PÓ DE SER: “A DANÇA DA CANÇÃO INCERTA” – Conheça um dos álbuns de estréia mais incríveis da música brasileira em 2015

A DANÇA DA CANÇÃO INCERTA

por Eduardo Carli de Moraes

“A vida é mais bela quando a surpresa a espreita.”
PÓ DE SER

Do pó viemos e ao pó retornaremos, não há escapatória. Porém, nesse meio tempo, estes seres incandescentes que provisoriamente somos têm na ARTE uma das aliadas mais preciosas para que o viver, ainda que efêmero e repleto de incertezas, valha a pena. Neste ano de 2015, repleto de sensacionais lançamentos na música brasileira (Elza Soares, Bixiga 70, Cidadão Instigado, Lenine, Karina Buhr, Emicida, Siba, Mari Aydar, Rodrigo Campos, Boogarins, BNegão, Los Porongas, dentre outros) – uma bandaça de Goiânia, o Pó De Ser, lançou um belíssimo disco de estréia, A Dança da Canção Incerta (2015, 54 minutos, baixe já). Abrir-se ao influxo destas canções tão cheias de vida, deixar-se penetras por estas músicas que parecem ter sangue quente correndo em suas veias de som, leva a dar razão a Nietzsche: de fato, “sem música a vida seria um erro!” 

Pó de Ser

Gravado no Rocklab Produções Fonográficas e produzido pelo “Mestre” Gustavo Vazquez (responsável por premiados trabalhos com Macaco Bong, Black Drawing Chalks, Violins, Overfuzz, dentre outros), o disco da Pó de Ser é uma viagem estética exuberante, que expande os horizontes da Canção ao explorar suas múltiplas potencialidades sonoras e poéticas. Segundo a libertária concepção do Pó De Ser, a canção tem vocação pra ser de tudo: reflexão filosófica, confissão existencial, crítica social, crônica do cotidiano, retrato da metrópole, balada erótica, lisergia surreal, exercício de ufologia… Em suma: “tudo pode ser”.

Por ser uma banda sem ortodoxia e que não se agarra a nenhum gênero específico, a Pó de Ser escapa de ser capturada por qualquer rótulo. Tanto que a tarefa de encontrar uma etiqueta se torna uma divertida pilhéria: “Pó de Ser é vintage futurista, vanguarda ‘dodecafona’, pop experimental, cultbrega, regional intergaláctico”, arrisca Kleuber Garcez.

As letras por Diego de Moraes e Kleuber Garcez – dupla de parceiros responsáveis pelas composições – são repletas de referências e citações, mas nem por isso deixam de soar originais e autênticas, mesmo quando a tática posta em prática é a do pot-pourri. Em “Cuidado”, por exemplo, eles amarram as idéias através de menções a clássicos da música popular brasileira: “Iracema”, de Adoniran Barbosa; “Chão de Estrelas”, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa (já gravada pelos Mutantes); “Na Terra Como No Céu”, de Geraldo Vandré; e “Nego Dito”, de Itamar Assumpção (uma figura idolatrada pelos integrantes da banda e que mereceu ainda uma releitura de sua canção “Leonor”).

Uma das virtudes mais evidentes da banda está em seu esmero poético e em seu lirismo multifacetado. Da utopia antropofágica de Oswald de Andrade às renovações estéticas do Tropicalismo, dos poetas marginais da geração mimeógrafo (Torquato Neto, Waly Salomão, Capinan, Leminski, Nicolas Behr etc.) aos compositores-cantores “malditos” (Sérgio Sampaio, Jards Macalé, Itamar Assumpção…), tudo entra no liquidificador linguístico da banda, onde as palavras pegam fogo e ganham inusitados sentidos. “Afina a viola e vai tocar o seu destino!”, cantam logo nos primeiros minutos do disco, na ousada “Pode Apostar”, que conta com participação guitarrística de Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, que toca também na faixa de encerramento, “Pó de Ser”.

Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, é um dos convidados especiais do Pó de Ser: o músico toca guitarra na primeira e na última faixa de "A Dança da Canção Incerta"

Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, é um dos convidados especiais do Pó de Ser: o músico toca guitarra na primeira e na última faixa de “A Dança da Canção Incerta”

A brasilidade é explícita pelo disco afora – que por vezes remete também à obra de Raul Seixas, Luiz Tatit, Odair José ou André Abujamra – mas isso não impede o Pó de Ser de dialogar também com a (contra)cultura gringa, em especial hippies, beatniks e gurus da psicodelia. Em “Venha Ver O Sol”, por exemplo, eles saúdam os Beatles com uma canção que parece misturar a vibe de “Here Comes The Sun” (de George HarrisonAbbey Road) e “Lucy In The Sky With Diamonds” (de Lennon e McCartney @ Sgt. Peppers), mas que acolhe também menções ao clássico de Bob Dylan (“Like a Rolling Stone”), ao James Dean de Juventude Transviada, ao romance de Kerouac On The Road, e por aí vai.

O disco estabelece uma densa teia sônica e poética que enreda o ouvinte, carregando-o numa montanha-russa que mais parece uma viagem de LSD por uma Goiânia Cósmica e Alucinógena. Somando forças a Diego e Kleuber estão as guitarras certeiras de Fernando Cipó, os batuques groovados de Danilo Rosolem (com participação de Fred Valle), além de belos teclados e flautas por Hermes Soares: com intrincado entrosamento, os músicos constroem um lindo sonho delirante, um fluxo musical delicioso, que recompensa repetidas audições. Essa é uma daquelas raras “bolachas” já que vai revelando novos encantos a cada nova “orelhada”.

