ENSINANDO A TRANSGREDIR – A educação libertária, dialógica e engajada de bell hooks em valente combate contra a Opressão multiforme

ENSINANDO A TRANSGREDIR
ou
POR UMA PEDAGOGIA DO ENTUSIASMO TRANSFORMADOR

 

“Depois de ler ‘Ensinando a Transgredir’, sinto-me novamente tocado pela energia intelectual inquieta e inesgotável de bell hooks, uma energia que a torna radical e amorosa.” – PAULO FREIRE

Radical e amorosa, transbordante de energia intelectual inquieta e inesgotável, bell hooks pratica uma pedagogia que nasce de uma interação entre as vertentes “anticolonista, feminista e crítica, cada uma das quais ilumina a outra.” Sua educação como prática da liberdade implica “questionar as parcialidades que reforçam os sistemas de dominação (como o racismo e o sexismo) e ao mesmo tempo proporcionam novas maneiras de dar aulas a grupos diversificados de alunos.” (p. 20) Nesta proposta de renovação radical dos cânones educativos que hooks propõem, devemos nos esforçar conjuntamente para a construção de comunas de aprendizagem onde nos ensinamos a nos indignar, nos revoltar e nos mobilizar contra as opressões multiformes que nos assolam. Longe de alunos-ovelhas ou pupilos-paralíticos, bell hooks nos quer sujeitos ativos da história, queimando com as chamas do entusiasmo transformador.

Que a escola possa, ou mesmo deva, ser um espaço onde a transgressão é ensinada e incentivada pode soar a muitos ouvidos mais reacionários como uma blasfêmia pedagógica. Estamos acostumados a pensar na escola como um dos locais onde a disciplina nos é imposta desde cedo de maneira férrea, ou mesmo truculenta, moldando nossos corpos e mentes no sentido da obediência. Um local onde somos sempre punidos caso nos descontrolemos. Um espaço onde nossa voz deve permanecer silenciada e onde nossa expressão não importa – quantos de nós não ouvimos já de professores que “em boca fechada não entra mosca”?

A contestação da autoridade professoral convoca, de costume, contra o contestador o anátema e a punição perpetrada pelos chefes-disciplinares. Devemos todos – dizem os ciosos defensores do tradicionalismo! – ficar bem submissos diante do encarceramento de alunos e professores na jaula da “grade curricular”. Nesta, não há permissão para contestar a dominação de classe, o racismo estrutural, o machismo patriarcal, a opressão elitista, a espoliação econômica, a estupidificação das consciências gerada pelas mídias de massas e pelas demagogias políticas e suas ideologias propagandeadas com alarde… A transgressão das normais aceitas é o que fará o aluno merecer a palmatória, a expulsão da cela-de-aula ou o ajoelhamento no milho…

Que hoje tais torturas institucionalizadas e silenciamentos banalizados, outrora bastante naturais no ambiente escolar, não sejam mais tão frequentes, oxalá seja um bom sinal de avançamos um pouco em direção a uma escola que se pareça um pouco menos com um presídio ou um mosteiro. Mas ainda há chão pela frente. Para trilharmos este caminho ainda longo rumo a uma pedagogia libertária, dialógica, participativa, autenticamente democrática, é de extrema relevância aprendermos com bell hooks e seu livro Ensinando a Transgredir, publicado em 1994 e relançado em 2017 pela WMF Martins Fontes, no qual esta notável educadora norte-americana reconhece sua gratidão para com a Pedagogia do Oprimido Freireana:

“Quando descobri a obra do pensador brasileiro Paulo Freire,  meu primeiro contato com a pedagogia crítica, encontrei nele um mentor e um guia, alguém que entendia que o aprendizado poderia ser libertador. (…) Já profundamente engajada no pensamento feminista, não tive dificuldade em aplicar essa crítica à obra de Freire. Significativamente, eu sentia que esse mentor e guia estimularia e apoiaria minha contestação às suas ideias se fosse realmente comprometido com a educação como prática da liberdade.

(…) O primeiro paradigma que moldou minha pedagogia foi a ideia de que a sala de aula deve ser um lugar de entusiasmo, nunca de tédio. (…) O entusiasmo no ensino superior era vista como algo que poderia perturbar a atmosfera de seriedade considerada essencial para o processo de aprendizado. Entrar numa sala de aula de faculdade munida da vontade de partilhar o desejo de estimular o entusiasmo era um ato de transgressão.  Não exigia somente que se cruzassem as fronteiras estabelecidas; não seria possível gerar entusiasmo sem reconhecer plenamente que as práticas didáticas não poderiam ser regidas por um esquema fixo e absoluto. Os esquemas teriam de ser flexíveis, teriam de levar em conta a possibilidade de mudanças espontâneas de direção. Os alunos teriam de ser vistos de acordo com suas particularidades individuais e a interação com eles teria de acompanhar suas necessidades (nesse ponto Freire foi útil).

A reflexão crítica sobre minha experiência como aluna em salas de aula tediosas me habilitou a imaginar não somente que a sala de aula poderia ser empolgante, mas também que esse entusiasmo poderia coexistir com uma atividade intelectual e/ou acadêmica séria, e até promovê-la. Mas o entusiasmo pelas ideias não é suficiente para criar um processo de aprendizado empolgante. Na comunidade da sala de aula, nossa capacidade de gerar entusiasmo é profundamente afetada pelo nosso interesse uns pelos outros, por ouvir a voz uns dos outros, por reconhecer a presença uns dos outros. Qualquer pedagogia radical precisa insistir em que a presença de todos seja reconhecida… O professor precisa valorizar de verdade a presença de cada um. Precisa reconhecer permanentemente que todos influenciam a dinâmica da sala de aula, que todos contribuem. Usadas de modo construtivo, elas promovem a capacidade de qualquer turma de criar uma comunidade aberta de aprendizado… O entusiasmo é gerado pelo esforço coletivo.

(…) Minhas práticas pedagógicas nasceram da interação entre as pedagogias anticolonialista, crítica e feminista, cada uma das quais ilumina as outras. Essa mistura complexa e única de múltiplas perspectivas tem sido um ponto de vista envolvente e poderoso a partir do qual trabalhar. Transpondo as fronteiras, possibilitou que eu imaginasse e efetivasse práticas pedagógicas que implicam diretamente a preocupação de questionar as parcialidades que reforçam os sistemas de dominação (como o racismo e o sexismo) e ao mesmo tempo proporcionam novas maneiras de dar aula a grupos diversificados de alunos.

Neste livro, quero partilhar ideias, estratégias e reflexões críticas sobre a prática pedagógica. Quero que estes ensaios sejam uma intervenção contrapondo-se à desvalorização da atividade do professor e, ao mesmo tempo, tratando da urgente necessidade de mudar as práticas de ensino. Eles têm o objetivo de ser um comentário construtivo. Esperançosos e exuberantes, transmitem o prazer e a alegria que sinto quando dou aula; são ensaios de celebração. Ressaltam que o prazer de ensinar é um ato de resistência que se contrapõe ao tédio, ao desinteresse e à apatia onipresentes… Esse trabalho deve ser um catalisador que conclame todos os presentes a se engajar cada vez mais a se tornar partes ativas no aprendizado.

