PARA QUE O FASCISMO NÃO SE REPITA! – Por uma educação devotada à auto-reflexão crítica. Notas sobre “Educação Após Auschwitz” de Theodor Adorno.

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ADORNO, T. Educação e Emancipação. Editora Paz e Terra. Download Ebook

“A desumanidade terá um grande futuro…”
PAUL VÁLERY

Os cogumelos atômicos de Hiroshima e Nagasaki. Os campos de concentração e extermínio do III Reich nazista (Auschwitz, na Polônia, o mais célebre deles). As gulags na Sibéria construídas pelo stalinismo soviético. tortura institucionalizada e a execução de adversários políticos nas Ditaduras Militares latino-americanas (rebentos da Doutrina do Choque, exposta no brilhante livro de Naomi Klein e no documentário de M. Winterbootom). Há exemplos em profusão da proliferação de fascismos em nossa história recente. Infelizmente, a barbárie e a violência, o etnocentrismo aniquilador da alteridade, a deflagração dos ódios irracionais, são estrupícios que têm marcado o caminhar da carruagem política da humanidade “ultimamente”. Agir e educar para que o(s) fascismo(s) não se repita(m), eis a missão da época, segundo Adorno.

A tarefa é evitar que as monstruosidades ocorridas no século XX voltem a acontecer. Em “Educação Após Auschwitz” – texto presente no livro Educação e Emancipação (Ed. Paz e Terra) – sentimos que a pena de Adorno indigna-se e geme, lamentando, em temor e tremor, a “persistência da possibilidade de que se repita a monstruosidade” (ADORNO) [1]. Nosso problema real e urgente, na época de Adorno mas também na nossa, é evitar a re-emergência de contextos sociais onde nascem movimentos totalitários, liderados por personalidades autoritárias e cruéis, como foram essas figuras tenebrosas como Hitler, Mussolini, Franco, Pinochet, Stalin, Pol Pot etc. Como evitar que facínoras megalomaníacos possam manobrar as massas com finalidades genocidas, eugênicas, racistas? Como evitar que surjam novos assassinos de gabinete em nosso futuro que o poeta Paul Válery previa que seria repleto de desumanidade?

Eis um dos “problemaços” políticos que temos pra resolver em uma era de exacerbamento dos fascismos. Hoje, estamos sob o efeito fascitizante do fundamentalismo de mercado, bem exemplificado pelo que fizeram os Yankees depois do 11 de Setembro de 2001,  turbinados por petro-dollars e com o peito enlouquecido de paranóia e desejo de vendetta, bombardeando o Iraque e cometendo mais de 1 milhão de vítimas mortas no processo, para ali instalarem uma “democracia de mercado” (alcunha do sistema que entronou o poderio das megacorporações petrolíferas e empresas bélico-militares, “sistemão” lucrativo erguendo-se sobre o cadáver de Saddam Hussein e de centenas de milhares de seres humanos assassinados por tanques, mísseis teleguiados, drones).

O fascismo “ocidental” em sua encarnação recente como imperialismo pró-corporativista e Cruzada neo-liberal genocida, deu-nos de brinde um ovo da serpente: a emergência do fascismo islâmico do ISIS, a jihad tornando-se cada vez mais niilista e agressiva. Entre estes dois fascismos, entre estas duas barbáries, fazemos bem, como ensina Arundhati Roy, em recusar ambos. Educar para que Auschwitz não se repita, educar para que as guerras do Vietnã e do Iraque e do (…) não se repitam. Em palestra brilhante, a autora e ativista indiana dá um show do espírito crítico que Adorno em seu texto julgava ser essencial para que as monstruosidades de uma monstruosa idade nunca mais retornassem (eduquemos com Arundathi Roy e Raj Patel, com Vandana Shiva e Subcomandante Marcos, ó professores alertas ao hoje e parcialmente responsáveis pelos amanhãs!):

Adorno, neste seu texto visceral que é “Educação Após Auschwitz”, diz que o Holocausto foi como um paradigma da monstruosidade. O Holocausto – Hitler e sua corja “matando geral”, Europa afora, trucidando judeus, ciganos, gays e quem mais julgassem “não suficientemente ariano” – é um anti-modelo, é um mundo (imundo) cujo revival deve ser evitado. Auschwitz torna-se símbolo de uma espécie de cume do mal, representando o que a humanidade pôde inventar de pior. É o contra-modelo supremo. É tudo o que não queremos imitar.

