GRUNGY FEELINGS – Songs From Generation X [Coletâneas / Playlists em Spotify]

GRUNGY FEELINGS – Songs From Generation X [Volume 1]
Coletânea / Playlist @ Spotify

01. SCREAMING TREES, “Dying Days”
02. NIRVANA, “Heart-Shaped Box”
03. SOUNDGARDEN, “The Day I Tried To Live”
04. LIVE, “Lakini’s Juice”
05. DAYS OF THE NEW, “Touch, Peel and Stand”
06. ALICE IN CHAINS, “Down in the Hole”
07. STONE TEMPLE PILOTS, “Meatplow”
08. BUSH, “Machinehead”
09. SILVERCHAIR, “Freak”
10. PEARL JAM, “Do The Evolution”

SENTIMENTOS GRUNGY NA ERA TRUMP – O suicídio de Chris Cornell, a Renascença do Stone Temple Pilots, e a redescoberta do Hole

Como a mítica Fênix, que não cessa de renascer das cinzas, o GRUNGE renasce de suas tragédias. Sua maré no mainstream já passou, mas os sentimentos grungy sejam vivos na Era Trump. Fazendo frente ao baque tremendo que foi para este cenário pós-grunge o suicídio de Chris Cornell (Soundgarden / Audioslave), o cenário tenta se reinventar.
Stone Temple Pilots renasce agora após duas outras mortes: a de Scott Weiland (vocalista dos 6 primeiros álbuns) e a de Chester Charles Bennington (do Linkin Park, que gravou apenas 1 EP como cantor do STP, em 2013, tendo se suicidado em 2017). São os corações ensombrecidos pelas tragédias reais, que recolocam tudo em clima de “Hunger Strike”:

“I don’t mind stealing bread
From the mouths of decadence
But I can’t feed on the powerless
When my cup’s already overfilled…”

Temple Of The Dog (1991) – Com Eddie VedderChris Cornell, Jeff Ament, Mike McCready, Jeff Ament, Matt Cameron.

Somando-se neste caldo as mortes trágicas de Kurt Cobain e Layne Stanley, pra não falar na overdose fatal de Andrew Wood (do Mother Love Bone) nos primórdios da saga Pearl Jam), temos um microcosmo cultural assombrado pela recorrência de fins-da-vida violentos, de pungente tragicidade, o que também se expressa nas sombrias e intensas paisagens sônicas que marcaram para sempre a estética contemporânea com as obras de Screaming Trees, Mudhoney, Nirvana, The Gits, dentre tantas outras bandaças.

“Roll Me Under” traz todo o peso e intensidade dos grandes dias do grungy noventista de novo ao primeiro plano, ilustrando sua mensagem sônica impactante com um clipe meio Into the Wild, evocando a vertente Steppenwolfiana que sempre nutriu o estilo grunge, este ethos do rock’n’roll que tão bem entremesclou o punk, o heavy metal e o indie-garage, reinventando para sempre a estética musical dos anos 1990.

Quem assume os vocais neste retorno do STP em 2018 é Jeff Gutt, que vem sendo chamado por alguns críticos de “um Scott Weiland bem-comportado”: “He nails how the late singer could slide from a snarl to a sigh, conjuring a bit of a snaky sexuality while still seeming a bit safe”, escreveu Stephen Thomas Erlewine em sua crítica para a AllMusic.

As 12 músicas novas demonstram uma banda ainda vigorosa e re-colocam o Stone Temple Pilots no epicentro do rock mainstream global para disputar as atenções com as mega-bandas Foo Fighters, em que Dave Grohl decolou após o naufrágio do Nirvana, e o Pearl Jam, já uma instituição consagrada da música global, que em breve completa 30 verões, merecendo um lugar de honra na História do Rock na companhia de um Neil Young & Crazy Horse ou de um Grateful Dead.

Já o STP, que sempre soou mais despretensioso e menos grandiloquente que o Pearl Jam, retorna para mostrar que um dos caminhos mais interessantes para a evolução do estilo grunge estava na tentativa de mesclá-lo com a new wave, o punk rock 77, o glam à la T.Rex. O poderio guitarrístico da banda sempre foi impressionante, desde os estupendos álbuns iniciais “Core” e “Purple”, e em 2018 eles não demonstram nenhum desejo de se aquietar. Os amps continuam no talo, o batera continua batendo forte, os riffs continuam te enganchando pelo queixo e batendo contigo nas paredes até tirar sangue.

O STP é uma daquelas raras bandas que pode soar alegremente subversiva como atos punk seminais como Johnny Thunders and the heartbreakers ou Richard Hell & The Voidoids, e na próxima faixa já se transmutar num denso e desesperador propagador de um estilo de rock grave e angustiante, à maneira das bandas históricas do movimento como Screaming TreesSoundgarden e Alice in Chains.
É um álbum que agrada e empolga por mostrar artistas grunge em plena forma, e prometendo ainda muito futuro. O grunge resiste! Ainda que o melhor álbum lançado ultimamente na estética grunge não tenha sido feito por uma banda que assim se rotule, ou que a este cenário cultural se vincule: me refiro ao “Wilderness Heart”, do Black Mountain, que fez neste álbum uma obra-prima do gênero, com canções magníficas como “Rollercoaster” e “The Hair Song”.

