CONTRACULTURAS: Laboratórios de outras formas de existir – Sobre o legado de Luiz Carlos Maciel

“A liberdade se dá como conquista porque só existe como empenho de libertação”, escreve Luiz Carlos Maciel (1938 – 2017) em seu texto Ontologia da Liberdade (RJ: 2014, p. 268). Nenhuma liberdade cairá do céu, chovendo de graça no colo de quem nada fez por ela. Pois toda liberdade é conquistada por aqueles que estão empenhados no trampo infindável de libert-ação. 

Eis uma das lições de Maciel, cognominado “Guru da Contracultura” no Brasil. Um cara que foi figura-chave na determinação dos destinos da cultura brasileira na segunda metade do séc. XX, em especial por seu envolvimento intenso com a Tropicália. Descrita como fruto da “necessidade de uma arte popular de ponta, de caráter internacionalista”, a “rebelião tropicalista” é compreendida por ele não apenas como “uma estética de vanguarda”, mas como um movimento que “ofereceu uma nova visão da chamada ‘realidade brasileira’, sem as limitações ideológicas tradicionais” (MACIEL, 2014, p. 165).

Para resistir aos encantos nefastos e paralisadores das ideologias reinantes, que nos querem adestrar para conformismos indignos e vidas fúteis-inúteis, é preciso aprender nas escolas de transgressão e subversão. Com hippies e punks, com beatniks griots, com MCs e rastafaris, temos muito a aprender. Desde que queiramos cumprir a imanente missão que anima tantas vidas cujas criações culturais vão contra a corrente.

“Minha geração”, escreve Maciel, “foi marcada pela política. Achávamos que tínhamos a missão sagrada de libertar nosso país da dominação, nosso povo da exploração, nossas vidas da neurose e nosso planeta da catástrofe. E o meio adequado para atingir tais objetivos era a política. Pelo menos, foi isso o que Sartre nos ensinou.” (Geração em transe, memórias do tempo do tropicalismo,pg. 25 e 26)

Na aprendizagem com as vidas que saíram dos eixos, que deixaram-nos como legado o exemplo de suas singularidades inimitáveis, podemos nos libertar. Como só o fazem aqueles que, ao se moverem, sentem-se as correntes que os prendem – para lembrar um pensamento emblemático da Rosa Luxemburgo.

As contraculturas nos ensinam a sermos nós mesmos, para não decairmos ao status triste de indivíduos que se tornam ovelhas brancas nos alvos rebanhos das conformidades estúpidas. Nenhum mérito ou valor no ethos de quem somente faz mímese do que a sociedade impõe como modelo dominante. As contraculturas, como na música celebrizada por Doralyce e Bia Ferreira, nos ensinam a levantar a voz dizendo “foda-se o padrão!”

Maciel produziu uma obra magistral em que é capaz de interlocução intensa com tudo o que já existiu de mais libertário naquilo que o ser humano já produziu sob O Sol da Liberdade, título de seu belo livro publicado em 2014. Em intenso diálogo com o Existencialismo (Sartre, Camus, Kierkegaard, filtrados por seu mestre Gerd Borheim), Maciel foi também um discutidor e disseminador da Psicologia subversiva de W. Reich, H. Marcuse e Norman O. Brown. Além de ter mergulhado nas obras de visionários psicodélicos como Timothy Leary, Alan Watts e Carlos Castañeda. Tudo isso em íntima conexão com aquilo que o Brasil produziu de melhor no campo das culturas que vão contra a corrente.
 
Da Antropofagia oswaldiana à Tropicália, as Contraculturas brasileiras difundiram o convite para que fôssemos, todos e cada um, singulares e conectíveis,mas jamais uniformizados e em uníssono. Se quisermos ser avessos e contrários aos que nos querem rezando de joelhos, resignados às injustiças e apáticos suportadores de tiranias, devemos beber em largos goles as fortes e salutares poções contraculturais.

As diferentes contraculturas – que merecem ser pensadas sempre no plural, nunca no singular – são laboratórios de outras formas-de-existir, outros modos-de-ser. Se, nos EUA, costumamos conectar contracultura com “gurus” como Allen Ginsberg e Ken Kesey, no Brasil poucas figuras são mais emblemáticas desse modo-de-existir da contraculturalidade  do que Luiz Carlos Maciel – um cara que pôde transformar um livro de memórias, como é Geração em Transe, em uma espécie de tratado estético-político para a cultura contrahegemônica em terra brasilis.

