“Nietzsche & Espinoza — O Poder dos Afetos” com o Filósofo Oswaldo Giacóia Júnior

nietzsche-espinosaNietzsche & Espinoza — O Poder dos Afetos

com o Filósofo Oswaldo Giacóia Júnior

Introdução por Vladimir Safatle

Sinopse: Nesta palestra, o prof. e filósofo Oswaldo Giacóia Júnior discute uma perspectiva de análise social não privilegiando apenas a compreensão da sociedade como um sistema de normas, de leis e de regras e nem compreendendo essa atividade fundamental da vida social que é a política como uma mera discussão sobre circuitos de bens e riquezas, mas sim compreendendo a vida social como uma instauração de afetos — e sua reprodução vinculada à dinâmica relacional dos afetos, compreendendo essa esfera de atividade humana (a política) como um “circuito de afetos”. E para apresentar tais ideias, Giacóia recorre aos pensamentos dos filósofos Nietzsche e Espinosa, fazendo menção à Schopenhauer e tecendo, de maneira sucinta e arguta, algumas problematizações acerca do tema abordado e sua resolução na esfera política.

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Razão Inadequada – 5 Semelhanças entre Nietzsche e Spinoza

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Siga viagem:

Viviane Mosé + Giacóia

“Além da metafísica e do niilismo: a cosmovisão trágica de Nietzsche” (Mestrado // Eduardo Carli de Moraes)

Mestrado

Pessoal, disponibilizei na íntegra no portal Academia.edu a dissertação que nasceu como fruto dos meus 2 anos de Mestrado, na faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Goiás – UFG: (voilà!) >>> http://bit.ly/1wvIY0b. Evoé, Friedrich Nietzsche!!! Este mestrado foi defendido em Novembro de 2013 diante da banca ilustre composta por Adriano Correia, Adriana Delbó e Maria Cristina Franco Ferraz. Agora, o arquivo está aí, compartilhado e liberado pra ser lido na Internet, baixado de graça e “pirateado” livremente (é filosofia copyleft…); todo e qualquer feedback será bem-vindo! Eis o link para download em PDF (menos de 2 megabytes).

Photo
MORAES, E. C. Além da metafísica e do niilismo: a cosmovisão trágica de Nietzsche. Dissertação (Mestrado em Filosofia), Universidade Federal de Goiás. 2013.

Esta dissertação de mestrado tem por objetivo refletir sobre a filosofia de Friedrich Nietzsche (1844-1900), compreendida como tentativa de superação tanto da metafísica quanto do niilismo. Destaca-se a valorização nietzschiana de um pensamento dotado de senso histórico, fiel ao devir ininterrupto do real, o que implica em uma cosmovisão semelhante à de Heráclito. Defende-se que a posição peculiar de Nietzsche na história da filosofia moral consiste na análise crítica da multiplicidade de diferentes valorações morais, sempre remetidas a suas fontes humanas (demasiado humanas). Através da atenção às circunstâncias e condições de surgimento, desenvolvimento e ocaso dos diversos ideais, valores morais e doutrinas religiosas, procuramos mostrar como Nietzsche constitui uma filosofia que rompe com a noção de valores divinos e imutáveis, além de des-estabilizar crenças em verdades absolutas. De modo a ilustrar o método genealógico nietzschiano em operação, investigam-se fenômenos como o ressentimento e o ascetismo, re-inseridos no fluxo histórico e compreendidos a partir de seus pressupostos psicológicos, fisiológicos e sócio-políticos. Com base em ampla pesquisa bibliográfica da obra de Nietzsche e comentadores (como Jaspers, Wotling, Rosset, Giacoiua, Moura, Ferraz, dentre outros), argumenta-se que a filosofia nietzschiana realiza uma ultrapassagem da cisão platônico-cristã entre dois mundos, além de uma superação do dualismo entre corpo e espírito. Procura-se descrever como a filosofia anti-idealista de Nietzsche, avessa ao absolutismo e ao sobrenaturalismo, age como uma “escola da suspeita”, convidando-nos a um filosofar liberto de subserviência, credulidade e obediência acrítica à tradição. Explora-se também a temática da “morte de Deus” e da derrocada dos valores judaico-cristãos, além da concomitante escalada do niilismo, no contexto de uma filosofia que busca sugerir e abrir novas vias para a aventura humana ao mobilizar conceitos como amor fati, além-do-homem e “fidelidade à terra”. Nietzsche é compreendido não somente em seu potencial crítico, demolidor da tradição idealista e metafísica, mas também como criador de uma sabedoria trágica e dionisíaca que se posiciona nas antípodas tanto dos ideais ascéticos quanto dos ideários niilistas.

PALAVRAS-CHAVE: Friedrich Nietzsche, Sabedoria Trágica, Crítica à Metafísica, Niilismo, Ética.

LEIA / BAIXE: http://bit.ly/1wvIY0b

Dançando à Beira do Abismo: Nietzsche segundo Stefan Zweig

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Some remarks upon...

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STEFAN ZWEIG (1881-1942),
“The Struggle With The Demon – Kleist, Hölderlin and Nietzsche”
Introduction and Translation by Will Stone.
Hesperus Press, London, 2013.


stefan-zweig-nietzsche-le-combat-avec-le-demon_2254061-MArticle by Eduardo Carli de Moraes:

PART I. A DANGEROUS LIFE

Maybe the thrill in our veins when we read Nietzsche derives from the sense of danger that his words exhale: he’s inviting us to dance near the abyss, and without safety nets. Nietzsche desires life to be risky and full of surprises, and is furious against all tendencies of sheepish conformity. A true lover of art and poetry, Nietzsche was both a great thinker and a great artist – one who claimed that “we have art so that we might not die of the truth.” For him, an authentic “free spirit” doesn’t shy away from confrontation with the riddles of existence, even the most scary and painful ones: if you want knowledge, you’ll have to face the monsters of the abyss, and let the abyss stare into you!

As Karl Jaspers wrote on his awesome book about Nietzsche, the philosopher worthy of his task is a figure similar to Theseus: he enters boldily into the labyrinth, willing to be face the danger of being eaten by Minotaurs. In Stefan Zweig’s writings on Nietzsche we feel the emphasis falling upon the dangerousness of Nietzsche life and fate. In his introduction, Will Stone recalls how much Zweig’s book focuses on “the decisive abandonment of security by Nietzsche and his propensity to take an ever more self-destructive tightrope walk, where all safety nets are strictly forbidden.” (Will Stone, Introduction, XIX)

“Voluntarily, in all lucidity, renouncing a secure existence, Nietzsche constructs his unconventional life with the most profound tragic instinct, defying the gods with unrivalled courage, to experience himself the highest degree of danger in which man can live.” (Zweig, p. 6)

Few philosophy books can be said to be as exciting as a roller-coaster ride or a bungee-jump. I believe Nietzsche’s impact on posterity has to do, partly, with those adrenaline shots we receive from his writings. We can re-read his words many times because they provoke us, entice us, marvel us, enfuriate us – but hardly ever leave us indiferent. The flame of life, in each to us, seems to burn more brightly and intensely when we come to spend so time in company with Nietzsche’s flaming words. My experience as a reader of Nietzsche’s books leads me to cherish him as a powerful voice who affects people deeply – some may disagree with him, but this disagreement itself is usually so vehement and intense that it serves as a sign of the echoes, either consonant or dissonant, that Nietzsche’s words arouses. Philosophy in the 20th century was profoundly shaken and inspired by Nietzsche’s books, but in his life, as Zweig points out, he was eaten alive, bit by bit, by the demon of solitude.

Despite his attempts to make his voice be heard, many commentators point out that Nietzsche lived an utterly lonely, isolated existence – “a solitude deprived even of God”, writes Zweig. Nietzsche ended up “crushed by the world’s silence.” (pgs. 5-7) In the following lines, Zweig is less a biographer than a painter: he’s trying to get us in synch with the philosopher’s emotional mood: “One feels here is a man residing in the shadows, apart from all social conviviality, (…) a man who over the years has lost the habit of social interaction and dreads the prospect of being asked too many questions.” (pg. 10)

Nietzsche’s health can be seen as one reason for his choice of an isolated life-style, but it doesn’t explain why the philosopher chose to cut himself even from the most basic of relationships needed, for survival reasons, for someone in his condition: the relationship with a doctor! Nietzsche rarely sought aid of professionals in the medicine field: he mostly self-medicated. He kept away from alcoholic beverages, never drank cofee nor smoked cigarettes. His pension-room had always among its furnishing elements, according to Zweig’s lively description, “an horrifying arsenal of poisons and narcotics”:

 “On a shelf, innumerable bottles, flasks and tinctures: for headaches, which regularly occupy so many wasted hours, for stomach cramps, spasmodic vomiting, instestinal weakness, and above all, those terrible medicaments to control insomnia – chloral and veronal.” (11)

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A portrait of the philosopher by Norwegian painter Edvard Munch


Imagine Zweig as a painter, and his words as drawings in our imagination, and let’s hear how he further paints Nietzsche portrait: the philosopher’s eye-sight is poor, without his glasses he would be blind as a bat. But that seems to be no impediment to his will to devote so much energy into the activities of reading and writing (which demand so much eye-labor). Most nights, Nietzsche’s brain just won’t turn off, and he can only restore his energies by sleep if he ingests some kind of soporific medicine.