Com muito gosto ouvi este comeback do STP, um disco tão agradável de ouvir, tão lindamente executado, tão “radiofônico” (até mesmo no sentido Bon Joviano do termo), que quase nos convida a abandonar qualquer pose de crítico musical e simplesmente recomendar aos amigos: “ouve lá, é um discaço da porra!” A música fala bem em sua própria defesa e até nos desarma da iniciativa inglória de perguntar pelos interesses econômicos que possam estar envolvidos nesta empreitada, certamente acusável pelos críticos mais “cricos” de ser um “caça-níqueis”.

A indústria da música é de fato uma mina de ouro e não está fora de cogitação que o STP se enxergue como uma empresa, e das mais lucrativas. Mas isto não significa que estes caras não tenham algo a dizer artisticamente. Seria bem injusto, aliás, taxar de “comercial” uma banda que nunca abriu as pernas para o Sistemão do Rock Mainstream como fizeram os Creeds e Nickelbacks. O Stone Temple Pilots seguiu com seus fios elétricos plugados nas tomadas do Grunge noventista, soando como banda independente que teve acesso aos estúdios de gravação do Big Business – e soube se aproveitar disso.

Se o cérebro coloca estas questões, questionando se há vontade de grana alta por trás da nova encarnação do STP, os tímpanos e o coração simplesmente embarcam no rollercoaster deste álbum pulsante e cheios de belos thrills. Fazia tempo que um álbum de estilo grungy chegava com tamanho estrondo – que o Queens of the Stone Age  se cuide, pois tem rival forte de volta na cena!

Saudamos a chegada deste álbum como uma bela anfetamina musical para nossos tempos em que o Grunge segue tendo muitas razões para existir. Pois temos direito à divergência e a dissonância. E queremos nossa fúria tomando de assalto as ondas do rádio!

A alucinógena borboleta que estampa a capa do disco, e que parece a obra de algum artista das HQs que tomou um peiote, indica de modo simbólico o poder desta banda: dentro da borboleta, há uma teia de aranha.

A aparência mais englobante, da bela butterfly, é atraente e sedutora, mas na essência mais interna esconde-se o perigo, o aracnídeo.

Entre as asas desta borboleta, parece caber todo o caos e maravilha do mundo – e o som que fazem estas asas ao voar indica que, por mais agradável que seja esta rock-sinfonia, propulsionada pelos músicos como um foguete, pulsa aqui também algo de perigoso.

Algo que morde, que devora, como um aranha faz com o inseto que cai em sua teia.

As reações iniciais da imprensa musical parecem ser muito positivas, com reviews que destacam o quanto o álbum traz “a banda lidando emocionalmente com suas tragédias”:

The album comes after STP’s tragic last few years which saw the deaths of Scott Weiland and Chester Bennington. Losing two singers in such a short period is really one of the biggest tragedies in rock history, to see STP come back with a new album with some really triumphant sounding songs is powerful especially on the first few listens. Scott and Chester’s spirits are definitely felt throughout the album.” – Alternative Nation

Chester e Scott, dois mortos precoces do rock contemporâneo, somados à ausência monumental de Chris Cornell, também recentemente suicidado, mostram que a Era Trump, nos EUA, está sendo também a de uma maré cultural de redescoberta do grunge, em tudo aquilo que ele tem de problemático e obscuro. A Geração X ainda está entre nós, assim como o Fantasma de Kurt Cobain, assombrando com sua poesia atormentada a propaganda do cartão postal chamado American Dream, aquele em que só acreditam os que estão dormindo.

O grunge parece passar pela história da cultura humana como uma espécie de híbrido entre tragédia e resiliência. Um movimento cultural que sobrevive a todas as suas tragédias, que se reinventa na mudança: Mark Lanegan cantando com o QOTSA, Josh Homme e Dave Grohl (dos Foo Fighters) flertando com o que restou do Led Zeppelin (Them Crooked Vultures), Alice In Chains seguindo em frente com novo vocal após a morte de Layne Stanley… Para não falar da farta colheita que foram as passagens de Cornell e Weiland pelo mundo, já que eles também povoaram nosso horizonte artístico com as criações de Audioslave e Velvet Revolver, além dos respectivos álbuns-solo…

Enquanto seus heróis vão caindo mortos, o grunge segue em frente como pode, aos trancos e barrancos. E no epicentro deste drama, segue queimando supremo o inesgotável Nirvana: Cobain não precisou de mais que 27 anos de idade para causar um terremoto cultural que não dá sinais de que irá simplesmente desaparecer, e em pleno 2018 aquele som que smells like teen spirit está por aí, pulsando no coração do Império decadente!
O retorno, em tão boa forma, do Stone Temple Pilots nos mostra isso: o ímpeto nirvânico está sendo re-acendido. A Fênix grunge alça vôo outra vez. E ela vem enraizada no passado, atenta ao novo e disposta a ser ouvida em toda sua dissonância e dissidência.

Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro

* * * * *

OUÇA O ÁLBUM COMPLETO:


LEIA TAMBÉM:

Querida Janis: uma carta para um sol que brilha do além-túmulo (sob a influência do doc “Little Girl Blue”, de Amy Berg)

Querida Janis,

Não tenho em mim as crenças místicas necessárias para te crer viva, ainda, em alguma transcendental dimensão da imensidão cósmica. Não te atribuo ouvidos capazes de decifrar as palavras que te falarei, nem olhos que decriptem estes garranchos que te escrevo. Suponho que te tenhas acabado, em carne-e-osso, por inteiro, sem deixar subsistir o fantasma de um espírito imorredouro. No entanto, o teu esplendor enche meu coração ateu de convicções sobre a perspectiva concreta de sobrevida após a morte pois tua música é nada menos que isso: um vivificador tônico, um Biotônico Fontoura artístico, um fortalecedor do ânimo, o que faz do teu legado algo que está para além da possibilidade de servir de repasto aos abutres ou aos vermes.

És uma voz que transcende a morte, uma voz que condensa um destino que em 27 anos brilhou mais do que a maioria dos terráqueos consegue no triplo ou no quádruplo deste tempo. Inspira-nos, até mesmo a nós que nascemos quando você já estava morta, a sensação intensa de que é possível “viver sem tempos mortos”, para emprestar a expressão de Simone de Beauvoir. Querida Janis, você mostra que é possível existir no compromisso com a autenticidade extrema. Você não escondia tua verdade detrás das máscaras da conveniência, nem se calava diante da massa caótica e confusa de afetos que em ti conviviam criando nós que era preciso desatar. Teus nós eram cantáveis em libertárias catarses. Assim libertavas-nos a todos, teus contemporâneos e teus pósteros, ao dar às mancheias e sem avareza tantas lindas lições de tua liberdade.

woodstock2
Por muito tempo este leitor de Nietzsche tentou encontrar exemplos concretos, históricos, de quem seriam os tais dos “espíritos livres”, dionisíacos e em êxtase diante da existência, e encontro poucas encarnações melhores desta liberdade-de-espírito do que você. Você e Jimi. Vocês, cometas que atravessaram com pressa o céu da existência, faiscando pelo cosmo com vidas incendiadas e que a gente não esquece mais, tão necessitados somos destas tempestades de beleza com que vocês nos agraciaram. A guitarra de Jimi em chamas evoca-me a imagem símile da tua voz rasgada, que não temia desafinar pois ascendia para uma região para além de todos os medos, um âmbito onde reina a expressão intensa de afetos verdadeiros, com o ímpeto e a verve, com a vibe e o groove, de uma divina bacante, maravilhosamente indomável.

Ainda assim, mesmo que fizesses “amor com milhares de pessoas” durante os shows, voltavas sempre sozinha pra casa. Janis, entendo teu blues tão bem pois não pusestes máscara em teu sofrer. Soubestes cantar o abandono e a carência como ninguém, na singularíssima irradiação do teu ser incatalogável, e vejo nesta tua frase – “On stage, I make love to 25,000 different people, then I go home alone” – uma espécie de emblema do teu ânimo e cerne do teu blues.

3007-janis-joplin-620x372“BALL AND CHAIN” (AO VIVO NO MONTEREY POP):

Querida Janis, tu gritavas a tua solidão de um modo que nos faz sentir que uma solidão só é horrenda se mantida secreta e presa, nas catacumbas mau-iluminadas de nosso tórax. Tu gritavas a tua solidão dando a entender que uma solidão gritada poderia virar alguma porra semelhante a um orgasmo estético vivenciável em comum por um bando de hippies loucos em Nirvana conjunto… O Big Brother & The Holding Company que me perdoe – eram uma bandaça, afinal, tão timbrada quanto um Steppenwolf ou um Grateful Dead! – mas eras de fato o astro mais brilhante daquela constelação humana. E não tenho a pretensão de saber explicar as razões do teu esplendor, só sei que a aura de liberdade é essencial a isto que irradiava de ti e que te fez, de fato, um astro. Não uma pop star, mas um astro iluminante de fato, daqueles que se consome no próprio incêndio, um pouco como aquele monge budista que está em pleno processo de virar cinzas na capa do álbum de estréia do Rage Against the Machie.

A tua “astridade” era legítima – pois esplendias como um sol – mas cedo também fizestes a descoberta do quão tão trágico é ser astro. Como Kurt Cobain um dia também compreenderia, outro que entrou para o mítico time dos 27. Há quem vá dizer que vocês foram estúpidos, imprudentes, que vocês desperdiçaram a vida jogando-a fora por causa do vício às drogas, e inclusive não faltaram jornais e revistas para grudarem em vocês os rótulos depreciativos de junkies. Vocês não foram só junkies, Janis, não do modo como esta palavra é mobilizada pelos detratores, pois vocês foram o inefável, o indefinível, o irrotulável esplendor da Arte, aquilo que está para além das capacidades dos críticos de verbalizar.

Ocorre-me à mente uma belíssima cena de A Liberdade é Azul, de Kieslowski, em que a personagem de Juliette Binoche está de olhos fechados sentindo os raios de sol em sua face: tua música é assim, pra ser ouvida de olhos fechados, como quem se banha no esplendor irradiante de um sol que aquece, derretendo a frieza que é em nós prenúncio e parente do rigor mortis. Querida Janis, mesmo que nunca venhas a saber disso, digo na gratidão intensa de quem não cessa de te ouvir e ser beneficiado ao teu contato: amo a tua irradiância. Tua ética, tua estética, era a mesma do sol.


Vejo-te em Monterey, pela primeira vez diante de um público de tal gigantismo que é de atemorizar qualquer reles mortal com o mais paralisante stage fright. Você, não: como um heroína que retira suas forças de mananciais secretos que nem Carl Jung saberia decifrar onde se encontram, você sabia se desnudar diante de uma platéia imensa, abrir a sua caixa toráxica e exibir um coração sangrento e pulsante, daqueles que não via nada melhor a se fazer na vida do que cantar e cantar. Cantar de verdade, a tua verdade, de modo a derreter até o mais empedernido dos sujeitos apáticos e convencionais. Diante de ti, ficamos boquiabertos com uma capacidade rara, que poucos de nós de fato chegamos a desenvolver, esta generosa entrega de si ao mundo, através de uma expressão, arrojada e ousada, do teu oceano de afetos.

Te vejo no Rio de Janeiro e tua liberdade ali esplende nos bicos dos teus seios, na displicência anti-chic com que bebes um goró e curtes a maravilha transitória de um pouco de anonimato. Mas a câmera fotográfica te flagra, e talvez você sentisse que viver momentos tão mágicos sem ter deles registro talvez fosse sentido como perda, desperdício; você queria, do seu percurso, carregar vestígios. Você tinha a ambição de ser amada, não a medíocre ambição do lucro que é epidemia. Ambicionava derreter corações ao sol da tua expressão hipérbole das verdades sentidas e vividas.

Teu foto-diário, que no documentário de Amy Berg ganha vida na voz de Cat Power, serve como janelas abertas para uma pessoa que tinha lá seus segredos, apesar do escancarado dos teus cantos. Segredos de sofrimentos antigos, de ter sido molestada por canalhas da Klu Klax Klan em Port Artur ou por ter sido maltratada por algum cowboy escroto de Austin. Segredos de uma adolescência repleta da sensação de ser um freak e estar apart em relação à ordem careta.

Te imagino livre demais para enquadrar-se nos quadrados pré-preparados pelo poder. Ao invés de murchar na depressão ao sentir-se pertencente à estirpe da freakidade, você soube se conectar a algo de coletivo, à corrente da contracultura e sua ética do desapego ao lucro monetário, tivestes  apegos à utopia de uma sociedade alternativa que Raul Seixas cantaria por aqui, no Brasil, mas que vocês também encarnavam naquele trem de doidos sublimes e músicos geniais que espraiou magia pelos trilhos da América na trip do Festival Express.

Que seria daquela cena sem a tua inestimável contribuição, que seria de San Francisco nos anos 1960 se você não estivesse impactado todo o cenário com a tua irrupção esplendorosa? E no entanto tua vida dá a impressão clara de que você disse a verdade quando te perguntaram se você foi ao Rio como turista, e você respondeu: “i’m a beatnik on the road.” 

Cara Janis, não sou mongolóide de achar que minha carta achará teu endereço, tu que não és mais deste mundo, mas eu não saberia me expressar sobre ti senão me endereçando ao teu fantasma tão presente, à tua presença em mim através destas canções que tu cantavas como se fossem cartas. Cartas daquelas tão sinceras que são de rasgar o coração, como em “Cry Baby”, quando você a cantou em Toronto, em 1970, mandando notícias para seu “lost love” na África. Uma carta endereçada àquele que, após as maravilhas do convívio e da intimidade te abandonou para ir em busca de algo, em busca de si, em busca de sei lá o quê, em Casablanca ou sabe-se-lá-onde.

Você diz a ele, no teu blues, algumas lições que são ao mesmo tempo seduções: “You’re lookin’ for your life over there, honey! Do you wanna know where your life is? You’re life’s waiting like a god-damned fool, right here, for you man!” Você, que não era fácil, faz recurso até a ameaças: “um dia, meu caro, você vai acordar em Casablanca e vai estar congelando-até-a-morte [freezing to death], cara! E você vai se perguntar, que diabo estou fazendo em Casablanca?”

Você canta no ímpeto da esperança de um reencontro, você imagina o retorno do amor perdido, no teu abandono você o chama com come on, come on, come on, e não conhece sedução alguma melhor do que dar-lhe permissão para chorar. Teu romantismo não era a idealização de um convívio perfeito, mas a mútua entrega à expressão de sentimentos, mesmo os mais negativos e pesarosos: amar é ter um ombro onde chorar tanto quanto é ter alguém com quem rir; amar é dividir com alguém os malefícios e crueldades da existência tanto quanto é uma festa do êxtase em conjunto; amar era, pra ti, Janis, mais que mero sonho ou fantasia, era aquilo que tu fazias com a naturalidade do vulcão que entra em erupção.

Teus afetos falavam a língua do fogo. Teu calor humano é aquilo em ti que é imorredouro. Tua voz é deste calor o veículo, teu coração fez-se indestrutível pela decomposição já que aqueces os vivos mesmo não estando mais entre eles. És uma força vivificante que emana do túmulo, ou melhor, os vestígios da tua vida são vivificantes a ponto de serem pouco distinguíveis do incêndio solar que apresenta-se para seu concerto diuturno a cada aurora e se põe a cada crepúsculo.