Neste livro magistral, focando sua atenção sobre 3 gênios, Maciel sobrevoa nossa contracultura nas asas de Glauber Rocha, Zé Celso Martinez Correa e Caetano Veloso. E acaba pintando um excitante retrato das transas e transes de toda uma geração que acreditava de maneira entusiástica nas potências libertárias, emancipatórias e revolucionárias da arte:

Luiz Carlos Maciel (1938 – 2017)

“Uma das descobertas fundamentais de minha geração foi a de que a experiência pessoal, de cada um de nós, tem uma relação íntima, essencial, com a experiência coletiva, social. Trata-se, no mínimo, de uma relação de sincronicidade, como diria C. G. Jung, que fez com que a minha vida e a vida de todos, a vida comum, tivessem sido interdependentes. Numa visão mais radical, pode-se dizer que se trata, no fundo, de uma relação de pura identidade: a vida de todos e a de cada um são, na verdade, uma e a mesma coisa.  

Se alguém pedisse para dizer a principal crença da juventude da minha geração, eu diria sem titubear: a atribuição à arte de uma função transformadora da sociedade. Acreditava-se realmente que a arte poderia modificar a maneira das pessoas viverem. Essa crença impulsionou a minha geração e levou-a para caminhos inusitados, surpreendentes, criadores.

Os jovens daquela época pensavam que o sentido da vida humana era transformar. O quê? De preferência, tudo, mas principalmente o que estava estabelecido pela nossa cultura ocidental e burguesa. O não ao establishment se refletia em posturas iconoclastas, em negativas irreverentes, em atitudes inovadoras – às quais atribuíamos um grande valor. A arte colocava a mudança na ordem do dia.” (MACIEL, Geração em Transe – memórias do tempo do tropicalismo, Ed. Nova Fronteira. pg. 15  e 73.)

Glauber Rocha, como fica evidente desde o título do livro, é um dos protagonistas de Geração em Transe, encarnação do gênio contracultural que seguia a risca a práxis sintetizada no lema: “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.” Para Glauber, fazer filmes importa bem mais que somente assisti-los. Ainda que tenha sido também um crítico de cinema, Glauber era essencialmente um criador cinematográfico, um dos maiores inovadores na história da 7ª arte, um espírito indomável, jamais adestrável, declarado como inimigo público pela Ditadura Militar – tal como revelado pela reportagem da Socialista Morena Cynara Menezes:

Glauber – cuja juventude foi exposta com maestria por Nelson Motta em A Primavera do Dragão – propunha de modo explícito um cinema de guerrilha que tivesse como alvo supremo “combater a ditadura estética e econômica do cinema imperialista ocidental ou do cinema demagógico socialista.” (citado por Maciel, p. 49)

A recusa desses dois modelos – nem os filmes Yankees, nem os filmes Stalinistas – fez de Glauber o aventureiro que cria caminhos próprios e marca a história de nossa arte com 20 e poucos anos de idade ao lançar a tríade magnífica de filmes com que lançou seu metereórica carreira: Barravento, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe.

Maciel relembra seu amigo e colaborador como um cara de personalidade forte e irreverente, que sabia dar ordens com determinação aos outros atores e agentes culturais com quem interagiu. O livro é repleto de crônicas saborosas que envolvem figuras como Helena Ignez, musa glauberiana e Glamour Girl da Bahia, que enquanto noiva do cineasta contrabandeava material escrito por Glauber para a imprensa, já que ela era colunista social do Diário de Notícias de Salvador.

O florescimento cultural conexo às figuras de Glauber, Helena, Maciel, Abujamra etc. envolve um entusiasmo infatigável pela produção ou criação do novo –  o que demanda não só talento mas coragem.   Sabendo da imensa força cultural da Bahia de seu tempo, o jovem Glauber foi uma espécie de visionário da Tropicália antes desta nascer: segundo Maciel, “Glauber anteviu tudo com suas privilegiadas antenas de artista.” (p. 55)

Segundo Maciel, Glauber “botava todo mundo pra trabalhar” e “não podia suportar a complacência, a indulgência, a inação” (p. 91). Acreditava no cinema como forma de ação – e foi assim que ajudou a pôr em transe criativo toda uma geração. Uma das mais corajosas, ousadas e inventivas que já botou em efervescência a cultura brasileira. 