(…) A educação está numa crise grave. Em geral, os alunos não querem aprender e os professores não querem ensinar. Os educadores têm o dever de confrontar as parcialidades que têm moldados as práticas pedagógicas em nossa sociedade e criar novas maneiras de saber, estratégias diferentes para partilhar o conhecimento. Com estes ensaios, somo minha voz ao apelo coletivo pela renovação e pelo rejuvenescimento de nossas práticas de ensino. Pedindo a todos que abram a cabeça e o coração para conhecer o que está além das fronteiras do aceitável, celebro um ensino que permita as transgressões – um movimento contra as fronteiras e para além delas. É esse movimento que transforma a educação na prática da liberdade. ” (HOOKS, 2017, pg. 15-18)

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Foi lecionando que descobri que trabalho não é necessariamente tortura (como sugere a etimologia da palavra trabalho, que vem de tripálio, instrumento de três pontas usado para estripar pessoas). Venho dizendo a amigos, a partir da experiência vivida, que considero o trabalho de professor como o menos torturante dos ofícios – mais que isso: um dos mais fascinantes e recompensadores. É um modo de ser socialmente útil na partilha de saberes relevante. Uma via para participar de uma comunidade autêntica onde temos algumas – ainda que limitada – importância. Como bell hooks, sinto como um dos lemas principais que norteia a navegação pedagógica a “vontade de que a sala de aula seja um lugar de entusiasmo” (p. 207) – jamais de apatia, tédio ou conformismo.

Contra a “cultura do silêncio” de que fala Paulo Freire, é preciso que o educador se perceba como facilitador, catalisador e animador de diálogos. Não é outro o sentido da prática que tenho desenvolvido com minhas turmas do IFG em que, durante as aulas de filosofia, confrontando modelos tradicionais de avaliação, realizamos encenações teatrais de diálogos compostos pelos próprios alunos. Bell hooks sempre enfatiza a importância de dar voz ao educando, instigando-os à coragem de assumir voz própria e partilharem com os outros suas vivências.

Uma sala-de-aula que transcenda o recorrente pesadelo da “cela-de-aula”, que construa uma comunidade de aprendizado ao invés de uma cela de presídio, precisa necessariamente levar a sério a criação de espaços de interação, interlocução e expressão múltipla dos educandos. Que eles possam falar, que possam aprender a se ouvir, e que jamais estejam na posição humilhante de vasilhas vazias que devem receber de maneira passiva os depósitos bancários de informação que o professor monologante realiza. A bell hooks aprendeu perfeitamente todas as críticas relevantíssimas que fez Paulo Freire contra o modelo bancário de educação. Dá prosseguimento a uma pedagogia para a liberdade que enxerga nos educandos as figuras dos sujeitos históricos em construção que devem ser incentivados a serem participativos, expressivos, partilhadores, além de avesso a todo tipo de silenciamento opressivo (cf. p. 198-202).

Uma pedagogia libertária, dialógica, de aprendizado mútuo entre educador e educandos (que devem manter-se na dialética dinâmica de posições intercambiáveis), deve agir também como uma máquina de moer tédio. Em lugar de tédio, apatia e silenciamento, cultivamos uma micro-comuna de expressividade entusiástica e de busca comum pelo conhecimento, uma comunidade de aprendizado. Um dos muitos equívocos do projeto Escola Sem Partido, que assombra com seu pesadelo conservador e censor o Brasil pós-democrático (2016-2017), está em sua condenação do engajamento do professor, o que equivale a uma apologia do professor entediante, aparentemente des-politizado, incapaz de conexão com os problemas candentes de seu tempo, que se enxerga como mero serviçal dos interesses do mercado de trabalho, transmitindo a um aluno passivo ao modo de ovelhas uma série de destrezas técnicas que o capitalismo anda exigindo em suas fábricas da espoliação.

Já a bell hooks mostra-se não só engajada, nas entusiástica neste seu engajamento contra as opressões multiformes de classe, raça, gênero, de modo que muito nos ensina sobre a necessidade de uma valentia intersecional em que nos levantamos conjuntamente contra o elitismo, o racismo, o patriarcado, inclusive no âmbito escolar. É assim que a obra de bell hooks, além de suas inúmeras contribuições ao feminismo negro, suas interlocuções com outros intelectuais cruciais como Angela Davis e Cornel West, seus ensinamentos sobre a literatura feminina afro-americana (Toni Morrison, Maya Angelou, Zora Neale Hurston, Audre Lorde etc.), prossegue uma fonte essencial de empolgação transformadora, elemento de que temos extrema necessidade nestes tempos onde tão graves retrocessos e ataques estão sendo perpetrados contra direitos duramente conquistados.

 

“Consciente de mim mesma como sujeito da história, membro de um grupo marginalizado e oprimido, vitimada pelo racismo, sexismo e elitismo de classe institucionalizados, eu tinha um medo terrível de que meu ensino viesse a reforçar essas hierarquias. (…) Tento mostrar em meus livros o quanto meu trabalho é influenciado pelo que os alunos dizem na sala de aula, pelo que eles fazem, pelo que me expressam. Cresço intelectualmente ao lado deles, desenvolvendo um entendimento mais nítido de como partilhar o conhecimento e do que fazer em meu papel participativo com os alunos. Essa é uma das principais diferenças entre a educação como prática da liberdade e o sistema conservador de educação bancária que encoraja os professores a acreditarem, do fundo de seu ser, que eles não têm nada a aprender com os alunos… Quando entro na sala no começo do semestre, cabe a mim estabelecer que nosso propósito deve ser o de criar juntos, embora por pouco tempo, uma comunidade de aprendizagem.” (bell hooks, 2017 , p. 190 – 204)

Por Eduardo Carli de Moraes em www.acasadevidro.com


 

SINOPSE OFICIAL – EDITORA WMF MARTINS FONTES: Em ‘Ensinando a transgredir’, Bell Hooks – escritora, professora e intelectual negra insurgente – escreve sobre um novo tipo de educação, a educação como prática da liberdade. Para hooks, ensinar os alunos a “transgredir” as fronteiras raciais, sexuais e de classe a fim de alcançar o dom da liberdade é o objetivo mais importante do professor. Ensinando a transgredir, repleto de paixão e política, associa um conhecimento prático da sala de aula com uma conexão profunda com o mundo das emoções e sentimentos. É um dos raros livros sobre professores e alunos que ousa levantar questões críticas sobre Eros e a raiva, o sofrimento e a reconciliação e o futuro do próprio ensino. Segundo Bell Hooks, “a educação como prática da liberdade é um jeito de ensinar que qualquer um pode aprender”. Ensinando a transgredir registra a luta de uma talentosa professora para fazer a sala de aula dar certo. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla.

SOBRE A AUTORA

bell hooks (Gloria Jean Watkins) nasceu nos Estados Unidos em 25 de setembro de 1952. Atualmente, é professora de inglês no City College de Nova York. Escreveu inúmeros livros, entre os quais: Outlaw Culture: Resisting Representations, Belonging: A Culture of Place, Thinking Critical Teaching: Practical Wisdom.

SAIBA MAIS:

GOLPE NUNCA MAIS: Curta-metragem documenta a manifestação em Goiânia neste 31 de Março de 2016 (Assista: 14 min, Março de 2016)

GOLPE NUNCA MAIS – Documentário curta-metragem que registra os agitos cívicos em Goiânia, no dia 31 de Março de 2016, um dia em que a cidadania nas ruas deu um show de democracia, participação social e engajamento cidadão.

