SLAM QUEBRANDO VIDRAÇA, 2ª EDIÇÃO – Assista ao vídeo do evento realizado em A Casa de Vidro Ponto de Cultura

SLAM QUEBRANDO VIDRAÇA, 2ª EDIÇÃO
(Vídeoarte documental, 15 min, Dez. 2019):

Realizado durante a Festa da Resistência Latinoamericana com shows de Adriel & Iná, em 14 de Dezembro de 2019, nosso Slam estilhaçador de monotonia e conformismo agitou o ponto de cultura A Casa de Vidro com muita poesia irreverente e insurgente; neste vídeo, compartilhamos as participações dos 3 premiados da noite: Jordan Beatriz (1ª colocada, vencedora de R$100 da Rebellium Coletiva), Akira Moraes (2ª colocada, que levou o “A Bruxa Não Vai Pra Fogueira Neste Livro” de Amanda Lovelace) e @Peri_férico (3º colocado, agraciado com o CD “Nascência” da Luiza Camilo – que teve o videoclipe de “Morro Abaixo” lançado nesta noite, assista: https://www.youtube.com/watch?v=VeLJb8die4E).

Além dxs 3 poetxs que estiveram em nosso “pódio”, compartilhamos performances poéticas da Inà Avessa (uma das juradas do slam, que fez um dos shows da noite na companhia da DJ Anarcotrans, dividindo o palco com Adriel Vinícius) e Helen Clara (apresentadora do slam e que interpretou “Geni e o Zeppelin” de Chico Buarque), além de performance musical d’Akira cantando a capella.

A filmagem e a montagem deste vídeo ficaram a cargo de Eduardo Carli de Moraes. Uma produção: A Casa de Vidro (www.acasadevidro.com). O slam integrou a programação do evento cultural de encerramento da 3ª Jornada Goiana de Direitos Humanos, produzida pelo Comitê Goiano de Direitos Humanos ‘Dom Tomás Balduino’. Na mesma data, apresentou-se a performance feminista “Um Violador Em Teu Caminho” (assista ao nosso documentário: https://youtu.be/IfwE1IrekGQ).

Em Janeiro de 2020, fiquem antenados: SLAM QUEBRANDO VIDRAÇA, Terceira Edição! Informações mais detalhadas em breve.

ASSISTA: SLAM QUEBRANDO VIDRAÇA, 2ª EDIÇÃO (Vídeoarte documental, 15 min, Dez. 2019): https://www.facebook.com/blogacasadevidro/videos/536805983571391/ ou https://youtu.be/dczxZtoNnes.

SIGA VIAGEM: O QUE TEM ROLADO NA CASA DE VIDRO…

 

ACESSE TAMBÉM:

“Não quero saber do lirismo que não é libertação!” – Manuel Bandeira

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

MANUEL BANDEIRA (1886 – 1968)

Leia também:

A POESIA EFERVESCE EM GOIÂNIA – Um minidoc A Casa de Vidro (2018, 9 min)

A POESIA EFERVESCE EM GOIÂNIA – Saiba mais sobre o atual cenário de poesia, literatura e artes integradas neste documentário curta-metragem realizado por A Casa de Vidro (2018, 9 min). Um filme de Eduardo Carli de Moraes.

Ultimamente, novas iniciativas vem contribuindo pra aumentar as doses de lirismo e criatividade verbal que circulam nas veias da capital de Goiás. Para sondar estas efervescências poéticas, ontem documentamos alguns destes agitos em vídeos filmados com esta trupe bacaníssima: Mazinho SouzaRaissa PagaldayRosa Neves e Gabi Rodrigues, galera que vem participando ativamente deste cenário.

Este curta-metragem, de 9 minutos e pouco, ainda serve para contrabandear versos do Bruno Brogio (declamado por Mazinho), de Maha Iza (declamada por Raissa), de  Paulo Manoel, de Rosa Neves, de Pio Vargas.

COM CATUPIRY

Já se pensou que o homem comum poderia
mudar tudo
que o homem comum não é um
é um milhão
e que da força dessa união se formaria uma
muralha
com corpos de sonho e margarida

mas o homem comum tá distraído
pela bola rolando
a novela passando
o pastor que não é santo
e de vez em quando
pela própria vida
os amores, os terrores
a dificuldade, a delícia
a falta de perspectiva
e de um salário justo

o homem comum tá preocupado demais pra pensar
o homem comum gosta mesmo é de coxinha de frango.

Bruno Brogio

Já pra trilha sonora convidei meu queridíssimo Sergio Moraes Sampaio, com “Cada Lugar na Sua Coisa”:

Um livro de poesia na gaveta não adianta nada
Lugar de poesia na calçada
Lugar de quadro é na exposição
Lugar de música é no rádio

Ator se vê no palco e na televisão
O peixe é no mar
Lugar de samba enredo é no asfalto
Lugar de samba enredo é no asfalto

Aonde vai o pé arrasta o salto,
Lugar de samba enredo é no asfato
Aonde a pé vai se gasta a sola
Lugar de samba enredo é na escola

A Poesia, pra quem está antenado ao que vem rolando no cenário artístico underground, vem marcando presença cada vez mais forte em Goiânia, tomando conta de festivais como o já tradicional Juriti – Festival de Música e Poesia Encenada e o novo-em-folha Goiânia Clandestina (que já realizou 2 edições e ainda realizará mais 3 até Dezembro).

Espaços como Evoé Café com LivrosLivraria Palavrear e a nova Casa Liberté são alguns dos points onde você corre o sério de risco de ser atropelado, de repente, por um caminhão de poesia. Apesar dos percalços, a Poesia mostra-se resiliente em propostas culturais louváveis como o Sarau das Minas GO, organizado pela Carol Schmid, ou a Feira E-cêntrica da Larissa Mundim & Rico Lopes.

Em saraus e slams, em feiras de economia alternativa ou em batalhas de MCs, a Poesia, vibrante e multiforme, toma conta dos espaços e praças da cidade. Está colada nos lambes pelos muros, gritando nos pixos, multicor e psicodélica na poesia visual dos muros (como expusemos no filme Gastrite, lindo trampo dirigido pelo Hugo Brandão, uma obra essencial para pensar o presente e o futuro das poéticas visuais na nossa urbe).

A Poesia, indomável, vem circulando também em zines punk (que o digam Matheus Germano e Gil Célio) e em antologias de poetas goianos, como é o caso “Antologia Clandestina” – que já esgotou suas 500 cópias iniciais e está com inscrições abertas para a 2ª Edição.

Ffiquem atentos, escritores locais: as inscrições encerram em 03 de Outubro; envie já seus versos para

curadoriagoianiaclandestina@gmail.com

e corra o risco de ir parar na coletânea mais chocantemente poética que será lançada neste ano cá na Goiânia véia do Cerrado.

Na antologia #1, 22 poetas inéditos dividem as páginas deste poderoso artefato literário clandestino. É o caso de poetas como Paulo Manoel, que manda versos direto no queixo, nos levando quase a um nocaute estético, como estes:

AÇÕES AFIRMATIVAS

Quando não tem ninguém olhando
Os três malucos das três raças
Saem da Praça, sobem a Goiás
E dão uma surra no bandeirante

A Poesia, irreverente e incansável, está também nos livros publicados recentemente por Walacy Neto, pela Nega Lilu Editora, pelo Adérito Schneider e a galera do Cidade Sombria

E não poderíamos deixar de mencionar as letras de música, em que a Poesia também hoje efervesce lindamente no caldeirão da arte goianiense. A Poesia, sempre tornando a vida mais doce e tragável apesar de suas muitas amarguras, vem usando como seu veículo as canções maravilhosas de Salma JôDiego De MoraesKleuber Divino GarcezDiego W’anderCamilo LuizaAdriel ViníciusVitor Hugo LemesFlávia Carolina AlmeidaPaula de Paula, Dinho Fernando Almeida FilhoBruno BrogioJordana LuzNegra, Carlos BrandãoNina SolderaA Jay Ajhota, dentre muitos outros.

Poucas cenas musicais alternativas no Brasilk atual, creio eu, possuem tanto alimento a proporcionar aos que tem fome de poesia, ânsia de beleza, sede de lirismo, vontade de criatividade e colaboratividade. É fenomenal que coexistam no mesmo-espaço tempo sócio-cultural estes fenômenos, sincrônicos e complementares, que fazem de Goiânia um dos maiores centros latino-americanos para a música alternativa: Boogarins, Carne DoceDiego MascateChá de GimAveEva, @CambrianaPó de SerBanda, Shotgun WivesTerra CabulaBanda Mundhumano etc. Porra, QUE CENA!