“Sometimes he spends the whole day confined to bed. And no one comes to his aid, not even a helping hand, no one to lay a cool compress on his burning brow. No one to read to him, to chat with him, to laugh with him… never a warm naked female body beside his own.” (p. 11-12)

A grim picture of disease and loneliness is painted before our eyes by these Zweigian words, but they serve merely as background for the main figure in the painting: a tragic hero in the realm of knowledge, Nietzsche himself, and the process by which he falls down into the abyss. Would we dare, right here and right now, rebelling against the silence that springs from his grave, delve into the mystery of Nietzsche’s life and death?

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Zweig seems to want his reader to pity the fragile and lonesome state of poor Nietzsche – friendless, abandoned, unloved. I couldn’t help imagining how Nietzsche himself would judge Zweig’s portrait. Nietzsche himself was never attracted by self-pity, and it may be argued that he chose voluntarily to lead a life in which we wouldn’t bother others with his health issues – as if he was trying to put to practise a radical attempt at self-reliance, even in the worst conditions. As Jacob Burckhardt points out, Nietzsche lived as if his task were “to increase independence in the world” (quoted by Zweig, pg. 89), and it’s hard to imagine a philosopher who took so seriously the task of being independent. The fluctuations of his health had profound impact upon his emotional state and the “mood” of his tought: by his own life-experience Nietzsche extracted awesome insights into the inner workings of the human mind. He’s arguably one of the greatest psychologists of the 19st century (he claimed to have learnt psychology mainly with Stendhal and Dostoivésvki), an certainly a pioneer in pre-Freudian times.

 Zweig’s book focuses a lot on Nietzsche’s life, especially the connection between his existential loneliness and his outstanding artistic and philosophical productions. It leads the reader to ask himself: why did this philosopher, who had demolished the moral ideals of asceticism (mainly in his Genealogy of Morals), chose to live in a condition of isolation similar to those hermits he criticised so much? What caused Nietzsche’s attitude of removal from sociability: was it arrogance or pride ? What could have acted as an impediment in the route to Alterity, in Nietzsche’s life? What was the obstacle he couldn’t trespass, keeping him from crying out for help and accepting the aid of human love? Were the people around him to blame for being indiferent and uncomprohensive?

According to Zweig, aways, everywhere he lived, Nietzsche was a foreigner. And that usually doesn’t make easier the task of building friendship. It can’t be said that friendship is highly valued in his books. And it doesn’t seem to me that Nietzsche pursued in his life, with much interest or passion, a quest for human warmth and love. Lou Salomé is maybe the sole female figure in Nietzsche’s life to have aroused in him some kind of dream about redemption by love, some passionate widening of his emotional chest to the realm of the Other, but we know well things didn’t turn out that rosely. Nietzsche couldn’t see la vie en rose and his passion for Lou Salomé turned out to be a devasting heart-break. After the rupture with Lou Salomé, facing what he calls “the greatest crisis of his life”, he writes Zarathustra, a work-of-art and an philosophical poem that carry the mark of something unique. His bond with Lou had collapsed, in ruins were all the bridges of dreams, and in utter solitude he set out to write a book about a character who spent ten years far from all human contact, and tries to re-descend among the humans, to reveal what he learned whilst dwelling in the wilderness, only to discover that everyone miscomprehends him. A book born out of Nietzsche’s abyss, filled with dancing stars, chaotic and colourful as life itself. 

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PART II. THE WOUND OF NO REPLY

“The year-in year-out lack of a really refreshing and healing human love, the absurd loneliness that it brings with it, to the degree that almost every remaining connection with people becomes only a cause of injury; all that is the worst possible business and has only one justification in itself, the justification of being necessary.” – Letter sent by Nietzsche to his friend Overbeck, 3.2.88

Much speculation about Nietzsche breakdown in Turin is to be found in dozens of books. To this pile of speculation, Zweig adds his own contribution:

“For 15 years this cave life of Nietzsche continues from rented room to rented room, while he remains unknown…. only the flight of Dostoyevsky, almost at the same moment in time, with equitable poverty and neglect, is illuminated by the same cold grey spectral light. Here, as there, the work of a titan conceals the gaunt figure of the poor Lazarus who daily expires from his despair and infirmity in solitude, as day by day, the miracle savior of creative will awakens him from the depths. For 15 years, Nietzsche emerges thus from the coffin of his room, moving upwards and downwards, with suffering upon suffering, death upon death, resurrection upon resurrection, until, over-heated by such a flood of energy, his brain breaks apart. (…) Un-accompanied and unkown, the most lucid genius of the spirit rushes headlong into his own night.” (13)

Tough Nietzsche suffered a lot, he didn’t turn angrily against life, nor did he sought final relief in suicide. His philosophy is born out of the dwellings of his mind with his pains: “pain always searches to know the causes, whilst pleasure remains in a fixed position and does not look backwards”, he wrote. “Mighty pain is the last liberator of the spirit; she alone forces us to descend into out ultimate dephts.” And elsewhere: “I know life better, because I have so often been at the point of losing it.” (p. 23)

“Nietzsche never sets up house, with a view to economizing and conserving, he builds no spiritual home; he wants (or perhaps he is forced by the nomadic instinct in his nature) to remain eternally without possessions, the solitary Nimrod who wanders with his weapons through all the forests of the spirit, who has no roof, no wife, no child, no servant, but who, on the other hand, has the thrill and pleasure of the hunt; like Don Juan, he adores not the enduring feeling but the fleeting moments of greatness and ecstasy. He is solely attracted by an adventure of the spirit, by that ‘dangerous perhaps’ that stimulates and excites as long as the chase is on but as soon as attainmet is reached loses its grip.” (29)

In Zweig’s perspective, Nietzsche sounds the alarms and alerts us – prophetically – against the ills of nationalism and praises cosmopolitism:

“Nietzsche is content to be without country, without home or possessions, cut off forever from that ‘parochialism of the fatherland’, from all ‘patriotic subjugation’. His perspective will be the lofty one of the bird in flight, of the ‘good European’, of that ‘essentially nomadic race of men who exist outside of nations’. (…) Once Nietzsche has established himself in the south, he steps definitively beyond his past; he is peremptorily de-Germanized, de-Christianized… the navigator to the realm of the future is too happy to be embarking on ‘the fastest ship to Cosmopolis’ to experience any nostalgia for his unilateral, uniform and univocal fatherland. That is why all attempts to re-Germanize him should be strongly condemned.

At the same time as de-Germanizing him, the south also serves to de-Christianize him completely. Whilst like a lizard he enjoys the sun on his back and his soul is lit right through to his innermost nerves, he ponders what exactly had left the world in shadow for so long, made it so anguished, so troubled, so demoralized, so cowardly conscious of sin, what had robbed the most natural, the most serene, the most vital things of their true value, and had prematurely aged what was most precious in the universe, life itself. Christianity is identified as the culprit, for its belief in the hereafter, the key principle that casts its dark cloud over the modern world.This ‘malodorous Judaism, concocted of Rabbinic doctrines and superstition’ has crushed and stifled sensuality, the exhilaration of the world and for fifty generationshas been the most lethal narcotic, causing moral paralysis in what was once a genuine life force. But now (and here he sees his life as a mission), the crusade of the future agains the cross has finally begun, the reconquest of the most sacred country of humanity: the life of the world.” (pg. 61-63)

Zweig also suggests that, with Nietzsche, it appears for the first time upon the high seas of German philosophy the black flag of a pirate ship. With Nietzsche, it dawns

“a new brand of heroism, a philosophy no longer clad in professorial and scholarly robes, but armed and armored for the struggle. Others before him, comparably bold and heroic navigators of the spirit, had discovered continents and empires; but with only a civilizing and utilitarian interest, in order to conquer them for humanity, in order to fill in the philosophical map, penetrating deeper into the terra incognita of thought. They plant the flag of God or of the spirit on the newly conquered lands, they construct cities, temples and new roads in the novelty of the unkown and on their heels come the governors and administrators, to work the acquired terrain and harvest from it the commentators and teachers, men of culture. But the final objective of their labours is rest, peace and stability: they want to increase the possessions of the world, propagate norms and laws, establish a superior order.

