GUIAS NA ARTE DE BEM VIVER – Montaigne, Epicuro e a questão do Carpe Diem

VIVER MELHOR: se a filosofia não nos ajudasse em nada nessa arte, já teria sido extinta. Se sobrevive há mais de 26 séculos, com uma resiliência que não seria concebível para algo irrelevante para a existência humana, é pois há quem encontre na filosofia uma VITAL SERVENTIA. Pois que boa vida, que felicidade humana, que plenitude emocional ou serenidade anímica seria possível sem sabedoria? E que frase existe de mais anti-filosófica, de mais estúpida e inaceitável, do que “ignorance is bliss”?

Será que o filósofo não é aquele que está nas antípodas de qualquer discurso de apologia à ignorância como via sacra para a beatitude (como ocorre inclusive em escrituras ditas “sagradas”)? Que vida valeria a pena ser vivida sem ação refletida e convívio norteado por sábios princípios? E como amar uma filosofia que fosse apenas uma teorização infrutífera, que fosse mero papaguear de conceitos abstratos, que fosse pensamento desplugado da ação?

Só uma filosofia que é frutífera em felicidade e em incremento de sabedoria, só uma filosofia que proporciona melhoria da nossa capacidade de bem viver (o que inclui, é claro, o con-viver!), faz jus àquilo que tantos filósofos viam como suas metas existenciais – propor uma maneira de viver, o que inclui aprender a morrer. A finitude obriga todo buscador de sabedoria ao aprendizado de sua própria efemeridade, de sua fugacidade, descritível como similar a de uma vela na brisa em meio às ventanias cósmicas.

Na viagem do tempo, a longo prazo, dizem-nos os cientistas, acabam por se apagar até mesmo as estrelas. Mortais são até as coisas que julgávamos as mais indestrutíveis de todas – ainda que a incandescência cósmica geral dê seu jeito de sobreviver a cada morte – de bichos, das gentes, de sóis. Que a filosofia tenha existencial serventia é o mínimo que dela se exige. Os filósofos, no processo de buscar sabedoria – eles são os “The Seekers” de que fala a canção explosiva do The Who! – devem ser como árvores de rica seiva que fazem jorrar com exuberância os frutos que devem alimentar esta arte suprema que é o bem viver.

Em seu delicioso livro Como Viver, a Sarah Bakewell foi brilhante em mostrar o quanto “Montaigne costumava demonstrar desdém pelos filósofos acadêmicos, sendo avesso a seu pedantismo e a suas abstrações. Mas evidenciava perene fascínio por outra tradição filosófica, a das grandes escolas pragmáticas que exploravam questões como a maneira de enfrentar a morte de um amigo, desenvolver a coragem, agir com correção em situações moralmente delicadas ou aproveitar o melhor possível a vida. (…) Os três sistemas de pensamento mais conhecidos dessa tendência eram o estoicismo, o epicurismo e o ceticismo: as filosofias conhecidas como helenísticas, por terem sua origem na era em que o pensamento e a cultura gregos se espraiaram até Roma e outras regiões mediterrâneas, a partir do 3º século a.C.” (BAKEWELL: p. 120)

O alvo, meta ou télos da filosofia – e seu próprio nome já diz muito: amor (Philia) à sabedoria (sophia) – foi visto como intensamente prático ou pragmático nestas escolas helenísticas. Além do epicurismo, do estoicismo e do ceticismo, mencionados por Bakewell, podemos também elencar o cinismo como uma importante vertente de uma filosofia da práxis, nada interessada em debates teóricos ociosos, toda voltada para atitudes existenciais e comportamentos provocativos e didáticos (o que aproxima Diógenes de Sínope do Oriente, por exemplo da figura do mestre-zen budista…). Trata-se, para o filósofo cínico, de levar ao extremo um ethos contra-hegemônico onde tem primazia a noção de parresia, traduzida por Foucault como “a coragem da verdade”.

“Todas essas escolas tinham o mesmo objetivo: alcançar um modo de vida conhecido na língua grega como eudaimonia, termo que costuma ser traduzido como ‘felicidade’, ‘alegria’ ou ‘desabrochar humano’. Isto queria dizer viver bem em todos os sentidos: desenvolver-se, desfrutar a vida, ser uma boa pessoa. Elas também consideravam que o melhor caminho para a eudaimonia era a ataraxia, que poderia ser traduzida como ‘imperturbabilidade’ ou ‘estar livre de ansiedade’. Ataraxia significa equilíbrio: a arte de manter o prumo, sem exultar quando as coisas vão bem nem mergulhar no desespero quando vão mal. Alcançar esse estado é exercer controle sobre as emoções, para não ser golpeado e arrastado por elas como um osso disputado por uma matilha de cães.” (BAKEWELL, p. 120)

A filosofia, em sua busca pela felicidade, soube distinguir entre o efêmero e o duradouro. Um êxtase fugaz não configura eudaimonia, somente um bem-estar com a vida que seja resiliente, seguro e sólido – na medida do possível neste mundo de mutações e liquidez – merece a qualificação de eudaimonia. Donde a importância da ataraxia, esta serenidade alegre e constante daquele nem exulta, nem se deprime – e que André Comte-Sponville costuma descrever com a expressão “prazer em repouso”.

Se a serenidade da ataraxia é essencial à felicidade da eudaimonia é pois qualquer sábio não pode ser descrito como alguém que fica oscilando na gangorra dos prazeres e das dores, incapaz de gozar de qualquer duradoura satisfação. A felicidade filosófica que se anseia está nas antípodas daquele estado-de-espírito inquieto, ansioso, insatisfeitíssimo com tudo, retratado em belas pedradas do rock’n’roll como “Satisfaction” dos Rolling Stones ou “Unsatisfied” dos Replacements. Em contraste, o Tim Maia ofereceu uma boa expressão, cheia de soul, da ataraxia eudemônica quando propôs o estado anímico bem-aventurado do “numa relax, numa tranquila, numa boa”.

“Foi sobre a questão de como alcançar essa tranquilidade que os filósofos começaram a discordar. Cada um deles tinha uma concepção diferente, por exemplo, do quanto deveríamos ceder ao mundo real. A comunidade epicurista original, fundada por Epicuro no século IV a.C., pregava o afastamento da família, para que os seguidores vivessem como membros de um culto num ‘jardim’ particular. Os céticos preferiam continuar mergulhados no alvoroço da vida comum, mas assumindo uma atitude mental radicalmente diferente. Os estoicos se posicionavam mais ou menos entre as duas opiniões. Os estoicos e os epicuristas também compartilhavam boa parte de suas respectivas teorias. Consideravam que a capacidade de desfrutar a vida pode ser comprometida por duas grandes fraquezas: falta de controle das emoções e tendência a dar muito pouca atenção ao presente. ” (BAKEWELL, p. 121)

Um filósofo como Pierre Hadot, que esforçou-se por realizar obras sobre A Filosofia Como Maneira de Viver, também frisa com frequência “o sentimento da importância do instante, incessantemente expresso por estoicos e epicuristas (é o verdadeiro sentido do carpe diem do epicurista Horácio), mas também por modernos como Montaigne e Goethe. Só o presente é nossa felicidade; a essa riqueza do instante está ligada o que Pierre Hadot denomina ‘a pura felicidade de existir’, maravilhamento, mas também, entre os modernos, angústia e até temor diante do enigma da existência.” (CALLIER, Jeannie, apud HADOT, 2016, p. 12)

No caso de Hadot, a importância de imersão no instante, de mergulho pleno no presente, está conectada à experiência mística, àquilo que Romain Rolland chamou de “sentimento oceânico”. Hadot diz que “ao falar de sentimento oceânico, Rolland quis expressar um matiz muito particular, a impressão de ser uma onda num oceano sem limites, de ser uma parte de uma realidade misteriosa e infinita. Michel Hulin, em seu livro admirável intitulado La Mystique Sauvage [A Mística Selvagem], caracteriza essa experiência pelo ‘sentimento de estar presente aqui e agora no meio de um mundo, ele próprio, intensamente existente’, e fala também de um ‘sentimento de copertencimento essencial entre mim mesmo e o universo ambiente’. É capital, aqui, a impressão de imersão, de dilatação do eu num Outro ao qual o eu não é estranho, visto que é parte dele.” (HADOT, p. 23)

Hadot, grande estudioso da filosofia antiga, sabe que há uma ampla literatura que se dedica à descrição do sábio, tal como ele deveria ser – “na Antiguidade, a figura do sábio era uma norma, um ideal transcendente”. Sobre esta visão das características do sábio, na escola epicurista podemos colher muitos frutos saborosos da árvore de Lucrécio: em seu poema Da Natureza das Coisas, ele “faz o elogio de Epicuro, que os discípulos consideravam um sábio, descrevendo a realidade do filósofo ideal. Quais são, então, as qualidades que Lucrécio admirava nele? A primeira é seu amor aos seres humanos. Quando ele ensinou sua doutrina, quis socorrer o gênero humano, assolado pelo terror da superstição e pelas tormentas da paixão. Um segundo traço característico de sua sabedoria é a ousadia de sua visão cósmica: pelo espírito, diz Lucrécio, ele foi além das barreiras inflamadas que limitam o universo e percorreu o Todo imenso. Um terceiro traço, enfim: ele é livre, destemido, desfruta de uma paz interior análoga à dos deuses, dos quais se pode dizer precisamente, segundo sua doutrina, que a alma deles não é agitada por nenhuma perturbação.” (HADOT, p. 149)

Este ideal ético da imperturbabilidade – não deixar o ânimo ser arrastado para os extremos da exultação ou da depressão, como um barco à vela em meio a mares de tempestade – manifesta-se de maneiras diferentes nas escolas filosóficas, de modo que o estoicismo parece propugnar muito mais uma vida da ascese apática, uma apologia da apatheia, enquanto o epicurismo dito “hedonista” não irá pregar um não à paixão, mas sim uma hierarquização dos desejos e prazeres. Hadot é preciso ao dizer que “a maneira de viver dos epicuristas consistia principalmente em certa ascese dos desejos, destinada a manter a mais perfeita tranquilidade da alma. Era preciso limitar os próprios desejos para ser feliz. Os epicuristas faziam uma distinção – esse ponto é bem conhecido – entre os desejos naturais e necessários (beber, comer, dormir), os desejos naturais e não necessários (o desejo sexual) e os desejos não naturais e não necessários (desejos de glória, de riqueza). Excluíam, ao menos em princípio, a ação política. Mantinham-se, tanto quanto possível, afastados dos assuntos da cidade… No fim das contas, os epicuristas buscam desfrutar da simples alegria de existir.” (p. 129)

A calúnia difamatória de que foram vítimas os epicuristas fabricava a imagem, falsa e enganadora, de que no Jardim de Epicuro vigiam os piores excessos, que ali perseguia-se o prazer com um furor satânico, que ali não paravam as orgias sexuais monstruosas, as bebedeiras e comedeiras resultando em vômito e indigestão – enfim, a imagem de um puteiro de licenciosidade completa, uma anarco-área para a Vontade refestelar-se a seu bel-prazer, algo que prenunciaria o Marquês de Sade e suas narrativas repletas de atrocidades perpetradas por indivíduos que dizem sim à sua vontade individual, em desdém total pelo outro. Nada mais distante do autêntico epicurismo, da verdadeira comuna alternativa fundada por Epicuro na cidade de Atenas e que atravessaria os séculos como espaço de convivência, centro cultural e foco de irradiação de uma sabedoria de potencial disseminação universal. Epicuro vivia de maneira sóbria e frugal, devotado às amizades, em busca da serenidade de ânimo, esforçado pesquisador do Grande Livro da Natureza que teria gerado a escrita de um tratado de física em 30 volumes (todos hoje perdidos).

carpe diem que o poeta romano Horácio propõe e que tornou-se emblema epicurista, citado em tatuagens e camisetas, em canções e filmes, não tinha muito em comum com um certo imediatismo consumista hoje tão em voga. O ethos hegemônico do consumidor imediatista em nossas sociedades de consumo – o tipo de figura que pode até levar consigo no peito o lema you only live once, mas que busca suprir seu ímpeto hedonista somente através da compra de mercadorias e do consumo de itens geradores de prestígio e status – está nas antípodas do ethos epicurista, no qual “aproveitar o dia” tinha a ver com a busca pela sabedoria por meio do convívio entre amigos que amam a verdade. A verdade não se consome, não se vende, não se compra, é o alvo da busca do sábio e, segundo Epicuro, a compreensão da natureza das coisas tem efeito terapêutico e liberador. Colher o dia também significa aproveitá-lo ao máximo para expandir o conhecimento sobre a natureza, a realidade – um carpe diem que aproxima-se ao sentido em que Mary Wollstonecraft utiliza o conceito de exertion, uma espécie de esforço bem-aventurado na direção do auto-aprimoramento.

Epicuro, grande guia na arte do bem viver, é igualmente um mestre na arte análoga do bem morrer. Muito se cita a frase de Platão segundo a qual “a filosofia é um exercício da morte”. Montaigne se apropria de uma ancestral tradição quando, em um de seus mais magistrais Ensaios, propõe que filosofar é “aprender a morrer”. Ora, o platonismo e o epicurismo, neste ponto, são radicalmente antagônicos, irreconciliáveis, propõe duas sabedorias diferentes. Para Platão – ou melhor, para o Sócrates que fala no Fédon diante da iminência da morte pela cicuta – sabedoria consiste em separar a alma do corpo, desprender o elemento imaterial e imortal de sua gaiola somática perecível. O dualismo socrático-platônico exige a fé na alma imortal e na capacidade desta de se alçar a um domínio transcendente, um outro mundo sobrenatural. Para Epicuro, tais crenças não passam de nefastas superstições. Lucrécio celebra em Epicuro justamente o audaz pensador subversivo que denuncia as falácias religiosas, libertando assim a humanidade de dois males terríveis: o temor da morte e o temor aos deuses.

Como Hadot lembra, esta constante reflexão sobre a morte, a finitude, a vida que finda, é algo que congrega muitas escolas filosóficas. Os estóicos, por exemplo, “também falaram muito no exercício da morte, dentro de uma perspectiva de um exercício de preparação para as dificuldades da vida. Os estoicos sempre diziam que é preciso pensar que a morte é iminente; mas era menos para se preparar para a morte e mais para descobrir a seriedade da vida. Marco Aurélio dizia, por exemplo, na qualidade de estóico: é preciso realizar cada ação como se fosse a última, ou ainda: é preciso viver cada dia como se fosse o último. Trata-se de se conscientizar de que o momento que ainda está sendo vivido tem um valor infinito, de que, como a morte talvez o interrompa, trata-se de viver de maneira extremamente intensa enquanto a morte não chegou.

Segundo Sêneca, Epicuro dizia ‘pensa na morte’, mas também não era em absoluto como uma preparação para a morte, mas, ao contrário, exatamente como entre os estóicos, para aguçar a consciência do valor do instante presente. É o famoso carpe diem de Horácio: colhe hoje, sem pensar no amanhã. Além disso, pensar na morte, pela perspectiva epicurista, visava a fazer compreender em profundidade a ausência de qualquer relação entre a morte e o ser vivo que somos: ‘a morte não é nada para nós’. Não existe passagem alguma do ser ao nada. A morte não é um acontecimento da vida, dirá Wittgenstein. Para os epicuristas, havia também a idéia, comum aos estóicos, de que é preciso viver cada dia como se houvéssemos concluído nossa vida. (…) Existem aí dois aspectos: por essa perspectiva o dia foi vivido em toda a sua intensidade, mas ao mesmo tempo, quando vier o dia de amanhã, este será considerado uma oportunidade inesperada. ” (HADOT: p. 135)

Tudo isso conduz à noção de que o carpe diem provêm de uma conscientização do valor da existência que não é separável de uma tomada de consciência em relação à finitude. É preciso saber que se vai morrer para que se possa colher o dia, ou seja, aproveitá-lo como se fosse nossa última oportunidade entre os vivos sobre a face da Terra. Poucas canções expressam melhor este processo de “realização” ou de conscientização do que a bela e melancólica balada do The Flaming Lips, “Do You Realize?”, que começa por perguntar ao ouvinte: “você se dá conta de que todo mundo que você conhece um dia vai morrer?”

Hadot lembra inclusive que “a antecipação ou adiantamento da morte representa, em Heidegger, uma condição da existência autêntica. A consciência da finitude deve levar o homem a assumir a existência como ela é.” (p. 136) Logo, aqueles que vivem em estado psíquico de Negação da Morte, para lembrar do magistral estudo de Ernest Becker premiado com o Pulitzer, estão afogados na inautenticidade, incapazes por isso de vivenciar a vida mortal em sua plenitude. Só o mortal que se sabe mortal seria, portanto, capaz de sabedoria – já que é inconcebível um sábio que esteja tão profundamente iludido sobre a condição humana que se imagine indestrutível como se conta nos mitos que são os olímpicos comedores de néctar e ambrosia.

Sabemos que Lucrécio tinha vários exercícios espirituais destinados a curar a angústia da finitude, o mais famoso deles sendo a proposta de que, das duas uma: se você amava a vida, pode deixá-la como um conviva saciado que deixa um banquete satisfeito, na certeza de que a morte não deixará ninguém vivo para sentir saudade do que foi perdido; se você não amava viver, então por que reclamar por se ver privado de algo que você não sentia como um bem? A sabedoria epicurista também ensinava que todo bem e todo mal são dependentes da sensibilidade, e que a morte é o fim da sensibilidade, portanto não implica nada de bom ou mau. Enquanto estamos vivos, a morte não é; quando a morte for, já não estaremos mais vivos para “experenciá-la”. Nenhum sujeito vivencia a morte como um mal, o mal está na angústia que provêm de sua antecipação e em especial de sua não-aceitação.

Um problema digno de debate, no âmbito do epicurismo, consiste em pensar para além da morte-de-si: a morte-do-outro, em especial o outro que amamos, é sim uma vivência para aquele que lhe sobrevive. As amizades entre Montaigne e La Boétie, de um lado, e entre Epicuro e Metrodoro, de outro, fornecem um rico manancial de reflexões sobre como lidar com este outro que morre e que deixa ao vivente o vazio angustioso e dolorido do luto. Sobre este tema, já escrevi em outra ocasião este artigo sobre a Amizade como Ideal Ético e Cívico em Epicuro e Montaigne.

No caso de Montaigne, um pensador extremamente eclético, que produz uma miscelânea com as sabedorias epicurista, estóica e cética (dentre outras), podemos seguramente afirmar que ele é um principais responsáveis pela re-ativação do pensamento de Epicuro e Lucrécio na época da Renascença. Stephen Greenblatt, em A Virada, já contou de maneira insuperável toda a história inacreditável envolvendo o destino do poema lucreciano De Rerum Natura – Da Natureza das Coisas, que só não se perdeu por um triz. Renascendo em plena Renascença, esta obra-prima da filosofia epicurista escrita com ímpar maestria pelo poeta Lucrécio terá significativo impacto no parto da chamada Modernidade – como atestam figuras como Petrarca e Erasmo, mas sobretudo Montaigne, que recheia os Ensaios com copiosas citações de Lucrécio e que possuía um volume do De Rerum Natura extensamente grifado e anotado.

A relação entre a ética existencial dita hedonista, expressa no carpe diem horaciano, e a atenção à nossa finitude, que também os cristãos praticavam com seus memento mori, conduz à noção de que a sabedoria nunca esteve desvinculada de uma percepção de que nós, sendo mortais, temos a necessidade urgente de aproveitar a vida ao máximo enquanto ela dura, já que o amanhã nunca é garantido e o túmulo é o ponto final na sentença do viver que a todos nós está prometido – e que é sempre, pelas leis férreas do universo, cumprido.

Em um livro recente (que ainda não tive a oportunidade de ler na íntegra), Carpe Diem Regained – The Vanishing Art of Seizing the Day, Roman Krznaric propõe a atualização deste debate ao fazer a crítica de uma certa apropriação indébita do conceito de carpe diem que foi realizada na atualidade pela sociedade capitalista de consumo. Para Krznaric, o carpe diem foi “sequestrado” (hijacked) por uma ideologia tóxica que propõe que “colher o dia” significa, na ignorância voluntária das verdades amargas sobre nossa condição mortal, refestelar-se no imediatismo das compras no shopping center ou no entretenimento fornecido pelas mídias de massas estupidificantes e corroídas por dentro pelos cupins do capEtalismo marqueteiro. Daí a importância de recuperarmos, na história da filosofia, o autêntico sentido do carpe diem epicurista – consciência da finitude, foco na preciosidade do presente, desejo de que a vida seja uma árvore frutífera a ser cultivada em um jardim de amigos unidos pela busca comum pela sabedoria.

