“Nietzsche em Turim – O Fim do Futuro”, de Lesley Chamberlain

book-cover-nietzsche-turinLESLEY CHAMBERLAIN
“Nietzsche in Turin: An Intimate Biography”
Editora Picador USA, 1999

(Publicado no Brasil pela Ed. Difel em 2000.
Disponível para compra na Estante Virtual.)

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O NAUFRÁGIO DE NIETZSCHE EM TURIM

“The year-in year-out lack of a really refreshing and healing human love, the absurd loneliness that it brings with it, to the degree that almost every remaining connection with people becomes only a cause of injury; all that is the worst possible business and has only one justification in itself, the justification of being necessary.” – Carta de Nietzsche a Overbeck, 3.2.88

Ano após ano, a ausência de um “refrescante e terapêutico amor humano” abisma o filósofo Nietzsche em um estado de “solidão absurda”, como ele confessa ao amigo Overbeck em carta de 1888.

Apesar de já ter publicado quase toda a sua obra obra consagrada (Além de Bem e Mal, Genealogia da Moral, Humano Demasiado Humano, Zaratustra, A Origem da Tragédia, Aurora, A Gaia Ciência…), Nietzsche chega ao fim dos anos 1880 e descobre-se mais isolado do que nunca. Na Alemanha, seus livros são ignorados por quase todos, ou incompreendidos pelos poucos que os lêem: o verdadeiro “sucesso” editorial, na época, são os panfletos anti-semitas que se propagam pelo Reich de Bismarck e que Nietzsche abomina com toda a força de seu nojo.

Enquanto vão surgindo os primeiros sinais de que sua obra repercute pela Europa – o professor judeu George Brandes começa seu curso sobre Nietzsche na Universidade de Copenhagen, por exemplo – ao redor do homem Nietzsche se adensam as nuvens pesadas de uma solidão cada vez mais densa.

“Alguns homens nascem póstumos”, escreverá Nietzsche, tentando consolar-se com a idéia de que só espíritos livres do futuro o compreenderiam e que ainda estava por nascer uma época que tivesse ouvidos para suas mensagens. A solidão ao seu redor era quase absoluta: após toda uma série de rupturas com aqueles que haviam sido importantes em sua vida (Wagner e Cosima, Paul Rée e Lou-Salomé…), Nietzsche se encontrava, como diz Lesley Chamberlain, em um “deserto emocional”.

Por mais que tenha vociferado contra o ideal ascético, de que eram adeptos tantos eremitas e anacoretas, Nietzsche também se encontrava em uma espécie de eremitério em Turim: não sabia falar grande coisa de italiano, o que decerto dificultava encetar amizade com os estranhos ao seu redor, e sua melhor companhia era a música, em especial a de Bizet, cuja ópera Carmen o filósofo irá assistir por duas de vezes e depois celebrará como uma obra-prima nas antípodas do wagnerianismo.

No geral, Nietzsche vivia só, quase sempre desacompanhado, um andarilho que caminha com sua sombra, lidando sem auxílio externo com sua doença, seus dilemas, suas turbulentas reflexões. Desde que havia se demitido, por razões de saúde, de seu posto como professor de Filologia na Universidade da Basiléia (Suíça), Nietzsche havia perambulado pela Europa como cigano peripatético, um caminhante introspectivo, sem amarras com nenhum emprego, nenhuma instituição, nenhuma “causa” de militância social. Tampouco tinha qualquer relacionamento amoroso que lhe acalentasse os dias com os imprescindíveis calores da convivência.

Só encontrava um grão de diálogo humano através das cartas que escrevia e recebia. Entre seus correspondentes havia figuras eminentes da cultura européia daqueles tempos – como o historiador Jacob Burckhardt, o dramaturgo August Strindberg, o compositor Peter Gast (Koselitz)... – mas todos eles vivendo a grande distância física de Nietzsche.

Imagino às vezes o tamanho da inconfessável fome de abraço que ele deveria sentir: o filósofo que redimiu o corpo tão massacrado pela tradição idealista da filosofia ocidental era um pensador sofria nas próprias vísceras a falta de sentir seu próprio corpo agasalhado pelo afeto humano. Além do mais, este mesmo corpo, que reconhecia como fonte de seu pensamento, de sua criatividade, da vida em seu inteireza, era massacrado pela doença. Diante dos açoites do destino, recomendava o amor fati, uma trágica aceitação jubilosa de tudo aquilo que a existência tem de mais problemático e angustioso.