Um certo tom satírico e humorístico marca presença em canções como “Refrão dos Diabos” – comentário irônico sobre os refrões que, por piores que sejam, grudam na memória feito chiclete – e “Captou?” – um lúdico e ca(p)tivante experimento que lembra o trabalho magistral de Diego & o Sindicato, Parte de Nós. Várias das músicas do Pó de Ser tem uma irreverência e uma jovialidade que têm tudo para agradar aos que curtem “etc.

Já em “Fantasia ao Pé do Ouvido” é uma balada erótica que enraíza o amor na corporalidade (“gosto do seu gosto e do seu cheiro, gosto do seu gozo por inteiro”) e traz o Pó de Ser mostrando que também sabe ser sexy, com a ajuda dos vocais de Bebel Roriz. Outra cantora goiana formidável, Cristiane Perné, faz dueto com Diego na faixa-título, “A Dança da Canção Incerta”, um verdadeiro tratado existencialista em formato canção.

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“O risco é a conta que eu pago por ser vivo”, cantam eles nesta canção que parece ecoar Guimarães Rosa e seu “viver é perigoso”. Assumir os riscos todos que a vida nos lança ao caminho, e abrir-se às surpresas que estão à nossa espreita, é a parte essencial da filosofia de vida de uma banda que, a golpes de batuques e melodias, demole qualquer tendência inércia e conformismo. Por isso é tão inspirador deixar-se influenciar por esta atitude exploratória e nômade destes humanos que encaram, tendo instrumentos e vozes como armas, todos os riscos – da bala perdida ao rastro de cobra no mato.

Já “Bicho Urbano” merece decerto o troféu de uma das obras-primas musicais já escritas sobre Goiânia. O eu-lírico assume uma postura ambivalente diante de uma cidade que percebe como “bela e medonha”, como mescla de rural e de urbano, como coexistência de cosmopolitismo e provincianismo. Longe do tom celebratório, o eu-lírico canta a partir de uma posição marginal (“ninguém me socorre nessa capital / que me deixa à margem… marginal!”), descrevendo-se como “mais um louco na multidão” que inclui putas, camelôs, hippies, fiéis; é um “mosaico de nós a se desatar”.

Goiânia atravessa um prisma poético e reaparece mais exuberante e bizarra do que nunca. Com “Bicho Urbano”, a Pó de Ser alçou-se ao nível do comentário sociológico de alto nível, proeza também realizada pelo Carne Doce em “Sertão Urbano”. Na canção do Pó de Ser, alguns dos locais mais célebres da capital de Goiás são evocados por alguém que “rumina a cidade em seu pensamento”, numa atitude de “antropofagia” com o Eixo Anhanguera, o Cererê, a Praça Tamandaré… Soma-se a isso a peraltice da menção aos onipresentes propagandistas  ambulantes de pamonha (“quentinha, caseira, é o puro creme do milho verde!”), tudo misturado, sem pudor, a referências à contaminação radioativa com Césio 137, que tornou a cidade uma espécie de “Chernobyl Brasileira” em 1987.

Encarte 1

Sem pudor de botar viola no rock and roll, de tecer elos entre brasilidade e estrangeirismo, de aliar o trágico e o cômico, o Pó De Ser consegue a proeza de ser, a um só tempo, altamente experimental e saborosamente palatável. Há todo um “microcosmo” escondido dentro dessa minigaláxia chamada “A Dança Da Canção Incerta”, uma obra-de-arte que chega com força para fazer parte do “cânone” da MPB goiana, merecendo até ser caracterizado por aquele delicioso paradoxo: o do “clássico instantâneo”. Figuras como Juraildes da Cruz, Umbando, Cristiane Perné, Carlos Brandão, Gustavo Veiga Jardim, dentre outros artistas seminais do cenário, devem estar felizes, saudando a aterrissagem entre nós desta preciosa música, que vem para deixar nossas vidas mais belas e poéticas, mais surpreendentes e pulsantes, mais delirantes e diferentes…

Como escreveu Cristiano Bastos, o disco é “uma poção sonora cuja alquimia vai além da música e derrama-se em fartas doses de cinema, literatura, poesia, cultura popular e tantas outras linguagens artísticas presentes na louca infusão sonora.” Eis uma banda que, mesmo tropeçando nos astros, siderada por estar de olhos postos nos OVNIs, não perde nunca a harmonia, o ritmo, o groove, o lirismo, o ímpeto aventureiro e exploratório. Mergulhe de cabeça na dança da canção incerta sem medo de overdose: esta música é, para lembrar Manoel de Barros, um baita “esticador de horizontes”. Corra o risco! 

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OUÇA JÁ!

