A POESIA EFERVESCE EM GOIÂNIA – Um minidoc A Casa de Vidro (2018, 9 min)

A POESIA EFERVESCE EM GOIÂNIA – Saiba mais sobre o atual cenário de poesia, literatura e artes integradas neste documentário curta-metragem realizado por A Casa de Vidro (2018, 9 min). Um filme de Eduardo Carli de Moraes.

Ultimamente, novas iniciativas vem contribuindo pra aumentar as doses de lirismo e criatividade verbal que circulam nas veias da capital de Goiás. Para sondar estas efervescências poéticas, ontem documentamos alguns destes agitos em vídeos filmados com esta trupe bacaníssima: Mazinho SouzaRaissa PagaldayRosa Neves e Gabi Rodrigues, galera que vem participando ativamente deste cenário.

Este curta-metragem, de 9 minutos e pouco, ainda serve para contrabandear versos do Bruno Brogio (declamado por Mazinho), de Mahaísa (declamada por Raissa), Paulo Manoel e de Pio Vargas. Já pra trilha sonora convidei meu queridíssimo Sergio Moraes Sampaio, com “Cada Lugar na Sua Coisa”:

A Poesia, pra quem está antenado ao que vem rolando no cenário artístico underground, vem marcando presença cada vez mais forte em Goiânia, tomando conta de festivais como o já tradicional Juriti – Festival de Música e Poesia Encenada e o novo-em-folha Goiânia Clandestina (que já realizou 2 edições e ainda realizará mais 3 até Dezembro).

Espaços como Evoé Café com LivrosLivraria Palavrear e a nova Casa Liberté são alguns dos points onde você corre o sério de risco de ser atropelado, de repente, por um caminhão de poesia. Apesar dos percalços, a Poesia mostra-se resiliente em propostas culturais louváveis como o Sarau das Minas GO, organizado pela Carol Schmid, ou a Feira E-cêntrica da Larissa Mundim & Rico Lopes.

Em saraus e slams, em feiras de economia alternativa ou em batalhas de MCs, a Poesia, vibrante e multiforme, toma conta dos espaços e praças da cidade. Está colada nos lambes pelos muros, gritando nos pixos, multicor e psicodélica na poesia visual dos muros (como expusemos no filme Gastrite, lindo trampo dirigido pelo Hugo Brandão, uma obra essencial para pensar o presente e o futuro das poéticas visuais na nossa urbe).

A Poesia, indomável, vem circulando também em zines punk (que o digam Matheus Germano e Gil Célio) e em antologias de poetas goianos, como é o caso “Antologia Clandestina” – que já esgotou suas 500 cópias iniciais e está com inscrições abertas para a 2ª Edição.

Ffiquem atentos, escritores locais: as inscrições encerram em 03 de Outubro; envie já seus versos para

curadoriagoianiaclandestina@gmail.com

e corra o risco de ir parar na coletânea mais chocantemente poética que será lançada neste ano cá na Goiânia véia do Cerrado.

Na antologia #1, 22 poetas inéditos dividem as páginas deste poderoso artefato literário clandestino. É o caso de poetas como Paulo Manoel, que manda versos direto no queixo, nos levando quase a um nocaute estético, como estes:

AÇÕES AFIRMATIVAS

Quando não tem ninguém olhando
Os três malucos das três raças
Saem da Praça, sobem a Goiás
E dão uma surra no bandeirante

A Poesia, irreverente e incansável, está também nos livros publicados recentemente por Walacy Neto, pela Nega Lilu Editora, pelo Adérito Schneider e a galera do Cidade Sombria

E não poderíamos deixar de mencionar as letras de música, em que a Poesia também hoje efervesce lindamente no caldeirão da arte goianiense. A Poesia, sempre tornando a vida mais doce e tragável apesar de suas muitas amarguras, vem usando como seu veículo as canções maravilhosas de Salma JôDiego De MoraesKleuber Divino GarcezDiego W’anderCamilo LuizaAdriel ViníciusVitor Hugo LemesFlávia Carolina AlmeidaPaula de Paula, Dinho Fernando Almeida FilhoBruno BrogioJordana LuzNegra, Carlos BrandãoNina SolderaA Jay Ajhota, dentre muitos outros.

Poucas cenas musicais alternativas no Brasilk atual, creio eu, possuem tanto alimento a proporcionar aos que tem fome de poesia, ânsia de beleza, sede de lirismo, vontade de criatividade e colaboratividade. É fenomenal que coexistam no mesmo-espaço tempo sócio-cultural estes fenômenos, sincrônicos e complementares, que fazem de Goiânia um dos maiores centros latino-americanos para a música alternativa: Boogarins, Carne DoceDiego MascateChá de GimAveEva, @CambrianaPó de SerBanda, Shotgun WivesTerra CabulaBanda Mundhumano etc. Porra, QUE CENA!

É poesia pra dar com o pau. É poesia que ameaça em breve pôr em estado de delírio lírico toda essa metrópole. E não tenham medo de overdose… pois de Poesia em excesso nunca se morre.

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P.S. – Evocações de Pio Vargas (fantasma de poeta defunto-vivo, pretérito-presente), para quem “o acaso é uma empresa para a qual tudo conspira”:

considerações necessárias

é preciso tirar a poesia da clausura dos concursos, das gaiolas do acaso, do exílio das gavetas, trazê-la para o sabor do consumo rápido e fácil, envolvê-la de popularidade, sem o vulgarismo perigoso do que é descartável, mas também sem a absurda pretensão do que se quer eterno.

poesia para fazer rir e refletir, evoluir e incomodar, propor e decompor. poesia para os botecos, para os gabinetes, para as praças, para os salões de festas, para os mocambos, para as favelas, estúdios, vídeo clipes e palanques.

poesia sem medo, poesia sem trauma, poesia-pão, poesia-sim, poesia-não. pois ia ousar um dia popularizar a poesia.

viva a poesia viva!”

https://acasadevidro.com/?s=Pio+Vargas

Pio Vargas (1964-1991)

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Aproveito o gancho e convido vocês a assistirem também meus outros filmes recentes:

“Afinando o Coro dos Descontentes”: PLAY >>> https://bit.ly/2NmELK9

“O Futuro nos Frutos: As Semeaduras do Encontro de Culturas”: PLAY >>> https://bit.ly/2pihvib.

Valeu a todos os artistas que estiveram colaborando e somando com meu trabalho. A gratidão não cabe em palavras. Sigamos adiante, contando com as benesses do Acaso, aquela empresa para a qual tudo conspira.

Por Eduardo Carli de Moraes / Goiânia, Setembro de 2018

A MÚSICA EXISTE POIS A VIDA NÃO BASTA – Na Escola da Vida, os aprendizados e benfeitorias de levar uma Existência Musicada (por Eduardo Carli de Moraes)

Assim como “a arte existe pois a vida não basta” (como diz Ferreira Gullar), daria pra dizer que a música existe pois o silêncio e o ruído nunca são suficientes aos nossos vorazes corações. A Humanidade tem ânsia de sentido e beleza, ela não se conforma apenas com o estrondo e a fúria. Temos vontade de algo melhor que a mera anarquia sônica.

Não conheço doido que julgue que o estrondo de uma bomba ou o barulho de uma britadeira seja preferível às melodias deliciosas e ao beat contagiante dos Beatles. E pouca gente além de monges, em busca da iluminação búdica, acham que o mutismo completo das bocas ao nosso redor seja mais propício a uma vibe nirvânica que Nina Simone ou Jeff Buckley cantando e encantando com seus gogós de ouro.

O ser humano não sabe se resignar a ser vítima de seu ambiente sonoro: ele quer intervir ativamente, transformar o seu arredor sônico, forjar pra si um ninho de sons. O ser humano quer infundir ao ar em que está mergulhado, éter através do qual transita e atravesse por toda a vida, aqueles salutares doses de ritmo, pulso, cadência, melodia, coro, consonância…

A Música – aquilo que, segundo Nietzsche, se não existisse transformaria a vida em um erro – é uma arte que acompanha o caminhar humano, infundindo à caminha da espécie aquilo que é quintessencial para que a nossa existência possa ter um sentido, ainda que este sentido seja estético. O sentido da vida estaria em sua beleza, e esta é nossa responsa inventarmos como pudermos. Sem a bela dança dos sons a vida seria bem mais parecida com um pesadelo.

“O mesmo fluxo de vida que corre por nossas veias, noite e dia, corre pelo mundo da dança em pulsações ritmadas.” – RABINDRANATH TAGORE, Prêmio Nobel de Literatura, poeta e músico da Índia

Fazer música é como esculpir com um mármore invisível. Os sons animam e entusiasmam quaisquer cegos! É como criar arquiteturas sem pedras, usando tijolos que os olhos não enxergam pois são ondas e vibrações a se irradiarem pelo éter. Os autofalantes vão lançando ao nosso redor as vibrações esculpidas que se movimentam no ar como se dançassem. Produzir música é como lançar no ar um remédio que se consome pelas orelhas, salutar para a saúde de coração e mente.

Pesquisas garantem que a música é reguladora do bioritmo: interfere no batimento cardíaco e é capaz de realizar proezas pelo aparelho respiratório e motor daqueles que a praticam. Para além desta utilidade visceral – a música é terapêutica desde antes de existirem farmácias e antidepressivos – a música pode ser (e anseia ser) bela. E será sempre suspeito de ser tosco e tacanho aquele que disser que a beleza é inútil… Beleza também é vida. Tente não querer se matar quando tudo ao seu redor é feio, fedorento, ruidoso.

Não serei eu o primeiro a sugerir que certas sinfonias são como catedrais, nem o primeiro a apontar as imensas dificuldades para uma autêntica escrita sobre a música, já que isso equivaleria a “dançar sobre arquitetura” (como disse Elvis Costello). Mas Costello, que desde sua estréia com o álbum (que tanto adoro) My Aim Is True nunca foi um poeta-cantor de economizar palavras (que nerd mais verborrágico!!!), não está falando que a escrita musical é inútil, só está frisando o quanto ela é difícil e desafiadora.

Animais obstinados e criativos, não só musicamos nosso mundo, mas também tentamos explicar com palavras e símbolos isto que nos fascina para além da razão, a Música. Escrevem-se tratados e sumas musicológicas, de lógicas intrincadas e assustadoras, tentando explicar o que é, por exemplo, a Harmonia – como o calhamaço aterrador de Arnold Schoenberg.