É poesia pra dar com o pau. É poesia que ameaça em breve pôr em estado de delírio lírico toda essa metrópole. E não tenham medo de overdose… pois de Poesia em excesso nunca se morre.

* * * * *

P.S. – Evocações de Pio Vargas (fantasma de poeta defunto-vivo, pretérito-presente), para quem “o acaso é uma empresa para a qual tudo conspira”:

considerações necessárias

é preciso tirar a poesia da clausura dos concursos, das gaiolas do acaso, do exílio das gavetas, trazê-la para o sabor do consumo rápido e fácil, envolvê-la de popularidade, sem o vulgarismo perigoso do que é descartável, mas também sem a absurda pretensão do que se quer eterno.

poesia para fazer rir e refletir, evoluir e incomodar, propor e decompor. poesia para os botecos, para os gabinetes, para as praças, para os salões de festas, para os mocambos, para as favelas, estúdios, vídeo clipes e palanques.

poesia sem medo, poesia sem trauma, poesia-pão, poesia-sim, poesia-não. pois ia ousar um dia popularizar a poesia.

viva a poesia viva!”

https://acasadevidro.com/?s=Pio+Vargas

Pio Vargas (1964-1991)

* * * * *

ASSISTA:

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Aproveito o gancho e convido vocês a assistirem também meus outros filmes recentes:

“Afinando o Coro dos Descontentes”: PLAY >>> https://bit.ly/2NmELK9

“O Futuro nos Frutos: As Semeaduras do Encontro de Culturas”: PLAY >>> https://bit.ly/2pihvib.

Valeu a todos os artistas que estiveram colaborando e somando com meu trabalho. A gratidão não cabe em palavras. Sigamos adiante, contando com as benesses do Acaso, aquela empresa para a qual tudo conspira.

Por Eduardo Carli de Moraes / Goiânia, Setembro de 2018

“Lula Livre – Lula Livro”: Apresentação da obra-manifesto, escrita por 86 autores, em vídeo com o escritor Marcelino Freire (org.)

 

Lula Livre – Lula Livro – O escritor Marcelino Freire (vencedor do Prêmio Jabuti de 2006, com “Contos Negreiros”), um dos organizadores da obra-manifesto que reúne mais de 80 autores em defesa da liberdade e da candidatura à presidência de Lula, esteve em Goiânia lançando o livro, além de ter participado do Festival de Poesia Goiânia Clandestina (TEMA: Poesia Marginal). Neste vídeo produzido por A Casa de Vidro, conheça mais sobre esta empreitada cultural, em prol da libertação do preso político atualmente confinado nas masmorras golpistas de Curitiba:

ACESSE SITE OFICIAL: https://lulalivrelulalivro.com/

Saiba mais em CartaCapital, por Jotabê Medeiros:

“Em 184 páginas, 86 escritores e cartunistas brasileiros de todas as regiões se apresentaram para a empreitada de reivindicar o restabelecimento da democracia no Brasil e a liberdade do único preso político do País, Lula. Suas armas: textos inéditos ou não (poemas, crônicas, cartas, manifestos), cartuns, fotos, discursos e haicais, entre outros estandartes.

Segundo os organizadores do livro Lula Livre/Lula Livro, Ademir Assunção (Prêmio Jabuti de 2013 com A Voz do Ventríloquo) e Marcelino Freire (Prêmio Jabuti de 2006, com Contos Negreiros, e Prêmio Machado de Assis de 2014, com Nossos Ossos), a publicação manifesta o inconformismo dos autores com o processo que aprisionou Lula, virtual novo presidente da República, um processo “travestido com togas cheias de furos e remendos, simulação grosseira dos ritos legais que deveriam nortear a Justiça” e que “obedece a princípios e a um calendário com objetivo calculado: eliminar da disputa presidencial de 2018 o candidato com mais chances de vitória”.

Em face da urgência da situação, o livro foi produzido em poucas semanas, uma ação de guerrilha intelectual que foi buscando (e encontrando com relativa facilidade) seus voluntários. O espraiamento também será feito em uma ação de guerrilha.”

(…) “O ódio ao Lula é o ódio aos pobres”, escreve Chico Buarque.