Hoje já é bem conhecida a responsabilidade de Glauber na eclosão da revolução estética tropicalista, cujos cabeças beberam muito na experiência de Terra em Transe (1967). Segundo Maciel, 1967 foi de fato um “ano excepcional na história da cultura brasileira, só comparável a 1922, com a eclosão do Modernismo” (2014. p. 143).

Naquela translação do planeta ao redor do Sol de 1967, em plena Ditadura Militar, também eclodiram O Rei da Vela, peça do Teatro Oficina atualizando Oswald de Andrade, PanAmérica, romance experimental de José Agrippino de Paulo, e a canção “Tropicália” de Caetano Veloso, batizada em homenagem à exposição de Hélio Oiticica e que batizaria o movimento nascente.

Comentando um livro crucial, Maciel aponta: “Para os norte-americanos Ken Goffman e Dan Joy, em A Contracultura Através Dos Tempos (2007), a nossa Tropicália é uma contracultura. Como a contracultura norte-americana, o Tropicalismo enfrentou a censura política, tanto da direita quanto da esquerda, os preconceitos morais gerados pela repressão sexual, os cânones rígidos da estética tradicional, entre outros – em suma, o establishment, em seus traços essenciais -, a alienação, a reificação e a serialização.” (2014: p. 274)

Para que pudesse produzir inovação e criatividade em intensos jorros durante seu curto período de vida, antes de ser “abatida em pleno vôo pelo A.I. 5” (como diz Tárik de Souza), a Revolução Tropicalista apostou tudo na criação baseada na mestiçagem, no hibridismo, no sincretismo, no amálgama, processos distanciados de todos os purismos e puritanismos que sempre prejudicam o nosso empenho libertário e criativo. 

Jorge Mautner (baixe a discografia dele) enfatiza o caráter de amálgama para definir a própria natureza da cultura brasileira e de sua criação incessante. A relação entre o modernismo de 1922 e o tropicalismo de 1967, por exemplo, é reveladora. A Tropicália, nítido exemplo de amálgama superior expressa o próprio espírito dessa cultura, sua liberdade real. Caetano Veloso diz que os Manifestos Pau-Brasil e Antropófago, de Oswald de Andrade, foram ‘uma redescoberta e uma fundação do Brasil’. E destaca, nos textos de Oswald, a antropofagia como uma metáfora da devoração de toda informação vinda de fora, a exemplo da deglutição do bispo Sardinha por nossos índios, e, portanto, do próprio fundamento da nossa nacionalidade. 

Os manifestos de Oswald teorizam, pela primeira vez, o sincretismo brasileiro como a expressão mais plena da índole da cultura que estamos construindo. Ainda segundo Caetano, ‘a palavra-chave para entender o tropicalismo é o sincretismo’, ou seja, o amálgama de Mautner. Emancipado de coações naturais e históricas, independente em face de censuras, preconceitos e cânones, o sincretismo, não só o tropicalista, mas do brasileiro em geral, é liberdade real. 

Mesmo o primeiro que se apresenta, o sincretismo religioso brasileiro só foi possível graças à nossa vocação originária para a liberdade real. A umbanda é uma invenção brasileira que funde orixás africanos e santos católicos; as seitas criadas para a ingestão da ayahuasca são outra invenção brasileira que tem raízes ideológicas no catecismo católico, mas transformadas por uma mitologia indígena. A união entre as duas correntes, no que alguns chamam de Umbandaime, em que giras de umbanda são realizadas tendo o daime como curiador, parece culminar o sincretismo religioso brasileiro. 

O avanço do processo cultural brasileiro depende, direta e essencialmente, do sincretismo e, portanto, da liberdade real.” (MACIEL: 2014, p. 275 – 276)

 

Por Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 2019

 

VÍDEOS RECOMENDADOS:





Orquestras nas Favelas: Desafios da inclusão cultural e da educação democratizada são retratados no filme “Tudo Que Aprendemos Juntos” (2015), de Sergio Machado

“Tudo que Aprendemos Juntos” (2015), do cineasta baiano Sergio Machado, estrelado por Lázaro Ramos e com participações dos rappers Criolo e RAPPIN HOOD, elege o ensino da Música numa comunidade desfavorecida pela Fortuna como premissa para explorar as fraturas e desafios da sociedade brasileira, enxergada através de um de seus microcosmos-em-convulsão: a favela de Heliópolis (SP).

O filme centra sua narrativa no professor de violino Laerte, considerado em sua infância como um músico prodígio, de ascensão meteórica, transformado em educador “durão” e não muito paciente.

Ele realiza aventuras pedagógicas na favela trampando para uma ONG: sua missão é conduzir alunos que não sabem ler partituras, e que estão mais acostumados com os bailes funk e os rappers do que com as composições de Beethoven, a se tornarem uma autêntica orquestra de música clássica.


Enquanto avança neste trampo desafiador em que entra em contato com uma série de mazelas sociais que afligem seu alunado, Laerte esforça-se para passar em um prestigioso concurso que lhe abriria as portas para tocar na Osesp – Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

A crítica de Omelete destaca:

“Audacioso quando o assunto é Paganini, mas temeroso frente à dificuldade dos acordes de Bach, Laerte cresceu pobre na Bahia e teve chance de estudar violino quando pequeno com o apoio do pai (expresso apenas na voz de Milton Gonçalves).

Figuras como ele são frutos do redesenho sociológico do Brasil tracejado a partir da eleição de Luiz Inácio Lula a Silva em novembro de 2002: ele é conseqüência de um rearranjo da pirâmide social do país, com o desequilíbrio da classe média e a ascensão das parcelas C e D da pirâmide populacional.

Com o acesso destas ao consumo, elas passaram a se subjetivar aos olhos da arte, sobretudo do cinema, que deixou de ver essas classes apenas quantitativamente, como números de censo, e passou a vê-las sob um prisma qualitativo, entendo suas angústias suas necessidades. Dessa operação surgiram personagens como a doméstica Val, vivida por Regina Casé em ‘Que Horas Ela Volta?’, de Anna Muylaert. Val e Laerte têm, portanto, uma parentela sociológica.”

O filme de Sergio Machado foi inspirado na história real de criação da Orquestra Sinfônica de Heliópolis pelo Instituto Bacarelli e baseado na peça “Acorda Brasil” de  Antônio Ermírio de Morais. A grande imprensa já destacou a iniciativa: como nesta matéria de VEJA que fala na “beleza altissonante” deste projeto e o evidencia com “reportagem fotográfica que mostra a revolução que o projeto do Instituto Baccarelli tem promovido na vida de jovens da favela”.

Fotos: Ricardo Matsukawa

O filme revela as dificuldades e desafios de um professor que busca orquestrar alunos envolvidos no cenário dificultoso das periferias onde a violência policial, as gangues do narcotráfico, os atalhos criminosos para a grana fácil (como a clonagem de cartões de crédito), dentre outras tretas, parecem tornar altamente improvável o sucesso de uma Orquestra Clássica da Perifa. Apesar dos perrengues, estes batalhadores da ralé (para emprestar expressões do sociólogo Jessé Souza) vão longe. Ainda que muitos tenham suas asas cortadas. A tiros.

Na resenha de Plano Crítico, destaca-se que este “filme de inclusão”, de tom “engajante”, traz os cidadãos favelados em uma vibe em que são revelados em todo o seu potencial para o extraordinário – como é o caso de Samuel, adolescente ultra-talentoso no violino, talvez destinado à glória, mas que tem sua vida ceifada prematuramente pela violência urbana:

“O ambiente de favela (ou comunidade), em geral ligado a um estilo musical como o funk ou o pagode é “invadido” pelo clássico e Sérgio Machado o faz de forma poética e orgânica, quebrando o tabu de que tais melodias são excludentes e reservadas apenas a pessoas de maior poder aquisitivo. A cultura pode, sim, atingir a todos e o clássico ganha ainda um caráter único por resgatar no interior de cada um sentimentos muito específicos.”

Acusado pela Ilustrada da Folha de São Paulo de “otimismo” em demasia, o que o tornaria “inverossímil”, o filme na verdade é bastante realista, de tom emocional bem lúcido. Mostra com uma boa dose de pessimismo, no destino de Samuel, a aniquilação brutal de jovens negros promissores que não conseguem romper as muitas barreiras que o racismo e a injustiça de classe interpõe a seus caminhos.

Ainda que uma leitura meritocrática possa ser realizada, como se Laerte fosse o emblema do quanto se pode ir longe na vida a partir do próprio mérito, uma outra perspectiva é possível. Uma leitura alternativa à ideologia meritocrática veria no filme o conto trágico sobre as imensas dificuldades que as populações periféricas e faveladas possuem para acessar uma Cultura que nossa sociedade insiste em considerar como privilégio de classe.

Transcendendo o clima de filme-de-entretenimento sobre a escolinha-de-música que marca uma obra como “Escola de Rock” (de R. Linklater), a obra de Sergio Machado atinge sua maior grandeza e intensidade em uma cena particularmente enfurecida em que uma insurreição toma conta de Heliópolis após a polícia assassinar Samuel, o garoto-promessa da turma de música.

Este homicídio estatal de alguém que a comunidade reconhece como inocente e cheio de potencial é descrito no filme como estopim para uma sublevação popular que acarreta um desencadeamento de rebeldias. O levante toma a forma de ônibus incendiados, barricadas improvisadas e violentos conflitos com a polícia, xingada de assassina e cruel – e os “porcos fardados” são aqueles que os moradores tentam expulsar da comunidade como se estivessem numa Intifada Palestina.


É nestas cenas que “Tudo Que Aprendemos Juntos” alça-se à beleza punk e perturbadora de uma outra obra que marca a história recente do cinema paulista, “Riocorrente” de Paulo Sacramento. Dialoga também com o “Jonas” de Lô Politi – que tem na participação em ambos do Criolo, fazendo ponta como ator, um ponto-de-ligação -, obra que se utiliza do Carnaval de São Paulo, e em especial de um carro alegórico que é uma imensa baleia, como cenário onde aninhar um drama incendiário de paixão indomável, sequestro improvisado e esperanças reduzidas a cinzas.


Alguns sonham com um país onde enfim floresçam orquestras nas favelas e escolas de qualidade nos guetos. Alguns colocam-se em ação para a construção coletiva de uma educação mais inclusiva e democrática. O próprio ideal da Cultura Viva de Gilberto Gil e Juca Ferreira, através do revolucionário do-in antropológico que espalhou pontos de cultura interconexos pelo território do país, hoje encontra-se detonado e mal pago pelo Bozonazismo que pilota o Estado feito um ébrio (de ópio, de ódio!) no leme dum Titanic. Aos sonhadores de melhores dias para a educação e a cultura, o presente pode assustar pelo pesadelo pesado de sua distopia: tudo é tão difícil e fica tão emperrado neste país que parece condenado, como dizia Millôr, a ter “um longo passado pela frente”!

Ao fim de Tudo Que Aprendemos Juntos fica na boca, na mente, na ressaca dos olhos, uma confusa resposta à questão que o título coloca: talvez não tenhamos aprendido muito, como país, já que seguimos tombando em velhos erros e insistindo em sórdidos equívocos (como empoderar homens brancos e ricos com tendências autoritárias, ímpetos ditatoriais e idolatrias por torturadores e genocidas…).

Encarnados na expressão e na postura deste magistral artista que é Lázaro Ramos ficam a agridoce e indignante sensação de que, neste país de desigualdades desastrosas e injustiças indignantes, mesmo os mais batalhadores e talentosos muitas vezes acabam triturados e detonados pela Máquina de Desumanização vigente. Quantas Marielles, quantos Samuels, ainda vão ter que morrer?

Os poucos que, saindo do gueto, tornam-se “vencedores” – como Laerte na Osesp – não nos oferecem o consolo edulcorante e enjoativo fornecido pela Meritocracia, ideologia anestesiante propagada por quem está acima na pirâmide social. Estes poucos que vencem nos lembram de que são exceções e não regras, e que as injustiças ancestrais e infelizmente conservadas – como o racismo estrutural – prosseguem tornando a ideologia meritocracia uma piada de mau gosto.

Longe de vivermos a utopia onde triunfam os melhores e mais meritórios, a sensação que sobra é a de um sempre tenso e explosivo conflito entre a Elite do Atraso, ciosa de seus privilégios e que usa a brutalidade da força para defendê-los, e a Massa Excluída, que pastores e políticos desejam convencer à resignação mas que está sempre a um passo da insurreição.

Eduardo Carli de Moraes / A Casa de Vidro

 

SIGA VIAGEM:

PROPOSTA DE OUTROS FILMES PARA DEBATER OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO

  • ELEFANTE / Gus Van Sant
  • A ONDA  / Dennis Gansel
  • CONRACK / Martin Ritt
  • O SUBSTITUTO / Tony Kaye
  • SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS / Peter Weir
  • INHERIT THE WIND / Stanley Kramer