É interessante notar que o termo carpe diem é profundamente poético: evoca a figura do cultivo, da agricultura, dos processos realizados no solo para que este faça a semente desabrochar em flores e frutos, e depois coliga isto com a figura do dia. “Cultivar o dia” é um tipo de expressão que só poderia ter nascido da mente visionária de um poeta como Horácio, todo imbuído com a sabedoria epicurista tão fortemente presente na Roma de seu tempo. O dia, se é “cultivável”, talvez seja pois é um Jardim onde podemos, juntos, coligar esforços para plantar frutíferas sementes. Há uma belíssima canção do Wilco que explora senda poética semelhante e nos convida a “ficar do lado das sementes”:

Neste sentido, parece-me inconcebível que Horácio pudesse forjar esta pérola sem todo o contexto cultural envolvendo a fundação da comunidade epicurista em Atenas. É significativo, por exemplo, que Epicuro não era um ateniense, mas sim natural da ilha de Samos (a mesma terra natal de Pitágoras), de modo que era uma espécie de “estrangeiro” em Atenas – e até onde sei isso acarretava necessariamente que ele não teria direitos políticos ali. Repete-se muito que Epicuro era a-político, mas tendo a ver a questão por outro prisma: como forasteiro, desprovido de direitos cívicos, Epicuro decide fundar uma espécie de “Sociedade Alternativa” (Raul Seixas pensava no Jardim, talvez, ao compor sua canção? Ou muito mais nas comunas beatniks e hippies?).

No Jardim, a hospitalidade com a alteridade em sua diversidade era muito mais intensa do que na Academia platônica, espaço de elite, forjada desde sua entrada com a lógica excludente da segregação (“quem não souber de geometria, não entra aqui!”). O Jardim epicurista acolhia a diversidade humana, abria-se ao cosmopolitismo inicialmente proposto por Diógenes, o Cão (arauto da ética cínica).

Ao contrário do que alguns imaginam ao ouvir a palavra Jardim, não se tratava ali de ficar à toa, de pernas pro ar, só na sombra e água fresca. Muito menos se tratava de um ambiente de festa rave, regado aos equivalentes da época para o êcstasy e os beats do trance. O Jardim era uma comunidade filosófica unisex – as mulheres também eram bem-vindas – onde sabedoria e amizade eram vistos como unidas por um cordão umbilical que não se poderia romper senão com o risco de um atentado letal contra a própria essência da filosofia.

Colher o dia, nesse sentido, consistia em viver cada um dos dias com a máxima devoção ao esforço conjunto de compreensão da verdade e de coligação de esforços para a melhor realização possível da arte das artes – o bem-viver, ou aquilo que os franceses chamam tão lindamente de savoir-vivre. eudaimonia grega tinha um sentido também conectado ao cultivo, à jardinagem: era o estado daquele ser humano que está em processo de florescimento.

Carpe diem, logo, é uma afirmação de que, por finitas que sejam nossas vidas, é possível cultivar em comum cada dia no sentido de nele plantar e colher frutos e flores que tornem nossa estadia entre os vivos algo de deleitoso, extraordinário, irrepetível, sublime, a ponto de conseguirmos, como aconselhava Lucrécio, chegar às beiras do túmulo com a serenidade de ânimo e a felicidade interior daquele que deixa seu quinhão no espaço-tempo como um “conviva saciado” que contribuiu com o cultivo do comum jardim da amigável sabedoria.


 

LEITURA SUGERIDA:

“It is one of the oldest pieces of life advice in Western history: carpe diem, seize the day. First uttered by the Roman poet Horace over two thousand years ago, it has become our cultural inheritance, reflected in mottos from ‘live as if you might die tomorrow’ to ‘be in the moment’, from the iconic advertising slogan ‘Just do it’ to the Twitter hashtag #yolo (‘you only live once’).

Why is the call to seize the day so compelling to us? Because it promises a remedy for that instinctive – but often fleeting – awareness so many of us have that life is short and our time is running out. It asks us to live with greater passion, consciousness and intention, so we don’t reach the end of our days and look back on life with regret, viewing it as a series of paths not taken.

But here’s the problem: the spirit of carpe diem has been hijacked and we have barely noticed. It’s been hijacked by consumer culture, which has transformed seizing the day into impulsive shopping sprees and the instant hit of one-click online buying. It’s also been hijacked by 24/7 digital entertainment that is replacing lived experience with vicarious second-hand pleasures and an era of proxy living. And now it’s being hijacked by the mindfulness movement, which reduces seizing the day simply to living in the here and now.

This book is about how we can take on the cultural hijackers and reclaim the power of carpe diem. It explores five very different ways humankind has discovered over the centuries to seize the day, which we urgently need to revive. These include the art of grasping windows of opportunity, hedonistic experimenting, immersing ourselves in the present, becoming more spontaneous in daily life, and the forgotten realm of carpe diem politics.

It tells the stories of great carpe diem adventurers, from Oscar Wilde to Maya Angelou, and delves into everything from medieval carnival to the neuroscience of procrastination. At the same time, it looks at whether we can overdose on seizing the day, and how it may be used and abused.

This book is the first ever cultural biography of carpe diem. But it goes further, with a call to arms: the time has come to seize back seize the day, and recover it for the art of living and social change.” – UNBOUND


* * * *

BIBLIOGRAFIA

BAKEWELL, Sarah.  Como Viver – Uma biografia de Montaigne em uma pergunta e vinte tentativas de resposta. Objetiva, 2012.

HADOT, Pierre. A Filosofia Como Maneira de Viver. É Realizações, 2016.

* * * * *

Pessoal, neste último Domingo, 12 de Novembro, participei com muita satisfação do Café Filosófico com Will Goya, 94ª edição, no Bolshoi Pub, em Goiânia, em que conversamos livremente sobre a sabedoria epicurista. Confiram aí o vídeo completo deste bate-papo sobre os prazeres, a felicidade, os deuses, a morte, o carpe diem, o tetrapharmakon, a filosofia como terapêutica psicosomática, dentre outros temas conexos:

(OBS – Infelizmente os slides que projetei no telão não estão com boa visibilidade na filmagem. Vou disponibilizar em breve toda a apresentação em PDF para quem se interessar.)

Eduardo Carli de Moraes – Goiânia, Novembro de 2017

VICIADOS EM RISCO – Naomi Klein

Naomi Klein: Viciados no risco

“Dias antes desta palestra, a jornalista Naomi Klein estava num barco no Golfo do México, a ver os catastróficos resultados da arriscada busca de petróleo pela BP (British Petroleum). As nossas sociedades têm-se tornado viciadas no risco extremo na procura de nova energia, novos instrumentos financeiros e mais… e, com demasiada frequência, fica-nos a tarefa de limpar os estragos. Klein pergunta: Qual é o plano B?”