O que ocorreu com Nietzsche em Turim é um mistério que não cessa de instigar a curiosidade daqueles que se interessam pelo filósofo, já que foi o “palco” do colapso psíquico que o fez mergulhar de vez, sem volta, na insanidade. Era o começo de 1889 quando, nas ruas da cidade italiana, um certo sábio-louco alemão,  professor de comportamento  tão extravagante e de tão longos bigodes, abraçou um cavalo que estava sendo maltratado em via-pública e depois desfaleceu. Nunca mais pôde reaver toda a potência de seu prodigioso cérebro: em breve estaria de cama, sob cuidado de seus familiares, quase um “vegetal”, incapacitado de ler e escrever. Não reconhecia mais ninguém. Na aurora do século 20, em 1900, iria enfim tornar-se banquete para os vermes.

ecce homoNos meses que antecederam seu desmoronamento psico-somático, Nietzsche havia produzido algumas de suas obras de maior impacto: O Caso Wagner, O Crepúsculo dos Ídolos, Anticristo e Ecce Homo são todos livros desta última fase, em que sua pena mordaz não teme chocar, provocar, polemizar.

O mínimo que se pode dizer destas obras é que seu autor não se preocupa em ser polido e delicado: expressa suas opiniões radicais como se desejasse que cada frase tivesse o efeito de uma banana de dinamite. Estava convencido de que algo de melhor podia ser construído sobre os escombros da Europa que ele enxergava, desde o fim do século 19, no caminho desgraçado do nacionalismo militarista, do racismo, do anti-semitismo, do continuado fanatismo religioso conjugado a um moralismo autoritário. Até o fim de sua vida, escreveu livros que prosseguem sendo pura Dinamietzsche.

Compreender as razões que levaram Nietzsche a terminar sua vida criativa em Turim é tarefa dificílima, que já foi tentada por muitos pesquisadores e biógrafos, mas sem que nunca se tenha chegado ao desvendamento final do enigma. Penso que a solidão, o isolamento social, é uma das chaves para entender o crepúsculo nietzschiano. Pois estou convencido que até um grande artista, um gênio criador, um filósofo brilhante, não é nunca completamente “auto-suficiente” em matéria de afeto, que precisa da estima alheia para ter um chão sólido sobre o qual caminhar com passo firme, e que a saúde do corpo e da mente é inalcançável sem o intercâmbio com os outros.

“Nenhum homem é uma ilha”, diz o poeta John Donne. E aqueles que acabam ilhados na solidão, rodeados por todos os lados pelas gélidas águas da indiferença, ou pela hostilidade dos tubarões, não raro terminam também loucos. E o que há de mais enlouquecedor do que a sina de Robinson Crusoé após o naufrágio?

Em seu livro mais recente, Nietzsche – O Humano Como Memória e Promessa, Oswaldo Giacoia reflete, pegando carona nas reflexões de Hannah Arendt sobre a condição humana, que uma das explicações para o colapso psíquico de Nietzsche foi a progressiva perda de participação em um “mundo comum”. Em outras palavras: para Nietzsche, que se considerava “extemporâneo”, um peixe fora d’água em sua própria época, não havia nenhuma comunidade real que ele integrasse.

A própria megalomania que se manifesta em Ecce Homo parece um sintoma da vida no deserto que Nietzsche então levava: é como se ele tentasse elogiar a si mesmo na falta de qualquer ser humano que o elogiasse. É a falta do apoio do outro que o leva a buscar apoio em si mesmo, e de maneira que soa tão “narcisista”, a julgar pelos títulos de alguns dos capítulos deste seu escrito auto-biográfico e auto-glorificante (“por que escrevo livros tão bons”, “por que sou tão sábio” etc.).