Humanos ficam escrevendo sobre os meios para a transmissão, a reprodução e a transfiguração dos nossos tesouros musicais. E há ainda desses doidos que escrevem, sabe-se-lá porque transtorno mental, um caudaloso rio de palavras infindáveis, aparentemente bastante inúteis, sobre os fascínios que a música é capaz de propiciar. Um destes agora vos escreve – e saúda ao raro leitor que, se está lendo até aqui, deve padecer também de alguma estirpe de melomania incurável.

Nesta minha torta e aflita jornada de aprendiz, em que caminho, por Amor à Música, nas páginas de manuais de Teoria Musical (Bohumil Med, Almir Chediak, Pozzolli etc.), vou compreendendo o quanto a Música é complexa, e o quanto sua linguagem específica é um imenso quebra-cabeças cognitivo. A experiência de aprendizado da linguagem musical é similar ao do aprendizado de uma língua estrangeira. Eu, que tenho facilidade com estas (em especial o inglês, o francês e o espanhol), literalmente quebro a cabeça com o idioma musical das partituras, um pouco como se estivesse diante do desafio cognitivo de aprender uma língua gringa que tem um alfabeto diferente do nosso – o grego, o russo ou o chinês, por exemplo.

A música é a arte da diferença, tão mais bela quanto melhor souber celebrá-la. A diferença é o ídolo do músico: ela não é “o oposto da harmonia, mas sua condição” (como explica Debray).

Ainda que possa conter palavras, isto é, utilizá-las como uma de suas ferramentas, a música transcende o verbo escrito. A música, apesar de a certo momento de sua trajetória histórica, ter encontrado meios para se fixar em pergaminho, em papel, em telas digitais (um assunto desvendado com maestria por Régis Debray, criador da Midialogia), existiu milênios e milênios descolada da escrita. Colada, isso sim, aos tambores rituais ou lúdicos, às gargantas ressonantes, às mãos batendo palmas percussivas – enfim às ritualidades da humanidade em sua ânsia de significação e deleite.

Por isso, a música é bem mais ancestral, no caminhar do gênero humano, do que a escrita. E creio que não há quem ponha seriamente em dúvida o fato de que terá um longo futuro pela frente. Não há sinal de que os humanos vão parar com o vício incurável da Música tão cedo! E como eu gostaria de saciar minha curiosidade sobre que sonzeiras estarão sendo realizadas e ouvidas no século 28 ou 29 da Era Corrente! Pena: não me sobrarão ouvidos nem mesmo para ouvir a música do século 22! 😦

A música, ao proporcionar uma vivência sensorial que transcende – em beleza, excitação e capacidade de mobilização! – tudo aquilo que um ambiente sonoro quieto ou ruidoso nos propiciam, acaba tornando-se uma parte integrante da condição humana. Está na condição dos artefatos, das criações humanas, das modificações que impomos à natureza, que destina-se a mudar o meio ambiente em que estamos inseridos de modo a que ele atenda melhor às nossas necessidades e vontades. E nossa vontade inclui a de uma vida que não seja atroz – a ânsia de beleza que em nós demanda e suplica, como a poetisa moçambicana Noémia de Souza: “tirem-nos tudo, mas deixem-nos a música!”

Nossa vontade de música parece ser insaciável. E para explicá-la seria preciso convocar um arsenal de argumentos de biólogos, de antropólogos, de artistas, de médicos. Pelos melômanos e musicoterapeutas, a música será descrita como um remédio para a alma; os médicos concordarão, com comprovações de cardiologistas, que ela é um auxílio na regulação dos batimentos cardíacos e do bioritmo em geral; antropólogos podem vir até com o papo de que seja um utensílio simbólico para a coesão grupal daqueles que compartilham de um mesmo território e pertencem a uma mesma etnia, cuja identidade está também conectada à unicidade de sua musicalidade… De olhos fechados, é possível diferenciar entre Fulni-Ôs e Yawalapitis somente pela música de seus ritos.

A música, se é fenômeno tão disseminado em toda parte do globo e através de toda a história humana (e esta diversidade tem sido muito bem exposta e explicitada por empreendimentos louváveis como a Putumayo Records), tem que ser por algumas de suas benfeitorias concretas, por aquilo que ela faz de bem aos seus beneficiários.

Temos que levar a sério a noção da música como terapia, como remédio, como saúde para os afetos… Mas ela também pode, como o pharmakon dos gregos, converter-se de remédio em veneno, de acordo com a dose. Tudo tem sua medida ótima, e alguém que amasse tanto a música, e que quisesse ouvi-la cada vez mais alto, ao subir o volume ao seu redor para uns 200 decibéis se arriscaria a ter seu tímpano rompido. Há quem diga que é possível inclusive causar a morte de um ser humano usando sons como punhais, manejando decibéis como balas.

Alguém pode ter uma hemorragia cerebral caso se lance pelo seu organismo adentro doses gigantescas de ruído excessivo – pensemos num torturador de Abu Ghraib ou Guantánamo Bay, que tortura até a morte os suspeitos de terrorismo sob seu jugo, impondo-lhes 12 horas diárias com 600 decibéis ininterruptos de Slipknot, Korn e Limp Bizkit… é de derreter qualquer cérebro após uma agonia das mais dolorentas!

A Música, enfim, com suas melódicas sucessões, suas harmônicas simultaneidades, suas rítmicas noções de sutis sincronicidades, cheia de ascensões e quedas, saltitando aos pinotes e pulos, sabendo cortejar também o silêncio, fluindo nas diferenças de alturas e durações, indo da quietude ao estrondo, pondo em ação a transa dos timbres, enche a nossa Vida daquela excitação que é essencial para que não sejamos mortos-vivos.

A Música é um agente intensificador da energia vital, da nossa capacidade de conexão com outros, da vivificação da convivência humana através da luz de nossos enlaces. Pois orquestra e coro são prodígios da colaboratividade humana que, caso um dia sejamos visitados por agentes extraterrestres de inteligência superior, que nos colocam como condição para que não sejamos exterminados que provemos que a Aventura Humana valeu a pena, faríamos bem em sentar os aliens diante de uma vitrola e deixá-los julgarem se merecemos seguir em existência com boas doses de Música.

PARTE 2

Como quem adiciona uma gotícula a um oceano dos escritos sobre música, quis com estas mau traçadas linhas falar também um exemplo específico disso tudo que tentei expressar em termos gerais – ou seja, quis expor um pouco do bem que me tem feito ouvir, descobrir, degustar, tocar e me inspirar com Perotá Chingó.

Escrevo para compartilhar um pouco das vivências que fizeram com que esta experiência musical, originária da Argentina, entrasse tão forte em minha vida neste 2018 – a ponto de eu já inseri-las no rol das bandas prediletas, pois das mais significativas com que já convivi. Isso tem conexão com viagens, nomadismos, descobertas territoriais e culturais, inseparáveis do clima existencial daqueles que circulam pelo mundo, que são rolling stones que não querem juntar limo, vibe dos que não querem ser imóveis e preferem ser errantes.

São as almas ciganas a imagem que sempre pinta em minha mente quando busco explicitar um pouco do afeto que me desperta a audição do Perotá. Nas andanças por Chile, Peru, Bolívia e Argentina, fui me encantando com artistas que passei a chamar de prediletos – Anita Tijoux e Quilapauyn, por exemplo – e agora o Perotá Chingó entrou neste time de artistas veneradas.

A banda explicita sua vibe viajeira, sua alma cigana, seu cosmopolitismo, ao confessar que nasceu de uma viagem: as amigas Lola e Julia, de Buenos Aires, combinaram de fazer uma viagem pelo Uruguai, tocando e cantando canções latino-americanas em bares, pubs e praias por aí. Viajaram animadas pela vontade de viver com arte, de levar arte aonde quer que fossem. Esse estilo-de-vida do artista-nômade, que quer conhecer várias culturas e construir sua obra a partir dessas influências que a jornada lhe trouxe, marca profundamente os afetos e a ambiência geral do Perotá.

Nos primórdios do projeto, Lola e Julia, acompanhadas por um videomaker, filmaram alguns vídeos desta gira musical uruguaia e um deles, “Rie Chinito”, viralizou na Internet (já contam-se mais de 18 milhões de plays). Fenômeno surpreendente para um singelo vídeo, sem sinal de efeitos especiais, gravado num único plano sequência, onde duas amigas cantam juntas, só vozes e violão. De fato, havia algo de especial e único naquele clipe de tamanha simplicidade: o espírito de contemplação reverencial da natureza se plasmou ali, na atitude das musicistas, e uma capacidade de expressão ali estava em botão que raras vezes podemos experenciar. Era o som da autenticidade da experiência vivida, a música que fazem aqueles que estão despertos para o aqui e o agora. 

RIE CHINITO

PEROTÁ CHINGÓ É:
Dolores Aguirre (Lola Membrillo)
Julia Maju Ortiz
Martín Dacosta
Diego Cotelo

Um site que serve de enciclopédia do Rock Argentino soube bem destacar os charmes do Perotá Chingó:

Perotá Chingó es aprendizaje y rasga el velo de la vida perfecta del artista, del músico, del viajero, y evidencia un estado humano de improvisación, transición y cambio que invita a compartir y adentrarse en procesos muy íntimos, exponiendo estados personales y grupales que hacen a una identidad musical en continuo proceso de transformación. (…) Perotá  es el vínculo entre tensión y armonía de dos poderosas voces y el milagro resultante de esa unión; es la relación entre seres que excede lo concretamente musical. Perotá es movimiento, es el viaje, es el amor por nuestra tierra y sus paisajes, el intercambio cultural y la integración de lo distinto; y todo eso se refleja fielmente en los primeros discos y años de su carrera donde aparece esa música fresca y descontracturada, de cara al viento, absuelta de géneros y desentendida de formas, poco pretenciosa desde la complejidad, pero capaz de hacer resonar fibras internas y profundas de quien se entregue a escucharlos.” – ROCK.COM.AR

Lembro-me muito bem que conheci realmente o som do Perotá a caminho da Chapada dos Veadeiros, de carona no Uno da Lígia, quando ela tocava uma playlist repleta de Anelis Assumpção, Quatro Cântaros, Gorillaz, e por aí vai. Era “La Cumplicidad”, que naquela ocasião me acachapou por sua beleza, pela força e sapiência dos afetos que usam a canção como veículo. Tornou-se subitamente uma de minhas canções latino-americanas prediletas, nesta muito comovedora interpretação do Perotá Chingó, que conecta-se a uma prece maconheira-rastafari (“Jah”); depois descobri que originalmente “La Cumplicidade” é uma canção do Cultura Profética, banda de Porto Rico, que com este hit caribenho atingiu mais de 80 milhões de plays no Youtube.

