Picasso

Não importa se é a cantiga de uma lâmpada ou a voz da tempestade, a respiração da noite ou o gemido do mar que o cerca, sempre vigia atrás de você uma vasta melodia, tecida de milhares de vozes, em que apenas de vez em quando há espaço para seu solo. Saber quando é sua vez de cantar, esse é o segredo de sua solidão, como é a arte da verdadeira interação: deixar-se cair das palavras imponentes para entrar na melodia única, compartilhada.

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Duas pessoas com o mesmo grau de quietude não precisam falar da melodia que define suas horas. Essa melodia é o que elas têm de comum em e por si. Existe entre elas algo como um altar ardente, e elas se aproximam da chama sagrada respeitosamente com suas raras sílabas.

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Para todas as transformações que ocorrem de pessoa para pessoa, isto permanece verdadeiro: nunca se deve ver e avaliar de fora uma relação em todos os seus detalhes; o que duas pessoas poderiam dar e conceder uma à outra em sua confiança mútua permanece para todo o tempo um segredo de sua sempre indescritível intimidade. (…) Não sabemos qual é o centro de uma relação de amor, qual seria seu ponto mais extremo, intransponível e jubiloso: ocasionalmente, esse centro talvez apareça na última e dulcíssima intimidade dos corpos, mas disso ninguém deveria ser juiz, exceto a silenciosa responsabilidade precisamente dessas pessoas que se amam e se deleitam. Não é essa doação mútua que seria um descaminho para elas; no máximo o seria a incerteza se elas com isso podem, de fato, proporcionar uma à outra essa contínua intensificação que é o verdadeiro desejo e anseio do amor. (…) Nenhuma ternura do amor deve ter poder sobre o próprio amor, nenhuma pode se impor com a violência da repetição cega, mas uma ternura inteiramente nova deve sempre nascer da inesgotabilidade das emoções.

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Não é maravilhoso assegurar-se de que o amor pode conduzir a tanta força, e que no mais profundo ele diz respeito a algo que nos excede totalmente, e que, apesar disso, o coração tem a audácia de empreender esse ir-além-de-nós, essa tempestade para a qual seria necessária uma criação inteira?

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O terrível é que não temos religião alguma em que essas experiências, tão literais e tangíveis como são (ao mesmo tempo tão inefáveis e invioláveis), podem ser alçadas até Deus, até a proteção de uma divindade fálica, que talvez deva ser a primeira com que um grupo de deuses irromperá de novo entre os homens depois de tão longa ausência. O que mais deveria nos socorrer quando todos os auxílios religiosos falham, ao obscurecer essas experiências em vez de transfigurá-las e ao nos despojar delas em vez de implantá-las em nós com mais esplendor do que ousaríamos imaginar. Aqui somos os indescritivelmente abandonados e traídos: daí nosso desastre. Na medida em que as religiões – apagando-se nas superfícies e colocando cada vez mais superfícies extintas – pereceram e tornaram-se sistemas morais, elas também deslocaram esse fenômeno, que é o mais íntimo de sua e da nossa existência, para o solo resfriado da moral e, com isso, necessariamente, para a periferia. Pouco a pouco se perceberá que a grande catástrofe de nossa época ocorre aqui e não na esfera social ou econômica – nesse desalojamento do ato de amor para a periferia.

 

RILKE. Cartas Do Poeta Sobre a Vida.
Ed. Martins Fontes.
Trad. Milton Camargo Mota.