É claro que muitos outros comentadores, biógrafos e pesquisadores destacam que causas puramente orgânicas levaram Nietzsche a naufragar em Turim no início de 1889 – alguns apostam na hipótese de que ele havia contraído sífilis na juventude em algum prostíbulo; outros, que seu estado de saúde tão debilitado devia-se aos ferimentos que sofreu no campo de batalha, durante a Guerra franco-prussiana de 1870, na qual Nietzsche serviu como enfermeiro e onde contraiu difteria e disenteria; outros ainda destacam que devia haver alguma predisposição genética para a doença cerebral correndo no sangue da família, já que o pai de Nietzsche, pastor luterano, havia morrido precocemente aos 35 anos de idade. Impossível bater o martelo e apontar a “verdade das verdades” sobre um tema tão complexo.

Dias_De_Nietzsche_Em_TurimDe todo modo, o tema “Nietzsche em Turim” é instigante e suscita muitas obras que se debruçam sobre o “caso”, tentando decifrar o enigma – inclusive o cinema brasileiro realizou um experimento de compreensão com Dias de Nietzsche em Turim, filme de Julio Bressane, roteirizado por sua esposa Rosa Dias.

Na sequência, compartilho alguns trechos da “biografia íntima” escrita por Lesley Chamberlain, Nietzsche em Turim, em que a autora realiza uma interessante jornada pela vida e pelo pensamento de Nietzsche – o qual, nas palavras de Alain de Bottom, “emerges as a kind, awkward man with an immense, unsatisfied hunger for love” (Los Angeles Times Book Review).

A autora – que também participa do documentário da BBC Humano, Demasiado Humano – não procura dar respostas definitivas ou resolver de vez o enigma da esfinge. Ao contrário, convida-nos a conhecer em minúcias as circunstâncias existenciais que precederam o naufrágio e assim nos convida a indagar das razões que conduziram o barco nietzschiano a pique.

Para Lesley Chamberlain, Nietzsche lutou com a doença como Laocoonte batalhando contra as serpentes na clássica escultura; ao abraçar o cavalo nas ruas de Turim, encenou na vida real um sonho de Raskolnikov em Crime e Castigo, e manifestou, segundo a interpretação de Milan Kundera, horror diante da crueldade humana diante dos animais; ao celebrar o deus Dioniso e seus ditirambos, quis cantar um hino de júbilo à existência em sua absurdidade, irracionalidade e inexplicável deleite, ao mesmo tempo que lamentou por uma comunidade bacântica que não chegou a vivenciar…

O filósofo, que na juventude havia ficado tão impressionado pela música de Wagner, em especial Tristão e Isolda, viveu em Turim o último ato da tragicomédia de sua existência consciente. Parece-me que não entenderemos seu naufrágio se não levarmos em conta que este homem solitário, apaixonado pela música e pela vida, não encontrou para sua voz um lugar no humano coral.

Mas sua voz de solidão prossegue ecoando, séculos depois de sua morte, assombrando-nos e iluminando-nos, instigando-nos e provocando-nos, cheia de luzes e sombras, cantos e lamentos, choros e risos, sabedoria e insanidade… Tudo mesclado e cambiante, como a própria chama da vida que dança ao sabor dos ventos do fado, lutando contra a morte enquanto mantêm queimando sua ânsia insaciável por alegria e potência… Para citar o poeta Quintana: “que importa restar em cinzas se a chama foi bela e alta?”

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Friedrich-Nietzsche

Passo a palavra à Lesley Chamberlain:

“Nietzsche’s readiness to espouse the Dionysian was there even in 1870. He believed that there could be, as there once had been, an art form capable of embracing life’s horrors and irrationalities without needing to explain them or sublimate them or lessen the furious pace of their attack. In this sense pain could be directly confronted and celebrated without loss of present vitality and without what we would surely call today ‘repression’…” (pg. 39)

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“Three things high mountains signified for Nietzsche: aesthetic beauty, moral courage and intellectual clarity. (…) The high vantage point gave him not a sense of the world below being inferior to some higher realm, but a sense of the sheer relativity of its judgements. The paradox was that the realization of limitation was liberating. The Upper Engadine’s 5.500 feet above sea level stood for the most desirable capacity in human beings to see far over the heads of individual nations and people and creeds, the ability to survive by rising above the fray, and the need to go beyond the familiar world in order to see the arbitrariness of its values…” (99)

