A URGÊNCIA DA INTERSECIONALIDADE – Por uma frente solidária de combate contra as múltiplas opressões

A URGÊNCIA DA INTERSECIONALIDADE
por Kimberlé Crenshaw e Abby Dobson
TED TALKS, 2016

Agora, mais do que nunca, é imprescindível olharmos corajosamente para a realidade do preconceito de gênero e de raça e compreendermos como os dois podem se unir para causar ainda mais danos. Kimberlé Crenshaw usa o termo “interseccionalidade” para descrever esse fenômeno; como ela mesma diz, se você ficar parado na interseção onde múltiplas formas de exclusão se cruzam, você tem chance de ser atingido por todas elas. Nesta palestra tocante, ela apela para que testemunhemos essa realidade e falemos pelas vítimas do preconceito.

* * *

Now more than ever, it’s important to look boldly at the reality of race and gender bias — and understand how the two can combine to create even more harm. Kimberlé Crenshaw uses the term “intersectionality” to describe this phenomenon; as she says, if you’re standing in the path of multiple forms of exclusion, you’re likely to get hit by both. In this moving talk, she calls on us to bear witness to this reality and speak up for victims of prejudice.


ATROPELADOS POR MÚLTIPLAS OPRESSÕES
por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

Na intersecção das opressões, certos sujeitos desafortunados são atropelados pelo trem desgovernado de múltiplos ataques e achaques: é só pensar no exemplo de uma Angela Davis, que como negra, mulher e comunista está na intersecção onde sofre os golpes simultâneos do racismo, do machismo e do anti-comunismo, tornando-se mais apta do que muitos a pensar no quanto os problemas de “raça, gênero e classe” precisam ser compreendidos e combatidos em conjunto.

É também o caso da Audre Lorde: alvo dos homofóbicos por ser lésbica, do racismo supremacista de certos branquelos por ser afrodescedente, do patriarcalismo falocêntrico por ser mulher, ela pôde realizar em seus escritos uma pungente denúncia de uma sociedade com múltiplas formas de opressão, que não devem ser hierarquizadas pois todas são desumanizantes e inaceitáveis.

Esta palavra difícil de pronunciar – “interseccionalidade” – fica bem mais compreensível e visualizável depois que assistimos à essa TED Talks de Kimberlé Crenshaw e Abby Dobson (TED Talks, 2016) – assista em A Casa de Vidro: https://wp.me/pNVMz-4lO. Ali o sujeito é mostrado, de modo bem didático, na interseção de ruas onde será atropelado, no cruzamento entre a avenida da opressão racista, da opressão classista, da opressão machista etc. O que me leva a pensar que não há criatura mais desventurada neste mundo-pesadelo em que vivemos do que um hipotético sujeito que seja ao mesmo tempo: mulher, negra, lésbica, comunista, migrante (ou refugiada), artista e atéia.

Esta heróica e torturada criatura sentiria na pele o atropelo de uma Opressão que é um verdadeiro Bicho de 7 cabeças: (1) machismo / patriarcalismo; (2) racismo / supremacismo étnico-racial; (3) homofobia / heteronormatividade; (4) anti-comunismo / fascismo / dominação plutocrática (dos donos do dinheiro e dos meios de produção); (5) xenofobia / ódio à alteridade; (6) produtivismo pragmático; (7) fundamentalismo / fanatismo religioso. Por isso o chamado “Feminismo Negro” me parece uma das vertentes da práxis que melhor nos ensinou a lutar através de uma solidarização em uma frente única, não-dispersiva, contra todas as formas de opressão.

É o que Paulo Freire já ensinava: “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar o opressor.” O que precisamos é de oprimidos que desejem libertar a sociedade de toda a opressão, instituindo aquela comuna utópica onde não há mais cisão entre oprimidos e opressores, mas conviventes em colaboração em um mundo comum onde busca-se construir tendo o bem público (e não as vantagens privadas) como horizonte e alvo.

* * * * *
A Litany For Survival

For those of us who live at the shoreline
standing upon the constant edges of decision
crucial and alone
for those of us who cannot indulge
the passing dreams of choice
who love in doorways coming and going
in the hours between dawns
looking inward and outward
at once before and after
seeking a now that can breed
futures
like bread in our children’s mouths
so their dreams will not reflect
the death of ours;

For those of us
who were imprinted with fear
like a faint line in the center of our foreheads
learning to be afraid with our mother’s milk
for by this weapon
this illusion of some safety to be found
the heavy-footed hoped to silence us
For all of us
this instant and this triumph
We were never meant to survive.

And when the sun rises we are afraid
it might not remain
when the sun sets we are afraid
it might not rise in the morning
when our stomachs are full we are afraid
of indigestion
when our stomachs are empty we are afraid
we may never eat again
when we are loved we are afraid
love will vanish
when we are alone we are afraid
love will never return
and when we speak we are afraid
our words will not be heard
nor welcomed
but when we are silent
we are still afraid

So it is better to speak
remembering
we were never meant to survive

AUDRE LORDE

“There is No Hierarchy of Oppression” – by Audre Lorde

“I was born Black, and a woman. I am trying to become the strongest person I can become to live the life I have been given and to help effect change toward a liveable future for this earth and for my children. As a Black, lesbian, feminist, socialist, poet, mother of two including one boy and a member of an interracial couple, I usually find myself part of some group in which the majority defines me as deviant, difficult, inferior or just plain “wrong.”

From my membership in all of these groups I have learned that oppression and the intolerance of difference come in all shapes and sexes and colors and sexualities; and that among those of us who share the goals of liberation and a workable future for our children, there can be no hierarchies of oppression. I have learned that sexism and heterosexism both arise from the same source as racism.

“Oh,” says a voice from the Black community, “but being Black is NORMAL!” Well, I and many Black people of my age can remember grimly the days when it didn’t used to be!

I simply do not believe that one aspect of myself can possibly profit from the oppression of any other part of my identity. I know that my people cannot possibly profit from the oppression of any other group which seeks the right to peaceful existence. Rather, we diminish ourselves by denying to others what we have shed blood to obtain for our children. And those children need to learn that they do not have to become like each other in order to work together for a future they will all share.

Within the lesbian community I am Black, and within the Black community I am a lesbian. Any attack against Black people is a lesbian and gay issue, because I and thousands of other Black women are part of the lesbian community. Any attack against lesbians and gays is a Black issue, because thousands of lesbians and gay men are Black. There is no hierarchy of oppression.

I cannot afford the luxury of fighting one form of oppression only. I cannot afford to believe that freedom from intolerance is the right of only one particular group. And I cannot afford to choose between the fronts upon which I must battle these forces of discrimination, wherever they appear to destroy me. And when they appear to destroy me, it will not be long before they appear to destroy you.”


Read by: Lauren Lyons

“O Medo à Liberdade & A Servidão Voluntária” ● Sobre o pensamento de Étienne De La Boétie ● Café filosófico com Leandro Karnal ● #Livros #Filosofia #História #MichelDeMontaigne

Discurso sobre a servidão voluntária

Autor:
 Étienne de la Boétie (1530 – 1563)
Prefácio: Leandro Karnal
Tradutora: Evelyn Tesche

“Bem-vindo à aventura fascinante de enfrentar o fantasma da liberdade. O livro diante de você dialoga com este sonho e é um marco no pensamento ocidental. Aproveite e reflita. Para Étienne, só existe uma prisão possível: aquela que você mesmo construiu e cuja porta, por estranho deleite, você fechou. Saiba sempre que toda servidão é voluntária. Sua liberdade é sua, e você pode entregá-la a qualquer um que desejar. Os tiranos agradecem.” – LEANDRO KARNAL, em prefácio para esta edição

Sinopse: Marco do pensamento humanista, este pequeno tratado foi escrito em 1549, quando Étienne de la Boétie contava apenas 18 anos. O texto defende que é possível resistir à opressão de forma pacífica no momento em que o povo decide não mais se sujeitar à tirania. O autor antecipa em séculos fundamentos teóricos que estarão presentes em, por exemplo, Desobediência civil, de Henry David Thoreau, na luta de Gandhi pela independência da Índia, no movimento antissegregação de Luther King nos Estados Unidos e também nas manifestações populares contra ditaduras ao redor do mundo. A presente edição traz, ainda, introdução do editor Paul Bonnefon, um dos desbravadores da obra de La Boétie e responsável pela edição francesa de 1922, que serviu de base para esta tradução. Além disso, o prefácio, escrito pelo historiador e professor da Unicamp Leandro Karnal, situa o tratado em seu contexto de origem e ao mesmo tempo em relação ao momento político atual. Leitura obrigatória para os dias de hoje, em que todo cuidado é pouco e todo esclarecimento histórico se faz fundamental.

Sobre o autor: Étienne de la Boétie (1530-1563), filósofo francês, teve grande parte dos seus escritos divulgada postumamente a partir dos manuscritos deixados ao amigo Michel de Montaigne. O teor humanista e libertário de seus escritos o coloca entre os precursores das ideias anarquistas. Sua obra mais conhecida é o Discurso sobre a servidão voluntária em que o autor questiona a inclinação dos povos a se deixar dominar por tiranos e afirma que o caminho para a liberdade é a rebelião voluntária e pacífica contra a tirania.