ASSISTA JÁ:

“Amor tem que ser que nem ipê:
Florescer toda vez que parecer morrer.”
Bradam os muros grafitados de Goiânia

Um filme de Eduardo Carli de Moraes; assistente de direção: João Paulo Machado Côrtes; com participação do professor de teoria política da PUC-GO, Silvio Costa. Trilha sonora: Gonzaguinha, Clara Nunes, Criolo, Mukeka di Rato, Chico Buarque, dentre outros. Compartilhar no Facebook, no Tumblr, no Twitter.

LINKS:

https://vimeo.com/161237657 ou https://youtu.be/lkEgZs_3cSE.

FOTOS DO DIA DA FILMAGEM:

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CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO:
Fuser 1 Fuser 2 “O BRASIL INTEIRO PRECISA SABER” – Por Igor Fuser

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CARTOOOON* * * *

Página Golpe Nunca Mais no Facebook: “52 anos depois, os golpistas encontraram o povo nas ruas. Para ser golpe, não precisa ser com tanques e fuzis. Qualquer ação, inclusive do Congresso ou do Judiciário, para tirar do poder um governo legitimamente eleito, é um Golpe à Constituição e à Democracia. Não passarão!” ‪#‎BrasilContraOGolpe‬. Fotos abaixo de São Paulo (à esq.), Recife (direita acima) e Brasília (direita abaixo):

31 03 Silêncio Nas Ruas Não Se Escuta by Mídia Ninja

Nesta quinta-feira, 31 de Março, as ruas pulsaram para manter viva a democracia. Cerca de 800 mil pessoas tomaram as cidades do Brasil para deixar claro: não vai ter golpe e já tem luta!

A gente mal lembra. Fazem dois anos que a nação descomemorava as cinco décadas do Golpe Militar de 64. Àquela época, o país já efervescia no pré-Copa e no pós 2013, com suas multidões difusas reinventando as ruas.

Os inimigos da legalidade permanecem os mesmos de 64. Fiesp, grande mídia, políticos inconformados e comprovadamente corruptos trabalham dia e noite para subverter a vontade popular expressa nas urnas. Movidos por revanchismo e rancor, querem a derrubada de uma Presidenta eleita pela maioria do povo brasileiro, sobre a qual não pesam investigações ou denúncias.

Talvez frustrados por ver tamanha mobilização popular florescer sem a sua convocação diária em rede nacional, os noticiários reduzirão o número de manifestantes desta quinta. Dirão que foram poucos, fração menor da população.

Mas, ao contrário de 64, o silêncio nas ruas não se escuta. (Ninja – SAIBA MAIS)

ASSISTA JÁ – GOLPE NUNCA MAIS – GOIÂNIA:

“ACABOU A PAZ – ISTO AQUI VAI VIRAR O CHILE”: a saga dos estudantes secundaristas de São Paulo no documentário de Carlos Pronzato (assista na íntegra)

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Acabou a Paz – Isto aqui vai virar o Chile

Um filme de Carlos Pronzato. Documentário, 2016, 60 min.

A obra de Carlos Pronzato ganha, na atualidade, uma relevância extraordinária, que demonstra a potência do documentário como veículo de informação emancipatória e de auxílios imprescindíveis à nossa reflexão e ação. Em Outubro de 2016, quando em repúdio à PEC 241/55 e a Reforma do Ensino Médio, mais de 1.000 escolas e universidades públicas foram ocupadas, evento sem nenhum precedente histórico, a velha mídia vendida lançou sobre isto o breu de seu apagão, mas o documentário revelou-se então como muito mais que um gênero cinematográfico: revelou-se como abrigo e salvaguarda do jornalismo genuíno, do jornalismo digno desse nome. Os nossos melhores documentários servem como ferramenta para civilizar um pouco a barbárie desse nosso capitalismo ultraliberal fascistóide e repressor,que lucra com a alienação e quer obstaculizar o pensamento crítico com Escolas Sem Partido que só nos amordaçam. A arte documentário, como provam os filmes de Pronzato, é capaz de ser o antídoto necessário ao veneno asqueroso daqueles que vêem aluno politizado e mobilizado somente como arruaceiro, baderneiro e inimigo público – digno somente do cacete da polícia, da bronca dos pais, quem sabe de uma temporada no hospício… Quando, na real, é nas ocupas que a juventude brasileira têm demonstrado todo o seu imenso valor e todo o maravilhoso ímpeto de sua justa revolta. Alguns alunos querem passar de ano, outros preferem passar à História. Assistamos, juntos, com atenção e diálogo intensos e fecundos, aos filmes “Acabou a Paz – Isto Aqui Vai Virar o Chile”, “A Revolta dos Pinguins”, “A Partir de Agora – As Jornadas de Junho”, “Por Uma Vida Sem Catracas”, dentre outros, pois o cinema de Carlos Pronzato tem um bocado a ensinar-nos nestes urgentes momentos de que somos contemporâneos. (Carli, 22-10-16)
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“Argentino radicado no Brasil desde os anos 1980, Carlos Pronzato transita pela literatura, teatro e cinema. Mas é como documentarista que obtém maior reconhecimento. Seu documentário sobre as Madres de Plaza de Mayo na Argentina foi premiado internacionalmente.
Para quem acompanha os movimentos sociais e suas revoltas, sabe que Pronzato ‘está em todas’: Pinheirinho, MTST, Passe Livre. Sempre atento, é autor do filme sobre a ‘Revolta do Buzu’ que em 2003 parou Salvador contra o aumento da tarifa do transporte público. De lá pra cá o tema o aproximou do MPL, de quem já fez outros tantos documentários, como o ótimo ‘A partir de agora – as jornadas de junho’.
Em 2006 fez o registro das ocupações das escolas pelos estudantes chilenos. O material rendeu o famoso documentário ‘A Rebelião dos Pinguins’ que serviu de inspiração para os estudantes brasileiros no ano passado. E é sobre as ocupações dos alunos paulistas que trata seu mais recente filme: ‘Acabou a paz, isto aqui vai virar o Chile – Escolas ocupadas em São Paulo’.

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DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO:
Entrevista com Pronzato

DCM: O que o motivou a realizar o documentário?

O que me trouxe é o percurso que venho fazendo com o tema estudantil, que venho fazendo há muito tempo. Algo que começou com a Revolta do Buzu em Salvador em 2003, que impulsionou a criação do Movimento Passe Livre, e também em 2006 quando tem a Rebelião do Pinguins, material que foi muito utilizado pelos estudantes daqui assim como uma cartilha feita pelos estudantes chilenos para as ocupações.

É inevitável a comparação com o Chile. Que paralelo você faz?

Faltou apenas um item para serem idênticas. Claro, não se pode dimensionar identicamente Chile com Brasil, mas Alckmin é o ‘presidente’ deste país chamado São Paulo. Lá houve o recuo da presidente Bachelet, aqui houve o recuo de Alckmin. O Secretário de Educação caiu lá e o daqui também. Portanto o que faltou aqui, por ser muito complicado, por estar fortemente instalado, foi a queda do Secretário de Segurança. Lá caiu, aqui não. Quem promoveu a repressão contra os estudantes foi exonerado no Chile, mas aqui ninguém toca.

A vitória dos estudantes no Chile tem reflexos até hoje. Aqui elas foram temporárias e tudo indica que o governador inclusive esteja atuando de modo a burlar o próprio cancelamento, por quê?

