EDUCAÇÃO EM DISCUSSÃO – Reflexões na companhia de Hannah Arendt, Montaigne, Tagore, Goblot etc.

“A essência da educação é a natalidade, o fato de que seres nascem para o mundo”, escrevia Hannah Arendt em “A Crise Na Educação” (artigo do livro “Entre o Passado e o Futuro”, p. 223). O nascimento de uma nova geração, tão destacado por Arendt, coloca de fato o problema perene da condição humana: educar os recém-chegados ao mundo e à vida.

“A educação está entre as atividades mais elementares e necessárias da sociedade humana, que jamais permanece tal qual é, porém se renova continuamente através do nascimento, da vinda de novos seres humanos. Esses recém-chegados, além disso, não se acham acabados, mas em um estado de vir a ser. Assim, a criança, objeto da educação, possui para o educador um duplo aspecto: é nova em um mundo que lhe é estranho e se encontra em processo de formação-vital. (…) A criança só é nova em relação a um mundo que existia antes dela, que continuará após sua morte e no qual transcorrerá sua vida.” (ARENDT, p. 235, E.P.F.)

Porém, os recém-chegados não serão igualmente tratados neste mundo comum, ao qual ganharão acesso pelo nascimento e do qual partirão quando morrerem, pois a utopia democrática e igualitária, longe de ter sido concretizada, parece cada vez mais espezinhada em um contexto de ascenso das desigualdades e das imensas discrepâncias na concentração de renda e poder. Como Pierre Bourdieu ensina, a inexistência de uma sociedade de fato igualitária e democrática também decorre das discrepâncias imensas de capital cultural acumulados por certas classes/castas “distintas”.

O capital cultural, tratado como privilégio e não como direito, é posse exclusiva de uns poucos e não domínio público aberto à instrução geral. Aquilo que a educação pode fornecer de melhor é recusado à imensas frações de uma população mantida apartada do acesso à cultura e à formação integral pelos muros e fronteiras, historicamente constituídos e plenamente revolucionáveis, de nosso atual estado de apartheid social e injustiça institucionalizada.

Os acessos diferenciais à escola – uns com acesso fácil e garantido às áreas VIP do saber, outros escorraçados do ensino e empurrados para o trabalho precoce – estão essencialmente vinculados às fraturas de classe que esgarçam nosso tecido social, a ponto de destroçar o senso de comunidade e instaurar o pesadelo competitivo e cruel da “sociedade dos indivíduos”, tão propugnada pela economia-política do liberalismo e suas “neo”-encarnações.

Afirmando que o auto-interesse egoísta, perseguido sem freios no âmbito do “mercado livre”, é a essência da natureza humana, e não um habitus cultivado no âmbito de uma cultura específica (capitalista, economicamente liberal, industrialista, comercialista, individualista, “competitivista” etc.) e suas instâncias educativas e formativas (que podem, é claro, ser também deformativas), o liberalismo forjou uma doutrina que é uma verdadeira Medusa com a cabeça com mais de mil serpentes: a noção tóxica dos vícios privados, benefícios públicos. Seja um crápula egoísta que só corre atrás do próprio lucro e só visa o benefício privado, e assim estarás contribuindo para a prosperidade geral. Uma lorota monumental.

O século XX teria sido, segundo uma série de TV muito interessante, The Century of The Self, de Adam Curtis (BBC). Nós, no século XXI, seríamos os herdeiros disso, levando a novos extremos a noção de que somos pessoas isoladas, estanques, em competição no mercado, cujas concorrências agora se dão também em meio à presença oni-infiltrante das tecnologias digitais de comunicação – um mundo, para lembrar de outra série de TV definidora de época, tão conturbado e cheio de bizarrices comportamentais quanto aquele que nos foi apresentado por Black Mirror.

A escola também padece com o contágio deste individualismo todo, que parece lançar na lata de lixo da história os ideais iluministas, manifestos por exemplo na obra de Condorcet, onde celebravam-se o ensino público, universal, gratuito, de qualidade, não só poli-técnico (formando para o mercado de trabalho) mas plenamente “humanista” (eclético e próximo à paidéia dos gregos), que formasse para a cidadania, a participação, o convívio isonômico na pólis democrática e republicana…

Ora, é preciso concluir, diante do state-of-affairs neste nosso mundo, que seguimos sob o império daqueles que dizem, da boca pra fora, que todos nascemos humanos, mas da pele pra dentro continuam pensando e agindo de modo a construir, preservar e reproduzir as instituições e maquinarias sociais que tratam-nos como essencialmente desiguais e afirmam que alguns nascem mais humanos do que outros. George Orwell strikes again.

É sempre bom lembrar: “1984” não é um manual de instruções!

Os muros do apartheid também cercam as escolas. As fronteiras divisórias que segregam também estão construídas no próprio interior delas. O espaço idealmente concebido para a transmissão dos legados culturais do passado às novas geração encontra-se concretamente crivado de contradições e de antagonismos sociais. O acesso a certos cargos de prestígio no mundo empresarial, por exemplo, só se dá pela travessia prévia de um percurso educacional que passa necessariamente pelas instituições de ensino que a burguesia mantêm rigidamente controladas, em seus portões de entrada, erguendo barreiras contra a ralé.

Edmont Goblot (1858 – 1935), em seu “A Barreira e o Nível” (Ed. Papirus), achará para isso a expressão lapidar: na sociedade burguesa, mentem-nos sobre uma utópica liberdade de oportunidades, porém, na hora do vamos ver, não é verdade que “qualquer um pode tornar-se burguês”, caso trabalhe duro ou ganhe na loteria, por exemplo; para tornar-se um burguês, dirá Goblot, “primeiro é preciso tornar-se bacharel”. Na sociedade burguesa, argumenta Edmont Goblot (1858 – 1935), há duas escolas, distintas e segregadas: o liceu dos burgueses vs a escola do povo:

“Não é verdade que a burguesia só exista através de seus costumes e não através das leis. O liceu constitui sua instituição jurídica… O bacharelado, eis a barreira séria, a barreira oficial e garantida pelo Estado, que lhe serve de defesa contra a invasão. Sem dúvida, pode-se tornar burguês; mas, para tanto, é preciso antes tornar-se bacharel… Quando, ao invés de pensar em seus interesses individuais, o burguês pensa em seus interesses de classe, passa então a ter necessidade de uma cultura capaz de diferenciar uma elite, uma cultura que não seja puramente utilitária, uma cultura de luxo. Não fosse isto, poderia confundir-se rapidamente com uma parte das classes populares que consegue instruir-se às custas de trabalho e inteligência e que se apropria das profissões liberais… Deste modo, ainda que não tenham qualquer aplicação profissional, os estudos humanistas são úteis para manter de pé a barreira.” (GOBLOT, A Barreira e o Nível / La Barrière et le Niveau, Paris, Alcan, 1930, p. 126, apud Bourdieu, p. 220)

Quando falo em segregação escolar, apartheid na educação, não penso somente no passado, nos tempos idos da burguesia francesa de fin de siècle e que Engels, Marx, Thompson, Flora Tristan e Goblot, dentre outros, teriam descrito em obras de interesse apenas histórico e “arqueológico”, mas que já teria atingido o pó da história morta, enterrada e ineficaz. Não: seguimos no seio da cisão instaurada pela segregação; somos os quase-cidadãos de sociedades segregadas; convivemos não só uns com os outros, mas cada classe, grupo, partido e seita com a profusão de muros e cercas de arame farpado que nos separam, nos isolam, nos des-comungam. A Palestina é trash, mas não se iluda: a Palestina também é aqui.

Ainda hoje, a cisão entre escolas privadas e públicas, todo a intensa polêmica envolvendo este debate sobre a “privatização do ensino” proposta pelos neoliberais e contestada por várias das frentes da esquerda, permanece viva. A violenta desconstrução que está sendo imposta ao sistema de educação pública no Brasil, em especial após o golpe de 2016 e a aprovação serelepe da emenda constitucional que congela por 20 anos os investimentos públicos, explicita novamente uma velha verdade: as elites econômicas e políticas, entre nós, nunca quiseram a escola para todos, a escola igualitária, a escola de qualidade disseminando-se com seus sóis iluminadores por todos os bastiões de trevas que pululam ainda em nossas mais de 200 milhões de cavernas mentais.

Aquilo que os pobres têm dentro do crânio nunca foi de muito interesse para os burgueses, bacharéis e doutoros, com PHDs e currículos Lattes pimpões; o cérebro dos pobres podia ser tranquilamente sacrificado no altar das fábricas, ao pesadelo mecanizado das linhas de montagem. O que estamos vivendo com esta pavorosa avalanche de retrocessos, patrocinada pelas forças políticas, juríticas, midiáticas e empresariais responsáveis pelo golpeachment e seu séquito tenebroso de reformas (previdência, trabalhista, ensino médio etc.), é nada menos que a depredação da Constituição de 1988, como argumenta este excelente artigo em Outras Palavras:

“O processo a que estamos assistindo é a elaboração, sob as nossas barbas, de uma nova constituição, que joga a Constituição Cidadã no lixo. A Constituição de 1988, que tinha a missão de eliminar de vez o entulho autoritário e estabelecer bases democráticas para a nação, foi elaborada com intensa participação de cidadãos e cidadãs, durante mais de dois anos. Foi elaborada em amplo processo de negociação em que tomaram parte todos os setores da sociedade, parlamentares, partidos políticos, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, indivíduos. Foram apresentadas 120 propostas de emendas populares, reunindo 12 milhões de assinaturas e, não custa lembrar, não havia internet nem celular.

A nova Constituição está sendo elaborada por encomenda de um governo ilegítimo e eivado de corruptos, inaugurado a partir do impedimento de uma presidente eleita pelo voto popular — impedimento, diga-se com todas as letras, sem crime de responsabilidade. Um governo ilegítimo que é aprovado por menos de 10% da população. Está sendo aprovada a toque de caixa por um Congresso onde mais da metade dos parlamentares está sob suspeita de corrupção, improbidade administrativa, recebimento de propinas ou caixa 2. Mais da metade dos parlamentares foi eleita com recursos de empresas (bancos, empreiteiras ou outras empresas, inclusive do agronegócio): tais políticos não representam os interesses de seus eleitores e, sim, os interesses de seus “compradores” (os financiadores de suas campanhas).

O governo tem enviado ao Congresso projetos de lei que revogam os direitos presentes na Constituição de 1988, o direito ao trabalho, o direito à proteção social, o direito à saúde, o direito à educação. (…) O governo tem enviado ao Congresso projetos de lei que revogam os direitos presentes na Constituição de 1988, o direito ao trabalho, o direito à proteção social, o direito à saúde, o direito à educação. (…) Nenhum destes direitos ficará de pé com a entrada em vigor da PEC 55, a PEC do Teto dos Gastos (também conhecida como “PEC do Fim do Mundo” ou de “PEC da Morte”) ou com a lei da “terceirização universal”recentemente aprovada, com a reforma trabalhista que o governo pretende fazer votar. Os direitos sociais promulgados em 1988 estão sendo simplesmente descartados, supostamente para enfrentar a grave crise econômica por que estamos passando. Mas esta retirada de direitos não resolverá a crise econômica, apenas transferirá uma boa parte dos salários, aposentadorias e pensões da maioria da sociedade, dos trabalhadores, da classe média e dos mais pobres, para os mais ricos, para a elite. Para a maioria, a crise só vai aumentar.”


 

O passado pode sempre ser muito elucidador para pensar os dilemas do presente e de nossas atuais segregações sociais: por exemplo, no Sul dos EUA, por voltas de meados do século XIX, a segregação racial era tamanha que as escolas de qualidade – que poderiam tranquilamente ser chamadas escolas “de elite” – eram totalmente “off limits” para a população afroamericana. O filme de Martin Ritt, “Conrack”, estrelado por Jon Voight, baseado no livro de memórias de Pat Conroy (The Water is Wide), é uma expressões cinematográficas mais tocantes e impressionantes disso: no fim dos anos 1960, a ilha onde o filme se passa ainda tem uma única escola onde os alunos negros haviam sido tratados, até então, com o quase completo abandono ou somente tratados como bestinhas enfurecidas a domar com a palmatória.

Quando recém-chegado professor conhece sua turma – que ele, de brincadeira, chamará de “gangue” – é lastimável o estado de desmazelo intelectual que reina ali no seio daqueles que nunca tiveram a oportunidade de vivenciarem um contexto institucional onde cotidianamente o intelecto é convocado a exercer-se e desenvolver-se. Quando o novo professor, apelidado pela gangue como Conrack,  recebe a responsabilidade de educar os pequenos, ele expõe à diretora da escola suas primeiras experiências ao sondar a ignorância abissal à que foram largadas aquelas crianças:

– Sete de meus alunos não conhecem o alfabeto, três crianças não sabem escrever o nome, dezoito crianças não sabem que estamos em guerra no sudeste da Ásia. Nunca ouviram falar em Ásia. Uma criança pensa que a terra é chata e dezoito concordam com ela. Cinco crianças não sabem a data de nascimento. Quatro não sabem contar até dez, os quatro mais velhos pensam que a Guerra Civil foi entre os alemães e japoneses. Nenhum deles sabe quem foi George Washington ou Sidney Poitier! Nenhum jamais foi ao cinema, nem subiu no morro, nem andou de ônibus – esses meninos não sabem de nada.

No filme, que se passa em 1969, em plena Guerra do Vietnã, o professor age sobre a turma como um guru da contracultura – eram tantos naquela época! Nada ortodoxo, Conrack fala palavrão, berra no futebol americano, fala sobre sexo abertamente (as autoridades começam a persegui-lo, buscando sua pronta demissão, quando descobrem que ele desenhou uma vagina na lousa em uma aula de anatomia humana…). Sem sentir-se aprisionado à cela-de-aula, Conrack é um professor que vai ao mundo, explorando uma pedagogia on the move, que inclui um alto componente lúdico – ou seja, leva a sério a importância do aprender-brincando.

Segundo Fabris (2001):

Outras experiências foram oportunizadas por Pat Conroy em outros espaços pedagógicos além dos escolares, ampliando assim o conceito de pedagogia. Quando ensinava na praia, na floresta, no chão da escola, na festa de Halloween, na viagem de barco, nas ruas de Beaufort, esse professor fazia deslocamentos no tempo e espaço, e sua tentativa era de inclusão dessas crianças na vida americana. Quando leva seus alunos e alunas a participar da festa de Halloween, ensina a nadar, convive com os habitantes da ilha e ensina a seus alunos e alunas a convivência na ilha, Pat Conroy produz deslocamentos de tempos e espaços escolares. A pedagogia do herói se caracteriza por esse desbravamento, por essa conquista de novos lugares, desse ultrapassar fronteiras, dessa luta e competição.

Martin Ritt, cineasta de uma sensibilidade humana e empatia com seus personagens que manifesta-se em extraordinárias obras como “Norma Rae”, transforma em travessia existencial memorável as interações de Conrack com as crianças. É um filme que inaugura uma espécie de sub-gênero, aquele dos professores-inspiradores que, mesmo que entrem em clash contra um establishment demasiado duro, rígido, ortodoxo, no rigor mortis de suas ações disciplinares e burocráticas mofadas, propondo pedagogias inovadoras, ou pelo menos instaurando relações humanas transformadoras e iluminantes, como ocorre em obras posteriores como Sociedade dos Poetas Mortos, de Peter Weir; Detachment – O Substituto, de Tony Kaye; Capitão Fantástico (2016) etc.

No presente, disfarçamos as desigualdades e injustiças de nosso estado social de segregação e esgarçamento da solidariedade com a máscara cômoda da “meritocracia”. Arendt já havia percebido o quanto a meritocracia é anti-democrática, pois instaura uma espécie de neo-aristocracia, ou seja, “governo dos melhores”, ou dos que são distinguidos assim pelos poderes instituídos. “A meritocracia contradiz, tanto quanto qualquer outra oligarquia, o princípio da igualdade que rege uma democracia igualitária.” (Arendt, op cit, p. 229)

A educação que não forma para o senso crítico e a participação cidadã é cúmplice das atrocidades e da “banalidade do mal”: hoje sabemos o preço altíssimo que pagamos, como humanidade, por termos ensinado as novas gerações a obedecer, aquiescer, respeitar – ao invés de termos fomentando a capacidade de auto-determinação, reflexão, autonomia. Como diz o professor encarnado por Adrien Brody em Detachment, filme de Tony Kaye, vivemos uma época onde o marketing realiza uma verdadeiro holocausto mental com as mentes trituradas no moedor de miolos da sociedade de massas e seus espetáculos.

A “assimilação ubíqua” – ser uma esponja que, passiva e receptiva, deixa-se “penetrar” por conhecimentos que os mestres-maiorais transmitem – está longe de ser um ideal pedagógico louvável: o aluno não deve ser convidado a ser esponja, assimilando apenas, mas sim sujeito trans-individual crítico e autônomo, capaz de dar expressão a seus pontos de vista e de criar suas próprias obras e conhecimentos no seio das interações educativas.

A evocação do “duplipensar” (doublethink) de George Orwell, na distopia totalitária de 1984, destaca que a educação não pode passar sem heroísmo, pois tem como adversários – e são fortíssimos – a ilusão, a doutrinação ideológica, a estreiteza mental, o obscurantismo, o fanatismo, as dicotomias rasas, os maniqueísmos simplistas, as enganações canalhas de toda sorte e estirpe, enfim todos os convites à falsa consciência e à alienação de que nossa sociedade está repleta.


MONTAIGNE, TAGORE, NUSSBAUM: Por uma educação renovada

Neste semestre [1/2017], estou com a responsa de lecionar, lá no IFG – Anápolis, sobre “Filosofia da Educação” para a turma de Ciências Sociais. Estou em busca de filósofos relevantes, através da história, que forneceram contribuições importantes à pedagogia, em especial aquela voltada à emancipação/libertação (como sugerido pelos colegas, ando pesquisando Jacques Rancière, Martha Nussbaum, Henri Marrou, Henry Giroux, Stuart Mill, W. Jaeger etc.).

Agradeço quaisquer dicas extras e também sou grato a todas as indicações que rolaram no fórum facebookiano. Encontrei o fascinante trecho abaixo, escrito pela pena inspirada do mestre Montaigne, durante esta recém-iniciada empreitada de mais intensas pesquisas sobre as confluências entre filosofia e educação:

“Os professores não param de gritar em nossos ouvidos, como quem entornasse o conhecimento num funil: nossa tarefa seria apenas repetir o que nos disseram. Gostaria que eles corrigissem essa prática e que desde o início, segundo a capacidade do espírito que tem em mãos, começassem a pô-lo na raia, fazendo-o provar, escolher e discernir as coisas por si mesmo. Ora abrindo-lhe o caminho, ora deixando-o abrir.

Não quero que só o preceptor invente e fale: quero que, quando chegar a vez de seu discípulo, o escute falar. Sócrates e mais tarde Arcesilau mandavam primeiramente seus discípulos falarem, e só depois lhes falavam. É bom que o faça trotar à sua frente para julgar sua andadura e avaliar até que ponto deve se pôr em seu nível para adaptá-lo à sua força. Se não respeitamos esse equilíbrio, estragamos tudo.

(…) As abelhas libam as flores aqui e ali mas depois fazem o mel, que é todo delas; não é mais tomilho nem manjerona. Assim, o aluno transformará os elementos emprestados de outros e os fundirá para fazer uma obra toda sua. O ganho de nosso estudo é termo-nos tornado melhores e mais sábios. Mas decerto nós tornamos a inteligência servil e covarde não lhe deixando a liberdade de fazer algo por si só.”

MICHEL DE MONTAIGNE, Sobre a Educação das Crianças, “Ensaios” (Penguin, p. 91, 92, 94)

A crítica do processo educativo como “funil” – unilateral e anti-dialógico – parece-me aí um prenúncio da Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire e sua crítica da “concepção bancária” da educação. Também floresce em Montaigne a valorização da autonomia do aluno, que deve ser incentivado a andar com as próprias pernas e realizar, como uma abelha, a fabricação de um mel próprio a partir dos contatos que fará com inúmeras flores-do-conhecimento. Imagem poética e inspiradora. Terá Paulo Freire retirado um bocadinho de sua imensa sabedoria também nesta fonte inesgotável de sophia que foi Montaigne?

Próxima etapa: tentar contrastar 2 pensadores franceses iluministas importantes sobre o tema da educação, Rousseau e seu “Emílio” (defenestrado, ao meu ver com inteira razão, no tratado inaugural do feminismo, o de Mary Wollstonecraft) e Condorcet e suas iluminadas “Memórias Sobre o Ensino Público”.

Quem tiver bibliografia sobre Filosofia da Educação pra sugerir, não hesite em comunicar! (educarlidemoraes@gmail.com)

Mais do que nunca, pulsa no peito a certeza: ser professor exige que a gente continue aluno. Mais que isso: professor é um bicho que precisa aprender mais que ninguém… É um ofício que exige pôr em ação aquela ética que, na canção imortal de Gonzaguinha, resume-se na fórmula: “eterno aprendiz”.

Encontro também algo neste espírito na pena inspirada de um mestre eclético da poiésis e uma das encarnações orientais mais radiantes da sophia: Rabindranath Tagore (1861 – 1941):

“Um professor jamais pode realmente ensinar se ele não estiver ainda aprendendo. Uma lâmpada não pode jamais acender uma outra lâmpada se não continuar a queimar sua própria chama. O professor que chegou ao fim de seu assunto, que não tem mais intercâmbio vivo com seu conhecimento mas meramente repete sua lição aos seus estudantes, consegue apenas empanturrar suas mentes, mas não pode torná-las mais agéis.” (R. TAGORE; Tradução – Eduardo Carli de Moraes)

Poeta, escritor, músico, educador, filósofo, pintor, coréografo, dentre outras coisas, Tagore foi o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1913. Ele possui toda uma reflexão sobre a educação que não são apenas belas palavras, pois ele botou em prática todos os seus ideais fundando a Universidade Visna-Bharati. Sobre ele, conta Martha Nussbaum, em seu livro Sem Fins Lucrativos (Ed. Martins Fontes), que “Tagore odiava todas as escolas que havia frequentado e as abandonou assim que pôde. O que ele odiava era a aprendizagem repetitiva e o tratamento do aluno como um depósito passivo dos valores culturais consagrados. Os romances, as histórias e os dramas de Tagore são obcecados pela necessidade de desafiar o passado, de permanecer sensível a um amplo conjunto de possibilidades.”

Em uma de suas histórias, The Parrot’s Training, Tagore relata como um papagaio de um poderoso rajá é educado: preso em uma gaiola dourada, encarcerado na cela-de-aula, recebe lições de professores que têm as duas mãos ocupadas: uma com a vara para a punição, outra com o livro didático… O papagaio, privado da liberdade de voar, obrigado a apenas repetir decorebas, sempre sob ameaça de tomar um cascudo dos seus instrutores, é um emblema de tudo o que há de errado na educação “bancária” de que fala Paulo Freire, aquela que enxerga alunos como papagaios a serem mantidos quietos e passivos, nos quais depositar e transferir aquilo que depois devem apenas reproduzir e repetir. “Os alunos da escola de Tagore em Santiniketan”, garante Nussbaum, “não tiveram essa triste sina”: 


“Toda a educação que recebiam servia para alimentar a capacidade de pensar por si próprios e de se tornar participantes dinâmicos das escolhas culturais e políticas, em vez de simplesmente seguir a tradição. Além disso, Tagore era especialmente sensível ao ônus injusto que os costumes ultrapassados impunham às mulheres (…). O socratismo de Tagore, como sua coreografia, é moldado pela defesa apaixonada da emancipação das mulheres, assim como por sua própria experiência infeliz nas escolas antiquadas.

