Cantigas Xamânicas de Amaravilhamento Cósmico: Sobre o filme “Biophilia” de Björk

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Se me perguntarem quais foram as experiências estéticas mais impressionantes que já vivenciei, entre as mais fortes eu colocaria a atuação de Björk em Dançando no Escuro, de Lars Von Trier.

Ali no filme descobri, espantado, o enorme talento que a islandesa – que quando novinha era um cubo-de-açúcar cantante, e bem da-pá-virada, à frente do Sugarcubes – possui também como atriz e performer, perpassando tudo com a estranheza encantatória daquela indefinível incógnita: a Björkidade.


Deus does not exist…”

 Björk e sua dancer in the dark puderam comunicar algo de tal magnitude e complexidade que só dá pra descrever apelando para os adjetivos “épico” e “trágico”. Lars Von Trier, tentando ser Brecht, flertando com Ibsen, fazendo suas mímesis de Bergman, acabou gerando algo próximo de Shakespeare…

Depois de “conhecer” a personagem que ela encarnou na sala de cinema, Selma, é impossível não carregar Björk – esta pulsante presença feminina na arte global – na memória como marca indelével. Selma, que vai perdendo a visão e cantando em sua cegueira, pode até ter olhos que vão gradualmente fracassando na percepção do mundo externo, mas em contraste isso parece intensificar o colorido carrossel interior da personagem. E ela segue transformando toda desgraça em opereta.

Canta até mesmo no calabouço. Canta até o fim. Canta até que o cadafalso cale todas as canções. E é talvez o silêncio mais cruel que o enfant terrible Von Trier já nos expôs a sentir: Selma dependurada pelo pescoço, condenada à morte em um mundo de homens que não cantam nem encantam ninguém, e que decidiram pelo assassinato institucionalizado de uma mulher estigmatizada como assassina.

As circunstâncias de seu crime, porém, são bem mais que meramente atenuantes – Selma defendeu-se de um assalto às suas economias, arduamente acumuladas em seu “porquinho” de economias, já que era devotada à causa de salvar seu rebento do destino dela – a cegueira.

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Se evoco aqui a obra-prima do provocador dinamarquês é para relembrar que Björk já tem um tremendo precedente em sua carreira “extra-musical” – e quão raro é que alguém do ramo da música vença um prestigioso prêmio como Melhor Atriz no Festival de Cannes!

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MUSIC FROM LARS VON TRIER’S CONTROVERSIAL DANCER IN THE DARK. Selmasongs features the creative and emotional songs that helped to drive the film. Bjork plays the role of Selma, a Czech factory worker who is going blind but finds hope and refuge in the musicals she watches. Her character comes to life through the music Bjork composed, performed, and produced with conductor/arranger Vincent Mendoza and her longtime collaborators Mark “Spike” Stent and Mark Bell. She duets with Thom Yorke on “I’ve Seen It All,” while “In The Musicals” shows how easy it is for her character to slip into fantasy.





Björk demonstra mais uma vez suas múltiplas habilidades como performer e atriz no filme-concerto Biophilia, um espetáculo grandioso, ambicioso até o limite da megalomania, que demorou 4 anos para ser concretizado, e que merece muito ser visto no telão de um cinema e em volume no talo (tive a chance de vê-lo durante o festival This Film Should Be Player Loud do cinema Hot Docs/Bloor Street de Toronto).

Biophilia – do grego philia (amor) + bíos (vida) – é celebração da força vital, do élan animadora da matéria, através de um espetáculo multi-mídia que congrega teatralidade, coreografia e ritual pagão de adoração a Pan.

Biophilia carrega o “filme musical” a um patamar inaudito onde ele embarca numa onda nova: o show como ritual sagrado, dispositivo místico, destinado a causar a imersão do espectador no seio adorável de Pachamama, deusa-mãe que tudo inclui e dentro da qual estamos contidos. Björk em Biophilia é, em transes dos mais belos, a sacerdotisa de Gaia – aquela dos mais de mil nomes…

Suspeito que é uma obra que deve entrar para a história como um dos mais interessantes “filmes-show” já feitos, juntando-se ao Olimpo que já tem The Last Waltz (Martin Scorcese filmando a The Band) e Stop Making Sense (Jonathan Demme em sintonia com os Talking Heads), dentre outras pérolas do “show-cinema”. São filmes como Biophilia que podem agir como dínamos culturais que ampliam nossos horizontes do que pode e deve ser um show… 

Assemelha-se nisso, por exemplo, aos acessos místicos que nos são propiciados pelas imagens das espetaculares estripulias de Vossa Guitarreidade Suprema, o voodoo child Jimi Hendrix, no Live at Monterey focado pelo filme documental de D. A. Pennebaker.