SIGA VIAGEM

In the two months since the Deepwater Horizon explosion, millions of litres of oil have gushed out of BP’s well into the water each day, slowly encroaching on the coastline. Fault Lines’ Avi Lewis travels to the drill zone, and learns about the erosion in the wetlands from industry canals and pipelines, the health problems blamed on contaminated air and water from petrochemical refineries.

People and organizations in this film include: Avi Lewis, Aaron Viles, Larry Thomas, Henry Hess, Byron Encalade, Monique Harden, Tracie Washington, Dorothy Felix, Debra Ramirez, Linda Budwine, Advocates for Environmental Human Rights, Louisiana Oysters Association, Gulf Restoration Network, British Petroleum, US Coast Guard, Louisiana Justice Institute, Mosseville Environmental Action Now.

 

A DIGNIDADE DA POLÍTICA EM TEMPOS SOMBRIOS: Acontece de 13 a 17 de Junho na UFG-Goiânia o X Encontro Internacional Hannah Arendt e VI Colóquio Pensamento Político Contemporâneo

 X Encontro Internacional Hannah Arendt
e VI Colóquio Pensamento Político Contemporâneo
Na UFG (Universidade Federal de Goiás) – Goiânia
De 13 a 17 Junho 2016
Blog do evento
No Facebook

Participantes externos à UFG:
Alejandro Oropreza (Obs. H. Arendt/Venezuela)
Anabella di Pego (Univ. Nac. La Plata)
André Duarte (UFPR)
Bethania Assy (UERJ)
Beatriz Porcel (Univ. Nac. Rosario)
Claudia Bacci (Univ. Buenos Aires)
Claudio Boeira Garcia (Unijuí)
Daiane Eccel (UFSC)
Diego Paredes (Univ. Autônoma da Colômbia)
Eduardo J. de Moraes (Puc-Rio)
Fábio Abreu dos Passos (UFPI)
Helton Adverse (UFMG)
Jean Wyllys (Dep. PSOL/RJ)
José Luiz de Oliveira (UFSJ)
Julia Smola (Univ. Nac. General Sarmiento)
Kathlen Luana de Oliveira (IFRS)
Maria Cristina Müller (UEL)
Maria Teresa Muñoz (Univ. Autonoma do México)
Maria Francisca Pinheiro Coelho (UnB)
Odilio Alves Aguiar (UFC)
Paula Hunziker (Univ. Nac. de Córdoba)
Rodrigo Ribeiro (Unirio)
Sebastian Torres (Univ. Nac. de Córdoba)
Sonia Schio (UFPEL)
Vanessa Sievers de Almeida (UFBA)
Yara Frateschi (Unicamp)

DEU NA IMPRENSA: A RedaçãoJornal Opção – …

PROGRAMAÇÃO

Dia 13/06 (AUDITÓRIO DA FAC. DE EDUCAÇÃO – CAMPUS I – PÇ. UNIVERSITÁRIA)

09:00 – Início das inscrições no local

10:30-11:00 – Abertura

11:00-12:00 – Eduardo Jardim de Moraes (PUC-RJ): Como curar um fanático? Hannah Arendt e Amós Oz

12:00-13:30 – Almoço

13:30-15:00 – Yara Frateschi (Unicamp): Arendt e a questão de gênero; André Duarte (UFPR): Arendt e Butler, um diálogo possível?

15:00-15:15 – Intervalo

15:15h-16:45 – Helton Adverse (UFMG): Hannah Arendt, Leo Strauss e o problema da filosofia política; Julia Smola (UNGS/Argentina): Tras una teoría política no escrita de Hannah Arendt;

16:45-17:00 – Intervalo

17:00-18:30 –Claudia Bacci (UBA): Narración y testimonio – una revisión arendtiana de la escena judicial en Argentina Anabella di Pego (ULP/Argentina): Reflexiones en torno del mal. Figuras literarias de la banalidad del mal y de la potencia de no

18:30-18:45 – Lançamento do livro Política y filosofía en Hannah Arendt: el camino desde la comprensión hacia el juicio (Anabella di Pego)

18:45-19:15 – Intervalo

19:15-20:45 – Fábio Abreu dos Passos (UFPI): O terror: Revolução Francesa e totalitarismo como exemplificações; José Luiz de Oliveira (UFSJ): A liberdade de opinião no papel do senado nas análises de Hannah Arendt

20:45-21:00 – Lançamento do livro do VIII Encontro Hannah Arendt

Dia 14/06 (AUDITÓRIO DA FAC. DE EDUCAÇÃO – CAMPUS I – PÇ. UNIVERSITÁRIA)

10:00-12:00 – Maria Francisca Pinheiro Coelho (UnB): Política e esfera pública; Antonio Glauton Varela Rocha (UFC): o mundo comum como lugar da política em Hannah Arendt; Alejandro Oropreza G. (Obs. H. Arendt/Venezuela: El traslado de la esfera pública a la privada del ejercicio del poder en democracias en peligro

12:00-13:30 – Almoço

13:30-15:00 – Rodrigo Ribeiro Alves Neto (Unirio): O presentismo como forma contemporânea da temporalidade e suas implicações políticas; Paula Hunziker (UNC/Argentina): Algunas hipótesis sobre la recepción arendtiana de Kant, en la década del cincuenta

15:00-15:15 – Intervalo

15:15h-16:45 – Sebastian Torres (UNC/Argentina): Arendt en el debate del neo-republicanismo; Elivanda de Oliveira Silva (UFMG): O retorno do republicanismo: a contribuição de Hannah Arendt

16:45-17:00 – Intervalo

17:00-18:30 – Beatriz Porcel (UNR-Argentina): Arendt: el inter-esse como protección de los tiempos sombríos; Vanessa Sievers de Almeida (UFBA): “Tempos sombrios”: as metáforas da luz e da escuridão no pensamento de Hannah Arendt

18:30-19:00 – Intervalo

19:00-20:30 – Maria Teresa Muñoz (UAM-México): Violencia y guerra. Reflexiones arendtianas acerca del llamado intervencionismo humanitario; Diego Paredes (Conicet-IIGG-Argentina/UAC-Colômbia): Violencia y política en el diálogo entre Arendt y Marx

20:30-20:45 – Lançamento do livro Violencia y Revolución en el pensamiento de Hannah Arendt (comp. Maria Teresa Muñoz)

Dia 15/06 (AUDITÓRIO DA FAC. DE EDUCAÇÃO – CAMPUS I – PÇ. UNIVERSITÁRIA)

10:00-12:00 – Lauro Rodrigues de Moraes Rêgo Júnior (UnB): A ideia da política em Max Weber e Hannah Arendt: um exame baseado em afinidades conceituais; Nei Fonseca (UFPEL): A responsabilidade entre política e educação; Cícero Samuel Dias Silva (UFCA): O domínio do kitsch: considerações a partir de Hannah Arendt e Hermann Broch; Halanne Fontenele Barros (UFC): O espaço potencial do domínio público

