O fundamentalismo religioso ameaça o Brasil ao negar a ciência e o coronavírus || Por Renato Costa

Por Renato Costa para A Casa de Vidro
Com informações da BBC News Brasil e UOL

Durante a disseminação do Coronavírus no Brasil, os templos religiosos passam a ser locais de aglomeração a ser evitados. Entretanto, a postura dos principais líderes religiosos neopentecostais é de afronta às recomendações da comunidade científica e do próprio poder público. Essa atitude, afrontosa e fundamentalista, pode acarretar consequências gravíssimas na disseminação da doença entre fiéis, agravando a curva de contaminação em toda a sociedade, principalmente ao considerar-se que o público de fiéis é formado, em boa parte, por idosos, portanto, dentro do grupo de risco do COVID-19!

Desde do fim de semana passada, várias denominações religiosas cancelaram cultos e celebrações por tempo indeterminado. Outras reduziram atividades e aconselharam que os maiores de 60 anos não compareçam. Porém, segundo o tom adotado pelos líderes das grandes igrejas, para o fim de semana dos dias 21 e 22 de março, é possível que cultos e congregações sejam realizados à revelia do bom senso e da emergência sanitária que se impõe ao conjunto da sociedade brasileira.

Nos últimos dias os mercadores da fé como Silas Malafaia, Edir Macêdo e R. R. Soares se posicionaram a favor da manutenção dos cultos multitudinários, com a intenção inconfessável de manter os rendimentos de suas respectivas Igrejas. Silas Malafaia, o líder da Vitória em Cristo, ligada à Assembléia de Deus, afirmou que não fechará seus templos:

“Não vou fechar igreja coisíssima nenhuma. Se amanhã os governos disserem que vão impedir transporte público, fechar mercados, fechar todas as lojas… Como pastor, acredito que a igreja tem que ser o último reduto de esperança para o povo. Se fechar tudo, numa medida drástica, a igreja precisa estar de porta aberta.”

Acrescentou, em vídeo: os que pretendem fechar igrejas nas quais ele é pastor, devem recorrer à justiça e reivindicou o artigo 5, inciso 6 da Constituição para defender suas igrejas como “agência de saúde emocional”, portanto útil no combate à pandemia. Resta saber se vai acatar a aprovação do Estado de Calamidade Pública aprovada pela Câmara dos Deputados na quarta-feira, 18/03, e que segue para votação do Senado na noite de quinta-feira, 19.

Poucos dias antes, o pastor R.R. Soares, famoso por sua presença ostensiva na TV e missionário da Graça de Deus, disse que a população “não precisa ter medo de jeito algum. ” E ainda: “Já houve outras ameaças no meio da humanidade. A profecia do Apocalipse, diz que vai chegar um tempo em que uma terça parte das pessoas vai morrer”. E conclui com o que pode ser entendido como uma ameaça velada: “Ainda não estamos nessa época, não estamos na época de ganhar as almas para Jesus ”.

O mais célebre entre os fundamentalistas, o autoproclamado bispo Edir Macedo foi às redes sociais publicar um vídeo em que pede a seus fiéis que nem mesmo leiam notícias sobre o coronavírus:

“Quem anda pela fé anda pela frente. Quando você vê no noticiário ‘morreu fulano, beltrano teve coronavírus’, não olhe para isso, não leia essas notícias. Ao invés de você ler essas notícias que falam de morte e de quarentena, da epidemia e pandemia, olhe para a palavra de Deus e tome sua fé na palavra de Deus, porque essa, sim, faz você ficar imune a qualquer praga e a qualquer vírus, inclusive o coronavírus”.

Ainda que a congregação afirme que vai tomar precauções como limitar o número de pessoas nos templos “caso as autoridades estipulem uma lotação máxima”; ‘orientar’ que elas se sentem distantes umas das outras e que ‘evitem’ orações com “imposição de mãos”, os riscos permanecerão altos, já que a instituição promete aumentar o número de cultos para “atender a todos os que procuram a igreja”.

Alternativas para manter as expressões de fé, lazer e cultura virtuais são possíveis e variadas com as ferramentas da web e outras. Todos os que estão em isolamento ou em restrição de mobilidade, com vistas à redução dos impactos do COVID-19, estão buscando formas de se manter em ‘contato virtual’ com amigos, familiares, conteúdos e com suas lideranças políticas e religiosas. Alguns estão propondo reuniões em locais abertos, com número reduzido de participantes e sem a presença de idosos.

Porém, o segmento fundamentalista, especialmente entre os neopentecostais do cristianismo, alimenta a divergência e propõe a continuidade das atividades para fazer eco à negação da ciência. Os riscos do fundamentalismo atingiriam não só os fiéis, considerando que suas premissas ideológicas estão mais disseminadas que o coronavírus no Brasil de Bolsonaro. Busca-se manter os cultos massivos já que favorecem os negócios de arrecadação do dízimo, corpo-a-corpo, forma de renda majoritária dessas denominações mais populistas e manipulatórias.