Sobre a tradutora: Evelyn Tesche é bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atua na tradução de obras francesas, principalmente nas áreas de Filosofia, de Literatura e de Ciências Humanas.

Sobre o autor do prefácio: Leandro Karnal é historiador, doutor em História social pela USP e professor na UNICAMP.  É convidado de programas como o Jornal da Cultura e Café Filosófico. Escreveu em autoria ou co-autoria mais de dez livros, alguns dos quais estão entre os mais vendidos do Brasil, como “Verdades e Mentiras” ; “Felicidade ou Morte”; “Pecar e Perdoar”; “Detração – breve ensaio sobre o maldizer”; “História dos Estados Unidos “ e “Conversas com um jovem professor”. É membro do conselho editorial de muitas revistas científicas do país. É colunista fixo do jornal Estadão e tem participações semanais nas rádios e canais de TV do grupo Bandeirantes. Seus vídeos e frases circulam pela internet com grande popularidade.

Editora EdiPro

Click para comprar o livro em A Casa De Vidro / Estante Virtual

Veronica Stigger, «O útero do mundo: Clarice Lispector, a arte, a histeria»

67_matlit_cartaz_veronicastigger_28jun2016

“Em textos como Água viva, Clarice Lispector retomou o elogio surrealista do impulso histérico na forma de um pensamento simultâneo da forma artística e do corpo humano como lugares de êxtase, isto é, de saída de si – e de saída, também, das ideias convencionais de arte e de humanidade. Nesta conferência, escrita paralelamente à preparação de uma exposição para o Museu de Arte Moderna de São Paulo, três conceitos extraídos da escritora-filósofa – grito ancestralmontagem humana e vida primária – servirão de balizas num percurso por uma série de obras visuais dos séculos XX e XXI.”

Veronica Stigger é professora de História da Arte na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e coordena o curso de Criação Literária da Academia Internacional de Cinema. Como ficcionista, é autora dos livros O trágico e outras comédias (2003), Gran Cabaret Demenzial (2007), Os anões (2010), Massamorda (2011), Delírio de Damasco (2012), Minha novela (2013), Opisanie swiata (2013), Sul (2013, edição argentina; edição brasileira atualmente no prelo) e Nenhum nome é verdade (2016). Foi curadora das exposições Maria Martins: metamorfoses (MAM-SP, São Paulo, 2013) e, com Eduardo Sterzi, Variações do corpo selvagem: Eduardo Viveiros de Castro, fotógrafo (SESC Ipiranga, São Paulo, 2015).

ASSISTA A FALA COMPLETA (32 min):

* * * * *

Confira também:

Veronica Stigger na Livraria A Casa de Vidro:
Os Anões (Cosac Naify, 2010)

acervo-0058-stigger“Eles têm graves falhas de caráter, não respeitam filas nem idosos e vão pagar caro por isso. Nos breves contos da gaúcha Verônica Stigger, o que salta aos olhos, mais que o absurdo e certa surrealidade, é a forma natural como eles se resolvem, mesmo que envolvam violência, cortes abruptos, fim precoces e um tanto melancólicos. Em seu terceiro livro, Os Anões (Cosac Naify), o estranhamento persiste, mas dá vazão a mais experimentações entre os gêneros, com “textos que tomam a forma de uma palestra, de uma legenda, de um anúncio publicitário, de uma peça teatral, se fingem de poemas, de classificados, de roteiros cinematográficos, de depoimentos etc.” (Bruno Borigati em Saraiva Conteúdo)

COMPRE AQUI

“Nietzsche & Espinoza — O Poder dos Afetos” com o Filósofo Oswaldo Giacóia Júnior

nietzsche-espinosaNietzsche & Espinoza — O Poder dos Afetos

com o Filósofo Oswaldo Giacóia Júnior

Introdução por Vladimir Safatle

Sinopse: Nesta palestra, o prof. e filósofo Oswaldo Giacóia Júnior discute uma perspectiva de análise social não privilegiando apenas a compreensão da sociedade como um sistema de normas, de leis e de regras e nem compreendendo essa atividade fundamental da vida social que é a política como uma mera discussão sobre circuitos de bens e riquezas, mas sim compreendendo a vida social como uma instauração de afetos — e sua reprodução vinculada à dinâmica relacional dos afetos, compreendendo essa esfera de atividade humana (a política) como um “circuito de afetos”. E para apresentar tais ideias, Giacóia recorre aos pensamentos dos filósofos Nietzsche e Espinosa, fazendo menção à Schopenhauer e tecendo, de maneira sucinta e arguta, algumas problematizações acerca do tema abordado e sua resolução na esfera política.

