NÓS SOMOS A CATÁSTROFE: A Humanidade Como Força Geológica Cataclísmica na obra “A Sexta Extinção” de Elizabeth Kolbert

“Ao longo dos últimos 500 milhões de anos, o mundo foi assolado por 5 grandes extinções em massa, nas quais a biodiversidade diminuiu de maneira drástica e violenta. Atualmente, a sexta extinção vem sendo monitorada por cientistas, que a consideram a mais potencialmente devastadora desde a que pôs fim aos dinossauros. E, desta vez, nós somos a catástrofe. Elizabeth Kolbert mostra que a sexta extinção corre o risco de ser o legado final da humanidade e nos convida a repensar uma questão fundamental: o que significa ser humano?” (Texto da apresentação da editora)

Poucos livros publicados na atualidade revelam de maneira mais inquietante e estarrecedora a atual crise sócio-ambiental global do que A Sexta Extinção (Ed. Intrínseca, 2015, 336 páginas, acesse na Amazon). A autora Elizabeth Kolbert escreve na revista The New Yorker desde 1999 e venceu o Prêmio Pulitzer de Não-Ficção em 2015 por esta obra.

Crucial para a compreensão da magnitude alarmante das transformações impostas pelas atividades humanas ao Planeta Terra, o livro é uma daquelas obras-primas do jornalismo científico. Uma leitura que é das mais cruciais e urgentes para a Humanidade, afinal, como pergunta a autora, “após sermos alertados sobre as maneiras como estamos pondo outras espécies em risco, não podemos tomar uma atitude para protegê-las? Afinal, o objetivo de espreitar o futuro não é conseguir mudar de curso e evitar os perigos à frente?” (p. 271)

“A Marcha do Progresso”, obra de Mark Henson

Elizabeth Kolbert é uma intelectual que atua como uma inestimável agente de conscientização – semelhante nisto à Edmund O. Wilson, Carl Sagan, David Attenborough etc. No entanto, pelo menos no Brasil, ela permanece bem longe das listas de best-sellers.  A Sexta Extinção tende, ao contrário, a ser um daqueles livros que vai parar no saldão pois encalha nos estoques das livrarias. Talvez esteja aí uma das raízes do problemão em escala planetária: a maioria dos seres humanos não se interessa por saber dos impactos que os 7 bilhões de homo sapiens estão gerando na bioesfera; não estão afim de mudarem seus hábitos diários de consumo em prol da sustentabilidade da teia da vida sobre a face da Terra; e contam-se às centenas de milhões aqueles que estão medicando seus pavores e angústias com a noção de que, quando o clima ficar ainda mais caótico do que está, podemos correr todos para as igrejas e fazer nossas preces ao Senhor, que há de vir nos resgatar com uma nova Arca de Noé…

Ao invés de terem a coragem de encarar a verdade, boa parte dos humanos preferem a tática do avestruz que esconde a cabeça na areia e prefere não enxergar nada que não sejam boas notícias e finais felizes. Até que o cataclismo que nos tornamos venha, com a força de mil furacões, expulsar todos os humanos com cabeça de avestruz de seus precários refúgios. A ecologia é desprezada demais no mainstream midiático e político, considerada a relevância extrema que possui o que Rachel Carson, autora de Primavera Silenciosa (Silent Spring), de “o problema em partilhar nossa Terra com outras criaturas” (p. 271).

A ecologia precisaria sair do gueto, explodir os limites de nichos universitários, transcender as jaulas dos cursos de biologia e ciências exatas, ganhar as ruas e as redes, tornar-se força intelectual e material capaz de mobilização e transformação social, caso contrário o legado do homo sapiens ao futuro será o de uma vilania imperdoável. As criaturas que herdarem a Terra após a Sexta Extinção em Massa da vida sobre o planeta, caso desenvolvam um dia a capacidade de consciência, hão de olhar para trás enfurecidas para este tal de Humanidade, que hoje atua com o poder cataclísmico do asteróide que causou a Quinta Extinção (aquela sobre a qual ficamos sabendo, em nossas infâncias, não a partir de campanhas científicas de conscientização, mas por espetáculos da Indústria Cultural como o Jurassic Park, blockbuster de Steven Spielberg baseado no romance de Michael Crichton, ou o programa de TV de imenso sucesso, Família Dinossauro). Nosso abissal desconhecimento, ignorância e desinformação sobre um tema tão imensamente importante como a Extinção de Espécies Vivas é algo que Elizabeth Kolbert nos ajuda a sanar:

Hoje em dia, qualquer criança aprende na escola, desde cedo, desde as aulas mais básicas de biologia, sobre a extinção de espécies – um fenômeno que a teoria da evolução, formulada por Charles Darwin, também prevê e explica. Kolbert lembra que

“a extinção talvez seja a primeira ideia científica com a qual as crianças de hoje em dia precisam lidar. Com um ano, elas ganham dinossauros de brinquedo e, aos dois anos, entendem, pelo menos de maneira vaga, que aquelas pequenas criaturas de plástico representam animais enormes. Se forem rápidas no aprendizado, crianças ainda de fraldas conseguem explicar que já existiram vários tipos de dinossauro no mundo e que todos eles foram extintos muito tempo atrás… Tudo isso para dizer que a extinção nos parece uma ideia óbvia. Não é.

Aristóteles escreveu a História dos Animais em 10 livros, sem jamais levar em conta a possibilidade de que os animais tivessem de fato uma história. A História Natural de Plínio inclui descrições de animais verdadeiros e também de animais míticos, mas nenhuma descrição dos animais extintos. A ideia não floresceu na Idade Média nem durante o Renascimento… No Iluminismo, a visão preponderante era de que todas as espécies estivessem ligadas a uma imensa e indestrutível ‘cadeia de seres’. No século XVIII, ossadas de mamutes começaram a aparecer da Europa à Sibéria. Esse caso também foi encaixado à força dentro do sistema. Os ossos pareciam bastante com os dos elefantes. Como claramente não existiam elefantes na Rússia daquele tempo, concluiu-se que aquelas ossadas deviam pertencer a bichos que foram arrastados para o norte pelo dilúvio do Gênesis.

A extinção só surgiu como um conceito na França revolucionária – e não deve ter sido coincidência. Isso aconteceu em grande parte graças a um animal, a criatura hoje em dia chamada de mastodonte-americano, ou Mammut americanum, e um homem – o naturalista Jean Léopold Nicolas Frédéric Cuvier (1769 – 1832).” (p. 32-33)

O que está causando a Sexta Extinção da Vida sobre o planeta é um conjunto de causas antropogênicas, muito bem desvendada por Kolbert, e que eu ando gostando de chamar de Antropocalipse. Este Apocalipse ambiental causado pelas ações humanas tem várias faces – desmatamento de florestas, queima de combustíveis fósseis, vastidão da agropecuária industrial e da dieta carnívora, poluição atmosférica e hídrica, uso excessivo de pesticidas e agrotóxicos, manipulação genética, dentre outros. No seguinte trecho, Kolbert revela o tamanho colossal do problema:

“Desde o início da Revolução Industrial, os seres humanos queimaram combustíveis fósseis – carvão, petróleo e gás natural – o suficiente para adicionar 365 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera. O desmatamento contribuiu com mais 180 bilhões de toneladas. A cada ano, despejamos outros cerca de 9 bilhões de toneladas de carbono, uma quantidade que tem aumentado até 6% ao ano. Em consequência de tudo isso, a concentração de dióxido de carbono no ar hoje – um pouco mais de 400 partículas por milhão – é superior à dos últimos 800.000 anos. É bem provável que seja maior do que em qualquer momento nos últimos milhões de anos. Se essa tendência continuar, em 2050 as concentrações de CO2 atingirão 500 partículas por milhão, mais ou menos o dobro dos níveis encontrados na era pré-industrial.

Espera-se que tal aumento produza um crescimento da temperatura global média entre 1,9 e 3,8º C, o que desencadeará diversos eventos capazes de alterar o mundo, inclusive o desaparecimento da maioria das geleiras restantes, a inundação de ilhas rasas e cidades litorâneas e o derretimento da calota de gelo do Ártico. Mas isso é só metade da história…

Os oceanos cobrem 70% da superfície terrestre… Só em 2014, os oceanos absorveram 2,5 bilhões de toneladas de carbono. (…) A acidificação dos oceanos desempenhou um papel em pelo menos duas das Cinco Grandes Extinções (no fim do Permiano e no fim do Triássico) e é bem possível que tenha sido um dos fatores primordiais numa terceira (o fim do Cretáceo). Por que a acidificação dos oceanos é tão perigosa? Dependendo da firmeza com que os organismos são capazes de regular suas químicas internas, a acidificação pode afetar processos básicos como o metabolismo, a atividade enzimática e a função proteica. Como a acidez maior muda a composição das comunidades microbiológicas, ela vai alterar a disponibilidade de nutrientes essenciais…

Cerca de um terço do CO2 que os seres humanos já lançaram no ar foi absorvido pelos oceanos. Isso alcança espantosos 150 bilhões de toneladas. No entanto, como é o caso da maior parte das características do Antropoceno, não se trata apenas da quantidade, mas também da velocidade com que isso ocorre. Uma comparação útil (embora imperfeita) pode ser feita com o álcool. Assim como é bem diferente para o seu sangue se você consumir 6 latas de cerveja em uma hora ou em um mês, para a química marinha faz uma enorme diferença se o dióxido de carbono é acrescentado ao longo de milhões de anos ou numa centena. Para os oceanos, assim como para o fígado humano, essa proporção é importante…” (KOLBERT, 2015, p. 122 – 132)



 

A nova época geológica em que agora estamos foi batizada de Antropoceno por Paul Crutzen, “químico holandês que compartilhou o Prêmio Nobel pela descoberta dos efeitos das substâncias depletivas de ozônio (ODS). A importância dessa descoberta não é um exagero. Se ela não tivesse ocorrido – e se continuássemos utilizando os produtos químicos com a mesma difusão – o ‘buraco’ na camada de ozônio que se abre todas as primaveras sobre a Antártida teria se expandido até circundar toda a Terra.” (KOLBERT, p. 116)

A revista Piseagrama publicou a tradução artigo de 2000 de Crutzen, em parceria com Eugene Stoermer, texto que é uma espécie de Marco Zero da proposta, hoje vastamente aceita e disseminada, de que o planeta entrou em uma nova era em virtude da ação conjunta da espécie humana. O embarque da espaçonave Terra na era do Antropoceno está diretamente vinculada com a ação conjugada dos mais de 7 bilhões de seres humanos, em especial dos países ditos “ricos” e suas escolhas econômicas tresloucadas, pois altamente poluentes e insustentáveis:

“Em poucas gerações, a humanidade está exaurindo os combustíveis fósseis que foram gerados ao longo de centenas de milhões de anos. (…) A atividade humana aumentou a taxa de extinção de espécies entre mil e dez mil vezes nas florestas tropicais, e vários gases estufa importantes em termos climáticos aumentaram substancialmente na atmosfera: o CO2 aumentou mais que 30% e o CH4 mais de 100%. (…) Considerando esses e vários outros crescentes impactos das atividades humanas na terra e na atmosfera, que acontecem em todas as escalas possíveis – inclusive global –, parece-nos mais do que apropriado enfatizar o papel central da humanidade na geologia e na ecologia propondo o uso do termo Antropoceno para a época geológica atual. Os impactos das atividades humanas vão continuar por longos períodos. Segundo um estudo de Berger e Loutre, devido às emissões de CO2 antropogênicas, o clima pode se afastar significativamente de seu comportamento natural ao longo dos próximos 50 000 anos.

(…) A não ser que ocorram grandes catástrofes como uma enorme erupção vulcânica, uma epidemia inesperada, uma guerra nuclear em larga escala, um impacto de asteroide, uma nova idade do gelo ou o contínuo saqueamento dos recursos da Terra por tecnologias ainda primitivas (os últimos quatro perigos podem, no entanto, ser prevenidos em uma noosfera em funcionamento), a humanidade vai continuar sendo uma importante força geológica por muitos milênios, talvez por milhões de anos. Uma das principais tarefas futuras dos homens será desenvolver uma estratégia mundialmente aceita que leve à sustentabilidade de ecossistemas contra estresses induzidos por humanos, e isso vai requerer pesquisa intensiva e aplicação inteligente do conhecimento até aqui adquirido na noosfera, mais conhecida como sociedade do conhecimento ou da informação. Uma tarefa empolgante, mas também difícil e assustadora, se coloca para a comunidade mundial de pesquisa e engenharia, para que lidere a humanidade em direção a um gerenciamento ambiental que seja global e sustentável.” (CRUTZEN; STOERMER – Leia na íntegra)

A noção assustadora de que a Humanidade possa ser extinta por completo em decorrência dos próprios processos geofísicos que ela desencadeou reativa-se com cada vez maior frequência.  Os jornais se enchem de notícias sobre mega-furacões devastadores, como o Katrina que golpeou o Golfo do México em 2005, e catástrofes de vazamento de petróleo ou de rejeitos de mineração, como a hecatombe que devastou o Rio Doce nos estados brasileiros de Minas Gerais e Espírito Santo em novembro de 2015. Diante de um cenário tão alarmante, fantasias apocalípticas e distópicas marcam cada vez mais a produção artística contemporânea. Na sala de cinema, a destruição do planeta ou de toda a teia-da-vida que nele existe foram temas de impressionantes obras recentes como o Melancholia de Lars Von Trier e Expresso do Amanhã (Snowpiercer) de Joon-Ho Bong.

Com Cuvier e os fósseis de mastodonte, desperta enfim na Humanidade a noção de que ocorrem de fato na história da vida no planeta a extinção de espécies – as “espèces perdues”. Com Cuvier – celebrado por autores da época como Balzac – intensifica-se o interesse por pesquisar as causas para os cataclismos e catástrofes que pudessem explicar os períodos críticos, na história do planeta, onde ocorrem as grandes extinções em massa.


“Cuvier insinuou que conhecia a força motriz por trás da extinção, quiçá seu mecanismo exato”, escreve Kolbert. “Haviam sido todos extintos por algum tipo de catástrofe… Nem mesmo os eventos mais devastadores conhecidos no mundo contemporâneo – erupções vulcânicas, digamos, ou incêndios florestais – eram suficientes para explicar a extinção… Portanto, as mudanças que causaram as extinções deviam ter atingido magnitudes muito maiores – tão imensas que os animais não tinham sido capazes de se adaptar a elas. O fato de tais eventos tão extremos nunca terem sido observados por Cuvier ou qualquer outro naturalista era outra indicação da mutabilidade da natureza: no passado, ela operara de modo diferente – mais intenso e mais selvagem – do atual. (…) Cuvier observou que muitos mitos e textos antigos, incluindo o Antigo Testamento, aludiam a algum tipo de crise – em geral, um dilúvio – que precedeu a ordem atual.” (KOLBERT, p. 55)

Um dos méritos maiores do livro de Kolbert está em destacar o ineditismo da situação atual: o processo que estamos vivenciando, a Sexta Extinção, é a primeira em que uma espécie animal (o homo sapiens) é o agente cataclísmico que causa a gigantesca queda de biodiversidade hoje em curso e em processo de aceleração. Nunca antes na história desse planeta houve um animal que pudesse colocar em risco a Vida como um todo. No Antropoceno, o asteróide somos nós mesmos. O piloto tresloucado deste sistema suicida é o capitalismo globalizado e a desregulação dos mercados propugnada pelo neoliberalismo – este que, se houver alguém vivo para contar esta história daqui uns séculos, será reconhecido como a Ideologia do Apocalipse Sócio-ambiental.

O mais alarmante de tudo talvez seja o abismo gigantesco entre o conhecimento científico que já possuímos sobre o estrago que a Humanidade vem causando ao planeta, por um lado, e as miúdas e insuficientes ações sócio-políticas concretas que estamos realizando no sentido de pelo menos amenizar os impactos catastróficos que já causamos e as tragédias futuras e iminentes que já não podemos evitar. Nada parece minimamente suficiente para que a Humanidade acorde de seu torpor e sua apatia a tempo de salvar-se do cataclismo que ela tornou-se.



Nem os clamores do Papa Francisco, nem os livros brilhantes de Naomi Klein, nem os encontros internacionais como a Rio 92 e a Rio +20, nem os acordos como o Protocolo de Kyoto ou o Pacto de Paris (COP 21), tem o poder para impor uma mudança de rumos e paradigmas. Para evitar a catástrofe completa, seria preciso não queimar a imensa maioria das reservas de combustíveis fósseis que temos no planeta. Pisando no acelerador de um mecanismo suicida e causador de extinção em massa, boa parte daqueles que hoje tem o poder político de decisão (Donald Trumps e outros retardados similares) hoje tomam a decisão escrota e babaca de colocar vendas sobre os próprios olhos. Vendas compostas por notas de 100 dólares… Seguindo adiante com o projeto capitalista, extrativista, crescimentista, baseado no delírio nefasto de que é possível o crescimento contínuo de capital no seio de um mundo finito e onde em breve teremos 9 milhões de estômagos para alimentar e saciar, vamos com tudo na direção do Antropocalipse.

A loucura hoje hegemônica e dominadora, o capitalismo neoliberal ecocida, praticante impune das piores hecatombes sócio-ambientais, conduz os mais pessimistas de nós a pensar que o deus Capital é aquele tipo de divindade cultuada pelo tipo de estrutura orgânica que se auto-destrói e lega ao futuro apenas o exemplo grotesco de sua própria estupidez suicida. Ao invés de acordar para a necessidade de escolha entre uma nova alternativa – parafraseando Rosa Luxembrugo, a alternativa é: ecossocialismo ou barbárie! – seguimos em larga medida adotando a técnica do avestruz: escondemos nossas cabeças na areia para não enxergar o tamanho da encrenca em que nos metemos. Mas isso não tem como durar muito tempo: os miolos dos avestruzes logo serão torrados pelo calor escaldante de um planeta em chamas.

Raj Patel, author of Stuffed and Starved and The Value of Nothing

Em seus livros altamente relevantes, o ativista e pesquisador Raj Patel também nos fornece um quadro estarrecedor de um sistema econômico que está em guerra contra o mundo natural – “se vencermos”, como diria Hubert Reeves, “estamos perdidos”. Este é o tipo de Guerra Mundial – como a apelidou o filósofo Michel Serres em sua obra homônima – que não deixa de evocar um velho lema pacifista: ninguém vencerá esta guerra, só haverá perdedores. Em O Valor de Nada, Patel busca demolir os mitos da doutrina neoliberal e escreve que

“A Sociedade de Mercado está incrustada no mundo natural, coisa que o mito do mercado autorregulado também procura negar. A civilização humana depende da ecologia da Terra, embora a estejamos explorando até sua morte – segundo algumas estimativas, a atividade humana aumentou a taxa de extinção de outras espécies em cerca de 1000 vezes (Cf. Millenium Ecosystem Assessment). No cercamento implacável do mundo natural, destruímos nosso planeta e, caso os sussurros ouvidos entre cientistas do clima devam ser levados a sério, talvez já seja tarde demais para fazer alguma coisa. A eterna busca por crescimento econômico transformou a humanidade num agente de extinção, por meio da contínua desvalorização dos serviços ecossistêmicos que mantêm nossa Terra viva.” (PATEL, Ed. Zahar, 2009, p. 25)

Não faltarão os milhões que buscarão refúgio nas igrejas, que constituirão rebanhos de fiéis desejosos de salvar suas almas do Apocalipse e que adotarão a tática perfeitamente inútil de rezar – o que é o contrário de agir. Não faltarão também aqueles que estarão mobilizados, nas ruas, nas redes, nas barricadas, buscando a somatória de forças coletivas em prol de um outro mundo possível – como temos exemplos nos Fóruns Sociais Mundiais e em eventos impressionantes como a People’s Climate March de 2014.

O livro de Kolbert, se é assustador, também é salutar. Eles nos sacode do torpor e nos diz claramente que “a extinção em curso tem sua própria causa original – não é um asteróide ou uma erupção vulcânica maciça, mas uma ‘espécie daninha’.” (p. 276) A maioria de nós não gosta de pensar sobre a Humanidade nestes termos: faz parte do narcisismo de todo indivíduo a estratégia de manutenção da auto-estima que consiste em acreditar-se pertencente a algo de muito maravilhoso, a Humanidade, ápice da Evolução, senhora da Natureza, cume do orgânico. Às Três Feridas Narcísicas de Freud teremos que adicionar uma quarta: no Antropoceno, a Humanidade vai precisar a se acostumar com a noção de que estamos sendo, neste planeta, uma “espécie daninha” e um agente de extinção da biodiversidade que nos assemelha a um cataclismo.

Segundo o antropólogo Richard Leakey, “o homo sapiens pode ser não apenas o agente da Sexta Extinção, mas corre o risco de ser uma de suas vítimas” (p. 278). É o que sintetiza de forma brilhante o ecologista Paul Ehrlich, em uma frase que está no Salão da Biodiversidade em Stanford:

AO PRESSIONAR OUTRAS ESPÉCIES PARA A EXTINÇÃO, A HUMANIDADE ESTÁ SERRANDO O GALHO SOBRE O QUAL ESTÁ SENTADA.

 

Eduardo Carli de Moraes – A Casa de Vidro
Goiânia, 18 de Outubro de 2017

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VÍDEOS

A SABEDORIA NO PODER: O caso Pepe Mujica e a expansão dos horizontes da política possível

por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

A vida extraordinária de José “Pepe” Mujica é garantia que ele, ao deixar pra trás a vida, será um daqueles mortais que não só entrará para a História, mas será transmutado em mito? Quem viver, verá.

O ex-presidente uruguaio, uma das figuras mais notáveis e excêntricas na geopolítica desta década (2010s), marcou época com sua governança que ousou avançar transformações pertinentes em áreas-tabu: a legalização do aborto, a união civil de casais homo-afetivos, a regulamentação da maconha, dentre outras medidas.