A duração dos dois eventos é muito diferente. Aqui não chegou a sessenta dias enquanto no Chile a revolta durou mais de sete meses. E também tem o calendário, infelizmente pegou o final do ano. Mas tem um aspecto importante que precisa ser considerado que é a possibilidade de o movimento não ter acabado. No Chile, depois de 5 ou 6 anos da revolta houve uma refervura em 2011, e daí vieram essas outras conquistas a que você se referiu. E sobre isso é muito interessante saber que os secundaristas daqui possuem mais referências do que aconteceu no Chile em 2011, mas o filme que serviu de ‘inspiração’ é o que fiz em 2003. Foi uma soma dos dois episódios.

Então isso leva uma outra questão: não é arriscado realizar um documentário sobre algo tão recente e talvez inconcluso, que pode estar apenas em um momento de pausa?

Mas a palavra é essa mesma, eu vi que tinha uma pausa. Esse é o recorte dado até este momento, dá para fechar uma narrativa. Pode ser que as ocupações voltem, mas quando? No Chile levou quase 6 anos. Aqui, tudo depende de quando o governador irá tentar novamente. A intenção é que a divulgação deste material estimule a possibilidade de uma continuidade imediata da luta.

Documentário é uma forma de ativismo ou jornalismo?

Ativismo total. Eu não sou jornalista, estou no campo das artes. Venho do teatro, da literatura. Minha inserção no documentário é um recorte muito subjetivo. A mídia influi e molda o senso comum, contra o qual a gente luta. Porque quando se está na rua e se vê a polícia jogar bombas em estudantes, é revoltante saber que tem gente que é induzida a aplaudir isso.

Minha intenção é manter viva a memória da luta dos secundaristas.

Você está há muitos anos documentando revoltas sociais. No seu documentário sobre a revolta do Buzu em 2003, em determinado momento o então prefeito Antonio Imbassahi afirma que estava acompanhando tudo atentamente pela TV. Em junho de 2013, Dilma disse a mesma coisa. O poder público está sempre tão distante da realidade a ponto de só saber do que ocorre através da mídia?

É por isso que aconteceu o que aconteceu. À medida que movimentos sociais, mesmo os de esquerda, se inserem numa estrutura institucional, vão se perdendo. A grande armadilha é você entrar na insituição e passar a viver diariamente com ela. E esse distanciamento é que cria as revoltas populares. O que aconteceu em 2013 é preciso colocar num contexto mundial, sem dúvida, mas há uma leitura hipócrita sobre isso por parte dos governistas. Dizer que as pessoas haviam conquistado um status econômico e que estavam indo às ruas para exigir mais, é ridículo, não sei de onde surgem elucubrações sociológicas que dizem coisas como essas. O que eu vi, particularmente, foi uma recusa do Estado como uma estrutura de repressão contínua, independentemente dos gestores do capital.

Para aqueles que ainda não compreenderam a questão (como o atual Secretário de Educação que em entrevista na data de ontem demonstrou estar em dúvida ‘se’ os alunos aceitam a reorganização), o filme está disponível no canal Youtube e ao longo da semana apresentações públicas serão realizadas com a presença do diretor.

ASSISTA OS FILMES DE PRONZATO:

A LUTA DO POVO – TRÊS DOCUMENTÁRIOS DE RENATO TAPAJÓS

A LUTA DO POVO – TRÊS DOCUMENTÁRIOS DE RENATO TAPAJÓS: http://bit.ly/1n6tZGn (Linha de Montagem, Greve de Março e A Luta do Povo)
 
Compartilhamos aqui 3 documentários de alta relevância histórica, dirigidos por Renato Tapajós. São importantes testemunhos históricos das lutas populares na vida política do Brasil, em especial no fim dos anos 1970 e começo dos anos 1980. O foco dos filmes são as táticas de resistência contra a ditadura militar; a emergência do sindicalismo proletário no ABCD paulista com as intensas greves e épicas assembléias dos metalúrgico; os trabalhos de parto da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT); as mobilizações de rua e imensas passeatas no período de luta pela redemocratização; dentre outros temas. Confiram aí estes essenciais docs de Tapajós: “Linha de Montagem”, “Greve de Março” e “A Luta do Povo”, na íntegra:

LINHA DE MONTAGEMcartaz linha de montagem

Memorial da Democracia: O documentário “Linha de Montagem”, do cineasta Renato Tapajós, foi realizado no calor do movimento operário do ABC paulista. O enredo se desenvolve entre a organização das greves e a força do líder sindical Luiz Inácio da Silva, o Lula. O lançamento do filme ocorreu na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP). No meio da projeção, a Polícia Federal tentou apreender o filme, que não tinha certificado de exibição. Os próprios operários salvaram uma cópia.

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GREVE DE MARÇO

“Greve de Março” aborda, em 35 minutos, a primeira fase da greve dos metalúrgicos do ABCD paulista, em 1979. Foi realizado para ser exibido aos operários durante a trégua entre as duas fases da greve, com o objetivo de mobilizá-los para a segunda fase. O filme mostra as grandes assembleias com mais de 100 mil metalúrgicos, a mobilização em vigília no Sindicato, os conflitos de rua e a volta triunfal da diretoria – encabeçada por Lula – na grande assembleia em que a trégua é proposta.

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A LUTA DO POVO
A Luta do Povo



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DO MESMO DIRETOR, ASSISTA:

O ROSTO NO ESPELHO

Um documentário de Renato Tapajós

Sinopse: Um documentário que investiga a relação entre os movimentos culturais de hoje e a transformação social, revelando um Brasil profundo e multicultural, geralmente ignorado pela mídia e preconceituosamente esquecido pela cultura dominante. A viagem pessoal do documentarista Renato Tapajós (o mesmo de Linha de Montagem)  se surpreende com a força nascente das comunidades índias, negras e caboclas, que reconstroem suas identidades e se reapoderam de suas vozes.

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SIGA VIAGEM NA HISTÓRIA DO CINEMA BRASILEIRO…

RESISTÊNCIA CULTURAL: “O cinema brasileiro teve um importante papel na resistência cultural à ditadura. Antes do golpe civil-militar de 1964, a produção cinematográfica vivia um momento fecundo, iniciado em 1955 com o lançamento do filme “Rio, 40 Graus”, de Nelson Pereira dos Santos, marco do surgimento do Cinema Novo. Engajada nos intensos debates daquele momento sobre a realidade do país e a necessidade de transformações, uma geração de jovens cineastas dispôs-se a superar os problemas técnicos e de financiamento das produções, empunhando o lema “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Seu propósito era realizar filmes de apelo popular que discutissem o subdesenvolvimento e a realidade nacional numa linguagem baseada nos valores culturais brasileiros. Os filmes da chamada “trilogia do sertão”, que viriam a seguir, sintetizam esses compromissos estéticos e políticos. São eles: “Vidas Secas”, de 1963, de Nelson Pereira dos Santos; “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de 1964, de Glauber Rocha; e “Os Fuzis”, de 1965, de Ruy Guerra. Nessa fase, destacam-se ainda outros jovens diretores como Sérgio Ricardo, Cacá Diegues, Paulo César Saraceni, Leon Hirszman, Gustavo Dahl, David Neves, Joaquim Pedro de Andrade e Luiz Carlos Barreto.” – Memorial da Democracia

CONVENÇÃO SOBRE A PROTEÇÃO E PROMOÇÃO DA DIVERSIDADE DAS EXPRESSÕES CULTURAIS – UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura)

“A UNESCO é a única agência das Nações Unidas encarregada da cultura. O texto da sua Constituição (1946) lhe confia o duplo mandato de promover uma “salutar diversidade de culturas” e facilitar o “trânsito livre de idéias pelas palavras e imagens”.