A ciência afirma que a doença é transmitida pelo contato físico com superfícies infectadas ou pelo ar compartilhado entre pessoas, os fundamentalistas afirmam que a comunhão deve sim se realizar nos templos, onde as pessoas devem se encontrar para aliviar suas preocupações espirituais. A partir disso, a religião passa a ser um vetor de risco. Um foco de contaminação potencial que poderá se ver livre de restrições de quarentena por ter peso político no país e receber salvo-conduto diante das medidas sanitárias implementadas pelo estado, alinhado ao “poder divino” e a seu eleitorado.

Em um contexto de elevação da curva de transmissão, no Brasil – onde, até a última quinta-feira, 19 de março, havia milhares de casos suspeitos e registrava-se 530 casos e 6 mortes confirmadas – a determinação é de isolamento, ou de mobilidade mínima necessária. As preocupações aumentam e as projeções diárias são de risco exponencial. Cultos religiosos, eventos esportivos, culturais ou políticos podem se tornar grandes fatores de agravamento massivo da crise sanitária. Nesse quadro, é preciso questionar a determinação unilateral dessas denominações religiosas que negam as recomendações da ciência e a gravidade do coronavírus, colocando em risco fiéis e não-fiéis.

Liberdade de culto ou contenção da pandemia

A Frente Parlamentar Evangélica do Congresso, mais conhecida como bancada da bíblia e representada por seu presidente, o deputado Silas Câmara (Republicanos-AM), divulgou nota para reivindicar a exceção dos templos religiosos ao Estado de Calamidade Pública, ao mesmo tempo em que declara apoiá-lo. Incompreensível, do ponto de vista do “exemplo cristão”: nela os parlamentares afirmam que são necessárias orações para enfrentar o que chamam de “pandemia maligna”.

“Sabemos que a Igreja é lugar de refúgio para muitos que se acham amedrontados e desesperados. Por isso, neste momento de tanta aflição, é fundamental que os templos, guardadas as devidas medidas de prevenção, estejam de portas abertas para receber os abatidos e acolher os desesperados”. E ainda: “Cremos que a fé é uma grande aliada neste grave momento da nação, por isso não podemos limitá-la. ”

Ainda que a bancada evangélica afirme “apoio irrestrito à decretação do Estado de Calamidade Pública”, seu pedido de exceção da quarentena demonstra o contrário, e revela qual o nível de compromisso desses parlamentares com seu eleitorado e a ordem pública do país. O decreto que permite o rompimento do teto de gastos poderá garantir medidas paliativas, mas sem o esforço coletivo, nenhum gasto público poderá conter a doença que irá sobrecarregar um sistema público de saúde que já opera acima de sua capacidade.

Ao reiterarem “disposição plena de apoiar todas as medidas necessárias que visem garantir a proteção da saúde da população, bem como sua estabilidade social e econômica”, os parlamentares próximos aos “maiorais da fé”, remetem à hipocrisia oportunista de um populismo cristão, que tem nas palavras vazias sua expressão chauvinista e manipulatória. Cabe aos fiéis o discernimento, e ao poder público a garantia da ordem democrática, calcada da isonomia de tratamento legal dos cidadão durante as medidas sanitárias.

Poder-se-ia advogar pela liberdade de culto, não fosse a atestada gravidade do caso do coronavírus e amparada pelo exemplo da Coréia do Sul e da Itália. O país asiático registrou grande parte de seus casos transmitidos entre fiéis. A Igreja de Jesus de Shinchonji escondeu a identidade dos fiéis infectados, que viajaram pelo país negligenciando as recomendações governamentais. Lee Man-hee, seu fundador e suposta encarnação de Jesus Cristo, se viu obrigado a pedir desculpas ao país por negligenciar os fatos e acobertar casos de coronavírus. A partir daí, seguindo as determinações, vários líderes e grupos religiosos consequentes cancelaram suas atividades públicas, reconheceram as orientações das autoridades e se manifestaram a favor dos esforços coletivos no combate ao vírus.

Se há boa vontade em acatar determinações científicas, algumas religiões consideram as possibilidades de se exercer uma atividade mínima, e pedem que qualquer sintoma leve o fiel a se ausentar dos cultos. Porém, diante das contaminações assintomáticas e da disseminação crescente, é provável que as medidas restritivas se generalizem e passem a ser obrigatórias, haja visto o decreto de Estado de Calamidade. Além do caso pontual da Coréia, que ilustra a negligencia por parte de religiosos, a superlotação dos hospitais na Itália – onde deve-se escolher entre quem tem mais chances de sobreviver – também demonstra os custos de se postergar o isolamento da população.

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