Nietzsche, in contrast, storms into German philosophy like the filibusters making their entrance into the Spanish empire at the end of the 16th century, a wild unruly swashbuckling swarm of desperados, without nation, ruler, king, flag, home or residence. Like them he conquers nothing for himself, or anyone following him, not for a god, or a king, or a faith, but uniquely for the pleasure of conquest, for he wants to acquire, conquer and possess nothig. He concludes no treaty nor build a house, he scorns the rules of war put in place by philosophers and he seeks no disciple… Nothing was more foreign to Nietzsche than to merely proceed towards the habitual objective of philosophers, to an equilibrium of feeling, to repose in a tranquilitas, a sated brown wisdom at the rigid point of a unique conviction. He spends and consumes successive convictions, rejecting what he has acquired, and for this reason we would do better to call him Philaleth, a fervent lover of Aletheia, truth, that chaste and cruelly seducing godess, who unceasingly, like Artemis, lures her lovers into an eternal hunt only to remain ever inaccesible behind her tattered veils.” (pg. 43)

In Nietzsche’s fate we can read the tragedy of someone who, tortured by disease and anguish, embarks head-on in Knowledge’s dangerous adventure. Alone and frail, but bold and curious, he’s a man who, like a serpent, exchanged skins thoughout his life. But, as Zweig points out, his only homeland was solitude. Wherever he lays his hat, there he’s alone. He journeys through the land, but doesn’t seem ever to leave loneliness behind. There’s a song by Portishead in which Beth Gibbons wails: “This loneliness just won’t leave me alone”. It’s quite possible Nietzsche knew a lot about this emotional mood. The philosopher has been acquainted with the blues. Sometimes, it seems, he tries to believe isolation is a merit and that the geniuses of humanity shouldn’t mix with the riff-raff – that’s why many nostrils can smell arrogance in Nietzsche attitude, some aristocratical eliticism, as if the man believes he shouldn’t wallow in the mud of common vulgarities.

This loner consoles himself, to lessen the pains of his solitude,  with the idea that posterity will understand and honour him. Free spirits yet to be born keep him company through his darkest hours. He warms himself by the fireside of his imagination of future glories. Zarathustra is filled with images, bursting from a mind intoxicated by poetry, of better days to come, of men who have outgrown mankind as we know it. The question I pose is: how maddening is it to seek human warmth on the imaginary realm? Can you cure yourself from loneliness with the dreamt shadow of future friends?

In Nietzsche’s final years, he gets increasing bombastic. Now he brags he’s dynamite. His previous books were almost completely ignored by the general population of the planet, and he can’t deal with this easily, emotionally speaking: he felt “only immutable solitude multiplied” and this is what, according to Zweig, “turns his soul gangrenous”: the wound of no reply.” (75)

 His descent into the abyss is portrayed by Zweig as a tragedy of utter solitude. Nietzsche sinks, his brain shatters, because the burden of the world’s indifference and deafness is too much to bear. Nietzsche’s own judgement of his past achievements, in Ecce Homo, may sound deeply narcisistic and self-glorifying: he believes, for example, that Zarathustra is the biggest gift ever given to humanity, the greatest book ever written, and that whole universities should be created and devoted to its study. Some chapters of Nietzsche’s intriguing auto-biography are filled with self-celebration and megalomania, as if he’s trampling modesty underfoot: Nietzsche explains to his readers why he  is so wise, how does he manage to write such great books, and considers himself to be an event in History that will divide it in two epochs. Zweig’s interpretation invites us to understand this as a symptom of his social isolation, of his frustration about the silence that surrounded his ideas, and which was so rarely broken in Europe during his life (only George Brandes, professor in Copenhagen, made an effort to spread Nietzsche’s ideas in academic circles during the philosopher’s life).

When he reached the period when he wrote his last books – among them are The Antichrist, Twilight of the Idols, Ecce Homo… –  Nietzsche seems to be increasingly furious, bombastic. He writes with outbursts of rage and indignation, striving to get some answer from the world around him. Even hostility from readers seems to him to be better than silent indifference. This is how Zweig describes this late Nietzschean works:

“There are contained the most unbridled scornful cries of rage and heavy groans of suffering, flayed from his body by the whip of impatience, a savage growling through foaming mouth and bared teeth… provoking his epoch so that they react and let go a howl of rage. To defy them still, he recounts his life in Ecce Homo with a level of cynicism which will enter into universal history. Never has a book exhibited such a craving, such a diseased and feverish convulsion of impatience for response, than the last monumental pamphlets of Nietzsche: like Xerxes insubordinately battling the ocean with a scourge, with insane bravado he wants the indifferent to be stung by the scorpions of his books, to defy the weight of immunity which enshrouds him. (…) In the glacial silence and lost in his own entrancement, he lifts his hands, dithyrambic his foot twitches: and suddenly the dance begins, the dance around the abyss, the abyss of his own downfall.” (p. 77)

Stefan Zweig’s book is filled with this kind of highly dramatical images, as if he’s trying to honour Nietzsche with a painting worthy of a tragic hero. It’s certainly a very impressive and sensitive portrayal of Nietzsche, tough in its less than 100 pages it doesn’t share many details of the philosopher’s life (this has been done by Curt Paul Janz, Rudiger Safranski and other biographers). Zweig’s perspective is filled with melancholia and he decribes the “struggles with the demon” experienced by Hölderlin, Kleist and Nietzsche as something he also has experienced in his own flesh. Zweig’s life, similarly to that of Nietzsche, can’t be said to have ended happily: he was living in Rio de Janeiro, Brazil, when he commited suicide in 1942. He had sought refuge from the horrors of the World War in Europe, a jew fleeing from the claws of the Holocaust. For a while, he believed Brazil to be “the country of the future”, a safe harbour where no racism or anti-semitism existed. In his book, Brazil – Country of The Future, he idealizes his new home with the eyes of the refugee who was leaving behind a world of intolerance, hatred and persecution. Then, frustration takes over, and he shoots himself in Petropolis. But that’s another story.

I believe Zweig’s Nietzsche is a book whose great merit lies in the description of Nietzsche’s existential position, one of social isolation of almost complete lack of community bonds. He’s downfall, according to an interpretation by Brazillian philosopher Oswaldo Giacoia, one of the leading figures in Nietzsche studies in Latin America, is deeply related the fact that he couldn’t belong to what Hannah Arendt used to call “a common world”. One of the most interesting psychological problems posed by Nietzsche’s fate, it seems to me, is this: how important for psychic health are the lived experienced of community bonds? What are the consequences of radical rupture with the whole dimension of alterity? Or, put more simply, what’s the price that pays the person who lives without any of the warmth provided by friendship and love? 

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Stefan Zweig, author of “The Struggle With The Demon – Hölderlin, Kleist and Nietzsche”. Click here to read an excerpt of the last chapter of Zweig’s book.

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TRIP ON:

Human All Too Human – BBC Series – Full Episode

Nietzsche: Além da Metafísica e do Niilismo…

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Nietzsche representado em pintura de Edvard Munch (1863–1944)

Na última sexta-feira, 08 de Novembro, defendi minha tese de mestrado, Além da Metafísica e do Niilismo: a Cosmovisão Trágica de Nietzsche, na Faculdade de Filosofia da UFG (Universidade Federal de Goiás). A banca foi integrada por meu orientador Adriano Correia, pela professora Adriana Delbó, ambos da própria UFG, além da convidada Maria Cristina Franco Ferraz (da UFF – RJ), autora dos livros O Bufão dos Deuses, Nove Variações Sobre Temas Nietzschianos e Homo Deletabilis – Corpo, Percepção e Esquecimento do século XIX ao XXI, dentre outros. Os três foram muito simpáticos, prestativos e generosos em suas falas e realmente me auxiliaram muitíssimo com este feedback sobre meu trabalho. Aproveito para agradecer a presença do público que apareceu para prestigiar esta defesa – valeu mesmo a todo mundo que compareceu! Minhas saudações agradecidas aos amigos Anna Paula Campos, Juliana Damázio, Juliana Marra, Kárita Melo, Lídia Freitas, Ramon Pereira, Éder David Freitas, Walquíria Batista, William Bento, e a meus pais João e Mara.

Pra mim este rito de passagem, coroação dos últimos dois anos de intensos estudos e escritos, foi uma experiência intensa, memorável, enriquecedora. O diálogo com a banca realmente abriu meus olhos para certos defeitos e imperfeições do meu trabalho, mas também me deixou satisfeito com a confirmação de seus méritos e com o reconhecimento de seus valores; e agora é seguir avante, investigando e suspeitando, descobrindo e re-questionando, porque o mergulho no pensamento de Nietzsche jamais foi para mim somente um interesse acadêmico, mas algo que seduz e convoca desde as vísceras – e prossigo com vontade de me aprofundar no contato com esta obra magnífica, perturbadora, urgente, tonificante…

Nada seria menos nietzschiano do que acomodar-se na crença de já conhecer Nietzsche, quando este pensador convida muito mais a que nunca estacionemos ou estagnemos em nenhum degrau do conhecimento, mas prossigamos subindo a aventurosa escada do saber – e do criar.  A superação do atual me parece uma convocação constante do pensamento nietzschiano, que repudia todo comodismo e toda estagnação, convidando-nos a uma postura existencial de procura contínua de superar o dado e criar o novo. E esta escada não leva ao céu, mas sim ao futuro – “a única transcendência do homem sem deus”, como diz Camus. Na sequência, compartilho o meu “discurso de abertura”, tentativa de “síntese” do que procuro explorar em mais detalhe e minúcia na tese, além de uma fotografia da banca, souvenir desta “manhã clara e nietzschiana”…

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Gianni Vattimo (1936 - ), pensador italiano, autor de "Diálogos com Nietzsch" (Ed. Martins Fontes),

Gianni Vattimo (1936 – ), pensador italiano, autor de “Diálogos com Nietzsche” (Ed. Martins Fontes),

Bom dia! Agradeço pela presença de todos. E aproveito para saudar os membros da banca e dizer que me sinto como um aprendiz diante de educadores que contribuíram muito com a minha formação durante este mestrado – e a quem manifesto desde já minha gratidão. Nestes 15 minutos iniciais, vou fazer uma breve introdução sobre minha pesquisa sobre Nietzsche – um pensador que, nas palavras de um de seus comentadores, Gianni Vattimo, é “decisivo para o nosso presente e ainda repleto de futuro.”

 Uma das frases mais célebres de Nietzsche está em Ecce Homo: “Eu não sou um homem, eu sou dinamite” [1]. Já o sub-título de Crepúsculo dos Ídolos traz outra imagem de impacto: “Como filosofar com o martelo”. Estes dois retratos que Nietzsche pinta de si mesmo mostram que o filósofo sabe do potencial explosivo de suas críticas e demolições. Mas não nos esqueçamos que a dinamite não serve apenas para destruir e arruinar, mas também para abrir terreno para novas construções [2]. E também que um martelo, nas mãos de um escultor, serve para transformar um bloco de pedra em uma obra-de-arte, e que um médico, por sua vez, utiliza o martelo como instrumento para um diagnóstico clínico.

Na minha investigação, procurei compreender a filosofia nietzschiana como um empreendimento em que as facetas crítica e a criativa são indissociáveis, em que o destruidor e o criador estão reunidos. Uma máxima de A Gaia Ciência expressa isso muito bem: “Somente enquanto criadores temos o direito de destruir!” [3] Não considero, portanto, que o pensamento de Nietzsche seja motivado por um ímpeto apenas iconoclasta, polêmico e aniquilador. Mas sim que procura contribuir para libertar-nos do jugo de morais autoritárias, valores anti-naturais, superstições daninhas, dogmas inquestionados etc. A sabedoria nietzschiana nos convida à afirmação e à celebração da existência, em prol do desabrochar de potencialidades ainda não efetivadas, em favor de uma vitalidade ascendente e transbordante.

Neste trabalho, procurei mostrar que Nietzsche realiza não apenas uma crítica devastadora dos sistemas filosóficos metafísicos, das religiões instituídas e dos valores morais sacrossantos. Mas que há também um esforço, por parte do filósofo, em compartilhar uma sabedoria cujas características procurei explorar e que inclui uma revalorização do corpo, da sensorialidade, do devir, da multiplicidade, da alteridade, da pluralidade de perspectivas etc.

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“Se Deus não existisse, tudo seria permitido.” – Ivan Karamázov, personagem de Dostoiévski (1821-1881)

Apesar de muitas vezes referir-se a si mesmo como um “imoralista”, isto não significa, como procurei argumentar, que Nietzsche faça apologia de um vale-tudo moral, onde é abolida toda e qualquer responsabilidade e dever. Seria  simplista e falsificador atribuir a Nietzsche a célebre idéia do personagem de Dostoiévski, Ivan Karamázov, que sustenta que “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. Procurei mostrar que a morte de Deus, em Nietzsche, é vista como acontecimento potencialmente libertador, como ocasião para a emergência de novos valores e estilos-de-vida.

“As consequências mais próximas [da morte de Deus], suas consequências para nós, não são, ao inverso do que talvez se poderia esperar, nada tristes e ensombrecedoras, mas antes são como uma nova espécie, difícil de descrever, de luz, felicidade, facilidade, serenidade, encorajamento, aurora… De fato, nós filósofos e ‘espíritos livres’ sentimo-nos, à notícia de que ‘o velho Deus está morto’, como que iluminados pelos raios de uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, assombro, pressentimento, expectativa – eis que enfim o horizonte nos aparece livre outra vez, posto mesmo que não esteja claro, enfim podemos lançar outra vez a o largo nossos navios, navegar a todo perigo, toda ousadia do conhecedor é outra vez permitida, o mar, o nosso mar, está outra vez aberto, talvez nunca dantes houve tanto ‘mar aberto’…” (A Gaia Ciência, 343)

Procurei destacar a ruptura que Nietzsche realiza com uma das correntes hegemônicas da filosofia ocidental, o platonismo, em especial a cisão do real em dois “mundos” (o Sensível e o Inteligível), o que Nietzsche considera uma “fábula”. A ideia de um mundo metafísico, sobrenatural, suposta morada do absoluto e do imutável, seria, segundo o pensamento nietzschiano, um dos mais duradouros equívocos da história da filosofia. Procurei argumentar que, em Nietzsche, todos os conceitos abstratos da razão, forjados a partir da experiência empírica, permanecem tendo uma existência derivada, como produção de cérebros humanos necessariamente vinculados a corpos animados pela vontade. Procuramos elucidar, portanto, o quanto a filosofia de Nietzsche procura refletir sobre a base fisiológica e psico-somática de onde emergem os conceitos abstratos, os valores morais, as doutrinas religiosas etc. Trata-se, como indica Patrick Wotling, de “denunciar as interpretações falíveis que desde Platão triunfam na tradição filosófica, interpretações idealistas, que esquecem seu estatuto e sua fonte produtora, o corpo.” [4]

Procurei elucidar que Nietzsche se mostra contrário a todas as moralidades baseadas no ideal ascético, ou seja, que negam valor ao corpo, ao desejo, às paixões, ao tempo, à esfera dita “mundana”. A ascese, isto é, o esforço auto-mortificante de purificação, baseia-se em geral na crença em uma alma imortal, que supõe-se destinada a um destino glorioso no além-túmulo. Nietzsche diagnostica neste ideal ascético uma hostilidade contra a vida, uma “calúnia” contra a realidade terrena, um anátema lançado contra o corpo e seus instintos, uma incapacidade de afirmação da existência em sua real finitude e em seus incontornáveis tormentos. Como diz Oswaldo Giacóia, o ideal ascético, como se manifesta por exemplo no platonismo e no cristianismo, “leva a efeito um movimento de completa desvalorização da imanência em proveito da transcendência. (…) Representa, assim, a desvalorização absoluta do ‘mundo’ e da ‘vida’ em proveito de uma vida imaginária, de um ‘além-do-mundo’.”[5]

O esforço de crítica da moral que Nietzsche empreende, portanto, tem como intenção possibilitar uma libertação das energias vitais que foram sufocadas, reprimidas e culpabilizadas por doutrinas morais ascéticas que oprimem os corpos, condenam os prazeres e pregam a hipertrofia de uma razão tirânica contra as paixões. Como diz Tongeren, “mediante uma crítica à moral, Nietzsche pretende abandonar intencionalmente o caminho aplainado e descobrir a abertura para aquilo que é possível para além desse horizonte, a abertura para ‘muitas auroras que ainda não brilharam’.” [6]

* * * *

nietzsche (2)
Em meu trabalho destaco também que Nietzsche confere muita importância ao senso histórico, isto é, a um pensamento filosófico sempre atento ao ininterrupto fluir do tempo. Nietzsche forjou seu método genealógico no intento de compreender como vieram-a-ser as instituições, legislações, valores morais, costumes e crenças com que hoje nos deparamos. Compreender a origem histórica dos valores morais e relacionar seu surgimento a conflitos sociais de classe e jogos de dominação equivale a mostrar quão infundada e ilegítima é a pretensão das morais e das religiões de possuírem uma verdade eterna de fonte divina. Em Humano, Demasiado Humano, por exemplo, Nietzsche critica um defeito de muitos filósofos, que:

“Involuntariamente imaginam o homem como uma verdade eterna, como uma constante em todo o redemoinho, uma medida segura das coisas. Muitos chegam a tomar a configuração mais recente do homem, tal como surgiu sob a pressão de certas religiões e de certos eventos políticos, como a forma fixa de que se deve partir. Não querem aprender que o homem veio a ser, e que mesmo a faculdade de cognição veio a ser…  Tudo veio a ser, não existem fatos eternos, assim como não existem verdades absolutas. – Portanto, o filosofar histórico é doravante necessário, e com ele a virtude da modéstia.” [7]

heraclito

“Tudo flui. Não se entra duas vezes no mesmo rio.” – Heráclito de Éfeso (535 a.C. – 475 a.C.)