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Mas certas tendências para repetir as monstruosidades passadas sobrevivem em nosso presente e nada impede que tenham um futuro. Donde a dificuldade de evitar o desespero que acomete o ser humano lúcido, bem-informado, aquele que, segundo Albert Camus, necessariamente paga uma preço em angústia por sua lucidez perigosa. Em seu romance A Peste, aliás, Camus realizou uma obra-de-arte impressionante que comunica ao leitor uma espécie de alegoria do fascismo. Camus e Adorno, parecem-me, concordariam que ser lúcido sobre a História é desesperante, pois trombamos com demasiados absurdos e sanguinolências em nosso passado – eis o ponto. Estudar o passado Humano não é cálido e confortante, pelo contrário: nosso outrora é coisa que preocupa. Pois o passado da Humanidade é demasiado cheio de horrores para que possamos ter a crença, idealista e esperançosa, de que Auschwitz ou Hiroshima não vão se repetir.

Evitar a regressão à barbárie torna-se então a missão suprema da educação, surge para as metas educacionais uma espécie de novo imperativo categórico, nova estrela-guia da pedagogia: a educação tem como função e exigência agir no sentido de que tais horrores de uma monstruosa idade não retornem, não se repitam. A missão é matar o fascismo – ou então, caso seja impossível dar-lhe um fim definitivo, ao menos impedir que as barbáries da agressão bélica e do genocídio racista germinem, manifestando-se massivamente. Que o fascismo murche! Que caia em descrédito. Que seja recoberto pelo ridículo. Que não tenha mais quem lhe empreste força. Que não encontre mais funcionários a aliciar, Eichmanns a banalizar e burocratizar a matança sistemática. Eis a nova esperança: educar para que Auschwtiz nunca se repita. Estrela-guia de uma educação que nasce sob o signo saturnino da catástrofe. Há um mundo de escombros, e é nele que se terá que reconstruir.

Adorno, porém, está bem ciente da possibilidade do pior, do retorno do péssimo. Lembrando Paul Valéry, sugere-nos que as civilizações, ainda que agora saibam que são mortais, nem por isso vão se tornar mais humanas só por isso. Há a chance de que a desumanidade tenha um grande futuro. Nada garante a derrota definitiva da barbárie. E se a barbárie ganhar, é claro, todos nós vamos perder. O triunfo da violência é o naufrágio do barco onde todos estamos.

“O Triunfo da Morte”, do pintor belga Peter Breugel

“Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação. Fala-se da ameaça de uma regressão à barbárie… Auschwitz foi a regressão… milhões de pessoas inocentes – e só o simples fato de citar números já é humanamente indigno, quanto mais discutir quantidades – foram assassinadas de uma maneira planejada. Isto não pode ser minimizado por nenhuma pessoa viva como sendo um fenômeno superficial, uma aberração no curso da história, que não importa, em face da tendência dominante do progresso, do esclarecimento, do humanismo supostamente crescente. O simples fato de ter ocorrido já constitui por si só expressão de uma tendência social imperativa.

(…) Não acredito que o esclarecimento acerca das qualidades positivas das minorias reprimidas seja de muita valia. É preciso buscar as raízes nos perseguidores e não nas vítimas, assassinadas sob os pretextos mais mesquinhos. Torna-se necessária uma inflexão em direção ao sujeito: é preciso reconhecer os mecanismos que tornam as pessoas capazes de cometer tais atos, é preciso revelar tais mecanismos a eles próprios, procurando impedir que se tornem novamente capazes de tais atos, na medida em que se desperta uma consciência geral acerca desses mecanismos. Os culpados não são os assassinados, nem mesmo naquele sentido caricato e sofista que ainda hoje seria do agrado de alguns. Culpados unicamente são os que, desprovidos de consciência, voltaram contra aqueles seu ódio e sua fúria agressiva. É necessário contrapor-se a uma tal ausência de consciência, é preciso evitar que as pessoas golpeiem para os lados sem refletir a respeito de si próprias. A educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma auto-reflexão crítica.” ADORNO [2]

Eis talvez um bom norte para o professor atual, no Brasil: eduque de modo a que floresçam sujeitos com capacidade de auto-reflexão crítica, de auto-nomia, e não rebanhos conduzíveis por pastores fascistas como Feliciano ou Malafaia. O professor, hoje, tem que saber da necessidade de estimular no alunado a desconfiança diante de lideranças autoritárias e protonazis como estas que hoje manifestam-se em figuras como Bolsonaro e Eduardo Cunha.