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HENDRIX AT MONTEREY – Tracklisting: 1. Killing Floor; 2. Foxey Lady; 3. Like A Rolling Stone; 4. Rock Me Baby; 5. Hey Joe; 6. The Wind Cries Mary; 7. Purple Haze; 8. Wild Thing; 9. Stone Free; 10. Like A Rolling Stone.

Expandindo horizontes com a radicalidade de um Hendrix ou um Zappa, a Björk revela-se uma artista de imensa ambição e múltiplos talentos ao construir em Biophilia um retrato sônico, visual e teatral de certas imensidões que não se imagina caberem no espaço restrito de uma canção ou de um palco: galáxias de revirantes corpos celestes, unidos pela força invisível de abraços gravitacionais, são evocados com recorrência durante o concerto, fazendo deste um hino ao cosmos.

“Heaven’s bodies / Whirl around me / Make me wonder…”, canta Björk em “Cosmogony”, como se estivesse em delírio de fascinação diante do dínamo iluminado da noite.

A luz de horizontes distantes que penetra nossas as retinas, emanada de astros que estão há bilhões de anos-luz de distância de nós, tem como equivalente interno, na expressão de Björk, numa verdadeira “nebula interior” – fenômeno psiquíco-cosmológico que ela explora em uma das mais lindas composições do álbum, “Crystalline”:

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O nome do projeto também dá o que pensar: como é evidente, Biophilia tem como proposta colocar a música em um contexto biológico e litúrgico, constituindo uma espécie de culto musical à Vida.

Tanto é assim que o grande naturalista e broadcaster britânico David Attenborough é uma figura importante neste processo. Conhecido pelas mais de 5 décadas de trabalho educativo televisionado, em especial através da rebe pública inglesa BBC, Attenborough viaja o mundo documentando a diversidade da vida para séries consagradas como Life e Planet Earth.

Seu vozeirão à la John Hurt faz o prelúdio à Biophilia, convocando o público a explorar o amor à natureza em todas as suas manifestações. O encontro entre os dois rendeu ainda o instigante documentário “When Attenborough Met Björk” (2013, Direção de Louise Hooper).

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Quando Björk desponta em cena, é em exuberante e exótica fantasia, que deixa aberta a via para múltiplas interpretações: a mim pareceu que ela estava vestida com uma espécie de fantástico animal marítimo, com os cabelões em fogo como uma espécie de Agni animalizada e encarnada com feições asiásticas…

É como se Björk quisesse se desumanizar, mas em um bom sentido: ela tenta identificar-se com animais, plantas, rios, florestas, nuvens, estrelas, em uma espécie de devir-outro em que procura transcender os estreitos antropomorfismos e atingir uma arte que, apesar de humana, procura ser retrato de toda a beleza, força e mistério do inumano. Nada do que não é humano lhe é estranho.

Todos os conceitos que estão por detrás do projeto Biophilia são difíceis de compreender para um espectador que vai “virgem” ao álbum, ao espetáculo ou ao filme, o que é mais uma razão para louvar um documentário como When Attenborough Met Björk, que vai muito além de registrar uma conversação entre o erudito biólogo e a talentosa cantora no interior do Museu de História Natural de Londres.

 O documentário serve como ótimo “aperitivo” para Biophilia e merece ser exibido na sessão de cinema imediatamente anterior, fornecendo o “contexto” que possibilita perceber mais nuances da obra principal.

Attenborough desfila seu vasto conhecimento sobre os animais e os sons que eles produzem para compartilhar uma tese que a alguns pode até soar estranha: a música transcende a humanidade e pode-se inclusive falar, sem cair no ridículo, na “música dos pássaros”, na “música das baleias”, na “música dos macacos”…

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Oliver Sacks, o neurologista, com todo o conhecimento adquirido em mais de 80 anos de vida devotada a pesquisas sobre o cérebro humano, revela no documentário suas opiniões sobre o quão importante a música pode ser como “terapia”, relatando um experimento com pacientes idosos, em estado de demência, que só “despertam” de suas letargias ou de seus delírios quando “penetrados” por uma música evocativa, que traz memórias à tona e comunica para além da verbalidade. É o tema do lindo documentário Alive Inside. 

Björk, ela também, procura em sua música ir muito além da verbalidade. É evidente que suas canções tem palavras e que é plenamente possível imprimir suas letras em um encarte ou fazê-las aparecer em legendas. Mas seu trabalho sobre o som é muito mais amplo do que uma mera artesania vocabular.