A escola fundada por Tagore era, sob vários aspectos, extremamente não convencional. Quase todas as aulas eram dadas ao ar livre. As ciências humanas permeavam todo o currículo, e artistas e escritores talentosos acorreram para a escola a fim de participar da experiência. (…) Outro artifício que Tagore utilizava para estimular o questionamento socrático era o role-playing (RPG, ou jogo de interpretações), no qual se pedia que as crianças trocassem seu ponto de vista pelo de outra pessoa. Isso lhes permitia experimentar outras posições intelectuais e compreendê-las de dentro. Começamos a perceber a ligação estreita que Tagore forjou entre o questionamento socrático e a empatia criadora…” (NUSSBAUM, p. 72)

Também é minha convicção que uma aula de filosofia pode ser espaço aberto para a criatividade artística, a empatia criadora e a encenação teatral, atividades em suma que estimulam a nossa capacidade de nos pormos na pele dos outros, de adotarmos uma outra perspectiva existencial, multiplicando assim a nossa compreensão sobre a complexidade do real. Quando proponho aos alunos que realizem teatros filosóficos, estou estendendo um convite para que inventem diálogos sobre temas que eles sentem como existencialmente problemáticos. Do fundo deles mesmos, da vivência encarnada deles, deve vir à tona um tema para o teatro, ou seja, para a interação humana transformada em espetáculo público, debatível em grupo.

Segundo o relato que Martha Nussbaum faz da didática anti-convencional e altamente poética de Tagore, não havia limites ou fronteiras separando a auto-poiésis do devir-outro, muito pelo contrário: a auto-criação e a auto-recriação constantes, que fazem de nós seres inconclusos, metamorfoses ambulantes (como diz nosso filósofo-cantor-heraclitiano Raul Seixas), é favorecida e catalisada por nossas interações com a alteridade e com o ascenso de nossa capacidade de adotar o contexto e a perspectiva do outro como um método para a compreensão empática.

“Tagore utilizava a interpretação de papéis durante todo o dia escolar, enquanto os pontos de vista intelectuais eram explorados pedindo-se às crianças que assumissem posturas conceituais desconhecidas…. Não era uma simples brincadeira lógida, e sim uma forma de estimular a compaixão ao mesmo tempo que se desenvolviam capacidades lógicas. Ele também usava a interpretação de papéis para explorar a difícil esfera da diferença religiosa, estimulando os alunos a celebrar os rituais e as cerimônias de religiões diferentes das suas e a compreender o desconhecido por meio de uma participação criativa.

Tagore utilizava acima de tudo produções teatrais elaboradas, misturando dramaturgia, música e dança para fazer com que as crianças explorassem diversos papéis com uma participação plena do corpo, assumindo posturas e gestos desconhecidos. A dança era um elemento fundamental da escola, tanto para meninos como para meninas, já que Tagore acreditava que para explorar o desconhecido é preciso deixar de lado a rigidez corporal e a vergonha de assumir um papel.” (Nussbaum, p. 104)

LEIA TAMBÉM EM BRAIN PICKINGS: Quando Einstein encontrou TagoreTagore troca cartas com Gandhi

#FilosofiaDaEducação #Pedagogia #Sabedoria #Ensino #Aprendizado #Educação

Eduardo Carli de Moraes
Maio de 2017


BIBLIOGRAFIA
ARENDT, Entre o Passado e o Futuro, Ed. Perspectiva, 2011, 7ª ed.
BOURDIEU, A Economia das Trocas Simbólicas, Ed. Perspectiva.
FABRIS, Elí Terezinha Henn. As marcas culturais da Pedagogia do herói. In: 24ª Reunião Anual da Associação de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd): intelectuais, conhecimento e espaço público, 2001, Caxambu (MG).
GOBLOT, A Barreira e o Nível (La Barrière et le Niveau), Paris, Alcan, 1930, p. 126, apud Bourdieu, p. 220. Publicado no Brasil pela Ed. Papirus.
MONTAIGNE, Sobre a Educação das Crianças, “Ensaios”, Livro I, Penguin Classics.
NUSSBAUM, Martha. Sem Fins Lucrativos. Ed. Martins Fontes.

FILMOGRAFIA

Conrack, de Martin Ritt. Da obra de Pat Conroy. Estrelado por Jon Voigt.
Detachment, de Tony Kaye. Estrelado por Adrien Brody.
Pink Floyd – The Wall, de Alan Parker.

A RADIOGRAFIA DO GOLPE (Entenda Como e Por Que Você foi Enganado) – Conheça o novo livro do sociólogo Jessé Souza (Leya, 2016, 160 pgs)

No calor da hora, em Julho de 2016, quando o golpe de Estado estava prestes a consumar-se, Jessé Souza tornou pública esta obra que pretende ensinar ao Brasil que “o objetivo real nada teve de novo em relação a todos os outros golpes de Estado praticados no passado nacional: atender aos mesquinhos interesses políticos e financeiros da pequena elite do dinheiro.” Em A Radiografia do Golpe (Leya, 2016, 160 pgs, compre aqui), o sociólogo Jessé Souza, de 56 anos, analisa e denuncia o complô midiático-parlamentar-jurídico que serviu, em 2016, para estuprar a frágil democracia republicana brasileira em prol das velhas aves de rapina da Plutocracia.

jesse“A articulação entre mídia – como braço dos endinheirados que cuida da violência simbólica -, comandando e estimulando as manifestações de rua da fração mais conservadora da classe média, e a facção mais conservadora e corporativa da casta jurídica formou a linha de frente do golpe reacionário. A essa coligação se junta o fato de que os endinheirados partiram para o confronto nas eleições de 2014. Eles compraram, com o deputado Eduardo Cunha à frente, via financiamento de eleições, o Congresso mais reacionário e mais comprometido com o desmonte do incipiente Estado de bem-estar social das últimas décadas. Isso joga o PMDB, um partido de ‘centro’ por conveniência desde 1988, no comando da direita do espectro político.

Foi, no fundo, uma grande vingança pela perda das eleições de 2014. Um esquadrão de tucanos que formavam a equipe de delegados da Lava Jato, e que havia participado ativamente da guerra eleitoral de 2014, se une a correligionários, os quais, unidos à mídia conservadora, constroem passo a passo a atmosfera favorável ao golpe. A construção da grande fraude envolveu ilegalidades o tempo todo. Vazamentos ilegais e seletivos de depoimentos e de delações premiadas expostos na televisão todos os dias criaram o clima midiático para o verdadeiro linchamento televisivo. Como em todo linchamento, séculos de desenvolvimento jurídico e aprendizado moral foram para o esgoto. Ele envolvia manipulação da informação, seletividade de conteúdos, simplificação de questões complexas, estímulo aberto a pré-julgamentos, além da eliminação do contraditório e do direito de defesa. A presunção de inocência, marco fundamental da ordem jurídica democrática, foi para o brejo. O bombardeio era diário. A ordem era não deixar pedra sobre pedra.

De dezembro de 2014 até abril de 2016 a população viveu um bombardeio sem trégua. O aparelho jurídico-policial, com claras cores partidárias, fornecia material ilegal em massa aos órgãos de imprensa, TV Globo à frente, que articulava, selecionava, manipulava e incendiava seu público com os jogos de dramatização e demonização do inimigo aprendido nas telenovelas. Os protestos de rua pipocavam em todo o país, com epicentro na capital paulista. Protestos maciços em março, abril e agosto de 2015 se realizaram em mais de 200 cidades do país. A combinação de vazamentos seletivos ilegais e dramatização midiática com os protestos de rua se revelaram esmagadores.” (A Radiografia do Golpe, p. 123)

aroeira

Jessé Souza – que possui graduação em Direito e mestrado em Sociologia na UnB, além de doutorado em Sociologia em Heidelberg (Alemanha) – sublinha em sua análise o quanto as forças golpistas acirram-se em seu ímpeto anti-democrático após a quarta derrota seguidas nas eleições presidenciais (2002, 2006, 2010, 2014), de modo que a plutocracia sai do armário e assume como seu mote inconfesso o quem não tem voto, caça com golpe:

“Depois da quarta derrota seguida, as forças conservadores não só não aceitaram a derrota eleitoral como começaram a flertar com um caminho não eleitoral. É aqui que entra em cena de modo arrebatador o quarto elemento fundamental no esquema do golpe comandado pelos endinheirados: o complexo jurídico-policial do Estado. Instituições destinadas a proteger a democracia passaram a agir de modo concertado para derrubá-la. Agindo em parceria e em conluio com a mídia conservadora e servindo de fomentadora para a recém-organizada base social de extrema direita, a casta jurídica que comanda o combate à corrupção seletiva tornou-se a chave para a compreensão do ‘golpe branco’ em abril de 2016.

O combate à corrupção torna-se pornograficamente seletivo, uma vez que persegue a esquerda, enquanto blinda a direita. Mas sem a participação do nosso verdadeiro ‘partido das elites’, a imprensa manipulada e manipuladora, não teria se formado o clima insurrecional que possibilitou o golpe. A imprensa partidária e conservadora já havia criado uma base social de extrema direita para o golpe, e a elite do dinheiro descontente tem agora não apenas seus aliados de sempre – Congresso comprado pelo financiamento privado de eleições e mídia comprada -, mas também uma base social altamente motivada e engajada, em uma luta que percebe como sua. Essa fração de classe, ingênua de fio a pavio, se imagina não como massa de manobra, mas como protagonista do drama. Não se compreende o golpe de 2016 sem a manipulação dos protestos de junho de 2013.” (p. 106)cartazes

Em março de 2013, o governo de Dilma Rousseff possuía popularidade altíssima: cerca de 79% da população de contentamento, sua maior aprovação histórica. Às beiras das jornadas de junho, seu índice de aprovação ainda estava na faixa dos 70%. O que explicaria uma queda abissal e vertiginosa nestes índices após a passagem do furacão de insurreição popular focado, a princípio, no aumento das tarifas de transporte público? Jessé Souza defende a tese de que junho de 2013 representou o “ovo da serpente”, a incubadora do fascismo, em especial quando as forças mais reacionários buscaram manipular os protestos para que estes servissem a seus próprios interesses escusos.

Em São Paulo, por exemplo, o que a princípio nasce como insurreição legítima, capitaneada pelo movimento Passe Livre (MPL) contra os 20 centavos de incremento na tarifa do busão, incendiada pela repressão policial-militar truculenta conduzida pelo governo Alckmin  (PSDB) contra os manifestantes e a imprensa que cobria as mobilizações (lembrem do lendário 13 de Junho, que serviu de faísca para fazer com que o barril de pólvora explodisse), torna-se outra coisa quando é “cooptado” pela mídia corporativa, que passa a agir como master of puppets da massa de “coxinhas” que acorre às ruas, com camisetas da CBF, em cruzada anti-petista.

A mídia corporativa brasileira, que age como partido dos endinheirados, batizada com justiça de P.I.G. (Partido da Imprensa Golpista), faz do Brasil, como diz o relatório de Repórteres Sem Fronteiras, “o país dos 30 Berlusconis”. Enquanto Junho de 2013, em sua primeira quinzena, foi um levante popular focado na luta do MPL, com eventual uso de táticas Black Bloc nas passeatas, a mídia vociferou contra os baderneiros, os vândalos, os maconheiros sujos, os desordeiros que atrapalham o trânsito – a mídia dita “grande”, enfim, não parava de criminalizar e deslegitimar a bandeira da Tarifa Zero, fazendo apologia da brutalidade repressiva das forças policiais-militares. O Jornal Nacional, pelos idos de 12 de Junho, parecia desconhecer qualquer palavra do dicionário a não ser “vandalismo” para caracterizar os levantes.

Quando percebeu-se que o tsunami de rebeldia popular estava longe de esmorecer, e que a truculenta brutalidade da PM na Avenida Paulista havia surtido o efeito contrário ao esperado (ao invés de mandar o povo de volta pra casa, amedrontado e trêmulo, fez com que milhares e milhares de pessoas saíssem às ruas), o discurso midiático mudou e a tática de manipulação saltou para outro estágio. Como Jessé percebeu,

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“a cobertura do Jornal Nacional do dia 17 de Junho mudou o panorama  completamente. O protesto passou a ser definido como pacífico, e a bandeira brasileira se tornou seu símbolo. Agora os protestos eram tidos como ‘expressão democrática’ e já não se dizia que causavam tumulto ou prejuízo ao trânsito… Rostos pintados como nas Diretas Já apareceram por todos os lados. Começava a criação estética e moral do movimento antigoverno federal capitaneado pela grande imprensa: os ritos passaram a ser cantar o hino nacional, vestir a camisa da seleção, ter a cara pintada… em vez de jovens e estudantes, tínhamos agora famílias de classe média com perfil de renda alta.

(…) O Jornal Nacional cerrou fileiras contra a presidenta e seu governo. A bandeira da antipolítica e antipartidos surgiu… A mídia passou, a partir de junho de 2013, a se associar às instituições do aparelho jurídico-policial no processo de deslegitimar o governo eleito. Palavras de ordem como ‘Muda Brasil’, como forma cifrada de invocar a verdadeira bandeira – ‘Muda (de governo) Brasil’ – passaram a dominar o imaginário das manifestações. A corrupção ganhava cada vez mais proeminência, e os gastos com saúde e educação – que nunca haviam sido tão expressivo como agora – eram sempre mencionados de modo negativo ao governo. Ocorre, na realidade, uma inversão de perspectivas que não deixa de confundir a todos: o governo federal que mais havia investido em educação e saúde passa a ser vítima única da atenção midiática que, conscientemente e de caso pensado, confunde e embaralha as competências federativas de tal modo a que toda culpa caiba unicamente ao governo federal.

No dia 24 de junho o governo propôs uma reforma política para combater a corrupção e cinco pactos: transporte público, reforma política, corrupção como crime hediondo, médicos estrangeiros e destinação de 100% do pré-sal para educação e saúde. A resposta foi inteligente, mas tardia e pouco efetiva. Ela não só teve reação por parte do Congresso como esbarrou no desinteresse da mídia, que experimentava o auge de seu poder de pauta a agenda política relevante.” (p. 90, 94)

Quando Dilma Rousseff, em resposta às Jornadas de Junho, percebendo a grave crise de representação política, propõe um plebiscito para realização de uma constituinte da reforma política, seu plano é completamente esmagado pelas forças reacionárias que nenhum interesse tinham no incremento da participação social nos processos decisórios. O bombardeio midiático contra a proposta do plebiscito popular somou-se à firme decisão do Congresso de barrar qualquer tipo de reforma política que mexesse com tão consolidados privilégios injustos de uma casta acomodada no tope da pirâmide.

“No dia 29 de junho, finalmente, o Jornal Nacional colheu o sucesso retumbante da violência simbólica tão bem perpetrada: foi mostrada uma pesquisa segundo a qual a aprovação popular da presidenta despencara em queda livre. Ela perdera 27 pontos percentuais desde o início dos protestos, os quais visavam na sua origem questões locais e municipais. Era a maior queda de popularidade de Dilma desde o início do mandato. Era o sucesso absoluto da campanha midiática pela federalização das manifestações e pela personalização do descontentamento na pessoa da presidente da república… Sucesso total da violência simbólica. Esse foi o efetivo começo do golpe.” (p. 95)

Jessé Souza considera, nesta sua radiografia do golpe, também o massacre midiático contra o PT na ocasião da revelação do escândalo do Mensalão, em 2005, no primeiro mandato de Lula – o episódio é lido pelo sociólogo como uma espécie de prelúdio fracassado do golpe consumado em 2016, já que desde o Mensalão o conluio da mídia com o aparato jurídico-penal buscava “fulanizar” o tema da corrupção de modo a que a cruzada anticorrupção incidisse somente sobre o PT e suas lideranças, com garantias de impunidade e pizza para todos os corruptos tucanos e PMDBistas. A mesma mídia que não deu um pio sobre a “conhecida – e jamais investigada – compra de votos para a reeleição de FHC” (p. 108) viu no Mensalão a oportunidade de usar o Partido dos Trabalhadores como cordeiro do sacrifício, a fim de barrar Lula nas eleições de 2006.

A Lava Jato, partidarizada e utilizada como instrumento de perseguição política contra o PT, é herdeira da cruzada do Mensalão. Segundo Jessé, “na raiz dos problemas está o assim chamado ‘presidencialismo de coalizão’ que caracteriza o sistema político brasileiro. Como o presidente muito dificilmente vai eleger também uma maioria parlamentar que possa formar sua base de apoio no Congresso Nacional, ele será obrigado a compor e entrar em uma série de acordos e barganhas com as forças dominantes no Congresso se quiser governar. Uma série de fatores estruturais convergentes, como fragmentação partidária, massiva sobrerrepresentação de interesses econômicos com agenda conservadora via financiamento privado de eleições e a pouca representatividade e responsabilidade em relação ao eleitor que o sistema de lista partidária confere, faz do legislativo o bastidão dos interesses mais conservadores da sociedade brasileira.” (p. 108)

A consumação do golpe de Estado no Brasil, em 2016, dependeu da ação conjunta da mídia corporativa, de facções partidarizadas do aparelho jurídico-penal do Estado e de um Parlamento gangsterizado, que segundo Jessé Souza souberam manipular as massas-de-manobra midiotizadas que, nas ruas, formaram uma espécie de “base social da direita”, apoiando um impeachment fraudulento, em que Dilma Rousseff – que jamais teve qualquer culpa comprovada em quaisquer escândalos de corrupção ou de desvio de verbas públicas, tendo sido uma das gestoras públicas que mais combateu a corrupção no país – acabou condenada por “pedaladas fiscais” e deposta da presidência por um verdadeiro Sindicato de Ladrões.

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O protagonismo, neste coup d’état, do célebre criminoso e gangster Eduardo Cunha (PMDB), cassado après coup e preso pela Polícia Federal em Outubro de 2016, é a evidência mais inconteste de que o putsch teve, em sua linha-de-frente, crápulas plutocratas da pior laia. Cunha é o símbolo emblemático do gole e deste “Congresso regressivo, comprado por todo tipo de interesse econômico cartelizado” (p. 127). Este grotesco Congresso, “eleito em 2014 e sob o comando de Eduardo Cunha, desafeto do governo e disposto a buscar revanche depois que o governo tentara impedia sua eleição a presidente da Câmara”, age pelo ano de 2015 como oposição terrorista ao governo eleito nas urnas, em 2014, por mais de 54 milhões de votos. “Cunha já havia enfraquecido o governo com as assim chamadas pautas bomba durante todo o ano de 2015, praticamente impedindo-o de governar. Em uma manobra torpe, após ter visto fracassar sua chantagem para forçar o PT a livrá-lo na comissão de ética de cassação iminente, Cunha encaminhou a proposta de impeachment em ritmo célere contra a presidenta.” (p. 127)

“Em um espetáculo grotesco, denunciado por toda a imprensa internacional, tivemos um impedimento que ficou, ao fim e ao cabo, desprovido de qualquer legitimidade. Daí vem seu caráter de ato de força e oportunismo. Oportunismo esse que é duplo: rapinar a riqueza nacional, oprimindo os trabalhadores do campo e da cidade, e esquentar a pizza do núcleo do atual governo [Temer] envolvido até o pescoço na corrupção… A elite financeira, a mídia – sob comando da TV Globo -, o parlamento comprado e a casta jurídica se unem e decretam o fim do governo eleito. Com o golpe consumado, todos os interesses que se articularam partem direto para a rapina e para o saque do espólio. Vender as riquezas brasileiras, petróleo à frente, cortar os gastos sociais, posto que o que vale agora é apenas o interesse do 1% mais rico, e fazer a festa da turma da privataria. Os pobres voltam ao esquecimento, à marginalidade e aos salários de escravos por serviços à classe média e às empresas dos endinheirados. Tudo como antes no quartel de Abrantes. ” (JESSÉ SOUZA, A Radiografia do Golpe, p. 127 – 132)

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ASSISTA:

Conversa Afiada com Paulo Henrique Amorim

Na Sala de Visitas com Luis Nassif: Edição 9

Brasilianas (Novembro de 2015)

#CinephiliaCompulsiva: “Network” (de Sidney Lumet, 1976) – por Eduardo Carli de Moraes

CAOS NOS TELEPÚLPITOS DA PLUTOCRACIA
Um (hiper)texto da série #CinephiliaCompulsiva

por Eduardo Carli de Moraes

Eu diria que há filmes-bumerangue: você pode até lançá-los com força pra longe, mas eles voam de volta e impõem sua presença. Muitos filmes já foram feitos sobre o tema da mídia-de-massas e da indústria cultural nos EUA – no Olimpo deste cinéfilo estão A Montanha dos Sete Abutres Crepúsculo dos Deuses (de Billy Wilder)Todos os Homens do Presidente (Alan J. Pakula), O Jogador (de Robert Altman), Barton Fink (dos irmãos Coen)O Show de Truman (de Peter Weir), Cidade dos Sonhos (de David Lynch), Nightcrawler (de Dan Gilroy), dentre outros – porém talvez não haja nenhum mais impactante, mais furibundo, mais arrebatador que Network (1976), um magnum opus na filmografia do Sidney Lumet.

Sua relevância bumerânguica impõe-se no presente apesar dos 40 anos já transcorridos desde seu lançamento. Como lê-se na capa do BluRay que ajuda a re-consagrá-lo junto à nova geração, Network  – cognome no Brasil: Rede de Intrigas – ainda é um filme louco e endiabrado (still mad as hell).

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Este filme, além de formidável obra de arte, é uma intervenção no debate público, uma provocação sociológica, uma  sátira mordaz da Sociedade do Espetáculo (teorizada por Debords e McLuhans). Lumet revela, na prática, o potencial da chamada “sétima arte” para transcender a oposição entre entrenimento vs grande arte, já que cria um filme que vai muito além de ser um mero objeto estético, sendo também uma espécie de dispositivo de reflexão sobre a sociedade, fornecendo uma espécie de análise civilizacional de conjuntura.

O que Adorno e Horkheimer fizeram através de livros como Dialética do Esclarecimento, que contêm duras críticas à Indústria Cultural capitalista, Sidney Lumet realiza no âmbito cinematográfico, criando um filme quintessencial como objeto de estudos multidisciplinar: os historiadores e os sociólogos, os filósofos e os antropólogos, os que estudam comunicação social e ciências da informação, tem muito alimento-pro-pensamento (food for thought) na saga de Howard Beale, protagonista de Network.

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 Beale foi interpretado por Peter Finch, vencedor do Oscar de melhor ator por este papel. Curiosidade: o ator não viveu para pôr mãos em sua estatueta dourada: “o prêmio para Peter foi póstumo já que o ator morreu vítima de um ataque cardíaco, um mês antes da festa de entrega do Oscar.” (Wiki) Para muitos cinéfilos, o auge da carreira artística de Peter Finch foi mesmo sua memorável encarnação de Howard Beale, apresentador de telejornal, já calejado neste métier e beirando a aposentadoria, que vê seu Ibope despencar feito um elevador em queda-livre.

Beatle, deprimido, pensa no suicídio, e nestes fundos-de-poço desperta um eureka!: “vou me suicidar na frente das câmeras, ao vivo!” Matar-se em algum quartinho trancado, na obscuridade e no anonimato, não lhe anima: a morte sem fama não lhe motiva, ele quer algum suicídio espetaculoso, algo de bombástico, que dê o que falar.

O plano pode parecer mirabolante e inverossímil – onde já se viu um âncora de TV dar um tiro no cérebro em pleno jornal nacional? – mas aconteceu de fato, em 1974, dois anos antes de Network vir à luz: na Florida (EUA), a jornalista Christine Chubbuck, aos 29 anos de idade, do Canal 40, deu um tiro na sua própria nuca, ao vivo na telinha. Foi o primeiro suicídio-televisado na história da TV nos EUA e o caso voltou recentemente à tona por dois filmes que lhe foram devotados (um ficção, outro documentário):

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Uma imagem perturbadora foi ao ar, ao vivo, nas TVs de Sarasota, Flórida (EUA), na manhã de 15 de julho de 1974. “Para dar continuidade à política do Canal 40 de trazer a vocês as últimas notícias sobre sangue e miolos, vocês verão outro primor: uma tentativa de suicídio”. A jornalista de 29 anos Christine Chubbuck pronunciou essas palavras ao vivo durante seu programa dominical, para então disparar um tiro atrás da orelha. Ela morreu horas depois em um hospital local. O primeiro suicídio ao vivo da TV americana gerou comoção nacional. Quarenta anos depois, a história trágica de Chubbuck volta à tela com o filme Christine, protagonizado pela atriz inglesa Rebecca Hall, e do documentário Kate Plays Christine, ambos inspirados no perfil psicológico da jornalista. – BBC BRASIL – 29/01/2016 (Saiba mais: Indepedent – La Prensa)

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A radicalidade do ato de Christine  Chubbuck é explícita: ela chegou até mesmo a satirizar seu suicídio ao declará-lo como “algo ao gosto do patrão”, já que o dono da cadeia de TV adorava pôr no ar “sangue e entranhas”. Essa radicalidade é algo que também marca o caráter de Howard Beale no filme de Lumet: uma espécie de crise nervosa (nervous breakdown) conduz Beale a uma série de rupturas com o comportamento costumeiro de um jornalista.

mad-as-hellA máscara de neutralidade escorrega de sua face. Os bons-modos de engravatado ordeiro entram em tilt. Sua raiva, seu desespero, sua angústia, extravasam de seus limites e ele perde a polidez: começa a ser, na TV, um praticante da catarse, pública e televisionada.

E bem sabemos – por exemplo desde o movimento punk e até a explosão grunge capitaneada por Kurt Cobain – que a catharsis nos mass media pode ser pop. Pode ser uma bomba no Ibope. O convite à catarse é amplamente respondido pelo público de Beale: na cidade começam a pulular os berros de cidadãos que, instigados por Beale na TV, gritam janelas afora, para o bairro inteiro ouvir, o bordão: “I’M MAD AS HElL AND I’M NOT GONNA TAKE IT ANYMORE!”

 Beale, muito antes de Fight Club, já foi uma espécie de Tyler Durden, cometendo na TV algumas punkices (apesar da idade avançada…). Eu não me surpreenderia se descobrisse que a canção do Hüsker Dü, “Turn On The News” (Zen Arcade, 1984), teve alguma influência da rage que manifesta Beale em Network – pathos é bem parecido…


“I hear it every day on the radio:
Somebody shoots a guy he don’t even know,
Airplanes falling out of the sky,
A baby is born and another one dies,
Highways fill with refugees,
Doctors finding out about disease,
With all this uptight pushing and shoving,
That keeps us away from who we’re loving…
So turn on, turn on, turn on… the news!”
HÜSKER DÜ

 8daf40ba4366f57890bb30a98c1a5db1A diretora de programação da UBS, em Network, vivida por Faye Dunaway (que também venceu o Oscar por este papel), logo percebe o potencial daqueles surtos catárticos que fizeram a audiência subir tão significativamente. Os setores mais conservadores logo se mobilizam para demitir Beale, calá-lo como quem amordaça um louco perigoso, mas ela não: ela defende que na TV haja mais contra-cultura, mais conteúdos anti-establishment, e inaugura inclusive o programa A Hora de Mao Tsé-Tung, onde pretende documentar as atividades de guerrilhas armadas e coletivos revolucionários (nos moldes do Weather Underground) nos EUA.

Em uma era de tensões sociais exacerbadas no país, que vivia em 1975 o vigésimo e derradeiro ano da Guerra do Vietnã (1955-1975), está representada em Network a emergência de movimentos sociais fortes, que a mídia corporativa não pode ignorar e omitir, com destaque para o poderio dos negros afrodescendentes que organizaram partidos (como o Black Panther Party – Panteras Negras) e que guiam-se pelas cartilhas de líderes como Malcolm X ou Martin Luther King. Só uma mídia renovada podia dar conta de narrar a contento tempos históricos tão conturbados.

Howard Beale é como um cão raivoso que escapa da coleira. Se ele se torna um hit da TV, com audiências estratosféricas, é pois articula a raiva dos telespectadores (“articulate the anger”, aliás, é uma expressão recorrente no filme). O que predomina na fala de Beale, em termos afetivos, é um ódio que tem algo de clarividente. Uma revolta que em seu transe de fúria consegue enxergar mais claramente seus adversários, descrevendo-os aos brados como um profeta bíblico que prega na montanha, disparando imprecações. O brilhante roteiro de  Paddy Chayefsky – vencedor do Oscar – insiste no caráter quase religioso ou místico da experiência de Beale diante das câmeras: ele é descrito como “mad as Moses”, ou “doido como Moisés”.

Não quero com isso desqualificar o discurso do personagem como os delírios de um lunático que não merece ser ouvido, muito pelo contrário: o verbo-em-chama que a língua-em-fogo de Beale lança pela goela afora é um verdadeiro tratado de sociologia. É também um testemunho histórico de uma momento de crise nos EUA:

Os países árabes e sua organização petrolífera OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) ameaçam com uma alta nos preços dos combustíveis fósseis conhecidos como “ouro negro”; o país ainda vive a ressaca do “caso Watergate”, que havia culminado com o processo de impeachment contra Nixon e sua posterior renúncia; a sanguinolência no Vietnã e no Camboja ainda era ferida recente (sem falta de soldados estropiados); tanto o Black Power quanto as primeiras manifestações do movimento Hip Hop demonstram o poderio da contracultura conectada ao Atlântico Negro (Cf. Paul Gilroy); e é neste contexto que Beale destilará sua retórica enfurecida – mas autêntica e catártica – em discursos que viraram clássicos da história do cinema:

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Beale: I don’t have to tell you things are bad. Everybody knows things are bad. It’s a depression. Everybody’s out of work or scared of losing their job. The dollar buys a nickel’s worth; banks are going bust; shopkeepers keep a gun under the counter; punks are running wild in the street, and there’s nobody anywhere who seems to know what to do, and there’s no end to it.

We know the air is unfit to breathe and our food is unfit to eat. And we sit watching our TVs while some local newscaster tells us that today we had 15 homicides and 63 violent crimes, as if that’s the way it’s supposed to be!

We all know things are bad – worse than bad – they’re crazy.

It’s like everything everywhere is going crazy, so we don’t go out any more. We sit in the house, and slowly the world we’re living in is getting smaller, and all we say is, “Please, at least leave us alone in our living rooms. Let me have my toaster and my TV and my steel-belted radials, and I won’t say anything. Just leave us alone.”

Well, I’m not going to leave you alone.

I want you to get mad!

I don’t want you to protest. I don’t want you to riot. I don’t want you to write to your Congressman, because I wouldn’t know what to tell you to write. I don’t know what to do about the depression and the inflation and the Russians and the crime in the street.

All I know is that first you’ve got to get mad.

You’ve gotta say, “I’m a human being, goddammit! My life has value!”

So, I want you to get up now. I want all of you to get up out of your chairs. I want you to get up right now and go to the window, open it, and stick your head out and yell:

“- I’m as mad as hell, and I’m not going to take this anymore!”

Ao invés do demagogo cheio de promessas de um futuro lindo e promissor, Beale explicita sua postura: a de alguém que não vai mentir, não vai dourar a pílula, não vai fingir que está tudo bem. Enumera os componentes da crise: depressão econômica e quebradeira de bancos; violência urbana e ondas de assaltos; punks selvagens pelas ruas; poluição atmosférica e comida contaminada; tragédias que viram estatísticas: 15 homicídios diários, em média, além de 63 outros crimes violentos, todos os dias… Como se isso fosse normal! Diante de tal cenário distópico, como deveria agir a mídia de massas? Deve apenas oferecer entretenimento kitsch e inofensivo, transformando-se numa máquina de matar o tempo, um tubo anti-tédio?

Beale não acredita na limitação da TV nem ao entertainment, nem ao jornalismo neutro e imparcial. Um pouco de seu pathos remete a mestres da comédia nos EUA, como Lenny Bruce (vivido no cinema por Dustin Hoffmann em filme de Bob Fosse em 1974) e George Carlin. Os discursos de Beale rasgam o véu do “politicamente correto” e ele fala na TV como se estivesse em comício. Mais que isso: ele torna-se um líder-de-massas, que conclama seus milhões de espectadores a agir (“mandem telegramas aos montes para a Casa Branca! Quero ver o presidente atolado até os joelhos em telegramas!”), inclusive chegando ao extremo – imperdoável, segundo os magnatas da indústria – de implorar: “desliguem essas TVs! Esses tubos estão estupidificando vocês!”

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Nada mais excêntrico do que um apelo televisionado ao boicote-em-massa à televisão… Beale vai tomar um esporro daqueles do magnata da indústria, que em cena memorável dá uma preleção sobre o capitalismo neoliberal pós-moderno como alguém que entra em transe com as idéias de Friedrich Hayek (1899-1992) e Ludwig Von Mises (1881-1973). O filme de Lumet pode até parecer visionário ao prever a proeminência tremenda que ganharia o neoliberalismo nos anos 1980, com Margareth Tatcher e Ronald Reagan nas presidências do mundo anglo-saxão e tendo como ideólogos figuras como Milton Friedman e Ayn Rand. Mas o fato é que a doutrina neoliberal já estava fazendo tremendos estragos na América Latina, em especial no Brasil depois do golpe de Estado de 1964 e no Chile após o coup Pinochetista-Yankee de 11 de Setembro de 1973. O apóstolo da distopia neoliberal – concretizada! – é outra das atrações impagáveis de Network: 

Network mostra-nos o punho autoritário dos poderes neoliberais, sua vociferante retórica em favor da liberdade dos capitais para circularem à vontade e para acumularem em poucas mãos (se assim decretar a Mão Invisível do Mercado), contraste com Beale, acanhado e um tanto aterrorizado, como uma espécie de formiga diante de um elefante desprovido de misericórdias por coisas pequenas e dispensáveis como… jornalistas. Beale, assim que voltar ao telepúlpito, será uma formiga em levante, um rebelado contra o Grande Irmão. O vociferante Beale, apesar de sua capacidade de “mobilizar” platéias, não deixa de ser, na hierarquia da instituição plutocrática-fascista em que trabalha, é visto como uma espécie de inseto, à la Gregor Samsa, que os poderes palacianos predarão sem pudor.

Se Beale começa o fim com um plano-de-suicídio, termina o filme sendo alvo de uma conspiração de assassinato: de todo modo, a profecia se cumpre. Beale, personagem fictício, junta-se à jornalista da vida real Christine  Chubbuck – ambos são “mortes transmitidas ao vivo”. Ambas mortes protestam, com a bandeira de seu sangue derramado, contra os mass media que embrutecem e emburrecem o público com besteirol e edulcorações, que praticam o jornalismo sensacionalista trash do “espreme que sai sangue”.  Beale é uma espécie de hacker do sistema, que diz na TV o que seria, em circunstâncias normais, totalmente censurado e proibido. Um âncora de TV que faça o papel que tem nos jornais o ombusdman, que dedique-se a uma auto-reflexão crítica sobre sua prática profissional, que compartilhe com o público uma análise do poder alienante da televisão, como faz Beale, está de fato condená-lo a ser silenciado com violência pelos poderes dominantes.

Após fustigar a platéia com estatísticas que mostram que apenas 3% dos norte-americanos lêem livros e apenas 15% lêem jornais, ele procura fazer seus telespectadores despertarem de uma espécie de narcose, induzida pelo “tubo”: “a única verdade que vocês sabem sai dessa caixa preta! Agora mesmo, há uma geração inteira que nunca soube nada que não saiu desse tubo! Esse tubo é o evangelho, a revelação derradeira! Esse tubo pode construir ou destruir presidentes, papas, primeiros-ministros! Esse tubo é a mais aterradora força em todo este mundo-sem-deus! E pobres de nós se esse poder cair nas mãos das pessoas erradas!”

A concentração do poderio mass-mediático nas mãos de poucas corporações – que marca não só a realidade dos EUA, mas é agudíssima também no Brasil, país apelidado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras de A Nação dos 30 Berlusconis – é outro alvo de Beale. Os mega-conglomerados que dominam a economia globalizada sob o domínio do capitalismo neoliberal – sistema finamente criticada por documentários como The Corporation – perdem a conexão com o ideal originário que anima a profissão do jornalismo, a busca pela verdade factual e sua honesta comunicação à opinião pública, tendo como télos a tomada bem-informada e lúcida de decisões pertinentes ao bem comum, ao público, ao coletivo.

Floaty Chars

O caráter distópico de Network pode até estar latente, não tão explícito quanto em Matrix, mas o retrato de uma humanidade “presa” às ilusões de uma Neo-Caverna platônica, desta vez televisiva, marca forte presença: a TV em Network já é um protótipo de Matrix. O cinema revisitaria o tema em obras como O Show de Truman – que já esmiucei em outro artigo do projeto Cinephilia Compulsiva – ou na animação Wall-E, que retrata o que sobrou da Humanidade, após a poluição da biosfera terrestre, a perambular, no interior de uma estação espacial, em poltronas móveis, onde obesos bebedores compulsivos de refrigerantes nada fazem na vida senão ficarem de olhos grudados na telinha imbecilizante onde tudo é marketing infinito...

Network é de uma contundência que não perdeu sua força pois denuncia as mentiras interesseiras que os patrões da mídia contam através daquilo que Beale chama de “a mais fantástica força de propaganda em todo este mundo-sem-deus!”  Como um enfurecido des-mistificador, esbraveja: “a televisão não é a verdade! É um maldito parque-de-diversões! Televisão é um circo, um carnaval, um bando de acrobatas, cheia de contadores de lorotas,  de dançarinos e malabaristas, de side-show freaks, domadores-de-leões e jogadores de futebol. Estamos no negócio de matar o tédio (the boredom-killing business). Caras, vocês nunca vão ganhar nenhuma verdade de nós! Nós vamos te dizer o que você quer ouvir. Nós mentimos como o diabo. Nós te dizemos que o detetive sempre pega o assassino. E ninguém nunca pega câncer na novela das 5. E não importa em que encrencas o herói tenha se metido, não se preocupe, ao fim de uma hora – cheque seu relógio! – ele vai vencer. Nós te contaremos qualquer merda que você quiser ouvir! Nós vendemos ilusões…”

É o cinema, magistralmente manejado por Sidney Lumet, servindo à revelação de verdades sobre o mundo social, muitas delas também trazidas à tona pela obra de grandes intelectuais do século XX, como Noam Chomsky e Pierre Bourdieu. O discurso de Beale pretende despertar os zumbis, para que parem de ser papagaios do que a TV diz, para que parem de vestir-se como manda a propaganda e de comprar nos mercados o que o Tubo mandou comprar. Clama por autonomia de pensamento, auto-determinação, capacidade crítica – e nada disso é do interesse das mega-corporações. Beale está em rota de colisão com o sistema. O tope não tolerará esse rebelde em transe que ousa proclamar verdades inconvenientes no tele-púlpito. É preciso calá-lo por quaisquer meios.

O Ibope de Beale começa a cair numa espiral descendente conforme ele cessa de ser uma excitante novidade e passa a agir como um soturno filósofo Adorniano, com um desespero Kierkegaardiano, que reflete sobre a desumanização acarretada pela mídia de massas e sobre os horrores da atomização dos indivíduos. “Desliguem a TV! Desliguem-na e deixem-na desligada!” – é o conselho que ele tem ao público após uma vida devotada ao métier. A ironia suprema do filme de Lumet é fazer com que esta mensagem contracultural e subversiva seja cooptada pelo sistema televisivo: a UBS irá utilizar Beale como um títere faz com sua marionete, criando as condições para um espetaculoso – e esplendidamente lucrativo – espetáculo sangrento derradeiro.

 Howard Beale acaba por me lembrar de um dos mais notáveis personagens da ficção inglesa no século XX, Winston Smith, de 1984. George Orwell, em seu clássico da ficção-científica distópica, havia imaginado um mundo dominado por aparelhos – as teletelas (telescreens) – que podiam ter seu volume reduzido, mas “era impossível desligá-lo de vez”. A originalidade da teletela de Orwell é que ela não era apenas um tubo emissor de imagens e mensagens, mas também um dispositivo de vigilância e controle: uma mescla de TV com câmera de segurança. “Naturalmente, não havia jeito de determinar se, num dado momento, o cidadão estava sendo vigiado ou não. Impossível saber com que frequência, ou que periodicidade, a Polícia do Pensamento ligava para a casa deste ou daquele indivíduo. Tinha-se que viver – e vivia-se por hábito transformado em instinto – na suposição de que cada som era ouvido e cada movimento examinado.” (ORWELL, 1984, cap. 1)

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Tanto Howard Beale quanto Winston Smith terminam por adquirir um conhecimento íntimo do funcionamento do “Big Brother”, o Grande Irmão, em especial pois foram serviçais do sistema pela maior parte de suas vidas. Beale como telejornalista, Smith como “falsificador” profissional dos jornais do passado, ambos estiveram nas entranhas do monstrengo. A revolta de ambos é motivada pois eles estão bem-informados demais sobre o que ocorre nos bastidores, seja da corporação, seja do partido.

Em 1984, as teletelas são instrumentos utilizados pelo Partido para que conquiste as massas para seus interesses: o Grande Irmão deve ser celebrado como líder infalível e perfeito; já o inimigo público, perigoso terrorista e revolucionário sanguinário, Immanuel Goldstein, deve ser escorraçado sem fim. As teletelas orquestram o ódio das massas contra Goldstein, o traidor do Partido, o infame bandido, de modo que o público não cessa de ser condicionado a pensar em termos maniqueístas e a fazer a catarse de sua agressividade sempre contra o alvo apontado pelas telas. Soa familiar?

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O Partido totalitário que rege a sociedade onde Smith vive e trabalha – e cujo protótipo Orwell fui buscar no III Reich Nazi e na fase stalinista da URSS – é uma imensa máquina de mentir, de iludir, de re-escrever o passado conforme as necessidades do presente. É também um Partido que se utiliza amplamente da mídia de massas, transformada também num polvo de mil tentáculos, que vigia com milhões de olhos, como um super-policial hi-tech no Neo-Panópticon do amanhã…

Winston Smith é alguém que, tal qual Beale em Network, irá descobrir-se incapaz de seguir jogando o jogo dos chefes como obediente cordeirinho: “Havia momentos em que o ódio de Winston não se dirigia contra Goldstein mas, ao invés, contra o Grande Irmão, o Partido e a Polícia do Pensamento; e nesses momentos o seu coração se aproximava do solitário e ridicularizado herege da tela, o único guardião da verdade e da sanidade num mundo de mentiras.” (ORWELL, 1984, cap. 1)

Em 1984, um dos lemas do partido era: “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado.” Winston sabe muito bem, pois trabalha no Ministério da Verdade (um nome, é claro, irônico!) e ali exerce o cargo de “retocador” de jornais publicados no passado. Winston sabe muito bem que o “partido tem o poder de agarrar o passado e dizer que este ou aquele acontecimento nunca se verificou” e que pode mesmo contar mentiras deslavadas, como “o partido inventou o avião” ou “nunca estivemos em guerra com a Eurásia” (verdade promulgada um dia depois da trégua que interrompeu a guerra de 6 anos com a Eurásia…).

 Assim como para Winston, para Beale o inimigo também é o “mundo de mentiras”. Network mostra uma espécie de tele-profeta rebelde que boicota seu próprio empregador, que declara guerra à corporação midiática onde fez carreira, como Spartacus contra Roma. O cerne de seu ataque contra a TV está na falsificação do real que ela impõe e pelos efeitos de alienação que causa – tema riquíssimo para estudos de psicologia social, por exemplo. A TV, segundo Beale, foi prostituída e corrompida a ponto de tornar-se apenas um circo e um freakshow, onde vale-tudo pelo Ibope. Inclusive e sobretudo o sangue, a violência, a estigmatização de minorias, a perseguição a adversários políticos… A TV, ao invés de oferecer formação e conhecimento, cria conformismo. Condiciona as massas seja ao papel passivo de consumidores zumbi de imagens publicitárias e novelas inautênticas, seja ao papel de títeres nas mãos daqueles que precisam de massas-de-manobra para conquistarem seus fins.

No mundo fictício fabricado pelo noticiário do Partido, em 1984, a verdade sobre a economia e sobre as condições de vida da população são escondidas, escamoteadas: publica-se na imprensa, por exemplo, que a produção trimestral de botinas foi de 145 milhões, quando na verdade havia sido de 62 milhões. Quadro diante do qual o irônico narrador Orwelliano comenta: “tudo o que se sabia é que, a cada trimestre, quantidades astronômicas de botinas eram produzidas no papel, ao passo que talvez metade da população da Oceania andava descalça.” (ORWELL, 1984, cap. 4)

Network é, igualmente, o relato da insurgência de um funcionário demenciado, contra um sistema compulsivamente mentiroso (como o são, no Brasil, desde a ditadura, as alianças entre mega-empresas como Abril e Globo com os partidos da elite autoritária e mandonista). Beale e Smith, ambos, saem dos trilhos da ortodoxia, ousam pensar por si próprios, não conseguem mais viver enjaulados no conformismo. Em ambos os casos, tanto em Orwell quanto em Lumet, a jornada do herói não tem nada de triunfante e gloriosa, mas está condenada de antemão a soçobrar diante de um inimigo poderoso demais. Nisso, Network 1984 assemelham-se a Kafka.

Se as teletelas de Orwell eram o instrumento supremo de doutrinação e controle que mantinha o Sistema do Big Brother no domínio, em Network somos apresentados a uma situação quase tão distópica: massas de “vidiotas”, para usar a expressão de Márcia Tiburi, sem senso crítico desenvolvido, títeres dóceis para as ordens teleguiadas provindas do Tubo, são capazes de tudo, até mesmo dos piores fascismos, até mesmo do homicídio premeditado (a ser difundido em cadeia nacional…).