 

Depois de ouvir “La Cumplicidad” algumas dúzias de vezes, sem sentir seu impacto emocional diminuir, peguei o violão e tentei verter para o português aquela que eu considerava uma bela poesia-pop, de sabor um tanto idílico, sobre o amor e suas metáforas, o amor compreendido como cumplicidade. “A Cumplicidade” é uma canção sobre a rara e preciosa vivência de estar com alguém e sentir: “nossas vibrações de complementam”, “miro a teus olhos e já sei o que pensar”.

É o amor como um arrebatamento deleitoso de intimidade e confiança, o que nos conecta não só ao outro e suas vontades e necessidades, mas nos acorda para o todo da natureza. É uma espécie de folk panteísta, que corteja o silêncio de maneira zen, mas que sabe extravasar-se numa catarse de beleza. Uma canção que me parece transmitir uma sábia e lúcida poesia da interconexão. É uma canção que fala um pouco sobre aquilo que Paulo César Pinheiro, em um de seus poemas, define lindamente como “a luz de nosso enlace.”

(Versão caseira / demotape, a ser gravada com melhor qualidade no futuro)

A CUMPLICIDADE

SOU:
Um verbo que dá ação a uma boa conversação,
Sempre que me chamas sentes ganas. SOU:
A nova alternativa contra contaminação,
Tu és a energia que recarga. SOU:
Um arvoredo que dá sombra à tua casa
A brisa suave que sopra tua cara
Dos teus sonhos, nêga, sou a manifestação
Tu és a liberdade tão sonhada.

Sou a serenidade que leva à meditação,
E tu és aquele tão sagrado mantra. SOU:
Esses carinhos, Pacha, que te baixam a pressão,
E sempre que ela sobe ‘cê me chama e VOU.
Tu abres teus lençóis, vamos à cama.
Vamos conquistar toda a galáxia.
De tudo que acostuma sou contradição.
Das nossas cinzas reacendo chamas.

REFRÃO
A cumplicidade é tanta
Que nossas vibrações se complementam
O que tenho te faz falta
E o que tens me faz ser mais completa
A afinidade é tanta
Miro a teus olhos e já sei o que pensas
Te quero porque és tantas
Coisinhas belas que me fazer crer que SOU

SOU:
A levedura que faz crescer o amor-pão,
Tu és a vitamina que me falta. SOU:
Orvalho repousando à noite em tua plantação,
Tu és a terra fértil tão escassa. SOU:
A branca areia que alfombra tua praia,
Toda a folhagem que dá vida a teu mapa.
De toda idéia criativa sou a gestação,
Tu és a utopia liberada.

REFRÃO

Sou a loucura que estremece, tua adicção
Tu és a bússola pr’um frágil náufrago
Sou uma colônia que vai em busca de libertação
Tu és aquela dose de esperança, SOU
A Cordilheira que, lá na distância,
Cura teu olhar com sua elegância
De todo doido que contesta sou celebração
A nossa vida é um mistério que me encanta.

Testemunhar a interação entre Lola e Julia nos videos musicais do Perotá Chingó nos leva a refletir sobre entrosamento, interatividade, sincronia, solidariedade, joie de vivre, felicidade de conviver, sabedoria compartilhada, experiência vivida do convívio, utopia micropolítica, e por aí vai. O canto delas nos encanta pois carrega uma carga de cumplicidade, de expressividade, de abertura à colaboratividade, que nos aponta para um viver mais sábio.

“La Complicidad” é um tratado de filosofia condensado em 5 minutos de canção. Uma canção que desnuda a existência humana como conectividade, que celebra a possibilidade, rara mas existente, de uma boa conexão: aquela de cúmplices na criação. Aquela de amigos unidos pela busca infindável da sabedoria. Aquela de viajantes que estão felizes por terem se juntado para irem juntos pela estrada por este efêmero pedaço do caminho.

É também uma arte que, para mim, inspira uma modéstia maravilhada diante da majestosidade da Natureza, do Cosmos. Os dois álbuns que elas já lançaram – Perotá Chingó (2013) Aguas (2017) – são o tipo de música que pode ser usada para meditação ou contemplação diante de uma paisagem acachapante. São trilha sonora pra ouvir em Machu Picchu, diante da Cordilheira dos Andes, ou diante do Lago Titicaca.

Uma música que celebra os fluxos, os aguaceiros, as montanhas que nos curam a visão com sua exuberância… É uma música que quer plantar sementes de árvores cujos frutos no futuro brotarão. É um pouco o clima emocional que também tanto me comove na canção de Muerdo, cantor-compositor espanhol, chamada “Semillas”, e gravada ao vivo com Lola do Perotá. Também busquei expressar algo de meu em uma re-leitura e interpretação desta canção, “Somos Sementes”:

SOMOS SEMENTES

Terei que caminhar onde não há sendas
Onde ninguém cantou já meu cantar
Irei atravessar espinhentas veredas
Rumo a um tempo que amanhã nascerá

Atirarei sementes à terra
Sementes que de pronto brotarão
Com frutos de amor, e não de guerra
Com sabor de redenção e “Libertad!”

Te deixes sentir como vai entrando tudo em ti
Todo o Cosmo brilhoso explode por aqui
Posso ver a Raiz, sentir-me Terra também
Quero sentir marés vertendo sobre mim
Catarata que empurra tudo que não quer sair
E o que não me faz bem, vou enxotando de mim
AFUERA!

Quero navegar contra a Maré (ai ai)
Que trata de arrastar-me até o final
Terei que decolar com asas novas
Ícaro de acordes, ao compasso do ritmo

Atirarei sementes à Terra
Sementes que de pronto brotarão
Com frutos de amor, e não de guerra
Com sabor de redenção e “Libertad!”

Te deixes sentir como vai entrando por ti
Todo o Cosmo brilhoso explodindo por aí
Posso ver a Raiz… Sentir-me Terra também.
Quero sentir o Cosmo adentrando por mim
Catarata cósmica que não quer mais sair
E o que não me faz bem, vou enxotando daqui
E o que não nos faz bem, vamo enxotando daqui
E o que não nos faz zen, vamo enxotando daqui
AFUERA!

No embalo das vivências do Encontro de Culturas na Chapada, apaixonado por outra canção das hermosas hermanas do Perotá, dei sequência ao projeto com “Piel”, outra música-de-amor do Perotá que nos coloca para dançar a Valsa do Adeus e do Reencontro. Quando vi as duas cantando ao vivo, me encantei com tanta simplicidade e singeleza: trata-se de dizer ao outro que ele vale por inteiro, inclusive e sobretudo por sua pele. Pele: instrumento do abraço (que é, por sua vez, quando envolve de fato, o caminho para tornar-se um alguém total). Pele: o que entra em festa no sexo. Pele: o sensível por nosso corpo todo disseminado.

Não se trata de mera superfície: a pele do outro é o calor de que a gente precisa pra nos aquecer por dentro. A pele é subestimada por milênios de culto ascético de uma suposta alma desencarnada (miragem dos idealismos e das religiões…). A pele é aquilo que vale a pena preferir às miragens do amor platônico, pois contato sem tato é algo desconexo, não tem base… Contato é com tato – aí inclusos beijos, amplexos, transas, e etecétaras.

Acredito que as hermosas cantoras do Perotá Chingó são veículo de uma sabedoria afetiva e existencial que está muito bem manifesta neste minitratado sobre o amor sensual: o desejo por um outro com todo o seu corpo, aí incluso o território imenso da pele. Contra qualquer platonismo – idolatria do outro transformado em ideal descarnado -, a música fala das doçuras e dos calores do tocar, do roçar das peles calientes, do CONTATO COM TATO.

A canção fala sobre um amor que, longe de ficar aprisionado nas catacumbas escuras de uma subjetividade inacessível, vem para se manifestar à flor da pele. Na ausência do tocar – como sugere o belo livro de Ashley Montagu (Tocar: O Significado Humano da Pele) – o ser humano não consegue florescer. Chegou a era de sermos de novo os espíritos livres, hippie-dionisíacos, superficiais por profundidade!


PARTE 3 – MÚSICA NA ESCOLA DA VIDA, PARA ALÉM DOS ACESSÓRIOS PEDAGÓGICOS

Tanto pelo fato de ser, há pelo menos uns 15 anos, um melômano incurável e um músico amador, alguém que ouve muita música e que tenta sempre aprender mais sobre a feitura, sobre o métier do compositor, cada vez mais percebo a música como algo visceralmente conectado à educação.

O vínculo pode parecer um pouco absurdo para muitos leitores: acostumamos a pensar que a música pode ser, no máximo, uma espécie de coadjuvante em uma aula, utilizada por um professor de modo eventual, como material complementar ou como momento de descontração em relação à disciplina mais férrea que a transmissão dos conteúdos obriga a impor.

Já eu venho pensando que música e educação podem ter relações muito mais expandidas do que sonha nossa tradicional pedagogia. Digo isso por muitas razões: a primeira delas é que aprendo uma imensidão com a música, e se ela serve para mim como uma preciosa escola, que não cessa de produzir excelentes ensinamentos, por que não compartilhar no ambiente escolar os saberes e as práticas que se utilizam da música como veículos?

Alguns acharão ainda mais absurda a proposta deste aprendiz-de-educador de que a Filosofia, na escola, pode e deve ter na música uma de suas melhores aliadas. Explico: a filosofia costuma ser vista como algo destinado a cultivar a razão, o intelecto, as capacidades de raciocínio lógico. Mas isto está muito longe de esgotar seus potenciais, já que a filosofia é também cultivo da sensibilidade, da atenção às nossas percepções, da reflexão sobre aquilo que nos estimula, nos adentra, nos transforma ao fluir através de nós.