A mídia, sempre à caça de manchetes bombásticas, chegou a descrevê-lo como “o presidente mais pobre do mundo”, rótulo que ele recusa: Mujica destaca sempre que não é pobre, mas sim sóbrio, humilde, moderado. Alguém que pratica o desapego em relação a tudo que é supérfluo, inessencial, pois sabe que não é na posse de coisas ou de símbolos de status que reside a autêntica liberdade.

Confrontando o consumismo e a ostentação, Mujica pratica e apregoa um estilo de vida frugal, sóbrio, sem luxos, evocando a ética estóica de Sêneca: “Pobres são os que me descrevem”, disparou em entrevista à Al Jazeera em 2013, declarando-se rico no “ouro de dentro” (para evocar uma expressão da poetisa Hilda Hilst):

“minha definição é a de Sêneca: pobres são os que necessitam de muito; se você precisa de muita coisa, é insaciável. Eu sou sóbrio, não pobre. Com a bagagem leve. Viver com pouco, com o imprescindível. E não estar muito amarrado a questões materiais. Por quê? Para ter mais tempo livre… A liberdade é ter tempo para viver.” (MUJICA. Via Rabufetti, A Revolução Tranquila, Leya, 2014, p. 43)

Descreve-se um cidadão de classe média, um uruguaio comum, sem empregados domésticos, que não viu motivos para mudar-se para uma torre de marfim ao ser eleito presidente da república: recusou-se a morar na suntuosidade do palácio presidencial pois, afinal, não precisava de tanta mordomia… Preferiu prosseguir morando, entre flores e árvores, com sua esposa ex-guerrilheira e seus cães queridos, em um sítio bucólico na periferia rural de Montevideo. Para se locomover até o trabalho, não precisava de helicóptero nem caranga blindada – podia dirigir seu Fusquinha 78…

Recusando o terno-e-gravata que muitos consideram como vestuário sine qua non para chefes-de-Estado e seus séquitos, sempre tão engomadinhos, Mujica é uma figura que chuta o balde da ortodoxia: foi visto em reuniões importantes vestindo sandálias e  camisas confortáveis que se esperaria de um velho senhor que estivesse indo caminhar à beira da praia. É uma pessoa de “impressionante aspecto desleixado”, como o caracterizou o jornalista Jonathan Watts, em artigo para o The Guardian, onde Mujica foi comparado como “um velho hobbit saindo de sua toca” (p. 47).

Mujica explica seu modus vivendi, suas escolhas de vestuário e de gestos, como conectadas intimamente à sua visão crítica e contestadora do que hoje é hegemônico na vida política do ocidente:

“Perdemos a confiança de nossos povos, que não nos entendem por causa de nossos gestos, às vezes inúteis, porque também pertencemos a uma cultura invasora, agressiva; temos que nos vestir como gentlemen ingleses porque esse é o traje da industrialização que se impôs no mundo, e até os japoneses tiveram que abandonar seus quimonos para ter prestígio no mundo; tivemos que nos disfarçar todos de macacos com gravata”, disparou, em Cuba, em Janeiro de 2014, durante a II Cúpula Presidencial da CELAC (Comunidade de Estados Latino-americanos e do Caribe) (p. 47).

Outra imagem circulou o mundo, estampou capas de jornais e revistas em vários continentes, gerou tirinhas e memes: o excêntrico presidente do Uruguai locomovia-se dentro de um Fusca, azul-celeste, ano 1987, recusando qualquer limusine blindada e com vidros-fumê, dentro da qual costumam defender-se os chefes-de-Estado.

Mujica em seu Fuscão é um símbolo de que é possível pensar a política institucional, o sistema democrático de representação, a conexão entre a filosofia e a governança, dentre outros temas, expandindo os atuais horizontes do possível.  Assim como seu conterrâneo Eduardo Galeano, José Mujica ajuda-nos enxergar além dos limites confinantes em que tantos poderes semi-cegos e pseudo-democráticos pretendem confinar-nos, mantendo-nos prisioneiros da estreiteza da doutrina hoje hegemônica: o neo-liberalismo individualista, competitivista, excludente, segregacionista e ecocida que Naomi Klein batizou de A Doutrina do Choque (The Shock Doctrine) e que auscultou e criticou no livro homônimo, neo-clássico da literatura política deste século.

Onde já se ouviu falar de um presidente que doava 87% dos seus rendimentos como presidente? Cristão em ética mas sem fé, campeão da generosidade atéia, Mujica punha, todos os meses, quase 90% de seu polpudo salário presidencial em causas que acreditava, como o programa habitacional Juntos, análogo ao Minha Casa Minha Vida brasileiro. Não é raro um exemplo destes em uma era de políticos-empresários, frequentemente de ímpetos elitistas e fascistas (de Donald Trump a João Dória), que parecem abocanhar todas as chances que encontram, as lícitas e ilícitas, para faturarem um enriquecimento pessoal sempre insaciável?

Em seu texto Um Líder Necessário, prefácio ao edição brasileira do livro A Revolução Tranquila de Rabuffetti, Ricardo Boechat pontua que

“para os brasileiros, como para a quase totalidade dos povos, conhecer Mujica permite constatar o quanto estamos submetidos a deformações de poder que transformaram nossos governantes em semi-deuses perdulários e insinceros, cercados de aparatos e ostentação, como se estivessem em outra esfera humana, cumprindo (?) missões além de nossa compreensão. Brasília, com seus palácios e séquitos majestosos, jatos e mansões oficiais, dá a dolorosa visão dessa realidade, que a comparação com o estoico vizinho torna ainda mais ridícula e anacrônica. A lista de condutas que diferencia Mujica dos demais governantes é mais do que uma questão de temperamento, de estilo; Trata-se de escolha política e didática. Fosse outro seu comportamento e a mística seria pó.” (p. 11)

Hoje, alçado a ícone político de fama planetária, objeto de vários livros e centenas de reportagens, Mujica é uma ovelha negra no establishment político e tem também o mérito de recolocar em pauta a questão das relações entre sabedoria e poder. Sua abnegação pessoal não parece conectada com nenhum tipo de doutrina ascética auto-mortificante, mas sim vinculada ao seu louvor às práticas sociais “cooperativistas” (pgs. 50) e seu culto à uma sábia simplicidade, também encontrável nas atitudes do argentino Jorge Bergoglio, vulto Papa Francisco, aquele que ousou colocar a ecologia na crista da onda das preocupações da Cristandade (p. 53)

Há algo de profundamente socrático nesta sabedoria que ele manifesta: Mujica é uma das provas vivas da pertinência de um ethos que põe a virtude da moderação, da temperança, da justa medida – aquilo que os gregos chamavam de sophrosyne e opunham ao excesso precipitador de catástrofes da hýbris – em posição de valor fundamental, imprescindível, sem o qual o convívio social degringola em toda uma série de tenebrosas injustiças, desigualdades e violências. O “nada em demasia” que o Templo de Apolo em Delfos trazia entre suas inscrições poderia estar agora escrito em Montevidéu toda, por efeito da Mujicamania.

Da boca de Mujica flui o mel da filosofia como unidade indissolúvel entre visão-de-mundo e comportamento prático. Algo em seu ethos remete ao célebre desleixo do filósofo Diógenes, o cínico, com a diferença de que este jamais quis assumir nenhum cargo político, recusando qualquer oferta do imperador Alexandre (“só quero que saias da frente do meu Sol”). Muitas de suas atitudes também remetem aos ideais de Henry David Thoreau, o autor de A Desobediência Civil: o sítio de Mujica em Rincón Del Cerro seria o equivalente latino-americano de Walden.

Porém, Mujica não recusa a política institucional, como Diógenes e Thoreau, mas buscou agir, em seus anos como presidente, como figura de inspiração para outros mundos possíveis. Frisando os valores da frugalidade, da pobreza voluntária, foi na esteira de Sócrates e Gandhi. Mas também propôs algo análogo ao radicalismo cyber-punk dos Space Monkeys chefiados por Tyler Durden em Fight Club (romance de Palahniuk, adaptado ao cinema por David Fincher) ou às condutas de Christopher McCandless, vulgo Alexander Supertramp, na estória real que inspirou Into The Wild – Na Natureza Selvagem, livro-reportagem de Kracauer filmado por Sean Penn.

Alguém que, como eu, contesta e recusa muitos dos elementos da sociedade ideal proposta por Sócrates através dos diálogos d’A República, não quer por isso lançar totalmente à lata de lixo da História a noção de que o governante, a autoridade política soberana, o gestor público, o profissional de cargo estatal, deve sim, preferencialmente, ser dotado de uma certa sophia. Resta defini-la em outros termos que não as do “filósofo-rei” da fantasia platônica, tão perigosamente próxima de uma monarquia de puritanismo idealista, imposta de maneira totalitária e proto-fascista, como ocorre sob a pena teológico-política de Platão.

Mujica não é nem remotamente parecido ao “filósofo-rei”, mas foi certamente o mais próximo que tivemos nos últimos tempos de um “presidente-filósofo”. Muitos de seus ensinamentos parecem-me bem próximos, por exemplo, ao que enuncia Hans Jonas em O Princípio Responsabilidade, um dos mais pertinentes livros de filosofia das últimas décadas; presente à Rio +20, duas décadas após a Eco 1992, Mujica defenestrou o fracasso geral em construirmos uma civilização que respeite os limites da Natureza e que não acarrete devastações sócio-ambientais como seus necessários acompanhantes. Disse que “a civilização do use e jogue fora” constitui círculos viciosos que lançam a humanidade a um clima de contagem regressiva para o descontrole catastrófico do clima e para a hecatombe ecológica cada vez mais plausível (com os EUA, maior poluidor do planeta, pulando fora dos Acordos de Paris, como fez outrora com o Protocolo de Kyoto…).

Os ideais e condutas de Pepe Mujica aproximam-no de movimentos como o Occupy Wall Street, de iniciativas midiáticas como o Adbusters, do pensamento de Stéphane Hessel e seu manifesto Indignai-vos! (2010), uma das inspirações para a emergência d’Os Indignados na Espanha…  Já no âmbito das lutas globais pela legalização da maconha e pelo fim da Guerra às Drogas movida à intolerância proibicionista contra o cânhamo e a cannabis, Mujica tornou-se também um símbolo, quase um rock ou reaggae star entre os maconheiros, assim representado pelo cartunista Carlos Latuff:

Ousando encarar o desafio de confrontar a política de drogas proibicionista, de encarceramento em massa e de alta brutalidade policial-carcerária, Mujica “enfrentou sua própria guerra ao propor uma regulação do mercado da maconha que estava muito além de qualquer outra medida aplicada no planeta, já que envolvia o Estado como fiador da produção e distribuição da erva. (…) Mujica levou o projeto de lei ao Parlamento e conseguiu a aprovação da regulamentação da maconha em dezembro de 2013. O Uruguai, mais uma vez, foi pioneiro…

A lei uruguaia sobre a cannabis é a única no mundo que outorga ao Estado o poder de controlar a distribuição da maconha entre os consumidores. De fato, de acordo com a iniciativa, quem quer consumir a droga terá dois caminhos de acesso legal, isto é, sem passar por um traficante. A primeira opção é se registrar como consumidor e comprar nas farmácias uma quantidade limitada, por mês, de no máximo 40 gramas por pessoa. No total, cada usuário está autorizado a adquirir 480 gramas por ano. A segunda possibilidade é obter a maconha a partir do plantio doméstico de, no máximo, 6 plantas por residência. Também é permitido o cultivo de forma cooperativa em ‘clubes canábicos’ ou clubes de cultivadores.” (RABUFFETTI, p. 161, 167)

“Uruguay President Jose Mujica’s face illustrates a T-shirt supporting his new law legalizing marijuana.” 