Se personagens como Howard Beale e Winston Smith comovem e tornam-se fortes presenças em nossas memórias, talvez seja porque Network 1984 não são obras totalmente deprimentes e desalentadoras. Mostram indivíduos que se insurgem em prol da expressão de uma verdade sobre a sociedade onde vivem que todos os poderes hegemônicos desejam calar, esconder, omitir, recalcar. Procuram desvelar o que não deveria ficar oculto, trazer à luz o que a tirania deseja lançar às trevas dos porões. Põe à nu um sistema desumanizador, de controle piramidal, baseado no apartheid social, e onde TVs e teletelas servem somente à imbecilização, à domesticação, ao controle. Mostram – como a História já havia feito, ou alguém imagina Hitler sem o rádio? – que é bem possível, infelizmente, uma aliança entre mídia e fascismo. As lições permanecem relevantes ao extremo em nossos tempos onde golpes de Estado são orquestrados pela televisão, “panelaços” e linchamentos públicos respondem a chamamentos de telejornais corporativos, e multidões ensandecidas são capazes de serem as ovelhas amestradas da fúria fascista, orquestrada de cima dos telepúlpitos da plutocracia.

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Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 29/03/2016

Um (hiper)texto da série #CinephiliaCompulsiva

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MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA & ANALFABETISMO POLÍTICO – O papel(ão) da mídia corporativa na crise política brasileira [por Eduardo Carli de Moraes]

O Brasil parece empenhado em dar provas, às mancheias, da tese de Joseph Pulitzer (1847 — 1911): “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”.  Vale lembrar que “pela Constituição brasileira os meios de comunicação são concessão do Estado e deveriam atender aos interesses universais e não privados”, como lembra a reportagem da Carta Maior.

Porém, o abismo entre a nossa realidade e o nosso ideal constitucional escancara-se em nosso país onde a comunicação social tradicional é controlada por mega-corporações capitalistas chefiadas por 5 ou 6 grandes famílias. Dando nome aos bois – ou melhor, aos magnatas – vivemos sob o poderio midiático excessivo (e absolutamente desproporcional aos (des)serviços prestados ao bem comum) dos Marinho, da Globo; de Edir Macedo, da Record; de Silvio Santos, do SBT; dos Civitas (do Grupo Abril, que publica a revista de maior vendagem no país, a Veja); dos Frias (Grupo Folha); dos Mesquita (O Estado de S. Paulo) (Saiba mais: BBC Brasil). 

“A imprensa empresarial privada e monopolizada é, por definição, anti democrática. Vale dizer, atende aos interesses de grupos e não aos interesses da sociedade no seu conjunto. O argumento de que o controle social da mídia é censura dissimula o caráter de censura da grande mídia empresarial ao pensamento divergente, fermento da ordem democrática. Os estudos acadêmicos sobre o caráter parcial, direcionado, seletivo da grande mídia monopolizada são abundantes. No plano internacional, as análises de um dos maiores sociólogos do Século XX, o francês Pierre Bourdieu, e do linguista e cientista político Noam Chomsky, mostram o quão parcial e demolidora dos direitos à informação livre é a mídia monopolizada mundialmente.” (FRIGOTTO, G. A Mídia Empresarial e a Corrosão dos Valores Democráticos, na Revista Carta Maior

Atual presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o sociólogo Jessé de Souza escreveu em Carta Capital um artigo notável em que desvenda um pouco da maquinaria daquilo que chama de “o golpe midiático-jurídico”, em curso e em despudorada ascensão, que conecta-se explicitamente a uma tendência social fascista:

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“O fascismo não nasce da noite para o dia. Ele vai crescendo no dia a dia contando com nosso medo, nossa ingenuidade real ou midiaticamente construída e nossa pusilanimidade.  A atuação da mídia conservadora dominante entre nós é abertamente fascista ainda que, aqui e acolá, se publique a opinião de alguém da esquerda para se tirar onda de imparcial.

(…) Ao invés de esclarecer a complexidade dos interesses sociais em disputa, a mídia conservadora os encobre e cria bodes expiatórios como a corrupção apenas estatal e de apenas um partido. É um jornalismo que não educa seu público de leitores, nem eleva sua capacidade de compreensão. Ao contrário, os mantêm cativos no mundo da repetição e da manipulação e não do aprendizado. O problema é que o povo hoje imbecilizado pode se lembrar que um dia foi inteligente e começar a pensar por si próprio. Nunca a manipulação midiática ficou tão óbvia quanto agora.

O mote desde 1954 deste mesmo jornalismo – inclusive com os mesmos órgãos de imprensa que atuaram no suicídio de Getúlio e no golpe contra Jango em 64, atuando também no mesmo sentido social e político no “lava jato” de hoje –  é a “corrupção seletiva”. Por exemplo: os esquemas de corrupção em empresas estatais existem há décadas, mas só interessam as do período recente e, assim por diante, de fio a pavio um óbvio e escancarado “interesse seletivo” no combate à corrupção.

Parece impossível que exista alguém tão imbecilizado pelo veneno midiático que não perceba o real sentido deste jogo. “Seletividade”, aliás, é a palavra chave deste golpe. Mas o desespero dos “golpistas irmanados” com a queda no seu “ibope” e no interesse do público – afinal a operação é “midiática” – os fez ultrapassar todos os limites do razoável. (…) A imprensa conservadora é o real braço partidário da ínfima elite do dinheiro que tem também “no bolso” boa parte do Congresso Nacional para a defesa de seus interesses. Mas para “legalizar” o golpe é necessário se encontrar uma “aparência” de legalidade.

Os militares cumpriram esse papel no passado. Agora são os interesses corporativos de aparatos estatais que deveriam zelar pela ordem jurídica – suprema ironia – que se travestem de supostos defensores da “higiene moral da nação” – outra óbvia ideia fascista que nunca acabou bem em nenhum caso histórico – para garantir privilégios corporativos e se apropriar da “agenda de Estado” e, assim, mandar sem voto.” (JESSÉ DE SOUZA, O golpe midiático-jurídico e sua noite dos cristais)

Fora do Brasil, alguns dos melhores analistas da geopolítica também já forneceram boas análises do “golpismo midiático”, caso de Glenn Greenwald, jornalista escolhido por Snowden para revelar ao mundo a espionagem do governo americano via NSA (National Surveillance Agency):

“A mídia corporativa brasileira age como os verdadeiros organizadores dos protestos e como relações-públicas dos partidos de oposição. (…) Para se ter uma noção do quão central é o papel da grande mídia na incitação dos protestos: considere o papel da Fox News na promoção dos protestos do Tea Party. Agora, imagine o que esses protestos seriam se não fosse apenas a Fox, mas também a ABC, NBC, CBS, a revista Time, o New York Times e o Huffington Post, todos apoiando o movimento do Tea Party. Isso é o que está acontecendo no Brasil: as maiores redes são controladas por um pequeno número de famílias, virtualmente todas veementemente opostas ao PT e cujos veículos de comunicação se uniram para alimentar esses protestos. Resumindo, os interesses mercadológicos representados por esses veículos midiáticos são quase que totalmente pró-impeachment e estão ligados à história da ditadura militar.” (GLEN GREENWALD, Leia a matéria completa em Geledés)

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Ilustração: Carlos Latuff

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Pig 2É por essas e outras que o próximo dia 1º de Abril – data ilustre no Brasil, pois é tanto o Dia da Mentira quanto a data de início da Ditadura Empresarial-Militar de 1964-1985 – promete ser “quente” na frente das sedes da mais poderosa empresa midiática brasileira. A Rede Globo, mancomunada com outras empresas poderosas da mídia brasileira, todas elas integrantes da elite econômica e que agem de modo cada vez mais aberto como Partido de Oposição (o “P.I.G.” – ou Partido da Imprensa Golpista, satirizado em tantas charges de Latuff), querem que esqueçamos a história lamentável de autoritarismo que marcam, como nódoas de sangue, a suposta brancura dessa mídia plutocrática e manipuladora. Como lembra o artigo do Coletivo Intervozes, para Carta Capital:

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“Ilude-se quem acredita que à imprensa coube apenas cobrir as manifestações do dia 13/03, espalhadas nos 26 estados da federação e no Distrito Federal. A mídia foi um componente central de sua própria concretização. Algo que se deu não só com a vinheta do “Vem Pra Rua”, tocada ao longo de 24 horas por dia na Rádio Transamérica de São Paulo, ou com o assustador editorial do Estadão deste domingo, que convocou “os cidadãos de bem” a “mostrar seu poder inequivocadamente”, valendo-se, para isso, de uma série de adjetivos e acusações de crimes que não apenas negava, mas destruía seus opositores.

Esses são exemplos claros da atuação midiática. A formação da opinião pública, contudo, pode ser um processo sutil. Não precisa transpirar ódio – aliás, é melhor que não o faça, senão o jogo fica muito descarado. Vale mais apostar em frases simples repetidas à exaustão e na invisibilização de opiniões divergentes – rasgando qualquer manual de bom jornalismo. Foi o que assistimos pelo menos nos últimos 15 meses, quando a mídia, de forma sistemática, colou a ideia da corrupção em apenas determinados grupos e consolidou a avaliação de que este é ‘o pior governo de todos os tempos’. Isso culminou em narrativas capazes de convencer qualquer ‘cidadão de bem’ de que sua obrigação cívica, neste dia 13, era mesmo ir para as ruas.” (Bia Barbosa e Helena Martins, na Carta Capital: http://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/o-papel-da-midia-nas-manifestacoes-do-13-de-marco)

Vale lembrar, é claro, que “Cidadão de Bem” era o nome do jornal da Klu Klux Klan, organização racista que perpetrou inúmeras atrocidades contra minorias estigmatizadas nos EUA. É bastante bizarro ver uma mídia já condenada na Justiça por corrupção – como a Globo, notória sonegadora de impostos – nesta cruzada contra a corrupção onde acirra os ânimos dos “cidadãos de bem” para que destruam sem misericórdia o governo de Dilma Roussef, re-eleita com mais de 54 milhões de votos nas últimas eleições presidenciais.

Distopia que denuncia e satiriza o Totalitarismo, "1984" de George Orwell não era um manual de instruções

Distopia que denuncia e satiriza o Totalitarismo, “1984” de George Orwell não era um manual de instruções…

A desinformação propagada pela mídia corporativa tem que “responder”, inclusive criminalmente, pelos intentos golpistas e dogmaticamente partidários com que promove suas manipulações de massas de manobra e suas lavagens cerebrais ideológicas. A mídia vem agindo sobre os telespectadores um pouco como as teletelas de 1984, por toda parte espalhadas  na sociedade totalitária gerida pelo Partido do Grande Irmão, no romance de George Orwell (e bem sabemos que 1984 era um alerta em formato distopia, e não um manual de instruções!).

A mídia têm muita responsabilidade na “banalidade do mal” que já está entre nós: o de fascistas saindo do armário, defendendo abertamente o golpe de estado através da intervenção militar, a pena-de-morte pra “vagabundo”, a disseminação da posse das armas de fogo (tendo como modelo a trigger-happy-land dos Yankees), a diminuição da maioridade penal (que incidirá, é claro, somente sobre pobres e favelados…), o avanço dos presídios privados, a entrega do pré-sal aos interesses do capital internacional dos oilmen etc. Também há culpa no cartório dos paladinos da mídia na atual onda de rubrofobia, satirizada e criticada por Alceu Castilho: é uma nova encarnação da idiotia do fascismo tupiniquim, que como um touro irracional começa a atacar com agressividade qualquer pano vermelho.

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“O rubrofóbico tem intolerância aos comprimentos de onda mais longos (entre os visíveis): a cor vermelha. Fica agressivo ante à possibilidade – que ele imagina muito concreta – de a bandeira brasileira ser tingida dessa forma. Nesses poucos segundos ele decide que os jovens na Esplanada dos Ministérios, todos do movimento negro, são petistas; e que, portanto (raciocina ele), devem portar alguma assinatura cromática. “A nossa bandeira nunca será vermelha”, grita. E cospe no diretor de Combate ao Racismo da União Nacional dos Estudantes (UNE), Rodger Richer. Cospe.

A cena ocorreu no domingo (13/03/2016). E não foi a única em Brasília. Outros ativistas do movimento negro foram vítimas dessa violência específica – conjugada com o mais puro racismo. E não seria preciso mais nenhum exemplo para caracterizar a consolidação desse formato brasileiro de fascismo explícito: uniformizado (com usurpação das cores verde e amarela), uma raiva taurina de determinados oponentes (filiados a determinado partido, negros, usuários de camisetas vermelhas), um ódio espumante, a disposição à violência e à exclusão. Gente perigosa, portanto.

Esse tipo de fascismo afirmou-se em 2013, durante as manifestações que começaram reivindicando passe livre e acabaram como ponto de encontro da extrema direita. Vem se consolidando em duas frentes: a violenta e a patética. A face violenta é intrínseca, fruto de uma intolerância conhecida em setores mais extremistas das torcidas de futebol. A face patética comporta cenas que seriam risíveis, não trouxessem embutidas essa violência discriminatória e sem limites. (…) É conveniente para alguém que essa insanidade se alastre?” (CASTILHO, A. Rubrofobia: fascismo brasileiro consolida sua intolerância bruta a uma cor, In: Outras Palavras)

Quem é que ajudou a chocar o ovo da serpente deste fascismo, hoje em disseminação, senão esses oligopólios midiáticos, repletos de indignação seletiva, incitadores de linchamentos, prontos ao discurso de ódio, à difamação e à conclamação à caça-às-bruxas quando se trata de derrotar adversários políticos? Nesta perspectiva, não vejo muita diferença qualitativa entre âncoras como Raquel Sherazade e Datena, que são abertamente facínoras-de-direita, e os William Bonners deste mundo, muito polidos e engravatados em seu golpismo elitista de burgueses bem aprumados. Uma das jornalistas independentes mais relevantes e mais lidas do Brasil, Cynara Menezes – a Socialista Morena – escreve:

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“Há cinco anos venho alertando para o perigo do crescimento da extrema-direita no Brasil. A concepção de que ‘contra o PT vale tudo’ levou os meios de comunicação a alimentarem (de)formadores de opinião que, sob a desculpa da liberdade de expressão, se acham no direito de dizer barbaridades e incentivar o ódio à esquerda. Colunistas, articulistas e apresentadores reaças ganharam espaço na TV, em revistas e nos jornais. Todos eles exemplares da direita furiosa, que espuma pela boca. Perfeitos imbecis perfeitamente incorretos que acham normal justiceiros atarem menores infratores a postes ou que se acham no direito de perseguir minorias e defender as torturas na ditadura militar. São estes ‘exemplos’ que estão influenciando nossos jovens e é isso que está se refletindo nas ruas e nas redes sociais, infestadas de agressores.

A oposição, representada sobretudo pelos tucanos, uma espécie de alterego da velha mídia, faz o mesmo desde 2010, quando José Serra, desesperado para ganhar a eleição, se aliou a fundamentalistas religiosos que acusavam a então candidata Dilma Rousseff de ser ‘abortista’. No Congresso, sedentos pela volta ao poder, os tucanos se articularam com o que há de pior na política brasileira: os mesmos fundamentalistas religiosos com suas pautas da Idade Média e também os ruralistas, aquela gente que quer exterminar os índios e nos empurrar agrotóxicos e transgênicos goela abaixo. Sempre oportunista, o PSDB não teve pruridos em se juntar até mesmo ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o fundamentalista religioso homofóbico que tem contas na Suíça.

Mas, como adverti, chocar o ovo da serpente é complicado, porque periga a cobra se voltar contra o criador. Cría cuervos y te sacarán los ojos, diz um velho ditado espanhol que gosto de lembrar. Cria corvos e te arrancarão os olhos. Não deu outra. No domingo 13, o candidato derrotado Aécio Neves, o governador Geraldo Alckmin e outros políticos do PSDB foram escorraçados da avenida Paulista aos gritos de “ladrão, ladrão” pelo mesmo grupo que ajudaram a insuflar. Na quarta-feira 17, mesmo liberando a Paulista para os manifestantes, ao contrário de reprimi-los, como fez com os estudantes das escolas ocupadas, o secretário de segurança de Alckmin teve seu carro chutado e acabou expulso da manifestação.

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Desde que se anunciou a indicação do ex-presidente Lula para a Casa Civil, os ânimos se acirraram ainda mais. Nos telejornais, as emissoras regem as manifestações. Na noite em que foi divulgado que Lula aceitara o convite para integrar o governo, o canal GloboNews começou a abertamente convocar pessoas para irem às ruas. No domingo anterior, em editorial à imagem e semelhança dos publicados às vésperas do golpe de 1964, o jornal O Estado de S.Paulo dizia: “Basta!” E convocava os “brasileiros de bem” a ir às ruas para ajudá-los a derrubar a presidente legitimamente eleita.

O resultado disso tem se mostrado diante das câmeras das próprias emissoras: pessoas sendo atacadas pelos tais “brasileiros de bem” apenas por usarem camisetas vermelhas ou se dizerem favoráveis ao PT, a Lula e a Dilma. Um rapaz de bicicleta vermelha foi agredido na avenida Paulista por “ter cara de petista”; o mesmo aconteceu com um casal de namorados; também em São Paulo, um menino de 17 anos recebeu tapas na cabeça e por pouco não foi espancado por dizer “não vai ter golpe”; em Caxias do Sul, um grupo de manifestantes pró-impeachment acossou um rapaz de camiseta vermelha, acompanhado de uma mocinha, na parede; e, em Brasília, os verde-amarelos gritavam “Comunistas!” “Desocupados!” “Vagabundos!” para os apoiadores de Dilma e do ex-presidente.

Vivemos dias tenebrosos. Ninguém pode prever o que será de nosso país. Empenhado em prender Lula e derrubar Dilma, o consórcio mídia-oposição parece disposto a continuar chocando o ovo da serpente, sem a menor responsabilidade para com o futuro do Brasil. Amanhã, dia 18 de março, haverá manifestação da esquerda em todo o país. Os reacionários não foram perturbados em seu protesto do dia 13 e puderam pedir “intervenção militar” e outros absurdos tranquilamente. Saberão fazer o mesmo, respeitar a presença maciça da esquerda, vestida de vermelho, na rua? E a oposimídia, saberá controlar seus fascistas de estimação ou eles estão realmente fora de controle? Quem é mesmo que está querendo transformar o Brasil numa Venezuela, afinal?

O mais preocupante é saber que, se algo de mais grave acontecer, nem a mídia nem a oposição serão capazes de admitir sua parcela de responsabilidade no clima ruim que está nas ruas. Sempre poderão alegar que é “culpa do PT”. (MENEZES, Cynara. Mídia e oposição perderam o controle de seus fascistas de estimação. Por Socialista Morena / Cynara Menezes. [http://bit.ly/1R88BIQ])

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Este desserviço cotidiano perpetrado pela mídia contra a mente dos brasileiros submetidos ao seu besteirol imbecilizante e às suas manipulações ideológicas reducionistas e interesseiras talvez explique o grau de analfabetismo político que manifesta-se por aí, nas ruas e nas caixas de comentários. Que está lá, inclusive, em uma coluna da Folha De S. Paulo, onde o inacreditável “líder mirim da Direita”, Kim Kataguiri, compara a massa de brasileiros na Avenida Paulista com peças necessárias para montar o Super-Robô dos Power Rangers:  “Com seis anos, eu lutava contra monstros que eram derrotados e voltavam gigantes. Lula, depois de ter sido derrotado no mensalão, voltou ainda maior no petrolão. Os Rangers uniam-se e fundiam seus veículos para compor o robô gigante. Precisamos de algumas centenas de milhares de brasileiros para montar o nosso.” (FSP)

Beira o inacreditável que o, por assim dizer, “movimento Fora Dilma” possa levar a sério, e com credulidade e obediência, toda essa imaturidade e idiotismo político que vaza da boca de Kataguiris e congêneres. E o mais surpreendente é que um jornalão como a Folha de São Paulo desses permita-se o mico editorial de ter entre seus colunistas um “pensador político” (digamos assim…) deste nível – sabemos que ele não é exatamente o novo Maquiavel ou Marx… – lado a lado com alguns dos melhores pensadores do Brasil contemporâneo, como Guilherme Boulos e Vladimir Safatle. 

Há muitos exemplos tragi-cômicos desta situação: uma pesquisa realizada por Pablo Ortellado e Esther Solano, na Avenida Paulista, durante a mega-manifestação do dia 15 de Março de 2015, revelou as seguintes “opiniões”, sintomáticas do quadro endêmico de desinformação midiática e analfabetismo político de certa fatia dos paulistas (aquela gente que tomou  conta, ruidosamente, uniformizados com camisetas da CBF e agraciados com o filé mignon da FIESP, bradando contra os “petralhas” na Av. Paulista em 15/03/2015 e em 13/02/2016):

Analfabetismo Político

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Um bom comentarista do quadro desta “classe mérdia” que se aferra a seus privilégios e deseja ser elite é, novamente, o presidente do Ipea, Jessé Souza [http://bit.ly/1pk7leB], que teve um perfil interessante traçado pela seguinte matéria da Geledés – Instituto da Mulher Negra:

Os últimos seis meses foram de tormentas para o sociólogo potiguar Jessé Souza, 55 anos. Sua obra – até então festejada nos redutos acadêmicos – tem saído das estantes direto para as mãos daqueles que procuram uma explicação para o caos econômico e político em que se meteu o país. O que diz nem sempre agrada. Algumas polêmicas rendem réplicas e tréplicas nas páginas dos jornais, acrescidas de golpes baixos nas redes sociais e menções nas apaixonadas rinhas políticas da era Lava Jato. “Até agora, só me xingaram. Estou à espera de um debate de verdade”, provoca o autor de A tolice da inteligência brasileira, A ralé brasileira e de Os batalhadores brasileiros.

Entre suas teses que mexem com o juízo dos detratores está a de que o maior problema do Brasil não é a corrupção – como proclamam multidões em fúria, alguns decibéis acima do normal –, mas a desigualdade. Séculos de convivência com diferenças oceânicas entre ricos e pobres teriam naturalizado a violação de direitos mais básicos e o sistema de privilégios para o 1% de endinheirados. Nada de novo, não fosse o desdobramento de sua afirmação.

Para Souza, paralelo às redes de indignação o que pulsa é o desejo de desmanchar políticas sociais nascidas de diminuir as distâncias entre os brasileiros. Não vem de hoje. Foi assim com Vargas, com Jango e agora com Dilma. As classes médias, afirma, se rendem ao discurso moralizador sem perceber que estão sendo usadas pelos donos do capital. Julgando se diferenciar dos corruptos, nada mais estariam fazendo do que o jogo dos grupos que reivindicam um Estado que funcione a seu favor. Ao bater as panelas da moralidade, entende, os médios alimentam a ilusão de que estão mais próximos das elites, com as quais estabelecem um misto de admiração e ressentimento. “É uma relação sadomasoquista”, resume. (GELEDÉS, Leia a matéria completa em: Para Jessé de Souza, classe média é sadomasoquista ao apoiar elites @geledes on Twitter | geledes on Facebook)

Já passou da hora dos movimentos sociais focarem sua ação direta também na urgente necessidade de uma revolução nesta mídia plutocrática e estupidificante. Ela gera em seu público uma atitude de gangue e faz mal ao debate cívico nacional tornando a ágora repleta de papagaios acríticos de Constantinos e de Diogos Mainardis, de Olavos de Carvalho e de Lobões esbravejantes. A mídia golpista é uma sórdida cúmplice de nosso quadro de analfabetismo político grotesco. E é como manifestação de extremo analfabetismo político que vejo muitas das atitudes daqueles que lançam-se, fanáticos, à campanha do impeachment de Dilma Rousseff, com uma visão curta, imediatista e encegada por uma histeria midiaticamente condicionada.