12:00-13:30 – Almoço

13:30-15:00 – Fernando José do Nascimento (UFPE): O tempo do pensamento em Hannah Arendt: entre a filosofia e a política; Diego Avelino de Moraes Carvalho (UFG): Sobre a importância do legado de Hannah Arendt para os debates historiográficos contemporâneos (ou do como “escovar a história a contra-pêlo”); Marcello Cavalcanti Barra (UNB): O conceito de massas em Hannah Arendt e Walter Benjamin

15:00-15:15 – Intervalo

15:15-16:45 – Wander Arantes de Paiva Segundo (UFG): A desobediência civil no atual cenário político sob a perspectiva do pensamento de Hannah Arendt; Nádia Junqueira Ribeiro (UFG): Constituição e Desobediência Civil – entre a estabilidade e a novidade da ação política; Mariana de Mattos Rubiano (USP): Contestação e resistência em tempos sombrios

16:45-17:00 – Intervalo

17:00-18:30 – Lucas Barreto Dias (UFMG/Unicatólica): Os fragmentos da ruptura entre passado e futuro: sobre o método arqueológico de Arendt; Daiane Eccel (UFSC) O ocaso da tradição e as possibilidades de uma refundação; Igor Vinícius Basílio Nunes (Unicamp): O professor da garota trácia: a disputa por uma anedota

18:30-19:00 – Intervalo

19:00-20:30 – Adriano Correia (UFG): Ação, subjetivação e mentalidade alargada: da dignidade da política; Bethania Assy (UERJ/PUC-RJ): Subjetivação e ontologia da ação política: uma curva fora do ponto no debate universalismo versus multiculturalismo

20:30-20:45 Lançamento do livro Ética, responsabilidade e juízo em Hannah Arendt (Bethania Assy)

Dia 16/06 – (SALÃO NOBRE DA FAC. DE DIREITO – CAMPUS I – PÇ. UNIVERSITÁRIA)

09:30-12:00 – Exibição do filme Iphigenia (Dir.  Mihalis Kakogiannis, 1977) e debate com Konstantinos P. Nikoloutsos (Saint Joseph’s University/EUA)

12:00-13:30 – Almoço
Dia 16/06 (AUDITÓRIO DA FAC. DE EDUCAÇÃO – CAMPUS I – PÇ. UNIVERSITÁRIA)
13:30-15:00 – Geraldo Adriano Emery Pereira (UFV/UFMG): Tudo é possível? Verdade e limite na teoria da ação de Hannah Arendt; Klelton Mamed de Farias (UFPA/Cesupa): Verdade e política; Kathlen Luana de Oliveira (IFRS): Fiat iustitia, ne pereat mundus: sobre memória e verdade em Arendt

15:00-15:15 – Intervalo

15:15-16:45 – Ana Carolina Turquino Turatto (UEL): Os refugiados: considerações arendtianas e a atual experiência; Ricardo George de Araújo Silva (UVA): A ideia de pertencimento de mundo e a questão dos refugiados em Arendt; Eduardo Jose Bordignon Benedetti (UFPEL): O uso político da “mentalidade alargada” em Arendt: notas acerca dos movimentos migratórios da atualidade

16:45-17:00 – Intervalo

17:00-18:30 – Thiago Dias da Silva (USP) Sobre o significado da fala pública no Retrato calado de Luiz Roberto Salinas Fortes; Carmelita Brito de Freitas Felício (UFG): Notas sobre a condição judaica: para compreender o pertencimento de Hannah Arendt ao judaísmo como um problema político; Odilio Aguiar (UFC): Sobre “Nós, refugiados” de Hannah Arendt

18:30-19:00 – Intervalo

19:00-20:30 – Edson Teles (UNIFESP) e Jean Wyllys (Dep. PSOL/RJ): A democracia no Brasil

20:30-20:45 – Lançamento do livro Democracia e estado de exceção: transição e memória política no Brasil e na África do Sul (Edson Teles)

Dia 17/06 (CINE UFG/CAMPUS II – SAMAMBAIA)

10:00-12:00 – Pedro Lucas Dulci (UFG): Da ideologia à idolatria: a profanação como método em Giorgio Agamben; Adriana Delbó (UFG): Sobre a ação: reflexões a partir de Nietzsche; Iarle Ferreira (IFG): Ação política na contemporaneidade: reflexões a partir da técnica moderna; João Lourenço Borges Neto (UFG): Não há nada de natural na natureza

12:00-13:30 – Almoço

13:30-15:00 – Alfons Carles Salellas Bosch (UFRGS): Amizade e filosofia em Hannah Arendt; Willian Bento Barbosa (UFG): Pensar a política em tempos sombrios: a dimensão política da amizade; José dos Santos Filho (UFG): A era moderna e a alienação da política ou sobre “o fardo de nosso tempo”

15:00-15:15 – Intervalo

15:15-16:45 – Priscilla Normando (UnB): Internet entre o totalitário e o democrático? Uma leitura a partir da obra de Hannah Arendt; Aline Soares Lopes (PUC-PR): As similaridades da crise política atual com as origens do totalitarismo: uma reflexão atual; Anelise Gonçalves Lauz (UFPEL): Sociedade e cultura: sua importância política na “Era da Informação”, a partir do referencial teórico arendtiano

16:45-17:00 – Intervalo

17:00-18:30 – Rosângela Almeida Chaves (UFG): Revolução, poder e liberdade: confluências entre Arendt e Tocqueville; Shênia Souza Giarola (UFMG): Trabalho e necessidade: o triunfo do animal laborans e a perda da liberdade segundo Hannah Arendt; Samarone Oliveira (UFG): A questão da liberdade no pensamento de Hannah Arendt

18:30-19:00 – Intervalo

19:00-20:30 – Sônia Maria Schio (UFPEL): Hannah Arendt: dignidade humana e política; Maria Cristina Müller (UEL): A possibilidade de novos começos: uma homenagem a Claudio Boeira Garcia; Helena Esser dos Reis (UFG):Revolução Francesa: malogro da democracia? Discussões a partir de Tocqueville e Arendt

20:30-20:45 – Intervalo

20:45 – Encerramento: Claudio Boeira Garcia (Unijuí).

TEMPO POLÍTICO E AFETO: “Viver sem esperança é viver sem medo.” – Conferência do Prof. Dr. Vladimir Safatle [Vídeo completo, 47 min]

Safatle

“Viver sem esperança é viver sem medo – tempo político e afeto”

Prof. Dr. Vladimir Safatle

Você na rua, de novo. Que interessante. Fazia tempo que não aparecia com toda a sua família. Se me lembro bem, a última vez foi em 1964, naquela “Marcha da família, com Deus, pela liberdade”. É engraçado, mas não sabia que você tinha guardado até mesmo os cartazes daquela época: “Vai para Cuba”, “Pela intervenção militar”, “Pelo fim do comunismo”. Acho que você deveria ao menos ter tentado modernizar um pouco e inventar algumas frases novas. Sei lá, algo do tipo: “Pela privatização do ar”, “Menos leis trabalhistas para a empresa do meu pai”.