Em uma entrevista à TV pública holandesa, em 2014, Mujica explicou sua visão sobre a lei cannábica e seus benefícios sociais: “o narcotráfico é muito pior que o vício da droga, porque o vício destrói as pessoas, mas o narcotráfico destrói ética e moralmente as sociedades, começando pelos aparatos de controle do Estado. Está cada vez pior. E então? Vamos continuar fazendo a mesma coisas quando há cem anos estão nos mostrando que a repressão não leva a lugar algum?” (p. 168)

A repressão truculenta da Guerra às Drogas, ademais, desrespeita os direitos de usuários medicinais e auto-cultivadores uruguaios, que antes da lei corriam o risco de ir para a cadeia simplesmente pois tinham alguns pés da planta em seus jardins (vide caso Juan Vaz, em 2007-2008). Estima-se em mais de 300.000 o número de usuários de maconha no Uruguai e a lei de Regulação do Mercado cannábico chegou como um “experimento de vanguarda no mundo inteiro”; como disse Mujica, “o Uruguai tenta experimentar em favor do mundo, sem ofender ninguém” (p. 169).

Certamente, Mujica enfrentou muita oposição conservadora ao propor esta transformação na legislação – ela “deixou de cabelo em pé alguns partidários da luta armada contra o narcotráfico e revoltou os burocratas da Junta Internacional de Fiscalização de Narcóticos da ONU” (p. 52) – porém também foi muito louvado por sua coragem de inovar. A revista Time, em abril de 2014, incluiu Mujica em sua lista anual de 100 personalidades mais influentes no mundo. Além disso, Mujica foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz, e um grupo de professores de direito penal na Alemanha defenderam-no em texto que aclamada a revolução cannábica proposta pelo presidente:

“Esta é uma insólita, porém valente e enérgica estratégia. É provável que constitua um novo paradigma na política de segurança e saúde pública, especialmente em uma região do mundo que sofre devastadores efeitos colaterais da proibição das drogas, incluindo milhares de homicídios e sequestros violentos, bem como a destruição e contaminação de amplas áreas de vegetação”, destacava a carta, em uma clara alusão às fumigações de vastas extensões de selva na Colômbia para eliminar plantações de coca no contexto do Plano Colômbia… “O enfoque do senhor Mujica está voltado a ajudar os governos a romper com o círculo vicioso da violência, da corrupção e da repressão desproporcional que se associa com as formas tradicionais da proibição”, acrescentaram.” (p. 169)


Outra fator extraordinário da jornada existencial de Mujical está no passado guerrilheiro do futuro presidente: ele participou do enfrentamento contra o governo uruguaio nos anos 1960 e 1970, atuando como guerrilheiro da Frente de Libertação Nacional – Tupamaro; chegou a ser baleado 6 vezes em um confronto com a polícia, tendo sobrevivido miraculosamente ao revólver inteiro que nele descarregaram.

Foi preso político, vítima de torturas indizíveis e longos confinamentos, por mais de 14 anos. A exemplo de Nelson Mandela, na África do Sul, ou Dilma Rousseff, no Brasil, foi uma figura que foi parar na presidência da república após ter sido encarnação do “inimigo público” na perspectiva dos respectivos regimes autoritários.

Os Tupamaros – assim chamados pois consideravam-se “nativos que enfrentam os europeus”, como fez o líder legendário dos incas peruanos, Tupác Amaru (p. 80) – são fruto de uma época em que a luta anti-imperialista era fortíssima, seja pelo impacto na América Latina da Revolução Cubana de 1959, seja pelas contestações latino-americanas aos regimes militares por aqui instaurados, seja pelas lutas de libertação que vários países da África realizavam contra as metrópoles européias que seguiam com sua opressão no pós-2ª Guerra Mundial. O próprio Mujica esteve em Havana, em 1960, ano I da Revolução liderada por Fidel Castro, Che Guevara e os companheiros de Sierra Maestra, e pôde inspirar-se direto na “fonte”…

É pertinente sublinhar que os Tupamaros entraram em confronto armado com um governo que havia sido eleito – a ditadura militar uruguaia só começa em 1973 e, na época deste golpe de Estado, os Tupamaros já estavam derrotados, muitos deles assassinados, presos ou exilados. Os Tupamaros consideravam-se “a vanguarda armada do povo descontente” (p. 89) e realizavam ações “à la Robin Hood”, além de sequestros e até mesmo assassinatos (vide caso Mitrione, da USAID, morto em 1970 – p. 90).

Mujica tem uma vida fascinante, em que transmutou-se e metamorfoseou-se, foi de guerrilheiro a presidente, das armas às urnas. E nunca recusou-se a fazer a auto-crítica e a auto-contestação de sua participação na guerrilha Tupamaro, dos erros ali cometidos, das práticas injustificáveis – ou que talvez só se justifiquem caso algum aprendizado possa delas derivar.

Que ele tenha sobrevivido às 6 balas e aos anos de prisão, saindo do cárcere com sua lucidez aparentemente intacta, é estarrecedor. Quem de nós suportaria experiências tão duras como as que Mujica viveu na cadeia, e ainda seria capaz de emergir de tão trevosas vivências com tamanha sabedoria prática? Talvez possamos dizer que, detrás das grades, nunca puderam aprisionar seu espírito. Que ali, enjaulado como um bicho selvagem por seus adversários políticos, ele forjou sua fortaleza filosófica, seu caráter ético, para re-emergir com uma mensagem que cativaria seu país e o levaria à presidência em 2010.

Brecht chegou a afirmar: “tristes os povos que necessitam de heróis!” Talvez possamos dizer que não podemos, no entanto, nestes tempos sombrios que ainda são os nossos, prescindir de heroicizar aqueles que, com sua vida-exemplo, ampliam para nós os horizontes do possível.  E que nos convidam, pra começo de conversa, a botar pra correr da política aqueles plutocratas que hoje a dominam. Pois, como gosta de dizer Mujica, aqueles que são junkies da plata, devem ficar bem longe da política, pois esta deve ser o esforço coletivo em prol da governança sábia do espaço comum, não o palco grotesco onde elites parasitárias cultuam o próprio Umbigo sob a forma do Deus Mercado.


SIGA VIAGEM:

ONU 2013

RIO +20

Fumando Maconha Com O Presidente Do Uruguai (legendado) – VICE entrevista José Mujica

Canal Livre – TV Bandeirantes (Apresentador: Ricardo Boechat)


TODAS AS CITAÇÕES DO ARTIGO PROVÊM DE:
RABUFFETTI. A Revolução Tranquila. Ed. Leya, 2014.
Compre na Livraria A Casa de Vidro

SINOPSE – VIA LEYAMujica – A revolução tranquila é um retrato moderno e humano do presidente uruguaio, que parte de sua fama mundial para explorar a extraordinária vida de um personagem que gera polêmica em seu país ao mesmo tempo em que é aclamado pelo mundo. O livro de Mauricio Rabuffetti é um retrato profundo, dinâmico e revelador sobre um líder político que tem marcado o seu tempo histórico e tornou-se uma figura analisada em âmbito mundial. As chaves para a sua popularidade, as razões para algumas de suas decisões mais comentadas e explicações para seus fracassos aparecem em uma narrativa vertiginosa que descreve em detalhes esse líder intransigente que cultua um estilo de vida simples. O livro aborda questões, tais como: Como esse líder foi forjado? Por que esse homem desperta tantas paixões? O que o fez encarar a morte e trilhar um caminho de espinhos e armas em direção à paz? Como a lei de liberação da maconha foi concebida? Qual foi seu real envolvimento no processo de paz na Colômbia e no relaxamento do embargo sobre Cuba? E, mais importante: Qual será o legado do presidente mais popular do planeta?

 

O CLAMOR DA TERRA – REFLEXÕES SOBRE O PRODIGIOSO PAPA ANTI-CAPITALISTA (Comentário crítico da encíclica “Laudato Si – Sobre o Cuidado Da Casa Comum”)

“A terra, nossa casa comum, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo.”
Papa Francisco, 
Encíclica Laudato Si, #21

Uma imagem polêmica circulou o mundo e “viralizou” na Internet em Julho de 2015 (veja acima): nela, o Papa Francisco, em visita à Bolívia, recebe do presidente Evo Morales um curioso artefato, mescla da cruz cristã com o supremo símbolo comunista, a foice-e-martelo. Vale lembrar, diante da desinformação que circula por aí, que a foice-e-martelo não é um instrumento de tortura, como alguns acéfalos ideólogos da Direita anti-comunista dizem, mas significa  a união entre a classe trabalhadora, a foice representando o campesinato e o martelo servindo como símbolo proletariado, emblema incorporado à bandeira escarlate da URSS.

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Promulgada pelo governo de Evo Morales em 2012, como reportado pela Opera Mundi, a formidável Ley de Derechos de la Madre Tierra do Estado Plurinacional da Bolívia (click para ler na íntegra), é uma das mais importantes contribuições políticas da América Latina ao debate global sobre nosso futuro comum. Nesta era geológica nova em que nos encontramos, o Antropoceno, marcada pela crise em curso do aquecimento global e da vasta degradação socioambiental globalizada causadas pelos mais de 7 bilhões que hoje infestam o planeta, os bolivianos inseriram na constituição:

La Madre Tierra es el sistema viviente dinámico conformado por la comunidad indivisible de todos los sistemas de vida y los seres vivos, interrelacionados, interdependientes y complementarios, que comparten un destino común. (…) Para efectos de la protección y tutela de sus derechos, la Madre Tierra adopta el carácter de sujeto colectivo de interés público.” (Fonte) (Confira também: The Guardian, Al Jazeera)

Muita coragem e ímpeto de renovação ficam manifestam na atitude do líder espiritual supremo da Cristandade ao ousar uma aproximação com uma doutrina ética, política e jurídica que me parece digna de todo respeito e consideração: já consagrada nas legislações de várias nações latino-americanas – como Bolívia, Peru e Equador – aquilo que está sendo chamado de “ecologia dos Andes” afirma-se  devotada à salvaguarda de uma entidade conhecida como Pachamama, a “Mãe-Terra”, em homenagem ao mito ameríndio dos Incas.