“CRY BABY” (AO VIVO EM TORONTO, 1970):

janis_joplin_by_dark_pirate

Talvez, querida Janis, tenhas inventado um novo namastê, um culto solar, algo como “o sol que há em mim saúda o sol que há em ti”. És um emblema do que se chamou, por comodidade de classificação, a “Geração Hippie”. Vocês eram a mais esplendorosa das belezas nascidas de um país e de uma época chafurdados nos horrores da guerra e do genocídio imperialista. Você, Janis, nasceu em meio às carnificinas da 2a Guerra Mundial, em 1943, e as tuas faces de criança talvez tenham sido iluminadas, através da TV, pelas hecatombes nucleares de Hiroshima e Nagasaki. Você deve ter visto aqueles cogumelos hediondos: teu blues não era somente cósmico, era também histórico. Você nasceu – alguém não nasce? – em tempos sombrios. E em Woodstock você deves ter sentido que algo se galvanizava e imantava num imenso evento que, para além do hedonismo, da libertação sexual, da experimentação com novas vivências intersubjetivas e estéticas, era também congregação daqueles que queriam encontrar as vias de co-construção de um mundo menos sangrento e cruel do que aquele do napalm despejado sobre as pessoas do Vietnã e do Camboja, do que aquele dos warmongers que teu ídolo Bob Dylan denunciara em “Masters of War” e outros folk-hinos.

Woodstock Music Festival (1969)

Woodstock Music Festival (1969)

 Tua beleza ensinava algo de precioso aos poderes ensandecidos pelas feiúras bélicas e pelos feitos de macheza destruidora e imperialismo agressivo. Tu eras desejo intenso de felicidade – “Jesus fucking Christ, I want to be happy so fucking bad!”, ainda te ouço dizer. Os caretas jamais vão compreender que tua relação com as drogas nada tinha de auto-destruição niilista ou fuga dos desafios da existência, era sim um desejo de intensidade e de viver sem tempos mortos, de sondar aquela sabedoria que só se encontra no excesso (segundo William Blake e seus Provérbios do Inferno). Você era um pouco como Jim Morrison, queria break on through to the other side. Depois, Patti Smith seria animada pelo que tu fizeras e diria: there’s a million membranes to break through.


Minha querida Janis, adoro-te pois você não se resignava a uma vidinha besta e sem thrills, você queria que viver fosse groovy, algo cheio de ritmo e paixão, cheio de dança extática e eloquência cantada, você queria a música que conduz ao transe, você queria ser para o público aquele médium de transfiguração que conduz um coletivo à congregação. Como faziam Otis Redding ou Aretha Franklin, você era xamã de um cerimonial pagão, bacântico, dionisíaco, onde as fronteiras delimitantes da chatura instituída eram lançadas por terra. Cantar te dava asas a ponto de não existir gaiola nesse mundo em que coubesses. Mas só eras este vulcão pela densidade de sofrimento que carregavas, tu te conectavas com os afetos que foram tão magistralmente expressados por algumas das melhores cantoras de blues da história: Billie Holliday, Bessie Smith, Odetta, Ma Rainey.

Odetta

Odetta

billie

Billie Holiday

Em 27 anos, você impôs-se neste panteão, você fez algo de tão extraordinário que as pessoas, te ouvindo, mal conseguiam acreditar que você não fosse negra. E dizer que Janis Joplin cantava como uma negona não é mero chiste ou brincadeira, é reconhecer tanto a tua capacidade de aprender com as blueseiras negras todas as técnicas, truques e feelings que você tão bem empregou, quanto a tua capacidade de transfigurar os sofrimentos e dúvidas que sentias em algo de tamanha intensidade e carga emocional que parece apenas ser possível só para quem passou por traumas muito severos e humilhações muito profundas – exatamente o caso do povo afro-americano que vivenciou as sequelas e as sobrevivências da escravatura.

Dirão alguns que tu cantavas dores pessoais, de relações intersubjetivas que tendemos a confinar hoje no âmbito do privado, e que para encontrar os gênios do canto de um sofrimento coletivo, grupal, histórico, a obra de uma Nina Simone ou de um Gil-Scott Heron é mais significativa. Já eu acho que teu canto é profundamente político pois carrega uma ética, um ideal de relacionamento humano, uma espécie de pregação laica, lindamente musicada, em que tu celebravas – tinhas sim algo de Aretha Franklin em seus trance-gospels – algo que talvez seja menos deus que valor: honestidade de expressão. É o ético é indissociável do político.

Aretha Franklin

Aretha Franklin

Tu eras, Janis, maravilhosamente capaz de pôr teus sentimentos numa linguagem que comandava a empatia com a força de imantação que o planeta Saturno acarreta à matéria que forma seus anéis circundantes. Tu talvez sentias o cosmic blues, semelhante ao de Pascal ao olhar para o “silêncio eterno dos espaços infinitos”, tinhas talvez o frisson melancólico daqueles que suspeitam que o céu é surdo a nossos apelos e que não há deus que nos salve de nosso abandono. Tinhas talvez a percepção visceral de que temos só uns aos outros, e aprendestes no amargor que humanos não são assim tão bons de entrega, de generosidade, de conexão. Precisamos de pedagogos do amor, e nisto fostes uma imensa fonte de luz, assim como Rita Lee, segundo Tom Zé, foi a educadora erótica de toda uma geração, você nos ajudou a aprender a arte difícil de amar – e oferecestes tudo o que tinhas àquilo que amavas mais que tudo, tua música e as teias de conexão que, por esta via, você estabelecia.

Você celebrava o potencial de congregação da música – aquilo que a anima há milênios, aquilo que transcende os contextos culturais específicos, aquilo que decerto já faziam os hominídeos e neandertais de gerações e gerações antes da História escrita começar.