A arte de Björk cria uma espécie de “atmosfera” em que o ouvinte-espectador pode mergulhar, realizar uma imersão e deixar-se afetar em todos os seus sentidos, para além da razão. Em Biophilia, o filme, as paisagens sonoras, aparecem mais como forças da natureza do que como algo a ser restrito ao âmbito da criatividade humana.

Eis uma arte que não apela somente ao intelecto, mas sim à sensibilidade por inteiro, e quem quiser “entender” Björk unicamente com a cabeça vai fracassar, assim como aquele que é “todo coração” e zero cérebro. Em sua relação com a música dela, só sendo “sentipensantes”, como propugna o escritor uruguaio Eduardo Galeano, é que poderemos apreciar a contento. Seria um crime não sentir as vibes de Biophilia, mas não pensar sobre elas também é via errônea. Quem desligar razão pra ser “só emoção” deixará de apreciar todo o arcabouço conceitual que está por detrás da obra.

A melhor atitude diante de uma obra ousada e excêntrica como essa, creio eu, é ir de cabeça aberta e coração alerta, pronto para o encontro com a estranheza maravilhante e o exotismo exuberante.

E quem quisar dropar um ácido ou intensificar sinapses com uma ganja, pode ir a Biophilia sem medo de bad trip. O único risco, que não é grave, está em ser acometido por experiências intensas de misticismo exacerbado, paganismo panteístico e biophilia desabrida.

Em suma, Biophilia manifesta Björk ensinando-nos a melhor amar a vida ao encenar e cantar seu próprio amaravilhamento cósmico. Acaba fazendo tudo com aquela Exuberância que o poeta William Blake dizia ser sinônimo de Beleza e da Sapiência (“the road of excess leads to wisdom”). Björk é encarnada biophilia: mestra do amor musicado à vida. Listen and learn.

R.I.P. – OLIVER SACKS (Londres, 9 de julho de 1933 – Nova Iorque, 30 de agosto de 2015)

In this 2007 photo provided by the BBC, Neurologist Oliver Sacks poses at a piano while holding a model of a brain at the Chemistry Auditorium, University College London in London. Noted neurologist Oliver Sacks has found common ground with the pastor of Harlem's Abyssinian Baptist Church: Both men believe in the healing power of music. Sacks, the best-selling author of

O Neurologista Oliver Sacks, em 2007, no  Chemistry Auditorium, University College, em London/UK (AP Photo/BBC, Adam Scourfield)

R.I.P. – OLIVER SACKS (Londres, 9 de julho de 1933 – Nova Iorque, 30 de agosto de 2015)

A seguir:

Texto de Oliver Sacks quando descobriu que tinha câncer terminal

Este texto foi publicado originalmente no New York Times em 19 de fevereiro de 2015. A tradução é da Karin Hueck. Via Glück Project:
http://www.gluckproject.com.br/oliver-sacks-minha-propria-vida/

Há um mês, eu sentia que estava em boas condições de saúde, robusto até. Aos 81 anos, ainda nado uma milha por dia. Mas a minha sorte acabou – há algumas semanas, descobri que tenho diversas metástases no fígado. Nove anos atrás, encontraram um tumor raro no meu olho, um melanoma ocular. Apesar de a radiação e os lasers que removeram o tumor terem me deixado cego deste olho, apenas em casos raríssimos esse tipo de câncer entra em metástase. Faço parte dos 2% azarados.

Sinto-me grato por ter recebido nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico original, mas agora estou cara a cara com a morte. O câncer ocupa um terço do meu fígado e, apesar de ser possível desacelerar seu avanço, esse tipo específico não pode ser destruído.

Depende de mim agora escolher como levar os meses que me restam. Tenho de viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que conseguir. Nisso, sou encorajado pelas palavras de um dos meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao saber que estava terminalmente doente aos 65 anos, escreveu uma curta autobiografia em um único dia de abril de 1776. Ele chamou-a de “Minha Própria Vida”.

“Estou agora com uma rápida deterioração. Sofro muito pouca dor com a minha doença; e, o que é mais estranho, nunca sofri um abatimento de ânimo. Possuo o mesmo ardor para o estudo, e a mesma alegre companhia de sempre.”

Tive sorte de passar dos oitenta anos. E os 15 anos que me foram dados além da idade de Hume foram igualmente ricos em trabalho e amor. Nesse tempo, publiquei cinco livros e completei uma autobiografia (um pouco mais longa do que as poucas páginas de Hume) que será publicada nesta primavera; tenho diversos outros livros quase terminados.