Como se Dilma fosse um novo Collor – uma falsa analogia e péssima igualação histórica entre cenários completamente diferentes. Para começar, quantos brasileiros saíram às ruas para defender Collor no auge do movimento civil por sua destituição? Nem mesmo cem gatos pingados. Em 18 de Março de 2016, porém mais de 1 milhão e 500 mil brasileiros repudiaram nas ruas o golpismo paraguaiano contra Dilma e celebraram a nomeação de Lula como Ministro da Casa Civil.

Mc Sofia no palco Canto da Democracia em São Paulo!

MC Sofia, de 11 anos, faz um rap no palco @ Canto da Democracia, em São Paulo, 18 de Março de 2016, Avenida Paulista.

Recife

200 mil nas ruas em Recife/Pernambuco. 18/03/2016.

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18/03/2016: “Canto da Democracia” leva 500 mil pessoas à Av. Paulista

VÍDEO RECOMENDADO:  Juca Ferreira, Ministro da Cultura, recomenda o vídeo da Mídia NINJA: “Alta potência. O coro das ruas em defesa da democracia e do resultado das urnas.” ‪#‎VemPraDemocracia‬ASSISTA JÁ >>> Mergulhe em cenas do histórico dia 18 de Março de 2016, quando éramos mais de 1,5 milhão de brasileiros nas ruas, e ouça as palavras de Lula proferidas perante mais de 500 mil cidadãos na Avenida Paulista (não, neste dia não havia nenhum vidiota de joelhos diante do Pato da Fiesp…)

Muitos daqueles que querem o impeachment o fazem sem nem parar para pensar se há qualquer prova de desvio de verba pública ou dano ao bem comum praticado pela presidenta (não, não há nada além das comuníssimas “pedaladas fiscais”). Esbravejam de modo acéfalo em prol do impedimento, sem perceberem que são títeres de uma corja elitista de corvos corruptos, que deseja chegar ao poder e parar as investigações em que estão profundamente comprometidos: Aécio, Cunha, Serra, Renan, Temer… é esta a aristocracia ideal com a qual vocês sonham, ó Coxanato que papagueia o Califado Midiático? É essa a corja que vocês querem vocês que nos (Des)governe?!? Em texto publicado na Folha de São Paulo,  13/03/2016, Lindbergh Farias bradou, em tom destoante do establishment do jornal, que o “Golpe está fadado ao lixo da história”. Ele argumentava:

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“A peça de impeachment contra Dilma, que o Brasil inteiro viu Eduardo Cunha acolher por pura vingança, é incapaz de citar um único fato desabonador de participação direta da presidente. É público e notório, e até os juristas defensores do impeachment admitem envergonhados, inexistir comprovação de dolo ou participação direta da presidente em quaisquer crimes. (…) Dilma não cometeu crime e é muito mais honesta que seus algozes. O que existe são denúncias vazias em torno das tais “pedaladas fiscais”. Caso pedaladas acarretassem perda de mandato, a maioria dos governadores e prefeitos de todos os partidos igualmente seria cassada. Foi e é prática corriqueira.

(…)  Participei ativamente da campanha pela destituição de Fernando Collor. Posso testemunhar que a proposta de impeachment só prosperou após serem colhidas, por uma CPI Mista do Congresso, provas documentais e testemunhais de contas fantasmas administradas por PC Farias, que, entre outros delitos, repassava dinheiro para cobrir gastos pessoais, inclusive para subsidiar despesas da residência oficial. Contra Dilma não há nada. Pode-se discordar de seu governo, mas ninguém contesta sua honestidade. Não existem, portanto, parâmetros históricos de comparação entre as campanhas de impeachment de Collor, em 1992, e as tentativas canhestras de deposição de Dilma.

BolsomitosNa época, o Brasil uniu-se para afastar Collor. As provas eram claras para todos. A campanha do impeachment de hoje divide tragicamente o país, criando uma crise política permanente e paralisando a economia. Decidiu-se primeiro que Dilma não pode governar. Buscou-se depois um pretexto qualquer para o impeachment. Neste domingo (13/03/2016) ocorrerão manifestações em todo o Brasil. Respeito todas por formação democrática. Discordo democraticamente, todavia, de quem não se constrange em participar de passeatas com Bolsonaros da vida, que em pleno século 21 defendem a volta à ditadura.” (Lindbergh Farias, Folha de São Paulo)

 

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O golpe midiático-jurídico tem até seu super-herói – e não me refiro aos Power Rangers de Kim Kataguiri. Um raio-X do “herói” das elites econômicas golpistas – que conseguiram fazer com que sua visão-de-mundo e seu “anjo exterminados” fosse compartilhada por vastas massas de telespectadores e leitores crédulos – é oferecido por Luis Felipe Miguel, professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde edita a Revista Brasileira de Ciência Política e coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê:

“O juiz Sérgio Moro, por mais que em seus sonhos vista a fantasia de Mussolini de Curitiba, é apenas uma engrenagem. É um pobre coitado que fica feliz de tirar fotos ao lado de João Doria Jr. Ele é tão útil, e por isso assumiu uma posição de protagonista, por causa de sua completa falta de limites, de sua amoralidade, de seu desprezo olímpico pelos direitos; em suma, por causa de sua falta de compostura. Os tempos mudaram, as práticas são outras, mas Moro cumpre hoje uma função similar à de um delegado Fleury durante a ditadura. É o mastim que faz alegremente, balançando o rabo, o trabalho mais sujo.

O escandaloso grampo que atingiu a presidente da República, com o compadrio escancarado com a mídia que também foi revelado de forma indiscutível, mostra a depreciação final da magistratura em benefício do golpe. Moro não age como juiz, age como golpista e desistiu de fingir que não é assim. O diálogo ilegalmente gravado de Dilma com Lula não prova nada, exceto o desespero da direita com a nomeação do ex-presidente para a Casa Civil e sua vontade de acelerar o golpe. A mídia, sendo a mídia que é, não se dá ao trabalho de apresentar interpretações minimamente equilibradas. É a maquinaria do golpe em andamento. Polícia e judiciário de um lado, a mídia de outro, a massa dos novos direitistas tocando fogo nas ruas, tudo para forçar uma solução apressada, contrária à Constituição e antidemocrática para a crise.

O golpe já está na rua. É hora de ver qual será a resposta das mulheres e dos homens comprometidos com a democracia. Para a esquerda, vale o recado: é possível condenar o governo Dilma, é possível criticar Lula por todos seus vacilos e recuos. Mas se o governo cair e se Lula for vítima do cerco ignóbil armado contra ele, quem dança é a esquerda brasileira inteira, que será inviabilizada como projeto de poder por décadas. Quem dança é o horizonte de uma sociedade igualitária, é a ideia de democracia como poder do povo sem tutelas, é a noção de que as liberdades devem ser protegidas para todos. É hora de focar no que é essencial, é hora de barrar o golpe.” (Luis Felipe Miguel, É Hora de Barrar o Golpe)

Moro GOlpista

LulaEm sua “edição especial da crise”, lançada em 16 de Março de 2016, a revista Carta Capital trouxe em sua capa o seguinte: Lula e o complô – Ameaçado de prisão sem provas, o ex-presidente reage ao cerco. Mino Carta explica o que quis dizer com o termo complô em matéria onde pinta a figura de Sérgio Moro como peão fundamental do xadrez político orquestrado pela “mídia do pensamento único, porta-voz da minoria, transformada em partido de oposição”:

“Moro foi admiravelmente atendido pela polícia para montar um show carnavalesco que envergonha o País aos olhos do mundo e exibe, ao cabo, a ausência de uma Suprema COrte pronta a impor o império da lei. Duzentos policiais, armados até com metralhadoras, invadiram às 6 da manhã de sexta-feira, 04 de Março de 2016, a residência do ex-presidente da República e o Instituto Lula, e não surpreende que as reportagens dos jornalões tivessem chegado aos locais meia hora antes enquanto o helicóptero da Globo sobrevoava a área. Nada de espanto, de todos os pontos de vista: o complô é midiático-policial, e Moro aí está para atiçar o fogo. (…) O poder corrompe, a fama também. Ao longo da Lava Jato, Moro empolgou-se e engajou-se em uma operação bem maior do que a própria sob seu comando. Endeusado pelos golpistas, santificado em todas as instâncias midiáticas, Moro tripudia a se valer da insensatez geral, nutrida pela crença de que a verdade é aquela que nos convém.

(…) Está claro que o escândalo da Petrobras não foi inventado e é bom que os corruptos sejam exemplarmente punidos. Ofende os espíritos democráticos, entretanto, e exibe a precariedade e o descalabro da situação, a omissão a respeito das falcatruas anteriores, cometidas às claras, inclusive na própria Petrobras, pelo governo tucano… que tanto apraz à casa-grande. De todo modo, foi um show de truculência encenado pela Polícia Federal na sexta-feira (04/03) entre São Bernardo do Campo e as alturas do Ipiranga. Programa tão bem preparado, esmerilhado nos detalhes infinitesimais e enfim levado a cabo na exasperação magistral de uma violência adequada à caça de um Dillinger ou de um Bin Laden…” (MINO CARTA, A Origem do Complô, Carta Capital #892, p. 20 – 24)

Moro Juiz 2

Post do Iconoclastia Incendiária: “O Juiz Moro já esteve presente na mídia antes, na verdade em um dos maiores escândalos de corrupção do Brasil, que foi a evasão de divisas para o exterior no famoso caso do BANESTADO. Foram 520 BILHÕES de reais evadidos ao exterior, o que deu ao Banestado o recorde mundial de lavagem de dinheiro, em toda a história da lavagem de dinheiro do mundo. Mas por que esse caso não repercutiu na imprensa? Porque justamente eram acusados muitos dos principais veículos de comunicação de massa (Plim, Plim). E qual a participação de Moro? Pouca coisa: Ele era apenas o juiz responsável por todo ̶o̶ ̶a̶r̶q̶u̶i̶v̶a̶m̶e̶n̶t̶o̶ da operação. Na época ele foi até suspeito por sua estranha condução no caso, mas… Pizza, né?”

Veja Lula

Capa_Veja

Capas da Veja revelam facetas de uma longa batalha contra Lula. As predileções tucanas da publicação são também notórias, não importando como fatores desabonadores a relação do Tucano em Questão com o narcotráfico e os “helicocas”, muito menos com a corrupção em Furnas:

Veja Aecio

ilegalidade dos procedimentos louvados pela imprensa golpista em sua cruzada anti-petista tornou-se mais explícita do que nunca em Março de 2016. Eliane Brum soube ler bem a gravidade da ocorrência com o ex-presidente Lula, conduzido à força ao aeroporto de Congonhas, para depor na Polícia Federal, numa cena armada para o showbiz midiático satisfazer seu sadismo, como se fossem corvos na carniça:

“O que aconteceu naquela sexta-feira feira, 4 de março, em que Lula foi tirado de casa por policiais federais e levado para o Aeroporto de Congonhas, foi grave. Muito grave. O juiz e os procuradores deveriam ser os primeiros a querer evitar de todos os modos essa simbologia. A imagem de Lula preso, para o Brasil inteiro, não mostra que a lei vale inclusive para ícones populares e ex-presidentes. Mas (…) que o abuso e a violação de direitos, cuja maior representação são os milhares de presos sem julgamento atirados em penitenciárias medievais, assim como os negros humilhados pelas polícias nas periferias, são a regra para todos – ou quase todos.

O que o juiz e os procuradores estimularam nesta cena foi a vontade de linchamento. Porque levar alguém para depor dessa maneira, produzir esse tipo de imagem, também é um tipo de linchamento. E foram aplaudidos por parte da população por isso, porque atenderam à sanha, legitimaram a vontade de vingança ao dar-lhe roupagens de lei. Quando o rito da lei é substituído pela vingança, e essa substituição é permitida por quem é um agente da lei, é muito grave. É exatamente em períodos tão delicados da história que a lei precisa ser interpretada de forma mais conservadora. E seus agentes precisam ter a grandeza de abrir mão das vaidades pessoais e reprimir as paixões que também os habitam.

Sérgio Moro e os procuradores, assim como os policiais federais, não são heróis nem vingadores. São funcionários públicos. E é como funcionários públicos que precisam se comportar se quiserem estar à altura do cargo. Deles só se espera que façam bem – e discretamente – o seu trabalho. E o que dizer dos promotores do Ministério Público de São Paulo, pedindo a prisão de Lula a três dias da manifestação de domingo? E sem nenhuma justificativa razoável, para além das confusões “filosóficas” que viraram piada nas redes sociais, quando, entre outras bobagens, confundiram Hegel com Engels? Importa perceber que a manchete, com foto, foi garantida: “MP de São Paulo pede a prisão de Lula”. E a manchete é mais forte do que os editoriais e as matérias internas. Qual é a verdade que se fabrica ali, e que tem sido repetida em cada esquina do país? Lula é culpado.

Mas até ser julgado e condenado, Lula não é culpado. Ou a lei não vale. E, atenção: se a lei não vale para Lula, também não vale para você ou eu. (…) Acossado, Lula fez o que melhor sabe fazer, aquilo que o tornou um dos presidentes mais populares da história. Lula foi Lula, o Lula que fala a linguagem do povo porque compreende o povo como poucos. ” (ELIANE BRUM, no EL PAÍS Brasil[http://bit.ly/1UtBqnM])

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O termo “golpismo” sintetiza bem este complô de forças que pretende violar a lei e usar da truculência para forçar a queda de um governo, quando não existe nenhuma evidência, fato ou escândalo que dê base sólida a um impeachment legítimo de Dilma Rousseff. O repúdio ao impeachment já é uma força social de magnitude gigantesca – como se viu nas ruas em 18 de Março de 2016 – e é referendada pela maioria dos governadores estaduais. Os 9 governadores do Nordeste brasileiro já publicaram um manifesto em que repudiaram a intentona golpista e desqualificaram o processo de impedimento da presidenta re-eleita, em 2014, com 54 milhões e 501 mil votos:

Eleilçoes 2014
9 GOVERNADORES DO NORDESTE PUBLICAM MANIFESTO EM QUE REPUDIAM A INTENTONA GOLPISTA E O IMPEACHMENT:http://bit.ly/1pz7knz

“Diante da decisão do Presidente da Câmara dos Deputados – Eduardo Cunha – de abrir processo de impeachment contra a Exma Presidenta da República, Dilma Roussef, os Governadores do Nordeste manifestam seu repúdio a essa absurda tentativa de jogar a Nação em tumultos derivados de um indesejado retrocesso institucional. Gerações lutaram para que tivéssemos plena democracia política, com eleições livres e periódicas, que devem ser respeitadas. O processo de impeachment, por sua excepcionalidade, depende da caracterização de crime de responsabilidade tipificado na Constituição, praticado dolosamente pelo Presidente da República. Isso inexiste no atual momento brasileiro. Na verdade, a decisão de abrir o tal processo de impeachment decorreu de propósitos puramente pessoais, em claro e evidente desvio de finalidade. Diante desse panorama, os Governadores do Nordeste anunciam sua posição contrária ao impeachment nos termos apresentados, e estarão mobilizados para que a serenidade e o bom senso prevaleçam. Em vez de golpismos, o Brasil precisa de união, diálogo e de decisões capazes de retomar o crescimento econômico, com distribuição de renda.”

ASSINAM:
Robinson Farias (PSD – Rio Grande do Norte)
Flavio Dino (PCdoB – Maranhão)
Ricardo Coutinho (PSB – Paraiba)
Camilo Santana (PT – Ceara)
Rui Costa (PT – Bahia)
Paulo Câmara (PSB – Pernambuco)
Wellington Dias (PT – Piaui)
Jackson Barreto ( PMDB – Sergipe)
Renan Filho (PMDB – Alagoas)

Basta olhar tanto para a “linha sucessória” da presidenta Dilma – Michel Temer, Eduardo Cunha, Renan Calheiros… – quanto a comissão do impeachment para ficar evidente que não se trata, no caso do “Fora Dilma!”, de qualquer legítimo movimento anti-corrupção, e isso pelo simples fato de que o processo que quer destituir Dilma está sendo diretamente capitaneado por réus em crimes de desvio de dinheiro público. O Brasil encontra-se na posição bizarra em que bandidões não param de apontar o dedo acusador e de gritar “pega ladrão!”, no intento óbvio de serem brindados com a impunidade das pizzas que a grana sabe comprar.

 Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva estão sendo estigmatizados como bandidos e corruptos, merecedores de prisão, “petralhas” e coisa pior, mas é preciso muita cegueira midiática e indignação seletiva para não perceber que os acusadores são figuras cheias de fichas sujas, e cuja impunidade, após tantos crimes cometidos, beira o inacreditável:

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Jornal GGN – De acordo com as prestações de contas entregues ao Tribunal Superior Eleitoral, 40 dos 65 deputados federais que foram indicados para integrar a comissão do pedido de impeachment receberam um total de R$ 8,9 milhões em doações de empresas investigadas pela Operação Lava Jato durante a campanha eleitoral de 2014.

Calma

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“Ignorar desvio da merenda é exemplo da seletividade da mídia”, diz Boulos. “Escândalos como o desvio de verbas para a merenda escolar pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) não são tratados com a mesma cobrança como acusações sem provas envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Operação Lava Jato.” (BOULOS, Brasil de Fato. )

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Cunha
A blindagem midiática, a indignação seletiva, a cruzada de caça às bruxas, a rubrofobia e outros fanatismos, tudo parece deixar o Brasil em situação de barril de pólvora – e sem escassez de fagulhas. O futuro – e não apenas o climático – será repleto de incêndios. Neste labirinto, Eliane Brum é uma das vozes que mais vale a pena ouvir com atenção e cuja lucidez é preciosa para que pesemos bem escolhas e ações nesta encruzilhada histórica.

Em 14/06/2016, em seu artigo para o El País, ele mais uma vez tematizou a crise de representação política que têm nos conduzido às beiras da convulsão social e das conflagrações civis de uma guerra cotidianizada:

“Há uma enorme descrença nos políticos e nos partidos tradicionais, este já é um lugar comum. Mas é importante perceber que a esta descrença se contrapõe não mais razão, mas uma vontade feroz de crença. Quando os dias, as vozes e as imagens soam falsas, e a isso ainda se soma um cotidiano corroído, há que se agarrar em algo. Quando se elege um culpado, um que simboliza todo o mal, também se elege um salvador, um que simboliza todo o bem. A adesão pela fé, manifeste-se ela pelo ódio ou pelo amor, elimina complexidade e nuances, reduz tudo a uma luta do bem contra o mal. E isso, que me parece ser o que o Brasil vive hoje, pode ser perigoso. Não só para uma ditadura, como é o medo de alguns, mas para que se instale uma democracia de fachada, como já vivemos em alguns aspectos.

Uma democracia demanda cidadãos autônomos, adultos emancipados, capazes de se responsabilizar pelas suas escolhas e se mover pela razão. O que se vê hoje é uma vontade de destruição que atravessa a sociedade e assinala mesmo pequenos atos do cotidiano. O linchamento, que marca a história do país e a perpassa, é um ato de fé. Não passa pela lei nem pela razão. Ao contrário, elimina-as, ao substituí-las pelo ódio. É o ódio que justifica a destruição daquele que naquele momento encarna o mal. Isso está sendo exercido no Brasil atual não apenas na guerra das redes sociais, mas de formas bem mais sofisticadas. Isso tem sido estimulado. Quem acha que controla linchadores, não sabe nada.

Talvez o mais importante, neste momento tão delicado, seja resistir. Resistir a aderir pela fé ao que pertence ao mundo da política. Fincar-se na razão, no pensamento, no conhecimento que se revela pelo exercício persistente da dúvida. É mais difícil, é mais lento, é menos certo e sem garantias. Mas é o que pode permitir a construção de um projeto para o Brasil que não seja o da destruição. Quem sofre primeiro e sofre mais com a dissolução em curso são os mais pobres e os mais frágeis. É preciso resistir também como um imperativo ético.

Na política, mesmo os crentes precisam ser ateus.” (ELIANE BRUM)

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Concordo plenamente com a Eliane que é perigoso o fanatismo: “a adesão pela fé, manifeste-se ela pelo ódio ou pelo amor, elimina complexidade e nuances, reduz tudo a uma luta do bem contra o mal.” Em situações de tamanha polarização, é um perigo para qualquer um de nós que passemos a acreditar no reducionismo estúpido do maniqueísmo, elegendo de modo absoluto, para além das eleições, nossos “salvadores-da-pátria” e nossos demonizados “inimigos públicos”. É preocupante que tanta gente enxerguem soluções sociais e políticas legítimas em sua submissão a líderes populistas, em especial quando se trata de figuras abominavelmente racistas, machistas, homofóbicas e autoritárias como Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, Silas Malafaia e outros.

Porém, também precisamos pôr o dedo na ferida e falar também dos fanatismos midiáticos, da fé que as elites insuflavam em certos heróis da vez, como o “Super-Homem” Moro, pronto a ser adorado por aqueles que acham que foi um magnum opus da filosofia política a analogia que Kataguiri estabeleceu entre o “Fora Dilma” e os Power Rangers… Talvez Eliane Brum dissesse que não precisamos de submissão acéfala a herói algum, que Dilma e Lula também estão aí para serem criticados, que os ídolos da direita, do centro e da esquerda merecem ser todos expostos à luz do dia quando tiverem pés de barro…

O problema é aceitar passivamente – o que sou cada vez mais incapaz de fazer, tamanha a revolta perante a truculência e a estupidez dos ataques ao PT – a lógica do estigma e da perseguição exterminadora, de teor fascista, que tem ganhado terreno entre nós. Contra o golpe midiático-jurídico e sua intentona de forçar, na marra, aqueles que não foram eleitos pelo povo, defendo o direito pleno, conquistado nas urnas, de Dilma Rousseff seguir governando como presidente eleita – pois nada justifica seu impeachment. Nisto, concordo com André Singer e de José Ribamar Bessa Freire:

Singer

“No seu tratado clássico “A Arte da Guerra” (séc.IV a.C.), Sun Tzu diz que todas as guerras são sempre de conquista, mas os soldados que estão na linha de frente não podem saber disso. Os senhores da guerra camuflam seus interesses privados e buscam elevar o moral da tropa, convencendo os combatentes de que a batalha é por nobres ideais coletivos.

A invasão do Iraque em 2003 é um bom exemplo ilustrativo. Um soldadinho americano jamais se arriscaria em assassinar muçulmanos e bombardear cidades e alvos civis correndo o risco de morrer, se soubesse que estava defendendo interesses privados do complexo industrial-militar. Por isso, os senhores da guerra tem de convencê-los de que lutam pela liberdade, pela democracia, contra o terrorismo e não pelo lucro de empresas de petróleo e da indústria armamentista.

No caso do Brasil, muitos manifestantes engajados sinceramente na luta contra a corrupção jamais sairiam às ruas se soubessem que a verdadeira guerra não é contra a corrupção, é pelo poder. O jogo se dá no campo político, não no da moralidade e da justiça.