PÓ DE SER
A Dança Da Canção Incerta (2015)

01. PODE APOSTAR
02. CUIDADO
03. A DANÇA DA CANÇÃO INCERTA
04. BICHO URBANO
05. FANTASIA AO PÉ DO OUVIDO
06. VOU NÃO VOU
07. REFRÃO DOS DIABOS
08. LEONOR
09. PRISMA
10. CAPTOU
11. VENHA VER O SOL
12. PÓ DE SER

Faça o download do álbum completo:
http://migre.me/siavg

Curta a fanpage do Pó de Ser :
https://www.facebook.com/podeserbanda

Ouça o primeiro EP da banda:
http://soundcloud.com/podeser

Integram a banda Pó de Ser: Diego De Moraes, Kleuber Amora GarcezFernando Assis, Hermes Soares Dos Santos, Danilo RosolemO álbum inclui ainda participações especiais de Fernando Catatau (do Cidadão Instigado), Cristiane Perné, Bebel Roriz, Frederico Valle, Leo Pereira (Terrorista da Palavra), dentre outros convidados. A arte da capa é de arte de Natália MastrelaNo vídeo abaixo, confira trechos da faixa-título e da canção “Bicho Urbano”, além de cenas das gravações do álbum no Rocklab de Pirenópolis (GO). O vídeo foi bolado para a divulgação da première do álbum, que rolou na Evoé Café Com Livros, em Goiânia.

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Confira também, na sequência, “De Repente” e “Ypsilone”, ambas canções do EP de estréia do Pó De Ser, Tudo Torto Em Linha Reta:

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Ouça também os álbuns de Diego de Moraes, Parte de Nós e Diego Mascate. Confira também seus clipes para “Dia Bonito”, “O Show Vai Continuar” e “Todo Dia”.


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P.S. A Casa de Vidro também tem a alegria de anunciar que o Diego de Moraes é o mais novo colunista do site e escreverá por aqui no ano de 2016. Aguardem!!!

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INFINDAS MANEIRAS DE FINDAR – O que desvela Fernanda Torres em seu romance de estréia, “Fim” (Companhia das Letras, 2013)

INFINDAS MANEIRAS DE FINDAR

Fernanda Torres cometeu um romance de estréia que é um escândalo de bom. Uma prosa tão excitante e vivaz quanto a de Arundathi Roy ou Katherine Mansfield pulsa nas páginas de Fimlivro desta magistral multi-artista brasileira. Célebre por seus papéis na televisão e no cinema (com destaque para O Que É Isso Companheiro?, de Bruno Barreto, O Primeiro Dia, de Walter Salles, Eu Sei Que Vou Te Amar, de Arnaldo Jabor, Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, além de alguns filmes de seu marido Andrucha Waddingston), Fernanda Torres tem se revelado não somente como uma de nossas melhores atrizes e mais hilárias comediantes mas também como uma escritora de alta relevância e imensa capacidade expressiva.

Numa prosa apimentada e caliente como Nelson Rodrigues ou Henry Miller, Fernanda tece um panorama não só do Rio de Janeiro, mas de toda a condição humana, colecionando “causos” de gente que está findando. Não chamemos de “agonia”, que a palavra é muito soturna, enquanto que a prosa Fernandina é brincalhona e lúdica. Não são personagens agonizantes – no sentido Gritos e Sussurros de Bergman – o que o leitor acessa através da leitura de Fim. 

É muito mais um vívido retrato da vida humana em sua finitude, em sua pequenez, em sua inconclusão, já que os mortais muitas vezes não podem nem mesmo consolar-se pensando que morreram uma “boa morte”. Em Fim, há fins que são ridículos, patéticos, grotescos, horrorshow. Fernanda Torres não pinta auréolas de santidade sobre a cabeça de ninguém – nem mesmo do Padre Graça, este excelente personagem que, em Fim, fica “abalado pela quantidade de vezes em que Deus parecia dormir” (p. 41).

A prosa dela é capaz de inúmeras referências cinematográficas (Bruce Willis descalço sobre os cacos de vidro de uma explosão recente), musicais (as canções de Dolores Duran que embalam a fossa emocional de uma das personagens), teatrais e contraculturais (como a eventual aparição, no enredo, dos Dzi Croquettes e de Lennie Dale). Sobretudo, Fernanda  Torres demonstra ser uma contadora-de-histórias de grande audácia e criatividade, capaz de dialogar com algumas das magnum opus da literatura universal. No trecho seguinte, ela põe o romance para refletir filosoficamente de um modo que lembra o modus operandi de Milan Kundera e manda a seguinte descrição de Ruth (status no Facebook: “em um relacionamento enrolado”):

Fernanda Torres 2

“O ato supremo do romantismo é o suicídio. Ruth nasceu com o defeito de ser feminina ao extremo e, por consequência, romântica em excesso. Sempre viu nisso vantagem, mas agora que descobria a fragilidade de sua natureza, daria tudo para se livrar de si mesma. Se possuísse a audácia de Bovary, tomaria cicuta, a nobreza de Sônia, enfrentaria a Sibéria, se miserável, como Fantine, arrancaria os dentes. Mas não, era uma mortal carioca, classe média, como tantas. Célia, Irene, Raquel, todas tratavam seu sofrimento como algo vulgar, um mero desquite. O talho nos pulsos, a forca, o gás, eram fins grandiosos demais para alguém como ela. Decidiu ser humilde, matou o amor com descrição de vestal, fez do lar um convento. Já não planejava reconquistar o marido, queria, sim, se isolar do barulho lá fora, não se importar, não querer, não precisar, não sofrer. Morrer. Exercitou a indiferença até se tornar insensível ao cheiro, ao rosto e à voz da cara-metade.” (FERNANDA TORRES, Fim, pg. 120)