Quando Adorno defende uma nova educação, explicitamente anti-fascista, destaca bem Freudianamente a importância dos primeiros anos de vida para a formação do caráter. Logo, prossegue Adorno,

“quando falo de educação após Auschwitz, refiro-me a duas questões: primeiro, à educação infantil, sobretudo na primeira infância; e, além disto, ao esclarecimento geral, que produz um clima intelectual, cultural e social que não permite tal repetição; portanto, um clima em que os motivos que conduziram ao horror tornem-se de algum modo conscientes.” [3]

Há necessidade, pois, de uma terapia coletiva que se dará através de um enfrentamento-em-comum daquilo que ocorreu em nosso passado. E quantos de nós está disposto a embarcar em tal jornada, tão difícil, repleta de capítulos soturnos e páginas manchadas de sangue? Na era dos smart phones video games, das TVs por satélite e do Youtube, da música digital e da rede mundial de computadores, é crível que a Humanidade interesse-se em massa por confrontar seu próprio passado tenebroso? Instados a escolher entre ir comer um Big Mac no McDonalds ou visitar um Museu das Vítimas do Holocausto, como escolheríamos? Na companhia de quem é mais agradável passar o tempo: com Mickey Mouse e Tio Patinhas, ou com Eichmann e Hitler?

Não: não vejo muita razão para esperanças quando a este utópico “esclarecimento geral”, de que fala Adorno, que criaria todo um clima cultural onde este passado reprimido teria sido aceito e acolhido pela consciência reflexiva, crítica e ética de uma Humanidade redimida. A História é algo que a maioria de nós deixa pra trás, sem interessar-se por ela. Repetimos os erros de outrora sem nem mesmo nos darmos conta de que milhões de outros humanos já erraram exatamente como nós. E que poderíamos aprender algo de crucial com eles, caso lhes emprestássemos ouvidos e prestássemos atenção.

 “O perigo de que tudo aconteça de novo está em que não se admite o contato com a questão, rejeitando até mesmo quem a menciona, como se, ao fazê-lo sem rodeios, este se tornasse o responsável, e não os verdadeiros culpados.” [4] (…) ” Quem ainda insiste em afirmar que  o acontecido nem foi tão grave assim já está defendendo o que ocorreu, e sem dúvida seria capaz de assistir ou colaborar se tudo acontecesse de novo.” [5] ADORNO. Educação Após Auschwitz.

* * * *

AO INVÉS DE CALOR HUMANO… FORNOS CREMATÓRIOS

Adorno, que publicou uma obra chamada A Personalidade Autoritária, fornece um diagnóstico, uma avaliação quanto à psicologia das massas. Ele julga que o nazi-fascismo nasce da frieza, que é preciso compreender como um ser humano pode tornar-se, como se diz na linguagem corrente, um “assassino frio e calculista”. É preciso que cada um de nós seja educado de modo a compreender o condicionamento social – em outras palavras, devemos perceber aquilo que chamamos de “caráter” ou “personalidade” como o resultado de um processo de formação. A terapêutica Adorniana inclui o elogio do potencial esclarecedor da auto-reflexão crítica: “O mero questionamento de como se ficou assim já encerra um potencial esclarecedor”, escreve Adorno; ser-assim (ao invés de ser-assado) não deve ser “apreendido equivocadamente como natureza, como um dado imutável”, mas sim como “resultado de uma formação”. [6]

Que tipo de formação pôde conduzir à epidemia de frieza (e crueldade) que manifesta-se nos horrores de Auschwitz e do bombardeio de Hiroshima? Como pôde a Europa cair em uma barbárie daquelas, em que ao invés de calor humano instaurou-se o regime dos fornos crematórios? Adorno sugere que existe uma patologia psíquica de massas, uma síndrome coletiva que poderíamos batizar como escassez de amor, e que é também uma relação patogênica com o corpo (logo, com a sexualidade)Faltando amor – incluídos aí, é claro, os contatos amoráveis entre os corpos, as trocas libidinais deleitáveis – está preparado o terreno para a emergência dos fascismos. Contra isso, os hippies clamaram pelo “amor livre”. Sinal de que o amor esteve reprimido, acossado, recusado ao corpo, por tempo demais, em gente demais. O ódio fazendo então seu desserviço ao mundo na ausência e na escassez das florescências do amor. Marte estupra Vênus.

Adorno diz que tem gente demais com “carente relação libidinal com outras pessoas. Elas são inteiramente frias e precisam negar também em seu íntimo a possibilidade do amor, recusando de antemão nas outras pessoas o seu amor antes que o mesmo se instale.” [7] Eis um aspecto da filosofia de Adorno que me parece pouco comentado, ou sub-representado: a noção de que a carência afetiva, que a incapacidade de amar, que o enregelamento dos afetos, está diretamente vinculado ao horror. E que a salvação estaria, portanto, não na razão solitária (que gera monstros), não no delírio tecnocrático de transformação total da natureza (que nos trouxe ao Antropoceno e às beiras de hecatombes climáticas), mas sim numa educação dos afetos (inseparável, talvez, de novas liberações sexuais). 

Em que sentido os afetos deveriam ser educados? Não na direção de um nacionalismo agressivo, nem na identificação cega com coletivos (a pátria, o partido, a seita religiosa etc.), mas sim, segundo Adorno, em sentido contrário ao egocentrismo, na direção oposta à do narcisismo. É preciso incentivar que cada um apreenda em si mesmo o condicionamento social a que está exposto, que consiga realizar uma auto-crítica e uma crítica das influências (midiáticas, econômicas, políticas, culturais etc.).

“Se as pessoas não fossem profundamente indiferentes em relação ao que acontece com todas as outras, excetuando o punhado com que mantêm vínculos estreitos e possivelmente por intermédio de alguns interesses concretos, então Auschwitz não teria sido possível, as pessoas não o teriam aceito. (…) Em sua configuração atual – e provavelmente há milênios – a sociedade não repousa em atração, em simpatia, como se supôs ideologicamente desde Aristóteles, mas na persecução dos próprios interesses frente aos interesses dos demais. Isto se sedimentou do modo mais profundo no caráter das pessoas… Hoje em dia qualquer pessoa, sem exceção, se sente mal-amada, porque cada um é deficiente na capacidade de amar. A incapacidade para a identificação foi sem dúvida a condição psicológica mais importante para tornar possível algo como Auschwitz em meio a pessoas mais ou menos civilizadas e inofensivas. (…)

O que se chama de ‘participação oportunista’ era antes de mais nada interesse prático: perceber antes de tudo a sua própria vantagem e não dar com a língua nos dentes para não se prejudicar. Esta é uma lei geral do existente. O silêncio sob o terror era apenas a consequência disto. A frieza da mônada social, do concorrente isolado, constituía, enquanto indiferença frente ao destino do outro, o pressuposto para que apenas alguns raros se mobilizassem. Os algozes sabem disso…

Não me entendam mal. Não quero pregar o amor. Penso que sua pregação é vã. (…) Um dos grandes impulsos do cristianismo, a não ser confundido com o dogma, foi apagar a frieza que tudo penetra. Mas esta tentativa fracassou; possivelmente porque não mexeu com a ordem social que produz e reproduz a frieza. Provavelmente até hoje nunca existiu aquele calor humano que todos almejamos, a não ser durante períodos breves e em grupos bastante restritos, e talvez entre alguns selvagens pacíficos. (…)

Se existe algo que pode ajudar contra a frieza como condição da desgraça, então trata-se do conhecimento dos próprios pressupostos desta, bem como da tentativa de trabalhar previamente no plano individual contra esses pressupostos. Agrada pensar que a chance é tanto maior quanto menos se erra na infância, quanto melhor são tratadas as crianças. Mas mesmo aqui pode haver ilusões. Crianças que não suspeitam nada da crueldade e da dureza da vida acabam por ser particularmente expostas à barbárie depois que deixam de ser protegidas. Mas, sobretudo, não é possível mobilizar para o calor humano pais que são, eles próprios, produtos desta sociedade, cujas marcas ostentam.

