para o Futuro”, baseada na recuperação do “ordem e progresso”, não merece nada mais que ser caotizado por nossas energias ingovernáveis e nossa desobediência civil.

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A “atitude lacradora” que Liniker e sua banda de apoio, os açúcarados e cheios-do-groove Caramelows, propagaram em seus dois shows no Bananada (o primeiro, no teatro Sesi, e o segundo, no Centro Cultural Oscar Niemeyer) mostraram a perfeita conjunção entre música e atitude, relembrando que a revolução comportamental pode ter como uma de suas melhores aliadas a cultura, renovada, que têm nascido. Calcados na melhor tradição da black music nativa e gringa, mesclando a gafieira Black Rio com a funkeira à la Sly and the Family Stone, Liniker demonstrou ser um dos nomes mais magistrais da nova música brasileira.

Sua empatia com a multidão, sua capacidade de comandar a massa, sua performance exuberante e sem pudores beatos, fez dele o grande destaque do Bananada. Contra todo tipo de racismo, homofobia, machismo ou apartheid, Liniker e seus asseclas provaram que há sim plena possibilidade de congregação entre gente diferente e que não foi inventado nada melhor que a música como agente catalisador da fraternidade imediata entre desconhecidos (uma lição que os gregos, em seu dionisismo, já conheciam muito bem!).

Com um carisma fora de série, um senso de humor delicioso, uma expressão corporal livre e desinibida, Liniker demonstrou ser um band leader daqueles que surge muito raramente na música popular de qualquer país. A platéia foi ao transe diante da ousada confrontação de todas as carolices. Congregar-se é isso, justamente: agregar amorosamente as diferenças, permitir o convívio alegre do dissonante. Faltam palavras suficientes para descrever o sopro de vida e esperança desta celebração artística da liberdade em nosso tempo de tenebrosos fascismos, que saem do armário tacando suas pedras sobre negros, bichas, índios, ateus, petistas, comunistas, secundaristas e “vândalos”, num triunfo grotesco do discurso do ódio.

LinikerNum país onde Bolsonazi faz apologia da tortura, elogiando o carrasco de Dilma na ditadura em uma sessão da Câmara comandada por um delinquente contumaz (Cunha) e em que um sindicato de ladrões cagou em gangue sobre o sufrágio universal, foi uma injeção de vida na veia poder testemunhar a simbiose artistas-público no Bananada, com o ódio acéfalo e o golpismo segregador sendo confrontados lindamente pela amorosidade  contagiante dos Caramelows. Mostraram que ainda há a coragem de sobra, neste país, de afirmar toda a nossa diversidade e colorido – com o volume no talo e sem medo de porra nenhuma.

Num intervalo entre as músicas, a platéia, galvanizada, berrava a plenos pulmões e com insistência: “não vai ter golpe! não vai ter golpe!” Ao sabor da hora, Liniker retorquiu com palavras de fraternidade na resistência, clamando pra que a gente não deixe que arranquem nossa democracia e conclamando à união: “não vai ter golpe, o que vai ter é lacre!” Acompanhado pelas duas deslumbrantes backing vocals, Liniker deu um show de humanidade (este valor fora-de-moda em nossa época desumana). Foi isso que busquei sintetizar no vídeo abaixo que, em 20 minutos, tenta transmitir um pouco das razões (e das emoções) que me levam a considerar este o show mais emblemático daquele que talvez tenha sido, como disse a Noisey da Vice Brasil, o melhor Bananada destes 18 anos de vida do festival goiano.

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II. #FUCK TEMER E OUTRAS SUBVERSÕES E RESISTÊNCIAS

ethos da resistência aos Podres Poderes marcou o palco do Bananada em vários momentos, numa ironia histórica notável: numa época em que a Republiqueta de Bananas se manifesta em todo o seu desprezo pela democracia, golpeando o sufrágio popular em prol de um complô plutocrático das elites, coube ao Bananada ser uma ruidosa voz resistente contra os desmandos da corja delinquente chefiada por Cunha, Temer, Serra, P.I.G., Fiesp e demais escrotos golpeadores.

Vários artistas se apresentaram numa vibe de indignação política, com várias manifestações sobre o tema: Siba brincou com a linguagem – “teve goipe e teve goipada!”, disse o genial músico e poeta pernambuco, clamando para que sigamos Avante com nossos ideais e não deixemos o país ir, de vez, para o fundo do poço. A folia na galera foi ao auge com canções inesquecíveis como “Toda Vez Que Eu Dou Um Passo O Mundo Sai Do Lugar”. O talento como letrista de Siba é explícito e acachapou-nos quando, no encerramento do show, com veia de repentista somada a um certo sabor de Ariano Suassuna, ele inventou na hora, de improviso, uma série de estrofes rimadas que provaram mais uma vez a maestria deste nosso queridíssimo gênio do cancioneiro popular.

 O indie rock a um só tempo ruidoso e psicodelizante dos Supercordas também agradou. De cima do palco, Bonifrate e companhia bradaram em cartazes: “Não vai ter governo” e “Vai ter luta”.

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The Helio Sequence (USA), foto de Ramon Ataide

O grupo de rock psicodélico Bike, que homenageia em seu disco de estréia, 1943, o químico Albert Hoffmann, sintetizador do LSD e primeiro ser humano a dar um rolê de bicicleta pela Holanda após consumir acido lisérgico, também clamou para que a gente “desça da montanha” pra lutar contra o governo usurpador, “se não a gente tá fudido”.

Mesmo as estrelas do stoner local, os Hellbenders, fizeram pela primeira vez um discurso político, criticando os retrocessos na cultura anunciados pelo presidente biônico. Até os gringos (estadunidenses) do The Helio Sequence juntaram-se ao coro e lacraram: “#FuckTemer!”.

As guitarradas comeram soltas, dando fuel pra indignação e pras rodas de pogo, com o Riviera Gaz – o excelente power-trio estrelado por Gustavo Riviera (vocalista e guitarrista, do Forgotten Boys) e o batera do Sonic Youth, Steve Shelley. O Killing Chainsaw tentou cortar cabeças com serra elétrica com seu indie-punk raivoso, ensurdecedor. E quando o Planet Hemp chegou, precedido de um DJ Set na vibe “Killing in the Name”, o poderio contestatório e revolucionário do rock estava flamejando em toda a sua fulminância, com Marcelo D2 e BNegão, neste revival em boa hora, mostrando porque esta é uma das bandas mais foda da história deste país.

É uma delícia ouvir, berrado, “adivinha, doutor, quem tá de volta na praça: Planet Hemp, esquadrilha da fumaça!”. Ainda mais considerando a atualidade da mensagem Hempiana, dada a continuidade grotesca do proibicionismo contra-producente, da política de encarceramento em massa, do racismo institucionalizado em nossas prisões e polícias, das Tropas de Choque e de Elite que defendem o tope repleto de bandidos de colarinho-branco. Diante desta situação, graças ao Planet Hemp temos artistas sem rabo preso, com consciência social, devotados ao protesto construtivo em prol de maior justiça social, que nos ajudam a questionar e com quem é preciso sempre re-perguntar, diante de todo o sangue que derrubam e de toda a injustiça que cometem os nossos “líderes” do controle e da repressão, se não é o caso de pararem de apontar o dedo acusador para maconheiros, como se fossem parte do problema, quando são, na real, parte da solução! Avante, rumo ao Planeta Maconha!

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Foto por Ariel Martini.

Foto por Ariel Martini.

A CULPA É DE QUEM?
“Portugueses escravizaram e mataram nosso irmão
Militares torturaram e não foram pra prisão
Eu fumo minha erva, me chamam de ladrão
Os negros já fumavam a erva antes da África deixar
Mas os senhores proibiram por não querer nos libertar
E os senhores de hoje em dia estão proibindo também
Se o pobre começa a pensar parece que incomoda alguém
Crianças crescem nas ruas, não confiam em ninguém
Escondem nossa cultura, referência ninguém tem
O país tá uma merda e a culpa é de quem?

A culpa é de quem? A culpa é de quem?

Eles roubam no planalto e não pensam em ninguém
Manipulam as leis e vêm com papo furado
Tudo que incomoda eles, eles dizem estar errado
Então quem é o marginal?
Crianças morrem por sua culpa e eu que vivo ilegal
Tenho que me esconder por uma coisa natural
Enquanto eles metem a mão na maior cara de pau
Não vou ficar calado porque está tudo errado
Políticos cruzam os braços e o país está uma merda
Trabalho pra caralho e fumo a minha erva, aí eu te pergunto:

A culpa é de quem? A culpa é de quem?”

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III. O “PACOTE DE MALDADES” DO GOLPISMO vs A CULTURA EM MARCHA CONTRA A BARBÁRIE

O festival ocorreu em meio a um clima político de estarrecimento geral, e muitas vezes revolta incontida, diante do “pacote de maldades” que o PMDB batizou (seria irônico, caso não fosse trágico!) de “Ponte Para O Futuro”, e que é o novo nome para uma velharia: a proposta, útil só aos 1% no tope, da Privataria Generalizada somada às brutais “Austeridades Para O Povo”. Uma farsa elitista que já foi “gloriosamente” instalada entre nós, nos anos 1990, pelo sociólogo transmutado em parceiraço do capital transnacional oni-privatizante, o FHC [Fumando Henrique de Cardoso].

Como prova empírica do caráter elitista, misógino e plutocrático do regime golpista instalado às pressas nesta republiqueta-de-bananas, a “nova” Esplanada dos Ministérios não tem como ministro nenhuma mulher, nenhum negro, nenhum representante dos povos indígenas. É um Ministério para agradar o P.I.G.: para que a Veja se satisfaça com a reiteração maldita do dogma machista-patriarcal que obriga a mulher a ficar restrita a subalterna e serviçal: “bela, recatada e do lar”. 

O golpe é engomadinho, tem visual de quem vai aparecer na TV: veste terno-e-gravata, faz discursos na Globo, dirige BMWs comprados por lavagem de dinheiro pela Suíça ou pelo Panamá. Os golpistas são olimpicamente desdenhosos da vida dura dos reles mortais que vivem em favelas, ou estão no desemprego, ou das mulheres que querem abortar, ou de todos os que não aceitam o molde familiar da heterossexualidade compulsória, ou dos mortos e feridos pela brutalidade banalizada de nosso complexo policial-carcerário e da conexa e absurda Guerra às Drogas.

O ministério do golpe é todo de velhos homens brancos, fedendo a mofo e à interesses egocêntricos, boa parte deles réus em processos de corrupção e enriquecimento ilícito, com nada menos que 7 deles na mira da Lava Jato. Todos eles representantes de elites que já estão demasiado bem-bancadas, no Parlamento, pelas Bancadas BBB (Boi, Bala e Bíblia). O que significa que a Cultura perdeu muitas batalhas para a Barbárie nos últimos tempos!

O último golpe, desferido dias antes do Bananada, foi o fim da existência independente do MinC: Temer decretou a fusão do ministério da Cultura e da Educação, entregou de mão beijada o Ministério a um partido da direita-grotesca (o DEM), com um desdém inimaginável pelo trabalho de Juca Ferreira, Ivana Bentes e de tantos outros guerreiros que têm lutado, ultimamente, em prol de nossa Cultura Viva. Uma ameaçadora espada de Dâmocles pendia sobre o pescoço do MinC durante o festival, enquanto dezenas de ocupações de prédios e escolas se multiplicavam pelo Brasil, exigindo do governo usurpador o respeito devido à cultura e à arte. Com as cabeças desabrigadas de teto, sob as estrelas do Goiás, nós nos movíamos (uns 5 mil humanos por noite!) entre a monumental arquitetura de Oscar Niemeyer na inquietude destes tempos caóticos.

Donde a importância, para além do entretenimento social e da venda lucrativa de espetáculos pela “Indústria Cultural” nacional – que, devido às minguadas verbas públicas para a cultura, hoje para bancar-se não está tendo como escapar dos conluios de patrocínio com as corporações de cerveja (a Skol é a patrocinadora oficial do festival) – o Bananada foi um sopro de vida muito bem-vindo. Ainda que o conteúdo político não estivesse no script oficial do evento, produzido com competência ímpar pela Construtora de Fabrício Nobre, este foi o Bananada de maior impacto político dentre os 6 ou 7 que já testemunhei.

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O Bananada reafirmou enfaticamente a potência da cultura nestes nossos tempos tão bárbaros, mostrando a quem lá esteve que este país, para além da crise política e econômica estraçalhante, tem vocação para driblar adversidades com muita capoeira, tem o dom da criatividade sem freios, tem a disponibilidade para as mestiçagens e hibridismos mais livres, tem propensão para a genialidade rítmica e melódica absolutamente ímpares. O Brasil autêntico que vive e resiste longe das cúpulas, não se preocupem, sempre foi ingovernável e de uma genialidade selvagem!

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“Teve goipe sim, teve goipada!” – Siba

Se a política institucional é um lamaçal de podridão que nos envergonha diante do mundo, podemos muito bem nos orgulhar, isto é, dar um boost na auto-estima e um chega-pra-lá no “complexo de vira-latas”, por sermos os felizes e gratos conterrâneos de figuras de tão adorável musicalidade e poiésis: Jorge Ben Jor, Siba, Juçara Marçal, Liniker, Planet Hemp, Carne Doce, Pó de Ser etc. Junto deles é que estamos em boa companhia.

IV. CONTRAGOLPES DA LUZ EM TEMPOS DE TREVAS

A experiência me deixou matutando que não há época de trevas que não seja também repleta de contragolpes da luz. Sem A.I.5 não haveriam nascido as “É Proibido Proibir” e as “Cálices” que fizeram com que nossa MPB, mesmo sob as mordaças e os horrores da Ditadura, florescesse resistindo. E que luz brilha com mais esplendor, nas trevas impostas pelas elites, que a da liberdade cantada e da dançada de um povo que constrói na união e na fraternidade seu próprio empoderamento?

Liberdade de afirmarmos a nossa diversidade e celebrarmos o pluralismo de nossa criatividade. Liberdade também de demolir paradigmas de bom comportamento, destroçar imposições autoritárias de conduta, ir além da jaula estreita do politicamente correto, do imposto pelas caretices reinantes. Liberdade para ser absolutamente anárquico (no bom sentido!) na bagunça de gênero, número e cor que dá o tom no Liniker e os Caramelows, com toda a maravilhosidade sem culpa de um protagonista que é ao tempo negão, bicha e lacradora, demolindo a golpes de genialidade qualquer idiotice racistóide ou puritanismo teocrático.

Liberdade para defender, com impacto expressivo e estético de intenso vigor e verve, um “Planeta Maconha” de cannabis livre e Estado policial-carcerário aposentado de vez da história, como fez o Planet Hemp em show arrebatador (os caras são de um poderio ao vivo que os equipara a Rage Against The Machine ou MC5!).

Liberdade para quem é careca, é gordo, é feio, é veado, é de esquerda, é vesgo, tem pele com mais melanina, é ativista do socialismo, é anarquista libertário, é feminista e lésbica, é o que diabo for, de ser quem é, sem ter que tomar pedradas ou sofrer discriminações ofensivas. Os festivais de Goiânia – em especial o Bananada, o Vaca Amarela e o Grito Rock – parecem Zonas Autônomas Temporárias onde a lei do amor prevalece sobre a do ódio e ninguém fica “tacando pedra e bosta na Geni”. Locais onde damos razão à Hannah Arendt quando escreveu, em A Vida do Espírito, que “a pluralidade é a lei da terra.”

Nestes pavorosos tempos de fascismo em ascensão e de golpes de Estado financiados pelo capital transnacional, sempre com seus bem-pagos serviçais na elite nativa, é um sopro de esperança e vitalidade um festival assim, tão bom e tão vivo. Um sopro – ou melhor, para citar os Hellbenders, um hurricane! – de um outro mundo possível onde artistas empunhem, não só guitarras e baixos, tambores e baquetas, mas que também levantem bandeiras libertárias.

Helio2

O festival ficou marcado na carne pelas urgências da época histórica, e até mesmo as bandas estrangeiras envolveram-se com o “clima de golpe de Estado”, como fez o vocalista do The Helio Sequence quando disse: “here’s something I guess most of you will relate to!”, disse o antes de erguer um cartaz branco onde se lia, em letras garrafais negras ali grafadas com spray: FUCK TEMER”.

As duas palavrinhas impertinentes que mandavam um foda-se ao usurpador também decoraram um dos palcos, no último dia de festival (15/05), e marcaram o background para a passagem do furacão goiano Hellbenders. Para onde quer que se olhasse naquele palco, o stoner-grungy da banda tinha por acompanhamento fuck Temers e fuck Malafaias às mancheias.

Hell

 Lançando seu segundo álbum, Peiote, gravado na Califórnia no Rancho de La Luna, os Hellbenders pela primeira vez desvelaram uma faceta politizada, como no prelúdio a “Hurricane”, em que o vocalista Diogo Fleury convocou para uma mega roda de pogo após dizer que um governo que nos seus primeiros passos comete atentados contra a cultura e a arte já começa bem mal.

Para além de teorias e debates sobre ela, a tal da Liberdade manifestou-se na práxis em corpos bailantes, coros de vozes em uníssono, cabelos e penteados de todas as cores e tipos (confesso predileção e carinho pelos cabelos azuis, que propagam ecos do filme Azul É A Cor Mais Quente). A variedade, além de estética e temática, foi também vista no colorido do público e na diversidade dos espaços que podíamos explorar – do point do skate ao das tatoos, da praça gastronômica deliciosa às projeções nos prédios (que recuperaram a obra do Bicicleta Sem Freio no prédio do CCON que foi censurada no ano passado). Como bem explorou a matéria da Noisey:

“Em sua 18ª edição, o Festival Bananada vem há tempos buscando transcender a esfera musical e proporcionar uma experiência completa ao público. Não estamos falando apenas de algumas bancas com comida — apesar do Circuito Gastronômico promovido pelo evento ter sido uma das experiências mais agradáveis do rolê —, mas sim de estúdios de tattoo, cabeleireiro, lojinhas das mais variadas bugingangas, merch dos artistas, tabacaria, espaço para as crianças (pode ser cedo demais para levar o bacuri a um show do Planet Hemp), campeonato de skate e até mesmo uma rinha de bartenders valendo prêmio para o melhor drink.

O excesso de opções no espaço, claro, tornou necessário um certo planejamento envolvendo o que assistir e o que fazer durante o festival, mas nada que comprometesse seriamente a chapação envolvida em três dias principais o festival (que ao todo se desenrolou entre os dias 9 e 15 de maio) de encontros com os brothers e muita música foda no Centro Cultural Oscar Niemeyer, o CCON, em Goiânia.

(…) Em 18 anos de existência, talvez o festival tenha nos proporcionado sua versão mais acertada. Com uma estrutura inédita e muito bem planejada, grande parte dos perrengues de se ir a um evento deste porte passou em branco. Apesar da variedade de gêneros musicais presente na programação, ficou uma leve sensação de que faltou uma ou outra banda mais bombada no evento e — como a própria plateia disse durante o show do Rodrigo Ogi — faltou rap no Bananada.

Para muitos que residem em Goiânia, Brasília e região o Bananada funciona como a única forma de reencontrar alguns amigos, o que torna todo o rolê mais essencial a cada ano que passa. A tônica política também foi forte: praticamente todos os artistas que se apresentaram nos três dias do festival no CCON se posicionaram contra o golpe — e alguns até discursaram para o público. Considerando a situação cívica caótica que estamos vivendo nos últimos tempos, o Festival Bananada foi um pontinho reconfortante de esperança e descontração no meio do Cerrado.” – NOISEY

Salma Jô por Ariel Martini

Salma Jô, vocalista do Carne Doce – Fotografia por Ariel Martini

V. TODA A FORÇA DA DOÇURA DA CARNE

Naquele tenebroso 17 de Abril do golpe parlamentar de Cunha e sua corja – confrontado pela maré vermelha de ativismo que registrei no documentário O Céu e o Condor – Jean Wyllys acusou o processo de impeachment contra Dilma de ser uma “farsa sexista”. O caráter patriarcal, retrógado e machista se confirmou com o ministério de Temer, sem nenhuma presença feminina, colocando mais lenha na fogueira das insurgências feministas, mais necessárias do que nunca diante do atentado à democracia que é também um ataque à figura da mulher em figura de proeminência e protagonismo na política. Neste contexto, não economizo palavras para adorar uma banda como o Carne Doce, que já faz por merecer a posição dentre as melhores bandas do Brasil.

Com apenas um EP (Dos Namorados) e um álbum (Carne Doce), o quinteto goianiense já consagrou-se pelo brilhantismo e pela lindeza de sua arte e de suas performances. Nasceu em Goiânia nos últimos anos, em especial com os Boogarins, o Pó de Ser e o Carne Doce, uma espécie de vertente do indie rock brasileiro que prima pela originalidade, pela experimentação, pela ousadia estética e comportamental, em contraste com o hype do cenário stoner (Black Drawing Chalks, Hellbenders, Overfuzz), que é um furacão de potência mas está ainda bem apegado a modelos estrangeiros, às letras em inglês e ao desejo de ser como o Queens of the Stone Age.

A emergência das bandas com letras em português e autenticidade estonteante – no caso do Boogarins, capaz de transcender as fronteiras nacionais e tornar-se fenômeno global – torna este um dos momentos mais geniais da história de Goiânia Rock City. E não há dúvida de que Salma Jô e seu comparsas de banda estão no centro deste protagonismo – e com todo o mérito, já que a qualidade do trabalho Carne Dociano é algo de deixar boquiaberto o crítico musical, que se transmuta logo em outra coisa: fã em estado de adoração. O modo como acabou o show do Carne Doce neste Bananada 2016 é a maior prova disso: na cena mais inesquecível do festival, numa imitação de Eddie Vedder (Pearl Jam) em seus dias de loucão grungy, o Dan Pimentel escalou a estrutura do palco, fugindo do guardinha da segurança, e enlouqueceu total dependurado no topo, num headbanging xamânico ao som de “Adoração”.

SalmaNão se trata de um caso isolado: o Carne Doce é capaz de despertar reações extremas no público, em especial pela capacidade descomunal de Salma Jô em interpretar as suas canções de modo visceral, com expressão corporal de uma autenticidade e uma liberdade que são muito raras e admiráveis, agindo sempre como se estivesse curtindo imensamente o som produzido por Macloys, Aderson, Ricardo e João Vitor. Apesar de soar prematura uma profecia diante de uma banda tão nova, eu diria que Salma tem o potencial para tornar-se uma das mais importantes cantoras do Brasil – no nível de uma Cássia Eller ou uma Elis Regina – e já pode ser elencada, dentre as vozes contemporâneas, na companhia de Juçara Marçal ou Ceumar como uma de nossas mais incríveis intérpretes.

No Bananada, houve aula magna de liberdade com a refulgência do Carne Doce, uma banda que tematiza sexualidade e sensualidade indo ao cerne do coração selvagem de que nos fala Clarice Lispector. Numa música nova, que eu desconhecia e que muito me impressionou, o eu-lírico da Salma adota a perspectiva em primeira pessoa de uma mulher que decide-se, ao descobrir-se grávida, que o filho “não vai nascer”. Salma Jô canta-nos e convence-nos com uma encarnação (a um só tempo teatral e autêntica!) dos dilemas femininos como são sentidos por dentro. É um antídoto empoderador contra os discursos obscurantistas e fanáticos daqueles que desejam subtrair da mulher seu poder de decidir sobre o seu próprio corpo.

Ava Rocha e Salma Jô

Ava Rocha e Salma Jô

A participação tempestuosa de Ava Rocha, pela primeira vez dividindo o palco com o Carne Doce, foi uma lição a mais de empoderamento e excentricidade. No “Auto das Bacantes”, cantada em dueto com Salma, o chamado é para “tomar os espaços”: “tome espaço do Estado, da polícia, da NSA / da mulher maravilha / e meta um grelo na geopolítica!Ava – responsável por um dos álbuns mais inadjetiváveis da nova música brasileira, Ava Patrya Yndia Yracema (2015), trouxe ao transe carne-dociano um elemento transgressor a mais, subvertendo todos os paradigmas de beleza, como naquele estranho ritual bacântico em que Salma foi “coroada”, não como a crística coroa de espinhos, mas com uma coroa de facas. O público, extasiado, só agradecia às loucuras maravilhosas que via no palco e que provavam a maravilha das rebeldias estéticas e comportamentais. Nossa arte e nossa política só tem a ganhar com o talento e o carisma inestimáveis de mulheres como Salma e Ava.

Foram momentos momento de re-afirmação coletiva da capacidade de dizer não: no caso, não ao retrocesso, não à barbárie, não ao golpismo, não ao capitalismo destroçador de dignidade. Uma ocasião de dizer nãos produtivos e criativos, muito para além da negatividade, numa afirmação de que “eu grito sim / é pra você escutar / que eu quero ver / você fazer / eu me calar!”

Cito a letra de “Passivo”, do Carne Doce, tanto por considerá-la emblemática da qualidade estética estonteante da banda, mas também para destacar outras camadas de sentido que podem ser desveladas na canção. O “não se calar” desta canção, onde o foco narrativo é uma relação amorosa interpessoal, na performance vocal visceral de Salma transita para outro domínio, para outra vibe, e que me parece ter potencial de ser pura dinamite política: é uma voz de autonomia e rebeldia. É o som da lindeza inestimável da insubmissão. É o som que faz o empoderamento do desejo que afirma-se sem pudor nem culpa pois se sabe digno de auto-afirmação plena.

É esplendorosamente subversivo, em especial com a explosão de uma sexualidade indomável dos versos “vem me fuuuuder”“vem me fazer daaaaaaaar!” Ainda que possa soar a alguns ouvidos como pornografia letrística, aos meus ouvidos soa como uma das manifestações mais impressionantes, na nossa música contemporânea, dum brado libertário do Corpo que demanda o seu direito de gozar, que quer dignificar o gozo e desculpabilizar a carne, em insurgência (necessária e urgente) contra todos os estigmas caretas e condenações pias que aniquilam nosso deleite por sermos quem somos e por nos amarmos como nos amamos.

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VI. O ESPLENDOR DA LUTA: JUÇARA MARÇAL EM CARNE VIVA

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Para terminar este relato, não posso deixar de me derreter em adoração pelo esplendor que foi a performance da Juçara Marçal, uma das mais lindas vozes deste nosso Brasil, no Festival Bananada 2016. Um dos momentos mais comoventes do show foi uma interpretação do samba “Opinião”, de Zé Keti, que caiu como uma luva no contexto da crise política brasileira: “Podem me prender / Podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião!”

Estes versos, com um prelúdio em que Juçara alertava que cantaria algo “sobre o Golpe”, ganharam uma nova gama de significados que insuflaram vida nova a esta imorredoura pérola do cancioneiro popular em que o protagonista é a “voz do povo” e a “sabedoria da quebrada”. A visceralidade e a graça que emanam do gogó da Ju Marçal despertaram em mim esperanças de que, mesmo com este grotesco atentado contra o MinC, mesmo com um crápula do DEM tendo recebido o ministério da Educação e Cultura, mesmo com o rolo compressor de esmagar cidadania com que o golpismo galopante já nos atropela, o nosso presente já é de florescimento exuberante de uma “arte-de-resistência”. A cultura autêntica não vai se calar.

Anos atrás, eu tinha visto um show do Metá Metá no CCUFG que havia deixado meus sentidos acachapados de admiração diante de uma bandas mais inovadoras e originais que surgiram no país nos últimos anos. Depois, o “Encarnado”, álbum solo da Juçara, tornou-se um dos meus álbuns prediletos da música brasileira contemporânea, com suas versões ousadas e criativas de Tom Zé, Itamar Assumpção, Siba, dentre outros. Depois do Bananada 2016, não tenho mais dúvidas: Juçara é uma das artistas mais expressivas, inteligentes e sábias que temos entre os vivos. E é em fontes assim que preencho com um bocadinho de esperança um coração e uma mente que, às vezes, diante das escabrosas atrocidades de nossas elites e das castas políticas plutocráticas, ameaçam soçobrar no completo desespero.

Raia a esperança, emanada de João do Vale ou Zé Keti, de Wilson das Neves ou do Aláfia, de Jorge Ben em modo “Záfrica Brasil” ou Juçara Marçal dando vida à pluridiversidade de nossa cultura popular, de que, apesar dos pesares, Nelson Cavaquinho ainda terá a última palavra: “O Sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de voltar aos corações / Do mal será queimada a semente / O amor… será eterno novamente.”

 A “ponte para o futuro” (na real um atalho para o abismo!) que está sendo imposta por aquilo que Noam Chomsky chamou de “golpe brando” (mas que entre nós já recebeu a denominação mais humorística de golpe à paraguaia) é fruto de uma obscurantista e retrógrada elite econômica e política que, sistematicamente derrotada nas urnas nas 4 últimas eleições presidenciais, não conteve seu mandonismo, seu coronelismo, e tomou de assalto o poder de modo fraudulento e ilegítimo.

Algumas das inteligências mais refulgentes e brilhantes da nossa vida política, como o ministro Juca Ferreira e a secretária Ivana Bentes, foram “despedidos” de seus cargos no MinC, como prova cabal de quão deturpado é o juízo dos Temerianos e o quanto eles querem sangrar o Cultura Viva até que se torne um zumbi. Emblemático disso foi que no Rio de Janeiro o monumento na Cinelândia em homenagem a Gilberto Gil, muso tropicalista que tão esplêndidas contribuições fez à nossa cultura popular e um dos mais revolucionários e visionários dos Ministros da Cultura que já tivemos, foi “deletado” do cenário urbano: a tinta cinza dos censores apagou o colorido de Gil horas antes de uma manifestação contra o golpe marcada para aquele local.

Com a nossa cara coletiva toda gotejante depois de tantas cusparadas (há cuspes e cuspes: o de Jean Wyllys é digno de aplausos, pois seria sórdido e grotesco permitir que a apologia da tortura e a prática cruel da homofobia, por parte do Bolsonazista, fosse aceita em silêncio, sem que protestássemos com escarro!), fomos ao Bananada 2016 pra ver se a música lavava a alma de toda esta sujeira. E lavou. O vigor, o poderio, o ruído ensurdecedor feito pelo Bananada 2016, em sua 18a edição, no coração do Cerradão onde repousa a cidade de Brasília, foi um contragolpe à altura das urgências históricas de que somos contemporâneos. A Cultura resiste. O pulso ainda pulsa. Não estamos derrotados. “E eu quero ver / Você fazer / Eu me calar!”

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Maio de 2016

CONFIRA OS VÍDEOS FILMADOS NO BANANADA 2016:







Eles também estão disponíveis no YOUTUBE.

Fotos: ARIEL MARTINI | RAMON ATAIDE E EDUARDO CARLI | PEDRO MARGHERITO

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EM BREVE: DOC COMPLETO: DESLACRANDO A LIBERDADE NO BANANADA 2016

BRASIS EM DISCÓRDIA – 5 artigos sobre a crise política, o processo de “impeachment” e a contenda ideológica do “há um Golpe de Estado ou não?”

AINDA SOBRE CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE

É chegada a hora de se aprofundar a democracia brasileira e de dividirmos, de maneira justa, os nossos direitos e as nossas riquezas.

por Caio Vasconcellos na Carta Maior [http://bit.ly/1VXyLoi]

“O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.”

Carlos Drummond de Andrade,
Alguma poesia.

Tão logo terminou a sessão da Câmara dos Deputados que votara pelo indecoroso processo de impeachment, surgiram as primeiras manifestações – ainda um pouco envergonhadas – de um certo mal-estar com o conteúdo proferido nas falas dos deputados e deputadas favoráveis ao afastamento da Presidenta. Talvez tenha se iniciado entre setores da classe média uma tentativa de conciliação em suas consciências. Embora o baixo nível dos discursos seja algo que sempre possa surpreender, a ninguém é dado o direito de reivindicar inocência. Por um lado, argumenta-se que toda essa baixeza e vilania, cujo ponta-pé inicial fora dado, como bem lembrou o historiador Luiz Felipe de Alencastro, com os xingamentos da plateia-vip à Dilma Rousseff no jogo de abertura da Copa do Mundo de 2014, seriam compensadas pela oportunidade de eliminar a corrupção da política e fazer valer a lei para todos. De maneira cínica e dissimulada, afirma-se que os meios e os personagens do golpe eram os únicos disponíveis e que, dentro em breve, a fúria e as grosserias que ofendem a Presidenta da República atingiriam figuras da estirpe de Michel Temer, Eduardo Cunha, todos os tucanos e tudo o mais que exista e que esteja por aí. Sabe-se, na verdade, que a possibilidade dessa ampliação dos alvos é bastante remota e que tais condutas mal-educadas sempre foram expedientes comuns às nossas elites, mimetizadas pelas camadas médias em seu afã de se mostrarem próximas e confiáveis às esferas de poder.

Nesse pólo da reação conservadora, a propalada crise de representatividade política parece não ter lugar. Via financiamento privado de campanhas, o parlamento se constituiu como cópia fiel dos interesses, da ignorância e da falta de modos dos golpistas de fora do Congresso. Enquanto os pobres, os negros, as mulheres, os homossexuais, os indígenas são claramente subrepresentados no parlamento, a presença massiva de homens brancos, ricos e heterossexuais é assustadora. As torpes motivações e os rasos argumentos presentes no julgamento de exceção do 17 de abril, as propostas higienistas e os discursos de ódio na aprovação da redução da maioridade penal na Câmara e tantos outros maus exemplos do parlamento não diferem em gênero, número ou grau do episódio nefasto na abertura da Copa do Mundo e nem das palavras de ordem misógenas, dos irracionalismos e das bandeiras autoritárias levadas às ruas nas inúmeras manifestações da direita desde o início do ano passado. Embora frequentem os colégios mais caros e tradicionais, estudem nas universidades de maior prestígio no país e ocupem os principais postos de comando na iniciativa privada, no poder judiciário e no setor público, a união construída entre eles e o plagiador de patos da Fiesp, a bancada BBB e a mídia privatista é alinhavada por fantasias paranóicas e por mensagens apócrifas distribuídas pelo Whattsapp e pelas redes sociais, que dificilmente convenceriam qualquer criança em processo de alfabetização.

Diante de um contexto sociohistórico algo distinto, Florestan Fernandes chamou atenção para a premência de uma missão civilizatória a ser desempenhada pelas camadas populares que, desgraçadamente, ainda não se cumpriu. Elaborado às vésperas do golpe civil-militar de 1964, em “A integração dos negros na sociedade de classes” o autor reconstrói com a densidade e a sofisticação costumeiras o longo e tortuoso itinerário histórico de dois movimentos conexos e, a primeira vista, contraditórios. Herdeira de um passado estamental e escravocrata, a formação da chamada “ordem social competitiva” se daria por intermédio – e não apesar – da permanência de segregações raciais e privilégios estamentais. Se nos países centrais do capitalismo, a emergência das sociedades burguesas também propiciara a consolidação de um tipo de dominação democrática e de sua correspondente racionalidade formal, a fraqueza material, a tibieza moral e a indigência intelectual das elites brasileiras combinariam o pior desses dois mundos. Fechando portas de qualquer oportunidade para os ex-escravos e seus descendentes, nossa sociedade turvava o já limitado reino das liberdades burguesas. A única chance de alguma civilidade em nossas práticas sociais mais elementares seria garantida pela conquista pelos negros e pelo povo dos direitos de cidadania que a mesquinha burguesia nacional reservada somente aos seus.

Mutatis mutandis, o Brasil contemporâneo enfrenta dilemas parecidos. O grande processo de integração social levado a cabo pelos governos do Partido dos Trabalhadores enfrenta – por seus méritos e também por seus limites e vícios internos – uma fúria desmedida ora consubstanciada em golpe de estado. Inicialmente, a direita mais raivosa vociferava contra os beneficiários do bolsa-família na esperança de encontrar mão de obra a preços aviltantes para o seu conforto privado. Em seguida, a ampliação dos direitos às trabalhadoras e aos trabalhadores domésticos suscitou reações das mais vergonhosas – assombrando estrangeiros de variadas matizes ideológicas. O sistema de cotas nas universidades, os direitos dos homossexuais e o empoderamento feminino desses últimos tempos também sofreram ataques covardes e reacionários. Por fim, a direita nacional fomenta um discurso vazio da meritocracia, tão enviesado quanto a antiga tese da “democracia racial”. Equiparando os privilégios herdados por gerações, a riqueza fácil da especulação financeira e a inescrupulosa isenção fiscal dos ganhos de capital com o imenso sacrifício de quem chegou somente agora ao ensino superior e sobrevive à estafante jornada que combina trabalho e estudo, a elite brasileira prepara novos diques de contenção para os setores populares – ela e seus seguidores parecem querer voltar a competir somente com os rotos e com os esfarrapados, ainda que para isso tenham que rasgar a ordem constitucional e cobrir de trevas o presente e o futuro da nação.

Quis o destino que mais uma vez a sociedade brasileira se encontre em uma situação de “ponto morto”, a partir da qual toda mudança de direção ainda é possível. Além do valoroso e honrado papel desempenhado por indivíduos e inúmeros movimentos sociais da periferia, há ainda um vasto contingente nos setores populares que não apareceu na luta. Se os equívocos e as escolhas dos governos petistas suscitam, legitimamente, muitas desconfianças, um governo ilegítimo de nossas elites não deixa restar qualquer dúvida. É chegada a hora de se aprofundar a democracia brasileira e de dividirmos, de maneira justa, os nossos direitos e as nossas riquezas. Para tanto, a periferia tem que conquistar o seu protagonismo histórico e civilizar definitivamente nossa elite e nossa sociedade. Do contrário, o Brasil voltará a ser conduzido por aqueles que têm tão pouco apreço pelo país, pela igualdade e pelas liberdades, cavando uma rota turva, grosseira e mal-direcionada sem nenhuma previsão de final feliz.

Caio Vasconcellos é doutor em Sociologia pela USP e autor do livro “O Moloch do Presente – Adorno e a crítica à sociologia”.

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O BALANÇO DA BOSSA DO GOLPE

Flávio Aguiar no Blog da Boitempo Editorial

“Conhecemos a máxima de Lincoln: é possível enganar todos por algum tempo; alguns o tempo todo; mas não todos por todo o tempo.

Mas no Brasil – também na Argentina – estamos diante de uma nova bossa. Para dar um golpe, basta enganar muitos por bastante tempo. E depois o resto – inclusive o bagaço dos enganados – que se virem.

É verdade que na Argentina, no ano passado, não houve um golpe. Mas a tática usada para garantir que Macri ganhasse a eleição e conseguisse instalar seu programa de governo foi a mesma usada no Brasil para montar o golpe que está em curso.

O esquema foi igual: pressão contínua e mentirosa da mídia oligárquica, mais abusos coordenados a partir de setores do judiciário, perseguição a líderes oposicionistas, plantação de noticiário diversionista para desviar a atenção quando denúncias surgiam sobre figuras da direita. Na Argentina isto aconteceu em relação às denúncias das operações offshore de Macri e familiares, quando da revelação dos “Panamá Papers”. Imediatamente juízes denunciaram Cristina Kirchner por irregularidades que passaram a ocupar as manchetes de La Nación e El Clarín, os conglomerados que querem comandar – e cercear – a informação no país vizinho.

No Brasil é evidente a agressão dos vazamentos da Lava-Jato ao ex-presidente Lula e à presidenta Dilma e o quanto eles e a mídia golpista poupam as figuras da oposição.

Fica evidente, através da comparação dos dois casos, que a tática, sendo a mesma, tem uma origem comum, provavelmente, e há muitos indícios nesta direção, provinda dos estados Unidos. Antigamente, logo depois da Segunda Guerra, o ex-presidente republicano e general Dwight Eisenhower alertou sobre a existência de um “complexo industrial-militar” que, na verdade, comandava os Estados Unidos. Hoje pode-se falar num complexo sistema de informação reunindo agencias como a National Security Agency, empresas de terceirização da espionagem e de inteligência, ONGs e Think Tanks que certamente forjaram este treinamento para elementos dos sistemas judiciários dos países da América Latina, além de órgãos de segurança, como as polícias federais respectivas e adjacências.

Junto com este esquema, é indispensável contar com a operação midiática que bombardeie com constância frases e manchetes que cativem as mentes e corações dos que querem ser cativados, é bom que se diga, convencendo as pessoas de platitudes vazias, como a de que “sim, sempre houve corrupção, mas o PT a institucionalizou”, quando não convencendo os mais afoitos em acreditar em qualquer coisa que proteja o que veem como seu direito a privilégios, que foi o PT que a inventou.

Fica claro o objetivo deste estupro da inteligência ao se considerar que o “futuro governo” de Michel Temer já acena com os corte dos direitos trabalhistas, da suspensão da obrigatoriedade de investimentos em educação e segurança e de cortes nos programas sociais, até com afirmações de que o Bolsa Família está “inchado”. Estes arautos da regressão histórica aos tempos da República Velha estão convencidos, e trabalham com o sentimento difuso em parcelas de nossas elites e classes medias de que o Brasil precisa mesmo ter um “exército de reserva miserável” para funcionar, para manter a percepção de que direitos são privilégios de classe. Este golpe armado precisa também desconstruir a narrativa de que os governos petistas melhoraram a condição de vida da população. Seu objetivo maior é “desconvencer” o povo de que ele tem direito a ter direitos.

Para tanto, estes golpistas dispersos em toda a parte, mas sobretudo concentrados em aparelhos de Estado não estão hesitando em dar um golpe que, além de cobrir o Brasil de descrédito em escala mundial, vai potenciar a corrupção, agora sim, como nunca se viu antes nesta uma vez chamada de Terra dos Papagaios, agora se transformando na República dos Bananas. Não que todos sejam bananas, porque é possível que alguns sejam bananas o tempo todo, mas é impossível que todos sejam bananas todo o tempo. Mas basta um bando de bananas por algum tempo, para abrir o bananal à sanha da direita.” – F. AGUIAR

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perez-esquivel

Revista Caros Amigos: “O discurso no Senado do argentino Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz de 1980, que denuncia o golpe de Estado em curso no Brasil [ASSISTA: https://youtu.be/EhUUyjpfWms], vai repercutir internacionalmente e desgastar ainda mais o vice-presidente, Michel Temer, que atua para derrubar a presidente Dilma Rousseff do cargo. Essa é a opinião do cientista político e professor da USP – Universidade de São Paulo, Antonio Carlos Mazzeo.

“A fala do Esquivel (nesta quinta, 28) é um duro golpe nos que trabalham pelo impeachment. Expressa uma tendência internacional que não aceita a forma como está se dando esse processo. Temer não terá legitimidade nem dentro nem fora do país”, enfatiza.

“Aqui vai enfrentar a resistência de todos os grupos que defendem a democracia: MST, MTST, LGBTs, etc. E no exterior ele (Temer) também não encontrará a legitimidade para um eventual governo. O fato de ser um Prêmio Nobel da Paz a denunciar isso tem um impacto enorme. O desgaste é enorme para aqueles que estão capitaneando o impeachment.”

Por isso, o discurso de Esquivel irritou tanto o senador e latifundiário Ronaldo Caiado (DEM-GO), que exigiu a retirada da palavra golpe das notas taquigráficas dos anais do Senado. “É inaceitável manipular a fala de uma personalidade como Esquivel. Isso é gravíssimo. Um senador não pode suprimir o discurso de um Prêmio Nobel”, critica.

O senador Paulo Paim (PT-RS), que presidia os trabalhos, acabou cedendo à pressão do ruralista. Para Mazzeo, Paim errou ao acatar a supressão da palavra golpe dos anais da Casa.

“Venho aqui ao Brasil trazendo a solidariedade e o apoio de muita gente da América Latina e a minha pessoal que se respeite a continuidade da Constituição e do direito do povo a viver em democracia”, frisa o Prêmio Nobel. “Creio que neste momento há grande dificuldade (gerada) de um possível golpe de Estado. E já se utilizou esse mecanismo de funcionamento em outros países do continente, como Honduras e Paraguai”, ressalta.

Leia também:

EBC & Socialista Morenahttps://www.facebook.com/blogacasadevidro/posts/1402311376461850

Antonio Carlos Mazzeo explica Marxismo:

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Ciruja

PONTE PARA O ABISMO
Por Luiz Bernardo Pericás, Boitempo Editorial

Nos pântanos de Brasília, os conspiradores se reúnem nos bastidores para efetivar o golpe institucional em curso. Serpentes, abutres e tucanos, sorrateiramente, planejam a cada dia os novos rumos políticos que querem impor ao país. No centro das discussões, o famigerado programa “Uma ponte para o futuro”, elaborado pelo PMDB, o qual, apesar do nome, mais se parece com a ciclovia da Niemeyer, no Rio: uma passarela suspensa, mal construída, que levará a nação para o abismo. Os retrocessos serão enormes e a possibilidade de se implementar uma agenda popular, progressista, será jogada para escanteio imediatamente após a usurpação do poder.

O documento, em tom messiânico, se propõe a “buscar a união dos brasileiros de boa vontade”, já que “o país clama por pacificação pois o aprofundamento das divisões e a disseminação do ódio e dos ressentimentos estão inviabilizando os consensos políticos”. Além disso, segundo os arautos do Apocalipse que escreveram esta pérola, “o Brasil gasta muito com políticas públicas”. Na prática, consensos políticos não virão, o ódio aumentará e o uso da força contra a oposição democrática de esquerda também. Já se pode esperar resistência nas ruas. E uma ofensiva enérgica das elites. Em nome da “paz”, da “ordem” e da “governabilidade”, não se aceitarão manifestações que ultrapassem os limites que “eles” irão estabelecer. O resultado: mais soldados da tropa de choque agredindo militantes, incremento de processos judiciais, novas prisões. Afinal de contas, a criminalização dos movimentos sociais não é novidade: é só lembrar da duríssima repressão aos professores grevistas em Curitiba no ano passado e o assassinato de dois trabalhadores rurais no Paraná recentemente pelos “agentes da lei”, em ambos os casos, na gestão do governo estadual encabeçado pelo PSDB. Os cães de guarda do patronato, dos grandes bancos e das corporações não terão pudor em passar o trator por cima de qualquer um que proteste com maior afinco. A agressividade por parte das autoridades tende a se ampliar…

O projeto em questão, que pode levar o Brasil para as trevas, sugere acabar com os vínculos constitucionais no orçamento, tendo como objetivo retirar direitos trabalhistas, como o abono salarial, o seguro-desemprego e o auxílio-doença. O salário mínimo, por sua vez, deve ser desvinculado da inflação, enquanto os aposentados receberão menos que o piso salarial. Já o ProUni e a Bolsa Família serão afetados e a reforma da previdência, acelerada. A educação e saúde, neste caso, fragilizadas…

Uma onda de privatizações deve vir a seguir. “Uma ponte para o futuro”, que pretende redefinir o papel do Estado (ao tentar consolidar um “Estado mínimo”, enxuto e supostamente eficiente), incrementar a participação da iniciativa privada, flexibilizar o mercado de trabalho e ampliar a concorrência internacional, abrirá de maneira escancarada as portas para a venda do patrimônio nacional. A partir daí, a relação dos “entreguistas” de plantão com os interesses do imperialismo se tornarão explícitas. Essa gente, por sinal, tem rosto e nome: Temer, Aécio, Skaf, Serra, Cunha e sua quadrilha (com todo o apoio da Fiesp, CNI e similares), irão se refestelar nos palácios da capital, com a anuência do Supremo, que garantirá que o processo seja levado a cabo com a mais absoluta aparência legal e constitucional, como tem feito até agora.

É bem verdade que uma agenda mais radical e progressista não vinha sendo implementada pelo governo Dilma. Muito pelo contrário. A escolha de Joaquim Levy e Kátia Abreu (entre outros) para ministérios importantes, a assinatura da “lei antiterrorismo”, o aumento da concentração de terras no campo, o avanço do agronegócio, as alianças espúrias, a financeirização da economia, a despolitização dos debates políticos e uma agenda fiscal lastimável são alguns traços desta administração. De qualquer forma, um governo Temer acelerará todas essas tendências e permitirá que os grupos mais conservadores e reacionários do Congresso possam impor sua linha nefasta, o que representaria um retrocesso ainda maior dos direitos e garantias sociais.

O fato é que o mundo inteiro sabe o que acontece no Brasil. E se mobiliza contra o golpe. É só lembrar que o Secretário Geral da OEA, o Secretário Geral da UNASUL e o Alto Comissário de Direitos Humanos já soltaram notas oficiais contra o processo golpista no país. O mesmo o fizeram os presidentes do Equador, Venezuela, Bolívia e Cuba, assim como uma figura respeitada mundialmente como José Mujica. Dentro do Mercosul há quem defenda que o Brasil seja suspenso caso vingue a fraude em andamento. Isso para não falar dos mais importantes artistas, intelectuais e juristas brasileiros. Até a imprensa internacional (revistas e jornais dos Estados Unidos e Europa), criticam o que se passa por aqui, caracterizando o quadro geral como um atentado à democracia. Temer (que provavelmente nunca ganharia sequer uma eleição para síndico de condomínio) não terá, portanto, qualquer legitimidade para governar.

Mas há outra variável que deve ser levada em conta. A crise atual, por pior que seja, está reenergizando as mobilizações sociais e poderá aglutinar a esquerda. E isso é um alento. Que os nossos santos padroeiros, São Marx e São Lenin, nos ouçam. E nos ajudem. A luta será longa…

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Luiz Bernardo Pericás
é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de “Caio Prado Júnior: uma biografia política” (2016), “Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica” (2010), do romance “Cansaço, a longa estação” (2012) e da coletânea “Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados”, organizado em conjunto com Lincoln Secco. Também publicou “Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia” (Xamã, 1997), “Um andarilho das Américas” (Elevação, 2000), “Che Guevara and the Economic Debate in Cuba” (Atropos, 2009) e “Mystery Train” (Brasiliense, 2007). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

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cuspeNA NOITE DA INFÂMIA, SÓ O CUSPE ME REPRESENTA
por Gilson Iannini na Revista CULT

“Enquanto impera a mentira e o ódio, para que a verdade possa falar, é preciso, de alguma forma, interromper a farsa, suspender o regime discursivo que instalara a infâmia como regra do jogo. Apenas um ato, no sentido lacaniano do termo, seria capaz de estancar o fluxo regrado da farsa. Não adianta, para isso, contrapor argumentos ou apontar contradições ou inconsistências. A farsa não é sensível à argumentação lógica. Interessado em investigar as consequências psíquicas da guerra, Freud escreve: “logo, argumentos lógicos seriam impotentes perante os interesses afetivos e, por isso, a contenda com fundamentos, que segundo Falstaff são tão comuns como as amoras, é tão infrutífera no mundo dos interesses. (…) A cegueira lógica que esta guerra magicamente provocou, justamente nos nossos melhores concidadãos, é, portanto, um fenômeno secundário, uma consequência da excitação dos sentimentos que esperamos poder ver desaparecer junto com ela”.

Pois todo o universo que orbita em torno de Cunha, naquele momento, é regido pela farsa e pela hipocrisia. Num universo presidido pela hipocrisia, tudo é permitido. A palavra “hipocrisia” vem do grego. Segundo registra o Houaiss, designa a “ação de desempenhar um papel, uma peça, uma pantomima; desempenho teatral, declamação; simulação, dissimulação, falsa aparência”. A conotação de “dissimulação” consolida-se apenas na baixa Idade Média, depois que um dos principais tradutores da Bíblia para o latim, São Jerônimo, emprega o termo para designar os falsos cristãos, aqueles devotos, muitas vezes fervorosos, que pregam a palavra de Deus, mas que agem contrariando aquilo que pregam.

Quando uma sessão solene do Congresso nacional é instalada, ironicamente no horário da missa dominical, sob o signo da hipocrisia, regida por um corrupto contumaz, capaz de evocar a misericórdia divina, naquele instante tudo é corrompido, tudo é corrupção: corrupção das palavras e dos gestos, corrupção das instituições e pantomima dos ritos. Não custa lembrar o sentido filosófico da palavra corrupção: corrupção, por exemplo, é fazer com que algo que existe passe a não existir, ou algo que não existe passe a existir. Não há decoro possível em nenhuma palavra, em nenhum procedimento. Por isso, palavras como, “Deus”, “justiça”, “liberdade” e “nobreza” estavam completamente esvaziadas de conteúdo semântico ou corrompidas: “em nome de Deus”, “em prol da justiça”, “para libertar o Brasil”, “meus nobres deputados aqui presentes” etc. são expressões que designam, no melhor dos casos, nada; no pior dos casos, o contrário do que dizem. Não custa também lembrar que, como demonstrou Freud, às vezes, quando vigora a lógica inconsciente, palavras podem reativar sentidos antitéticos, significando justamente o contrário de seu valor de face. Aliás, o poeta Schiller lembrava que a insistência com que uma época fala da moralidade e de façanhas morais singulares seria um sintoma inequívoco de debilidade cultural.

Tudo ali era vilania e desprezo. Tudo ali era exceção. Nada ali emana do decoro. Quantos nobres deputados, sabidamente corruptos, não levantaram a voz, dedo em riste, para bradar em nome de Deus, da justiça e da liberdade, contra a corrupção? Não custa lembrar que a sessão plenária do último domingo sequer tinha por objeto analisar corrupção, de que a presidente nunca foi formalmente acusada. É de deixar pasmo qualquer ser humano pensante que apenas uma ou duas dúzias de deputados (de um lado ou de outro) tenham se referido ao objeto em pauta: uma dúzia disse que a presidente cometeu crime de responsabilidade, outra dúzia que não cometeu. Esses não faltaram com o decoro. Também não faltaram com o decoro aqueles que denunciaram o caráter farsesco do processo. Os demais fizeram o voto Xuxa: “queria mandar um beijo para minha mãe, meu pai e para você”, como rapidamente o povo percebeu. Mas nada disso deveria nos espantar. Na verdade, a votação no Congresso espelha a verdade de nossa sociedade: a absoluta maioria das pessoas, de um lado como de outro, é incapaz de meditar, de refletir, de pensar criticamente e de se ater a alguma coisa perto da sensatez ou dos fatos, agindo por ódio surdo ou por amor cego.

Nesse contexto, que um deputado possa dedicar seu voto à memória de um torturador não deveria chocar. Ao contrário, trata-se de uma consequência inevitável. O coronel Brilhante Ustra, louvado por Bolsonaro, como “o pavor de Dilma Roussef”, não é um torturador qualquer. É um dos mais conhecidos, não apenas por sua crueldade, mas também por seu papel de comando. Quando um “nobre deputado” evoca seu nome no instante em que vota pelo impedimento de uma de suas vítimas, não há humanidade, nem decoro, apenas vilania. Quando este nobre deputado confessa a similaridade entre 1964 e 2016, ele diz a verdade que outros tentam encobrir com um véu. Mais ainda. Bolsonaro foi um dos poucos que elogiou entusiasmadamente a condução do processo por Eduardo Cunha. Nada mais consistente. Nada mais significativo.

Como interromper tal espetáculo da infâmia? Quando a palavra se descobre esvaziada, escassa, flatus vocis, impossível não lembrar de Goethe: “No princípio era o ato.” No momento em que, depois da aviltante declaração de obediência ao mais hediondo dos crimes, os nobres deputados se calam diante da infâmia, “as pedras gritam”. Esta metáfora remonta ao episódio da descida do monte das Oliveiras e da triunfal entrada de Jesus em Jerusalém (Mt 21,1-9; Mc 11,1-10). Enquanto a multidão louvava, alguns fariseus pediram a Jesus que repreendesse o fervor de seus discípulos. Ao que ele respondeu “se eles se calam, as pedras gritam”. Jean Wyllis não se calou. Foi o poeta da educação pela pedra, no sentido poético de João Cabral. O cuspe contra a bala, já que a palavra não tem valor nenhum.

Mas o cuspe de Jean Wyllis acabou ferindo a fina e seletiva sensibilidade da burguesia nacional. O cuspe seria um ato de alguém sem caráter, de um veado desqualificado, que não recebeu educação em casa e coisas que tais. É mais ou menos o que se lê nos comentários de internautas nos grandes jornais. Curioso. Essa sensibilidade escandalizada pelo cuspe, todavia, acolhe com indiferença, ou até mesmo com fingido escândalo, o elogio proferido por Bolsonaro ao torturador Brilhante Ustra. Não basta dizer que ele foi um torturador e que, por mimese, Bolsonaro também sonha em sê-lo. Se fizermos uma “descrição definida” desse nome, essa descrição tinha que conter coisas como: cadeira do dragão, choques na genitália, mamilos dilacerados, crânios apertados com torniquete, unhas arrancadas, ossos quebrados, assassínios cruéis em nome do Estado etc. Tinha que conter nomes como Auroras, Amélias, Claras, Dilmas, entre tantos outros. Quando Bolsonaro refere aquele nome, ele evoca tudo isso. Ele traz para dentro do Congresso Nacional o elogio à tortura e a apologia ao crime. Com um sorriso no rosto e com o benemérito da elite financeira de nosso país.

Alguém pode dizer que Bolsonaro é um caso isolado. Não é. Ele figura com algo entre 6% e 8% das intenções de voto, em quarto lugar em todos os cenários pesquisados pelo Datafolha. Não é pouco, para alguém que é declaradamente fascista. Mas o pior não é isso. Como notou recentemente Fernando de Barros e Silva, “entre os que têm renda familiar mensal superior a 10 salários mínimos (…), Bolsonaro lidera a corrida presidencial. Num dos cenários, chega a ter 23% das preferências dos eleitores mais aquinhoados.” (Veja aqui: http://bit.ly/1VeLt1N). Quer dizer que quase um quarto da elite econômica brasileira gostaria de ver um fascista, que faz apologia da tortura mais cruel, na presidência da República. Não espante que batam panelas, que inflem patos, que presenteiem seus filhos com bonecos infláveis de Lula presidiário. Tudo isso embrulhados na bandeira nacional e entoando o hino.

Jean Wyllis não quebrou o decoro parlamentar. Porque o decoro não havia sequer sido instalado. Não há como quebrar algo que não existe. Eduardo Cunha, sim, quebrou o decoro com sua primeira frase, com o simples gesto de sentar-se à cadeira e de presidir o processo. Na falta de decência, foi seguido por muitos. Segundo, outra vez, o Houaiss, decoro designa não apenas decência, acatamento das normas e seriedade nas maneiras, mas também “adequação do tema ao estilo literário”. Neste sentido, a imensa maioria dos deputados quebrou o decoro. Quantos observaram alguma decência, alguma seriedade, alguma adequação ao tema? Uma irrisória minoria, tanto de sins, quanto de nãos.

Neste sentido, o gesto de Jean Wyllis é um ato poético, um ato de caridade e de amor. Um ato verdadeiramente cristão. Tanto mais quanto não foi apenas obra do calor do momento, mas foi efeito de um cálculo político rigoroso. Ele interrompe a razão desvairada e repõe a verdade em seu devido lugar: mostra que infâmia é infâmia, que farsa é farsa, que violência é violência, que guerra é guerra. Sem mais. Ele redime todos os brasileiros que repudiam a tortura e o golpe, qualquer que seja sua face.

Obtuso, o nobilíssimo deputado Bolsonaro talvez não tenha percebido o verdadeiro significado do cuspe que recebeu em pura dádiva. Ele foi presenteado com um raro ato de caridade cristã. Ele foi presenteado com uma flor de saliva, que devolveu com poesia as fezes que esgotam e abundam em cada uma de suas palavras infames (e também nos gestos de seus descendentes e fiéis). A saliva de Jean faz ver seu rosto ainda mais Brilhante, faz l’Ustrar seu verdadeiro eu.

O cuspe pode curar, como faz uma mãe zelosa ao passar um pouquinho de saliva no dodói de sua criança. O cuspe pode ensinar a ver que em seu espelho, no lugar do seu rosto, figuram a cadeira do dragão, os choques nas genitais, os olhos saltados, as crianças pequenas obrigadas a presenciar o suplício de suas mães. Pode ensinar a seus fãs que seu amor às crianças, evocado em seu pronunciamento, não passa de uma piada de mau gosto. Deus permita que a saliva de Jean Wyllis possa lavar seu rosto, salvar sua alma, desarmar seu coração e seu cinturão. Recebe, Jair, essas flores cuspidas com carinho.

Na noite da infâmia, só o cuspe me representa.”

Gilson Iannini

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“QUEM DEU O GOLPE, E CONTRA QUEM?”

 por Jessé Souza, sociólogo, professor da UFF (RJ), presidente do Ipea Instituto de Pesquisa, em artigo para a Ilustríssima da Folha de S.Paulo

O golpe foi contra a democracia como princípio de organização da vida social. Esse foi um golpe comandado pela ínfima elite do dinheiro que nos domina sem ruptura importante desde nosso passado escravocrata.

O ponto de inflexão da história recente do Brasil contra a herança escravocrata foi a revolução comandada por contraelites subordinadas que se uniram em 1930.

A visão pessoal de Getúlio Vargas transformou o que poderia ter sido um mero conflito interno de elites em disputa em uma possibilidade de reinvenção nacional.

O sonho era a transformação do Brasil em potência industrial com forte mercado interno e classe trabalhadora protegida, com capacidade de consumo. Nossa elite do dinheiro jamais sequer “compreendeu” esse sonho, posto que “afetivamente” nunca sentiu compromisso com os destinos do país.

Desde então o Brasil é palco de uma disputa entre esses dois projetos: o sonho de um país grande e pujante para a maioria; e a realidade de uma elite da rapina que quer drenar o trabalho de todos e saquear as riquezas do país para o bolso de meia dúzia.

A elite do dinheiro manda pelo simples fato de poder “comprar” todas as outras elites.

É essa elite, cujo símbolo maior é a bela avenida Paulista, que compra a elite intelectual de modo a construir, com o prestígio da ciência, a lorota da corrupção apenas do Estado, tornando invisível a corrupção legal e ilegal do mercado que ela domina; que compra a política via financiamento privado de eleições; e que compra a imprensa e as redes de TV, cujos próprios donos fazem parte da mesma elite da rapina.

De acordo com a conjuntura histórica, sempre que o Executivo está nas mãos do inimigo, imprensa e Congresso, comprados pelo dinheiro, se aliam a um quarto elemento que é o que suja as mãos de fato no golpe: as Forças Armadas antes, e o complexo jurídico-policial do Estado hoje em dia.

A história do Brasil desde 1930 é um movimento pendular entre esses dois polos. Getúlio caiu, como o desafeto histórico maior desta elite, por um conluio entre Congresso comprado, imprensa manipuladora e Forças Armadas que se imaginavam pairar acima dos conflitos sociais.

O suicídio do presidente adia em dez anos o golpe formal, que acontece em 1964 pela mesma articulação de interesses. O curioso, no entanto, é que dentro das Forças Armadas existia a mesma polarização que existia na sociedade.

INFRAESTRUTURA

O nacionalismo autoritário das Forças Armadas articula, por meio do 2º PND (Plano Nacional de Desenvolvimento) do presidente Geisel, uma versão ambiciosa do sonho getulista: investimento maciço em infraestrutura e setores-chave da vanguarda tecnológica com a disseminação de universidades e centros de pesquisa em todo o país.

Ainda que o capital privado fosse muito bem-vindo, a condução do projeto de longo prazo era do Estado. Foi o bastante para que os jornais se lançassem em uma batalha ideológica contra a “república socialista do Brasil” e os empresários descobrissem, de uma hora para outra, sua inabalável “vocação democrática”.

O processo de redemocratização comandado pela elite do dinheiro tem tal pano de fundo. As Diretas-Já, na verdade, espelham a volta da rapina de curto prazo e uma nova derrota do sonho de um “Brasil grande”.

Aqui já poderia ter ocorrido a conscientização de que a rapina selvagem é o fio condutor, e que a forma autoritária ou democrática que ela assume é mera conveniência. Mas o processo de aprendizado foi abortado. O público ficou sem saber por que o golpe tinha ocorrido e, depois, por que ele havia sido criticado. Criou-se uma anistia do “esquecimento” no mesmo sentido da queima dos papéis da escravidão por Rui Barbosa: para que jamais saibamos quem somos e a quem obedecemos.

Com o governo FHC, essa elite da rapina de curto prazo se insere, enfim, não apenas no mercado mas também, com todas as mãos, no Estado e no Executivo.

A festa da privatização para o bolso da meia dúzia de sempre, da riqueza acumulada pela sociedade durante gerações, se deu a céu aberto. A maior eficiência dos serviços, prometida à sociedade e alardeada pela imprensa, sempre solícita e sócia de todo saque, se deixa esperar até hoje.

Como uma imprensa a serviço do saque e do dinheiro não pode fazer todo mundo de tolo durante todo o tempo, e como ainda existem sonhos que o dinheiro não pode comprar, o Executivo mudou de mãos em 2002.

O novo governo tentou o mesmo projeto desenvolvimentista anterior, de apoio à indústria e à inteligência nacional. Mas seu crime maior foi a ascensão dos setores populares via, antes de tudo, a valorização real do salário mínimo.

Os mais pobres passaram a ocupar espaços antes exclusivos às classes do privilégio.

Parte da classe média sofria profundo incômodo diante dessa nova proximidade em shopping centers e aeroportos, mas “pegava mal” expressar o descontentamento em público. Pior, a classe média temia que essa classe ascendente pudesse vir a disputar os seus privilégios e os seus empregos.

O discurso da “corrupção seletiva” manipulado pela mídia permite que se enfrente agora o medo mais mesquinho com um discurso moralizador e uma atitude de pretenso “campeão da moralidade”. O que antes se dizia a boca pequena entre amigos agora pode ser dito com a camisa do Brasil e empunhando a bandeira nacional. Está criada a “base popular”, produto da mídia servil à elite da rapina.

A luta contra os juros desencadeada pela presidente Dilma em 2012 reedita a eterna crença da esquerda nacionalista brasileira na existência de uma “boa burguesia”, ou seja, a fração industrial supostamente interessada em um projeto de longo prazo de fortalecimento do mercado interno.

Mas todas as frações da elite já mamam na mesma teta dos juros altos que permite transferir recursos de todas as classes para o bolso dos endinheirados de modo invisível, funcionando como uma “taxa” que encarece todos os preços e transfere parte de tudo o que é produzido para os rentistas –inclusive da classe média feita de tola pela imprensa comprada.

Quando em abril de 2013 as taxas de juros voltam a subir, a elite está armada e unida contra a presidente. As “jornadas de junho” daquele ano vêm bem a calhar e, por força de bem urdida campanha midiática, transformam protestos localizados em uma recém-formada coalizão entre a elite endinheirada e a classe média “campeã da moralidade e da decência” contra o projeto inclusivo e desenvolvimentista da esquerda.

Como os votos dos pobres recém-incluídos são mais numerosos, no entanto, perde-se a campanha de 2014. Mas a aliança entre endinheirados e moralistas de ocasião se mantém e se fortalece com um novo aliado: o aparato jurídico-policial do Estado.

Construído pela Constituição de 1988 para funcionar como controle recíproco das atividades investigativas e jurisdicionais, todo esse aparato passa por mudanças expressivas desde então. Altos salários e demanda crescente por privilégios de todo tipo associados ao “sentimento de casta” que os concursos dirigidos aos filhos das classes do privilégio ensejam transformam esses aparelhos que tudo controlam, mas não são controlados por ninguém, em verdadeiros “partidos corporativos” lutando por interesses próprios dentro do aparelho de Estado.

A manipulação da “corrupção seletiva” pela imprensa é o discurso ideal para travestir, também aqui, os mais mesquinhos interesses corporativos em suposto “bem comum”. O troféu de “campeão da moralidade pública” passa a ser disputado por todas as corporações e se estabelece um conluio entre elas e a imprensa, que os vazamentos seletivos cuidadosamente orquestrados comprovam tão bem.

Esse é o elemento novo do velho golpe surrado de sempre. Ainda que o golpe tenha se dado no circo do Congresso em uma palhaçada denunciada por toda a imprensa internacional, sem o trabalho prévio dos justiceiros da “justiça seletiva” ele não teria acontecido.

O Estado policial a cargo da “casta jurídica” já está sendo testado há meses e deve assumir o papel de perseguir, com base na mesma “seletividade midiática”, o princípio: para os inimigos a lei, e para os amigos a “grande pizza”.

A “pizza” para os amigos já está em todos os jornais e acontece à luz do dia. O acirramento da criminalização da esquerda é o próximo passo. Esse é o maior perigo. Muita injustiça será cometida em nome da Justiça.

Mas existe também a oportunidade. Nem toda classe média é o aprendiz de fascista que transforma seu medo irracional em ódio contra os mais fracos, travestindo-o de “coragem cívica”.

Ainda que nossa classe média esteja longe de ser refletida e inteligente como ela se imagina, quem quer que tenha escapado do bombardeio diário de veneno midiático com dois neurônios intactos não deixará de estranhar o mundo que ajudou a criar: um mundo comandado por um sindicato de ladrões na política, uma justiça de “justiceiros” que os protege, uma elite de vampiros e uma sociedade condenada à miséria material e à pobreza espiritual. Esse golpe precisa ser compreendido por todos. Ele é o espelho do que nos tornamos.

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JESSÉ SOUZA, 56, autor de “A Tolice da Inteligência Brasileira” (Editora Leya, compre na Estante Virtual), presidente do Ipea, é professor titular de ciência política da UFF e foi professor convidado na Universidade de Bremen. As ilustrações do post são de Angeli.

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Entrevista com o sociólogo Jessé Souza, presidente do Ipea, no programa “Espaço Público” (da TV Brasil – EBC, 59 minutos de duração): “Golpe não tem relação com combate à corrupção; é rapinagem.”

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