Quis mostrar que a filosofia de Nietzsche combate, portanto, a idéia de que existem valores morais, sistemas filosóficos ou doutrinas religiosas de validade eterna, verdade absoluta ou universalidade legítima. A própria Humanidade é concebida como um fenômeno histórico, re-inserida na Natureza que lhe deu origem, de modo que Nietzsche rompe também com a noção criacionista de uma origem sobrenatural para o homem. Por estar “embarcado” na correnteza da história, e por ser uma espécie animal dentre milhões de outras que co-existem no seio da Natureza em fluxo, o homem é inescapavelmente um ser mutante, que integra um cosmos eternamente movediço. Quer aceite este seu destino, quer lute contra ele, cada um de nós, para usar a expressão da canção de Raul Seixas, é uma “metamorfose ambulante”. Procuro compreender o pensamento de Nietzsche, portanto, como fiel ao preceito do filósofo grego Heráclito, que sustentava que “tudo flui” e que “é impossível entrar duas vezes no mesmo rio”.

Considero ainda que Nietzsche jamais sugeriu “fazer tábula rasa do passado”, nunca elogiou o esquecimento da História ou o aniquilamento de seus legados, mas sim uma relação dinâmica e fecunda com o passado: como escreve Karl Jaspers, “em nenhuma parte Nietzsche estima o ato de esquecer o que foi transmitido pela história e recomeçar a partir do nada… Toda sua obra é penetrada por seu intercâmbio com a grandeza do passado, mesmo daquele que ele rejeitou.”[8]

Prova desta relação frutífera com o passado é o modo como Nietzsche reativa a potência do mundo grego pré-socrático, como por exemplo os ritos dionisíacos e a obra dos poetas trágicos (em especial Ésquilo e Sófloces). Nietzsche formulou assim uma sabedoria, que encarna em seu Zaratustra ou nos espíritos livres, cujas características procuramos explorar nessa pesquisa: trata-se de um sujeito afirmador de sua vontade e de seu corpo, criativo e questionador, capaz de superar todo ressentimento através do amor fati, que jamais se acomoda em sua estado atual e procura sempre superar-se, e que age no mundo mais como sátiro do que como santo, mais como dançarino do que como estátua. Em A Gaia Ciência, por exemplo, Nietzsche pinta o retrato do espírito livre, que seria dotado de “uma alegria e uma força de soberania  (…) em que o espírito recusaria toda fé, todo desejo de certeza, tendo prática em manter-se sobre as cordas leves de todas as possibilidades e até mesmo em dançar à beira do abismo. Esse seria o espírito livre por excelência.” [9]

Para Nietzsche, as convicções e os dogmas são inimigos do filósofo e prejudicam-nos em nossa aventura de conhecimento. Quem quer de fato tornar-se amigo da sabedoria tem de ousar libertar-se de certezas apaziguadoras, crenças reconfortantes e tomadas-de-partido inquestionadas. Como diz em Aurora: “A serpente que não pode mudar de pele perece. O mesmo ocorre com os espíritos que se impedem de mudar de opinião; cessam de ser espíritos.” [10] O filósofo autêntico, de acordo com Nietzsche, é uma figura em que se encarna um certo ímpeto heroico de busca pelo saber. Relembremos as palavras de Aurora:

“Nosso impulso ao conhecimento é demasiado forte para que ainda possamos estimar a felicidade sem conhecimento ou a felicidade de uma forte e firme ilusão. (…) A inquietude de descobrir e solucionar tornou-se tão atraente e imprescindível para nós (…) que o conhecimento transformou-se em paixão que não vacila ante nenhum sacrifício e nada teme, no fundo, senão sua própria extinção…” [11]

Um clássico comentário do pensamento de Nietzsche escrito por Karl Jaspers

Um clássico comentário do pensamento de Nietzsche escrito por Karl Jaspers

A filosofia, afinal, não é uma busca interesseira por ideias apaziguadoras ou convicções agradáveis, nem por um cômodo repouso no colo de verdades imutáveis, mas um heróico navegar, em mares perigosos, em busca de um saber sobre o real que nada garante que terá um sabor doce ou que vá nos tornar felizes. O filósofo autêntico, para Nietzsche, segundo nossa interpretação, é aquele que ousa ir à conquista de um saber, ainda que este possa ter um gosto amargo e ainda que acarrete consequências trágicas; é aquele que, como diz Karl Jaspers, tem a coragem de entrar no labirinto, como fez Teseu, mesmo sabendo que terá que defrontar-se com o Senhor Minotauro. [12]

Consideramos que o efeito do convívio com a obra Nietzsche é a de um tônico para a vontade-de-viver. Eis uma filosofia, enfim, onde há muita sabedoria a assimilar, em especial por aqueles que, como diz Giacóia, “não temem fazer dos abismos do sofrimento uma fonte inestimável de conhecimento.” [13]

Em suma: procuramos mostrar o pensamento de Nietzsche como superação tanto da metafísica quanto do niilismo, culminando numa cosmovisão trágica que, longe de ser pessimista, significa uma celebração dionisíaca da existência como ela é, sem exclusão de seus aspectos mais dolorosos e problemáticos. Arqui-inimigo da apatia da vontade, do niilismo desalentador, do ascetismo auto-mortificante, Nietzsche, através de sua obra, canta um hino à vida que inclui um louvor à alegria, aquele afeto que, segundo Spinoza, aumenta nossa potência de existir. Como diz Zaratustra: “Desde que existem homens, o homem se alegrou muito pouco: apenas isso, meus irmãos, é nosso pecado original!” [14] Já em Humano, Demasiado Humano, Nietzsche escreve: “Eis o melhor meio de começar cada dia: perguntar-se ao despertar se nesse dia não podemos dar alegria a pelo menos uma pessoa. Se isso pudesse valer como substituto do hábito religioso da oração, nossos semelhantes se beneficiariam com tal mudança.” [15]

Para concluir este prelúdio, cito mais uma instigante idéia de Nietzsche, que me parece um belo emblema de seu convite à “fidelidade à Terra”, em oposição à idolatria religiosa de ídolos sobrenaturais ou metafísicos: “Não há no mundo amor e bondade suficientes para que tenhamos direito de dá-los a seres imaginários.” [16]

Eduardo Carli de Moraes,
Goiânia – 08/11/2013

* * * * *

REFERÊNCIAS:


[1] NIETZSCHE, Ecce Homo. Por Que Sou um Destino, §01.

[2] É o que aponta Martha Nussbaum: “Indeed, this was the whole purpose of genealogy as Nietzsche, Foucault’s precursor here, introduced it: to destroy idols once deemed necessary, and to clear the way for new possibilities of creation.” Citada por Brobjer, Nietzsche’s Ethics of Character, Pg. 49.

[3] NIETZSCHE. A Gaia Ciência, §58.

[4] Ibid. Pg. 155.

[5] GIACOIA, O. Labirintos da Alma: Nietzsche e a Auto-Supressão da Moral. Pg. 13-38.

[6] TONGEREN, P.V. A Moral da Crítica de Nietzsche à moral. Pg. 43-44.

[7] NIETZSCHE. Humano, Demasiado Humano. Capítulo 1, §2.

[8] JASPERS. Nietzsche: Introduction à sa Philosophie. Pg. 445.

[9] NIETZSCHE. A Gaia Ciência. §347.

[10] NIETZSCHE. Aurora.  §573.

[11] Ibid, §429.

[12] JASPERS. Op Cit. Pg. 231.

[13] GIACOIA. O Humano Como Memória e Como Promessa. Pg. 183.

[14] NIETZSCHE. Assim Falou Zaratustra. Op cit. Livro II, Dos Compassivos. Pg. 84.

[15] NIETZSCHE. Humano Demasiado Humano, §589.

[16] Humano, Demasiado Humano, § 129. Citado a partir de Lou Andreas-Salomé, op cit, Pg. 139: “Il n’y a pas assez d’amour et de bonté dans le monde pour avoir licence d’en rien prodiguer à des êtres imaginaires.”

Souvenir da banca na companhia de Adriana Delbó, Maria Cristina Franco Ferraz e Adriano Correia.

Um souvenir fotográfico da banca – com Adriana Delbó, Maria Cristina Franco Ferraz e Adriano Correia.

P.S. – nos próximos meses, tentarei desmembrar este mestrado em 3 ou 4 artigos, a serem publicados em revistas de filosofia, se possível, ou aqui no blog mesmo, pra “socializar” a pesquisa e “pôr na roda” o conhecimento. Em breve!

Siga viagem…

:: Nietzschianismos! (Meu Projeto de Mestrado…) ::


Além da Metafísica e do Niilismo:
Nietzsche e uma ética para espíritos livres

…as consequências mais próximas [da morte de Deus], suas consequências para nós, não são, ao inverso do que talvez se poderia esperar, nada tristes e ensombrecedoras, mas antes são como uma nova espécie, difícil de descrever, de luz, felicidade, facilidade, serenidade, encorajamento, aurora… De fato, nós filósofos e ‘espíritos livres’ sentimo-nos, à notícia de que ‘o velho Deus está morto’, como que iluminados pelos raios de uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, assombro, pressentimento, expectativa – eis que enfim o horizonte nos aparece livre outra vez, posto mesmo que não esteja claro, enfim podemos lançar outra vez ao largo nossos navios, navegar a todo perigo, toda ousadia do conhecedor é outra vez permitida, o mar, o nosso mar, está outra vez aberto, talvez nunca dantes houve tanto ‘mar aberto’. — NIETZSCHE. A Gaia Ciência, aforismo #343.

Um dos fenômenos humanos mais profundamente estudados por Nietzsche é a moral, objeto de uma consideração prolongada e pormenorizada que perpassa muitas obras do filósofo alemão, a ponto de seu “interesse e preocupação com a questão dos valores” ser descrita por Brobjer como “the centre of gravity of all his writings”1. Alguns dos escritos nietzschianos já revelam em seus títulos as ambições de seu autor: Aurora – Reflexões Sobre os Preconceitos Morais e A Genealogia da Moral, por exemplo, esclarecem que algumas das principais tarefas a que se propôs Nietzsche eram averiguar as origens das estimações humanas a respeito do Bem e do Mal, criticar as ilusões ou preconceitos que subjazem a estes juízos, num empreendimento que acaba pondo em questão o valor de sistemas de moralidadeque norteiam condutas humanas e definem culturas e civilizações: “enquanto para toda a tradição o valor dos valores morais era visto como um dado inquestionável, agora se colocará sob suspeita o próprio valor desses valores.”2

Estes são alvos que Nietzsche atinge seja através de um procedimento genealógico (que busca compreender as raízes históricas das avaliações morais, uma vez que todo código de moralidade ou tábua de valores é concebido pelo filósofo não como dádiva ou revelação divina, mas como construto humano), seja através de uma análise psicológica (reveladora de afetos e motivações ocultos nos posicionamentos morais, com a inclusão de elementos fisiológicos e impulsos inconscientes, procedimento exemplificado pela “dissecação” nietzschiana da figura do sacerdote ascético). Por essas e outras, Nietzsche chegou a ser descrito por seu conterrâneo Thomas Mann, influente literato do século XX e Prêmio Nobel de Literatura, como “o maior crítico e psicólogo da moral conhecido na história da mente humana”.3

A filosofia de Nietzsche, célebre por seu caráter crítico e polêmico (a ponto de seus procedimentos serem descritos como análogos a marteladas destinadas a “demolir ídolos”), procede a uma crítica conjunta tanto da metafísica de inspiração platônica quanto da moralidade judaico-cristã (consideradas como intimamente implicadas, já que o cristianismo não passaria de “platonismo para o povo”4). Como elucida Moura, “o cristianismo é apresentado como uma das peles com as quais a serpente platônica se revestiu… a ‘morte de Deus’ é, assim, um estágio da morte do platonismo”5. O vínculo entre a crítica à metafísica, de um lado, e à moralidade a ela acoplada, de outro, é íntimo. Tanto que o procedimento genealógico é descrito como um antídoto contra a pretensão universalista de certas moralidades específicas, que pretendem falar de modo absoluto e universal, independentemente de tempo histórico ou espaço geográfico, cometendo o “erro habitual” de concluir que há uma “obrigatoriedade incondicionada”6:

 A verdadeira genealogia pretenderá antes marcar as diferenças do que forjar identidades, ela será atenta às mutações das significações e desconfiada diante dos conceitos supostamente unívocos. Por isso, ela não decretará a existência de nenhuma finalidade meta-histórica a orientar o vir-a-ser, ela investigará a história sem a pretensão de reencontrar ali a realização de qualquer ideal eterno. Afinal, a história dos historiadores, ao procurar ler nos eventos a realização progressiva de uma finalidade imutável, é apenas uma metafísica travestida. Por isso Nietzsche oporá o ‘filosofar histórico’ a toda pretensão metafísica de reencontrar dados eternos, e insistirá na denúncia de que qualquer teleologia é construída sobre o erro de se imaginar um homem eterno, em torno do qual todas as coisas do mundo estariam alinhadas desde o começo. Assim, a genealogia será a história desembaraçada da metafísica. (…) Segundo Nietzsche o verdadeiro sentido histórico é aquele que reintroduz no devir tudo o que se tinha acreditado eterno.7

O procedimento genealógico-crítico empregado por Nietzsche em sua investigação da moral, portanto, faz parte de um projeto mais amplo de desmantelamento da metafísica de raiz platônica-cristã (à qual o filósofo tão enfaticamente se opõe). Ao versar sobre o fenômeno da “morte de Deus”, isto é, do crescente descrédito lançado sobre as crenças cristãs na Europa de seu século, Nietzsche destaca que não se pode desvincular esta decadência da fé da concomitante crise damoral ligada a ela: “depois de solapada essa crença”, não é somente a religião que se vê posta no banco dos réus, mas “tudo quanto estava edificado sobre ela, apoiado a ela, arraigado nela; por exemplo, toda a nossa moral européia.” 8 Nietzsche assim resume tudo que se esboroa com a “morte de Deus” e a “vitória do ateísmo científico”:

Considerar a natureza como se ela fosse uma prova da bondade e custódia de Deus; interpretar a história em honra de uma razão divina, como constante testemunho de uma ordenação ética do mundo com intenções finais éticas; interpretar as próprias vivências, como a interpretavam há bastante tempo homens devotos, como se tudo fosse providência, tudo fosse aviso, tudo fosse inventado e ajustado por amor da salvação da alma: isso agora passou… isso, para toda consciência mais refinada, passa por indecoroso, desonesto, por mentira, efeminamento, fraqueza, covardia…9

 Scarlett Marton resume assim as “oposições” nietzschianas:

 Nietzsche desautoriza as filosofias que supõem uma teleologia objetiva governando a existência, desabona as teorias científicas que presumem um estado final para o mundo, desacredita as religiões que acenam com futuras recompensas e punições. Recusa a metafísica e o mundo supra-sensível, rejeita o mecanicismo e a entropia, repele o cristianismo e a vida depois da morte.10


A moral judaico-cristã, além de baseada numa concepção metafísica platônica que Nietzsche rejeita como ilusória, é criticada com severidade por várias razões: por ser “hostil à vida” (“dirige o olhar, verde e maligno, contra o próprio prosperar fisiológico”11), sexualmente repressora (“conseguiu fazer de Eros e Afrodite duendes infernais”12), nascida de afetos reativos como o ressentimento e a crueldade internalizada (a ponto de ser equiparada a um “levante de escravos na moral”):

A Igreja combate as paixões através do método da extirpação radical; seu sistema, seu tratamento, é a castração. Não se pergunta jamais: como se espiritualiza, embeleza e diviniza um desejo? Em todas as épocas o peso da disciplina foi posto a serviço de extermínio.” (…) “Mas atacar a paixão é atacar a raiz da vida; o processo da Igreja é nocivo à vida.13

 Nietzsche diagnostica na moralidade judaico-cristã uma “calúnia” contra a realidade terrena, uma aversão a tudo que é “mundano”, e esta tábua de valores anti-naturais não passaria de um “doentio moralismo que ensinou o homem a envergonhar-se de todos os seus instintos”14. Dois trechos, um da Genealogia e outro d’O Anticristo, sintetizam tais opiniões:

 Ódio contra o humano, mais ainda contra o animal, mais ainda contra o material, essa repulsa aos sentidos, à razão mesma, o medo da felicidade e da beleza, esse anseio por afastar-se de toda aparência, mudança, vir-a-ser, morte, desejo, anseio mesmo – tudo isso significa, ousemos compreendê-lo, uma vontade de nada, uma má-vontade contra a vida…” 15 “Não encontramos nenhum deus, nem na história nem na natureza, nem por trás da natureza – mas sim sentimos aquilo que foi venerado como Deus, não como ‘divino’, mas como digno de lástima, como absurdo, como pernicioso, não somente como erro mas como crime contra a vida…16

Como aponta ainda Deleuze, Nietzsche concebe todo o pensamento metafísico como uma depreciação do mundo e da existência: “Il n’y a pas de métaphysique qui ne juge et ne déprecie l’existence au nom d’une monde supra-sensible.”17 Ora, superar a metafísica equivaleria a uma superação da cisão entre uma dimensão supra-sensível (concebida como “morada” e fonte de todo valor) e uma sensível (tida como falsa, transitória, “corruptora”). Trata-se de romper com a separação entre estes dois “mundos”, o que equivale a libertar a filosofia do império do platonismo e do ideal ascético. Pois também a filosofia, segundo Nietzsche, viveu sob o jugo do ideal ascético, como aponta o 3º ensaio da Genealogia, e “Nietzsche identifica esse traço ascético como uma espécie de pecado original da metafísica; como metafísica, a filosofia se institui a partir da negação e desvalorização do sensível, do corpo, da materialidade, do movimento, do transitório, do devir, do histórico.” 18 Trata-se, ademais, no âmbito da filosofia nietzchiana, de afirmar que este vir-a-ser não pode ser julgado (nem aprovado, nem condenado) a partir de modelos ideais, de modo que, para Nietzsche, “ni l’existence n’est posée comme coupable, ni la volonté ne se sent elle-même coupable d’exister.”19

Fica claro, a partir do exposto até aqui, o quanto a filosofia de Nietzsche é radicalmente crítica tanto da metafísica quanto da moralidade características do cristianismo. Esta dimensão “destrutiva” da obra do filósofo, porém, não esgota seu empreedimento filosófico, de modo que cabe perguntar: não haveria um esforço nietzschiano em sugerir novas vias, isto é, a obra de Nietzsche não conteria uma vasta reflexão sobre a necessidade de instituir novas tábuas de valores e novas virtudes? Em outras palavras, como sustenta Brobjer20, não estaria presente uma faceta construtiva e afirmativa na filosofia moral nietzschiana? Nietzsche, que com tanto empenho iconoclasta tratou de criticar a moralidade dominante em seu tempo, não o teria feito com o intento de expor a “maldição” que certos ideais lançavam sobre a realidade e sugerir a possibilidade de uma outra ética, digna de “espíritos livres” e dionisíacos, afirmadores da vida e fiéis à terra, cuja imagem modelar é o sábio Zaratustra, que dança em celebração da inocência do devir?

Em nossa pesquisa, portanto, temos como objetivo principal investigar as reflexões de Nietzsche no que concerne a uma ética afirmativa capaz de superar tanto a metafísica quanto o niilismo. Tendo esta ética para espíritos livres como fio condutor de nosso estudo, pretendemos analisar conceitos de Nietzsche como a transvaloração dos valores, o eterno retorno, o amor fati, a afirmação da vontade de potência, o Além-do-homem, dentre outros.

  2. JUSTIFICATIVA

Julgamos de primeira importância investigar a fundo a faceta positiva ou construtiva da filosofia moral nietzschiana, defendendo-a contra uma interpretação equivocada de que Nietzsche realizaria apenas uma crítica devastadora que conduziria a um “imoralismo” absoluto. Parece-nos relevante enfatizar, através de nossa pesquisa, que a obra nietzschiana comporta um empreendimento filosófico que busca refletir sobre ética de modo a ir além tanto da metafísica quanto do niilismo, de modo que não nos parece adequado desvincular seus procedimentos críticos dos criativos. Esta convicção de que a filosofia de Nieztzsche não se esgota em seus procedimentos destruidores, indo além da mera iconoclastia, fundamenta-se na opinião de comentadores que apresentaremos concisamente na sequência.

O projeto nietzchiano de “derrubar ídolos”, como elucida Moura, não se deve a

algum gratuito furor iconoclasta, mas sim porque a realidade ‘foi despojada de seu valor, seu sentido, sua veracidade, na medida em que se forjou um mundo ideal… A mentira do ideal foi até agora a maldição sobre a realidade, através dela a humanidade mesma tornou-se mendaz e falsa até seus instintos mais básicos – a ponto de adorar os valores inversos aos únicos que lhe garantiriam o florescimento, o futuro, o elevado direito ao futuro.’ (Ecce Homo, Prólogo, #02, p.18). Ao invés do tácito platonismo de todos os ‘professores da meta da existência’, o que se busca agora é desenraizar a exigência mesma de um ideal – não instituir um novo ideal, mas voltar para aquilo que Nietzsche chamará de ‘inocência do vir-a-ser’: antes de tudo, a decisão de não medir mais a realidade segundo normais ideais das quais ela está afastada, em direção às quais ela deveria caminhar – uma estratégia que sempre terá por consequência condenar o mundo do vir-a-ser em nome desses ideais.21

Scarlett Marton

É o que Marton destaca, por sua vez:

Se a ruína do cristianismo trouxe como consequência a sensação de que ‘nada tem sentido’, ‘tudo é em vão’, trata-se agora de mostrar que a visão cristã não é a única interpretação do mundo – é só mais uma. Perniciosa, ela inventou a vida depois da morte para justificar a existência; nefasta, fabricou o reino de Deus para legitimar avaliações humanas. Na tentativa de negar este mundo em que nos achamos, procurou estabelecer a existência de outro, essencial, imutável, eterno; durante séculos, fez dele a sede e a origem dos valores. É urgente, pois, suprimir o além e voltar-se para a terra. 22

Gilles Deleuze

 Deleuze destaca ainda que o procedimento crítico-genealógico de Nietzsche não está preso nas malhas do ressentimento e da vingança (afetos essencialmente reativos): “La critique n’est jamais conçue par Nietzsche comme um réaction, mais comme une action. (…) La critique n’est pas une ré-action du re-sentiment, mais l’expression active d’um mode d’existence actif”23.Nietzsche ao opõe-se àqueles que caluniam o mundo, a vida e a natureza por estarem ainda presos na “teia de aranha” metafísica ou ao ideal ascético (“em vez de unidade de uma vida ativa e de um pensamento afirmativo, vemos o pensamento dar-se por tarefa julgar a vida, de lhe opor valores pretensamente superiores, de a medir com esses valores e de a limitar e condenar”, explica Deleuze). A isto Nietzsche propõe uma alternativa, assim exposta por Deleuze: “as duas virtudes do filósofo legislador eram a crítica de todos os valores estabelecidos, quer dizer, dos valores superiores à vida e do princípio de que eles dependem, e a criação de novos valores, valores da vida que reclamam outro princípio. Martelo e transmutação.” 24 Esta concepção nietzschiana também está muito bem exposta na parábola das Três Transmutações, em Assim Falava Zaratustra, que destaca que não basta que o leão rebele-se contra o camelo, mas é crucial que torne-se, como uma criança, um novo começo.

Em nossa pesquisa, portanto, pretendemos esclarecer que a obra nietzschiana não é justamente interpretada quando faz-se dela um elogio do “imoralismo” completo, de um niilismo axiológico sintetizado pela fórmula “Nada é verdadeiro, tudo é permitido”. É o que Moura nega com veemência, enfatizando que Nietzsche jamais preconizou o laxismo do “tudo é permitido”:

Justo ele, que sempre se manifestou contra qualquer versão do laisser-aller; ele que, ao criticar os valores morais vigentes (…) atribuía como tarefa, ao filósofo do futuro, precisamente a criação de valores; ele, enfim, que já indicara expressamente aos seus leitores que seu trabalho de toupeira, para minar a confiança na moral, era realizado em nome da… moralidade!25

 Parece-nos de importância fundamental frisar, pois, o quanto a filosofia nietzschiana, longe de conceber-se como mera destruição de antigos ídolos e valores venerados, comporta também uma outra dimensão: construtiva e criativa. Com recorrência o filósofo destaca a necessidade de escrever novas tábuas de valores, tendo em vista o porvir do homem, a ponto de julgar que é justamente esta a tarefa do autêntico filósofo: tornar-se legislador. Como Brobjer aponta, “Nietzsche’s references to himself and Zarahustra as immoralists and his critique of morality can be understood as referring to essentially one kind of morality which Nietzsche regarded as having been paradigmatic during the last two thousand years or so”. 26 Também Leiter comenta que o ataque de Nietzsche à moralidade dominante era baseada no diagnóstico nietzschiano de que o florescimento da excelência humana e o desabrochar do gênio criativo eram obstaculizados pelas concepções morais vigentes:

Nietzsche attacks morality, most simply, because he believes its unchallenged cultural dominance is a threat to human excelence and human greatness. (…) In a posthumously published note of 1885, he remarks that ‘men of great creativity, the really great men according to my understanding, will be sought in vain today’ because ‘nothing stands more malignantly in the way of their rise and evolution… than what in Europe today is called simply ‘morality’ (WP: 957) 27

O projeto de investigar a fundo, pois, a faceta “positiva” e “construtiva” da filosofia moral nietzchiana parece-nos plenamente justificada, uma vez que, como aponta ainda Nussbaum, o propósito de Nietzsche, através de sua crítica à moralidade, foi “limpar o terreno para novas possibilidades de criação”: “Indeed, this was the whole purpose of genealogy as Nietzsche, Foucault’s precursor here, introduced it: to destroy idols once deemed necessary, and to clear the way for new possibilities of creation.” 28

3.  HIPÓTESES DE TRABALHO

– A obra nietzschiana procura oferecer não somente uma crítica radical do ideal ascético (descrito no Ecce Homo como “o ideal nefasto par excellence, um ideal de décadence”), mas a tentativa de fazer frente a ele com um “contra-ideal” que poria fim ao reinado da moralidade de auto-renúncia29. Aí se desvela o projeto nietzschiano, para além da crítica e da demolição, de oferecer uma alternativa a este “monstruoso método de avaliação” característico dos sacertodes ascéticos e que “não está inscrito na história humana como uma exceção ou curiosidade: é um dos mais disseminados e longevos fatos que há”30. Nietzsche, após fazer uso do martelo e da dinamite, não se dá por satisfeito: cabe aos espíritos-livres construir novas tábuas de valores que façam com que a terra deixe de ser a “a estrela ascética”. Tendo como fio condutor a caracterização de uma “ética para espíritos livres”, analisaremos como se relacionam conceitos como além-do-humano (Übbermensch), amor fati, segunda inocência, eterno retorno, afirmação dionisíaca etc.

– Se Nietzsche tanto criticou e rejeitou os “pessimistas” e “niilistas”, foi também por vislumbrar a possibilidade de que a “morte de Deus” pudesse representar um auspicioso recomeço, como tão bem sustenta o trecho de A Gaia Ciência que citamos em nossa epígrafe. “Não devemos rejeitar a perspectiva de que a vitória total e definitiva do ateísmo possa livrar a humanidade desse sentimento de estar em dívida com seu começo, sua causa prima [causa primeira]. O ateísmo e uma espécie de segunda inocência são inseparáveis.”31 Pretendemos sustentar que a superação da metafísica e do niilismo representaria, segundo Nietzsche, o que Giacóia chama de um “ultrapassamento” em relação a um horizonte cultural limitado: “No mundo contemporâneo, com o aprofundamento e a máxima intensificação do niilismo europeu, abrem-se novamente horizontes para uma repetição ímpar desse resgate de uma virtualidade cultural que corresponderia a um ultrapassamento dos mais sagrados ideais vividos até o presente.”32.

– Cientes de que não há em Nietzsche nada que se assemelhe a um sistema prescritivo dogmático, tentaremos investigar que concepção tinha o filósofo a respeito das virtudes ou “traços de caráter” que conduzem à excelência humana, à sabedoria terrena. A hipótese que pretendemos sustentar, com auxílio dos textos nietzschianos e de alguns de seus comentadores, é a de que existe sim uma intensa preocupação de Nietzsche com uma reflexão a respeito de uma tábua de valores ou sistema de moralidade que oferecesse ao potencial humano um maior florescimento. Como aponta Moura, o homem “sábio” ou “virtuoso”, para Nietzsche, não pode ter um rosto definido, isto é, uma definição demasiado estreita; mas isto não impede que encontre-se vários elementos na obra nietzschiana que possibilitam explorar as características da excelência humana como Nietzsche a concebe:

Com o conceito de além-homem se estará designando uma perpétua superação de si, e por isso esse além-homem nunca terá rosto definido, nem poderia tê-lo. Com esse conceito não se traça nenhuma imagem de um novo homem divino, a idéia de superação de si proíbe toda e qualquer cristalização de uma figura determinada, algo do qual se possa repertoriar os traços, e por isso o espírito livre – viajante sem porto de chegada – era a sua melhor prefiguração.” (…) “…o espírito livre é um personagem que não se fixa em convicções e experimenta as mais variadas perspectivas… ele jamais se fixará em alguma certeza, superando-se perpetuamente em direção a novas opiniões, novas perspectivas. É porque a vontade de potência é superação de si que as convicções são prisões, e o espírito livre estará condenado a ser um experimentador.33

– Em suma, nossa investigação pretende analisar a hipótese de que, após o trabalho de “dinamitação” realizado por sua filosofia, há decerto uma tentativa de Nietzsche de sugerir um novo “regime ético”, não mais dominado pelo ideal ascético, que rompe com a metafísica platônica-cristã, não mais baseado na promessa de uma recompensa ou de uma punição extra-terrenas, não mais hostil à vida e caluniadora do mundo. Em resumo: uma ética que supera tanto a metafísica quanto o niilismo, cuja tábua de valores não é baseada em ideais transcendentes em contraste com os quais a realidade é caluniada, mas sim numa “sabedoria da imanência”, digna daqueles espíritos livres a quem Zaratustra conclamava a “permanecerem fiéis à Terra”:

Eu vos exorto, meus irmãos! Permanecei fiéis à terra e não acrediteis naqueles que vos falam de esperanças supraterrestres. São envenenadores, quer o saibam ou não! São menosprezadores da vida! (…) Em outros tempos, blasfemar contra Deus era o maior dos ultrajes, mas Deus morreu e com ele morreram esses blasfemadores. De ora em diante, o crime mais atroz é ultrajar a terra e ter em maior conta as entranhas do insondável do que o sentido da terra!34



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 BROBJER, T. Nietzsch’s Ethics of character. Suécia: Uppsala University, 1995. P. 12.

2 MOURA, C.A.R. Nietzsche: Civilização e Cultura. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Introdução, XVI.

3 MANN, T. Nietzsche’s Philosophy in The Light of Contemporary Events. Washington: library of Congress, 1947. Pg. 17.

4 NIETZSCHE. Além do Bem e do Mal. Prólogo. Cia das Letras, 1992, p. 8

5 MOURA. Nietzsche: Civilização e Cultura. Martins Fontes, 2006. Pg. 30.

6 NIETZSCHE. A Gaia Ciência. Livro V, §345. In: Obras incompletas. São Paulo: Nova Cultural, 1999 (Os Pensadores). Pg 198.

7 MOURA. Op Cit. Pg. 114-115.

8 NIETZSCHE. Op Cit. Pg 195.

9 NIETZSCHE. A Gaia Ciência. Livro V, §357. In: Obras incompletas. São Paulo: Nova Cultural, 1999 (Os Pensadores). Pg 203.

10 MARTON, Scarlett. “O eterno retorno do mesmo: tese cosmológica ou imperativo ético”. In: Ética, org: Adauto Novaes. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. pg. 218.

11 NIETZSCHE. A Genealogia da Moral. Terceira Dissertação, §11. p. 358.

12 NIETZSCHE. Aurora, §76. P. 149.

13 NIETZSCHE. Crepúsculo dos Ídolos. A Moral Como Manifestação Contra a Natureza. §01.

14 NIETZSCHE. A Genealogia da Moral. II Dissertação. §7.

15 NIETZSCHE. A Genealogia da Moral. III Dissertação. §28.

16 NIETZSCHE. O Anticristo, §47.

17 DELEUZE, G. Nietzsche et la philosophie. Paris: PUF, 1962. Pg. 40.

18 GIACÓIA, O. Nietzsche Como Psicólogo. São Leopoldo (RS): Unisinos. Pg. 48.

19 DELEUZE, G. Op Cit. Pg. 41.

20 “…ethics is a fundamental concern for Nietzsche and his affirmative ethics is closely associated with, and represents the other side of, his critique of morality and it is no less important” . In: BROBJER, Thomas. Op Cit. Pg. 41.

21 MOURA. Op Cit. Introdução, XIX.

22 MARTON, Scarlett. “O eterno retorno do mesmo: tese cosmológica ou imperativo ético”. In: Ética, org: Adauto Novaes. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. pg. 218.

23 DELEUZE, G. Op Cit. Pg. 3.

24 DELEUZE, G. Nietzsche. Lisboa: Edições 70, 2009. P. 19.

25 MOURA. Op Cit. Pg. 239

26 BROBJER, T. Op Cit. P. 25.

27 LEITER, B. Nietzsche On Morality. Routledge: London, 2002. Pg. 25 e 114.

28 NUSSBAUM, M. Citada por Brobjer, op cit. p. 49.

29 NIETZSCHE. Ecce Homo. Pg. 140.

30 NIETZSCHE. Genealogia da Moral, III Dissertação.

31 NIETZSCHE. Genealogia da Moral. II Dissertação, #20, p.73.

32 GIACÓIA. Nietzsche Como Psicólogo. São Leopoldo (RS): Unisinos. Pg. 149.

33 MOURA. Op Cit. Pg. 201.

34 NIETZSCHE. Assim Falava Zaratustra. Primeiro Livro. Pg. 23.