O apelo a dar mais calor humano às crianças é artificial e por isto acaba negando o próprio calor. Além disto o amor não pode ser exigido em relações profissionalmente intermediadas, como entre professor e aluno, médico e paciente, advogado e cliente. Ele é algo direto e contraditório com relações que em sua essência são intermediadas. O incentivo ao amor — provavelmente na forma mais imperativa, de um dever — constitui ele próprio parte de uma ideologia que perpetua a frieza. Ele combina com o que é impositivo, opressor, que atua contrariamente à capacidade de amar. Por isto o primeiro passo seria ajudar a frieza a adquirir consciência de si própria, das razões pelas quais foi gerada.” ADORNO. Educação Após Auschwitz. [8]

1Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Julho de 2015

Originalmente publicado
em A Casa de Vidro.com

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADORNO. Educação Após Auschwitz. [1] P. 119. [2] P. 120. [3] P. 123. [4] P. 125. [5] P. 136. [6] P. 132. [7] P. 133. [8] P. 135-136. In: Educação e Emancipação. Editora Paz e Terra. Download Ebook.

:: Rousseau (um trampo acadêmico chatonildo…)


A CIVILIZAÇÃO NO BANCO DOS RÉUS

breve passeio pelas idéias de Jean Jacques Rousseau

“Nós, civilizações, sabemos agora que somos mortais…”. É o que escreveu o poeta francês Paul Válery, de certo modo ecoando um trecho de Rousseau (C.S., Livro 1, XI) no qual este nos lembra que a vida dos Estados e das civilizações é transitória e passageira: o império da mortalidade não se estende somente a nossas existências individuais, mas engloba também os corpos políticos.

“Se Esparta e Roma pereceram, qual o Estado que pode esperar durar eternamente? Se quisermos constituir um estabelecimento durável, não pensemos em absoluto em fazê-lo eterno. Para sermos bem-sucedidos, não devemos tentar o impossível, nem nos vangloriarmos de dar à obra dos homens uma solidez que as coisas humanas não comportam”. (C.S., pg. 90). Em outro trecho de sua obra, põe ainda a questão crucial de “saber se mais importa aos impérios serem brilhantes ou fugazes, ou virtuosos e duráveis” (D.C.A., pg. 222).

É preciso, pois, estudar aquilo que conduz os corpos políticos à degeneração e à decrepitude, de modo semelhante a um médico que diagnostica e procura remediar e curar os males que acometem um organismo. Do mesmo modo que o indivíduo possui fases sucessivas – de fraqueza e dependência, de maturação e crescimento, de ápice de vigor físico e mental, de decadência e de velhice etc. – também os Estados passam por sucessivas “idades”, imensamente variadas em relação às eras e aos espaços. Para Rousseau, porém, os povos muitas vezes  iludem-se ao pensar que estão indo rumo ao melhor, trilhando a rota do progresso, quando caminham, na verdade, rumo à barbárie, ainda que esta se oculte sob um véu de adornos, riquezas e polidez…

É bem conhecido, quase senso-comum, o “Mito do Bom Selvagem” de Rousseau — que sintetiza de modo muito eloquente todas as críticas e suspeitas que o filósofo dirigia à figura da Civilização.  J.J.Rousseau,  numa otimista perspectiva sobre a natureza humana, sustentava a tese de que haveria uma “bondade natural” no ser humano não-civilizado e que seria a sociedade (com seus vícios, desigualdades, discórdias, desarmonias, ganâncias, luxos, futilidades, duelos de propriedade etc.) que corromperia este idílio primevo. Contrapondo-se à Hobbes, que em seu Leviatã pinta com cores sombrias o “estado de natureza”, em que vige a “guerra de todos contra todos” e os humanos vivem apavorados, sob constante ameaça de violência, Rousseau descreve o “estado de natureza” como algo que beira o “idílico”.

Romantismo datado e obsoleto? Pelo contrário! Pensemos num exemplo altamente contemporâneo onde uma mentalidade “rousseauísta” mostra-se viva e atuante: em Into The Wild – Na Natureza Selvagem (livro de Jon Krakaeur recentemente adaptado para o cinema, com direção de Sean Penn), o personagem principal revolta-se contra as iniquidades e os luxos supérfluos da sociedade-de-consumo capitalista, corta as amarras que o prendem à esta civilização, e lança-se a uma existência mais autêntica e livre em meio à natureza indomada, como um Robinson Crusoé voluntário, colhendo em sua jornada muitas sabedorias e epifanias…