Vi que seus amigos falaram que sua manifestação foi uma grande “festa da democracia”, muito ordeira e sem polícia jogando bomba de gás lacrimogêneo. E eu que achava que festas da democracia normalmente não tinham cartazes pedindo golpe militar, ou seja, regimes que torturam, assassinam opositores, censuram e praticam terrorismo de Estado. Houve um tempo em que as pessoas acreditavam que lugar de gente que sai pedindo golpe militar não é na rua recebendo confete da imprensa, mas na cadeia por incitação ao crime. Mas é verdade que os tempos são outros.

Por sinal, eu queria aproveitar e parabenizar o pessoal que cuida da sua assessoria de imprensa. Realmente, trabalho profissional. Nunca vi uma manifestação tão anunciada com antecedência, um acontecimento tão preparado. Uma verdadeira notícia antes do fato. Depois de todo este trabalho, não tinha como dar errado.

Agora, se não se importar, tenho uma pequena sugestão. Você diz que sua manifestação é apartidária e contra a corrupção. Daí os pedidos de impeachment contra Dilma. Mas em uma manifestação com tanta gente contra a corrupção, fiquei procurando um cartazete sobre, por exemplo, a corrupção no metrô de São Paulo, com seus processos milionários correndo em tribunais europeus, ou uma mera citação aos partidos de oposição, todos eles envolvidos até a medula nos escândalos atuais, do mensalão à Petrobras, um “Fora, Alckmin”, grande timoneiro de nosso “estresse hídrico”, um “Fora, Eduardo Cunha” ou “Fora, Renan”, pessoas da mais alta reputação. Nada.

Se você não colocar ao menos um cartaz, vai dar na cara de que seu “apartidarismo” é muito farsesco, que esta história de impeachment é o velho golpe de tirar o sujeito que está na frente para deixar os operadores que estão nos bastidores intactos fazendo os negócios de sempre. Impeachment é pouco, é cortina de fumaça para um país que precisa da refundação radical de sua República. Mas isto eu sei que você nunca quis. Vai que o povo resolve governar por conta própria.

VLADIMIR SAFATLE. Folha De São Paulo.
LEIA NOVAMENTE: “IMPEACHMENT É POUCO”

SIGA VIAGEM:

Vem aí, em Goiânia: Márcia Tiburi falando sobre “FILOSOFIA, FEMINISMO E POLÍTICA” @ “Filosofia no Centro”: No próximo Sábado, 27 de Junho, no Cine Ouro [CLICK e SAIBA MAIS]

marcia_tiburi

“FILOSOFIA, FEMINISMO E POLÍTICA”
MÁRCIA TIBURI no FILOSOFIA NO CENTRO #6
Goiânia / Go – 27 de Junho – Cine Ouro – 18h40

MOSTRA PÚBLICA DE PESQUISAS DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA UFG

O encontro foi elaborado em vista da atual discussão sobre Filosofia, Feminismo e Política.

A relação entre Filosofia e Feminismo não é historicamente inusitada. Desde as campanhas sufragistas do século XIX, seu auge ocorreu na década de 1960, com o surgimento de verdadeiros ícones que se tornaram referência internacional na luta pela emancipação das mulheres, tais como Simone de Beauvoir e Angela Davis, e a belga Luce Irigaray com maior radicalidade. Recentemente, a estaduniense Judith Butler tem elevado a discussão a outro patamar ao elaborar noções importantes para os estudos culturais e de gênero, como a de corpos abjetos. Admitindo tratar-se de uma “contradição performativa”, Butler insere os feminismos mais tradicionais na esfera da alteridade não reconhecida, não nomeada e existente apenas pela negatividade que a caracteriza como uma das dobras de um leque maior: a dos excluídos. Como excluídos, os corpos abjetos, mais do que serem objetos da indiferença, teoricamente ignorados e irrefletidos, passam a ser inseridos em um novo domínio ontológico e discursivo.

Ao serem reconhecidos como excluídos, torna-se então possível a ação política, inseparável de seus pressupostos filosóficos.

Márcia Tiburi, filósofa e escritora, tem se ocupado desta relação há muitos anos, seja na organização de eventos em Universidades, na publicação de coletâneas de artigos e livros, na pesquisa científico- acadêmica, e, mais recentemente, ao iniciar a discussão sobre a formação de um partido político feminista: o PartidA.

Nosso diálogo com Márcia Tiburi será formado por perguntas elaboradas por professoras da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Goiás – UFG, a fim de motivar uma discussão maior com o público presente.

Convidamos a tod@s para este evento de imprescindível interesse acadêmico e público.”

PÁGINA DO EVENTO NO FACEBOOK

marcia_tiburi2

Sobre o Projeto Filosofia no Centro:

“Em certas ocasiões, é importante servir ao público aquilo que ele já deseja. Em outras, porém, é necessário mostrar a existência de algo que esse mesmo público talvez não suspeitasse que também poderia desejar. A cidade de Goiânia já conta com cafés filosóficos e ciclos de palestras abertas, que discutem temas solicitados pela vida cotidiana nas sociedades contemporâneas. Todavia, ainda restava vazio um espaço no qual a filosofia comparecesse, não tanto para atender a tais solicitações, mas principalmente para apresentar-se como atividade de pesquisa, para mostrar-se em seus modos de produção e, nessa medida, colocar a si própria no centro da atividade. É no intuito de dar início à ocupação desse espaço que pesquisadores, docentes e convidados da Faculdade de Filosofia da UFG vêm ao centro da cidade, ao Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro, para mostrar “o que fazemos, como fazemos e por que fazemos”. Oferta-se, assim, à sociedade goianiense um espaço público e gratuito de contato com a produção filosófica acadêmica, no qual, equilibrando o rigor e a seriedade com a acessibilidade exigida por uma situação pública, é dada a palavra a especialistas cujo trabalho vai muito além da mera retransmissão de um saber já constituído, porque, com suas pesquisas, originam novos conhecimentos através do incontornável diálogo com a tradição filosófica e sua história. E por ocorrerem na sala de cinema do Goiânia Ouro, as exposições poderão contar com recursos didáticos audiovisuais, desde a exibição de filmes completos até a simples projeção de textos filosóficos a serem analisados e comentados. Aproximando Universidade e Sociedade, esta mostra permanente de pesquisas filosóficas de excelência procura evidenciar que o refinamento da cultura e da civilização na região do Brasil central, bem como a defesa de que este centro geográfico não seja tratado como periférico em outros sentidos, são tarefas impossíveis sem que se retire o trabalho em filosofia da condição lateral de “serviço ancilar” para situá-lo, corretamente, no centro de uma visão de mundo que se queira ampla e cosmopolita de verdade. Sem que se coloque a filosofia no centro, perde-se, de imediato, a possibilidade da radical ampliação dos horizontes do pensamento, que se torna incapaz de pensar um universo infinito. E apenas em um universo infinito o centro estará em todas as partes.”