Mais ainda: alunos de filosofia, ao assistirem um videoclipe musical, são colocados concretamente na posição de sujeitos da experiência sensível, sob o impacto da arte, e podem assim aprender com as portas dos sentidos, que são assim escancaradas, aquelas lições que jamais se entregam aos que trazem os seus sentidos com as portas trancadas a cadeados (o que é o caso, creio eu, das maiorias – quantos de nós estão adormecidos, autômatos, teleguiados, auto-enclausurados, para tão poucos despertos Budas!).

Para além disso, creio que pode-se falar muita coisa interessante sobre ética e política, durante as aulas de filosofia, a partir da música.

A música pode auxiliar imensamente no aprendizado, desenvolvendo a rítmica corporal, a apreciação estética e as capacidades sinestésicas. Descobri recentemente que estas são sendas de interconexão entre música e educação que vem sendo exploradas por alguns inovadores como Emile Jacques Dalcroze (1865 – 1950), Carl Orff ou Lucas Ciavatta. Uma pedagogia das Eurhythms está em emergência e pode ser conhecida através do livro The moving body in the aural skills classroom, de Diane J. Urista (Oxford, 2016).


A música pode e deve invadir a sala-de-aula não apenas nas aulas de artes ou de ciências humanas, mas também (por que não? por que não?) em plena Física. Afinal, o material que a música utiliza como sua obra-prima são os sons, fenômenos físicos, evidentemente, como sabe quem já tentou quebrar vidro ao gritar bem alto. É possível quebrar vidraças ouvindo Rage Against The Machine em volume suficientemente extremo (e era isso que eles queriam dizer com Guerrilla Radio?).

Sem falar que a ação desse fenômeno físico sobre nossa realidade biológica e psíquica é uma ampla estrada repleta de ensinamentos e mistérios. A música pop, em inúmeros formas, já adorou explorar a conexão entre a pulsação rítmica intensa e a possibilidade de deixar o coração aos pinotes, ao ponto de explodir em shattered glass, como ocorre quando curtimos adoidado aquela lá do Blondie:

Na Escola da Vida, os aprendizados e benfeitorias de levar uma Existência Musicada são inúmeros. Nietzsche tinha razão: que tremendo equívoco seria, para qualquer ser humano, diante da chance única e insubstituível de ser quem é neste momento do tempo e neste local do espaço, passar pela vida sem ligar o mínimo para a Música, esta deusa majestosa e invisível que faz de nosso percurso do berço ao túmulo algo além de estrondo e fúria – ou seja, cadência, melodia, ritmo, sincronicidade, harmonia, coligação, diferença em dança, Beleza Que Flui…

por Eduardo Carli de Moraes, Setembro de 2018


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TURNÊ – EUROPA

AS FRATURAS DE UMA PÁTRIA PARTIDA – Por Mauro Iasi, Vladimir Safatle e Eduardo Viveiros de Castro

17/04/2016 – Brasília-DF, Brasil – Durante o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, manifestantes ocuparam a Esplanada dos Ministérios e ficaram separados por um Muro. Foto: Ricardo Stuckert.

UM PAÍS FRATURADO – Por Mauro Luis Iasi

“Uma coisa é um país,
outra uma cicatriz.”
Affonso Romano de Sant’Anna

Somos um país fraturado. Um país fraturado é mais que um país dividido, é um país no qual a divisão tornou-se algo explosivo. Não é um mero trauma, é uma fratura exposta. Os bálsamos e unguentos tradicionais não vão curar o osso partido, a pele rompida, os tendões e músculos destroçados.

Sempre fomos um país divido. Dividido pela desigualdade estruturante das formações sociais, incluídas a força na ordem mercantil mundial e depois no modo de produção capitalista. Dividido entre colonizadores e povos indígenas, entre escravocratas e escravos, entre oligarcas e povo, entre latifundiários e agricultores, entre burgueses e proletários. No entanto, essa desigualdade nem sempre se manifesta como fratura. Em tempos ditos normais, a desigualdade encontra formas de subordinação à ordem, seja ela colonial, escravocrata, republicana ou democrática, de maneira que as tensões inevitáveis entre aqueles que exploram e dominam e aqueles que sofrem a dominação podem se apresentar como formas “civilizadas” de uma ordem instituída, até mesmo logrando a submissão passiva ou ativa de amplos segmentos das camadas oprimidas.

Por vezes, no entanto, essa ordem é abalada pela explosão das contradições que vão se acumulando no tecido de uma sociabilidade fundada na desigualdade e na exploração. Isso acontece com muito mais frequência do que gostariam os artífices do discurso sobre nossa “vocação pacífica e ordeira”. São muitos os exemplos, desde a resistência indígena na Confederação dos Tamoios (1554-1567), passando pelo Quilombo dos Palmares (1580-1710), a Confederação do Equador (1824), a Revolta dos Malês (1835), as Rebeliões Regenciais (1831-1840), a guerra de Canudos (1896-1897) as lutas operárias desde o final do século XIX, a Greve Geral de 1917 e a insurreição de 1919, o Movimento Tenentista de 1922, a Revolução Paulista de 1924, a Coluna Prestes (1925-1927), o movimento de 1930 que levou Getúlio Vargas ao poder, a insurreição da ANL e do PCB de 1935, a revolta de Trombas e Formoso em Goiás (1950-1957), a resistência armada contra o Golpe de 1964, apenas para citar alguns exemplos numa longa lista histórica de revoltas e resistências às quais devemos somar a cotidiana e, muitas vezes, invisível resistência contra a violência, a fome, a exploração e a opressão diária que empreendem os oprimidos.

A natureza estrutural da desigualdade, que encontra suas raízes no passado colonial e escravista, mas que que se consolida com o desenvolvimento do capitalismo dependente e a submissão ao imperialismo, acaba por determinar limites evidentes ao desenvolvimento da ordem democrática que se vê condenada à uma democracia restrita para poucos, resultando no aspecto autocrático do Estado brasileiro, nos termos em que define Florestan Fernandes. Uma democracia para poucos setores privilegiados, resultantes da fusão oligárquica-burguesa, que tem por principal problema equacionar a exclusão das amplas maiorias da ordem que as explora e domina.

O mito segundo o qual o desenvolvimento da economia capitalista resultaria na gradual diminuição das desigualdades se demonstrou uma falácia, seja pela prova prática do chamado “milagre brasileiro” durante a ditadura, seja pela recente e traumática experiência de conciliação de classes do ciclo petista. O que ficou comprovado é que a alternância de ciclos de crescimento e recessão acabam por revelar, ao final, aumento significativos das desigualdades econômicas e sociais entre as classes.

Nos momentos de euforia se produz fantasias ideológicas, tais como a “brasilianidade” da época getulista, o mito do “Brasil potência” na Ditadura, ou o discurso de que o Brasil poderia ser um “país de todos” no engodo da conciliação de classes. No entanto, na crise do capital, inevitável no processo de valorização do valor para quem o conhece, a ideologia se desmascara e a contradição latente emerge na forma de conflito e, em certas condições, de fratura. É nestes momentos que a outra face de nosso “caráter” se revela.

Vivemos hoje um desses momentos e é necessário compreendê-lo. Estamos convencidos de que não se trata de uma “onda conservadora”, ou um acidente inexplicável no curso normal de uma democratização interrompida, ou ainda uma momentânea espécie de “psicose de massas”. Estamos diante de uma manifestação compreensível e até certo ponto esperada de uma sociedade fortemente cindida em interesses inconciliáveis de classe que tem sido mantida e reproduzida por artifícios políticos e ideológicos que encontraram seu ponto de esgarçamento.

Resumidamente, podemos afirmar que vivemos em uma sociedade na qual os setores dominantes (primeiro oligárquicos e aristocráticos; depois burgueses dependentes e aliados à ordem imperialista, suspeitamos que sem que se percam aspectos oligárquicos e aristocráticos) que constituem não mais que algo em torno de 3% da população economicamente ativa, concentram a maior parte da riqueza socialmente produzida. Os dados de 2014 indicavam que os 10% mais ricos concentravam cerca de 72,4% da riqueza nacional (em 1990 concentravam 53%), em 2015, 1% dos mais ricos concentravam 28% da riqueza. Como um exemplo, as seis pessoas mais ricas do Brasil em 2017 (segundo dados da Oxfam), Jorge Paulo Lemann (AB Inbev), Joseph Safra (Banco Safra), Marcel Hermmann Telles (AB Inbev), Carlos Alberto Sicupira (AB Inbev), Eduardo Saverin (Facebook) e Ermirio Pereira de Moraes (Grupo Votorantim), juntas têm mais dinheiro que metade da população brasileira.

Alguns estudiosos estão preferindo utilizar termos como “plutocracia” para designar uma ordem na qual uma pequena maioria impõe seus interesses, e me parece cada vez mais adequado. Em um quadro como este, as formas políticas têm que ser limitadas à deformações autocráticas, ainda que, por momentos, se expressem em aparências democráticas, resultando naquilo que o mesmo Florestan denominou de “democracia de cooptação”. Nesta situação, a ideologia evidentemente ganha centralidade, uma vez que a ordem precisa do consentimento de parte daqueles que de fato nada têm a ganhar com ela, tal consentimento só pode ser logrado com poderosas doses de encobrimento, naturalização, justificativas, inversões que possam apresentar os estreitos interesses de uma insignificante minoria como se fossem interesses gerais.

O momento da crise é também o momento em que os mecanismos ideológicos mostram sua insuficiência para acobertar o real. As ideias que correspondiam a uma certa ordem social, perdem essa correspondência, tornando-se, nas palavras de Marx e Engels, “inautênticas” (A ideologia alemã, p. 283). No entanto, seguem os mesmos autores, paradoxalmente essas ideias “quanto mais desmentidas pela vida […] tão mais resolutamente são afirmadas, tanto mais hipócritas, moralistas e santa se torna”.

A falência dos mecanismos políticos, jurídicos, policiais e ideológicos, abre espaço para a violência. Mas analisemos mais detidamente essa violência. Na ordem burguesa (seja ela abertamente autocrática ou formalmente democrática), a violência sempre se faz presente – ela é uma condição inevitável, inclusive para a formação do chamado “consenso”. A violência de que aqui se trata é a reação de um segmento minoritário e privilegiado numa ordem intrinsicamente injusta e violenta que vê o risco da massa de oprimidos levantar-se contra eles.

Este é outro dos aspectos constitutivos de nossa formação social: as camadas e classes dominantes se antecipam para evitar que os fechamentos de ciclos possam levar a explosões que coloquem em risco a continuidade de seu domínio. Foi assim na abolição da escravidão, cercadas de garantias legais e policiais, para que os ex-escravizados não resolvessem reagir a séculos de arbítrio, agressões e exploração a que foram submetidos. Foi assim na chamada transição lenta, gradual e segura transição da ditadura à democratização. Um dos mecanismos desse fenômeno, que já foi chamado de “mudança conservadora”, é o fato que as classes dominantes manipulam estereótipos para produzir em torno delas a universalidade vazia que possa ocupar o lugar daquela que ela um dia por ventura tenha tido alguma substancialidade. Aí se inscrevem os mitos da “nação”, do “desenvolvimento”, do “risco do comunismo”, da “guerra contra as drogas e o crime”, a “defesa da família e da moral”, o combate à “corrupção” entre outros.

É por isso que as classes dominantes são tão violentas e irracionais: medo. E elas têm motivos para temer. O aspecto aparentemente irracional é adesão de segmentos dos explorados na defesa desses mitos e reforçando estereótipos que em última instância se voltam contra eles próprios. Em outra oportunidade refletimos sobre isso ao remeter aos estudos de Reich e a psicologia de massas do fascismo. Agora nos interessa um outro aspecto.

Algumas pessoas têm buscado entender a radicalização da fratura em nosso país pela emergência de um suposto “discurso de ódio”. Para provocar, nossa reflexão começaria dizendo que não há “discurso de ódio”… o que existe é ódio que se expressa, entre outras coisas, no discurso. Essa distinção aparentemente sutil nos parece importante porque, sem ela, podemos cair no equívoco de acreditar que é o “discurso” que gera o ódio, o que nos levaria à ingênua posição de alertar as pessoas para ter cuidado com que falam porque o que for dito pode nos conduzir à violência e à barbárie. Caso estejamos certos em nossas premissas, o discurso de ódio expresso por representantes das camadas privilegiadas é a expressão do receio desses segmentos de que as condições que permitem a continuidade de seus privilégios possam ser abaladas pelo despertar das massas cuja exploração é condição para tanto. Trata-se de um “ódio de classe”, o que não impede que se expresse também como racismo, homofobia, machismo e misoginia, fundamentalismo religioso ou outra forma qualquer de irracionalismo, mas seu fundamento é o ódio de classe. Há uma clara diferença no tratamento da desigualdade e da violência contra negros, mulheres, gays e lésbicas, quando se soma ao estigma do preconceito a condição de classe, ainda que seja sempre racismo, machismo, homofobia etc. É inegável que para os pobres e a classe trabalhadora o preconceito assume a forma de risco de morte.

Identificamos o fato de que o trauma da desigualdade e seu fundamento na exploração, alcançou o status de fratura, na medida que mesmo as manifestações mais elementares que poderiam indicar um caminho saudável de fusão em torno de uma universalidade um pouco mais substantiva, são o meio pelo qual o ódio de classe se manifesta. Vale elencar alguns poucos, mas representativos, exemplos.

Uma jovem negra e lésbica é assinada com tiros na cabeça, uma liderança indígena é abatida a tiros, um ônibus em campanha é atingido por tiros, um museu pega fogo e destrói um patrimônio inestimável. Imediatamente, o tecido fraturado da sociedade dá espaço para o brutal ataque e desqualificação das vítimas, de forma violenta, mentirosa, mesquinha. Vejam, não é um expediente desconhecido. Quando um jovem é assassinado na favela é preciso transformá-lo em traficante, quando um pedreiro é torturado até a morte e seu corpo desaparece é preciso levantar dúvidas sobre seu comportamento, quando uma mãe de família é baleada e seu corpo arrastado por uma viatura, é necessário contextualizar essa cena num tiroteio contra o crime organizado.

Agora, a vereadora assassinada ainda tem que ser alvejada por calunias contra sua pessoa, a universidade pública incinerada novamente, agora por notícias falsas que a responsabilizam pela agressão da PEC 241 que congela gastos por 20 anos, o ex-presidente tem que ser preso pela suposta e não provada propriedade de um apartamento na praia, a presidente deposta tem que ser agredida e desqualificada, um professor de uma universidade pública, com hábito de ler poemas, tem que ser processado como um perigoso terrorista que pode eliminar todos os conservadores a golpe de sonetos, pedagogos têm que ser torturados até confessar que leram Paulo Freire e que O pequeno príncipe é parte do “kit gay” distribuído nas escolas. Parece irracional, porque é. Mas é uma irracionalidade compreensível.

A única maneira de uma ordem desumana, depredadora, profundamente desigual e cruel conseguir forjar um consenso em torno dos segmentos privilegiados é criar algo que aparentemente atinja todos e responsabilizar os segmentos que você quer isolar. Um exemplo clássico é o da corrupção. Uma vez que tal prática delapida o patrimônio público e acaba desviando os recursos da educação, da saúde e de outros setores, basta colar o estigma no segmento que se deseja combater e pronto.

A operação costuma funcionar como um evento traumático que signifique muito para muita gente. Manipula-se um sentimento de insegurança; uma morte, um assassinato, que possa gerar identificação imediata. Vários são os exemplos de episódios que antecederam aventuras violentas e desastrosas: o famoso incêndio de 1933 no Reichstag, cuja culpa foi atribuída a um pedreiro desempregado que havia sido membro do Partido Comunista, contribuindo de forma decisiva para a consolidação do domínio nazista na Alemanha; o atentado contra Carlos Lacerda, na Rua Tonelero, em 1954, que acabou por isolar o presidente Getúlio Vargas e o levar ao suicídio; o assassinato do Arquiduque de Sarajevo, em 1914, estopim da Primeira Guerra Mundial; o conhecido “plano Cohen”, forjado por Getúlio Vargas e atribuído aos comunistas para justificar o golpe de 1937, entre muitos outros exemplos.

É evidente que nem toda tentativa é assim tão sofisticada (tenho muita pena dos historiadores do futuro), como a delirante denúncia de que os perigosos marxistas do Foro de São Paulo (poucas iniciativas foram tão reformistas e pouco marxistas como o Foro de São Paulo) têm um plano secreto para implantar na América Latina uma federação de repúblicas socialistas. No entanto, a lógica é a mesma: encontrar o inimigo, estigmatizá-lo, depositar a culpa da crise sobre seus ombros e arrastar o irracionalismo até o ponto em que parte das massas sirvam à manipulação e a prestem-se ao papel de defesa de uma ordem que as oprime e despreza contra aqueles que tentam defender seus reais interesses.

Assim se destrói a saúde pública e se culpa os que defendem o SUS. Assim se sucateia a universidade pública culpando aqueles que trabalham em sua defesa. Assim se mata nas favelas, culpando as que próprias pessoas que são obrigadas a viverem lá. Assim se destrói todo um país culpabilizando aqueles que tentam salvá-lo. As margens do rio continuam seu trabalho de opressão e já se prepara o discurso que culpabilizará a força das águas que estão prestes a transbordar.

O problema é o que fazer com fraturas expostas. As classes dominantes estão jogando um jogo muito perigoso, mas que jogam bem e têm recursos para tanto. Acreditam, como em outros momentos da história, que podem utilizar de seus extratos mais radicalizados da extrema direita, eliminar seus adversários e voltar com reconciliadores da vida nacional. Nem sempre dá certo, como provam os casos do nazi-fascismo na Europa, a ditadura no Brasil e o Trump nos EUA. No enterro da democracia, coitada tão frágil, todos os presentes chorarão copiosamente, inclusive, como vemos sempre nos filmes e series policiais, o assassino. Uma coisa sabemos: o bálsamo das eleições não ungirá o vencedor com a legitimidade esperada e o Brasil sairá do pleito ainda mais fraturado do que entrou.

Nuvens pesadas se assomam no horizonte e diálogos francos e chá de camomila ajudam tanto como a criança que tenta juntar os cacos do vaso que despedaçou.

* * * * *

PÚBLICO ENTREVISTA VIVEIROS DE CASTRO

“O Museu Nacional talvez fosse o lugar mais importante do Brasil em termos do seu valor como património cultural e histórico, não só brasileiro como mundial. Trata-se da destruição do ground zero, o lugar central que era o símbolo da génese do país como nação independente e continha um acervo inestimável, não só do ponto de vista da história da cultura e da natureza brasileiras mas com peças de significado mundial. Foi destruída toda a colecção de etnologia indígena, inclusive de vários povos desaparecidos, foi destruída toda a biblioteca do sector de Antropologia, e foi destruído o Luzia, o fóssil humano mais importante e antigo das Américas. É uma perda que não tem como reverter, não há nada que se possa fazer que mitigue, que amenize essa situação. Só se pode chorar em cima do leite derramado, que não adianta nada.

As causas últimas desse incêndio, todo o mundo sabe quais são. É o descaso absoluto desse Governo, e dos anteriores, para com a cultura. O Brasil é um país onde governar é criar desertos. Desertos naturais, no espaço, com a devastação do cerrado, da Amazônia. Destrói-se a natureza e agora está-se destruindo a cultura, criando-se desertos no tempo. Estamos perdendo com isso parte da história do Brasil e do mundo, porque se trata de testemunhos com significado para toda a civilização.

(…) É uma perda incalculável que se explica – não se justifica, mas explica-se – pelo descaso absoluto que todos os Governos, e esse Governo ilegítimo em particular, votam à cultura, com cortes dramáticos nos orçamentos da cultura e da educação, ameaças grave de desmontagem das universidades públicas [o Museu Nacional está ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro]. É um projecto de devastação, de criação de desertos, desertos no espaço e no tempo. A destruição do museu é um deserto no tempo, é destruir a memória, destruir a História.

(…) A minha vontade, com a raiva que todos estamos sentindo, é deixar aquela ruína como memento mori, como memória dos mortos, das coisas mortas, dos povos mortos, dos arquivos mortos, destruídos nesse incêndio.

Eu não construiria nada naquele lugar. E, sobretudo, não tentaria esconder, apagar esse evento, fingindo que nada aconteceu e tentando colocar ali um prédio moderno, um museu digital, um museu da Internet – não duvido nada que surjam com essa ideia. Gostaria que aquilo permanecesse em cinzas, em ruínas, apenas com a fachada de pé, para que todos vissem e se lembrassem. Um memorial.” – Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo brasileiro

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* * * * *

O PAÍS ESTÁ QUEIMANDO
por Vladimir Safatle

Dificilmente alguém conseguiu sintetizar de forma tão precisa a atitude a tomar diante da destruição do Museu Nacional como o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro.

Segundo ele, as ruínas do museu deveriam ser deixadas como estão, a destruição deveria ser eternamente lembrada. Nada deveria ser reparado ou construído no lugar. Isso faria com que as gerações futuras se lembrassem do que são capazes aqueles que atualmente acreditam nos governar.

Ao fim da Segunda Guerra Mundial, os alemães decidiram deixar em ruínas uma das catedrais mais importantes de Berlim. Quem for à praça Breitscheid pode ver ainda hoje o que restou da igreja luterana Kaiser Wilhelm. Essa foi a maneira de inscrever no coração da cidade a memória do que produz o totalitarismo.

Se quisermos nos livrar do destino que estão a nos impor, o melhor a fazer é transformar as pedras do Museu Nacional em nosso espaço de memória.

Todos verão que naquele lugar o governo brasileiro queimou a história de seu próprio país no altar do livro sagrado das insanidades econômicas. Essas ruínas são o único monumento possível à “austeridade”.

No entanto, é claro que este governo e todos aqueles que acham sua política econômica piromaníaca “racional”, gente espalhada em colunas de jornais, atuando como “especialistas” ou “consultores”, estão agora a expor o mais patético de todos os espetáculos: a transferência de responsabilidade.

Afinal, faz parte do ideário liberal empurrar as catástrofes que ele próprio produz para o colo do outro. Por isso, você nunca encontrará um liberal fazendo alguma forma de autocrítica. Caminhoneiros podem parar o país e museus podem queimar, mas a política econômica responsável por tudo isso estava e continua a estar absolutamente correta.

Assim, mesmo que os números sejam explícitos a respeito do corte brutal de verbas para o museu nos últimos três anos, chegando a míseros R$ 54 mil em 2018, mesmo que o teto de gastos tenha destroçado os orçamentos das universidades federais, mesmo que os museus públicos estejam todos gritando por socorro e as entidades de fomento à pesquisa estejam todas alertando a sociedade para o colapso da pesquisa nacional por falta de financiamento, a culpa do incêndio só pode ser do porteiro do prédio ou do reitor da UFRJ, entidade a qual o museu era vinculado.

Essa é uma estratégia clássica e vergonhosa de desinformação. Como é impossível dizer que não havia dinheiro —pois um governo que reajusta salários do Poder Judiciário teria verba para seus museus se entendesse isso como uma prioridade—, sobra a produção de falsas notícias e “polêmicas” a fim de criar a impressão de que “tudo isso é muito complicado para entendermos”.

Então começamos a ouvir, por exemplo, que a verba repassada à universidade teria aumentado, enquanto o que subiu foram, na verdade, as despesas não discricionárias (as que a reitoria não pode, por lei, modificar o destino). Nada desse montante estava direcionado ao museu.

Ouvimos ainda que, há 20 anos (quando, diga-se de passagem, o governo federal era do PSDB), a UFRJ teria recusado US$ 80 milhões do Banco Mundial para reformar o museu por não querer repassá-lo à gestão privada. O próprio banco desmentiu o que foi veiculado como verdade por parte da imprensa.

Esse jogo primário de desinformação visa esconder um fato que a população grita nas ruas para quem quiser ouvir: enquanto nossos bancos batem seguidamente recordes de lucros —obscenos até para os padrões do capitalismo mundial—, enquanto a elite rentista tem seus ganhos intocados graças a um sistema tributário feito para blindá-la, o país está queimando.

Estamos em ruínas. Mas para essa elite dirigente e rentista, com seus porta-vozes, o fogo realmente importa pouco.

Nesta semana, descobrimos que o Museu do Louvre recebeu neste ano mais brasileiros que o Museu Nacional. Ou seja, como se trata de uma parcela da população acostumada à lógica do saque e da fuga, é normal que seus olhos estejam voltados para fora, para os lugares nos quais eles gastarão aquilo que espoliaram.

Pois quem viverá entre as ruínas, podem ter certeza, seremos apenas nós.

Vladimir Safatle

* * * *

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INVENTÁRIO DE CICATRIZES – Poemas de Alex Polari

INVENTÁRIO DE CICATRIZES

Poemas de Alex Polari

 

OS PRIMEIROS TEMPOS DA TORTURA

Não era mole aqueles dias
de percorrer de capuz
a distância da cela
à câmara de tortura
e nela ser capaz de dar urros
tão feios como nunca ouvi.
Havia dias que as piruetas no pau-de-arara
pareciam rídiculas e humilhantes
e nus, ainda éramos capazes de corar
ante as piadas sádicas dos carrascos.
Havia dias em que todas as perspectivas
eram prá lá de negras
e todas as expectativas
se resumiam à esperança algo céticas
de não tomar porradas nem choques elétricos.
Havia outros momentos
em que as horas se consumiam
à espera do ferrolho da porta que conduzia
às mãos dos especialistas
em nossa agonia.
Houve ainda períodos
em que a única preocupação possível
era ter papel higiênico
comer alguma coisa com algum talher
saber o nome do carcereiro de dia
ficar na expectativa da primeira visita
o que valia como uma aval da vida
um carimbo de sobrevivente
e um status de prisioneiro político.
Depois a situação foi melhorando
e foi possível até sofrer
ter angústia, ler
amar, ter ciúmes
e todas essas outras bobagens amenas
que aí fora reputamos
como experiências cruciais.

* * * * *

INVENTÁRIO DE CICATRIZES

Estamos todos perplexos
à espera de um congresso
dos mutilados de corpo e alma.

Existe espalhado por aí
de Bonsucesso à Amsterdam
do Jardim Botânico à Paris
de Estocolmo à Frei Caneca
uma multidão de seres
que portam pálidas cicatrizes
esmaecidas pelo tempo
bem vivas na memória envoltas
em cinzas, fios, cruzes,
oratórios,
elas compõem uma catedral
de vítimas e vitrais
uma Internacional de Feridas.

Quem passou por esse país subterrâneo e não oficial
sabe a amperagem em que opera seus carrascos
as estações que tocam em seus rádios
para encobrir os gritos de suas vítimas
o destino das milhares de viagens sem volta.

Cidadãos do mundo
habitantes da dor
em escala planetária

Todos que dormiram no assoalho frio
das câmaras de tortura
todos os que assoaram
os orvalhos de sangue de uma nova era
todos os que ouviram os gritos, vestiram o capuz
todos os que gozaram coitos interrompidos pela morte
todos os que tiveram os testículos triturados
todas as que engravidaram dos próprios algozes
estão marcados,
se demitiram do direito da própria felicidade futura.

* * * * *

MORAL E CÍVICA II

Eu me lembro
usava calças curtas e ia ver as paradas
radiante de alegria.
Depois o tempo passou
eu caí em maio
mas em setembro tava por aí
por esses quartéis
onde sempre havia solenidades cívicas
e o cara que me tinha torturado
horas antes,
o cara que me tinha dependurado
no pau-de-arara
injetado éter no meu saco
me enchido de porrada
e rodado prazeirosamente
a manivela do choque
tava lá – o filho da puta
segurando uma bandeira
e um monte de crianças,
emocionado feito o diabo
com o hino nacional.

* * * * *

REQUERIMENTO CELESTE COM DIGRESSÕES JURÍDICAS
(POR OCASIÃO DO POUSO DA VIKING 1 EM MARTE)

Resolvi denunciar às amebas de Marte
(caso elas existam)
a minha sui generis situação jurídica
de condenado duplamente
à prisão perpétua,
olvidado em várias esferas
absolvido em uma das vidas
e esperando recurso da outra
e tendo ainda por cima
além de certas transcendências sustadas
mais quarenta e quatro anos de reclusão
a descontar não sei de qual existência.

Resolvi portanto,
romper meu silêncio de quase 6 anos
e denunciar em outros astros
a situação atroz que aqui prevalece
tendo o Ministério Público
pedido duas vezes minha condenação à morte.
Assim sendo, continuo sem grilhetas
cumprindo minha condenação
à danação perpétua
neste pedregulho
cheio de poluição
ditaduras e injustiças
que convencionaram chamar planeta
em eterna órbita
sem ternura ao redor
de uma estrela de 5a grandeza.
Nestes termos,
em lugar sobremaneira ermo,
pede deferimento
com o corpo cheio de feridas
o suplicante
irrecuperável militante
desta província celeste
encravada entre nebulosas
e sentimentos mais nebulosos ainda.

* * * * *

ESCUSAS POÉTICAS II

Alguns companheiros reclamam
que entre tantas imagens bonitas
eu diga em meus poemas que gosto de chupar bucetas
e não vejo como isso atrapalhe a marcha para o socialismo
que é também o meu rumo. Mais ainda,
eu gostaria que nessa nova sociedade por qual luto
todos passassem a chupar bucetas a contento
todos redescobrissem seus corpos massacrados
todos descobrissem que o medo e a aversão ao prazer
a que foram submetidos foi e será sempre
apenas a estratégia dos tiranos.

Outros companheiros reclamam
quanto ao uso da 1a pessoa
em meus poemas, a falta de desfechos
corretos do ponto de vista político
e os resquícios da classe que pertenço.

A isso tudo procuro responder
que a poesia reflete uma vivência particular,
se universaliza apenas nessa medida
e que não adianta você inventar um caminho
para um povo que você não conhece nem soube achar.
Eu bem que gostaria de ter essa solução, é minha senda,
eu estou sinceramente do lado dos oprimidos
só que de uma maneira abstrata
o que errei, errei por eles,
num processo não despido de angústia
e minha poesia teria que se ressentir disso.

Quanto as outras críticas,
o que posso dizer é que a falta de lógica de meus sentimentos
não acompanha a lógica dos manuais de dialética
e que minhas intenções e objetivos
nem sempre correspondem à minha vida real.

O que muitos não entendem
é que eu quero muito falar do meu povo
da sabedoria dele,
das coisas simples
que lhe são mais imediatas
mas que esse canto hoje soaria falso
e que só posso falar disso
quando não precisar inventar nada,
quando minha práxis for essa
o caminho escolhido o certo,
quando não precisar de metáforas.

O dia da redenção tanto pode ser uma aurora quanto um poente,
isso pouco importa
desde que se cante e anuncie
de todas as formas possíveis.

* * * * *

ALEX POLARI foi preso político da Ditadura Militar brasileira por 9 anos (1971-1980). Hoje é uma das lideranças mundiais da comunidade Santo Daime e defende a terapêutica propiciada pela ayahuasca (saiba mais na Trip: https://revistatrip.uol.com.br/trip/alex-polari)

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O GOLPE VESTE TOGA – Guerra Jurídica nas Eleições de 2018 perpetua o Golpe de Estado de 2016 e nos encaminha para futuro turbulento

Marcha em direção ao TSE de Brasília para o registro da candidatura de Lula à Presidência da República. Foto: Gustavo Bezerra. Data: 15/agosto/2018.

“Não sei se eles vão passar para a história como juízes ou como algozes.”
Luiz Inácio Lula da Silva, preso político e candidato a presidente pelo Partido dos Trabalhadores

Se o Diabo veste prada, o Golpe veste toga. Como disse Pedro Serrano: “o que parece estar ocorrendo na América Latina é a substituição da farda pela toga.”

O golpismo que derrubou Lugo no Paraguai e Dilma no Brasil, que atentou contra Chávez e Maduro na Venezuela, que segue tentando desestabilizar o governo Evo Morales na Bolívia, que celebra a chegada de neoliberais como Macrí na Argentina e Piñera no Chile, não opera mais com tanques de guerra, soldados e escopetas.

Hoje, um Golpe de Estado é dado nos tribunais. Seu maquiavélico xadrez é jurídico. Sua guerra é jogada em conluio com as mídias, com altas comemorações no topo (estreitíssimo) da pirâmide social quando se consegue substituir um governo de soberania popular por um outro que seja fantoche dos interesses da elite, ou que seja a elite tirânica ela mesma, exercendo sua supremacia sem intermediários.

“É o segundo golpe de Estado que enfrento na vida. O primeiro, o golpe militar, apoiado na truculência das armas, da repressão e da tortura, me atingiu quando era uma jovem militante. O segundo, o golpe parlamentar desfechado em 2016 por meio de uma farsa jurídica, me derruba do cargo para o qual fui eleita pelo povo” – Dilma Rousseff, presidenta do Brasil entre 2010 e 2016. In: SINGER, André. O Lulismo em Crise. Pg. 14. Companhia das Letras, 2018.

Sempre que a elite, já privilegiada ao excesso, puxa o tapete do adversário para manter-se em sua palaciana posição, não faltam os aplausos dos idiotas úteis que, na classe média, preferem a solidariedade com as elites opressoras à empatia com os oprimidos. Eis um breve retrato do Brasil…

O grande “beneficiário” do coup d’état de 2016 é a maré montante de fascismo, que ameaça colocar o Brasil na rota dos países decaídos no autoritarismo, no genocídio racista, no terrorismo de Estado. Como se fôssemos incuráveis amnésicos, que não só reduzem a cinzas o Museu Nacional do RJ, mas recusam-se a aprender com lições do passado, vítimas do que um de nossos melhores escritores e pensadores, Bernardo Kucinski, chama de “mal de Alzheimer nacional”.

São milhões teleguiados pela rede Globo, e só um punhado de leitores de K – Relato de Uma BuscaTriste povo que não aprende com a sabedoria de sua própria literatura. Que não se informa com Kucinski, mas sim com os Marinho. Um povo que não lamenta a morte da revista Caros Amigos, pois julga que sua fonte confiável de informação está semanalmente na Veja (mesmo com o colapso generalizado do grupo empresarial Abril…).

É como se não quiséssemos aprender com as lições da Ditadura inaugurada pelo golpe militar de 1964 e que nos lançou a bem mais que 21 anos de trevas políticas: estamos até hoje atolados no “entulho autoritário”, nos legados tenebrosos daquela época, e ao invés de tirar sabedoria desta História, nós… incineramos nosso passado. Nossos museus estão virando cinzas, e nossa sanidade coletiva também.

Vamos rumo ao caos da guerra civil caso a democracia termine seu processo de auto-destruição com a tomada de poder pela extrema-direita Bolsonazista. Digo tomada de poder pois não existirá, jamais, nunca, em nenhuma hipótese, um “regime Bolsonaro” que seja legítimo. Das eleições de 2018, com a exclusão via guerra jurídica da candidatura do Lula, não existe possibilidade de nascer um governo legítimo. Muito menos um que busque se basear em inaceitáveis práticas de genocídio, limpeza étnica, tortura, fuzilamentos, como prega o candidato.

https://www.facebook.com/Alysonfr/videos/1780439285404081/

O sintoma mais grave da psicopatologia coletiva que nos acomete – e que mereceria ser decifrada na companhia de Wilhelm Reich, Erich Fromm e Hannah Arendt – é o tamanho do eleitorado da chapa presidencial do PSL: Bolsonaro/Mourão.

Aquela excelente video-reportagem da Vice já escancarou o tamanho do nosso buraco. Pois nosso buraco deixou de ser a presença entre nós de um partido fascista, o nosso problema é um fascismo social, o fato de que uma parte significativa da nossa população realizou já uma espécie de conversão ao campo do fascismo. De onde, aliás, talvez nunca tenha de fato saído, dada à pregnância e disseminação, entre nós, da “personalidade autoritária”, que faz de nossas elites políticas, tão frequentemente, estes mandões escrotos e tirânicos que carregam a mão na opressão truculenta contra o povo, enquanto gozam de iguarias e privilégios defendidos com base na força militar escancarada e na imposição terrorista do Medo intimidador.

Quando um candidato é capaz de falar no Jornal Nacional que um policial militar que entrasse na favela metralhando, e que matasse 15 pessoas, deveria ser “condecorado”, e quando as intenções de voto para esta figura boçal e truculenta atingem mais de 20% dos eleitores, sentimos que o Brasil é um país que fracassou. A nossa “polarização política” já não pode ser vista com um sintoma normal de uma pujante sociedade democrática que experimenta os riscos e aventuras do pluralismo e do pluripartidarismo. A nossa polarização é bélica e violenta, e o Mito do Brasileiro Cordial vai se esboroando cada vez mais. Querem-nos brutos e brutais como os Bolsonazistas. Nós insistiremos na senda difícil da solidariedade com os injustiçados, endurecendo pero sin perder la ternura jamás, como o Che.

O que a extrema-direita faz com o debate público é puxá-lo para o nível (boçal e truculento) deles, convidando-nos a compartilhar da psicopatia deles. Pois Bolsonaro não é nada menos que um psicopata (diferente do normopata Alckmin, o picolé-de-chuchu da mediocridade burguesa, mas que em período de crise se mostra, como se fez no Pinheirinho em São José dos Campos, como burguesia-fascista também… Como Brecht ensinava: nada mais parecido com um fascista que um burguês assustado).

Bolsonaro, em sua psicopatia, em sua personalidade repleta de fobias, em seu temperamento de genocida, é a pior pessoa do mundo a quem confiar poder em excesso, dado a alta probabilidade de abuso em larga escala desse poder, e subsequente crise humanitária. Com Bolsonaro no poder, estamos falando da banalização ainda piorada dos crimes contra a humanidade que já ocorrem tanto no Brasil.

Um país “do futuro” (que nunca chega), o Brasil é tanto a pátria das róseas esperanças do judeu perseguido Stefan Zweig e a pátria onde o mesmo naufragou com os destroços de suas ilusões (suicidou-se com a esposa em Petrópolis). Um país desencaminhado, como de praxe, por suas elites, responsáveis por tantos de nossos atrasos. Vamos afundando no lodaçal que aprofunda o estado de guerra civil latente. É guerra de classe, e os ricos estão vencendo. Eles não vencem mais com tanques, vencem com PECs. Eles não impedem as eleições, mas eles nos proíbem de votar em quem eles não querem que vença. E assim vamos, caminhando e cantando…

Com Bolsonaro no poder, porém, esqueçam o papo hippie de flores contra canhões. Preparem-se para novas guerrilhas, para uma nova onda de novos Marighellas, pois aqueles que querem impor tamanha violência militarizada aos governados podem esperar uma reação também violenta por parte dos violentados.

Não haverá governo Bolsonaro sem uma clandestina efervescência de movimentos que serão obrigados à tomar a via insurrecional e revolucionária, já que a democrática foi travada pela apropriação indevida das elites golpistas, transmutadas em Estado fascista.

A catástrofe que foi o governo Temer, nascido da aliança golpista entre PMDB e PSDB, entre ruralistas e velha mídia corporativa, pôs no poder elites lambe-botas de gringos endinheirados. Elites que cagam em cima da soberania nacional e são totalmente entreguistas, dando de mão beijada nossas riquezas para as corporations: nosso petróleo da camada do pré-sal já não é nosso: é da Shell… e o Aquífero Guarani, encaminha-se para ser da Nestlé? A Amazônia um dia será um parque privado gerido pela Walt Disney Corporation?

“A atual eleição é incompreensível sem o golpe de 2016”, afirma o sociólogo Jessé Souza em Carta Capital. É significativo, por exemplo, que exatos 2 anos após a deposição final de Dilma Rousseff, o TSE recusou a legitimidade da candidatura de Lula, contrariando um imenso movimento de massas que está fervilhando nas ruas e nas redes (vide Festival Lula Livre nos Arcos da Lapa), e desrespeitando inclusive uma recomendação do Comitê de Direitos Humanos da ONU. Segundo Jessé:

“O cheiro é de coisa podre e todos o sentem. A grande dificuldade do conluio golpista comandado pela mídia venal e pela “casta jurídica” do Estado, ansiosa por mesquinhos dividendos corporativos de curto prazo, é o fato de serem lacaios de um capitalismo rentista não só improdutivo como abertamente fraudulento e destrutivo.

O País é literalmente assaltado pela pirataria rentista e o povo empobrece a olhos vistos. Este é o real pano de fundo das eleições.

Lula cresce a cada dia posto que é a memória viva de quando as coisas eram diferentes e melhores. Ainda que não tenha havido uma reconstrução coletiva consciente dos motivos inconfessáveis do golpe, essa lembrança basta como esperança para muita gente.

Preso, seu prestígio só aumenta, pois seu ordálio é concomitante e tem o condão de representar o sofrimento da imensa maioria da população. Ele é, portanto, o “profeta exemplar” do crime cometido contra todo o povo brasileiro. Isso é algo que os pigmeus intelectuais da “casta jurídica”, que comanda a estratégia golpista na dimensão conjuntural e concreta, têm enorme dificuldade de compreender.

Exceto a eficiente rapina de todos os ativos importantes do País, articulada de fora para dentro, a estratégia interna dos pigmeus jurídicos e midiáticos é burra e, por conta disso, obviamente ineficiente.

A condenação pela ONU da perseguição política a Lula só faz agravar o processo. A “casta jurídica” golpista, embora não confesse, foi atingida no coração e posta na defensiva. O “ônus da prova” foi simplesmente invertido. O Brasil tende a perder qualquer credibilidade e respeitabilidade internacional, cujo reflexo interno, ainda mais em um país “vira-lata” que idealiza as “culturas superiores”, não é pequeno.

Como a “casta jurídica” não vai ficar mais inteligente de um dia para o outro, o preço no médio prazo será altíssimo em termos de perda de respeitabilidade institucional das corporações jurídicas.”

Para incremento das tensões e incertezas, em Setembro de 2018 a temperatura, literalmente, esquentou até a ebulição. Os ânimos estão em incêndio. Bolsonaro, enquanto o Museu Nacional do RJ ardia em chamas, estava no Acre fazendo o que ele sabe fazer de melhor: cagar pela boca para entreter os idiotas desumanizados que não se envergonham de apoiar um homem sádico e boçal.

O candidato fascista prometeu “fuzilar a petralhada”, assim como dias antes tinha dito que ia tratar o MST como “grupo terrorista”. Em pleno Jornal Nacional, falou em cadeia nacional que deveriam ser “condecorados” os policiais militares que entrassem na favela para perpetrar chacinas. Em um país que desceu a tal grau de barbárie, nem nos surpreende mais que o Bozonazi possa andar solto pelo país, fazendo apologia da tortura e do genocídio, vomitando discurso de ódio, propagando misoginia e racismo, expressando a mais truculenta e acéfala “receita” para tudo: resolver no tiro.

A existência de um crápula fascista de mentalidade retardada como Bolsonaro já seria em si mesma uma lástima, mas o pior de tudo é o tamanho de seu fã-clube. Ou, pior ainda, de seu eleitorado. A mente custa a compreender que existam tantos milhões de cidadãos brasileiros que são estúpidos a esse ponto – tão estúpidos que sequer enxergam a sua própria estupidez – e que seguem celebrando uma figura tão execrável.

Enquanto isso, um ser humano da estatura histórica e da excelência ética que é Luiz Inácio Lula da Silva continua padecendo nas masmorras de Curitiba um cárcere político pré-eleitoral que nos envergonha diante do mundo.

Um cara que deixou seu cargo na presidência com mais de 80% de aprovação do povo (e não foi à toa); que liderou o governo que mais fez pela inclusão social e pelo combate à miséria em toda nossa história republicana (mesmo a oposição mais ferrenha não nega a ascensão social de mais de 30 milhões de cidadãos); que realizou a maior expansão das universidades públicas e institutos federais que alguém já realizou como chefe de Estado (escudado por Fernando Haddad como Ministro da Educação); que pôs Gilberto Gil no MinC para fazer florescer a Cultura Viva naquela que foi talvez a melhor gestão de todos os tempos no Ministério da Cultura; que atentou para as necessidades dos milhões de desvalidos com programas como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, o Luz Para Todos etc.; que “fez o sertão virar mar” com a transposição do Velho Chico; que forjou solidariedades internacionais do Brasil com o Mercosul, a África, os BRICS, e mesmo contestando a subserviência brasileira aos EUA retirou de Obama o elogio de que era “O Cara”; que fez a economia seguir pujante por muitos anos, em que o salário mínimo não parou de subir, a inflação manteve-se sobre controle, o emprego era quase pleno, e até os tubarões do capitalismo não tiveram motivo para reclamações; que como democrata impecável costurou um jogo de conciliações e governabilidades que o tornam um verdadeiro gênio do xadrez político dentre aqueles que escolhem a via institucional do reformismo ao invés da via revolucionária; bem… esse “cara” hoje está impedido pelas elites de disputar as eleições devido à fraude jurídica do triplex que o Judiciário vergonhosamente está secundando com sua criminosa cumplicidade.

Presidente do Sindicato dos Seringueiros de Xapuri.

No vídeo a seguir, antídoto necessário contra o avanço da amnésia no país que reduz seus museus a cinzas e que permite que os golpistas aniquilem investimentos em educação, saúde e ciência, Luiz Inácio Lula da Silva fala no enterro de Chico Mendes, herói e mártir da defesa do meio ambiente, brutalmente assassinado pelas elites plutocráticas que desgovernam esta nação há tanto tempo.

Diante da trajetória de vida do Lula, do seu caráter de entusiástico defensor da justiça social, do seu ethos de indignação diante daqueles que impõe uma existência indigna àqueles que pisoteiam, não há como ficar em cima do muro: Lula é a civilização que resiste a duras penas, Bostossauro e sua manada de seguidores retardados é a Barbárie que avança. De que lado vocês vão ficar?

Nós aqui jamais estaremos junto aos desumanos, mas sim entre aqueles que labutam, dia e noite, no pensamento e na ação, para que possamos juntos nos humanizar mais e mais. Esta Humanidade como valor, espezinhada pelo fascismo desumano, ainda pulsa em nossas utopias, em nossas indignações, em nossas revoltas, em nossos poemas e canções, em nossos filmes e reportagens, e eles podem até matar-nos e enterrar-nos, mas sempre ressurgiremos das cinzas para provar a eles que éramos, somos, seremos Sementes.

Eduardo Carli de Moraes – A Casa de Vidro – Setembro de 2018

“Tirem-nos tudo, mas deixem-nos a música!” – Poesias de Noémia de Sousa em “Sangue Negro” (Kapulana, 2016)

SÚPLICA

Tirem-nos tudo,
mas deixem-nos a música!

Tirem-nos a terra em que nascemos,
onde crescemos
e onde descobrimos pela primeira vez
que o mundo é assim:
um tabuleiro de xadrez…

Tirem-nos a luz do sol que nos aquece,
a tua lírica de xingombela
nas noites mulatas
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)
tirem-nos a palhota – humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor de lume
(que nos é quase tudo)
– mas não nos tirem a música!

Podem desterrar-nos,
levar-nos
para longes terras,
vender-nos como mercadoria,
acorrentar-nos
à terra, do sol à lua e da lua ao sol,
mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!
Que onde estiver nossa canção
mesmo escravos, senhores seremos;
e mesmo mortos, viveremos.
E no nosso lamento escravo
estará a terra onde nascemos,
a luz do nosso sol,
a lua dos xingombelas,
o calor do lume,
a palhota onde vivemos,
a machamba que nos dá o pão!

E tudo será novamente nosso,
ainda que cadeias nos pés
e azorrague no dorso…
E o nosso queixume
será uma libertação
derramada em nosso canto!

– Por isso pedimos,
de joelhos pedimos:
Tirem-nos tudo…
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a música!

* * * *

SE ME QUISERES CONHECER

Se me quiseres conhecer,
estuda com os olhos bem de ver
esse pedaço de pau preto
que um desconhecido irmão maconde
de mãos inspiradas talhou e trabalhou
em terras distantes lá do Norte.

Ah, essa sou eu:
órbitas vazias de possuir a vida,
boca ragada em feridas de angústia,
mãos enormes, espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameça,
corpo tatuado de feridas visíveis e invisíveis
pelos chicotes da escravatura…
Torturada e magnífica,
altiva e mística
África da cabeça aos pés,
-ah, essa sou eu:

Se quiseres compreender-me
vem debruçar-te sobre minha alma de África,
nos gemidos dos negros no cais
nos batuques frenéticos dos muchopes
na rebeldia dos machanganas
na estranha melancolia se evolando
duma canção nativa, noite dentro…

E nada mais me perguntes,
se é que me queres conhecer…
Que não sou mais que um búzio de carne,
onde a revolta de África congelou
seu grito inchado de esperança.

(1949)

* * * * *

NOSSA VOZ

NOSSA VOZ

Ao J. Craveirinha

Nossa voz ergueu-se consciente e bárbara
sobre o branco egoísmo dos homens
sobre a indiferença assassina de todos.
Nossa voz molhada das cacimbadas do sertão
nossa voz ardente como o sol das malangas
nossa voz atabaque chamando
nossa voz lança de Maguiguana
nossa voz, irmão,
nossa voz trespassou a atmosfera conformista da cidade
e revolucionou-a
arrastou-a como um ciclone de conhecimento.

E acordou remorsos de olhos amarelos de hiena
e fez escorrer suores frios de condenados
e acendeu luzes de esperança em almas sombrias de desesperados…

Nossa voz, irmão!
nossa voz atabaque chamando.

Nossa voz lua cheia em noite escura de desesperança
nossa voz farol em mar de tempestade
nossa voz limando grades, grades seculares
nossa voz, irmão! nossa voz milhares,
nossa voz milhões de vozes clamando!

Nossa voz gemendo, sacudindo sacas imundas,
nossa voz gorda de miséria,
nossa voz arrastando grilhetas
nossa voz nostálgica de ímpis
nossa voz África
nossa voz cansada da masturbação dos batuques da guerra
nossa voz gritando, gritando, gritando!
Nossa voz que descobriu até ao fundo,
lá onde coaxam as rãs,
a amargura imensa, inexprimível, enorme como o mundo,
da simples palavra ESCRAVIDÃO:

Nossa voz gritando sem cessar,
nossa voz apontando caminhos
nossa voz xipalapala
nossa voz atabaque chamando
nossa voz, irmão!
nossa voz milhões de vozes clamando, clamando, clamando.

 

NOÉMIA DE SOUSA (1926 – 2002),
Poetisa Moçambicana
Do livro “Sangue Negro”
Ed. Kapulana