* * * * *

LULA LIVRE / LULA LIVRO – Filmagem e Montagem: Eduardo Carli de Moraes. Com colaboração de Ana Fonseca (microfone) e Camilla Nascimento (luz). Gravado no Grupo Sonhus Teatro Ritual em 05 de Agosto de 2018.

Making Of

 

Desenho da capa por Sandro Saraiva

LISTA COMPLETA DOS AUTORES

ademir assunção * ademir demarchi * adriane garcia * afonso henriques neto * alberto lins caldas * aldir blanc * alice ruiz * andréa del fuego * antonio thadeu wojciechowski * artur gomes * augusto de campos * augusto guimaraens cavalcanti * beatriz azevedo * bernardo vilhena * binho * caco galhardo * carlos moreira * carlos rennó * celso borges * celso de alencar *  chacal * chico buarque * chico césar * claudio daniel * diana junkes * douglas diegues * edmilson de almeida pereira * edvaldo santana * eltânia andré * eric nepomuceno * evandro affonso ferreira * fabio giorgio * fabrício marques * fernando abreu * ferréz * flávia helena * frei betto * gero camilo * gil jorge * glauco mattoso * jessé andarilho * joca reiners terron *  jorge ialanji filholini * josely vianna baptista * jotabê medeiros * juvenal pereira * karen debértolis * laerte * lau siqueira * linaldo guedes * líria porto * lucas afonso * luciana hidalgo * luiz roberto guedes * manoel herzog * marcelino freire * márcia barbieri * márcia denser * maurício arruda mendonça * noemi jaffe * patrícia valim * paulinho assunção * paulo césar de carvalho * paulo de toledo * paulo lins * paulo moreira * paulo stocker * pedro carrano * raduan nassar * raimundo carrero * ricardo aleixo * ricardo silvestrin * roberta estrela d’alva * rodrigo garcia lopes * ronaldo cagiano * rubens jardim * sandro saraiva * sebastião nunes * seraphim pietroforte * sérgio fantini * sérgio vaz * sidney rocha * susanna busato * tarso de melo * teo adorno * vanderley mendonça * waldo motta * wellington soares * wilson alves bezerra * xico sá

MUITO PELO CONTRÁRIO: Poeta Walacy Neto lança seu livro de estréia

“confesso
tenho medo
que a morte
me pegue no roteiro
e que o filme da minha vida
seja parado no meio.”
walacy neto

 

Se liga, meu povo, que já está circulando “Muito Pelo Contrário”, livro de estréia do poeta e letrista Walacy Neto. Com prefácio de Marcelino Freire e ilustrações de Pedro Kastelijns, a obra foi lançada pela Nega Lilu Editora (Goiânia, 2017). Neste vídeo produzido pel’A Casa de Vidro e filmado na Evoé Café com Livros, Walacy declama alguns de seus poemas, elenca algumas influências que o inspiram – que vão de Belchior e Raul Seixas até Manoel de Barros – poeta das miudezas e Pio Vargas – e explica um pouco do processo criativo que o guiou nos trabalhos de parto do livro.

Vale lembrar que Walacy também atua como letrista de canções, sendo co-autor das composições “Zé” e “Samba Verde” da banda Chá de Gim.


Além disso, atua como redator do caderno de cultura do jornal goianiense Diário da Manhã.

* Compre o seu exemplar pela Internet via A Casa de Vidro na Estante Virtual (R$ 28 + frete): https://www.estantevirtual.com.br/…/inf…

SINOPSE OFICIAL – O estranho prazer de sentir medo de tudo e de todos motiva o autor-narrador a botar seus demônios para fora, na escrita de seu primeiro livro. Enquanto ele se coloca em perigo, o bocó, o avião, o silêncio, entre outros signos, vão abrindo trilhas sutis entre a poesia e a prosa. Viver é assim mesmo e, num deslize, tudo pode sair ao contrário. Para o leitor, é acesso ao íntimo afetado pela realidade externa. Para Walacy Neto, pura valentia.

SAIBA MAIS: http://www.negalilu.com.br/…/muito-pe…/…

Vídeo também disponível no Vimeo, em duas versões, a sintética (de 6 min) e a expandida (de 17 min):


CORNUCÓPIA DOS LIVROS – Sobre o valor da leitura e da escrita para a existência, Seguido de: “Diário de Leituras [Ano: 2017]”

O grande escritor argentino Ernesto Sabato costumava descrever a leitura como uma “busca febril”. Jamais um hábito gelado ou ato desinteressado, mas sim algo que engaja de maneira intensa a criatura que, como você e eu, está em embarcada “en este complejo, contradictorio e inexplicable viaje hacia la muerte que es la vida de cualquiera.”


Antes Del Fin (1998) 
é o livro em que Sabato, pressentindo o fim da viagem vital, escreveu febrilmente como testemunho de sua vida e como sessões-de-recomendações às gerações mais jovens. Sempre que lhe paravam em uma rua, uma praça ou um metrô, para perguntar a Sabato – já que era o autor de livros celebrados como O Túnel Sobre Heróis e Tumbas – quais os livros que deviam ser lidos, ele dizia sempre:

Lean lo que les apasione, será lo único que los ayudará a soportar la existência.” (p. 17)

É este tipo de devoração febril e apaixonada dos livros, buscados como vias de acesso a algo que pode modificar a existência, que me entusiasma. E este entusiasmo pelos livros eu não posso evitar em mim que venha acompanhado pela a vontade de que isso se torne contagioso, produza epidemia (a colheita será de poetas e cantores, não de cadáveres mas de vida revitalizada!).

Nutro a humilde utopia de que mais gente enxergue no ler uma das mais importantes e deleitosas atividades da vida, e passe a ler (mais e melhor) não porque alguém ordenou, não porque a professora mandona mandou (empunhando palmatórias ou provas!), não pois alguma autoridade que aplica testes ou concursos exigiu… Ler como ato autêntico da vontade que escolhe esforçar-me por auto-transcender-se e aprimorar-se.

Gosto da descrição que Sabato faz do ler como atividade que engaja coração e mente, que põe alertas todos os sentidos, que estimula a inteligência sem resfriar o coração, que nos catalisa para que entremos em um estado de intensa procura (e de preferência também descoberta) de verdades difíceis e percepções raras:

“He dedicado muchas horas a la lectura y siempre há sido para mí uma búsqueda febril. Nunca he sido un lector de obras completas y no me he guiado por ninguna clase de sistematización. Por el contrario, en medio de cada una de mis crisis he cambiado de rumbo, pero siempre me comporté frente a las obras supremas como si me adentrara en un texto sagrado; como se en cada oportunidad se me revelaran los hitos de un viaje iniciático. Las cicatrices que han dejado en mi alma atestiguan que de algo de eso se ha tratado. Las lecturas me han acompañado haste el día de hoy, transformando mi vida gracias a esas verdades que sólo el gran arte puede atesorar.” (SABATO, Antes Del Fin – Buenos Aires: La Nación, 2002, p. 42)

O escritor sai transformado de sua escrita, o leitor sai transformado de sua leitura, e estes posições invertem-se com frequência: quem muito lê, acaba escrevendo, ainda que seja para comentar os livros que leu, e por aí já vai ensaiando os passos que pode seguir se decidir levar a sério o ofício de escritor… Esta transformação íntima, psíquica, anímica, afetiva, propiciada pelos livros, é também algo evocado por uma muito disseminada citação de Franz Kafka, em que ele clama para que o livro se transforme em um machado com o qual devemos destruir “o mar gelado” que levamos por dentro.

Sou um leitor que não costuma forçar a barra com livros que não está apreciando, lançando-lhes longe para preferir aqueles livros que nos apaixonam, que nos lançam àquele estado de exaltação subjetiva, comovendo-nos e assim transformando-nos não só no sentido da suportação da existência, mas do aprendizado cada vez mais ampliado dos caminhos para o bem viver e o bem morrer.

Como livreiro e blogueiro, tenho tentado pôr minha formação profissional em jornalismo e filosofia a serviço da difusão dos bons conteúdos e da disseminação do excelente vício da bibliofilia. Gosto do meme, exposto acima sem pudor, que convida a encher uma taça de vinho, sentar-se à poltrona, ligar a luminária e “tomar um porre de livros pois a ressaca vai ser de cultura!” O professor de filosofia em mim já vem querendo adicionar: faço-lhes bons votos de que a ressaca seja também de sabedoria!