Esses princípios fundamentais de diversidade e liberdade para o avanço da compreensão mútua operam sempre lado a lado na meta da Organização de assegurar a “orquestração de diferentes culturas, não rumo à uniformidade, mas, sim, à unidade na diversidade, para que os seres humanos não se fechem em suas próprias culturas, mas que compartilhem as riquezas de uma única cultura mundial diversificada (Relatório do Diretor-Geral, 1947).

A UNESCO faz da busca por essa meta – que se baseia não apenas no reconhecimento da diversidade, mas também nas oportunidades de um maior diálogo que ela oferece – o cerne de sua missão, renovando constantemente as suas abordagens e atividades. Essa atitude se consolida no reconhecimento da igual dignidade de todas as culturas, o respeito pelos direitos culturais, a formulação de políticas culturais pela promoção da diversidade, a promoção de um pluralismo construtivo, a preservação do patrimônio cultural etc.

Enquanto a cultura permanece, na UNESCO, uma plataforma essencial para a construção da paz nas mentes de homens e mulheres, a transformação gradual do ambiente internacional gerou mudanças nas abordagens conceituais, nos programas e nas formas de ação da Organização. Por que uma Convenção?

PARA CONTRIBUIR AO DESENVOLVIMENTO DA NOÇÃO DE CULTURA

Tendo sido por muito tempo vista pelo ângulo das belas artes e da literatura, a cultura abrange um campo muito mais amplo: “a cultura deve ser considerada como um conjunto distinto de elementos espirituais, materiais, intelectuais e emocionais de uma sociedade ou de um grupo social. Além da arte e da literatura, ela abarca também os estilos de vida, modos de convivência, sistemas de valores, tradições e crenças (Preâmbulo da Declaração Universal de Diversidade Cultural da UNESCO, 2001).

Em retrospectiva, é possível identificar quatro etapas principais na transformação do sentido e das funções atribuídas à cultura. Naturalmente, essas etapas não são rigorosamente separadas; do mesmo modo, as atividades conduzidas em cada uma delas prosseguiram durante as etapas seguintes:

(i) A ampliação do conceito de cultura como produção de arte, de modo a incluir a noção de identidade cultural (anos 50 e 60). Durante esse período, a UNESCO buscou defender culturas em resposta a situações específicas, tais como os contextos de descolonização, ao reconhecer a igual dignidade das culturas;

(ii) A construção da consciência de vínculo entre cultura e desenvolvimento como fundamento da cooperação internacional e da solidariedade para com os países em desenvolvimento (anos 70 e 80). Durante esse período e juntamente com as atividades anteriormente iniciadas, a UNESCO passou a enfatizar o intercâmbio recíproco dos países e das sociedades, de modo a tornar possível o estabelecimento de parcerias em igualdade entre os mesmos;

(iii) O reconhecimento das aspirações e bases culturais na construção das democracias (anos 80 e 90). Durante esse período, a Organização demonstrou ciência das várias formas de discriminação e exclusão vividas por pessoas que pertencem a minorias, povos indígenas e populações imigrantes;

(iv) O aprimoramento do diálogo entre culturas e civilizações em sua rica diversidade, considerada como patrimônio comum da humanidade pela UNESCO em sua Declaração Universal da Diversidade Cultural (anos 90 e 2000).

Em consonância com a definição mais ampla de cultura, a Declaração lida com o duplo desafio da diversidade cultural: por um lado, ao assegurar a interação harmônica entre pessoas e grupos com identidades culturais plurais, variadas e dinâmicas, bem como o desejo da vida em conjunto; e, por outro, ao defender a diversidade criadora, ou seja, a grande variedade de formas pelas quais as culturas revelam as suas próprias expressões tradicionais e contemporâneas no espaço e no tempo. Durante esse período, a UNESCO buscou atender às necessidades das sociedades cujo caráter plural foi ampliado pelo acelerado processo de globalização.

Por ser um processo contínuo, flexível e mutável, a cultura remodela o seu próprio patrimônio material e imaterial, enquanto novas formas de expressão são geradas, revelando, assim, a sua infinita diversidade. Em meio a um ambiente internacional em constante mudança, a UNESCO sempre buscou trazer soluções práticas para os desafios específicos apresentados por cada momento histórico. Com sua capacidade de promover o diálogo e a criatividade, a diversidade cultural se mostra como condição essencial para a paz e para o desenvolvimento sustentável.”

Convenção da Unesco

ACESSE:

CONVENÇÃO SOBRE A PROTEÇÃO E PROMOÇÃO DIVERSIDADE DAS EXPRESSÕES CULTURAIS

UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura)

Texto ratificado pelo Brasil por meio do Decreto Legislativo 485/2006

URL: http://unesdoc.unesco.org/images/0015/001502/150224por.pdf

A Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura, em sua 33ª reunião, celebrada em Paris, de 03 a 21 de outubro de 2005,

Afirmando que a diversidade cultural é uma característica essencial da humanidade,

Ciente de que a diversidade cultural constitui patrimônio comum da humanidade, a ser valorizado e cultivado em benefício de todos,

Sabendo que a diversidade cultural cria um mundo rico e variado que aumenta a gama de possibilidades e nutre as capacidades e valores humanos, constituindo, assim, um dos principais motores do desenvolvimento sustentável das comunidades, povos e nações,

Recordando que a diversidade cultural, ao florescer em um ambiente de democracia, tolerância, justiça social e mútuo respeito entre povos e culturas, é indispensável para a paz e a segurança no plano local, nacional e internacional,

Celebrando a importância da diversidade cultural para a plena realiza- ção dos direitos humanos e das liberdades fundamentais proclamados na Declaração Universal dos Direitos do Homem e outros instrumentos universalmente reconhecidos,

Destacando a necessidade de incorporar a cultura como elemento estratégico das políticas de desenvolvimento nacionais e internacionais, bem como da cooperação internacional para o desenvolvimento, e tendo igualmente em conta a Declaração do Milênio das Nações Unidas (2000), com sua ênfase na erradicação da pobreza,

Considerando que a cultura assume formas diversas através do tempo e do espaço, e que esta diversidade se manifesta na originalidade e na pluralidade das identidades, assim como nas expressões culturais dos povos e das sociedades que formam a humanidade,

Reconhecendo a importância dos conhecimentos tradicionais como fonte de riqueza material e imaterial, e, em particular, dos sistemas de conhecimento das populações indígenas, e sua contribuição positiva para o desenvolvimento sustentável, assim como a necessidade de assegurar sua adequada proteção e promoção,

Reconhecendo a necessidade de adotar medidas para proteger a diversidade das expressões culturais incluindo seus conteúdos, especialmente nas situações em que expressões culturais possam estar ameaçadas de extinção ou de grave deterioração,

Enfatizando a importância da cultura para a coesão social em geral, e, em particular, o seu potencial para a melhoria da condição da mulher e de seu papel na sociedade,

Ciente de que a diversidade cultural se fortalece mediante a livre circulação de idéias e se nutre das trocas constantes e da interação entre culturas,

Reafirmando que a liberdade de pensamento, expressão e informação, bem como a diversidade da mídia, possibilitam o florescimento das expressões culturais nas sociedades,

Reconhecendo que a diversidade das expressões culturais, incluindo as expressões culturais tradicionais, é um fator importante, que possibilita aos indivíduos e aos povos expressarem e compartilharem com outros as suas idéias e valores,