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“Nietzsche’s famous rejection of pity demonstrates how pity diminishes the integrity of the other. If I flood another person with pity I may dull his or her ability to find strenght within, for pity is a crippling kind of sympathy which confirms misfortune and woe, expressing the idea: ‘Yes, hasn’t life treated you badly, you deserve to feel sorry for yourself.’ At issue for Nietzsche the psychologist is the way people manipulate each other, often making others feel weak in order to enhance their own power. It is the manipulativeness that Zarathustra and Nietzsche reject as being beneath love…” (103)

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“Spinoza had said the act of knowing involved an act of laughter, an act of mourning and and act of cursing. Nietzsche homed in on those subconscious processes For him the act of knowledge embraced subconsciously that mixture of moods he consciously favoured as a working method. Knowledge – and love – emerged out of a confrontation on the battlefield of the subconscious, which engages our powers to spurn and to ridicule, to welcome, cherish and mourn… (cf. The Gay Science 179)”

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“Nietzsche loathed the repression of the sensual as a supposed moral value, hence much of his invective against the Church. The achievement of ‘The Genealogy of Morals’ was to see this institutionaized repression, practised by the Church, in political terms. Nietzsche’s ascetic priest and his ‘ideals’ spoke of totalitarianism in all but name nearly 50 years before the 20th century invented it, and impressively anticipated Wilhelm Reich’s criticism of the ‘mass psychology of Fascism…” (151)

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“Nietzsche fought a tremendous battle with sickness. He was like the outcast Trojan priest Laocoon, resisting the punishing sea serpents to the last breath. Thinking of the meaning of that classical statue, depicting terror and resignation, Nietzsche considered Laocoon’s fate showed the Apollonian forces of life yielding to Dionysus. The statue could have worn his face.” (182)

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Uma das mais célebres esculturas da Antiguidade, “Laocoonte

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“A dithyramb originally described the song of Dionysus. It was an expression of intoxication and community, with Dionysus leading others in choral song. The choral element was what first inspired Nietzsche to see in Wagner’s music a rebirth of the Dionysian. (…) The dithyramb also bore, in its modern meaning of a poetic tone more than a form, a much closer personal significance for Nietzsche. It betokened wild howling, vehement expression. Nothing could have been more apt for a poet in love with the masks of self-intoxication and madness. What a way to rebel against being made chaste and virtuous by misfortune! The medium itself expressed a desire to be sensually out of control. Had Nietzsche used the form to greater artistic effect his poems might have become iconic for the modern condition, like Munch’s ‘The Scream‘, because they are a kind of howling after lost community. All of Nietzche’s writing where the pictorial and the musical dominate over the discursive could be called Dionysian and dithyrambic. They sing, they laugh, the flash colour, they luxuriate in texture…” (191)

"O Grito" de Edvard Munch (1863-1944)

“O Grito” de Edvard Munch (1863-1944)

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“On 3 January 1889 he tearfully embraced a mistreated nag in the street. The horse under duress was pulling a public conveyance. (…) In his embracing the horse several writers through the 20th century have seen a human being commiserating with an abused soul. Nietzsche rebelled against human cruelty and crudeness by hugging this horse who was his partner in metaphysical abjectness.

It is possible too that he had read the passage in Dostoievsky’s ‘Crime and Punishment‘ where Raskolnikov dreamed of throwing his arms around a mistreated horse. When Nietzsche dreamed of the mistreated horse he felt pity; he wanted to weep. Now in reality some ultimate autobiographical urge made him embrace a real hose…

kunderaThe Czech novelist Milan Kundera wondered in ‘The Unbearable Lightness of Being‘ if Nietzsche did not beg this wonderful equine specimen to forgive Descartes for believing animals do not have souls. Kundera found Nietzsche’s to be a symbolic gesture against the dominance, the arrogance of the human mind over nature, against blind worship of progress…” (p. 210)

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Na sequência, assista na íntegra aos filmes Dias de Nietzsche em Turim, de Julio Bressane e Rosa Dias, e Humano Demasiado Humano, documentário da BBC inglesa (que também inclui episódios sobre Heidegger e Sartre). Boa viagem!

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Crítica da Aposta de Pascal (Reflexões com Epicuro, Nietzsche, Camus, Becker, Jankélévitch…)

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“Imagine-se um certo número de homens acorrentados e todos condenados à morte. Todos os dias, alguns deles são degolados à vista dos outros, e os que restam vêem a sua própria condição e a de seus companheiros, e, olhando-se uns aos outros com angústia e desespero, aguardam a sua vez. Essa é a imagem da condição humana.” – BLAISE PASCAL. Pensamentos.

Com Pascal sempre concordei que era assustador e inquietante o silêncio eterno dos espaços infinitos. Mas nossos caminhos se separam quando ele diz que é preciso apostar que Deus exista, ainda que não possamos saber se isso é verdade (“a razão não pode determina-lo…”). Em Pascal, como em tantos poetas e místicos da história, parece se encontrar uma angústia íntima, persistente e incômoda, vinculada à ignorância em que vivem os mortais sobre o sentido de tudo o que se cala.

Falo daquilo que se recusa a se deixar explicar por nossos frágeis poderes racionais e que em seu mistério impenetrável é batizado por Albert Camus de “O Absurdo”. Pascal trêmulo diante do “dínamo estrelado da maquinaria da noite” (para usar os versos de Allen Ginsberg em seu Uivo), sem conseguir compreender racionalmente as noites salpicadas de estrelas, indiferentes à prece e às perguntas humanas, acaba saltando no colo do Papai-do-Céu. Robert Crumb soube expressar magistralmente essa dinâmica psicológica em algumas de suas mais impressionantes páginas.  Este salto exigido pela fé é escancaradamente motivado, como Pascal tão bem ilustra (“pesemos o ganho e a perda…”), por interesses egocêntricos de salvação pessoal.

“Deus existe ou não existe. Para que lado pendemos? A razão não pode determina-lo… Temos de apostar. Pesemos o ganho e a perda. Se você ganhar, ganha tudo; se perder, não perde nada. Aposte portanto sem hesitar.” (PASCAL, B. Pensées, fr. 233).

Se a gente apostar que Deus não existe, e no fim descobrirmos que existia, iremos arder eternamente no Inferno. É mau negócio. Se a gente apostar que Deus existe, e Ele existir de fato, seremos recompensados com as delícias eternas. Logo – é o que conclui Pascal – é conveniente e lucrativo crer. Parece-me que está latente neste procedimento, neste “salto” para a fé, uma confusão entre o mundo subjetivo e o objetivo, uma vontade de que o universo seja idêntico àquilo que deseja-se que seja. É nisso que Pascal aposta: numa coincidência entre o mundo de seu desejo e o mundo ele-mesmo. Ele nos pede para considerarmos Deus como o faria um jogador de roleta que só pensa no próprio ganho, inebriado com a dourada ambição das moedinhas de ouro. O que Pascal nos pede não é que investiguemos a questão: “Deus existe ou não?” Ele nos convida a pensar se é vantajoso que Ele exista, ou, em outros termos, se é conveniente aos seres humanos que haja uma tal divindade que lhes favoreça em tudo.

Em outras palavras: o que está em questão não é se Deus é um ser existente de fato – criador sobrenatural de tudo, por ato de sua onipotência… – ou se Deus é um conceito falso – mera ficção engendrada pelas mentes humanas e “sem nenhum ponto de contato com a realidade”, como dirá Nietzsche n’O Anticristo. O que Pascal pergunta é: “o que ganhamos e o que perdemos quando fazemos a aposta na fé?”  A verdade é aí chutada para escanteio e o pragmatismo interesseiro toma conta.

“Pascal, fazendo a defesa da sua indemonstrável fé, dirige-se aos crentes na linguagem utilitária e probabilista da aposta: incapaz de convencê-los por meio de argumentos probatórios, tenta pelo menos persuadi-los pelo calculo das probabilidades…” (JANKÉLÉVITCH: Le Pardon, em Philosophie Morale, pg. 1096). Nietzsche um dia dirá de Pascal que seu pensamento mais se assemelha a um “contínuo suicídio da razão”. É que a afetividade pascaliana é o que comanda, e não a reflexão “neutra e objetiva” (supondo que ela exista!).