Se for um vício, a bibliophilia me parece um dos mais benignos – e que sentido haveria em chamar de vício uma coisa boa? Vamos dar asas, portanto, às bibliophilias, mas com o salutar senso crítico bem vigilante. Ler muito não faz milagre: há quem encerre sua cabeça, como o avestruz na areia, num círculo estreito de um único livro, considerado como “sagrado”. É um crime contra todos os livros já escritos na história do mundo. Você achar que toda a verdade está em um único livro, pois ditado por Deus, Alá, Buda, Xangô ou sei lá quem, produz a hecatombe da diversidade estonteante que também faz tanta da graça inesgotável da leitura.

Ler é viajar ao coração pulsante das alteridades em profusão. É conhecer por dentro o processo linguístico de criação, de expressão, de formação, que moveram o escritor a parir este seu rebento-livro. Ler é ter acesso a um diálogo com os mortos, ainda que de mão-única: posso tentar refutar o Macbeth de Shakespeare, questionando se ele de fato pensa que esta vida não passa de “a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing…”, mas não haverá resposta senão o próprio eco infindo da obra, nunca totalmente passada enquanto nós, do presente, a ressuscitamos, dando-lhe novo alento.


Um perigo que enxergo na bibliophilia está quando, levada ao excesso, ela conduz ao logocentrismo, à logorréia, à verbosidade solipsista – é o perigo de ficar de nariz tão afundado nos livros, que você passa a delirar que o mundo é feito de palavra… O mundo, sabemos pela parte dele somos, que constituímos, é também carne, osso, sangue, vômito, guerra, opressão, resistência… E sempre há imenso saber e sabedoria que necessitamos ir buscar para além dos livros – ou seja, nas vivências.

Como filósofo, não consigo me desviar de ter em mira aquilo que estimula a caminhada de filósofos há milênios: a sophia, que certamente pode ser comunicada em uma miríade de formas, sendo o livro apenas um dos possíveis veículos da sabedoria. É preciso sempre insistir na oralidade filosofante de figuras seminais como Sócrates, Diógenes de Sínope e Sidarta Gautama – que fizeram da fala o barco de transporte de suas respectivas sabedorias. A escuta atenta da fala do outro é via magna de acesso àquele incremento de sabedoria que é objetivo da filosofia promover incessantemente.  Sabato tem belíssimas palavras sobre o tema da sabedoria transmitida para além dos livros, em reflexões que somam-se de modo simbiótico com aquilo que disse Walter Benjamin sobre a função social do narrador:

“En las comunidades arcaicas, mientras el padre iba en busca de alimiento y las mujeres se dedicaban a la alfarería o al cuidado de los cultivos, los chiquitos, sentados sobre las rodillas de sus abuelos, eran educados en su sabiduría; no en el sentido que le otorga a esta palabra la civilización cientificista, sino aquella que nos ayuda a vivir y a morir; la sabiduría de esos consejeros, que en general eran analfabetos, pero, como um día me dijo el gran poeta Senghor, en Dakar: ‘La muerte de uno de esos ancianos es lo que para ustedes sería el incendio de una biblioteca de pensadores y poetas.'” (SABATO, Antes del Fin, Buenos Aires, La Nación, p. 18).

Léopold Sédar Senghor (1906 – 2001)

 



P.S. – Abaixo, procurei reunir num cyber-báu as leituras que marcaram minha travessia biblióphila pela vida neste ano de 2017. É um espécie de “diário” – que também atua como portal de entrada – onde registro a jornada pelos livros que atravessei do princípio ao fim. O que é sinal de que mantiveram minha atenção e meu interesse. Os abandonados pelo caminho, os que parei de ler no meio ou nas primeiras páginas, não figuram nesta lista. Eis alguns dos companheiros-de-papel (e de Kindle…) que me fizeram companhia e entusiasmaram a minha busca febril por uma viva vivível, linkados com os textos e artigos que pude tecer sobre alguns deles.

Eduardo Carli de Moraes / Goiânia, Jan. 2018

2017

01. ANTONIO SKÁRMETAA Insurreição (La Insurrección)2017-001-skamerta-insurreicaoEd. Francisco Alves, 1983, coleção Latino-América
trad. Reinaldo Guarany


02. VIOLETA PARRAPoesia (capa dura, 472 pgs)portadavioletaBelíssimo livro publicado pela Universidade de Valparaíso,
em parceria com
a Fundación Violeta Parra – Chile, 2016

SAIBA MAIS: Arder até as cinzas, renascer como Fênix:
A potência da palavra povoada de V. Parra


03. JOSÉ MARTÍ, Vibra el aire y retumba (Poesia)
[SAIBA MAIS – Leia o poema Yugo y Estrella]
2017-03-jose-martiBuenos Aires: Editorial Losada, 1997; 232 pgs.


04. ALFREDO SIRKISRoleta Chilenaroleta_chilenaRio de Janeiro: Record, 1981.


05. MARCELO ALVESCamus: Entre o Sim e o Não A Nietzsche


06. ANTONIO SKÁRMETA, O Dia Em Que A Poesia Derrotou um Ditador (Los Días Del Arcoíris) – Ed. Record, 2012

o-dia


07. VERONICA STIGGER
Onde a Onça Bebe Água

onca


08. ELIANE BRUM
A Vida Que Ninguém Vê
eliane-brum-a-vida-que-ninguem-ve-capa

AS VIDAS QUE QUASE NINGUÉM VÊ: Como o jornalirismo de Eliane Brum visibiliza a diversidade humana e a unicidade dos destinos >>> http://wp.me/pNVMz-1xx


09. ANGELI, O Lixo da História


10. ELENI VARIKASA Escória do Mundo
Leia um trecho em que Varikas trata da poetisa Phillis Wheatley


11. FRANCISCO ORTEGA, Amizade e Estética da Existência em Foucault

LER POST


12. BOB MARLEY – GUERREIRO RASTA
http://wp.me/pNVMz-3Ch


13. HANNAH ARENDTSobre a Revolução  (Cia das Letras)


14. IAN MCWEAN, Enclausurado (Nutshell)


15. OTTO RANK, O Trauma Do Nascimento


16. GABRIEL TARDE, As Leis Sociais


17. MICHEL FOUCAULT, A Coragem da Verdade 
Curso no Collège de France, 1984 (Ed. Martins Fontes)


18. MARILENA CHAUÍ, Introdução à História da Filosofia – Vol. 1: Dos pré-socráticos a Aristóteles


19. GABRIEL TARDE (1843 – 1904)A Opinião e As Massas
(Ed. Martins Fontes)


20. DIÓGENES, O CÍNICO
de Luis E. Navia 
Ed. Odysseus
CLICK E SAIBA MAIS


21 .MACHADO DE ASSIS – Ressurreição


22. MACHADO DE ASSIS – Helena


23. VLADIMIR SAFATLE – Só Mais um Esforço


24. ANTÔNIO RISÉRIO – A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros


25. ROSANA SUAREZ – Nietzsche e a Linguagem


26. LÚCIA NAGIB – A Utopia no Cinema Brasileiro


27. JORGE AMADO – Jubiabá


28. MARGARET ATWOOD – O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale)


29. BERNARDO KUCINSKI – K. – Relato de uma Busca


30. ROGER BASTIDE – O Sonho, o Transe e a Loucura


31. BELL HOOKS – Ensinando a Transgredir


31. PAULO FREIRE – Cartas a Guiné-Bissau


32. ELIZABETH KOLBERT – A Sexta Extinção


33. HANS JONAS – Matéria, Espírito, Criação


34. HANS JONAS – O Conceito de Deus Após Auschwitz


“A Dança dos Aldeões”, de P Paul Rubens

35. BARBARA EHRENREICH – Dançando nas Ruas


36. KATE EVANS – Rosa Vermelha


37. STEPHEN GREENBLATT – A Virada 


38. DORIAN ASTOR – Lou Andreas-Salomé


39. GEORGE ORWELL (1903 – 1959) – “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios”


40. HEINE HEIN? POETA DOS CONTRÁRIOS – Heinrich Heine e André Vallias


41. MAURICIO RABUFFETTI – Mujica: A Revolução Tranquila


42. AUGUSTO BOAL – Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas


43. MARY WOLLSTONECRAFT – Reivindicação dos direitos das mulheres


 

44. ANDRÉ DAHMER – A Cabeça É A Ilha


 

Paulo Freire

45. MOACIR GADOTTI E JOSÉ EUSTÁQUIO ROMÃO – Paulo Freire e Amílcar Cabral – A Descolononização das Mentes





 

E.C.M. – 3/1/18