O Mito de Prometeu: poema de Goethe, pintura de Rubens, música de Schubert e Hugo Wolf


Prometheus (1774)
 Wolfgang von Goethe (1749-1832)

Encobre o teu céu, ó Zeus,
Com vapores de nuvens,
E, qual menino que decepa
A flor dos cardos,
Exercita-te em robles e cristas de montes;
Mas a minha Terra
Hás-de-ma deixar,
E a minha cabana, que não construíste,
E o meu lar,
Cujo braseiro
Me invejas.

Nada mais pobre conheço
Sob o sol do que vós, ó Deuses!
Mesquinhamente nutris
De tributos de sacrifícios
E hálitos de preces
A vossa majestade;
E morreríeis de fome, se não fossem
Crianças e mendigos
Loucos cheios de esperança.

Quando era menino e não sabia
Pra onde havia de virar-me,
Voltava os olhos desgarrados
Para o sol, como se lá houvesse
Ouvido pra o meu queixume,
Coração como o meu
Que se compadecesse da minha angústia.

Quem me ajudou
Contra a insolência dos Titãs?
Quem me livrou da morte,
Da escravidão?
Pois não foste tu que tudo acabaste,
Meu coração em fogo sagrado?
E jovem e bom — enganado —
Ardias ao Deus que lá no céu dormia
Tuas graças de salvação?!

Eu venerar-te? E por quê?
Suavizaste tu jamais as dores
Do oprimido?
Enxugaste jamais as lágrimas
Do angustiado?
Pois não me forjaram Homem
O Tempo todo-poderoso
E o Destino eterno,
Meus senhores e teus?

Pensavas tu talvez
Que eu havia de odiar a Vida
E fugir para os desertos,
Lá porque nem todos
Os sonhos em flor frutificaram?

Pois aqui estou! Formo Homens
À minha imagem,
Uma estirpe que a mim se assemelhe:
Para sofrer, para chorar,
Para gozar e se alegrar,
E pra não te respeitar,
Como eu!

* * * * *

Hide your heavens, Zeus,
in cloudy vapours
and practise your stroke, like a boy
beheading thistles,
on oaktrees and mountain summits;
still you must leave me
my steady earth,
and my hut, not built by you,
and my hearth,
whose warm glow
you envy me.

I know nothing more pitiful
under the sun than you Gods!
You feed your splendour
pathetically
on expensive sacrifices
and the breath of prayers
and would starve, were not
children and beggars
fools full of hope.

When I was a child,
not knowing out from in,
I turned my bewildered gaze
to the sun, as if there might be above it
an ear to hear my sorrow,
a heart like mine
to have mercy on the afflicted.

Who helped me
against the overweening Titans?
Who rescued me from death,
from slavery?
Was it not you, my holy glowing heart,
who did it all?
and young and good, deceived,
glowed thanks for rescue
to the slumberer in the heavens?

I, worship you? What for?
Did you ever relieve
the ache of the heavy-laden?
Did you ever wipe away
the tears of the terror-stricken?
Was I not hammered into the shape of Man
by almighty Time
and eternal Destiny,
my masters, and yours?

No doubt you supposed
I should hate life,
flee to the desert,
because not every
blossom of dream became fruit?

Here I sit, make men
on my own pattern,
a breed to resemble me,
to suffer pain, to weep,
to feel pleasure and joy,
and, like me,
to pay you no attention!

 

* * * * *

Wolfgang von Goethe (1749-1832)
English translation by D.M. Black
Modern Poetry in Translation
New Series, No. 16 (2000)
ORIGINAL EM ALEMÃO

 

Prometheus depicted in a sculpture by Nicolas-Sébastien Adam, 1762 (Louvre)

Prometheus depicted in a sculpture by Nicolas-Sébastien Adam, 1762 (Louvre)

Music by Hugo Wolf (1889):

Music by Franz Schubert (1819):

* * * * *

Poetas já publicados no projeto paralelo (em inglês) Awestruck Wanderer:

:: Goethe & Rubens em… Prometeu! ::

Prometeu Acorrentado - Peter Paul Rubens, 1610

“Quando eu era criança
Sem saber meu caminho
Voltei meus olhos errantes
Para o sol, como se lá em cima houvesse
Um ouvido para escutar meu lamento,
Um coração como o meu
Para cuidar dos atormentados.

Quem me ajudou
Contra a cruel insolência dos Titãs?
Quem me resgatou da morte, da escravidão?
Não fizeste tudo isto sozinho,
Sagrado coração em brasa?
E jovem e bom, brilhavas
Enganado, agradecido pelo resgate
Daquele que dormia lá em cima?

Eu, honrar-te? Por quê?
Algum dia aliviaste o sofrimento
dos oprimidos?
Algum dia secaste as lágrimas dos amedrontados?
Não fui levado à idade adulta
Pelo todo-poderoso Tempo
E pelo destino eterno,
Meus mestres, e os teus?

Imaginavas por acaso
Que eu fosse odiar a vida
E fugir para o deserto
Porque nem todos
Os meus sonhos em botão floresceram?

Aqui continuo sentado, forjando homens
À minha própria imagem
Uma raça para ser como eu
Para sofrer, chorar,
Deleitar-se e alegrar-se
E para desafiar-te,
Como eu.”

GOETHE (1749 — 1832)

(como citado por Susan Neiman em “Evil In Modern Tought”)