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É por isso que Jankélévitch aponta que há uma “preocupação mercenária na aposta de Pascal” (2008: pg. 27). Os mercenários são, no âmbito político, na sociologia da guerra, esses soldados que vão à peleja só pela grana: não estão diretamente implicados no conflito, mas aceitam matar a mando de quem pagar mais. De bolsos cheios, eles topam lutar em prol de qualquer causa que o patrão ordene. Já o conceito de “mercenarismo religioso”, que Jankélévitch re-ativa a partir de Fénelon, parece indicar no âmbito da moral um certo desejo de ganho que obstaculiza a clarividente visão da realidade. O “eu odioso” de Pascal, por mais que este maltrate em si mesmo este “eu” que ele odeia tão insistentemente, está a todo momento ali, tirânico e egocêntrico, exigindo uma visão-de-mundo que lhe gabe as pretensões. Ora, mas não será a verdade algo bem diferente das doutrinas inventadas por indivíduos egocêntricos que queriam adular o próprio ego?

Pascal escreveu também uma curiosa prece que se chama Prière pour demander à Dieu le bon usage des maladies, algo como Prece para pedir a Deus o bom uso das doenças. Aí se manifesta a noção de que “os males do corpo não são outra coisa senão a punição e a manifestação dos males da alma” (PASCAL, Opuscules, VIII,  Jank p.115). A doença como punição acarreta a idéia suplementar de que todo doente é um pecador. Pascal, como costumam fazer os cristãos, como fazem todos os crentes, está tão faminto por sentido que deseja tudo travestir com os adornos do explicável. Trata-se do que Camus poderia chamar de “a fobia diante do absurdo”.

Pascal não nos pede que perguntemos, por exemplo: existem doenças que acometem pessoas que não as mereceram? Não haverá neste mundo um bom bocado do que Nietzsche chama de “sofrimento inocente”? É preciso realmente interpretar todos os “males do corpo” como  punição? Isso significaria concluir que somos todos pecadores, já que todos ficamos doentes, e várias vezes durante a vida! É o que o cristianismo tenta nos inocular, como o mito do Pecado Original também indica: devemos nos sentir pecadores, precisados de redenção (aquela que os sacerdote$ vendem, é claro…), e em toda doença devemos nos auto-inspeccionar e punir em nós mesmos os crimes cometidos, supostos como a causa da queda de nossa saúde.

Ah! Que saudade dos tempos onde a gente ficava resfriado, não por ser um pecador, mas por ter dançado demasiado no sereno! Uma doença não pode ser o resultado de uma inocente imprudência? E outros organismos na Natureza não podem atacar um organismo sem prévias considerações sobre o mérito ou o demérito da vítima? Ah, meu caro Pascal: você acha mesmo que os vírus só infectam os pecadores? E essas idéias, ainda hoje, sobrevivem! Lembremos da epidemia de AIDS e do modo como em San Francisco ela foi chamada de “the gay plague”. Neste caso, o fato (sociologicamente comprovado) de que o vírus estava atingindo fundamentalmente os homossexuais do sexo masculino, foi interpretado por alguns fundamentalistas religiosos pascalianos como signo indubitável de uma punição divina.

Estamos falando de gente que crê num Deus que lançou imensas bolas-de-fogo ao bombardear  Sodoma e Gomorra, num genocídio divino para punir os vícios dos mundanos, aí inclusos os “sodomitas”. Eis mais um argumento contra a aposta de Pascal: ele nos pede fé numa divindade homofóbica, misógina e genocida. Eu tô fora. Além do mais, esta moralização da doença me parece formidavelmente perigosa e mal-sã por levar a ações de segregação e preconceito aos doentes – e doentes somos todos nós em certos momentos de nossas vidas. Da doença, como da morte, ninguém escapa – por mais bilhões na conta bancária que se tenha para gastar com exames, médicos e remédios.

E o que dizer da doença das crianças, dos bebês que saem do útero e já são obrigados a ir pra UTI? Um de meus principais argumentos contra Pascal, e isto vale para o cristianismo por inteiro, é a existência através da História de um fenômeno tão constante e recorrente quanto a morte das crianças – a ponto de nos parecer natural, de não nos tirar o sono nem inquietar o íntimo, os índices de mortalidade infantil dos relatórios da ONU.

“No início deste milênio, em um planeta abundante de riquezas, uma criança com menos de dez anos morre a cada cinco segundos. De doença ou de fome. (…) Em 2000, a FAO contava 785 milhões de pessoas grave e permanentemente subnutridas. São 854 milhões em 2008 e mais de um bilhão em 2010.” (JEAN ZIEGLER, Ódio ao Ocidente, p. 29 e 132)

Um Deus que é ao mesmo tempo onipotente e justo, de um lado, e que permite o sofrimento e a morte-em-massa de milhões de crianças anualmente, de outro lado, eis um Deus calhorda e criminosamente abstêmio, que parece indiferente ao mundo que criou e que manifesta a mais pétrea impassibilidade diante das preces de seus filhos mais sofredores e famintos.

Retornemos então às sábias palavras de Epicuro em sua reflexão sobre Deus, onde os absurdos que se escondem por detrás da crença são trazidos à luz:
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“Deus deseja prevenir o mal, mas não é capaz? Então não é onipotente. É capaz, mas não deseja? Então é malevolente. É capaz e deseja? Então por que o mal existe? Não é capaz e nem deseja? Então por que lhe chamamos Deus?” (EPICURO – 341a.C. – 270a.C.)

De modo que o filósofo francês Marcel Conche, nosso contemporâneo, um dos mestres de André Comte-Sponville, faz do sofrimento das crianças o argumento principal de seu ateísmo: é impossível que exista um Deus que seja ao mesmo tempo onipotente e justo e que permaneça com seus divinos braços cruzados diante do martírio dos inocentes. Quando o “eu odioso” de Pascal resolve apostar na existência de Deus porque considera isso mais “vantajoso”, do ponto de vista afetivo, já que a crença apazigua a angústia e dá o conforto de esperar uma redenção futura, age com um mercenarismo egocêntrico em que a reflexão genuinamente filosófica é imolada no altar da fé. Como diz Jankélévitch em seu Curso de Filosofia Moral, a aposta de Pascal ignora “o risco que corre a fé, isto é, o risco de crer em alguma coisa que não existe.” (JANKÉLÉVITCH, p. 170)

O estratagema cristão para explicar a existência do Mal – aí incluso o sofrimento das crianças – é apelar para o Pecado Original: vocês sabem que as criancinhas que morrem sem ser batizadas, segundo a Igreja Católica, não vão para o Paraíso, mas são lançados no limbo. Nascemos todos já conspurcados pelo crime de Adão e Eva. Em outros termos: ninguém nasce puro. Que há algo de revoltante nesta idéia, que este mito seja uma enojante explicação das injustiças do mundo, que acaba por justifica-las e apaziguar as indignações, o próprio Pascal reconhece:

“…nada repugna tanto à nossa razão como ouvir dizer que o pecado do primeiro homem tenha legado a culpa àqueles que, afastados como estão dessa origem, parecem incapazes de participar dele. Isso só não nos parece impossível, mas extremamente injusto; pois que poderá haver de mais contrário às regras de nossa miserável justiça do que condenar eternamente uma criança incapaz de vontade, por um pecado a que ela parece ser tão alheia e que foi cometido seis mil anos antes que viesse ao mundo? Decerto, nada nos choca mais rudemente do que essa doutrina; e contudo!… Sem esse mistério, o mais incompreensível de todos, somos incompreensíveis para nós mesmos” (p. 401)

Em prol da compreensibilidade do Mal, para tornar inteligível o sofrimento das crianças, o mito do Pecado Original lança o pecado sobre todos os humanos e transforma a vida inteira num vale de lágrimas repleto de penitências e auto-flagelações. É contra isto que Nietzsche se insurge em seus arrebatados panfletos contra o cristianismo – O Anticristo e O Crepúsculo dos Ídolos, por exemplo. E é Nietzsche, o anti-Pascal, quem diz que o ateísmo equivale a uma “segunda inocência”. Derrubada a mitologia judaico-cristã, que aliás Nietzsche percebia como progressivamente perdendo seu crédito, sua credibilidade, caberia à humanidade inventar novas tábuas de valores, melhores do que o mercenarismo auto-interessado da Aposta Pascaliana e do grotesco mito do Pecado Total que engloba a todos, inclusive os bebês – que, se morrem nas UTIs, é porque Deus os pune pelos pecados cometidos contra seus interditos lá atrás, no Jardim do Éden!