Recordando que a diversidade lingüística constitui elemento fundamental da diversidade cultural, e reafirmando o papel fundamental que a educação desempenha na proteção e promoção das expressões culturais,

Tendo em conta a importância da vitalidade das culturas para todos, incluindo as pessoas que pertencem a minorias e povos indígenas, tal como se manifesta em sua liberdade de criar, difundir e distribuir as suas expressões culturais tradicionais, bem como de ter acesso a elas, de modo a favorecer o seu próprio desenvolvimento,

Sublinhando o papel essencial da interação e da criatividade culturais, que nutrem e renovam as expressões culturais, e fortalecem o papel desempenhado por aqueles que participam no desenvolvimento da cultura para o progresso da sociedade como um todo,

Reconhecendo a importância dos direitos da propriedade intelectual para a manutenção das pessoas que participam da criatividade cultural,

Convencida de que as atividades, bens e serviços culturais possuem dupla natureza, tanto econômica quanto cultural, uma vez que são portadores de identidades, valores e significados, não devendo, portanto, ser tratados como se tivessem valor meramente comercial,

Constatando que os processos de globalização, facilitado pela rápida evolução das tecnologias de comunicação e informação, apesar de proporcionarem condições inéditas para que se intensifique a interação entre culturas, constituem também um desafio para a diversidade cultural, especialmente no que diz respeito aos riscos de desequilíbrios entre países ricos e pobres,

Ciente do mandato específico confiado à UNESCO para assegurar o respeito à diversidade das culturas e recomendar os acordos internacionais que julgue necessários para promover a livre circulação de idéias por meio da palavra e da imagem,

Referindo-se às disposições dos instrumentos internacionais adotados pela UNESCO relativos à diversidade cultural e ao exercício dos direitos culturais, em particular a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, de 2001,

Adota, em 20 de outubro de 2005, a presente Convenção.

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Confira também:

COLEÇÃO VIVA CULTURA VIVA – Coleção de 11 vídeos (56 minutos) e 6 debates (120 minutos)

“A Coleção Viva Cultura Viva integra o projeto Prêmio Cultura Viva – Formação, uma iniciativa do Ministério da Cultura – MinC, com patrocínio da Petrobras e coordenação técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária – Cenpec. Em momento em que a cultura e as artes suscitam tantas perguntas e discussões, a Coleção Viva Cultura Viva foi desenvolvida com o objetivo de difundir conceitos e promover reflexões sobre questões relacionadas ao campo da cultura em suas diferentes dimensões: o processo criativo, as artes, a participação cidadã, a sustentabilidade, as redes sociais, a cultura digital, a educação e outras.

Os conteúdos apresentados não têm a intenção de esgotar os temas propostos, mas estimular o pensamento crítico de maneira dinâmica e poética em diálogo com as formas expressivas da contemporaneidade.

A Coleção Viva Cultura Viva é resultado de um diálogo aberto entre seus realizadores. Sob a égide do processo colaborativo, artistas, produtores e instituições definiram, juntos, os caminhos conceituais e estéticos que deram forma aos vídeos. Os diferentes lugares de fala imprimiram à Coleção um tom de debate, materializado na escolha de uma tela em tríptico. Um tríptico permite fluidez. Relativização. Não é o lugar da fala unívoca e, por isso, traduz com perfeição um processo polifônico de trabalho que, por sua vez, reflete uma experiência pluralista de gestão cultural.

Os depoimentos e reflexões sobre os temas são pontuados por imagens ou palavras com função de abstração, demonstração ou mesmo fuga para além da composição ali estabelecida. A imagem de uma árvore centenária, por exemplo, requalifica a fala sobre a acepção ideal de cultura que irá lastrear um programa de governo. Desde a concepção até a finalização do projeto, profissionais de diversas áreas artísticas e um grupo de pesquisadores e gestores culturais empenharam-se nestes trípticos, buscando dar conta de demarcar o território cultural – tão fugidio e camaleônico – como espaço de compreensão de identidades, alteridades e, necessariamente, sustentabilidade.

A Coleção Viva Cultura Viva é composta por 11 vídeos (5’ cada um), com entrevistas e imagens de Pontos de Cultura; seis debates com especialistas (20’ cada um), realizados entre abril e junho/2009 e pelo presente website [http://www.vivaculturaviva.org.br/], que além dos vídeos e debates apresenta conteúdos sobre o tema Gestão Cultural e um Saiba Mais com informações complementares sobre os temas tratados em cada um dos vídeos.”

I. O QUE É CULTURA?

A definição do conceito de cultura implica em uma longa e complexa reflexão realizada no âmbito de uma discussão teórica, tema de inúmeros estudos, debates e publicações.

A palavra cultura tem origem no termo cultivo e como toda atividade humana de cultura, isto é, de “cultivo” do ser em seu processo de humanização, a produção cultural responde a desejos e necessidades das comunidades.

Segundo o Dicionário crítico de política cultural, de Teixeira Coelho, a conceituação mais ampla de cultura “(…) remete à idéia de uma forma que caracteriza o modo de vida de uma comunidade em seu aspecto global, totalizante”.

A cultura expressa os diferentes modos de existir dos diversos grupos humanos, incluindo os modos de lidar com a natureza, as manifestações imateriais – tais como os jeitos de dançar, cozinhar e tantos outros – bem como os produtos materiais resultantes das produções concretas e das construções empreendidas pelos seres humanos.

No livro O crisântemo e a espada (1972), a antropóloga norte-americana Ruth Benedict afirma que a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. Essa lente revela o modo como os indivíduos ou os grupos sociais respondem às suas próprias necessidades e desejos. Como os homens de culturas diferentes usam lentes diversas, os homens têm visões desencontradas das coisas.

Desde o início da gestão de Gilberto Gil, em 2003, o Ministério da Cultura (MinC) adotou uma abordagem do conceito antropológico de cultura como definição que norteia os programas e o escopo de suas ações. Esse conceito, abrangente, considera três dimensões interdependentes da cultura: “(…) a dimensão simbólica, relacionada ao imaginário, às expressões artísticas e práticas culturais; a cultura como cidadania, direito assegurado na Carta Magna, nas Declarações universais, condição indispensável do desenvolvimento humano; finalmente, a cultura como economia, geradora de crescimento, emprego e renda”.

II. PROGRAMA CULTURA VIVA

O Programa Cultura Viva é desenvolvido pelo Ministério da Cultura (MinC) desde o ano de 2004. O ponto de partida foi o compromisso de “desesconder” o Brasil dos próprios brasileiros, articulando cidadania, cultura e educação em ações que visam incentivar, promover e preservar a cultura brasileira em toda a sua diversidade.

O Programa articula-se com outras políticas públicas do MinC, entre elas o Programa Mais Cultura, que tem como diretriz estratégica possibilitar a garantia do acesso aos bens culturais, a qualificação do ambiente social dos municípios e a geração de oportunidades de trabalho, emprego e renda.

Concebido como “uma rede orgânica de gestão, agitação e criação cultural”, o Programa Cultura Viva tem como base de articulação os Pontos de Cultura, grupos e organizações que promovem ações de diversas naturezas no campo da cultura e são selecionados por meio de editais públicos, passando a receber aporte financeiro governamental.

Nas palavras do Secretário de Cidadania Cultural Célio Turino, “cada Ponto é de um jeito e tem que ser assim porque o Brasil é muito diverso”. Aldeias indígenas, cidades de diferentes portes, centros, periferias, favelas, universidades: os Pontos de Cultura são muitos e estão em todos os lugares. O Programa Cultura Viva, assim como a própria cultura, está em constante fazer-se.