* * * * *

Leia também:
Razão Inadequada – 5 Semelhanças entre Nietzsche e Spinoza

* * * * *

Siga viagem:

Viviane Mosé + Giacóia

Eduardo Viveiros de Castro: “A revolução faz o bom tempo” [Conferência completa em “Os Mil Nomes de Gaia”, 50 min. ]

Viveiros

“Acho que essa é uma expressão muito feliz: nosso problema é como dar fundamentos materiais diferentes à nossa liberdade.  (…) Me parece que há uma crise da liberdade, a angústia de ver Gaia se transformando numa gaiola, cada vez mais exígua e que ameaça nos esmagar…” – Eduardo Viveiros de Castro


“Pôr em xeque a supremacia do pensamento ocidental-moderno fazendo-o experimentar outras ontologias, outras epistemologias e também outras tecnologias.” Esta é, segundo Renato Sztutman, organizador do excelente livro Encontros (Azougue Editorial, 254 pgs, R$29,90), uma das intenções das reflexões antropológico-sociológico-políticas de Eduardo Viveiros de Castro. Inspirando-se em fontes tão variadas como o Movimento Tropicalista dos anos 1960, a Antropofagia de Oswald de Andrade, a literatura de Guimarães Rosa, a análise filosófica de Deleuze e Guattari, as teorias revolucionário-baderneiras de Hakim Bey, sem falar num punhado de outros antropólogos (Lévi-Strauss, Roy Wagner, Marilyn Strathern…), Viveiros de Castro é um dos estandartes na resistência atual “contra a sujeição cultural na América Latina aos paradigmas europeus e cristãos” (Sztutman).

Mais de 30 anos atrás, quando começou a estudar antropologia, Viveiros de Castro rememora: “naquela distante época estávamos sendo acuados pela geopolítica modernizadora da ditadura – era o final dos anos 1970, que nos queria enfiar goela abaixo o seu famoso projeto de ocupação induzida (invasão definitiva seria talvez uma expressão mais correta) da Amazônia”.

Um dos esforços deste antropólogo, desde então, foi revelar a complexidade e riqueza dos povos indígenas da América Latina com a constante preocupação em “conceber todo nativo em sua capacidade de fabricar teorias sobre si e sobre outrem”, como diz Sztutman. O conceito de “perspectivismo ameríndio”, que caracterizaria o “jeito” indígena de conceber a realidade, visa nos abrir os olhos para outro modo de  perceber o real, uma perspectiva nas antípodas do cartesianismo/positivismo tão típico do nosso Ocidente.

Por  “perspectivismo ameríndio” ele se refere à “concepção indígena segundo a qual o mundo é povoado de outros sujeitos, agentes ou pessoas, além dos seres humanos, e que vêem a realidade diferentemente dos seres humanos” (p. 32).

“Uma das teses do perspectivismo é que os animais não nos vêem como humanos, mas sim como animais” (p. 35), aponta Viveiros de Castro. Por exemplo: para os homens, as onças no mato são apenas animais, “bestas”, “feras”; mas para as onças no mato, os homens é que não passam de bichos (e de carne sedutoramente suculenta). Outro exemplo: na perspectiva dos urubus, a carniça… é um delicioso peixe-assado.

Viveiros de Castro, com aquilo que aprendeu morando e convivendo com os nativos da Amazônia, convida-nos a olhar o mundo com outros olhos, num exercício de outramento através do qual podemos vivenciar o real à maneira do perspectivismo ameríndio, isto é, concebendo uma multiplicidade de consciências que se esparramam por toda a paisagem do real, sendo que cada animal teria uma tendência a fazer de sua perspectiva uma espécie de “centro-do-mundo”, de conceber-se como “subjetividade” e objetificar o outro.

Em muitos mitos indígenas, deparamos com a noção de que os animais são criaturas que foram humanas um dia. “Tal humanidade pretérita dos animais nunca é esquecida, porque ela nunca foi totalmente dissipada, ela permanece lá como um inquietante potencial – justo como nossa animalidade “passada” permanece pulsando sob as camadas de verniz civilizador” (p. 36).

Donde emergem frases, aparentemente absurdas, altamente poéticas, inspiradoras de reflexões altamente interessantes, como “onça também é gente” ou “a oncidade é uma potencialidade das gentes” (p. 38).