Tua música é um sol que resplende e não cessamos de trepidar às bordas da tua fogueira, ao mesmo tempo aquecidos e estarrecidos, incapazes de compreender como é possível alguém compreender que a vida é isso: queimar. It’s better to burn out than to fade away. Como diria aquele outro membro do Clube dos 27 que, citando Neil Young, despediu-se do mundo em sua carta de suicídio, talvez sem suspeitar de que também viveríamos, nós, seus pósteros, à sombra fascinante da catarse de sua angústia. Eventos como você ou o Nirvana, na história da música, são raríssimos: são vocês que estabelecem os auges, são vocês que fazem os termômetros da cultura explodirem por excesso de temperatura, por explosão do vidro que contêm os mercúrios.

Ensinas a viver mesmo no teu fracasso, dás a lição da fragilidade e da beleza da vida enquanto deixas o ânimo vital cair no nada por causa de um estúpido pico de heroína num hotel qualquer de teu percurso que ainda era tão grávido de futuros.

Janis, escrevo para dizer que o futuro ainda se aquece à luz do teu calor e ainda se encanta com o esplendor da tua voz; sei que não me ouves, mas não posso ouvir-te sem querer este absurdo infazível de agradecer-te. Rock on, sis! Shine on your glowing light!

janislittlegirlblue2

Escrito em 18/09/16, em Goiânia, logo após a sessão do documentário “Little Girl Blue” em sessão no Cine Cultura

SIGA VIAGEM:

SHOWS:

AO VIVO EM ESTOCOLMO, SUÉCIA (1969)

AO VIVO EM FRANKFURT, ALEMANHA:

AO VIVO EM WINTERLAND (1968) – Só áudio:

AO VIVO EM MONTEREY POP – Só áudio:

1401x788-janis_joplin_pearl_album_cover__

1965 – This Is J.J.
1966 – Big Brother & The Holding Company – Light Is Faster Than Sound
1966 – Big Brother & The Holding Company – Live In San Francisco 1966
1967 – Big Brother & The Holding Company
1968 – Big Brother & The Holding Company – Cheap Thrills
1968 – Live At The Winterland ’68
1969 – At Woodstock
1969 – Filmore East 1969
1969 – Frankfurt 12Th April 1969
1969 – I Got Dem Ol’ Kozmic Blues Again Mama!
1969 – Janis Joplin & The Cosmic Blues Band – Texas International Pop Festival Vol. 3
1970 – Big Brother & The Holding Company – Be A Brother
1970 – Pearl
1970 – The Rarest Pearls
1970 – Wicked Woman
1971 – Big Brother & The Holding Company – How Hard It Is
1972 – Joplin In Concert
1973 – Janis Joplin’s Greatest Hits
1974 – Janis Original Soundtrack
1980 – Anthology
1983 – Farewell Song
1999 – Mercedes Benz (Rare Tracks – 1962-1970)
2000 – Super Hits
2001 – Love Janis
2005 – Pearl (Legacy Edition)

NIRVANA: MTV Live And Loud – Seattle, 1993 (Show Completo, 1h 16 min)

nirvana-live-and-loudNirvana – MTV Live And Loud – Seattle, 1993 (Full Concert) DVD

0:00 Radio Friendly Unit Shifter
4:47 Drain You
8:30 Breed
11:46 Serve the Servants
15:09 Rape Me
17:49 Sliver
20:08 Pennyroyal Tea
24:47 Scentless Apprentice
28:41 All Apologies
32:38 Heart-Shaped Box
38:42 Blew
43:05 The Man Who Sold the World
47:40 School
50:31 Come As You Are
54:16 Lithium
59:14 About a Girl
1:02:03 Endless, Nameless
1:10:12 (stage destruction begins)

 P.S. Confiram também um artigo que escrevi aos 20 anos do suicídio de Kurt Cobain, de nariz afundado em livros sobre o cara e sobre a banda que encontrei na Toronto Public Library, em 2014: It’s better to burn out than to fade away (em inglês)Em breve, pretendo traduzi-lo, aprimorá-lo e republicá-lo por aqui. Um trecho:

He violently departed from us, 20 years ago, in April 1994, by blowing his brains out with a shotgun on his 1-million-dollar mansion, chez lui on Trigger-Happy America. When he chose suicide as a way-out-of-the-Samsarian-mess, his daughter Frances was 20 months old and couldn’t possibly understand anything about the struggles of a heroin addict with his condition as an international pop-superstar. Singing as if he was a tree rooted in dark angry soil, his voice seemed to arise from an abyss of suffering, especially located in an intense point of pain inside his belly. That invisible wound made tremendously audible by his music rang so true and filled with authenticity, in an era of poseurs and fakers and hair-metal yuppie cowshit. Lester Bangs once wrote that “expression of passion was why music was invented in the first place”, and Cobain also seemed to believe in this – and he wasn’t ashamed to put his “dark” emotional side, from depression and paranoia to sociophobia and alienation, to craft the punk-rock hymns that turned him unwillingly into The Spokesman Of A Generation. Extraordinarily capable of expressing his feelings, Cobain’s heart poured out of himself like lava from a volcano, letting us peek through a sonic keyhole into the labyrinths of an anguished life seeking release and craving for pain to end.

INSURGÊNCIA FEMINISTA – Milhares de mulheres, mobilizadas em repúdio à #CulturaDoEstupro e ao Machistério do Golpe, fazem raiar um Junho potencialmente libertário


Bennett

Rio 02

 UM NOVO JUNHO RAIOU

Não é para contestar o ineditismo deste Junho que agora nasce que é vale a pena estabelecer as devidas analogias com as Jornadas de Junho de 2013 (confiram as análises de Ruy Braga e Marcos Nobre): estes dois Junhos, separados por 3 anos de turbulentas ocorrências, entrarão para a história recente do país como épocas de efervescência da democracia direta, da participação social turbulenta, do tsunamis anarco-democráticos que pegam as instituições de surpresa pela magnitude que tomam. Como escreveu Eliane Brum no El País em 06/06/2016:

“O levante das mulheres contra a cultura do estupro no país governado pelo interino Michel Temer (PMDB) e pelo Congresso mais retrógrado desde a redemocratização forma o retrato mais preciso desse momento histórico tão particular do Brasil. A oposição atual não é entre um governo chamado de ‘golpista’ e um governo que já foi apresentado como “popular”. Ou entre a presidente afastada pelo processo de impeachment e o vice que conspirou para afastá-la. O embate é entre o Brasil que emergiu das manifestações de junho de 2013 e o Brasil que se agarra aos privilégios de classe, de raça e de gênero. É esse o confronto político mais amplo que determina o curso dos dias.”

Se Junho de 2013 pareceu colocar o Brasil no mapa global das mega-mobilizações cidadãs, que puseram a democracia direta  e digitalmente turbinada no epicentro do mapa geopolítico, com fenômenos como a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, os Indignados espanhóis ou os conflitos na Maidan da Ucrânia, 2016 já nasce com cara de mês onde as ruas e redes, no Brasil, não cessarão de estar animadas pelo ethos e pelo ímpeto das experimentações cívicas de radicalização das mobilizações democráticas e insurgentes, com muita pela desobediência civil e contestação organizada de um governo considerado ilegítimo e golpista por uma vasta proporção da população.

A Resistência Ao Golpe de 2016 analisada pelos mais de 100 artigos reunidos em livro recém-lançado, que contou com a presença de Dilma Rousseff em seu lançamento na UnB – já ganha corpo e força com a insurgência feminista, as ocupações dos estudantes, as greves universitárias, os atos das frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular; em comícios e passeatas, em assembléias e aulas públicas, nas redes e fora delas, ferve de indignação o asfalto e o morro, o litoral e o sertão… Segundo a Ninja, neste dia Primeiro de Junho,

13305027_660197517471730_4148826868900026253_o

“cerca de 16 estados realizaram manifestações com o tema “Por Todas Elas” em mais de 50 cidades. (…) A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil – os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Porém, como apenas de 30% a 35% dos casos são registrados, é possível que a relação seja de um estupro a cada minuto”. – NINJA

(ASSISTA O VÍDEO DE JORNALISTAS LIVRES REGISTRANDO O ATO FEMINISTA EM SAMPA)

Sp 01

São Paulo, Primeiro de Junho, Av. Paulista

sampa 01 DE JUNHO 2

Aqui em Goiânia, estive em dois atos cívicos recentes, não só expressando minha solidariedade a esta bela maré montante de mulheres #BelasLibertáriasEDaLuta, mas também para documentar em vídeo um pouco do que rolou: os vídeos Caraca – A Mulherada Chegou Forte Transmutando Dor em Luta fornecem algumas janelas de acesso a este agito democrático que vem confrontando o poderio do Patriarcado e demandando uma transformação radical nos nossos enraizados modos de convívio, ainda tão brutais e cruéis em razão da dominação masculina ainda vigente (sobre isso, recomendo Pierre Bourdieu e seu Dominação Masculina, além das obras listadas ao fim deste post).


Aos que teimam com o discurso de que feministas são “cheias de mimimi”, talvez não haja melhor argumento do que este: “o machismo mata todos os dias,  o feminismo nunca matou ninguém.”  Alguns podem contestar a hipérbole de “o feminismo nunca matou ninguém” (Valerie Solanas, autora do Scum Manifesto, chegou perto de assassinar Andy Warhol…); já quanto ao machismo ser mortífero (além de estúpido…), isto beira o incontestável: é fato comprovado por estatísticas (obscenas) às mancheias como aquelas que, no blog da Boitempo, Flávia Biroli – co-autora do livro Feminismo e Política – oferece, dando as dimensões estarrecedoras do problema:

batgirl-da-licao-de-feminismo-pro-coxinha

Biroli

MACHISMO MATA – Precisamos falar sobre feminicídio

“A lei do feminicídio foi sancionada pela presidente Dilma Rousseff em 9 de março de 2015. O feminicídio corresponde ao assassinato de mulheres pelo fato de serem muheres. No Brasil, esse tipo de assassinato tem aumentado. Segundo os dados do Mapa da Violência de 2012, em sua atualização dos dados específicos sobre homicídio de mulheres no Brasil, há registro do assassinato de 92.100 mulheres no país entre 1980 e 2010. Em 2010, esse registro foi de 4.465 mulheres assassinadas. Um estudo mais recente do IPEA fala em 5,82 mortes a cada 100 mil mulheres entre 2009 e 2011 – reproduzindo o destaque do relatório, uma média de 5.664 mortes por ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, uma a cada hora e meia. Segundo dados presentes no Mapa da Violência, um número inferior, de 4,4 mulheres a cada 100 mil habitantes no ano de 2009, deu ao Brasil a quinta posição entre 84 países que tiveram seus índices de homicídios contra mulheres comparados pela Organização Mundial de Saúde.