Além de evocar figuras femininas das páginas de Madame Bovary, de Flaubert, Crime e Castigo, de Dostoiévski, e Os Miseráveis, de Victor Hugo, Fernanda Torres faz algo mais: consegue dar densidade existencial ao que, nas mãos de um artista menos competente, de um escritor menos expressivo, poderia ter caído na vulgaridade de um desquite. Os vínculos afetivos, nas páginas de Fim, estão pintados com tremendo realismo, entrelaçados por nós complexos, numa maquinaria que não é fácil fazer com que trabalhe com harmonia a contento. Neste sentido o livro realiza algo também magistralmente conquistado por D. H. Lawrence em O Amante de Lady Chatterley e por Nathaniel Hawthorne em A Letra Escarlate: mostra todo o drama existencial por trás da suposta simplicidade da separação, do divórcio, do desquite, do rompimento do vínculo. Fim carrega em seu bojo uma constelação afetiva muito ampla – e Fernanda Torres é audaz o bastante para não dourar a pílula, expondo com adorável impertinência e irreverência os muitos erros e calhordices que cometem os humanos uns contra os outros.

Em Fim, a literatura de Torres debruça-se sobre a vida humana em sua finitude e sonda e as circunstâncias e situações tão diversas nas quais podemos findar. Que estes entes finitos que somos tenhamos que findar um dia (que não tarda), eis coisa certa, porém a vida reserva-nos um certo grau de suspense: o de não saber lá muito bem as características precisas em que se dará a morte de Fulano ou Sicrana (e o nosso próprio fim, sua “cara”, sua “peculiaridade”, é-nos desconhecido por boa parte da vida!). Tolstói, com seu A Morte de Ivan Ilich, ou Hermann Broch, com seu A Morte de Virgílio, são exemplos de artistas primorosos na “pintura” dos últimos momentos de um vivo que finda. Pois findar é nosso destino, e a arte imita a vida.

O interesse de Fim, o livro com o qual Fernanda Torres debuta no campo da prosa de longo fôlego, vai muito além de ser um panorama dos costumes do Rio de Janeiro, visto através do prisma daqueles que no Rio findam seus dias. O livro sonda a condição humana e depois entrega ao leitor um banquete de divagações existenciais, teses psicanalíticas (“a intimidade destrói a libido”, p. 164), piadas one-liners dignas de sitcom (herança que Fernanda traz dos anos contracenando com Luiz Fernando Guimarães na série Os Normais?).

Sobretudo o livro impressiona pelos personagens fortes, bem delineados e nada idealizados. Fernanda Torres fez um livro cujo sabor agradará mais aos misantropos que aos humanistas, e onde pulsa uma veia satírica que beira a língua ácida dum Céline ou o traço satírico de Crumb.

Mas dá pra sentir também que a mulher que segura a pena também é capaz de intensa empatia. Do emaranhado de prosa em que os personagens estão presos emana uma certa percepção da interconexão ontológica que tece nossos destinos de modo a ninguém ser um ilha e todos serem co-dependentes.

As pessoas – ou, melhor dizendo, os mortais que Fernanda Torres nos pinta, os episódios com os quais ela encena os despropósitos e as dificuldades destas vidas, mostram o ser humano sem idealização, sem máscara. O que não quer dizer que não reste mais nada de gostável neles. Muitas vezes são bastante simpáticos, apesar de calhordas. São extravagantes em seus desarranjos, como se quisessem nos provar que, olhando bem fundo, prestando bem a atenção, não dá pra dizer de ninguém que seja normal… E a manada dos normais muitas vezes nem suspeita do quanto há de loucura em sua normopatia…

As 5 partes de Fim são dedicadas a 5 criaturas humanas que estão no processo de findar. Todos estamos,  é verdade, mas eles estão, por assim dizer, na reta final: a morte já afia sua foice à espera de seus pescoços que se aproximam. A “morte de ávidos dentes”, como diz Sêneca, já está passando o azeite e o sal sobre a carne destes bifes humanos que ela está prestes a deglutir. Álvaro, o protagonista da primeira parte do romance, é um velhinho que já não se locomove com o vigor de sua juventude: “Depois dos setenta a vida se transforma numa interminável corrida de obstáculos. A queda é a maior ameaça para o idoso. A queda separa a velhice da senilidade extrema. (…) Em casa, vou de corrimão em corrimão, tateio móveis e paredes, e tomo banho sentado.” (pg. 14)

Ao situar Álvaro no cenário do Rio ultra-urbanizado, velhinho tentando atravessar a rua e sentindo-se profundamente desrespeitado pelo corre-corre ao redor, Fernanda Torres acaba por pintar um quadro sociológico muito interessante sobre as agruras da urbanidade e sobre as consequências práticas de nossa carrolatria (o endeusamento do automóvel individual):

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“Opa, abriu. Esse sinal demora uma eternidade para abrir e dois segundos para fechar. Lá vou eu, ágil como os cágados da Marília. Não acredito, já está piscando?… Fechou! Ainda falta um terço de faixa e essa porcaria fecha? Calcularam com quem esse tempo? Com o Ligeirinho? O que é? Vai passar por cima? Passa, desgraçado, parte o meu joelho no meio com o seu farol de milha. Eu já entendi que você quer passar, filhinho! Um dia você vai envelhecer, se tiver sorte você vai envelhecer, e um guri com pressa vai quebrar a sua perna em vários pedacinhos e você vai passar o resto dos seus dias de fraldão, com pânico de atravessar a esquina.” (pg. 20)

Essa sátira da speedfreakiness que assola nossos tempos – os carros peidando CO2 e buzinando contra velhinhos e ciclistas… – é apenas um exemplo, no livro de Fernanda, desta capacidade incrível da autora para revelar a torpeza de comportamentos. Álvaro, o velhinho que não consegue atravessar a rua, a tempo e a contento, mesmo que vá até a faixa de pedestres, é um representante de toda uma fração da população que encontra-se alijada de direitos na cidade segregada e carrólatra. O semáforo está programado para ir ao vermelho muito velozmente para que o velhinho Álvaro tenha tempo para atravessar a rua, e uma treta logo pipoca, com xingos e verbais violências. Álvora não é descrito por Fernanda como coitadinho. Pelo contrário, é um velho amargo, raivoso, que xinga e esbraveja, expressando todo o seu rancor e profetizando que o dono do carro, que contra ele dispara a buzina, irá, no futuro, ter a perna estropiada por um guri com pressa, um desses tipos Mad Max, “a full-injected suicide machine”…

Álvaro não é o velhinho coitadinho, é mais uma expressão dessa sociedade onde triunfa o individualismo a ponto de alguém ser capaz de confessar, como ele o faz: “Não separo lixo, não reciclo, jogo guimba no vaso, uso aerosol, tomo longos banhos quentes e escovo os dentes com a torneira aberta. Dane-se a humanidade. Não vou estar aqui para assistir.” (pg. 20)

Estes personagens de Fernanda Torres, se possuem algo em comum, é o fato de estarem findando sem sabedoria, ainda  envoltos nos samsaras de relações interpessoais complicadas, neuróticas, cheias de ressentimentos e vinganças. Se há um fio condutor que atravessa o romance inteiro, não é tanto um debate sobre a 3ª idade como ela é vivenciada no Rio de Janeiro, mas muito mais uma tentativa de abordar os problemas do amor de modo a debater, nas raízes, profunda e concretamente, questões de sexualidade (monogamia vs poligamia, por exemplo, é uma controvérsia que atravessa o romance) e indagações acerca da medicalização da vida.

Sobre este último ponto, o da medicalização, Fernanda Torres tematiza em sua obra de modo bem vivaz o modo como os velhinhos acabam enredados na teia das mega corporações farmacêuticas e da atual lógica hospitalar privatista. Um certo personagem, Silvio, está sofrendo com o mal de Parkinson. Em primeira pessoa, descreve o que significa viver com Parkinson, desvelando os detalhes de sua experiência subjetiva, com uma riqueza de detalhes e uma carga emocional que faz pensar em alguns dos melhores filmes de Eduardo Coutinho, em especial O Fim e o Princípio.

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“O Parkinson acaba com a iniciativa da gente. (…) O tratamento do Parkinson é muito pior do que o Parkinson. E não existe cura. As bombas aceleram a cabeça, dão suor frio e um medo do caralho. O médico carimba a receita e te manda para casa de mãos dadas com o Incrível Hulk. São uns tarados, esses doutores. Carbidopa 25 mg, Levodopa 250 mg, Cloridrato de benzerazida 25mg. Para o farmacêutico te entregar o pacote, você tem que apresentar CPF, carteira de identidade, título de eleitor, bons antecedentes, foto. É mais fácil comprar uma arma e se matar. Sem contar os antidepressivos, antiespasmódicos, antiácidos e associados; delírios extenuantes de carros andando pra trás, cortes no tempo e passamentos.” (pg. 68)

Fernanda Torres povoa as páginas do romance com referências à farmacopéia contemporânea: são personagens cujas vidas são marcadas pela disponibilidade de Viagras (contra a impotência sexual), Prozacs (contra a depressão, a melancolia, o tédio…), tranquilizantes e anfetaminas… Uma miríade de substâncias, entre as lícitas e as ilícitas, marca presença forte nesta vidas e mostra na prática porquê este é um dos ramos mais pujantes da economia globalizada (drogas e armas vendendo à beça… parabéns mundo!). Fernanda Torres fala de gente que está “economizando dinheiro para colocar silicone” (pg. 100), de médicos que recomendam, professorais, que o Viagra deve ser tomado “com umas três horas de antecedência, para não ter surpresas e já chegar calibrado” (pg. 101), de relacionamentos cujas feridas são tratadas na farmácia (“O fim do caso com a Suzana foi todo à base de Lexotan”, pg. 101). Aquilo que Kurt Cobain ironizava – “My heart is broke but I have some glue…” – aconteceu. Mas a “cola” para corações partidos agora está à venda nas mega-drogarias (que aceitam cartão de débito e crédito, acolhem pedidos pela internet, entregam a domicílio…).

Para instigar o leitor a conhecer este livro de Fernanda Torres também pelo mérito dele em radiografar nossa sociedade, basta citar também uma cena notável em que um personagem vai ao banheiro, deparando com a escova de dentes de uma mulher ausente, para em seguida abrir o armário para dar de frente com…

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“Ritalina, Lexapro, Frontal, Valium, Haldol, Seroquel, o resto do Pondera do ano passado e o Aropax, que o dr. Péricles planeja experimentar nos próximos meses. Os rótulos me encaram do buraco da parede. O Murilo insistiu que eu me tratasse. Por um ano respondi aos intermináveis questionários sobre os efeitos dos benzodiazepínicos no meu organismo. O dr. Péricles queria saber da compulsão, da ansiedade, do desânimo matinal; de acordo com as respostas, alterava as doses, o que provocava novas indagações. Um melhora, outro piora, eu respondia, como um aluno bem-comportado, até que, num rompante, me transformei numa cobaia arisca.