O que Rousseau está pondo em cheque, bem antes de Freud versar sobre o “mal-estar na civilização” (que decorreria, segundo este, da repressão de nossos instintos naturais que seria necessária ao processo civilizatório), é a “possibilidade da felicidade” no estado civilizado. É como se Rousseau estivesse perguntando à humanidade: não seríamos mais felizes se levássemos uma vida mais aparentada àqueles que chamamos de “selvagens”, se nos livrássemos da obsessão com a propriedade privada, se nos desfizéssemos das quinquilharias e bugigangas da civilização…? Sugestão profundamente atual, já que, p. ex., nossa sociedade consumista nos persuade, dia a dia, pela propaganda explícita ou subliminar, dos êxtases que teremos comprando e possuindo itens que são, de resto, absolutamente supérfluos…

“Eu pergunto”, diz Rousseau, “qual é a vida, civil ou natural, mais sujeita a se tornar insuportável aos que dela desfrutam. Vemos à nossa volta quase que apenas gente a lastimar-se da existência, e mesmo inúmeras criaturas que dela se privam… Eu pergunto se alguma vez se ouviu dizer que um selvagem em liberdade haja apenas sonhado em queixar-se da vida ou matar-se…” (D.O.D., p. 164).

Indo na contra-mão da noção comum de que um “selvagem” é bestial, cruel, sanguinário e “sem coração”, como se não tivesse nenhuma consciência moral ou super-ego, Rousseau sustenta que a empatia/identificação existe em alto grau já no estado de natureza e que o “selvagem” possui uma “repugnância inata de ver sofrer o semelhante”, tendência que encontramos também nos animais e que é o princípio das outras virtudes (como a generosidade, a clemência, a humanidade).

Só após a instituição da propriedade privada e a abolição do estado natural é que o “vício moral” surgiria. É uma tese que Freud, mais pessimista, irá recusar: “A agressividade não foi criada pela propriedade”, escreve ele em “O Mal-Estar na Civilização”. “Reinou quase sem limites nos tempos primitivos, quando a propriedade ainda era muito escassa…” (FREUD, pg. 168).

Contrário a esta noção de uma “agressividade sem limites” dos selvagens e dos indígenas, Rousseau destaca que esta comiseração de que fala é anterior à toda reflexão: não é por pensar na dor do semelhante que nos compadecemos dela, mas é por sentirmos que ele padece, por identificação e empatia, pela imaginação e pela sensibilidade, que nasce em nós, a despeito da razão, este sentimento natural de piedade.

Há, pois, um sentimento espontâneo de compaixão que serve como fundamento da moral, idéia que encontra-se também em ancestrais filosofias orientais: como em Mêncio, na China Antiga, o que François Jullien bem apontou em seu livro Fundar a Moral, onde procura estabelecer um diálogo entre a ancestral sabedoria chinesa e a filosofia das Luzes:

“qualquer um que vê uma criança quase caindo num poço é tomado por um temor violento e se precipita para salvá-la. Ora, não se faz isto para obter as boas graças dos pais da criança, nem para atrair os elogios dos vizinhos ou dos amigos, nem mesmo para evitar uma má reputação. O que caracteriza este sentimento do insuportável, diante da infelicidade do outro, é que ele não procede de nenhum cálculo, não é objeto de nenhuma reflexão, e a reação é espontânea” (JULLIEN, pg. 11).

Em Rousseau sugere-se que o “desenvolvimento da razão”, no homem-civilizado, apresenta-se concomitante com um certo “refreamento” de sua capacidade de empatia e de um exacerbamento de uma tendência “individualista”, atitude que consiste num “tapar os ouvidos” aos lamentos alheios. Já o selvagem, segundo ele, vive num estado de consciência muito mais apto à identificação e à compaixão com os outros, e é “visto a entregar-se atordoadamente ao primeiro sentimento humanitário” (D.O.D., 168).

Visão “otimista” e “idílica” da natureza humana, certamente, que considera uma “repugnância de praticar o mal” que é “experimentada por todos os homens, independentemente das máximas da educação” (D.O.D., pg. 169). Contra a visão socrática de que a virtude só decorre do trabalho racional, de que o fazer-o-bem é decorrência do conhecer-o-bem, Rousseau destaca que há uma espécie de “bondade natural” que antecede a razão, e sem a qual “o gênero humano já de há muito não existiria” (D.O.D., 169). Mas ele faz a ressalva importante, no Emílio, de que “para impedir a piedade de degenerar em fraqueza” é essencial que só nos entreguemos a ela “na medida em que estiver de acordo com a justiça”; ademais, mais vale “ter piedade com a nossa espécie do que com nosso próximo” (Em, p. 303).

A piedade, pois, não é “ensinada” – e o “ensino civilizado” talvez somente a resfrie e amaine, ao invés de exaltá-la e expandi-la. A civilização, de certo modo, engendra o egoísmo e o isolamento dos eus, fabrica homens presos ao seu amor-próprio, que perderam contato com as genuínas manifestações de empatia e piedade pelo próximo que os que chamamos de “selvagens” manifestam de modo tão espontâneo. Isto é que, no estado natural, “faz as vezes de lei, de costumes e de virtude, com a vantagem de que ninguém intenta desobedecer-lhe a doce voz” (D.O.D., pg. 168).

* * * * *

De Prometeu a Fausto, os mitos se multiplicam alertando a raça humana sobre as ciladas da ciência, do excesso de saber, da busca incontida por conhecimento. Rousseau cita, no início da 2a parte do D.C.A., uma curiosa “tradição”, “passada do Egito à Grécia”, que conta ter sido um “deus inimigo do repouso dos homens” quem inventou a ciência (pg. 219)! O próprio Nietzsche, logo em sua primeira obra, A Origem da Tragédia, polemizava com Sócrates, o “primeiro dos homens teóricos”, questionando se esta “fome de ciência” não teria consequências funestas, se suas pretensões de verdade não seriam descabidas e se não haveria um mal em reprimir as tendências dionisíacas, sentimentais e ancestrais de nossos espíritos…

Pode-se dizer, portanto, que Rousseau foi um autor que “soou os alarmas” contra os “excessos da civilização” (com sua obsessão pela propriedade privada, pelo progresso técnico, visto quase como um fim em si, e pela “ciência instrumentalizada”) ressaltando tudo o que perdíamos e deixávamos para trás ao abandonar a “naturalidade”. Rousseau possui uma obra repleta do que os ingleses chamariam de cautionary tales, ou seja, contos que recomendam prudência e cautela – como ele mesmo sublinha na carta ao senhor Philopolis, ele procurou alertar os homens contra o “perigo de ir tão depressa” e contra “as misérias de uma condição que tomam como a perfeição da espécie.”

Como Sócrates fazia na Atenas de sua época, Rousseau desconfia da “eloquência frívola”, da “presunção” ao saber, dos “letrados ociosos”, dos “vãos e fúteis declamadores”, dos doutos cheios de títulos que pretendem ter atingido a verdade última sobre as coisas… Vê nisso sinais de decadência, ou seja, de “envelhecimento” do corpo político. Em vários momentos de seu Discurso Sobre as Ciências e As Artes, manifesta seu ceticismo em relação à suposta progressão simultânea e proporcional do conhecimento e da virtude. Para ele, os “homens-de-bem” se “eclipsaram” em sociedades em que as ciências e as artes alçaram-se alto demais. O trecho a seguir é bem representativo da radical crítica que Rousseau realiza contra aqueles que põe as vãs ciências acima das virtudes, e as honrarias mais alto que o bem:

“Não mais se pergunta a um homem se possui probidade, mas sim se tem talento; nem de um livro se indaga se é útil, mas se está bem escrito. As recompensas são prodigalizadas às belezas do espírito, e permanece a virtude desprovida de honrarias. Há milhares de prêmios para os belos discursos, nenhum para as belas ações.” (D.C.A., pg. 226).

Se na ética platônica o bem é decorrência de uma percepção racional do Bem em Si, de uma “ascensão” que vá além do domínio da sensibilidade e erga-se até às essências imutáveis do domínio inteligível, em Rousseau aparece uma certa disjunção desta duas ordens, o saber e a virtude. Ele, por exemplo, elogia Esparta, “cidade tão célebre por sua feliz ignorância”, onde as inúteis doutrinas eram devidamente desdenhadas, enquanto suspeita de Atenas, “residência da polidez e do bom gosto, país dos oradores e dos filósofos” (D.C.A., pg. 215).

Para Rousseau, “as almas se foram corrompendo à medida que nossas ciências e nossas artes avançaram para a perfeição” (D.C.A., pg. 213). Do mesmo modo que o homem foi tornando-se cada vez mais corrupto e depravado ao afastar-se do estado natural, sendo a sociedade civil aquilo que engendra as desigualdades e as guerras, a “virtude” também foi sendo escamoteada pelas ciências vãs e pelas artes frívolas. A polidez, a aparência, a pompa, a futilidade, a vã curiosidade, o ornamento, a presunção de saber, a pseudo-sabedoria etc. tomaram o lugar do “bom coração” e da virtude “simples” do homem natural.