Marcia Tiburi

FILOSOFIA AQUI E AGORA: 1ª TEMPORADA COMPLETA (PROGRAMA DE TV ARGENTINO, 30 MIN. CADA EPISÓDIO)

Filosofía-Aqui-y-ahora 1

Filosofía-Aqui-y-ahora 2

1ª TEMPORADA COMPLETA DE FILOSOFÍA AQUI & AHORA
Do canal argentivo ENCUENTO
 Apresentado por José Pablo Feinmann
EPISÓDIOS 1 a 12
Assista on-line:

* * * * *

Filosofía-Aqui-y-ahora José Pablo Feinmann 2

Capítulo 1 – ¿Por qué hay algo y no más bien nada?

1.1 ¿Por qué un curso de filosofía?
1.2 ¿por qué “filosofía aquí y ahora”?
1.3 ¿Cuáles son las preguntas de la filosofía?
1.4 ¿Qué hacemos con lo que hicieron de nosotros?

¿Por qué un curso de filosofía? El ser humano y las preguntas de la filosofía: el hombre como ser finito que sabe que muere y, sin embargo, sigue viviendo y piensa su situación en el mundo. ¿Por qué “Filosofía, aquí y ahora”?, pensamiento situado. El poder de los medios y la colonización de la subjetividad. René Descartes y el discurso del método: la duda metódica. ¿Qué hacemos con lo que hicieron de nosotros?, condicionamientos y responsabilidad: somos lo que elegimos ser.

Capítulo 2: Sacar la filosofía a la calle (0:27:14)

2.1 ¿Sujetos sujetados?
2.2 Si la historia está en manos de Dios, ¿Qué hacen los hombres?
2.3 ¿En qué consiste la ruptura de Descartes con el pensamiento teologal del medioevo?
2.4 Descartes, ¿Un héroe del pensamiento?

La filosofía y la condición finita del hombre; el pensamiento autónomo y el estado de interpretado; el medioevo y la teología: la historia en manos de Dios, el poder pastoral y la Inquisición; Cristóbal Colón y René Descartes: el descubrimiento de América, la conformación de un sistema mundo y el surgimiento de la subjetividad capitalista; el hombre de la burguesía: ahora ocupa la centralidad y comienza a hacer la historia.

Capítulo 3: Colón descubre América; Descartes, la subjetividad

René Descartes y el descubrimiento de América para el capitalismo. El discurso del método: dudo de todo. Pienso, luego existo; las filosofías idealistas y el humanismo: la subjetividad del hombre como punto de partida epistemológico. ¿Cómo demostrar la existencia de la realidad externa?, la recurrencia a la veracidad divina; el dualismo entre el sujeto y el objeto.

Capítulo 4: La filosofía corta la cabeza de Luis XVI (1:19:29)

Descartes y la expresión de la subjetividad capitalista; el cuestionamiento al orden de la teología medieval; las filosofías idealistas: el sujeto como punto de partida para el conocimiento de la realidad; Kant: la realidad externa dominada por la burguesía y el sujeto que constituye al objeto; el Iluminismo y la razón que ordena la realidad; el rol del intelectual revolucionario; la Revolución Francesa; Voltaire: Cándido o el optimismo, el Dr. Pangloss y la justificación del orden existente; la filosofía al servicio de tornar explícita la ignominia y hacerla intolerable; la irritabilidad de las masas.

* * * * *

Capítulo 5: Kant, la experiencia posible y la experiencia imposible

Kant: Crítica de la razón pura, conocer la facultad de conocer y buscar los fundamentos de la ciencia; David Hume y la noción de hábito; el giro copernicano de Kant: el sujeto constituyente; “solo hay objetos para un sujeto”; el mundo de la experiencia posible y el mundo de la experiencia imposible; el concepto de categoría.

Capítulo 6: Hegel, el sujeto absoluto y la consolidación de la burguesía

El sujeto comunicacional y la construcción de lo real; Hegel y el desarrollo dialéctico de la historia; las críticas posmodernistas al pensamiento totalizador hegeliano; concepto de espíritu absoluto: el sujeto, la sustancia y la historia; Hegel como filósofo de la Revolución Francesa; la burguesía y el control de la totalidad del poder político; ¿El fin de la historia?

Capítulo 7: Hegel, dialéctica del amo y el esclavo

Hegel, dialéctica del amo y el esclavo: cómo comienza la historia, el deseo del hombre, el miedo a la muerte y el sometimiento al otro; el contacto con la materia del esclavo y la creación de cultura; la desilusión del amo; filosofías idealistas y filosofías materialistas, pensar a los nuevos sujetos históricos: la burguesía y el proletariado.

Capítulo 8: Filosofía y praxis

La dialéctica en el pensamiento de Marx: la burguesía engendra a su propio enterrador, el proletariado; el materialismo histórico; filosofía de la praxis; la tesis 11 sobre Feuerbach: el pensamiento al servicio de la transformación de la realidad; las armas de la crítica: conocer lo real para transformarlo; la crítica de las armas: violencia de masas y praxis vanguardista.

* * * * *

Capítulo 9: La modernidad desbocada

El pathos de la indignación, la crítica y la conciencia de la ignominia; los socialismos del siglo XX, las masas y las vanguardias; el dogma, el partido y el líder; Marx, el Manifiesto Comunista y el optimismo histórico: “para que el proletariado surja, la burguesía debe triunfar en todas partes”; la burguesía como la clase más revolucionaria que ha existido: expansión, globalización y sistema mundo; los pensadores marxistas argentinos y el proyecto mitrista; la burguesía como aprendiz de hechicero: no puede controlar las fuerzas que ha desarrollado; concentración y exclusión: el temor de los que viven en la opulencia.

Capítulo 10: El capital

El capital; concepto de plusvalía; la acumulación originaria del capital y la violencia: el descubrimiento de América, el exterminio, la esclavización y el saqueo en América, India y África. El fetichismo de la mercancía: el vértigo y el encantamiento; el dinero; ¿Todo es mercancía?; las profecías incumplidas de Marx.

Capítulo 11: Nietzsche, vida y voluntad de poder

Nietzsche: La genealogía de la moral; el origen de los valores y la transvalorización de los valores; la moral de la compasión y los valores de la aristocracia; la tardía unificación de Alemania, el Tercer Reich y el espacio vital.

Capítulo 12: Nietzsche: “Dios ha muerto”

Nietzsche y la voluntad de poder; conservación y aumento: vinculación con el pensamiento hitleriano; el mundo suprasensible platónico y el mundo de la vida; “Dios ha muerto”; el superhombre y el guerrero; la exaltación de lo dionisíaco.