Com muito senso de humor, Viveiros de Castro aponta:

“considerar que os humanos são animais não nos leva necessariamente a tratar seu vizinho ou colega como trataríamos um boi, um badejo, um urubu, um jacaré. Do mesmo modo, achar que as onças são gente não significa que se um índio encontra uma onça no mato ele vai necessariamente tratá-la como ele trata seu cunhado humano. Tudo depende de como a onça o trate… E o cunhado…” (p. 38)

Este pensamento antropológico decerto tem todo um impacto político, todo um “ideal” de diversidade socioambiental, todo um plano de resistência às práticas que Raul Seixas satirizava como o “alugar o Brasil”,; há implícita (e às vezes escancarada) toda uma revolta contra os desenvolvimentismos ecocidas, destruidores não só de ecossistemas que sustentam a biodiversidade, mas des-respeitosas afrontas à outridade de outros cujas perspectivas poderiam ampliar as nossas, cujas sabedorias poderiam fecundar a nossa ocidentalóide sophia.

Olhem só o pesadelo que faz Viveiros de Castro despertar em pânico em algumas madrugadas:

“O Brasil do futuro: como diz Beto Ricardo, metade uma grande São Bernardo, a outra metade uma grande Barretos. E um punhado de Méditerranées à beira-mar plantados, outro tanto de hotéis de eco-turismo em locais escolhidos dentro do Parque Nacional “Assim Era a Amazônia”, criado pela Presidente Dilma Rousseff (em segundo mandato) no mais novo ente da federação, o Iowa Equatorial, antigo estado do Amazonas. Bem, esse é só um pesadelo que me acorda de vez em quando…” (p. 252)

Em tempos como os nossos, em que a terceira maior usina hidrelética do mundo (Belo Monte) está sendo construída pelo Governo Federal e em que o Novo Código Florestal, pró-motosserras, gerou legítimos protestos por parte de ambientalistas e ecologistas, é bom lembrar, como faz Viveiros de Castro, que a ditadura no Brasil agia em prol de um “projeto de desindianização jurídica”. Ela consistia na presunção do Estado autoritário de que podia impor à força o estatuto de “cidadãos brasileiros” (logo, de “súdito” sob a tutela e com dever de obediência ao Estado nacional) aos indígenas.

“Índio” (ao menos era o que queria a ditadura…), era “atributo determinável por inspeção” e “tratar-se ia apenas de mandar chamar os peritos” Viveiros de Castro sugere ainda que “des-indianizar” o Brasil servia para que os militares pudessem dizer: “Esse pessoal não é mais índio, nós lavamos as mãos. Não temos nada a ver com isso. Liberem-se as terras deles para o mercado; deixe-se eles negociarem sua força de trabalho no mercado.”

Em levante contra isso, Viveiros de Castro comenta:

“Nosso objetivo político, como antropólogos, era estabelecer definitivamente que índio não é uma questão de cocar de pena, urucum e arco-e-flecha, algo de aparente e evidente nesse sentido estereotipificante, mas sim uma questão de ‘estado de espírito’. Um modo de ser e não um modo de parecer. A nossa luta, portanto, era uma luta conceitual: nosso problema era fazer com que o AINDA do juízo de senso comum “esse pessoal AINDA é índio” (ou “não é mais índio”) não significasse um estado transitório ou uma etapa a ser vencida. A idéia, justamente, é a de que os índios “ainda” não tinham sido vencidos, nem jamais o seriam. Em suma, a idéia era que “índio” não podia ser visto como uma etapa na marcha ascensional até o invejável estado de “branco” ou de “civilizado”.

E.C.M., A Casa de Vidro
educmoraes@hotmail.com

Viveiros2
“Se Descartes nos ensinou, a nós modernos, a dizer ‘eu penso, logo existo’ – a dizer, portanto, que a única vida ou existência que consigo pensar como indubitável é a minha própria -, o perspectivismo ameríndio começa pela afirmação duplamente inversa: ‘o outro existe, logo pensa’. E se esse que existe é outro, então seu pensamento é necessariamente outro que o meu. Quem sabe até deva concluir que, se penso, então também sou um outro. Pois só o outro pensa, só é interessante o pensamento enquanto potência de alteridade. O que seria uma boa definição da antropologia. E também uma boa definição da antropofagia, no sentido que este termo recebeu em certo alto momento do pensamento brasileiro, aquele representado pela genial e enigmática figura de Oswald de Andrade: ‘Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.’ Lei do antropólogo.” – Viveiros de Castro

Confiram também: