UM PRESIDENTE ENFEZADO – por Jardineiro Agroecológico || A Casa de Vidro

Quando mais um jornalista tenta fazer seu trabalho, e pergunta ao presidente sobre a fundamental conciliação entre crescimento econômico e preservação ambiental, de forma inimaginável em situações normais de sanidade e educação,  ele ataca o jornalista, falando para cagar dia sim, dia não, para poluir menos. Uma brincadeira incabível vinda da boca de um presidente, que desvia uma discussão importante para a mais vil das baixarias.

O ano de 2019 no Brasil inaugurou um gênero raro de análises políticas que chamo de “psicanálise política”. Nunca os psicólogos tiveram um papel tão fundamental na política. Afinal de contas, como não ver as atitudes do presidente sem notar que ele acumula complexos (ego inflado [1], pulsão anal-sádica [2], recalcamento da sexualidade com consequências fascistas [3]) mal lidados e transmitidos aos seus filhos?

Ao fazer uma brincadeira de que a solução para reduzir a poluição estaria em cagar a cada dois dias, Bolsonaro demonstra a forma como ele lida com seu sistema digestório. Com sua agressividade, ele se encaixa perfeitamente na situação do “enfezado”. Este termo, proveniente de “fezes”, demonstra em sua etimologia um conhecimento popular que é reforçado por conhecimentos científicos: Quem acumula suas fezes sofre de mau humor!

O Intestino delgado, com cerca de 6 metros, e o intestino grosso, com 1,5 metros, juntos tem realmente uma grande capacidade de produzir e armazenar bolo fecal. Mas estes órgãos não foram feitos para armazenar. Primeiramente, porque têm o formato de um corredor estreito e depois porque a deposição de fezes obstrui a passagem, atrapalha o movimento peristáltico, e esse contato maior com o bolo fecal faz com que as paredes reabsorvam toxinas das fezes. Essa alteração do funcionamento digestivo tem diversas consequências negativas para a saúde, das quais o mau humor é apenas uma delas.

Um presidente constipado, com uma obsessão especial pelo orifício final do intestino grosso, mais uma vez brinca com  a questão ambiental. Uma brincadeira infeliz que me lembra uma aula da graduação em que meu professor conta a história do vaso sanitário. O vaso sanitário como conhecemos hoje foi inventado pelo neto da Rainha Elizabeth I no século XVI com o objetivo de se sentar para defecar. O problema é que, anatomicamente, a postura de cócoras é a que mais propicia os movimentos peristálticos, responsáveis pela evacuação. Portanto, dos vários problemas que as populações tradicionais sofrem, a prisão de ventre não está entre eles. O colonialismo é que é enfezado.

Após fazer a piada, o presidente aparentemente retoma seu ar de seriedade e fala que para conciliar crescimento econômico e preservação ambiental é preciso uma política de pla – planejamento familiar (sic), ressaltando a regra de que pessoas que tem mais cultura têm menos filhos, e que ele é uma exceção. Malthus acabou de ser revivido em sua versão piorada dois séculos depois. Mas porquê?

Thomas Malthus previu que a população mundial cresceria em progressão geométrica enquanto a produção de alimentos cresceria em progressão aritmética, resultando em uma fome mundial. Para os dados e tendências de sua época, sua preocupação era sensata. Apesar disso, ele errou pois não havia previsto o aumento de produtividade agrícola da forma como ocorreu.

Mas o fato curioso é que Malthus

“defendeu a abstinência sexual para reduzir a produção de novas bocas. Dentro da tradição de muitos moralistas modernos, não sentiu nenhuma compulsão de inibir a si mesmo e teve muitos filhos. A continência era, ao contrário, uma coisa a ser praticada pelos outros, para que os filhos e netos de Malthus pudessem viver num mundo ordeiro e bem alimentado. ”

(O Espectro de Darwin, Michael Rose, Zahar, 2000)

Como Bolsonaro não leu Paulo Freire, ele não vê que “é fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática”. Para Bolsonaro, a hipocrisia é uma opção ontológica. Por isso, seguindo a fraca lógica do presidente, ele não é a exceção à regra de que quem tem mais filhos tem menos cultura. Ele, com seus 5 filhos, é a regra.

O problema de Bolsonaro é que nem sua argumentação malthusiana ele se empenha em defender com profundidade. Hoje, um americano de classe média consome o equivalente a   mais de 20 chineses. Os EUA, que nosso presidente tanto idolatra, detém 5% da população mundial, contribui com 36% das emissões de gases de efeito estufa e consome 25% da energia mundial [4].

Portanto, para a China, o planejamento familiar (e especificamente o controle populacional) é parte fundamental da solução ambiental. Da mesma forma que, para os EUA, a solução passa por reduzir o consumo, produzir de forma mais sustentável e produtos mais duráveis.  No caso do Brasil, a centralidade desta discussão está em parar o desmatamento que esse governo incentiva, reduzir o fosso da desigualdade social, que provoca tantas injustiças socioambientais, reestruturar a produção nacional para mudar o papel brasileiro de vendedor de matérias-primas, que minera as montanhas para a retirada de metais, que minera o solo [5] para a retirada de commodities, e que deixa para o brasileiro o mar de lama, os desertos verdes, a fuligem e o veneno.

Jardineiro Agroecológico || A Casa de Vidro (11/09/2019)

NOTAS

[1] https://www.diariodocentrodomundo.com.br/saude-mental-de-bolsonaro-esta-em-risco-e-consequencias-podem-ser-muito-negativas-diz-psicologo-por-jose-cassio/

[2] https://www.ufrgs.br/psicopatologia/neurose_obsessiva/caludia_ferrari.htm

[3] https://www.vice.com/pt_br/article/nzjeyd/o-assassinato-cientifico-de-um-revolucionario-sexual-como-os-eua-interromperam-a-utopia-orgasmica-de-wilhelm-reich

[4] Ronaldo Gusmão. O insustentável consumo norte-americano. http://www.techoje.com.br/site/techoje/categoria/detalhe_artigo/11

[5] Ana Primavesi, maior expoente da agroecologia no Brasil, se refere à prática agrícola do agronegócio como mineração do solo. A técnica de fertilização química, fruto da mineração, é aplicada no plantio homogêneo de extensas áreas de solo exposto (como na mineração), com uso intensivo de maquinário pesado e elementos tóxicos (como na mineração). Ver Manual do Solo Vivo, Ed. Expressão Popular. 2016.

 

EXPLORE TAMBÉM: