A CASA DE VIDRO LIVRARIA: Clastres, Bazin, Zola, Monbiot, Corção

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“Arqueologia da Violência – Pesquisas de Antropologia Política
de Pierre Clastres (1934 – 1977) – Ed. Cosac Naify, 2004, 380 pgs.

Prefácio de Bento Prado Jr e posfácio de Eduardo Viveiros de Castro. Capa dura. Reunião de 12 artigos de Pierre Clastres, autor do clássico “A Sociedade Contra o Estado”. Em “Arqueologia da Violência”, o autor renova a antropologia política, reformulando a ideia de dominação nas sociedades chamadas primitivas e realizando uma crítica incisiva à violência na sociedade ocidental. O autor define etnocídio, critica a antropologia marxista, antecipa a denúncia do massacre dos Yanomami na Amazônia e retoma a discussão sobre a origem do poder nas sociedades indígenas da América do Sul. O autor evoca relatos de viagem, a mitologia americana, Freud, Hobbes e Rousseau. Saiba mais em A Casa de Vidro. COMPRAR.


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“ORSON WELLES”, um livro de André Bazin
(Ed. Jorge Zahar, 2005)

“Orson Welles” (Jorge Zahar, 2005) é o célebre ensaio do crítico de cinema André Bazin sobre a obra e a trajetória de um dos maiores gênios da cinematografia mundial. O livro –que faz parte da coleção Cahiers de Cinema– foi escrito originalmente em 1950, quatro anos depois do lançamento de “Cidadão Kane”. Bazin faz aqui uma brilhante defesa do cineasta, acusado de esbanjar orçamentos milionários sem resultados e realizar filmes incompreensíveis. Tornou-se célebre a sua interpretação do sentido da profundidade de campo adotado por Welles em “Cidadão Kane”. Interpretando a obra de Welles a partir do cruzamento com as artes plásticas, a música, a história e a filosofia, Bazin revela aqui aspectos dos seus filmes até então ignorados pelo público e pela própria indústria cinematográfica. COMPRAR.


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“A Besta Humana”
de Émile Zola (Capa dura, ilustrado, Ed. Zahar)

Livro novo, em perfeito estado, capa dura, com cerca de 20 ilustrações de época. Tradução de Jorge Bastos. O romance “A Besta Humana”, de Zola, passa-se na França, em 1870. Atormentado pelo desejo de matar as mulheres por quem se sente atraído, o maquinista Jacques Lantier se refugia no comando de sua possante locomotiva a vapor com que periodicamente cruza a linha Paris – Le Havre. Os trilhos fazem com que seu destino se cruze com o da bela e cruel Séverine – e determinam as vidas de todos os personagens. Grande mestre do naturalismo francês, Émile Zola nos põe em contato direto com a marca da maldade que existe em cada um de nós. Este impactante romance tem como complemento ilustrações, cronologia e apresentação. 368 pgs. COMPRAR.


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A Era do Consenso – Manifesto para uma Nova Ordem Mundial
George Monbiot

Neste livro, Monbiot busca elucidar uma utopia internacionalista de revolução democrática que possa iluminar e guiar os movimentos de justiça global (também conhecidos como antiglobalização, anticapitalistas, altermundialsitas etc). O autor busca descrever “um mundo norteado precisamente pelo princípio segundo o qual os poderosos alegam governar: o princípio da democracia. É uma tentativa de substituir a Era da Coerção pela Era do Consenso. Apresento neste manifesto uma série de propostas que deixarão horrorizadas as pessoas de bem.” (Prólogo do autor) O livro delineia os detalhes concretos de uma sociedade global dirigida pelo povo e para o povo, que incluiria um parlamento mundial eleito democraticamente, uma Organização do Comércio Justo, e uma revolucionada ONU. 277 pgs. COMPRAR.


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“Lições de Abismo”
Gustavo Corção (Ed. Agir, 2004, Ilustrado)

Livro novo, em perfeito estado, 238 pgs. Denso e profundo, este romance é o diário final de um homem que se descobre com leucemia. O médico lhe diz que terá três ou quatro meses de vida.Mergulhado na memória, avalia o sentido da vida. Os escritos, de lucidez crescente, são reflexões sobre a alma, a verdade, o absoluto, o amor, a frivolidade, o ciúme. Premiado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em 1954, “Lições de Abismo” tem traduções em inglês, italiano, holandês, polonês, alemão e francês. Esta edição está enriquecida por ilustrações do artista Oswaldo Goeldi (1895-1961). Sobre Corção, disse Oswald de Andrade: “Uma extraordinária e lúdica natureza de criador. Depois de Machado de Assis aparece agora um mestre do romance brasileiro.” COMPRAR.


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Um texto hilário de Woody Allen em “Fora de Órbita” + 10 filmes prediletos da história do Cinema

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Estou muito aliviado em saber que o universo, afinal, é explicável. Já estava começando a achar que o problema era comigo. Como agora se sabe, a física, feito um parente chato, tem todas as respostas. O big-bang, os buracos negros e a sopa primordial aparecem toda terça-feira na seção de ciência do Times e, em consequência, minha compreensão da relatividade geral e da mecânica quântica agora se equipara ao conhecimento que tenho de Einstein. O Einstein da loja Einstein Moomjy, o famoso vendedor de tapetes de Nova York. Como é que pude ignorar que existem no universo coisas minúsculas, do “comprimento de Planck”, que têm um milionésimo de um bilionésimo de um bilionésimo de um centímetro? Imagine como será difícil encontrar uma coisa dessa, se você a deixar cair num cinema escuro. E como a gravidade funciona? E se ela cessasse de repente, alguns restaurantes ainda exigiriam o uso de paletó? O que sei de fato sobre a física é que, para um homem parado na margem, o tempo passa mais depressa do que para um homem no barco – ainda mais se o homem no barco estiver com a esposa. O mais recente milagre da física é a teoria da corda, alardeada como TT, ou “Teoria de Tudo”. Isso pode incluir até o incidente da semana passada, narrado a seguir.

Acordei na sexta-feira e, como o universo está em expansão, levei mais tempo do que o habitual para achar o meu roupão. Isso me fez sair tarde para o trabalho e, como a noção de alto e baixo é relativa, o elevador que peguei foi parar no terraço, onde foi difícil conseguir um táxi. Por favor, tenham em mente que um homem dentro de um foguete que se aproxima da velocidade da luz pareceria estar indo na hora para o trabalho – ou até um pouco adiantado, e sem dúvida mais bem vestido. Quando, enfim, cheguei ao escritório e me dirigi ao meu patrão, o senhor Muchnick, a fim de explicar o meu atraso, minha massa aumentou à medida que eu me aproximava, o que meu patrão entendeu como um sinal de insubordinação.

Houve uma conversa bastante ríspida sobre reduzir o meu salário, o qual, medido no parâmetro da velocidade da luz, é de todo modo muito pequeno. A verdade é que, em comparação com a quantidade de átomos da galáxia de Andrômeda, eu de fato ganho muito pouco. Tentei dizer isso ao senhor Muchnick, que respondeu que eu não estava levando em conta que tempo e espaço são a mesma coisa. Jurou que, se a situação mudasse, me daria um aumento. Sublinhei que, uma vez que tempo e espaço são a mesma coisa, e levo 3 horas para fazer algo que no final fica com menos de 18cm de comprimento, não dá pra vender isso por mais de 5 dólares. O lado bom de tempo e espaço serem a mesma coisa é que, se você viaja para as regiões remotas do universo e a viagem leva 3 mil anos terrestres, os seus amigos estarão mortos quando você voltar, mas você não vai precisar de Botox.

De volta ao meu escritório, com a luz do sol entrando com força através da janela, pensei comigo que, se a nossa grande estrela dourada explodisse de repente, este planeta voaria para fora de órbita e sairia zunindo pelo infinito para sempre – mais uma boa razão para a gente levar sempre um telefone celular. Por outro lado, se um dia eu pudesse me mover numa velocidade superior a 300 mil km por segundo e recapturar a luz nascida séculos atrás, será que poderia voltar no tempo para o Egito Antigo ou para a Roma Imperial? Mas o que eu iria fazer lá? Dificilmente acharia alguém conhecido.

Foi nesse momento que nossa nova secretária, a senhorita Lola Kelly, entrou. Agora, na polêmica em torno da questão de tudo ser feito de partículas ou de onda, a senhorita Kelly é positivamente feita de ondas. Dá para verificar que ela é feita de ondas toda vez que caminha até o bebedouro de água gelada. Não que ela não tenha boas partículas, mas são as ondas que conseguem para ela as bijuterias da Tiffany. Minha esposa também é mais ondas do que partículas, só que as ondas dela começaram a despencar um pouco. Ou talvez o problema seja que minha esposa tem quarks demais. A verdade é que, ultimamente, ela parece que passou perto demais do horizonte de eventos de um buraco negro e uma parte dela – não toda, de maneira alguma – foi sugada. Isso lhe dá um formato meio gozado, que espero ser remediável mediante a fusão fria. Meu conselho para qualquer pessoa sempre foi evitar buracos negros, porque, uma vez lá dentro, é extremamente difícil conseguir sair e ainda conservar o ouvido para a música. Se por acaso você despencar por um buraco negro e emergir do outro lado, provavelmente vai viver sua vida inteira muitas e muitas vezes, mas vai ficar compactado demais para sair e encontrar garotas.

E assim me aproximei do campo gravitacional da senhorita Kelly e pude sentir minhas cordas vibrarem. A única coisa que sabia era que eu queria embrulhar meus bósons de calibre fraco em volta dos glútons dela, deslizar por um buraco de minhoca e adentrar por um túnel quântico. Foi nessa altura que fiquei impotente em virtude do princípio de incerteza de Heisenberg. Como eu poderia agir se não consegui determinar a posição e a velocidade exatas dela? E se de repente eu causasse uma singularidade – ou seja, uma devastadora ruptura no espaço-tempo? Isso é tão barulhento. Todo mundo ia olhar e eu ia ficar sem graça diante da senhorita Kelly. Ah, mas a mulher tem uma energia escura tão boa. Energia escura, embora hipotética, sempre foi para mim um choque estimulante, sobretudo numa mulher que tem sobremordida. Na minha fantasia, se eu pudesse levá-la para o interior de um acelerador de partículas durante cinco minutos com uma garrafa de Château Lafite, eu estaria ao seu lado com os nossos quanta se aproximando da velocidade da luz, enquanto o seu núcleo colidia com o meu. Claro, exatamente nesse instante caiu um cisco de antimatéria no meu olho e tive que arranjar um cotonete para removê-lo. Eu tinha perdido quase toda a esperança, quando ela se virou para mim e falou:

– Desculpe – disse – Eu ia pedir um café e um bolinho, mas agora parece que não consigo me lembrar da equação de Schrödinger. Não sou mesmo uma tola? Simplesmente se apagou da minha memória.

– Evolução das ondas de probabilidade – falei – E se você vai fazer um pedido ao garçom, eu gostaria muito de um bolinho inglês com múons e chá.

– Com todo prazer – respondeu, sorrindo com ar de coquete e curvando-se numa forma de Calabi-Yau. Pude sentir miha constante de acoplamento invadir o campo fraco da senhorita Kelly à medida que eu pressionava meus lábios nos seus neutrinos molhados. Aparentemente, consegui alcançar uma espécie de fissão, porque o que percebi depois disso foi que eu estava me levantando do chão com um olho roxo do tamanho de uma supernova.

Acho que a física pode explicar tudo, menos o sexo frágil, mesmo assim contei para a minha mulher que fiquei com o olho roxo porque o universo estava em contração, e não em expansão, e na hora eu estava distraído.”

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No Open Culture, Woody elege 10 filmes prediletos na história do cinema:

  • Os Incompreendidos – The 400 Blows (François Truffaut, 1959)
  • 8 ½ – Oito e Meio (Federico Fellini, 1963)
  • Amarcord (Federico Fellini, 1972)
  • Ladrões de Bicicleta – The Bicycle Thieves (Vittorio de Sica, 1948)
  • Cidadão Kane – Citizen Kane (Orson Welles, 1941)
  • Discreto Charme da Burguesia (Luis Buñuel, 1972)
  • A Grande Ilusão – Grand Illusion (Jean Renoir, 1937)
  • Glória Feita de Sangue – Paths of Glory (Stanley Kubrick, 1957)
  • Rashomon (Akira Kurosawa, 1950)
  • O Sétimo Selo – The Seventh Seal (Ingmar Bergman, 1957)

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Os Relâmpagos da Fatalidade: Reflexões Sobre o Trágico a Partir de Nietzsche & Shakespeare

“Ofélia” – John Everett Millais (1828-1896)

Caros leitores desta goma vítrea,

Segue abaixo um artigo que escrevi na tentativa de ilustrar as reflexões nietzschianas sobre a Tragédia com o auxílio das desgraceiras geniais presentes na obra shakespeareana. Eis um estudo dedicado a todos os inocentes que não escaparam que lhes caísse na cabeça um raio; a todos os que morreram em terremotos e tsunamis; a todas as vítimas de tiranias, e que nada fizeram para merecer uma existência desgraçada… É uma reflexão sobre todo o sofrimento, neste mundo, que não se explica por uma culpa prévia nem é justificável por qualquer raciocínio razoável. Chestóv me convenceu de que o trágico só está nos livros pois faz parte da vida e é parte integrante da história. Este trabalho foi apresentado na XIX Semana de Filosofia da UFG (Universidade Federal de Goiás), em maio de 2012, na mesa sobre Estética/Filosofia da Arte, e deve muito ao inspirador curso sobre o trágico do Prof. Adriano Correia. Para ler com mais facilidade, sugiro dar um pulo lá no Scribd.