Decidi não mais colaborar com os laboratórios, me vinguei de forma sistemática, atrapalhando a preciosa pesquisa deles. Fornecia dados fraudulentos, alegava tonturas, dores no peito que não existiam. Me revelei um rato anárquico, perigoso, que planejava destruir a megalomania científica dos reguladores de humor, frustrar o delírio dos que pretendiam controlar meu desespero. (…) Um clínico saberia diagnosticar uma pancreatite fingida, mas o psico Péricles seguia à risca as estatísticas americanas, as tabelas de comportamento da Pfizer, da Roche, sem perceber que eu fazia o que o homem faz desde que se entendeu por gente: eu mentia e me divertia.

Minha alegria de acabar com as certezas do Péricles perdeu a graça recentemente, há duas consultas. Ele me entregou a receita, eu passei na farmácia e trouxe o carregamento pra casa. Guardei lacrado no armário trincado do banheiro. Desisti de tomar. Faz três semanas que meus humores agem livres. E eles têm tomado conta de mim. Recolho os tarja-preta e ponho no bolso, encho o copo água da bica. Pra que filtrar? Sento na cama e deposito os medicamentos e o copo sobre o criado-mudo.

A diferença entre um tarja-preta e um tarja-vermelha, me explicou o balconista da Droga Raia, é que se você tomar uma caixa inteira da preta, você empacota; da vermelha, não.” (pg. 138-139)

 Nossas vidas, parece dizer Fernanda Torres, já estão profundamente colonizadas pela lógica da indústria farmacêutica globalizada e tendemos a idolatrar o poder dos remédios para nos libertarem do mal-estar ou turbinarem nossa energia vital, mas diante da mortalidade e da finitude percebe-se sempre que não há remédio contra a morte, nem regulador de humor que cure o “luto perpétuo”. Por “luto perpétuo” Fernanda Torres compreende o afeto acarretado pela perda de um ente amado tido como insubstituível – como é o caso do personagem Neto quando perde Célia. Neto, após muitas doses de ansiolíticos, descobriu que eles não podem tudo. Jamais poderiam trazer de volta a pessoa amada que a gulosa da Morte deglutiu com ávidos dentes. Apesar de Fim estar repleto de cenas cômicas e provocações lúdicas, Fernanda Torres é sublime mesmo quando se mete a fazer tragédia:

“O desespero no velório da esposa foi um prenúncio do que viria mais tarde. Neto contorcia-se de angústia. Ajoelhou no chão, tentou arrancar as roupas, mordeu, gritou, bateu; os filhos correram para abraçá-lo. O pai diminuiu os ganidos, aplacou a fúria, mas a calmaria durou pouco. Mal a fila de condolências retomou o ritmo, Neto foi assolado por outro descontrole bestial. Agarrou Célia nos braços, quis tirá-la de lá, levá-la para casa, foi preciso ajuda para fazê-lo largar a defunta. (…) Neto nunca mais se acertou. Por conta própria, continuou a tomar o ansiolítico… Sóbrio, nem pensar, dizia. Quando a língua enrolada não permitiu mais que se entendesse o que o pai dizia, Murilo o levou a um psiquiatra. Neto enveredou na ciranda de tentativa e erro dos reguladores de humor. Nenhum funcionou a contento. O coquetel o transformou num efeito colateral ambulante. Vivia entre o eufórico e o deprimido, mais deprimido do que eufórico. Murilo tentou homeopatia, massagem, acupuntura, insistiu na psicanálise, mas nada demoveu Neto da fixação em Célia. Tratava-se de luto perpétuo.”

Por estas e outras, considero Fim uma obra-prima da literatura brasileira contemporânea e um livro de alta relevância social, já que discute muitos dos temas e problemas que fizeram de Maria Rita Kehl (O Tempo e o Cão) e Eliane Brum (O Olho da Rua) duas das intelectuais mais essenciais do Brasil. Fernanda Torres, uma de nossas melhores artistas, tem tudo para deslanchar uma carreira ainda mais brilhante do que aquela que já protagoniza como atriz e humorista. Ao exercitar seu prodigioso talento também no romance – a exemplo de Chico Buarque – ela realmente revela uma versatilidade na virtude que é impressionante. Fim foi um ótimo começo na carreira desta romancista que já nasceu cometendo uma obra-prima, como julgaram João Moreira Salles e Antonio Cicero:

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“O título é Fim, mas o livro trata mesmo é da vida – plena, forte, caliente e safada, dessas que caberiam numa comédia de Mario Monicelli, caso ele tivesse lido Nelson Rodrigues e Pornopopéia com o sol de Copacabana pelas fuças. Avisem aí: uma escritora entrou em cena.” – JOÃO MOREIRA SALLES

“Alternando técnicas narrativas, com destaque para magistrais instâncias de fluxo de consciência, Fim captura brilhantemente a dramática oscilação de tristezas e ilusões, grossuras e sutilezas, pequenos afazeres e grandes esperanças, cujo entrecruzamento compõem as tragédias e as comédias humanas de nossos dias.” – ANTONIO CICERO