Rousseau não cinde o homem em dois domínios, o racional e o sensível, estabelecendo uma hierarquia de valor entre ambos, à maneira platônica-cristã, mas considera que a razão e as paixões são fenômenos correlatos, que aparecem e se desenvolvem “mesclados”, sendo impossível conceber o funcionamento de um “independente” do de outro.

“Digam o que quiserem os moralistas, o entendimento humano muito deve às paixões, as quais, de comum aprovação, também muito lhe devem. É graças à sua atividade que a nossa razão se aperfeiçoa. Procuramos conhecer por desejarmos desfrutar. E não é possível conceber por que se dará ao trabalho de raciocinar quem não tiver nem desejos nem receios.” (D.O.D., 155)

Não faz, portanto, um elogio de uma “razão” que fosse “fria”, neutra, desprovida de quereres, empenhada num conhecimento no qual não se imiscuísse nenhum desejo, mas aponta a necessidade crucial de concentrar esforços não somente em empreendimentos racionais, científicos, artísticos (em suma: civilizatórios), mas atentar para a virtude e para o bem. Pois o bem-fazer é mais importante que o bem-dizer. E o cultivo das virtudes é um valor superior à aquisição de eloquência ou vãos saberes.

“Ó virtude! Ciência sublime das almas simples!”, diz ele ao fim do Discurso Sobre as Ciências e as Artes, tomado por um certo lirismo romântico. “Não estão teus princípios gravados em todos os corações? E não é o bastante, para aprender tuas leis, entrar em si mesmo e ouvir a voz da própria consciência no silêncio das paixões?” Ele mesmo responde pela afirmativa: “Eis aí a verdadeira filosofia; saibamos contentar-nos com ela.” (D.C.A., p. 231).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. Trad. De José Octávio de Aguiar Abreu. Em Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

HOBBES, Thomas. Leviatã – ou Matéria, Forma E Poder De Uma Republica. São Paulo: Martins Fontes.

JULLIEN, François. Fundar a Moral – Diálogo de Mêncio com um filósofo das Luzes. Trad. Maria das Graças de Souza. São Paulo: Discurso Editorial, 2001.

NIETZSCHE, Friedrich. A Origem da Tragédia. São Paulo: Companhia das Letras.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. O Contrato Social; Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens; Discurso Sobre as Ciências e as Artes. Trad. Rolando Roque da Silva. São Paulo: Cultrix.

——————————–. Émile, ou de l’éducation. Paris, Garnier, 1961.

VÁLERY, Paul. A Crise do Espírito.

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SIGLAS UTILIZADAS:

C.S. = Contrato Social
D.C.A. = Discurso Sobre as Ciências e as Artes
D.O.D. = Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens
Em = Emílio ou a Educação

:: a poesia esmagada pela música? ::

DO DESESPERO DOS POETAS FRENTE AO PODER DA ORQUESTRA

“…there came an epoch when poetry felt itself fade and weaken before the energy and resources of the orchestra. The richest and most resounding poem of Hugo is very far from communicating to its hearer those extreme illusions, those thrills, those raptures and, in the more or less intellectual sphere, those feigned lucidities, those models of thought, those images of strange mathematics made real, which the symphony releases, hints at, or thunders forth, and which it draws out into silence or annihilates at one blow, leaving in the mind the extraordinary impression of omnipotence and deception… Never before, perhaps, have the trust that poets place in their particular genius, those promises of eternity which they have received since the childhood of the world and of language, their immemorial possession of the lyre, and the leading rank they imagine they occupy in the hierarchy of servants of the universe, appeared so directly menaced. They came away from concerts overwhelmed. Overwhelmed – dazzled; as though, transported to the seventh heaven by a cruel favor, they had been caught up to that height only that they might experience a luminous contemplation of forbidden possibilities and inimitable marvels. The sharper and more incontestable their sense of these imperious delights, the more real and despairing was the suffering of their pride. (…) We were nourished on music, and our literary minds dreamed only of extracting from language the same effects, almost, as were produced on our nervous systems by sound alone.”

(PAUL VÁLERY, The Art Of Poetry)