Inicialmente foram formuladas cinco ações para o Programa: Pontos de Cultura, Cultura Digital, Agente Cultura Viva, Ação Griô e Ação Escola Viva. Com o desenvolvimento das redes de Pontos, outras frentes foram sendo incorporadas ao projeto inicial, como Teia, Pontões, Pontinhos de Cultura, Cultura e Saúde, Pontos de Mídia Livre, entre outras.

Masi cultura nas escolas

III. CULTURA & CIDADANIA

O ano de 1988 no Brasil foi marcado pela entrada da nova Constituição, com alguns artigos dedicados à cultura e às formas de lidar com ela no campo dos direitos dos cidadãos. Em termos constitucionais, estão incluídos entre os bens culturais brasileiros os modos de criar, fazer e viver; as criações científicas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

Nesse mesmo ano, a ONU instituiu a Década Mundial da Cultura e do Desenvolvimento. Na concepção de intelectuais do mundo todo, chegávamos ao limiar do século XXI e do novo milênio com a angústia de constatar que, apesar dos avanços tecnológicos e científicos, cerca de um bilhão de pessoas no planeta vivia com uma renda diária insuficiente para sua sobrevivência.

A cultura relacionada aos direitos dos cidadãos ganhou força a partir dos anos 1990. Mas suas raízes eram mais profundas em outras esferas de organização social, como o feminismo, o movimento negro e as associações religiosas. A palavra-chave era identidade e a demanda era buscar uma sociedade amplamente democrática. A primeira coisa a fazer era instituir o respeito à diversidade cultural em um mundo cada vez mais globalizado.

Nos últimos anos, conferências internacionais e documentos chancelados pela ONU demarcaram a discussão sobre cultura e cidadania. Exemplos disso são a Conferência de Estocolmo (1998) e a Agenda 21 da Cultura (2004), cujas diretrizes indicam que as políticas culturais devem garantir que a cultura, a arte e tudo o que expresse as inquietações e a capacidade criativa das pessoas sejam resguardados.

É pela cultura que os cidadãos não só resistem, mas também transgridem as regras e produzem uma nova sociedade. A cultura contribui para a renovação, pois traz para o campo da cidadania a perspectiva de que os direitos que temos no presente não são os únicos. Podemos romper com estes e sonhar com outros.

IV. CULTURA & SUSTENTABILIDADE

O tema da sustentabilidade é pauta central da agenda das grandes discussões mundiais. Desde a Conferência de Estocolmo, promovida pela ONU, na Suécia, em 1972, ampliaram-se os debates e estudos sobre a relação entre sustentabilidade, desenvolvimento, economia e cultura.

Sustentabilidade é a intervenção humana no mundo feita de modo a permitir que a vida permaneça sustentável, portanto, permeia todos os campos da vida social e produtiva. Ela integra vários aspectos da nossa vida em sociedade e propõe uma nova maneira de pensar e estar no mundo.

Ações sustentáveis pressupõem a existência de indivíduos e coletividades conscientes, inclusive para alterar seus hábitos culturais e garantir a preservação da vida e do futuro. A conscientização da repercussão das ações nas gerações futuras, desenvolve uma percepção sobre a importância da responsabilidade comum.

A cultura é importante para reforçar os modelos de desenvolvimento existentes e, ao mesmo tempo, criar novos modelos pautados numa visão que ultrapasse o tempo de uma vida, de modo a garantir a continuidade da existência humana e da biodiversidade.

No Seminário da Sustentabilidade Cultural, realizado em Belo Horizonte/MG, em 2007, o ex-ministro Gilberto Gil afirmou que “o desenvolvimento (econômico do planeta) não caminha sem uma especial ênfase no desenvolvimento da cultura local. (…) É preciso reforçar a consciência dessas culturas em relação ao seu próprio desenvolvimento”.

V. CULTURA & EDUCAÇÃO

O conceito de educação, de uma maneira ampla, pode ser entendido como os diversos processos que os diferentes grupos humanos elaboram de modo a possibilitar que as novas gerações aprendam os saberes que são socialmente valorizados.

A escola é considerada o local privilegiado da educação, mas não é o único lugar social onde se dá a aprendizagem. Existem outros lugares sociais de produção, difusão e apropriação do conhecimento que possibilitam oportunidades que colaboram com o desenvolvimento do potencial criativo dos indivíduos e a interação social de forma autônoma e construtiva.

No cenário contemporâneo, em que o grande desafio é a formação de pessoas que articulem diferentes saberes de modo a assumir posturas comprometidas social, ética e politicamente, a educação tem o importante papel de propiciar situações de aprendizagem que interconectem diferentes áreas do saber e coloquem as pessoas em contato com produções culturais diversas.

A cultura propicia oportunidades para que os indivíduos se reconheçam, valorizem o que fazem e a si mesmos, estreitem os laços de afeto e lealdade, e estabeleçam um espaço seguro para o desenvolvimento de pessoas críticas, autônomas e criativas, capazes de transformar a realidade que os cerca e dar forma ao seu futuro e ao da comunidade em que estão inseridos.

VI. CULTURA & LIBERDADE

A cultura é o campo privilegiado da experimentação, do simbólico, das revoluções silenciosas, dos bens intangíveis e da subjetividade. Uma experiência cultural favorece a reflexão crítica acerca de nós mesmos e do mundo em que vivemos.

Danilo Santos de Miranda entende que a cultura tem um papel central para transformar o ser humano, possibilitando a experimentação, o contato com novas idéias e propostas. “A experiência cultural demanda convivência, demanda permanente contato com o outro. Não existe produção artística sem a possibilidade de ser vista, mostrada, experimentada por outro. O escritor, quando escreve, supõe que alguém vai ler; o pintor, quando pinta, supõe que alguém vai ver (…) A questão do contato, da convivência é inerente a esse processo”.

Para o filósofo Renato Janine Ribeiro a cultura é importante na medida em que abre novos horizontes para as pessoas, modifica os indivíduos no sentido de ampliar as possibilidades de escolha e proporcionar mais liberdade.

Segundo Janine, “as pessoas estão tendo que criar constantemente novas formas de vida que valem para umas e não para outras. Nisso, a cultura pode ajudar muito, porque lida com a criação. Quando exercitamos nossa criatividade, quando nos dedicamos a criar – seja desenhando, cantando, filmando etc. -, temos maior facilidade para encontrar saídas para situações que consideramos adversas”.

VII. CULTURA & ARTE

Segundo a abordagem do conceito antropológico, uma das dimensões da cultura é a simbólica, relacionada ao imaginário, às expressões artísticas, à arte. Como parte da cultura, as produções artísticas são patrimônios simbólicos da comunidade.

Como a arte entra no cotidiano das pessoas, em especial aquelas que vivem em espaços vulneráveis econômica e socialmente? Qual a relação entre a produção artística e o imaginário? O entretenimento integra a produção artística?

Não há respostas objetivas para essas questões. Mas as reflexões provocadas pela arte fazem dela um elemento para reorganizar as sensibilidades, os modos de encarar o mundo e, eventualmente, superar as dificuldades. Pela arte, é possível fazermos uma reflexão crítica acerca de nós mesmos e do mundo em que vivemos.