"Tierra Madre Pacha Mama" - Graffiti

“Tierra Madre Pacha Mama” – Graffiti

A encíclica papal Laudato Si – Sobre o Cuidado Da Casa Comum  (Ed. Paulus/Loyola, SP, 2015), escrita na consciência plena da deterioração global do meio ambiente, comunica claramente a possibilidade de uma catástrofe ecológica sob o efeito da explosão da civilização industrial nos últimos séculos. Francisco frisa de modo recorrente a necessidade urgente de uma mudança radical no comportamento da humanidade e também refere-se à Terra como uma espécie de divindade feminina – que tem lá suas similaridades com Pachamama ou Gaia – e que é descrita como

“nossa casa comum, que se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços. (…) Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos pensando que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. (…) Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra. O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta: o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos.” (#1 e #2)

Está em curso o esforço do Papa em questionar a “confiança irracional no progresso” (#19), pondo em dúvida a ideologia da tecnocracia hoje triunfante e que vê a natureza como algo a ser explorada, dominada, espoliada, em prol da modernização, da industrialização e dos fluxos de capitais e mercadorias através do globo. A encíclica faz parte de uma longa jornada de Jorge Bergoglio – nome de batismo do argentino hoje conhecido sob a alcunha de Francisco – em prol da conscientização social. Ele clama por uma “crescente sensibilidade relativamente ao meio ambiente e ao cuidado da natureza”, com o “objetivo de tomar dolorosa consciência, ousar transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece no mundo e, assim, reconhecer a contribuição que cada um lhe pode dar.” (#19)

KillsDentre os livros já publicados sobre o engajamento político do Sumo Pontífice, um deles é explícito em apontar a postura “anti-capitalista” daquele que não tem poupado esforços para denunciar a “nova tirania” de um sistema econômico “assassino”: This Economy Kills: Pope Francis on Capitalism and Social Justice de Andrea Tornielli e Giacomo Galeazzi. Na encíclica, fica explícita a intervenção papal de crítica aos poderes que lançam à nossa casa comum os “poluentes atmosféricos” e “fumos da indústria” que “provocam milhões de mortes prematuras”; ele fustiga também os “fertilizantes, inseticidas, fungicidas, pesticidas e agrotóxicos em geral”; além das “centenas de milhões de toneladas de resíduos, muitos deles não biodegradáveis, altamente tóxicos e radioativos” (#20, 21).

Com sua incisiva crítica ao ecocídio globalizado produzido pelo capitalismo desenfreado, o argentino  deu muitos motivos para preocupações daquela facção mais conservadora da Igreja Católica que jamais admitiria uma aproximação ideológica entre Vaticano e a esquerda socialista. Por essas e outras, o Papa tem sido acusado por muitos por sua diabólica postura marxista, inclusive pelo crime de ter sido recebido com clamor popular em Cuba. Por essas e outras, este Papa é um prodígio da Cristandade sem precedentes nas últimas décadas, o que fica ainda mais claro quando lemos sua encíclica “ecológica”, de profundas reverberações anti-capitalistas: Laudato Si – Sobre o Cuidado Da Casa Comum, que aqui pretendemos esmiuçar, comentar e criticar.

Cuba

Alçado ao cargo de Sumo Pontífice após a renúncia do alemão Ratzinger (Bento XVI) em 2013, Bergoglio adotou sua nova alcunha em homenagem a  São Francisco de Assis (1182 – 1226) e cometeu desde então toda uma série de atos e falas estarrecedoras em seu compromisso de preferir os pobres, defender os oprimidos e pregar uma verdadeira revolução cultural em prol da sustentabilidade socioambiental. O Papa Chico ousou inovar. Sua visita à Bolívia deixou isto explícito e demonstrou, na prática, que a Igreja Católica não é exatamente um sólido monolito, incapaz de mudança e inovação, esclerosado em dogmas mofados.

Não era mera diplomacia, para o Papa Chico, aceitar o presente curioso da cruz-comunista, doado pelo presidente boliviano Evo Morales, o primeiro presidente latino-americano de raízes indígenas a ser eleito democraticamente para o cargo executivo supremo de uma república. O pensamento ecológico-político de que Evo Morales é um dos mais célebres representantes está muito presente na encíclica papal Laudato Si.

Quem tiver o cuidado de lê-la com atenção encontrará uma notável reverência de Francisco pelas conclusões dos bispos da Bolívia, citados e louvados pelo Papa argentino por terem afirmado: “Os países que foram beneficiados por um alto grau de industrialização, à custa de uma enorme emissão de gases com efeito estufa, têm maior responsabilidade em contribuir para a solução dos problemas que causaram.” (#170)

Emissions

Emissões de CO2 por país (via Wikipédia)

Este é um dos fatos mais extraordinários, revelados com clareza pela encíclica de Papa Chico: não somente ele está plenamente consciente da degradação socioambiental que vivemos e do tempestuoso futuro climático de nosso planeta, como também está antenado com a vanguarda do movimento ecosocialista, que frisa a questão das responsabilidades diferenciais que decorrem dos diferentes graus de “culpa” na determinação da catástrofe ecológica que vivenciamos.

Ou seja, os países que mais poluíram a atmosfera e que mais determinantes foram para a condição – em constante agravamento – do efeito estufa, agora devem também ser os países que mais arquem com os custos da transição energética rumo às energias renováveis. Os países que foram mais criminosos em sua relação com o meio-ambiente (EUA e China no topo da lista) também teriam de ser aqueles mais responsabilizados para prestar os auxílios humanitários aos atingidos pelas catástrofes que já não podemos evitar.

No aforismo #161 da encíclica, o Papa diz:

“As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Às próximas gerações, poderíamos deixar demasiadas ruínas, desertos e lixo. O ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida atual – por ser insustentável – só pode desembocar em catástrofes, como, aliás, já está acontecendo periodicamente em várias regiões. A atenuação dos efeitos do desequilíbrio atual depende do que fizermos agora, sobretudo se pensarmos na responsabilidade que nos atribuirão aqueles que deverão suportar as piores consequências.”

 Teses similares podem ser encontradas na obra de alguns dos pesquisadores, ecoativistas, jornalistas e acadêmicos que devotaram-se à compreensão sobre as mudanças climáticas e a degradação socioambiental global, como Naomi Klein, George Monbiot, Bill McKibben, Naomi Oreskes, dentre tantos outros. Outras lideranças políticas, como o ex-presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, também falaram em tom bastante semelhante ao do Papa Francisco sobre a insustentabilidade do modo-de-produção-e-consumo hoje vigente, clamando por valores éticos como a temperança e a frugalidade.

A encíclica não poupa pregação contra “a busca egoísta da satisfação imediata”, o “consumo excessivo e míope”, apontando que a deterioração ecológica é resultado de uma crise que é tanto ética-cultural quanto sócio-política: “Esta falta de capacidade para pensar seriamente nas futuras gerações está ligada com a nossa incapacidade de ampliar o horizonte das nossas preocupações e pensar naqueles que permanecem excluídos do desenvolvimento.” (#162)

Um dos filósofos-da-ética mais importantes do século XX, Hans Jonas, também destacava a necessidade urgente de formularmos uma ética que leve em conta não apenas nossas relações interpessoais presentes, mas também o mundo que será legado aos que ainda não nasceram, de modo a somar aos direitos humanos uma espécie de cláusula aditiva que consagra os direitos dos viventes-ainda-por-nascer: os que um dia viverão também têm direito a uma vida digna e isto é nossa responsa, aqui-e-agora. Diante do capitalismo atual, para julgá-lo com lucidez e numa apreciação justa de seu real valor, precisamos também avaliar: que tipo de casa comum será legada às gerações do futuro por nossas ações, aqui e agora?

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Não é Che Guevara nem Lula quem disse as próximas palavras de exortação à uma “opção preferencial pelos mais pobres”: “Nas condições atuais da sociedade mundial, onde há tantas desigualdades e são cada vez mais numerosas as pessoas descartadas, privadas dos direitos humanos fundamentais, o princípio do bem comum torna-se imediatamente, como consequência lógica e inevitável, um apelo à solidariedade e uma opção preferencial pelos mais pobres.” (#158)

Por essa não esperávamos: no momento histórico em que a Igreja Católica via-se chafurdando na lama de um escândalo global envolvendo a prática epidêmica de pedofilia por parte dos padres, após o fato inédito de uma renúncia como a de Bento XVI (há várias gerações um Papa não “jogava a toalha”, admitindo que não dá conta do recado!), o novo pontífice supremo da Cristandade não só surge como antenadíssimo às mais importantes lutas sociais de raiz – conhecidas em inglês como grassroots activism – mas mais do que isso: re-aproxima Roma da América Latina, já que flerta abertamente com Pachamama e com a Teologia da Libertação!

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Papa Chico defende os direitos indígenas ao criticar os grandes projetos que avançam sobre territórios que são vistos pelos habitantes “não como um bem econômico”, mas sim como uma terra que é “espaço sagrado” onde “descansam os antepassados” e “com a qual precisam interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida. Em várias partes do mundo, porém, são objeto de pressões para que abandonem suas terras e as deixem livres para projetos extrativos e agropecuários que não prestam atenção à degradação da natureza e da cultura.” (#146)

Talvez ele concordasse comigo que os Krenak são gestores da natureza muito mais conscientes e responsáveis do que a corporação Samarco/Vale/BHP, que logrou assassinar o Rio Doce e contaminar todo um ecossistema, como vimos na pior catástrofe socioambiental já ocorrida no Brasil.

O Papa Chico sabe também que há “áreas rurais aonde não chegam os serviços essenciais” e “há trabalhadores reduzidos a situações de escravidão.” (#154) Diante deste quadro catastrófico, ele ousa explicar, no capítulo III da encíclica, qual a “raiz humana da crise ecológica”. Sua acusação recai, de modo bastante similar à argumentação de Fritjof Capra em O Ponto de Mutação, no paradigma do capitalismo tecnocrático dominante, que impõe uma “cultura consumista corrompida”, que consagra a lógica do descarte e acarreta lixo em excesso, aferrando-se ademais às fontes de energia fósseis, não-renováveis (petróleo, carvão e gás natural), ignorando todos os limites na busca egoísta do gozo de curto prazo. O mito do crescimento econômico infinito é desmascarado como ilusão perniciosa:

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“Daqui passa-se facilmente à idéia de um crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos da finança e da tecnologia. Isso supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta, que leva a ‘espremê-lo’ até ao limite e para além deste. Trata-se do falso pressuposto de que existe uma quantidade ilimitada de energia e de recursos a serem utilizados, que a sua regeneração é possível de imediato e que os efeitos negativos das manipulações da ordem natural podem ser facilmente absorvidos. (…) Temos um superdesenvolvimento dissipador e consumista que contrasta, de modo inadmissível, com perduráveis situações de miséria desumanizadora, mas não se criam, de forma suficientemente rápida, instituições econômicas e programas sociais que permitam aos mais pobres terem regularmente acesso aos recursos básicos.” (#106, #110)

Na era da biotecnologia, do DNA, da informática, das redes sociais digitais, dos foguetes e satélites, Papa Chico mostra-se estarrecido com o nosso “poder tremendo” – apesar de não batizar, como fazem boa parte dos geólogos e antropólogos atualmente, nossa era de Antropoceno. Critica incisivamente a “cultura do descarte”: “o sistema industrial, no final do ciclo de produção e consumo, não desenvolveu a capacidade de absorver e reutilizar resíduos e escórias. Ainda não conseguiu adotar um modelo circular de produção que assegure recursos para todos e para as gerações futuras e que exige limitar, o mais possível, o uso dos recursos não renováveis, moderando o seu consumo, maximizando a eficiência no seu aproveitamento, reutilizando e reciclando-os.” (#22)

Quanto ao “preocupante aquecimento do sistema climático”, “acompanhado de uma elevação constante do nível do mar”, o Papa é digno o bastante para frisar a responsabilidade humana na gênese do problema e de clamar, como tantos cientistas atuais, pelo fim da era dos combustíveis fósseis: “a maior parte do aquecimento global das últimas décadas é devida à alta concentração de gases de efeito estufa emitido sobretudo por causa da atividade humana. A sua concentração na atmosfera impede que o calor dos raios solares refletidos pela terra se dilua no espaço. Isso é particularmente agravado pelo modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis, que está no centro do sistema energético mundial.” (#23)

As consequências concretas do aquecimento global incidem “sobre a disponibilidade de recursos essenciais como a água potável, a energia e a produção agrícola das áreas mais quentes e provocará a extinção de parte da biodiversidade do planeta. (…) A perda das florestas tropicais piora a situação, pois estas ajudam a mitigar a mudança climática. A poluição aumenta a acidez dos oceanos e compromete a cadeia alimentar marinha. Se a tendência atual se mantiver, este século poderá ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e de uma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências para todos nós. Por exemplo, a subida do nível do mar pode criar situações de extrema gravidade, se se considerar que um quarto da população mundial vive à beira-mar ou muito perto dele, e a maior parte das megacidades está situada em áreas costeiras.” (#24)

Matéria do jornal inglês The Guardian realiza previsões sobre a elevação constante do nível do mar causada pelo aquecimento da temperatura global: "mesmo que consiga-se limitar o aumento de calor a 2 graus Celsius, ainda assim 20% da população global seria obrigada a migrar e mega-cidades seriam submersas, incluindo

Parenti-Tropic-ofUma matéria do jornal inglês The Guardian contêm preocupantes previsões sobre a elevação do nível do mar causada pelo aquecimento da temperatura global: mesmo que consiga-se limitar o aumento de calor a 2 graus Celsius, ainda assim 20% da população global seria obrigada a migrar e mega-cidades litorâneas seriam submersas, incluindo Nova York, Londres, Rio de Janeiro, Cairo, Calcutá e Xangai.

Na encíclica, Francisco também se mostra intensamente ciente de que o futuro humano será marcado por uma ascensão espetacular dos refugiados climáticos (tema de livros como Tropic of Chaos – Climate Change and the new geography of violence, de Christian ParentiClimate Wars: What People Will Be Killed For in the 21st Century, de Harald Welzer):

 “É trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental, que, não sendo reconhecidos como refugiados nas convenções internacionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa. Infelizmente, verifica-se uma indiferença geral perante essas tragédias que estão acontecendo agora mesmo em diferentes partes do mundo. A falta de reações diante desses dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil.” (#25)

Extraordinário é o teor anti-quietista pró-ativista que Papa Francisco insufla à sua encíclica: não há nenhum sinal do deplorável discurso de muitas autoridades religiosas que pregam, como única solução, a oração… Tanto as causas quanto as soluções estão no âmbito humano e “não podemos enfrentar adequadamente a degradação ambiental”, escreve Francisco, se não reconhecermos o fato de que “a deterioração do meio ambiente e da sociedade afetam de modo especial os mais frágeis do planeta” e que “os efeitos mais graves de todas as agressões ambientais recaem sobre as pessoas mais pobres” (#48).

Como exemplo do quanto a encíclica está próxima do pensamento eco-político mais contemporâneo, cito um trecho do artigo de Rebecca Solnit:

“A mudança climática é antropogênica – causada por humanos, alguns mais que outros. Nós sabemos as consequências dessas mudanças: a acidificação dos oceanos e o declínio da maioria das espécies que vivem neles, o lento desaparecimento de ilhas-nações, como é o caso das Maldivas, o aumento de inundações, secas, a quebra na produção agrícola, o que leva ao aumento do preço dos alimentos e à fome, aumento da instabilidade climática. (É só pensar no furacão Sandy e no recente tufão nas Filipinas. Nas ondas de calor que mataram idosos aos milhares). Mudança climática é violência. Portanto, se nós queremos conversar sobre violência e mudanças climáticas – e nós estamos falando sobre isso, depois do informativo aterrador da última semana, vindo dos melhores cientistas climáticos do mundo – então vamos falar sobre mudanças climáticas como violência. Ao invés de nos preocuparmos se os homens e mulheres comuns vão reagir com turbulência à destruição de seus meios de sobrevivência, vamos nos preocupar com essa destruição – e com a sobrevivência. Obviamente a escassez de água, as péssimas colheitas, inundações, entre outras coisas, vão desencadear migrações em massa e refugiados climáticos – eles já existem – e isso vai gerar conflitos. Esses conflitos estão entrando em ação, agora.” (SOLNIT, publicado em A Casa de Vidro, trad. Josemar Vidal Jr)

No contundente capítulo da encíclica intitulado Desigualdade Planetária, não faltam exemplos deste verdadeiro massacre dos pobres que está em curso:

“a poluição da água afeta particularmente os mais pobres que não têm possibilidades de comprar água engarrafada, e a elevação do nível do mar afeta principalmente as populações costeiras mais pobres que não têm para onde se transferir. O impacto dos desequilíbrios atuais manifesta-se também na morte prematura de muitos pobres e nos conflitos gerados pela falta de recursos” (#48).

A natureza anti-capitalista da encíclica se exacerba quando a desigualdade planetária é mencionada:

“uma minoria se julga com o direito de consumir numa proporção que seria impossível generalizar, porque o planeta não poderia sequer conter os resíduos de tal consumo. Além disso, sabemos que se desperdiça aproximadamente um terço dos alimentos produzidos, e a comida que se desperdiça é como se fosse roubada da mesa do pobre. (…) O aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns países ricos tem repercussões nos lugares mais pobres da terra, especialmente na África, onde o aumento da temperatura, juntamente com a seca, tem efeitos desastrosos nos rendimentos das cultivações.” (#51)

Planeta Sustentável

EcocidioA conexão entre ecocídio e corporações capitalistas multinacionais também não escapa à análise apresentada pela encíclica, que denuncia “os danos causados pela exportação de resíduos sólidos e líquidos tóxicos para os países em vias de desenvolvimento”.

Francisco ergue um dedo acusador contra a “atividade poluente de empresas que fazem nos países menos desenvolvidos aquilo que não podem fazer nos países que lhes dão o capital”, de modo que os bispos da Patagônia, na Argentina, expressaram em sua Mensaje de Navidad (2009):

“Constatamos frequentemente que as empresas que assim procedem são multinacionais que fazem aqui o que não lhes é permitido em países desenvolvidos ou do chamado primeiro mundo. Geralmente, quando cessam as suas atividades e se retiram, deixam grandes danos humanos e ambientais, como o desemprego, aldeias sem vida, esgotamento de algumas reservas naturais, desflorestamento, empobrecimento da agricultura e pecuária local, crateras, colinas devastadas, rios poluídos e qualquer obra social que já não se pode sustentar.”

Diante de tal cenário catastrófico, em que o interesse financeiro e o poderio capitalista prevalece sobre o bem comum e os direitos da natureza, a encíclica não é somente a evidência de uma revolucionária “virada ecológica” da Igreja Católica, é também o momento para uma inédita aposta no ativismo social: “hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres.” (#50, grifo meu)

De modo que Papa Francisco aproxima-se bastante da mensagem de todos aqueles movimentos sociais, coletivos de ativismo e fóruns participativos que nos últimos anos estiveram engajados na discussão sobre “um outro mundo possível”, mote do Fórum Social Mundial.

Apesar de um certo apego ao tradicionalismo católico – pois a noção patriarcal-machista de um Deus-Pai, a centralidade da família monogâmica heterossexual, a crítica inflexível de qualquer interrupção da gravidez prosseguem marcando o discurso papal – é notável a aproximação que Francisco realiza com o grassroots activism, com a Teologia da Libertação, com o “levante de Pachamama” nos Andes, com todas as forças contra-hegemônicas que questionam a globalização hegemônica, teorizada pelo sociólogo português Boaventura de Sousa Santos: 

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GLOBALIZAÇÃO HEGEMÔNICA & CONTRA-HEGEMÔNICA

A globalização hegemônica é a nova fase do capitalismo global, constituída pela primazia do princípio do mercado, liberalização do comércio, privatização da economia, desregulação do capital financeiro, precariedade das relações de trabalho, degradação da proteção social, exploração irresponsável dos recursos naturais, especulação com produtos alimentares, mercantilização global da vida social e política. A globalização hegemônica tem ao seu serviço uma institucionalidade diversificada e muito poderosa, dos Estados centrais à União Européia, do Banco Mundial ao Fundo Monetário Internacional, das grandes empresas multinacionais à Organização Mundial do Comércio. 

Por outro lado, a globalização contra-hegemônica, ou globalização a partir de baixo,  engloba os movimentos sociais e organização não governamentais (ONGs) que, por meio de articulações locais, nacionais e transnacionais, lutam contra o capitalismo e a opressão colonialista, a desigualdade social e a discriminação, a destruição ambiental e de modos de vida decorrente da voracidade da extração dos recursos naturais, a imposição das normais culturais ocidentais e a destruição das não ocidentais causada ou agravada pela globalização hegemônica.

A globalização contra-hegemônica consiste em articulações transnacionais entre movimentos sociais e ONGs, sejam elas o Fórum Social Mundial, a Assembleia Geral dos Movimentos Sociais, a Cúpula dos Povos, a Via Campesina, a Marcha Mundial das Mulheres, o Movimento Indígena Mundial, em conjunto com redes transnacionais de advocacia sobre temas específicos de resistência à globalização hegemônica. A contra-hegemonia resulta de um trabalho organizado de mobilização intelectual e política contra a corrente, destinado a desacreditar os esquemas hegemônicos e fornecer entendimentos alternativos credíveis da vida social.” (BOAVENTURA SOUSA SANTOS, p. 32-33)

 Acredito – “piamente”? – que Papa Chico tem sim agido como interventor social e cultural de teor contra-hegemônico, manifestando assim uma compreensão lúcida e profunda da figura histórica de Jesus, um cara que foi tão anti-establishment que Roma mandou-lhe crucificar feito um reles bandido quando ele só tinha 33. O poeta Paulo Leminski, na esplêndida biografia de Jesus que escreveu, argumenta que seu biografado merece estar no “time” dos revolucionários vinculados ao socialismo utópico. Evidentemente é um anacronismo, mas poeta tem direito a tudo – e que vivam livres as “licenças poéticas”! Para Leminski, Jesus foi sim um socialista que criticou as classes abastadas e em sermão célebre vaticinou que era mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus… (LEIA: Quarteto Vital, de Paulo Leminski)

Papa Francisco reata com uma certa tradição do cristianismo primitivo, ao mesmo tempo que liga-se com o que há de mais vital e pulsante no atual movimento global de resistência à catástrofe ecológica e às mudanças climáticas antropogênicas, fenômeno que Naomi Klein propôs batizar de Blockadia e que analisa em minúcias em This Changes Everythingfilme e documentário.

O “emblema” da “nova era” na Igreja Católica parece-me ser o encontro de Bergoglio e Morales, curiosa aliança entre o Vaticano e os Andes, excêntrico sincretismo cultural que re-significou tudo o que pensávamos sobre o Papa e até mesmo sobre Deus: que virada realmente revolucionária caso a Cristandade modifique suas concepções religiosas para a de um Deus menos parecido com Jeová e mais afinado com Pachamama!

Para os mais dogmáticos ou suscetíveis, a cena que envolve o Papa e o presidente Morales pode até ter um cheiro insuportável de heresia: “isso não é”, dirão alguns católicos da velha guarda, grunhindo contra o pontífice, “nem jamais será um comportamento digno de um Papa! Andar por aí, segurando uma cruz subvertida, mas que blasfêmia! Sujar as mãos com um emblema-de-comunista! Bem sabemos (apesar de nada constar sobre isso nem nos Evangelhos nem nos livros de História e Antropologia) que esta cambada de comunistas não são somente canibais, como praticam seu canibalismo sobre criancinhas!”

 Ironias à parte, estou impressionado com a capacidade de Papa Francisco de confrontar aqueles setores mais reacionários e tradicionalistas desta “instituição” – a Igreja Católica Apostólica Romana – que com frequência, na história, fez-se cúmplice e co-responsável por atrocidades e horrores, tendo sido, em outras eras, operadora internacional de infâmias éticas e catástrofes humanitárias como a célebre “Santa Inquisição”, que impôs a morte-pelo-fogo a tão incontáveis quantidades de pessoas previamente estigmatizadas como hereges, ateus, pecadores, bruxas, pagãos, feiticeiras etc.

Mais recentemente, a Igreja Católica também viu-se em meio ao escândalo global envolvendo o abuso sexual de crianças perpetrado por seus clérigos. O declínio parecia não ter fim e a renúncia de Ratzinger parecia com alguma espécie estranha de emblema da decadência e do caos. E justamente aí ocorreu essa guinada à esquerda, que trouxe uma certa versão da Teologia da Libertação para o centro polêmico do debate da Cristandade.

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Capitalismo em questão: o império das marcas e multinacionais, antes de ser tema da encíclica papal, foi foco de livros como “No Logo” de Naomi Klein

As próximas palavras, do capítulo #195 da encíclica Laudato Si, são emblemáticas deste prodígio que é um papa anticapitalista, capaz de articular uma crítica à doutrina neo-liberal e seu funcionamento na base de benefícios privados prejuízos públicos:

“O princípio da maximização do lucro, que tende a isolar-se de todas as outras considerações, é uma distorção conceptual da economia: desde que aumente a produção, pouco interessa que isso se consiga à custa dos recursos futuros ou da saúde do meio ambiente; se a derrubada de uma floresta aumenta a produção, ninguém insere no respectivo cálculo a perda que implica desertificar um território, destruir a biodiversidade ou aumentar a poluição. Em outras palavras, as empresas obtêm lucros calculando e pagando uma parte ínfima dos custos.” (#195)

O Papa não prega que oremos, ele quer sim é educação que forme para a “cidadania ecológica” e uma revolução cultural que “dê forma a um estilo de vida” baseado na “responsabilidade ambiental” (#123). Para este fim, é evidente, a ética é essencial, sendo que a encíclica é um tratado de ética, de cabo a rabo, que dialoga inclusive com muitas das ideias de Hans Jonas, autor de um dos clássicos tratados da ética no século XX – O Princípio ResponsabilidadeFrancisco afirma sem pestanejar que o atual sistema capitalista hegemônico globalmente é insustentável e só pode nos conduzir ao esgotamento e à catástrofe. Nossa era demanda uma urgente mudança de rumos.

Em 2000, em Haia, na Carta da Terra, a exortação de Bergoglio clama por um “novo início”: “Como nunca antes na história, o destino comum obriga-nos a procurar um novo início. Que o nosso seja um tempo que se recorde pelo despertar de uma nova reverência adiante da vida, pela firme resolução de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta em prol da justiça e da paz e pela jubilosa celebração da vida.” (#207)

Não estamos diante de um “profeta do Apocalipse” e nem há nenhum teor, na fala de Francisco, daquele odioso discurso que pretende transformar as catástrofes climáticas em “vinganças de um Deus enfurecido” – não, New Orleans não foi devastada pelo Furacão Katrina por causa dos pecados cometidos por seu habitantes, nem por ser uma nova Sodoma e Gomorra…

A fala de Francisco carrega mais doçura e ternura do que reprovação esbravejante. Decerto é alguém “atento ao futuro”, ou seja, alguém que está plantado no presente em condição de profundo engajamento com o porvir planetário. O Papa Francisco, diria até, integra o grupo de inteligências internacionais que, através de estudos prolongados e pesquisas empíricas cuidadosas, concluíram que existe sim razão para um “catastrofismo esclarecido”.

“Não pensemos só na possibilidade de terríveis fenômenos climáticos ou de grandes desastres naturais, mas também nas catástrofes resultantes de crises sociais, porque a obsessão por um estilo de vida consumista, sobretudo quando poucos têm possibilidades de o manter, só poderá provocar violência e de destruição recíproca.” (#204)

Enquanto pensador ético, Francisco insiste num estilo-de-vida que têm elementos do que Nietzsche chamava de “ideal ascético”, recomendando o controle dos impulsos e desejos, que conecta não somente ao pecado como também ao serviço satânico que prestamos às forças ecocidas do consumismo e do descartismo.

Em um livro polêmico, Pascal Bruckner fustigou a nova onda de “ascetismo verde”, aqueles que chamou de Fanáticos do Apocalipse. O escárnio supostamente libertário de Bruckner não me convence, e o compromisso “franciscano” com a sustentabilidade e a solidariedade intergeracional talvez seja mesmo uma das poucas “ideologias” capazes de evitar que sejamos compelidos à era das hecatombes climáticas de escala mega. “As previsões catastróficas”, diz a encíclica, “já não se podem olhar com desprezo e ironia” – e isso vale quase como uma refutação do livro de Bruckner.

Vejo, na encíclica, conexões possíveis do projeto social papal com a pedagogia do oprimido Paulo Freireana: Francisco clama por um “programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático.” (#111)

O papa filosofa sobre a liberdade que se encontra “adoecida” em todos àqueles que “se entregam às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo, da violência brutal” (#105). A ética apolínea e ascética preconizada por Chico propõe um “lúcido domínio de si”. Minha impressão é que não se tem necessidade de fé para fundar uma ética assim. Pepe Mujica e sua preconização do mérito pessoal e civilizacional vinculado às virtudes da moderação e da frugalidade parece-me uma encarnação laica e secular do que Papa Francisco representa no âmbito religioso.

No mundo cultural dos gregos havia a noção de que tragédias decorreriam sempre que não soubéssemos respeitar os limites. Aos excessos, de resultados trágicos e catastróficos, os gregos chamavam hýbris. Malditos eram todos os excessivos, todos aqueles que desrespeitavam um dos princípios básicos e sagrados, entronizado no Oráculo de Apolo em Delfos: “nada em demasia!”. As fúrias viriam assombrar e desgraçar todo aquele que fosse pego em flagrante delito de hýbris. A deusa Nêmesis não perdoa quem despreza os limites.

De certo modo, também sinto no Papa Francisco a presença, ainda que latente, de um senso trágico que compreende o quanto a desmesura / descontrole / deslimite causam como efeitos concretos muito palpáveis e catástrofes reais, dentre elas a tremenda degradação socioambiental que hoje vivenciamos.

Tenho minhas divergências, de natureza filosófica e teológica, com a noção de que estamos “em pecado” pois abusamos e desrespeitamos “os bens que Deus na Terra colocou“: não vejo porque o argumento em prol da sustentabilidade deveria enveredar por esta linha de dependência em relação à fé. Quando se diz que “a natureza deve ser preservada pois é obra de Deus“, o argumento tende a submeter as lutas ecológicas a uma prévia tomada de posição religiosa, um ato-de-fé sobre a proveniência divina daquilo que o ser humano parece tão engajado em destruir.

A proposta da encíclica é igualar “crime contra a natureza” e “pecado contra Deus”, algo que faz com que o argumento caia por terra para todos aqueles que não acreditam, por exemplo, no mito da Criação tal como o narra o livro do Gênesis. Mais inteligente e lúcido me parece Bergoglio quando aposta mais em um conceito “Pachamâmico” de interdependência, aproximando-se assim de cosmologias ameríndias e do web of life do Chief Seattle.

Porém, há vários “deslizes” de Papa Chico em um questionável teocentrismo: no aforismo #33, por exemplo, protestando contra a extinção de espécies causada pela humanidade, o Papa escreve: “por nossa causa, milhares de espécies já não darão glória a Deus com sua existência.”

Compartilho o lamento pela extinção da biodioversidade, mas não subscrevo o argumento de que a tragédia está na “destruição da obra de Deus” – prefiro falar, simplesmente, num atentado contra a teia-da-vida. Por que ateus e agnósticos, por que ativistas e políticos plenamente fiéis ao valor da laicidade, não poderiam ser entusiásticos ativistas da causa ambiental, mesmo na ausência da crença, tão duvidosa e dogmática, num planeta que supostamente foi criado pelas mãos de um Deus-Pai há 6.000 anos atrás?

À parte esta divergência de teor teológico, aplaudo o teor político e mobilizatório da intervenção de Francisco. Para a nossa geração, para nós-os-vivos-de-agora, é o próprio sentido de nossa passagem pela Terra que está agora em questão. O mundo que legaremos às próximas gerações está visceralmente conectado à questão, quiçá mais psicológica e simbólica, do sentido da vida (ou da descoberta de sua ausência ou inexistência):

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“Com que finalidade passamos por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra? Já não basta dizer que devemos preocupar-nos com as gerações futuras; exige-se ter consciência de que é a nossa própria dignidade que está em jogo. Somos nós os primeiros interessados em deixar um planeta habitável para a humanidade que vai nos suceder. Trata-se de um drama para nós mesmos, porque isto chama em causa o significado da nossa passagem por esta terra.” (#160)

Que a destruição do próprio sentido da existência da Humanidade possa estar diretamente atrelado à continuação do insustentável sistema global ecocida que hoje devasta o planeta é decerto uma das mais contundentes críticas apresentadas pela encíclica Laudato Si. O texto encontra-se atravessado por inteiro por um ethos de empatia pelo clamor da terra e pelo clamor dos pobres. Francisco não foge de tirar todas as consequências de sua teoria, tão próxima à dos ecossocialistas, tão alinhada à Teologia da Libertação, tão próxima à Pachamama andina, e acaba por claramente defender o fim do direito absoluto à propriedade privada:

“A terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos. (…) O princípio da subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens e, consequentemente, o direito universal ao seu uso é uma regra-de-ouro do comportamento social e o ‘primeiro princípio de toda a ordem ético-social’ (João Paulo II, Laborem exercens, 1981). A tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada, e salientou a função social de qualquer forma de propriedade privada. (…) A Igreja defende sim o direito legítimo à propriedade privada, mas ensina, com não menor clareza, que sobre toda a propriedade particular pesa sempre uma hipoteca social… Isto põe seriamente em discussão os hábitos injustos de uma parte da humanidade.” (#93)

Eu não chegaria a dizer, para escândalo de católicos ortodoxos, que Papa Francisco está sendo marxista, mas quem pode negar o forte conteúdo de luta de classes que marca presença na encíclica? Também nela, os maiores ecocidas, os piores poluidores, os causadores de catástrofes, têm classe e endereço.

Também é uma falácia dizer que todos os países têm a mesma responsabilidade – na verdade, são as ações de uma parcela da humanidade que está conduzindo o clima ao caos. Os países mais responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa não poderiam legitimamente querer que os miseráveis da Índia ou de Bangladesh arcassem igualmente com os custos da crise. Quem mais destruiu o bem coletivo é que deve – justiça exige! – arcar com a maior parte dos custos, investindo na transição energética para os renováveis, pagando indenizações aos países prejudicados por catástrofes etc.

“O meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos. Quem possui uma parte é apenas para a administrar em benefício de todos. Se não o fizermos, carregamos na consciência o peso de negar a existências aos outros. Por isso, na Statement on Environmental Issues  (2006), os bispos da Nova Zelândia perguntavam-se que significado possa ter o mandamento ‘não matarás’, quando ‘uns 20% da população mundial consomem recursos numa medida tal que roubam às nações pobres, e às gerações futuras, aquilo de que necessitam para sobreviver’.” (#95)

O prodigioso papa anticapitalista já percebeu – com Naomi Klein, Rebecca Solnit, George Monbiot, Christian Parenti, dentre outros – que o clamor da terra e o clamor dos pobres integram um mesmo clamor. O que faremos diante deste clamor – ouvi-lo ou ignorá-lo; agir ou padecer; mobilizar simpatia ou adormecer na indiferença; abrir os olhos para enxergar ou fingir que não se vê… – é o que definirá o “sentido de nossa passagem” por este exuberante e biodiverso jardim terrestre onde tece-se, interminável, a teia da vital “interdependência”. “O espetáculo das suas incontáveis diversidades e desigualdades significa que nenhuma criatura se basta a si mesma. Elas só existem na dependência umas das outras, para se completarem mutuamente no serviço umas das outras.” (#86)

Na reciprocidade provinda da percepção lúcida de nossa interdependência, co-laboremos contra as catástrofes acarretadas pelo capital, certos de que o vil metal das finanças nada vale diante da riqueza imensa, inestimável mas tão frágil, desta teia planetária de sociobiodiversidade hoje esgarçada e ameaçada por um Antropocalipse industrial motorizado.

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ALGUNS VÍDEOS SUGERIDOS:

Igreja dos Oprimidos – Documentário de Jorge Bodanzsky

Pachamama segundo o History Channel (dublado em português)

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ANEXO I

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Ley de Derechos de la Madre Tierra

do Estado Plurinacional da Bolívia

 La Madre Tierra tiene los siguientes derechos:
1. A la vida: Es el derecho al mantenimiento de la integridad de los sistemas de vida y los procesos naturales que los sustentan, así como las capacidades y condiciones para su regeneración.
2. A la diversidad de la vida: Es el derecho a la preservación de la diferenciación y la variedad de los seres que componen la Madre Tierra, sin ser alterados genéticamente ni modificados en su estructura de manera artificial, de tal forma que se amenace su existencia, funcionamiento y potencial futuro.
3. Al agua: Es el derecho a la preservación de la funcionalidad de los ciclos del agua, de su existencia en la cantidad y calidad necesarias para el sostenimiento de los sistemas de vida, y su protección frente a la contaminación para la reproducción de la vida de la Madre Tierra y todos sus componentes.
4. Al aire limpio: Es el derecho a la preservación de la calidad y composición del aire para el sostenimiento de los sistemas de vida y suprotección frente a la contaminación, para la reproducción de la vida de la Madre Tierra y todos sus componentes.
5. Al equilibroEs el derecho al mantenimiento o restauración de lainterrelación, interdependencia, complementariedad y funcionalidad de los componentes de la Madre Tierra, de forma equilibrada para la continuación desus ciclos y la reproducción de sus procesos vitales.
6. A la restauración: Es el derecho a la restauración oportuna y efectiva de los sistemas de vida afectados por las actividades humanas directa o indirectamente.
7. A vivir libre de contaminación: Es el derecho a la preservación de la Madre Tierra de contaminación de cualquiera de sus componentes, así como deresiduos tóxicos y radioactivos generados por las actividades humanas.

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ANEXO II – ARUNDHATI ROY

Pachamama!

Pachamama!

“If there is any hope for the world at all, it does not live in climate-change conference rooms or in cities with tall buildings. It lives low down on the ground, with its arms around the people who go to battle every day to protect their forests, their mountains and their rivers because they know that the forests, the mountains and the rivers protect them. The first step towards reimagining a world gone terribly wrong would be to stop the annihilation of those who have a different imagination—an imagination that is outside of capitalism as well as communism. An imagination which has an altogether different understanding of what constitutes happiness and fulfillment. To gain this philosophical space, it is necessary to concede some physical space for the survival of those who may look like the keepers of our past, but who may really be the guides to our future.”

—Arundhati Roy

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 2003 – PORTO ALEGRE
FALA DE ARUNDHATI ROY:

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Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 24/03/2016
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CASA COMUM DEVASTADA – Nova encíclica papal prega a necessidade de uma ousada revolução cultural para superar o consumismo desenfreado, a devastação ambiental e as mudanças climáticas

Earth Day

Papa Chico – codinome que assumiu, no topo da hierarquia eclesiástica da Cristandade, este ousado argentino, Jorge Mario Bergoglio (conterrâneo do Che!) – ousa enfim explicitar ao seu mundial rebanho aquilo que a Ciência já vem afirmando há décadas (a religião é sempre atrasadinha no reconhecimento dos fatos, nenhuma surpresa!): por efeito da ação humana, em especial a queima de combustíveis fósseis em larga escala e o consumismo predatório praticado por vastas porções do mundo dito “rico e civilizado”, estamos em meio a um crise ecológica de imensas proporções, com estimativas de aumento das temperaturas globais entre 2º e 6º graus Celsius ao fim deste século (não é Nostradamus, são as profecias do IPCC…). Será mesmo que o Papa terá mesmo coragem de confrontar as megacorporações globais, os interesses petrolíferos, os mercenários negacionistas? E os “fiéis”, vão atender ao chamado papal ou vão fingir que nada ouviram? Os cristão deste mundo hão de adentrar movimentos sociais, marchas de rua, boicotes organizados, no sentido de demandar em massa, através da força coletiva, uma revolução imediata contra para a degradação socio-ambiental imposta pelo capitalismo globalizado? Quem viver, verá… Com a palavra, El Papa e sua repercussão midiática:

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“Our common home is like a sister with whom we share our life and a beautiful mother who opens her arms to embrace us. (…) This sister now cries out to us because of the harm we have inflicted on her by our irresponsible use and abuse of the goods with which God has endowed her. We have come to see ourselves as her lords and masters, entitled to plunder her at will. (…) The violence present in our hearts, wounded by sin, is also reflected in the symptoms of sickness evident in the soil, in the water, in the air and in all forms of life. This is why the earth herself, burdened and laid waste, is among the most abandoned and maltreated of our poor; she “groans in travail” (Rom 8:22). We have forgotten that we ourselves are dust of the earth (cf. Gen 2:7); our very bodies are made up of her elements, we breathe her air and we receive life and refreshment from her waters.” [READ IT ALL HERE]

POPE FRANCIS / JORGE MARIO BERGOGLIO 
(2015 Encyclical Letter [READ IT ALL HERE])
Wikipedia

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DEMOCRACY NOW!

Democracy Now
“In his long-awaited encyclical on the environment and climate change, Pope Francis has called for swift action to save the planet from environmental ruin, urging world leaders to hear “the cry of the Earth and the cry of the poor.” He called for a change of lifestyle in rich countries steeped in a “throwaway” consumer culture, and an end to “obstructionist attitudes” that sometimes put profit before the common good. Pope Francis said protecting the planet is a moral and ethical “imperative” for believers and nonbelievers alike that should supersede political and economic interests. A major theme of the encyclical is the disparity between rich and poor. “We fail to see that some are mired in desperate and degrading poverty, with no way out, while others have not the faintest idea of what to do with their possessions, vainly showing off their supposed superiority and leaving behind them so much waste which, if it were the case everywhere, would destroy the planet,” he said. We speak to Naomi Klein, author of “This Changes Everything: Capitalism vs. the Climate.” She has been invited to speak at the Vatican, where she will speak at the “People and Planet First: The Imperative to Change Course” conference. And here in New York is Nathan Schneider, columnist at America magazine, a national Catholic weekly magazine published by the Jesuits.”

WATCH IT! 

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THE NEW YORK TIMES:

NYTimes

Pope Francis on Thursday called for a radical transformation of politics, economics and individual lifestyles to confront environmental degradation and climate change, blending a biting critique of consumerism and irresponsible development with a plea for swift and unified global action.The vision that Francis outlined in a 184-page papal encyclical is sweeping in ambition and scope: He describes relentless exploitation and destruction of the environment and says apathy, the reckless pursuit of profits, excessive faith in technology and political shortsightedness are to blame.The most vulnerable victims, he declares, are the world’s poorest people, who are being dislocated and disregarded.

Francis, the first pope from the developing world, used the encyclical — titled “Laudato Si’,” or “Praise Be to You” — to highlight the crisis posed by climate change. He places most of the blame on fossil fuels and human activity, while warning of an “unprecedented destruction of ecosystems, with serious consequence for all of us” if corrective action is not taken swiftly. Developed, industrialized countries were mostly responsible, he says, and are obligated to help poorer nations confront the crisis.“Climate change is a global problem with grave implications: environmental, social, economic, political and for the distribution of goods,” he writes. “It represents one of the principal challenges facing humanity in our day.”

READ ON

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A graffiti image of Pope Francis in Saint-Romain-au-Mont-d’Or, France.

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Full text of pope’s statement on environment and exploitation

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The Guardian

“The Earth, our home, is beginning to look more and more like an immense pile of filth. In many parts of the planet, the elderly lament that once beautiful landscapes are now covered with rubbish. Industrial waste and chemical products utilised in cities and agricultural areas can lead to bioaccumulation in the organisms of the local population, even when levels of toxins in those places are low. Frequently no measures are taken until after people’s health has been irreversibly affected.

These problems are closely linked to a throwaway culture which affects the excluded just as it quickly reduces things to rubbish. To cite one example, most of the paper we produce is thrown away and not recycled. It is hard for us to accept that the way natural ecosystems work is exemplary: plants synthesise nutrients which feed herbivores; these in turn become food for carnivores, which produce significant quantities of organic waste which give rise to new generations of plants.

But our industrial system, at the end of its cycle of production and consumption, has not developed the capacity to absorb and reuse waste and by-products. We have not yet managed to adopt a circular model of production capable of preserving resources for present and future generations, while limiting as much as possible the use of non-renewable resources, moderating their consumption, maximizing their efficient use, reusing and recycling them. A serious consideration of this issue would be one way of counteracting the throwaway culture which affects the entire planet…” Pope Francis @ The Guardian