Hume continua: “Eu sou… um homem de disposição moderada, de temperamento controlado, de um humor alegre, social e aberto, afeito a relacionamentos, mas muito pouco propenso a inimizades, e de grande moderação em todas as minhas paixões.”

Aqui eu me distancio de Hume. Apesar de desfrutar de relações amorosas e amizades e não ter verdadeiros inimigos, eu não posso dizer (e ninguém que me conhece diria) que sou um homem de disposições moderadas. Pelo contrário, sou um homem de disposições veementes, com entusiasmos violentos e extrema imoderação em minhas paixões.

E ainda assim, uma linha do ensaio de Hume me toca como especialmente verdadeira: “É difícil”, ele escreveu, “estar mais separado da vida do que eu estou no presente.”

Nos últimos dias, consegui ver a minha vida como a partir de uma grande altura, como um tipo de paisagem, e com uma sensação cada vez mais profunda de conexão entre todas suas partes. Isso não quer dizer que terminei de viver.

Pelo contrário, eu me sinto intensamente vivo, e quero e espero, nesse tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar se eu tiver a força, e alcançar novos níveis de entendimento e discernimento.

Isso vai envolver audácia, claridade e, dizendo sinceramente: tentar passar as coisas a limpo com o mundo. Mas vai haver tempo, também, para um pouco de diversão (e até um pouco de tolice).

Sinto um repentino foco e perspectiva nova. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não devo mais assistir ao telejornal toda noite. Não posso mais prestar atenção à política ou discussões sobre o aquecimento global.

Isso não é indiferença, mas desprendimento – eu ainda me importo profundamente com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com a crescente desigualdade social, mas isso não é mais assunto meu; pertence ao futuro. Alegro-me quando encontro jovens talentosos – até mesmo aquele que me fez a biópsia e chegou ao diagnóstico de minha metástase. Sinto que o futuro está em boas mãos.

Nos últimos dez anos mais ou menos, tenho ficado cada vez mais consciente das mortes dos meus contemporâneos. Minha geração está de saída, e sinto cada morte como uma ruptura, como se dilacerasse um pedaço de mim mesmo. Não vai haver ninguém igual a nós quando partirmos, assim como não há ninguém igual a nenhuma outra pessoa. Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, porque é o destino – o destino genético e neural – de cada ser humano ser um indivíduo único, achar seu próprio caminho, viver sua própria vida, morrer sua própria morte.

Não posso fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado; recebi muito e dei algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Tive uma relação com o mundo, a relação especial do escritor e leitor.

Acima de tudo, fui um ser sensível, um animal pensante nesse planeta maravilhoso e isso, por si só, tem sido um enorme privilégio e aventura.

* * * * *

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P.S. – Um dos livros de Sacks que A Casa de Vidro recomenda é “MUSICOPHILIA – TALES OF MUSIC AND THE BRAIN” [eis o ebook, em formato epub, disponível pra baixar via Google Drive: http://bit.ly/1LMxlIM]. Começa assim:

“What an odd thing it is to see an entire species— billions of people— playing with, listening to, meaningless tonal patterns, occupied and preoccupied for much of their time by what they call “music.” This, at least, was one of the things about human beings that puzzled the highly cerebral alien beings, the Overlords, in Arthur C. Clarke’s novel Childhood’s End. Curiosity brings them down to the Earth’s surface to attend a concert, they listen politely, and at the end, congratulate the composer on his “great ingenuity”— while still finding the entire business unintelligible. They cannot think what goes on in human beings when they make or listen to music, because nothing goes on with them. They themselves, as a species, lack music.

We may imagine the Overlords ruminating further, back in their spaceships. This thing called “music,” they would have to concede, is in some way efficacious to humans, central to human life. Yet it has no concepts, makes no propositions; it lacks images, symbols, the stuff of language. It has no power of representation. It has no necessary relation to the world.

There are rare humans who, like the Overlords, may lack the neural apparatus for appreciating tones or melodies. But for virtually all of us, music has great power, whether or not we seek it out or think of ourselves as particularly “musical.” This propensity to music shows itself in infancy, is manifest and central in every culture, and probably goes back to the very beginnings of our species. Such “musicophilia” is a given in human nature. It may be developed or shaped by the cultures we live in, by the circumstances of life, or by the particular gifts or weaknesses we have as individuals— but it lies so deep in human nature that one must think of it as innate, much as E. O. Wilson regards “biophilia,” our feeling for living things. (Perhaps musicophilia is a form of biophilia, since music itself feels almost like a living thing.)”

Oliver Sacks

Musico