Corrupção rotativa

Muitos manifestantes bem intencionados acreditam, em sua maioria, que estão lutando para sanear o país, quando involuntariamente fazem o jogo de quem não quer acabar com a corrupção, mas ocupar o executivo para exercitá-la. Temos a corrupção do PSDB ontem no poder federal e presente em alguns estados importantes, a neocorrupção de agentes do PT hoje no poder, e a corrupção do PMDB sempre no poder. Todas elas devem ser investigadas, punidas e combatidas e foi essa a esperança criada pela Operação Lava-Jato, comandada pelo juiz Sérgio Moro.

Ele começou, como era de se esperar, investigando com muita competência as propinas que envolveram os neocorruptos, que estavam em plena atividade. Pela primeira vez na história do Brasil, megaempresários foram presos, ex-ministros, senadores, deputados, com aplausos de toda a população. No entanto, a Lava-Jato avançava seletivamente, criando a desconfiança de que o alvo era o impeachment da presidente eleita, exigido pelos que querem ocupar o seu lugar antes de novas eleições, muitos deles com fichas sujas.

Moro, que parecia isento e sensato, tomou duas medidas, que evidenciaram a politização partidária do Judiciário: decretou a condução coercitiva do ex-presidente Lula com a mídia previamente notificada e divulgou as gravações de áudios de telefonemas interceptados pela Policia Federal.

Nos dois casos, Moro jogou para a mídia, que deu ampla divulgação e reproduziu conversas em imagens repetidas à saciedade pela tv, turbinando assim as manifestações de rua. Os vazamentos seletivos se concentraram na presidente Dilma, que sequer é investigada, e em Lula, contra quem nada foi até agora comprovado, divulgados com destaque pela mídia, que silenciou nos demais casos. E os outros? Alguém bateu panela contra Cunha?  Por quem os sinos dobram? Por quem as panelas batem?

Qual a contribuição à luta contra a corrupção a revelação de conversas privadas, recheadas de palavrões usados por qualquer leitor, que soam como fofocas, são retiradas de seu contexto e reinterpretadas com fins escusos? Serve apenas para acirrar o ódio e jogar lenha na fogueira. O JM – Jornal da Matraca – dedicou quase dois terços do espaço para satanizar Lula e Dilma.” (Nem Tudo Que Reluz É Moro @ Combate Racismo Ambiental)

Ainda que ciente do perigo que há em todo processo de “heroicização”, defendo também o direito, totalmente legítimo, de Lula de assumir o cargo de Ministro da Casa Civil. Lula goza de plenos direitos políticos e não foi condenado na Justiça por nenhum tipo de dano ao bem público que tenha causado. Em momentos de estúpida caça-às-bruxas e de “satanização”, é preciso lembrar o óbvio e fazer o resgate histórico que reconduza os amnésicos à plena lucidez: é fato, por exemplo, que Lula, após 8 anos na presidência da república, deixou o cargo consagrado por um índice da aprovação popular sem precedentes históricos no período pós-Ditadura. Mundo afora, Lula é reconhecido por muitas lideranças como um estadista magistral, sendo que programas sociais como o Fome Zero e Bolsa Família são amplamente reconhecidos pelos imensos avanços humanitários com que beneficiaram o Brasil, país que pela primeira vez deixou o “Mapa da Fome” da ONU e foi elogiado publicada pela FAO por sua política de combate à desnutrição.

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Sobre este tema, Celso Amorim, na Carta Capital, escreveu alto notável, que demonstra o impacto revolucionário do “lulismo” no cenário global:

“O Programa Mundial de Alimentos (PMA), órgão das Nações Unidas, com sede na capital italiana Roma, é dedicado a suprir carências alimentares, na maior parte das vezes em caráter emergencial. No passado, e ainda hoje, creio, o PMA tem servido para escoar excedentes agrícolas dos países ricos, principalmente dos Estados Unidos. Assim, além dos objetivos humanitários, as doações ao programa constituíam uma maneira de subsidiar os agricultores dos países desenvolvidos, criando uma forma sutil de concorrência desleal com as nações mais pobres, produtoras de gêneros alimentícios. 

O fato é, porém, que o PMA, até aqui sempre dirigido por uma personalidade norte-americana, transformou-se em um órgão atuante, com impressionante capacidade logística, da qual a ONU se vale para outras atividades (emergências de saúde, desastres naturais). No Haiti, logo após o terremoto de 2010, pude testemunhar a eficiência e a dedicação dos seus funcionários e dirigentes. A publicidade atual do PMA chamou-me a atenção pelo o lema criado para atrair doações: “Zero Hunger” ou, em italiano, muito próximo do português, “Fame Zero”.  

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Minha primeira reação foi de indignação pela apropriação do nome do nosso programa, sem crédito ao original. Mas, ao pensar melhor, considerei que o mais importante era o fato de uma ideia, nascida em nosso país e levada aos quatro cantos do mundo pelo presidente Lula (e imitada em muitos lugares), tivesse penetrado tão profundamente na mente de políticos, ativistas e acadêmicos planeta afora, a ponto de se tornar lema de uma campanha de um organismo internacional dirigido por uma norte-americana. Assim, antes de indignar-me, deveria rejubilar-me com aquele plágio não confessado. 

Este é apenas um exemplo de como as nossas atitudes no campo externo, lideradas pelo ex-presidente, deixaram marcas profundas.

Ao lembrar-me desses episódios, ao ver o homem que mais batalhou pela igualdade no Brasil e no mundo e que inspirou nossas políticas ser humilhado por meio de procedimentos truculentos desnecessários e ser vítima de um verdadeiro cerco, minha tristeza cresce ainda mais. 

Ao fim de sua peça intitulada Galileu Galilei, Bertolt Brecht põe na boca do jovem assistente do sábio, Andrea Sarti, a exclamação “Pobre da nação que não tem heróis”, à qual Galileu responde com uma afirmação dura e penetrante: “Não Andrea, pobre da nação que precisa de heróis”. Ao ver o operário metalúrgico, que alçado à condição de líder político, diminuiu a desigualdade em nosso país e colocou o Brasil no mundo, pensei que Brecht poderia ter complementado seu pensamento: “Mais pobre ainda, Andrea, é o país que vilipendia seus heróis.” (CELSO AMORIM, Carta Capital)

Burgues

Pobre da nação que precisa de heróis! Mais pobre ainda a nação que encontra seus heróis Moro-alistas e hipócritas entre uma elite, encarniçada defensora de seus interesses privados, plutocracia encastelada em seus privilégios injustos. O mesmo Brecht foi lapidar quando disse que “nada se parece mais com um fascista do que um burguês assustado”. Porém, não sei se teríamos algum benefício em transformar todos os heróis em párias, punkmente declarando um no more heroes! de sabor anarquista. O papel de “líder de massas” não me parece abandonável, no palco histórico, e mesmo a esquerda radical não se solidariza sem uma liderança como a de Che ou Fidel, na Revolução Cubana, Lênin e Trotsky, no revolucionário Outubro de 1917 russo, assim como os Zapatistas mexicanos da FZNL não é sequer imaginável na ausência do Subcomandante Marcos… Tudo bem se não quisermos ter em Lula nosso líder ou nosso herói, mas gostaria que este neoBrechtianismo fosse considerado digno: não sejamos o país que vilipendia seus heróis.

E talvez neste nosso Brasil real – e exponho-me aqui às pedradas dos detratores – não existe talvez nenhum “líder de massas” com o potencial libertário que ainda me parece existir em Lula. Talvez ele ainda não tenha finalizado sua missão histórica; talvez possa haver ainda muito chão pela frente na vida política deste brasileiro de obstinada força vital e que, não à toa, tornou-se um dos líderes políticos mais amados pela população do Brasil. Alinho-me, nas barricadas do presente, à defesa de Lula, ao seu direito de ser ministro, e para que sejam punidos aqueles que estão a lei para escorraçá-lo e caluniá-lo, em uma campanha de apedrejamento, de linchamento, de massacre midiático, que é uma vergonha e um acinte. E que talvez seja a manifestação desesperada daquelas elites decadentes que já pressentem que, em 2018, não há Marina, Aécio, Alckmin ou Moro que dê conta de vencê-lo.

O nosso maior perigo – sintetizado na palavra golpe – é a sordidez possível das elites que percebem de antemão que vão perder nas urnas, mais uma vez. Quem sabe que vai perder as próximas eleições tende a flertar de modo fascista com o plano de subir ao poder pela força, seja das armas e dos tanques, seja dos golpes midiáticos-jurídicos. Por enquanto, ainda há uma abismo de dissimilaridade entre o quadro de 1964 e 2016. Porém, o perigo persiste: e também pois a mídia corporativa parece ser incorrigível em sua imoralidade recorrente, em sua parcialidade desleal, assassinando quaisquer ideais republicanos de uma imprensa múltipla e polifônica. É triste, Brasil, este P.I.G. em nossas salas-de-estar e quartos-de-dormir, fabricando vidiotas, manipulando massas-de-manobra, cooptando e comandando manifestações, elevando corruptos a anjos, desenhando auras de santidade em Aécios, santificando justiceiros truculentos à la Moro, blindando Cunhas e Alckmins, recebendo propinas de Samarcos e Vale (mesmo após a hecatombe do Rio Doce!). Diante disso, é preciso bradar: abaixo os vidiotas! 

Globo4

Na Revista Cult, Márcia Tiburi dispara suas farpas – está conversando com um fascista: “Morto há tempos diante da tela, transformado em um zumbi que não pensa, não sente e não age em nome de mais nada que não seja a ordem teleguiada recebida, você será chamado de “vidiota” por alguém que, por algum motivo, ficou longe disso tudo. Mas porque já não consegue entender nada, você parte pra cima dele com a única coisa que restou na sua vida subjetiva, ódio barato e agressividade sem fim.” (TIBURI, M. Revista Cult)
Tiburi
Tiburi

Concordo com Márcia Tiburi que precisamos aprender a “conversar com os fascistas”, e que não podemos prescindir das armas da crítica, mas jamais respondê-los na mesma moeda de fúria. Já que olho por olho – Gandhi ensina – acaberemos todos cegos. Diálogo e democracia são consubstanciais – e é preciso resistir àqueles que não querem dialogar, contrapondo ao golpismo deles nosso obstinado democratismo popular, que não se deixará varrer tão fácil da história após os 21 anos de trevas que vivemos. Para barrar o golpe, porém, é urgente fazer a crítica – que Tiburi também empreende com muita graça e talento, além de contundência e coragem… – da manipulação e desinformação perpetradas pela mídia empresarial, este antro reacionário que choca o ovo da serpente dos fascismos cotidianizados e da banalidade do mal sempre renascente.

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 20/03/2016
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Submissão e Insurgência em Kafka – Estudos com Pierre Bourdieu, Michael Löwy, Ernst Pawel, Pierre Clastres, dentre outros

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SUBMISSÃO E INSURGÊNCIA EM KAFKA
Por Eduardo Carli de Moraes & Gisele Toassa

 

“Escrever – segundo Kafka acreditava – era sua única razão de viver e seu único meio de manter-se vivo. Escrevo, logo existo. 

Sendo filho não de Deus, mas sim de Herrmann Kafka e da Idade da Razão, Kafka torturou a si próprio e aos que lhe eram íntimos com a tentativa constante de tentar justificar e racionalizar aquilo que não admite explicações. O momento em que mais se acercou da fonte de suas necessidades e de sua arte talvez tenha sido em uma carta a Milena Jesenská: “Tento constantemente comunicar algo incomunicável, explicar algo inexplicável, falar de algo que sinto apenas em meus ossos e que só pode ser experimentado nestes ossos…”

Kafka não era um homem que escrevia, mas alguém para quem escrever era a única forma de ser, o único meio de desafiar a morte em vida. (…) Ele permaneceu relativamente desconhecido durante sua vida, mas sua fama póstuma chegou quase a eclipsar a de todo o meio literário de Praga; os luminares de sua época estão mortos e, quer tenham sido queimados ou enterrados, já não têm o poder de assombrar-nos. Se Kafka o faz, isso se deve, em larga escala, à paixão obsessiva que levou para o escrever como um ofício sagrado.

Isso não equivale a imputar-lhe a pretensão furtiva de alguma missão divina, humildemente não confessada. A compulsão irresistível de escrever parecia-lhe parte de um destino obscuro e profundamente pessoal, e não há dúvida de que, em boa parte do tempo, sentiu-se mais compelido do que escolhido.

“O escrever me sustenta”, escreve Kafka a Max Brod em 1922, “Quando não escrevo, é bem pior, inteiramente insuportável, e termina, inevitavelmente, na loucura. Isso, é claro, apenas partindo do pressuposto de que eu seja um escritor mesmo quando não escrevo – o que, aliás, é um fato; e um escritor que não escreve é, na verdade, um monstro que corteja a insanidade.”

Por mais singulares que fossem os sentimentos de Kafka sobre a vocação que escolheu, eles refletem também o espírito de uma era em que a literatura havia tomado o lugar da fé, dos ritos e da tradição, convertendo-se, ela própria, numa espécie de religião. Esse fenômeno não se restringiu aos judeus: Flaubert fala na literatura como “la mystique de qui ne croit à rien” (a mística de quem não crê em nada).”

ERNST PAWEL
“O Pesadelo da Razão”
Pg. 95-96. Ed. Imago.

Illustration by Boris Pelcer

I. ENTRE SUBMISSÃO E INSURGÊNCIA

Em O Pesadelo da Razão, Ernst Pawel sugere que a vida e a obra de Kafka seriam uma longa reflexão sobre um estranho fenômeno que “está longe de ser raro”: “O prisioneiro que anseia pela liberdade e que, quando enfim se abrem os portões, recusa-se a sair.” (PAWEL: pg. 188) Desde 1908 até o fim de sua vida, em 1924, o Doutor em Direito Franz Kafka trabalhou como funcionário do Instituto de Seguros de Acidentes do Trabalhador, em Praga, no Reino da Boêmia. Este setor da burocracia do Império Austro-Húngaro era uma espécie de escritório de advocacia que lidava com casos de trabalhadores feridos em serviço. Este Instituto “era responsável por bem mais de 35.000 empresas industriais”, de portes variáveis, espalhadas por um imenso território – o que às vezes exigia que Kafka viajasse para cantos do Império onde nunca antes estivera.

Em seu trabalho cotidiano, tinha que lidar com dúzias e dúzias de casos de “desgraçados”: os “Lulas” anônimos do proletariado machucado, aqueles que perdem dedos nas linhas-de-montagem ou acabam sendo tragados – como Carlitos em Tempos Modernos – pelas engrenagens. Kafka convive diariamente com casos de pessoas que, por exaustão ou distração passageira, não acompanham o ritmo da mecânica industrial, descuidam das cadências e acabam pagando o preço em membros decepados e outras desgraças.

De modo indireto, portanto, como explora Michael Löwy em Kafka: Sonhador Insubmisso, a obra kafkiana conteria uma aguda crítica ao mundo capitalista – burocratizado, mecânico, explorador, insano. O escritório onde Kafka trabalhava pretendia regular as relações entre patrões e empregados em casos trágicos de mutilação, invalidez permanente ou mesmo morte no serviço. “Esta experiência ao lidar com as reclamações de invalidez e morte em benefício de trabalhadores mutilados ou mortos em suas funções serviram para reforçar a identificação instintiva com os oprimidos que definiu sua orientação política manifesta.” (PAWEL: O Assalto à Razão, p. 183)

Na obra de Kafka, pois, o potencial político não decorre de qualquer tomada-de-partido revolucionária ou engajamento ativo na construção de um outro mundo possível, mas sim de sua denúncia, com conhecimento de causa, de um sistema desumanizante, que Kafka captava com rara sensibilidade ao “identificar-se instintivamente com os oprimidos”. Mas, em Kafka, esta “identificação instintiva com os oprimidos” de que fala Pawel não é ingênua mas crítica: Kafka surpreende-se, por exemplo, com a “humildade” e a “submissão” dos trabalhadores. Como relembra Max Brod, seu amigo Franz um dia comentou com perplexidade: “Como são humildes essas pessoas. Em vez de se precipitarem sobre o Instituto e estraçalharem o lugar em pedacinhos, eles vêm nos apresentar requerimentos…”

Kafka, portanto, parece perceber com perplexidade o fenômeno de massas que consiste em trabalhadores, um tanto resignados e fatalistas, que mantinham-se presos a formulários e rígidos horários, impotentes para mudar sua condição de oprimidos. Lembremos do começo de A Colônia Penal: neste conto, Kafka descreve um aparelho de tortura que existe numa ilha-penitenciária. Ali, são supliciadas pessoas que não sabem que crime cometeram – um pouco como Josef K., em O Processo, que jamais descobre o que ele fez de errado e permanece até o fim do romance convicto de ter sido vítima de uma calúnia. Na Colônia Penal, os condenados têm suas peles marcadas brutalmente por uma “tatuagem” sinistra e sanguinolenta – no caso específico que o conto relata, “Honre seu superior” é a tatoo que é imposta. É um cenário de pesadelo, principalmente pois as autoridades brutais que ali reinam não sofrem nenhum tipo de contestação por parte dos submetidos. A literatura de Kafka é um recorrente assombro diante da apatia, da incapacidade de levante, que acomete muitos humilhados e ofendidos.

Vamos às atividades do dia:
Lavar os copos, contar os corpos,
E sorrir de nossa morna rebeldia…”

Letra do rapper CRIOLO, na música “Lion Man”
(Álbum “Nó na Orelha”)

Kafka, na Colônia Penal, descreve um condenado cuja mais impressionante característica é sua impassibilidade, sua aceitação resignada do que lhe é imposto; o condenado é de uma “sujeição tão canina que a impressão que dava era a de que se poderia deixa-lo vaguear livremente pelas encostas, sendo preciso apenas que se assobiasse no começo da execução para que ele viesse…” (Trad. Modesto Carone, Pg. 30)

Se Kafka pôde escrever cenas tão vívidas de tortura – em A Colônia Penal e no capítulo “O Espancador” de O Processo, por exemplo – isto talvez se deva não somente às torturas de que ele se sentiu vítima, nas mãos de seu pai Hermann, mas também à sua experiência profissional junto ao proletariado da Boêmia. Eis um campo de pesquisa muito amplo e interessante a ser pesquisado pelos estudiosos de Kafka, e que têm já foi trilhado em obras de muito interesse por Michael Löwy, Ernst Pawel, Pierre Bourdieu etc.

Nada utopista ou otimista, Kafka não cessa de refletir sobre a problemática da submissão. Estar diante de gente tão submissa deixa-lhe perplexo: como pode que o condenado possa sofrer penas tão terríveis na máquina de tortura e ainda assim mostrar-se comportado como um cão? A mesma perplexidade pode surgir diante dos fenômenos que Pierre Clastres descreve sobre os ritos de iniciação que utilizam técnicas torturantes como modo de marcar uma passagem: que força é esta que leva os torturados a se submeterem a tamanhos sofrimentos? Em outros termos, como responder ao mistério: por que a revolta é tão rara?

A elucidação disso exigiria uma análise mais detida de outros textos, como o Tratado da Servidão Voluntária de La Boétie, O Medo à Liberdade de Erich Fromm, A Psicologia de Massas do Fascismo de Wilhelm Reich – o que não é intenção do presente artigo. Para focarmos a atenção na obra kafkiana, apontemos uma impressão de leitor: ao retratar a tortura, parece-me, Kafka certamente foi mais influenciado por suas vivências existenciais, por sua realidade laboral e familiar, do que por quaisquer leituras que tenha feito das teorias e ideologias de seu tempo. Max Brod pinta o retrato de um Kafka que abominava seu próprio emprego, “vítima impotente aprisionada nas engrenagens de um impiedoso esmagador de cérebros e condenada a uma labuta insensata e desumana”, como relata Pawel (p. 185).

Mas o biógrafo lembra que este emprego não poderia ser tão horripilante assim, já que possibilitava a Kafka ter ¾ dos dias livres (seu turno era de somente 6 horas, das 8 da manhã às 2 da tarde…), “estando longe de ser estafante em termos de volume ou carga horária”. De modo que Pawel afirma: “longe de ser uma peça de engrenagem sem nome num motor gigantesco, Kafka esteve, desde o início, em posições de decisão, e contribuiu com sua quota para uma redução significativa dos acidentes mutilantes e fatais em algumas das principais indústrias da Boêmia.” (Pawel: Pg. 185)

Kafka, é claro, não podia suportar bem a vida de burocrata, antagônica em relação à existência de artista criador que ele julgava ser sua vocação sagrada: “já em 1912, seus poderes como artista criador tinham começado a afirmar-se integralmente – e Kafka passou a encarar as exigências do cargo como causa fundamental da esmagadora depressão que lhe minava a criatividade.” (Pawel: pg. 186)

Permaneceu um grande solitário, vida afora, não se filiando a nenhum partido ou causa – não vinculou sua identidade nem ao judaísmo, nem ao sionismo; tampouco pregava slogans marxistas ou anarquistas (apesar do fascínio que sobre ele exerceram figuras como Kropotkin e Herzen). Longe de ser um entusiasta da causa proletária, um ativista que luta lado a lado com os oprimidos com os quais se identifica, Kafka “estava sempre só na multidão, em vez de ser parte dela.” (PAWEL: p. 154)

A solidão de Kafka não o impediu de pintar, em suas obras, um impressionante retrato social onde as arbitrariedades insanas do Castelo e do Tribunal não cessam de humilhar e rebaixar aqueles que, de tão pisoteados, não tem mais a força de insurreição que seria de se esperar de quem vive sob condições desumanas. O trágico em Kafka é o quanto as pessoas acabam, por serem demasiado judiadas, virando encarnações da submissão fatalista. Parece-me que Kafka nunca pôde admirar esta característica, nem nos outros nem em si mesmo, e talvez sua auto-depreciação tão profunda, sua tendência ao auto-flagelamento, venha também da sensação de ter sido, também ele, um dos submissos.

Kafka, em sua obra, pode até ser um “sonhador insubmisso”, como diz Michael Löwy no brilhante livro que lhe dedica, mas em sua vida foi com muita frequência aquele que se submete: primeiro, ao pai, tornando-se seu empregado, permanecendo junto a ele no comércio até muito tarde na vida, apesar do veneno do relacionamento; depois, às exigências de seu cargo, que desempenhava com muita perícia e competência, mas sem gosto – já que devotava seu amor quase inteiro à literatura. Este amante dos livros, que em Praga tinha como locais favoritos as livrarias velhas e encardidas, amava Goethe, Hesse, Flaubert, Kleist e Dickens infinitamente mais do que seu trabalho.

* * * *

II. A TORTURA COMO PEDAGOGIA

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Cerimônia dos Mandan, uma pintura de George Catlin

Em seu artigo “Da Tortura nas Sociedades Primitivas”, o filósofo e antropólogo francês Pierre Clastres (1934 – 1977) enfatiza a conexão entre a escrita da lei e a tortura dos corpos: “Que a lei encontre uma forma de se inscrever em espaços inesperados é o que pode nos ensinar esta ou aquela obra literária. O funcionário de A Colônia Penal, de Franz Kafka, explica minuciosamente ao visitante o funcionamento de uma máquina de escrever a lei” (CLASTRES: A sociedade contra o Estado, pg. 191, Cosac e Naify), que consiste em “gravar o parágrafo transgredido sobre a pele do culpado. Vai-se, por exemplo, escrever no corpo do condenado: ‘Respeite o seu superior’ …”.