Muitos grupos e comunidades produzem arte em variados suportes e linguagens. Ao seu modo estão respondendo e ampliando as questões sobre a produção artística, a experimentação estética e a presença da arte no cotidiano. Ao mesmo tempo, essas comunidades estão (re)produzindo continuamente suas identidades e suas consciências coletivas, testando-se enquanto elaboram seus experimentos artísticos.

A arte é produzida a partir da sensibilidade humana, e isso vale para quem a faz e para quem a consome. Somos sensíveis aos sons, às cores e aos gestos; por isso reconhecemos arte na música, nas expressões visuais, na dança, no teatro e no cinema, por exemplo.

VIII. CULTURA, ENCONTROS E DIÁLOGOS

O compartilhamento de práticas culturais, valores e tradições é condição imprescindível para que os indivíduos se reconheçam pertencentes a uma história, território e grupo específico.

A experiência de aproximar-se e conhecer diferentes formas de se relacionar com o mundo, de se relacionar consigo mesmo e com o outro, descobrir outras maneiras de expressar e criar idéias e sensações de modos antes desconhecidos, favorecem a valorização da diversidade cultural .

É necessário estimular a troca de saberes e experiências, propiciando o reconhecimento e a valorização das diferenças e semelhanças culturais existentes. Essa tarefa é fundamental para se promover conhecimentos significativos e o fortalecimento de vínculos essenciais à cidadania.

Para o economista Marcos Arruda, “a diversidade cultural é um sinal de vitalidade de uma sociedade. Quanto mais homogênea for a sociedade em termos culturais, mais pobre ela é. (…) E o diálogo entre essas culturas é fundamental para fazer com que a riqueza do todo ainda seja maior do que a soma das várias culturas”.

Acessar, interagir e construir novos conhecimentos a partir da diversidade cultural expressa nas produções artístico-culturais e nas relações com pessoas pertencentes a outros contextos culturais é um caminho decisivo para a promoção do desenvolvimento sustentável do ser humano no planeta.

IX. CULTURA DIGITAL

As chamadas Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC’s) possibilitaram uma nova dinâmica nas sociedades contemporâneas, potencializando trocas e interações entre as pessoas e novos modelos de aprendizagem e meios de expressão.

Observa-se uma mudança significativa na nossa forma de aprender e estar no mundo; e cada vez mais as pessoas convivem com o desafio e a necessidade de acessar e processar um vasto e simultâneo conjunto de informações, conhecimentos e experiências.

Esse novo ecossistema criativo e comunicativo, estimulado pelos novos meios de comunicação – internet, celular, vídeos etc. – acarreta mudanças de sensibilidades traduzidas em novas formas de ler, escrever, expressar e sentir.

Existe uma ampla discussão sobre a cultura digital. Para o ex-ministro da cultura Gilberto Gil, em aula magna proferida na Universidade de São Paulo: “Novas e velhas tradições, signos locais e globais, linguagens de todos os cantos são bem-vindos a este curto-circuito antropológico. A cultura deve ser pensada neste jogo, nessa dialética permanente entre tradição e invenção, nos cruzamentos entre matrizes muitas vezes milenares e tecnologias de ponta, nas três dimensões básicas de sua existência: a dimensão simbólica, a dimensão de cidadania e inclusão, e a dimensão econômica.

Atuar em cultura digital concretiza essa filosofia, que abre espaço para redefinir a forma e o conteúdo das políticas culturais (…) Cultura digital é um conceito novo. Parte da idéia de que a revolução das tecnologias digitais é, em essência, cultural. O que está implicado aqui é que o uso de tecnologia digital muda os comportamentos. O uso pleno da internet e do software livre cria fantásticas possibilidades de democratizar os acessos à informação e ao conhecimento, maximizar os potenciais dos bens e serviços culturais, amplificar os valores que formam o nosso repertório comum e, portanto, a nossa cultura, e potencializar também a produção cultural, criando inclusive novas formas de arte”.

X. REDES SOCIAIS

Intercâmbio de idéias, de informações e de experiências a partir de grupos de discussão compostos por indivíduos com interesses semelhantes formam as redes sociais, que têm importância fundamental para as sociedades contemporâneas.

Se as redes de indivíduos e seus conhecimentos existem desde que os seres humanos começaram a se organizar em grupos sociais, o interesse econômico e sociológico por elas é mais recente. Faz algumas décadas que a economia percebeu a importância do chamado “capital humano” ou, em outras palavras, o conhecimento dos indivíduos como instrumento que possibilita o crescimento econômico.

As chamadas Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) possibilitaram, a partir da década de 1990, novas práticas de formação e manutenção de redes sociais. Antes, os estudiosos preocupavam-se em analisar as redes sociais existentes; agora, é preciso incluir na análise o fenômeno representado pela rapidez com que novas redes sociais começam a surgir, especialmente pela internet. Desde os primeiros anos do www – sigla em inglês para World Wide Web ou rede mundial de computadores -, comunidades virtuais concentraram-se no ativismo e na discussão de temas do interesse dos membros de diferentes redes sociais virtuais.

Já no século XXI, o anonimato que caracterizava a vida nas grandes metrópoles pôde deixar de existir ou se transformar radicalmente, ao menos para aqueles que participam dessas redes sociais e expõem seus perfis pessoais diante de milhares de outras pessoas.

Os participantes das redes sociais articuladas por meio das TICs funcionam como uma inteligência coletiva, à qual se pode recorrer para discutir e resolver diversas questões. A inteligência coletiva, difícil de mobilizar fisicamente para ações políticas, pode ser mobilizada por intermédio das redes sociais virtuais.

XI. A TEIA

Teia é o nome que recebem os Encontros Nacionais dos Pontos de Cultura, promovidos pelo Ministério da Cultura. É considerado o maior encontro da diversidade cultural brasileira, uma grande celebração de iniciativas culturais que tem por objetivo consolidar as ações do Programa Cultura Viva, refletir sobre as ações dos Pontos de Cultura e avançar na organização dos mesmos.

A Teia reúne presencialmente uma grande rede de representantes de grupos e entidades que desenvolvem, nas mais diversas comunidades espalhadas pelos centros e periferias do país, práticas sociais transformadoras tendo na cultura seu elemento principal.

A primeira Teia aconteceu no ano de 2006, em São Paulo/SP com o tema pautado na relação entre Cultura, Educação, Cidadania e Economia Solidária. No ano seguinte, em Belo Horizonte/MG, as discussões giraram em torno da relação entre Cultura e Educação por meio do tema Tudo de todos e, em 2008, em Brasília/DF, o encontro celebrou os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos a partir do tema Iguais na Diferença. A quarta edição da Teia está prevista para o ano de 2010 em Fortaleza/CE e pretende discutir o tema Cultura Digital.

O nome Teia não é uma sigla, mas uma alusão ao conceito que orienta a implementação dos Pontos de Cultura. Teias, como os processos sociais, são tecidas, construídas historicamente e no coletivo. Teias também são envolventes e se abrem em múltiplos caminhos e perspectivas. As iniciativas culturais de diferentes lugares do país encontram-se e se reconhecem num processo que consolida e revê identidades mediante as trocas de experiências, pensamentos e atitudes.

A celebração encerra, assim, um sentido político de força, definição de metas, trocas e reflexão que não envolve apenas os Pontos de Cultura, mas toda a sociedade que freqüenta os encontros e pode vislumbrar um panorama consistente e democrático da produção cultural brasileira.

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DEBATES


Nota do editor d’A Casa de Vidro:
O conteúdo deste post foi reproduzido do site oficial
http://www.vivaculturaviva.org.br/