Ah, quantas plantas daninhas já cresceram no jardim dos delírios humanos!

Ademais, a atitude pascaliana está repleta de uma ateofobia das mais fundamentalistas, uma intolerância xiitóide em relação aos descrentes. Pascal não cansa de vincular o ateísmo com a loucura e com a doença: os ateus são os que precisam ser “curados de um mal”, aqueles que por negarem a existência de Deus caem ao nível das “bestas selvagens”. Ele não pode conceber ou admitir que tenha existido um ateu feliz ou um ateu sábio. Essa atitude me parece cada dia mais insustentável, uma visão de mundo vinculada à estreiteza do fanatismo religioso, já que há uma profusão de grandes figuras na história do pensamento e da arte que demonstram muito bem que ateísmo e sabedoria, ateísmo e felicidade, são sim conjugáveis, uníveis, aptos à convivência fecunda: quão ridículo é o discurso ateofóbico diante das criações dos ateus Charles Darwin, Karl Marx, Nietzsche, Sigmund Freud e Charles Chaplin (dentre centenas de outros!).

Eis um elemento recorrente do que eu chamaria de “a psicologia da fé”: aquele que se crê eleito tem a tendência a ser intolerante em relação aqueles que questionam esta suposta eleição; aquele que deseja ter fé de que é um “favorito dos deuses” tende a ter uma relação com a alteridade e a diferença que é marcada pelo desprezo-pelo-outro e pelo menosprezo da perspectiva alheia discordante. Muita indignação desperta, no mundo de hoje, o racismo e a homofobia, e com toda justiça; mas o que dizer sobre a ateofobia, ainda tão vigente, e que tem tanto em comum com o racismo e a homofobia?

Para concluir, resta destacar que Pascal foi extremamente pessimista em sua descrição da condição humana. É difícil encontrar em Schopenhauer ou Cioran algo que se assemelhe à tonalidade lúgubre e soturna de seu retrato dos homens acorrentados, condenados à morte, que a cada dia vêm os outros sendo degolados e esperam sua vez. É como remédio contra esta desoladora visão-de-mundo que Pascal agarra-se à fé. A compreensão desta dinâmica psicológica passa pelo que Ernest Becker estudou sob o nome de “negação da morte” [denial of death]. A fé como invenção dos mortais que não aceitam o fato bruto da mortalidade e que fantasiam imortalidades. Mais uma vez, aqui o crente só pensa em seu próprio ganho e permite que suas vontades mais íntimas impeçam uma investigação e uma reflexão sobre a realidade que respeite a objetividade – o mundo objetivo, aliás, que o marxismo nos aprendeu a considerar como “independente de nossas consciências”.

 O dínamo estrelado da maquinaria da noite, afinal de contas, não é necessariamente causador de pavor e angústia à la Pascal, mas é também passível de nos encher de fascinação e jubiloso espanto: viva Carl Sagan! Nem é a condição humana tão sombria quanto Pascal nos pinta: ele se assemelha a esses pregadores que querem nos assustar, espalhar o terror, para que aceitemos o consolo que está sendo vendido.

A morte de Deus – eis a primeira boa notícia – não implica na morte das estrelas ou do Universo, mas apenas na morte de uma “ilusão” (Freud), um “delírio” (Dawkins). A morte de Deus tampouco impossibilita o amor entre os mortais (aliás, é de se suspeitar que o amor é tão mais necessário e urgente justamente pois Deus não existe!). A morte de Deus não equivale à morte da justiça, da coragem, da caridade, da generosidade – pelo contrário, todas as virtudes prosseguem necessárias e possíveis, mesmo que Deus não exista: à glória do sponvillianismo! Já a inevitabilidade da morte, e a idéia atéia de que não há vida depois dela, não é necessariamente propagadora de terror e desolação , mas, ao contrário, pode ser um estímulo para que a vida seja encarada em toda urgência, sorvida com gosto e deleite, fugaz tesouro que não possuímos mas que nos foi dado usufruir temporariamente. Existe vida antes da morte: que esta boa nova nos baste!