Amnésia (Memento), de Christopher Nolan

Amnésia (Memento), de Christopher Nolan

Nesta obra, Kafka concebe “o corpo como superfície de escrita, como superfície apta para receber o texto legível da lei” (CLASTRES: p. 191). Através da imposição destas sinistras tatuagens ao corpo do condenado, o poder deixaria uma marca indelével e perpétua sobre aqueles sobre quem se exerce. Cabe lembrar que alguns artistas do cinema contemporâneo já retrataram procedimentos semelhantes em suas obras: é o caso de O Livro de Cabeceira, de Peter Greenaway, e Amnésia (Memento), de Christopher Nolan, filmes que tematizam o corpo como receptáculo de linguagem. Neste último filme, o protagonista, após sofrer um trauma cerebral, acometido por uma condição neurológica que lhe impede o registro de memórias recentes, encontra nas tatuagens que faz em seu próprio corpo um poderoso auxílio mnemotécnico. O próprio sofrimento imposto à pele por esta escrita na carne viva aí aparece como aliado da deusa batizada pelos gregos de Mnemosyne, a Mãe das Musas. Também cabe lembrar que Nietzsche refletiu na Genealogia da Moral sobre as crueldades inerentes ao processo mnemotécnico necessário para a conversão do homem em “um animal capaz de prometer”.

Grande parte do esforço de Clastres dirige-se a mostrar que tais procedimentos de modo algum se restringem à arte ou à ficção. Será lícito supor que Kafka compôs A Colônia Penal não somente a partir de um pesadelo subjetivo, descrevendo alguma maquinaria infernal imaginária-paranóica, mas partindo de conhecimentos históricos que possuía sobre os cruéis meandros do Direito?

Como exemplo do corpo como superfície passível de veicular linguagem, basta relembrar os testemunhos de prisioneiros soviéticos nas colônias penais da Moldávia, coligidas no livro de Anatoli Martchenko, Mon Témoignage (Paris: Seuil, Col. Combats, 1971). Aí o autor descreve a maneira como os deportados se auto-infligiam máximas, tatuadas em seus rostos: “Escravos de Kruchtchev”, “Escravos do P.C.U.S.” ou “Comunistas = Carrascos”.

A pele como superfície onde inscrever uma mensagem tampouco é uma invenção dos prisioneiros das gulags:

“É muito extenso o número de sociedades primitivas que mostram a importância por elas atribuída ao ingresso dos jovens na idade adulta através da instituição dos chamados ritos de passagem. (…) Quase sempre o rito iniciático considera a utilização do corpo dos iniciados. É, sem qualquer intermediário, o corpo que a sociedade designa como único espaço propício a conter o sinal de um tempo, o traço de uma passagem, a determinação de um destino.” (CLASTRES: p. 193)

O pintor George Catlin, em Les Indiens de la Prairie (Club des Librairies de France, 1959), descreve e ilustra com desenhos sua experiência de testemunhar por 4 dias à cerimônia anual dos índios Mandan – e, como relata Clastres, “não pode deixar de manifestar seu espanto e horror diante do espetáculo do rito, pois o fato é que, através do cerimonial, a sociedade se apodera do corpo e (…) quase de modo constante – e é isso que aterroriza Catlin – o ritual submete o corpo à tortura” (CLASTRES: p. 194).

Todos os jovens índios Mandam, depois de quatro dias de jejum absoluto, depois de três noites insones, têm o corpo furado e “estiletes enterrados nas chagas”; o enforcamento, a amputação, as carnes rasgadas, são outras técnicas empregadas neste rito em que “parecem inesgotáveis os recursos da crueldade” (CLASTRES: idem). O próprio Clastres, com vasta experiência junto aos índios Guayaki e Mbayá-Guaykuru do Paraguai, aponta que estes ritos estão longe de serem exceção: entre os Mbayá, os jovens passam por uma prova que consiste em “ter o pênis e outras partes do corpo perfurados com um afiado osso de jaguar” (p. 195). Tampouco as mulheres escapam disso: Martin Dobrizhoffer narra que os Abipones “tatuam cruelmente o rosto das jovens quando se verifica a sua primeira menstruação” (in: Historia de los Abipones, 3 vols., 1967). “De uma tribo a outra, de uma a outra região, diferem as técnicas, os meios, os objetivos explicitamente afirmados da crueldade; mas a meta é sempre a mesma: provocar o sofrimento. (…) A dor acaba sempre se tornando insuportável: sem proferir palavra, o torturado desmaia.” (CLASTRES: p. 195)

Eis um outro elemento que choca o antropólogo ou etnólogo que testemunha estas cerimônias: o fato dos jovens não proferirem uma palavra sequer durante as torturas a que são submetidos.

“A impassibilidade, eu poderia até mesmo dizer a serenidade com que esses jovens suportavam o martírio, era ainda mais extraordinária do que o próprio suplício… Meu coração padeceu com tais espetáculos, e costumes tão abomináveis encheram-me de desgosto: estou, porém, pronto – e de todo coração – a desculpar os índios, a perdoar-lhes as superstições que os levam a atos de tal selvageria, em virtude da coragem que demonstram, do seu notável poder de resistência, do seu excepcional estoicismo…” (GEORGE CATLIN).

Em sua tentativa de compreender a função do sofrimento, Clastres aponta que “a iniciação é, inegavelmente, uma comprovação da coragem pessoal, e esta se exprime no silêncio oposto ao sofrimento.” (p. 196) Não se trata, aliás, de um sofrimento extremo mas passageiro, pois os sulcos e as cicatrizes permanecerão:

“Um homem iniciado é um homem marcado. O objetivo da iniciação, em seu momento de tortura, é marcar o corpo: no ritual iniciático, a sociedade imprime a sua marca no corpo dos jovens. Ora, uma cicatriz, um sulco, uma marca são indeléveis. Inscritos na profundidade da pele, atestarão para sempre que, se por um lado a dor pode não ser mais do que uma recordação desagradável, ela foi sentida num contexto de medo e terror. A marca é um obstáculo ao esquecimento. (…) Avaliar a resistência pessoal, significar um pertencimento social: tais são as duas funções evidentes da iniciação como inscrição de marcas sobre o corpo.” (p. 197)

Um exemplo da utilidade da marca indelével imposta pela tortura, que indica o pertencimento social a um determinado grupo, foi presenciado por Clastres em 1963: quando os Guayaki queriam se certificar da “nacionalidade” de uma jovem paraguaia, arrancavam-lhe as roupas em busca das tatuagens tribais.

O silêncio resignado que se exige dos jovens durante o ritual, o admirável “estoicismo” de que fala Catlin, indica que

“o ritual de iniciação é uma pedagogia que vai do grupo ao indivíduo, da tribo aos jovens. Pedagogia da afirmação, e não diálogo: é por isso que os iniciados devem permanecer silenciosos quando torturados. Quem cala consente. Em que consentem os jovens? Consentem em aceitar-se no papel que passaram a ter: o de membros integrais da comunidade. (…) Eis, portanto, o segredo que, na iniciação do grupo, é revelado aos jovens: ‘Sois um dos nossos. Cada um de vós é semelhante a nós, cada um de vós é semelhante aos outros. Nenhum de vós é inferior, nem superior’. Em outros termos, a sociedade dita sua lei aos seus membros, inscreve o texto da lei sobre a superfície dos corpos. (…) A lei que aprendem a conhecer na dor é a lei da sociedade primitiva, que diz a cada um: Tu não és menos importante nem mais importante do que ninguém. A lei, inscrita sobre os corpos, afirma a recusa da sociedade primitiva em correr o risco da divisão, o risco de um poder separado dela mesma, de um poder que lhe escaparia. A lei primitiva, cruelmente ensinada, é uma proibição à desigualdade.” (CLASTRES: p. 198-99).

É por esta razão que Deleuze e Guatari, no Anti-Édipo, dirão que as sociedades primitivas, desprovidas de escrita, são sociedades da marcação. Clastres dirá que são, além disso, sociedades contra o Estado, preocupadas em manter a coesão tribal e não permitir a emergência do poder estatal, compreendido como aquele que, dentre outras ações, escreve uma lei “separada, distante, despótica”. Como compreender, neste contexto, as desventuras de K. n’O Processo de Kafka, este pesadelo judiciário que se desenrola em meio a uma sociedade com Estado e onde a justiça parece se exercer a partir de uma engrenagem burocrática que o indivíduo não compreende por completo? Que diferenças e semelhanças há, na comparação entre os ritos iniciatórios arcaicos e o enredo kafkiano, no que diz respeito aos procedimentos jurídicos e mnemotécnicos e à instrumentalização da crueldade?

Tanto em A Colônia Penal quanto em O Processo, o “crime” cometido pelo condenado ou pelo processado permanece envolto em sombras e mistério – o que Kafka deseja mostrar ao leitor é o aparelho de tortura socialmente instituído. Assim como o leitor de O Processo em nenhum momento recebe explicação sobre o que teria feito de recriminável Josef K., sendo que o foco repousa por inteiro na descrição do mecanismo esmagador do processo, também o leitor de A Colônia Penal não tem elucidações sobre aquele que sofrerá a pena: Kafka narra a cena de modo que o procedimento jurídico esteja no primeiro plano, ao invés de emitir juízos sobre a culpa ou inocência daquele que está sendo submetido à punição. O oficial explica ao explorador como funciona o procedimento operacional padrão da máquina de torturas:

“Esta é a cama, totalmente coberta com uma camada de algodão; o senhor ainda vai saber qual é o objetivo dela. O condenado é posto de bruços sobre o algodão, naturalmente nu; aqui estão, para as mãos, aqui para os pés e aqui para o pescoço, as correias para segurá-lo firme. Aqui na cabeceira da cama, onde, como eu disse, o homem apóia a cabeça, existe este pequeno tampão de feltro, que pode ser regulado com a maior facilidade, a ponto de entrar bem na boca da pessoa. Seu objetivo é impedir que ela grite ou morda a língua. Evidentemente, o homem é obrigado a admitir o feltro na boca, pois caso contrário as correias do pescoço quebram sua nuca…” (p. 33)

Atado, imobilizado, silenciado, impossibilitado de manifestar qualquer sinal de desagrado ou fúria, o condenado recebe sobre as costas a sentença que o rastelo escreve arrancando seu sangue. Esta máquina de torturas impõe uma cicatriz perpétua, uma tatuagem não solicitada pelo sujeito que a recebe – e que as autoridades que a impõe desejam indelével. Seja o cacique de uma tribo indígena ou um comandante de um império, como Clastres e Kafka mostram, cada um a seu modo, a autoridade utiliza-se da imposição do sofrimento como um meio violento de “educação”.

Que tipo de educação é esta? A Colônia Penal é uma alegoria poderosa de uma educação que seria melhor chamada de violentação autoritária ou imposição da submissão: “No corpo deste condenado”, prossegue o oficial em sua explicação do mecanismo torturador, “será gravado: Honra o teu superior!” (p. 36) O “superior”, no caso, é aquele que tem em seu poder os meios de impor aos outros, sejam jovens em rituais de iniciação ou condenados sendo punidos, um sofrimento que lhes deve ensinar a submissão – ou melhor, no linguajar de quem impõe a pena, a “obediência ao superior”.

Reduzido a uma condição de impotência, tendo seu corpo submetido à incisões, perfurações e cortes – que não somente provocam dores intensas mas que também deixarão marcas permanentes, a vítima deste processo parece não ter voz. Mas não tem voz pois esta foi silenciada. Sua revolta não se manifesta pois a opressão ao redor não permite que ela desabroche. A submissão não é inata ou de berço, mas algo ensinado ao sujeito por mecanismos autoritários de educação e punição que usam o terror para inculcar obediência e outros comportamentos de retraída aquiescência ao poder.

Por Robert Crumb

Por Robert Crumb

III. O DESPOTISMO E A RESISTÊNCIA

A prisão de Josef K., narrada por Kafka em O Processo, é uma cena onde ocorre claro abuso pela porte do aparato policial, que invade o apartamento e cerceia os movimentos de K. Nenhum daqueles policiais e subordinados do sistema jurídico-penal sabe dizer a K. qual o crime que este cometeu – não foram autorizados a revelar nada – e no fundo confessam não saber de muita coisa. A ordem de prisão vem de cima e eles apenas a obedecem. Afinal de contas, ganham seu pão num trabalho que exige deles um perene comportamento subordinado, em que você honra o seu superior na hierarquia ao invés de se revoltar ou se levantar contra ele.

Para usar a expressão de Michael Löwy , Kafka, este “sonhador insubmisso”, soube criar em Josef K. alguém que tem muito desta insubmissão de seu criador correndo em suas veias de personagem kafkiano. Logo após ser preso, Josef K., com plena certeza de sua inocência, confronta os homens que o vieram acossar e exige respostas: qual a acusação que está sendo feita? Qual é a autoridade que vos manda? Quem foi que lá em cima na hierarquia ordenou que eu, K., fosse preso?

A autoridade suprema está invisível como aqueles chefões do Castelo que não se deixam encontrar em nenhuma parte pelo agrimensor K. durante as peripécias do romance inacabado O Castelo. Uma névoa de mistério circunda a autoridade que, através de seus subordinados, apossa-se do corpo e da mente de K. e impõe-lhe restrições de movimento, ameaças de despojamento, surras psíquicas e literais.

Não é por acaso que uma das últimas cenas d’ O Processo se passa em uma catedral e que nesta o padre, a princípio, exija de K. que se rebaixe e se prostre diante dele para ouvir a voz que chega das alturas.

“K. parou nos primeiros bancos, mas o padre estendeu as mãos e mostrou com o indicador um lugar mais próximo do púlpito. K. o seguiu até esse lugar, precisando inclinar a cabeça fortemente para trás a fim de ver o padre…” Walter Benjamin enfatiza que, para Kafka, o elemento gestual era muito importante – como, por exemplo, este eloquente dedo indicador que ordena ao acusado que se ponha no local exato que lhe foi ditado: “o gesto é o elemento decisivo, o centro da ação… Kafka é sempre assim: ele priva os gestos humanos dos seus esteios tradicionais e os transforma em temas de reflexões intermináveis.” (BENJAMIN: p. 147)

Autor com “capacidade invulgar de criar parábolas”, como diz Benjamin (p. 149), Kafka escreveu em O Processo uma das mais eloquentes de sua galeria: o padre, do alto do púlpito, fiel defensor dos códigos escritos inalteráveis e sagrados, relata a K. uma história de um camponês e de um porteiro diante de uma certa Porta da Lei. O homem do campo – simples e ingênuo… – está diante da porta da Lei e esta é guardada por um porteiro que não lhe dá permissão de entrar e lhe pede que espere. É o Esperando Godot de Kafka – e um dos pontos de sua obra que mais se assemelha ao teatro de Beckett.

O camponês, que não se sente capaz de insubmissão ou revolta, que não tenta entrar contra a permissão do porteiro, passa a vida ali, com acesso proibido, até definhar e morrer. A porta é-lhe enfim fechada definitivamente sem nunca ter sido transposta. Esta parábola, que lembra um pouco o Absurdo da atitude dos personagens de Esperando Godot, está longe de ser uma descrição da atitude do próprio Josef K. diante da Lei: ao contrário da passividade submissa do homem que apodrece na espera, sem que nunca lhe seja dada permissão para adentrar nos domínios guarnecidos pelos guardiães da lei, “Josef K. não pode impedir-se de acreditar que o homem foi enganado pelo guardião.” (Löwy: p.135)

YOSL BERGNER

Pintura de Yosl Bergner representa a cena “O Processo” em que o “porteiro da Lei” diz ao “homem do campo”: “This door was intended only for you. I am now going to shut it.” (Capítulo 9, “A Catedral”)

Este acesso barrado seria um símbolo de autoritarismo, uma fortaleza que defende os privilégios daqueles que estão acima na hierarquia. Aquele que não ousa questionar a ordem (a ordem que lhe ordena que apodreça na espera!), aquele que se cala e aceita, aquele que se submete e fica de bunda sentada na sua desgraça imposta-de-cima, este é o emblema do sujeito alienado, alijado da justiça.

De modo que Löwy sustenta que “não se pode compreender esse escrito sem situá-lo no contexto mais amplo” das “convicções ético-sociais de Kafka”, em particular “o anti-autoritarismo de inspiração libertária, (…) uma recusa diante de todo poder que pretende representar a divindade e impor em seu nome dogmas, doutrinas, interdições.” (pg. 139)

LowyO homem-do-campo da parábola, por excesso de timidez e tibieza, por falta de confiança em si, por uma obediência demasiado estrita e prolongada do status quo, acaba perdendo sua vida na espera, diante do umbral de uma porta que o guardião não permite que ele cruze. Incapaz de insubmissão e revolta, “o homem do campo malogrou porque não quis tomar o caminho rumo à Lei atravessando essa porta sem autorização”, segundo a interpretação do amigo de Kafka, Felix Weltsch, que Löwy reproduz (pg. 145).

O destino inglório deste personagem da parábola, que apodrece na espera, alijado de seus direitos em um mundo social onde os privilégios se protegem em suas fortalezas, está nas antípodas da atitude frequentemente irreverente e insubmissa de Josef K. – é só lembrar que este acusa de corrupção generalizada os funcionários do tribunal, critica a atitude dos guardas por surrupiarem o café-da-manhã e as roupas dos condenados e chega ao extremo de desdenhar dos livros mofados da Lei em sua primeira audiência.

Quase no fim de seu percurso, aliás, irá despedir seu advogado e desejará apresentar ele mesmo sua defesa através de um relato completo de toda a sua vida pregressa, achando que uma narração dos seus 30 anos de vida irrepreensível pudessem ser suficientes para inocentá-lo. A passividade submissa do homem da parábola, como diz Marthe Robert, é característica de quem “não ousa colocar sua lei pessoal acima dos tabus coletivos, cuja tirania o guardião personifica.” (MARTHE ROBERT, Seul Comme Kafka, Paris: Calmann-Lévy, 1979, p. 162). Ele se assemelha a quase todos os condenados que K. encontra no decurso do romance e que se submetem a seus processos e são tratados como cães pelos advogados.

“K. representa a antítese do homem do campo que espera em vão, por toda a vida, paciente e submisso, que alguém se digne a admiti-lo no interior das portas da Lei… Encontram-se no Castelo personagens que se parecem muitíssimo com o anti-herói da lenda: é o caso do indivíduo descrito por Olga, que tenta fazer-se admitir no serviço do Castelo: ‘Depois de muitos anos, talvez já envelhecido, ele ouve que foi recusado, que tudo está perdido e que viveu por nada.’” (LÖWY: p. 181)

Longe de fazer um elogio da resignação e do fatalismo, Kafka seria, na perspectiva de Löwy, alguém que faz apelo à insubmissão e que é animado por um ímpeto de insubordinação, sendo que sua obra representa uma reiterada crítica do autoritarismo e dos mecanismos burocráticos despersonalizantes e cruéis.

“Kafka jamais escondeu sua admiração pelos personagens que têm a coragem de seguir seu próprio caminho, ultrapassando as interdições convencionais”, lembra Löwy (p. 149), que pesquisou vastamente as leituras prediletas de Kafka, entre as quais se encontrava Memórias de uma socialista, de Lily Braun. Este livro, que Kafka gostava de presentear a seus amigos e que deu à sua noiva Felice em abril de 1915, traz uma mulher aguerrida contra os preconceitos de seu tempo e que, inspirada por Shelley e Nietzsche, condena “a submissão, a humilhação, o abandono ao destino” (LILY BRAUN, Memoiren einer Sozialistin (1909). Berlim: Verlag J. H. W. Dietz, 1985, p. 82-83.)

Também em O Castelo o agrimensor K. representa, ao chegar à aldeia na condição de estrangeiro, uma figura bem mais insubmissa do que a média dos habitantes: “em nenhum momento ele tem a atitude amedrontada e submissa dos aldeões… o que ele quer das autoridades do Castelo é a exigência universal de todos os excluídos e párias das sociedades modernas: ‘Não demando favores ao Castelo, mas o meu direito’” (Löwy: p. 177).

Rejeitando as interpretações teológicas de Max Brod, que enxerga no Castelo um signo da Graça divina inacessível, Löwy afirma que “nada no romance indica que a ‘maldade’ dos funcionários do Castelo tivesse algo a ver com uma instância divina’…” Segundo Löwy, o castelo é “a sede de um poder terrestre e humano” e representa “a autoridade, o Estado, diante do povo, representado pela aldeia. Um poder distante e arbitrário, que governa a aldeia por intermédio de um aparato de burocratas cujo comportamento é grosseiro, inexplicável e rigorosamente desprovido de sentido. O próprio edifício – sede do cume do aparelho administrativo – é inacessível e impenetrável… Kafka põe em questão os fundamentos despóticos do Estado moderno.” (pg. 162-163).

Se uma atmosfera sinistra e pessimista parece pairar como uma nuvem nublada sobre os escritos de Kafka, talvez isto se deva à percepção de que tanto a submissão quanto a revolta conduzem à catástrofe. Em O Castelo, por exemplo, há a figura de Amália, “personagem de exceção que se destaca fortemente da massa submissa dos aldeões” e que Löwy considera “sem dúvida uma das mais impressionantes figuras femininas da obra de Kafka” (p. 185-186). No capítulo 17, “ao receber do arrogante e grosseiro funcionário Sortini uma mensagem extremamente vulgar e mesmo revoltante – em suma, obscena – intimando-a a procura-lo na Hospedaria dos Senhores, ela não hesita em rasga-la, atirando os pedaços no rosto do mensageiro enviado pelo homem do Castelo… Isso basta para atrair sobre ela e toda a sua família a maldição daqueles do alto, condenando-os a uma exclusão definitiva e irrevogável.” (Löwy: p. 184).

Os conformistas e os submissos apodrecem na espera, alijados de seus direitos numa sociedade altamente hierarquizada. Os mais altos protegem seus privilégios encerrando-se em fortalezas inacessíveis aos reles mortais. Os raros que ousam se insurgir contra o sistema – como Amália em O Castelo ou o próprio Josef. K. em O Processo – acabam conhecendo outra face dos mecanismos jurídicos cruéis: a exclusão e o extermínio.

Se há em Kafka uma constante identificação com os oprimidos, com as vítimas do sistema, há também uma intensa “recusa da servidão voluntária”. Esta servidão voluntária indigna que tantas vezes acaba constituindo o ser-no-mundo daqueles que se resignam ao seus fardos, como os Camelos de que fala Zaratustra. É claramente discernível, em muitos pontos da obra de Kafka, um elogio da insubmissão, e que talvez não seja despropositado comparar ao elogio que faz Zaratustra do leão, símbolo da coragem de rugir contra os fardos e correntes que outros desejam nos fazer carregar como bestas-de-carga.

Em Kafka, porém, a vitória do leão não é garantida e a consequência da revolta é muitas vezes a exclusão – ser lançado à condição de pária ou outsider – ou mesmo a morte – como Josef K. descobre ao terminar seu percurso em O Processo. K. morre envergonhado até a medula dos ossos por viver num mundo onde a submissão canina é exigida de todos e onde os insubmissos serão sacrificados como se fossem cães.

Profético em relação àquilo que de mais sinistro ocorreria no século XX, Kafka é o poeta que pinta quadros tenebrosos de um mundo onde matam-se homens como cachorros e no qual tanto a revolta quanto o fatalismo parecem conducentes à tragédia. Algo que pode ser simbolizado pelo levante do Gueto de Varsóvia, em 1943, quando em pleno Holocausto os judeus tentaram um levante contra o III Reich, evento histórico tão bem descrito por Todorov em Em Face do Extremo e que representa um dos mais sinistros pesadelos que ocorreram de fato na História do último século

Arte por Sergio Birga

Arte por Sergio Birga

IV. BOURDIEU: ESTIGMATIZAÇÃO E RECONHECIMENTO

O pensamento de Pierre Bourdieu pode nos auxiliar a compreender mais a fundo os temas que estivemos explorando neste artigo, em especial se partirmos desta afirmação simples mas prenhe de consequências: “aprendemos pelo corpo” (BOURDIEU: Meditações Pascalianas, p. 172). Avesso ao dualismo simplista entre corpo e alma, espírito e matéria, o pensamento sociológico de Bourdieu procura refletir sobre os habitus que se tornam profundamente ancorados nos corpos e que cujo processo de formação envolvem necessariamente condicionamentos sociais.

“As injunções sociais mais sérias se dirigem ao corpo e não ao intelecto… O essencial da aprendizagem da masculinidade e da feminilidade tende a increver a diferença entre os sexos nos corpos (sobretudo por meio do vestuário), sob a forma de maneiras de andar, de falar, de se comportar, de dirigir o olhar, de sentar-se etc. E os ritos de instituição constituem apenas o limite de todas as ações explícitas pelas quais os grupos trabalham para inculcar os limites sociais e as classificações sociais (por exemplo, a divisão masculino/feminino), a naturalizá-las sob a forma de divisões nos corpos, as hexis corporais, das quais se sabe serem tão duráveis como as inscrições indeléveis da tatuagem…” (BOURDIEU: Meditações Pascalianas, 172-173)

A sociedade tatua seus membros condicionando-os a adotarem habitus e disposições em um processo que, segundo Bourdieu, carrega sempre uma certa dose de violência simbólica. O que não exclui a violência concreta, literal, que Clastres analiza em sua investigação sobre os cruentos ritos de passagem de muitos dos povos que estuda, e que Kafka enforma em uma parábola literária memorável, A Colônia Penal. O processo “pedagógico”, entendido como conformação do indivíduo ao meio social, não se dá apenas através da transmissão intelectual de conhecimentos e valores; ensinar se dá também através do castigo corporal destinado a produzir uma memória, ou seja, uma mnemotécnica que através da imposição da dor ao sujeito procura, por exemplo, gerar nele a repulsa por um certo comportamento que a sociedade deseja ver proibido e proscrito.

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“Tanto na ação pedagógica cotidiana (“fica direito”, “segure a faca com a mão direita”) como nos ritos de instituição, essa ação psicossomática se exerce muitas vezes por meio da emoção e do sofrimento, psicológico ou até físico, mormente aquele que se inflige pela inscrição de signos distintivos, mutilações, escarificações ou tatuagens, na própria superfície dos corpos. O trecho de A Colônia Penal em que Kafka relata como se inscreve no corpo do transgressor todas as letras da lei por ele transgredida ‘radicaliza e literaliza com uma grotesca brutalidade’, como sugere E. L. Santner, a cruel mnemotécnica a que os grupos com frequência recorrem para naturalizar o arbitrário e, outra intuição kafkiana (ou pascaliana), lhe conferir assim a necessidade absurda e insondável que se dissimula, sem nada além, por detrás das mais sagradas instituições.” (BOURDIEU: p. 173)

Contra a noção de valores inatos, Bourdieu assume uma reflexão muito mais próxima ao empirismo, considerando como aprendidos, inculcados, introjetados, os sacrossantos valores e ideais que certas instituições sociais desejam fazer crer que são eternos e absolutos. Agindo de modo similar ao procedimento nietzschiano na Genealogia da Moral, Bourdieu procurará compreender como vêm-a-ser os habitus a partir de uma meditação sobre instituições sociais que, através do condicionamentos dos agentes, criam certas disposições através do manejo de castigos e recompensas, ameaças e elogios – a começar pela infância, “moldada” pela Família, pelo Estado, pela Igreja, pela Mídia.

“O trabalho de socialização das pulsões apóia-se numa transação permanente na qual a criança admite renúncias e sacrifícios em troca de provas de reconhecimento, de consideração ou de admiração (‘como é ajuizado!’), por vezes explicitamente solicitados (‘Papai, olha para mim!’). Essa troca é altamente carregada de afetividade, na medida em que mobiliza por inteiro a pessoa de ambos os parceiros, sobretudo a criança, é claro, mas também os pais. A criança incorpora o social sob a forma de afetos, mas socialmente coloridos, qualificados…” (BOURDIEU: 202)

Não se trata, para Bourdieu, de condenar de modo simplista quaisquer habitus que foram inscritos nos corpos por meio da violência (psicológica ou física) através de uma “pregação” de caráter humanista e sentimental de uma pedagogia suave e desprovida de crueldade. O sociólogo está mais ocupado em descrever o que é (a sociedade de fato) do que em predicar a utopia do que deveria ser – para Bourdieu, interessa mais compreender o processo através do qual os habitus se formam e se transformam, além da variedade destes habitus em relação a diferentes contextos sociais. “O habitus, produto de uma aquisição histórica, é o que permite a apropriação do legado histórico. Assim como a letra deixa de ser letra morta pelo ato de leitura que supõe uma aptidão adquirida para ler e decifrar, a história objetiva (nos instrumentos, monumentos, obras, técnicas etc.) somente consegue converter-se em história atuada e atuante quando é assumida por agentes que, por conta de seus investimentos anteriores, se mostram inclinados a se interessar por ela e dotados das aptidões necessárias para reativá-la.” (pg. 184)

A subversão, a iconoclastia, a contestação, têm o potencial para reabrir o espaço dos possíveis, argumenta Bourdieu:

Pierre Bourdieu

Pierre Bourdieu

“…os discursos e ações subversivos, a exemplo das provocações e de todas as formas de ruptura iconoclasta, têm por função e, em todo caso, como efeito, atestar na prática ser possível transgredir os limites impostos – em particular os mais inflexíveis, aqueles inscritos nos cérebros. A transgressão simbólica de uma fronteira social tem por si só um efeito libertador porque ela faz advir praticamente o impensável. Mas ela própria somente se torna possível, e simbolicamente eficiente, em lugar de ser simplesmente rejeitada como um escândalo que, como se diz, recai sobre seu autor, quando são preenchidas certas condições objetivas. Para que um discurso ou uma ação (iconoclastia, terrorismo etc.) com pretensão a questionar as estruturas objetivas tenha alguma chance de ser reconhecido como legítimo (senão como razoável) e de exercer um efeito de exemplaridade, é preciso que as estruturas assim contestadas estejam elas mesmas num estado de incerteza e crise de molde a favorecer a incerteza a seu respeito e a tomada de consciência crítica de seu arbítrio e de sua fragilidade.” (BOURDIEU: Meditações Pascalianas, p. 289)

A leitura de Pierre Bourdieu de O Processo enfatiza que “o mundo social evocado por esse romance seria tão-somente o limite de inúmeros estados ordinários do mundo social ordinário ou de situações particulares no interior desse mundo, como aquela de certos grupos estigmatizados – os Judeus do lugar e da época de Kafka, os Negros dos guetos americanos ou os imigrantes mais destituídos em diversos países – ou de certos nichos sociais, entregues ao arbítrio absoluto de um chefe, grande ou pequeno, encontradiços, com muito maior frequência do que se poderia acreditar, no coração de empresas privadas ou mesmo públicas.” (p. 280)

Enfatiza-se aqui o estigma, que Kafka decerto conheceu na pele ao viver em um gueto judeu de Praga e que retrata em sua obra com conhecimento de causa, com experiência visceralmente adquirida em suas vivências. Os personagens kafkianos estão com frequência colocados numa posição de oprimidos, e isto às vezes é descrito pela pena de Kafka com imagens de impacto, como a do macaco de Relatório a uma Academia, preso em uma jaula minúscula, que não permite que ele fique de pé nem que se deite a contento. Esta situação de extremo incômodo físico, que vincula-se necessariamente também a uma posição psicológica beirando a insuportabilidade, serve como motivo para a ação no mundo kafkiano. Josef K., ao ver-se enredado pelo processo, age como uma mosca que tenta se desenredar da teia da tarântula.

O “jogo” sinistro que Josef K. começa a jogar assim que acorda, naquela manhã que inicia o romance, em que descobre que está sendo movido contra ele um processo, é descrito por Bourdieu como algo que acarreta uma experiência do tempo marcada pela extrema imprevisibilidade. “Esse jogo se caracteriza por um grau muito elevado de imprevisibilidade: não se pode confiar em nada. (…) Pode-se esperar tudo; o pior nunca está fora de cogitação. Não é por acaso que a instituição ordinariamente incumbida de limitar o arbítrio, o tribunal, também seja, neste caso, o lugar por excelência do arbítrio, que se afirma como tal, sem sequer se dar ao trabalho de dissimular. Por exemplo, o tribunal censura pelo atraso quando ele mesmo está sempre atrasado, fazendo pouco do princípio segundo o qual a regra também se aplica àquele que a edita…” (p. 281)

A existência de Josef K. parece despencar no maelstrom de um sistema de poder um tanto caótico, desorganizado, burocrático mas ineficaz, pesadelo tragi-cômico ironizado por Terry Gilliam em sua distopia cinematográfica Brazil. No caso de K., o desenlace é mais trágico do que cômico – e Kafka, que tinha predileção por metáforas animais, compara a sua morte à de um cão. Neste mundo social de “desordem instituída”, como escreve Bourdieu, “cada um encontra-se aí enredado sem defesa (como K. ou como os subproletários) nas formas mais brutais de manipulação dos temores e das expectativas.” (p. 282)

Com a experiência sociológica e antropológica que adquiriu nos anos em que viveu na Argélia dos anos 1960, Pierre Bourdieu estabelece um paralelo entre o Josef K. kafkiano e aqueles que chama de “subproletários”. “Existe uma categoria no mundo social, a dos subproletários”, escreve Bourdieu nas Meditações Pascalianas, que tem a “experiência mais ou menos durável da mais total impotência: tal como foi observado pelos psicólogos, o aniquilamento das oportunidades associado às situações de crise acarreta o aniquilamento das defesas psicológicas e, nesse caso, envolve uma espécie de desorganização generalizada e durável da conduta e do pensamento por força do desmoronamento de qualquer perspectiva coerente de futuro. (…) Após ouvir os subproletários, desempregados argelinos dos anos 1960 ou adolescentes sem futuro dos grandes conjuntos urbanos dos anos 1990, pode-se descobrir a mesma impotência, aniquiladora de potencialidades…” (p. 271)

O desemprego e a impotência, que Bourdieu enxerga como presentes na condição subproletária, acarreta uma experiência do mundo e do tempo que é sentida pelo sujeito como sem-sentido. “Com seu trabalho, os desempregados perderam os milhares de coisas nas quais se realiza e se manifesta concretamente uma função socialmente conhecida e reconhecida, ou seja, exigências e urgências – encontros ‘importantes’, trabalhos para enviar, cheques a remeter, orçamentos a preparar -, e todo o futuro já contido no presente imediato, sob forma de prazos, datas e horários a respeitar – horário do ônibus, cadências a cumprir, trabalhos para concluir… Privados desse universo objetivo de incitações e indicações que orientam e estimulam a ação e, por conseguinte, toda a vida social, eles só conseguem viver o tempo livre que lhes é deixado como tempo morto, tempo para nada, esvaziado de qualquer sentido.” (271)

“Excluídos do jogo, esses homens destituídos da ilusão vital de ter uma função ou uma missão, de ter que ser ou fazer alguma coisa, podem, para escapar ao não-tempo de uma vida onde não acontece nada e da qual não se pode esperar nada, e para se sentir existir, recorrer a atividades as quais, como as apostas no jóquei, a loteria esportiva, o jogo do bicho, e os demais jogos de azar em todos os bairros miseráveis e favelas do mundo, permitem desguiar do tempo anulado de uma vida sem justificativa… Para tentar se livrar do sentimento, tão bem expresso pelos subproletários argelinos, de ser o joguete de constrições externas (“sou como uma casca boiando n’água”), e tentar romper com a submissão fatalista às forças do mundo, também podem, sobretudo os mais jovens, buscar em atos de violência que valem em si mesmos até mais – ou tanto quanto – do que os ganhos que proporcionam, ou em jogos de morte com a moto ou o carro, um meio desesperado de existir diante do outros, para os outros, de ter acesso a uma forma reconhecida de existência social, ou simplesmente, de fazer com que aconteça algo em lugar de nada.” (272)

Tanto que, evocando O Jogador de Dostoiévski, Bourdieu destaca que um dos maiores atrativos e charmes da roleta – e outros jogos-de-azar onde aposta-se dinheiro – é a possibilidade de uma ascensão social súbita, “milagrosa”, que dispensa o trabalho, pegando um atalho direto para a riqueza e a acumulação. Bourdieu decerto não está sendo simplista a ponto de afirmar que o tedium vitae e o nonsense são as únicas possibilidades existenciais para aqueles – como os subproletários – que não estão inseridos no mercado de trabalho. O modo-de-vida dos subproletários “se contrapõe igualmente à skholè, tempo empregado livremente com finalidades livremente escolhidas e gratuitas que, como nos casos do intelectual e do artista, podem ser aquelas de um trabalho, mas libertado, em seu ritmo, seu momento e sua duração, de qualquer constrição externa e, em particular, daquela que se impõe por intermédio da sanção monetária direta. Quando da invenção da vida de artista como vida boêmia, dando continuidade à vida de pintor ou de estudante, elabora-se essa temporalidade de contornos fluidos, ignorando os horários e a urgência (a não ser aquela que cada um impõe a si mesmo), relação com o tempo encarnada na disposição poética como pura disponibilidade diante do mundo, fundada, na verdade, na distância em relação ao mundo e a todas as preocupações medíocres da existência comum das pessoas comuns…” (274)

A “identificação instintiva com os oprimidos” que, na opinião do biógrafo de Kafka, Ernst Pawel, é uma das marca do modo-de-estar-no-mundo do autor de A Metamorfose, não deve ser compreendida como uma efetiva pertença de classe. Franz Kafka não pertencia de fato a esta classe denominada por Bourdieu “subproletariado” – Doutor em Direito, com um emprego estável no Instituto, e além do mais artista cujo tempo vital incluía não somente o domínio do labor mas também o da skholè, Kafka, no entanto, criou uma obra marcada pela reflexão sobre estratos sociais estigmatizados, perseguidos, oprimidos. Sua posição como judeu vivendo em um gueto de Praga em tempos de anti-semitismo, além de sua posição como filho que sentia-se diminuído e oprimido por um pai bruto e autoritário, condicionaram sua sensibilidade de modo a capacitá-lo a descrever, em sua obra, o labirinto vital daqueles que não encontram reconhecimento social.

“Convém retornar a Josef K. A incerteza em que ele se encontra a respeito do futuro não passa de uma outra forma de incerteza a propósito do que ele é, de seu ser social, de sua ‘identidade’, como se diria hoje; destituído do poder de dar sentido, no duplo sentido, à sua vida, de nomear a significação e a direção de sua existência, ele está condenado a viver num tempo orientado pelos outros, alienado. Eis, exatamente, em que consiste o destino de todos os dominados, obrigados a esperar tudo dos outros, detentores do poder sobre o jogo e sobre a esperança objetiva e subjetiva de ganhos que pode proporcionar, logo mestres em jogar com a angústia que nasce inevitavelmente da tensão entre a intensidade da espera e a improbabilidade da satisfação.” (BOURDIEU: p. 290)

Em outras palavras: K., engolfado pelo Processo, não pode mais dispor de seu próprio tempo, que é dominado pelo tribunal, pelas audiências a que tem que comparecer, pelas informações sobre seu caso que precisa conquistar, pela defesa que é mister empreender. Esta experiência de tempo kafkiana, em que o futuro é incerto e a possibilidade do pior está sempre aberta, é compreendida por Bourdieu como decorrente de uma certa posição social onde a justificação de uma existência particular perde sua sustentação. A existência singular de Josef K. “se mostra questionada em seu ser social mediante a calúnia inicial, espécie de pecado original sem origem, como o estigma racista” (BOURDIEU: p. 290).

Novamente, como é comum quando exploramos a obra kafkiana, retornamos à questão do estigma, uma espécie de tatuagem negativa imposta por certos grupos sociais, muitas vezes movidos por racismo, xenofobia, anti-semitismo etc., e imposto a certos grupos sociais que são estigmatizados, marginalizados, limitados em sua liberdade, ou mesmo exterminados de modo brutal. O III Reich, quando impõe que os judeus portem a estrela de Davi no peito, de certo modo estigmatiza de modo semelhante ao que faz um fazendeiro que marca seu gado com ferro fervente. A obra de Kafka contêm prenúncios dos horrores que ocorreriam na Europa dos anos 1930 e 1940, e cujas raízes já se encontravam no espaço social em que Kafka viveu – cabe lembrar que todas as suas irmãs morreram em campos de concentração e que o próprio Kafka, se não tivesse morrido tão cedo (aos 40 anos de idade, vítima da tuberculose), muito provavelmente também teria sido perseguido pelos nazistas. Talvez se possa, portanto, compreender em uma perspectiva mais ampla o problema da calúnia que Josef K. sente que lhe foi cometida: mais do que mera maledicência dirigida contra uma pessoa em particular, esta calúnia talvez seja o índice de uma prática social mais disseminada e consiste em estigmatizar todo um grupo social que se deseja, assim, marginalizar ou até aniquilar.

O pensamento de Bourdieu reconhece nos indivíduos um anseio por justificação, uma vontade de “sentir-se justificado por existir tal como existe”, e é justamente isto que é negado a K. pelo estigma calunioso que lhe é imposto. O “universo afetivo” de K. pode ser compreendido como uma representação da posição existencial do oprimido, do dominado, do estigmatizado, que sente que os poderes dominantes da sociedade se voltam contra ele, como naqueles pesadelos onde as paredes da cela vão estreitando até esmagar o sujeito. Conforme acompanhamos a narrativa d’ O Processo, sentimos que, para Josef K., the walls are always closing in.

“Ninguém pode proclamar verdadeiramente, nem diante dos outros, e muito menos diante de si mesmo, que ‘dispensa qualquer justificação’. Ora, se Deus está morto, a quem pedir tal justificação? Resta apenas o julgamento dos outros, princípio decisivo de incerteza e insegurança, mas também, e sem que haja contradição, de certeza, segurança, consagração. Ninguém – salvo Proust, embora num registro menos trágico – soube evocar como Kafka o confronto de pontos de vista inconciliáveis, de juízos particulares com pretensões à universalidade, o enfrentamento permanente entre a suspeita e o desmentido, a maledicência e o louvor, a calúnia e a reabilitação, terrível jogo de sociedade em que se elabora o veredicto do mundo social, esse produto inexorável do juízo inominável dos outros. (…) Josef K., inocente caluniado, obstina-se em buscar o ponto de vista dos pontos de vista, o tribunal supremo, a última instância. (…) E a questão do veredicto, juízo solenemente proferido por uma autoridade capaz de dizer de cada um o que se é na verdade, retorna ao fim do romance, por meio das interrogações finais de Josef. K.: ‘Onde estava o juiz que ele jamais vira? Onde era o tribunal supremo ao qual ele nunca tivera acesso?’” (BOURDIEU: 291)

Em O Processo, Deus, se existe, cala-se e esconde-se. Nenhum veredito cai do céu. O veredito é produto inteiramente social, e Josef K. sabe que seu destino depende deste veredito nascido de uma caótica, burocratizada e persecutória maquinaria social. Bourdieu, inspirado nas meditações de Pascal, julga, sobre a finitude da existência humana: “ainda que seja a única coisa certa na vida, fazemos tudo para esquecê-la, atirando-nos ao divertimento ou buscando refúgio na sociedade”. E é justamente “o mundo social que oferece aos humanos aquilo de que eles são inteiramente destituídos: uma justificativa para existir.” (pg. 292) Em outros termos: a finita existência humana só adquire justificação e sentido a partir de um reconhecimento social que delegue ao sujeito a crença em seu próprio valor como alguém que serve para algo, como alguém que desempenha alguma função social reconhecida e aplaudida pelos outros. Os subproletários, os judeus perseguidos, os negros do guetos americanos, assim como os personagens kafkianos, são todos exemplos, para Bourdieu, de existências que vivem na falta deste reconhecimento social indispensável para que o sujeito sinta que sua vida tem sentido.

“Pode-se estabelecer um vínculo necessário entre três fatos antropológicos indiscutíveis e indissociáveis: o homem é e sabe que é mortal, a idéia de que vai morrer lhe é insuportável ou impossível e, condenado à morte, fim (no sentido de termo) que não pode ser tomado como fim (no sentido de meta), o homem é um ser sem razão de ser, tomado pela necessidade de justificação, de legitimação, de reconhecimento. Ora, como sugere Pascal, nessa busca de justificativas para existir, o que ele chama ‘o mundo’, ou ‘a sociedade’, é a única instância capaz de fazer concorrência ao recurso a Deus.” (BOURDIEU, 293)

Uma das originalidades do pensamento sociológico de Bourdieu é destacar que as desigualdades sociais, em termos de distribuição de capital e propriedade, acarretam também uma desigualdade nas justificações para existir:

“Dentre todas as distribuições, uma das mais desiguais e, em todo caso, a mais cruel, é decerto a repartição do capital simbólico, ou seja, da importância social e das razões de viver. Sabe-se, por exemplo, que até mesmo os cuidados e tratos prestados pelas instituições e agentes hospitalares aos moribundos são proporcionais à sua importância social, ainda que de maneira mais inconsciente do que consciente. Na hierarquia das dignidades e indignidades, que nunca se superpõe inteiramente à hierarquia das riquezas e dos poderes, o nobre, em sua variante tradicional, ou em sua forma moderna – o que denomino nobreza de Estado -, contrapõe-se ao pária estigmatizado o qual, a exemplo do Judeu da época de Kafka, ou, hoje, o Negro dos guetos, o Árabe ou o Turco dos subúrbios operários das cidades européis, carrega a maldição de um capital simbólico negativo. (…) Não existe pior esbulho, pior privação, talvez, do que a dos derrotados na luta simbólica pelo reconhecimento, pelo acesso a um ser social socialmente reconhecido, ou seja, numa palavra, à humanidade.” (BOURDIEU, p. 295)

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Kafka por Robert Crumb

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENJAMIN, Walter. Franz Kafka: A Propósito do décimo aniversário de sua morte.

BOURDIEU, Pierre. Meditações Pascalianas.

CLASTRES, Pierre. Arqueologia da ViolênciaA sociedade contra o Estado.

CRUMB, Robert. Kafka. 

KAFKA. O Processo A Colônia Penal.

LÖWY, Michael. Kafka: Sonhador Insubmisso.

PAWEL, Ersnt. O Pesadelo da Razão. 

TODOROV, Tzvetan. Em Face do Extremo.