Por ter pintado um retrato forte, vívido e pungente da condição humana e das infindas maneiras de findar, Fernanda Torres, acredito eu, merece nossos aplausos pela coragem e pela lucidez com que teceu este livro memorável. Mortais, rejubilai! Apesar da morte ser sem remédio, a arte existe e tonifica. E talvez um certo carpe diem, uma certa sabedoria trágica, emane de Fim, que parece dar constantes piscadelas de olho ao leitor sobre a vida e sua finitude: “aproveita, meu caro, aproveita que isso passa rápido.” We’re food for worms, lads…

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Setembro de 2015

ALGUNS VÍDEOS RECOMENDADOS:


COMPRE “FIM” DE FERNANDA TORRES NA LIVRARIA CULTURA (35 reais, entrega foguete)

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SIGA VIAGEM:

A MORTE COMO ESCOLA: Eliane Brum visita os limites da condição mortal

O BLOCO DAS BACANTES – 2ª EDIÇÃO (► COLETÂNEA MUSICAL):

01. GILBERTO GIL CANTA TORQUATO NETO,
“Geléia Geral”

02. JORGE BEN,
“Zumbi” (do álbum Tábua de Esmeralda)

03. BEZERRA DA SILVA,
“Quando o Morcego Doar Sangue e o Saci Cruzar as Pernas”

04. MARCELO D2 E JOVELINA PÉROLA NEGRA,
“Catatau”

05. B NEGÃO E OS SELETORES DE FREQUÊNCIA,
“Proceder / Caminhar”

06. NELSON SARGENTO,
“De Boteco em Boteco”

07. ROBERTO PAIVA,
“Frankenstein” (do álbum Noel Rosa vs Wilson Batista)

08. ITAMAR ASSUMPÇÃO,
“Nego Dito”

09. TAGORE,
“Vagabundo Iluminado” (do álbum Movido a Vapor)

10. GRAVEOLA E O LIXO POLIFÔNICO + GUSTAVITO,
“Canina Intuição”

11. LENINE,
“É Fogo” (do Labiata)

12. SARAVAH SOUL
“Fire” (Jimi Hendrix cover)

13.  PORCAS BORBOLETAS [MG]
“Tudo Que Eu Tentei Falhou”

14. CURUMIN,
“Guerreiro”

15. UMBANDO [GO],
“Filhos da Terra”

DÊ O PLAY!

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BLOCO DO EVOÉ! >>> “Eu só acreditaria em um deus que soubesse dançar.” (Nietzsche em Assim Falou Zaratustra)

Flyer

“Eu só acreditaria em um deus que soubesse dançar.”
(Nietzsche em Assim Falou Zaratustra)

EVOÉ >>> Interjeição. Do grego εύοϊ.
Expressa entusiasmo, exaltação, intensa alegria.
Brado de evocação a Baco nas orgias.
Exemplo: “Eram evoés e brindes a ecoar em todo o recinto.”

Neste domingão (14/06), vai rolar mais um evento cultural imperdível na Evoé Café com Livros, um dos espaços artísticos e lúdicos mais bacanas de Goiânia: é a 3ª edição do Bloco do Evoé, parceria da Evoé com a Fósforo Cultural.

Incentivando a efervescência das artes integradas, botando a literatura pra transar com a música e a poesia pra dançar seus versos, o Bloco do Evoé já realizou duas edições de sucesso neste 2015, em que teve sarau da Editora Zé Ninguém, apresentações musicais com Diego Mascate, Fernando Simplista, Lorrana Santos e Luca Augusto, além de DJs tocando a fina flor do cancioneiro tupiniquim.

Desta vez, o Bloco do Evoé contará com show da Bebel Roriz, discotecagens timbradas comigo e com o Igor Zargov, além de palco aberto pra quem quiser expressar canções, poemas, danças e o que for. Bóra?!?

A partir das 18h, ingresso R$10. Rua 91, Quadra 20B, 495, Setor Sul. [Evento no Facebook]

Exalte-se sem moderação! Enxote o apolíneo e incendeie o dionisíaco! Descreia em deuses que não sabem dançar!

Flyer 2

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Abaixo, algumas coletâneas por mim boladas com algumas das cantigas que você corre o risco de ouvir na Evoé. Suba o volume e boa viagem!

BLOCO DO EVOÉ – VOLUME #01

01) Clara Nunes – Alvorada no Morro (2:34)
02) Jorge Ben – Mas, Que Nada! (3:01)
03) Wilson Das Neves – Samba É Meu Dom e Soberana (5:07)
04) Bezerra Da Silva – Pastor Trambiqueiro (3:32)
05) Elis Regina – Tiro ao Álvaro (2:42)
06) Carmen Miranda – …E O Mundo Não Se Acabou (de A. Valente) (3:00)
07) Caetano Veloso – Um Frevo Novo (2:55)
08) Zé Keti – Opinião (2:26)
09) Elton Medeiros e Paulinho da Viola – Maioria Sem Nenhum (2:18)
10) Elis Regina – Bala Com Bala (3:02)
11) Jorge Mautner – Feitiço (2:20)
12) Dorival Caymmi – Maracangalha (2:47)
13) Caetano Veloso – Alegria, Alegria (2:50)
14) Itamar Assumpção – Dor elegante (3:28)
15) Banda Black Rio – Mr. Funky Samba (3:38)
16) Clara Nunes – Canto das 3 raças (4:21)
17) Orquestra Imperial – Ereção (3:18)
18) Criolo – Linha de Frente (4:30)
19) Marcelo D2 – Malandragem dá Um Tempo (3:37)
20) DonaZica – Jabá (2:39)
21) Thalma de Freitas – O Samba Taí (2:42)
22) Marcelo Camelo – Copacabana (2:38)
23) Marcelo D2 – A Maldicao Do Samba (2:31)
24) Dunas do Barato – Sai da Calçada (2:25)

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BLOCO DO EVOÉ – VOLUME #02

01) Wado – Ontem Eu Sambei (3:27)
02) Mundo Livre S.A. – Bolo de Ameixa (3:56)
03) Tulipa Ruiz – Megalomania (4:12)
04) Graveola e O Lixo Polifônico – Babulina’s trip (4:43)
05) Natália Matos – Beber você (3:48)
06) Rodrigo Amarante – Maná (2:39)
07) Chico Science – Manguetown (3:13)
08) Ceumar – Turbilhão (3:56)
09) Russo Passapusso – Paraquedas (4:24)
10) Metá Metá – Rainha das Cabeças (3:50)
11) Castello Branco – Tem Mais Que Eu (3:06)
12) Saravah Soul – Fire (3:35)
13) Júpiter Maçã – Beatle George (3:37)
14) Carlos Malta – Come Together (3:18)
15) Mariana Aydar – Tá? (3:00)
16) Ceumar – Segura O Coco (2:53)
17) Bruno Batista & Dandara Modesto – Pois, Zé (3:20)
18) Baleia – Motim (4:46)
19) Zulumbi feat Elo Da Corrente – Sob o signo do insano (2:12)
20) Chico Science – Maracatu Atomico (4:43)
21) Jupiter Maçã – Um Lugar Do Caralho (4:58)
22) Metá Metá, Orunmila (4:03)

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BLOCO DO EVOÉ – VOLUME #03

01) Tim Maia – Não Quero Dinheiro
02) Chico Buarque – Apesar de Você
03) Sergio Sampaio – Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua
04) Raul Seixas – Botar Pra Ferver
05) Rita Lee – Ando Jururu
06) Luiz Tatit – Baião de 4 Toques
07) Tom Zé – Tô
08) Torquato Neto cantado por G. Gil – Geléia Geral
09) Marvin Gaye e Studio Rio – Sexual Healing
10) Lenine – O Homem dos Olhos de Raio X
11) Lula Cortez – Lua Viva
12) Raul Seixas – Pra Baixo
13) Gilberto Gil – Cérebro Eletrônico
14) Os Mulheres Negras – Xarope
15) Cássia Eller – Blues da Piedade
16) Sergio Sampaio – Que Loucura
17) Tom Zé – Menina Amanhã de Manhã
18) Chico Buarque – A Banda

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BLOCO DO EVOÉ – VOLUME #04

01) Criolo + Tulipa Ruiz, “Cartão de Visita”
02) Jovelina Pérola Negra + Marcelo D2, “Catatau”
03) Curumin, “Guerreiro”
04) Bezerra da Silva, “Quando o Morcego Doar Sangue”
05) Porcas Borboletas, “Tá Todo Mundo Pensando Em Sexo”
06) Amplexos, “Sim”
07) Los Hermanos, “Paquetá”
08) B Negão e os Seletores de Frequência, “Proceder / Caminhar”
09) Carne Doce, “Fruta Elétrica”
10) Andreia Dias, “Vida Bela”
11) Os Mutantes, “Senhor F”
12) Apanhador Só, “Vila do Meio-Dia”
13) João Bosco, “Mestre Sala dos Mares”
14) Siba, “Cantando Ciranda Na Beira do Mar”
15) Lenine, “É fogo!”
16) Elizeth Cardoso toca Pixinguinha, “Tapa Buraco”
17) Silvia Torres, “Take Saravá”
18) Adriana Calcanhoto e Bossacucanova, “Previsão”
19) Martinho da Vila, “Visgo da Jaca”
20) Dom Salvador e a Abolição, “Uma Vida”

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Coleta de Música Brasileira 19ª edição – Rodrigo Amarante, Tom Zé, Boogarins, Porcas Borboletas, Carne Doce, Mundo Livre S.A. e por aí vai…

NO CARDÁPIO:

01) TITÃS, “Estado Violência”
02) LEGIÃO URBANA, “Música Urbana II”
03) MUNDO LIVRE S.A., “A Cidade” (Chico Science)
04) TOM ZÉ, “Politicar”
05) RODRIGO AMARANTE, “Maná”
06) PORCAS BORBOLETAS, “Todo Mundo Tá Pensando Em Sexo”
07) BOOGARINS, “Lucifernandis”
08) CARNE DOCE, “Dignos”
09) CÁSSIA ELLER, “Na Cadência do Samba”
10) RAPHAEL RABELLO & DINO 7 CORDAS, “Conversa de Botequim”

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“Em cima dos telhados
as antenas de TV
tocam música urbana,

Nas ruas os mendigos,
com esparadrapos podres,
cantam música urbana.

Motocicletas querendo atenção
às três da manhã
É só música urbana.

Os PMs armados
e as tropas de choque
vomitam música urbana.

E nas escolas as crianças
aprendem a repetir
a música urbana.

Nos bares os viciados
sempre tentam conseguir
a música urbana.

O vento forte, seco e sujo
em cantos de concreto
parece música urbana.

E a matilha de crianças sujas
no meio da rua –
música urbana…”

RENATO RUSSO