A maior parte dessas mulheres é jovem e tem baixa escolaridade. Segundo o estudo do IPEA, 61% delas são negras. Dados apresentados pelo Mapa da Violência mostram que em 71,8% dos registros de atendimento, a violência ocorreu na casa das mulheres. Trata-se de um padrão fundamental para o entendimento do feminicídio: mulheres de diferentes faixas etárias são agredidas no espaço doméstico, por pessoas que lhes são próximas – pais, tios, namorados, companheiros. E apesar da enorme importância da Lei Maria da Penha, de 2006, os estudos disponíveis indicam que houve pouco avanço na prevenção do homicídio de mulheres por homens que lhes são próximos.

Não são dados novos para quem está atenta ao tema. O Brasil é uma sociedade na qual mulheres são violentadas e assassinadas rotineiramente.” (BIROLI. Leia o artigo completo)

É um muito bem-vindo sopro de vida e renovação que as mulheres brasileiras estejam se empoderando tanto e articulando esta ‪#‎InsurgênciaFeminista‬ contra o Machistério do golpe, numa “Primavera Feminista” prenunciada por Marchas das Vadias e das Margaridas, mas promete neste ‪#‎Junho2016‬ escrever páginas notáveis para a história do feminismo no país. Mobilizadas em repúdio à ‪#‎CulturaDoEstupro‬ e contra o regime ilegítimo de Michel Temer e sua corja de machos, velhos, corruptos, branquelos, destroçadores de direitos sociais, que só sabem governar para o 1% da cúpula (empresarial, midiática, jurídica etc.), as ruas em coro garantem: “machistas, golpistas, não passarão!” 

Emma Goldman, Rosa Luxemburgo e Simone Weil estariam orgulhosas de nossas “guerreiras” (não no sentido bélico e macho man, mas muito mais na vibe Clara Nunes!).

“Canto pelos sete cantos
Não temo quebrantos
Porque eu sou guerreira…”

Neste Domingo (29/05), estive no Lago das Rosas, filmando o ato cívico que ficou registrado em Transmutando Dor Em Luta (22 min): ao som dos tambores afro e com muita capoeira rolando no coreto, elas manifestaram toda a repulsa pelo (des)governo do Mr. Biônico, pai de Michel Laranjinha e da Srta Bela Recatada & do Lar. Michel Temer cuspiu na cara de mais de metade da população do país, depois do afastamento de Dilma pelo Senado, ao nomear seu Ministério da Testosterona. O #ForaTemer virou palavra-de-ordem entoada em altos brados pelas mulheres, mas também pelos movimentos negros, estudantis, LGBT, indígenas – já que nenhum deles se sente minimamente representado pelos “recém-chegados” (aqueles que jamais venceriam as eleições, com tal projeto neoliberal fundamentalista, e que chegaram ao poder só pelo atalho do golpeachment).

E que ninguém diga que o feminismo é só falação: a desobediência civil feminista já se manifestou ultimamente em episódios notáveis de ação direta. Por exemplo: em Maio, ao início da interinidade de Temer, elas acorrentaram-se às grades do Palácio do Planalto, impedindo a passagem do traíra, que teve que entrar, como bom usurpador, pela porta dos fundos. Dias depois, rolou “invasão” (com o perdão do uso deste termo maculado pelas patas do P.I.G.) do STF (cúmplice, se não co-partícipe, do golpe parlamentar-midiático).

Uma interessante reportagem do El País, A Justiça no Brasil não é divina, é feminina (de Carla Jiménez), também aponta um raiar alentador de insurgência feminista em meio à perseverante barbárie do patriarcado belicista e autoritário – simbolizado, melhor que ninguém, por Dudu Cunha, o crápula teocrático que chefiou o complô golpista e agora está recebendo a bolsa-bandido para ser nosso presidente oculto, e por Bolsonazi, o apologista da tortura (a guy who has shit for brains):

1

“Há um dado alentador no meio desta barbárie. À medida que a incompetência na condução das investigações no Rio [sobre o estupro perpetrado por 33 homens] foi exposta, cresceu a coragem das mulheres de se manifestar. Nas redes sociais, e até na sede do Supremo, onde calcinhas manchadas de vermelho foram exibidas e flores depositadas na estátua que representa a Justiça. As mulheres deste país já não suportam mais. Neste exato momento em que algum tarado está assistindo a cenas de estupros clandestinas no Whatsapp, há mulheres criando grupos de apoio, buscando inspiração em exemplos de ações conjuntas contra o estupro em outros países, e organizando manifestações para repudiar esta cultura selvagem.” – El País

DSC_0348

Marcha das Vadias 2013, São Paulo, SP. Foto: Rony Marques.

Rio dia 2

Rio de Janeiro, 2 de Junho de 2016

Rio 03Saiba mais sobre a #CulturaDoEstupro

MV5BMjA1OTkwMjg3MF5BMl5BanBnXkFtZTgwODI4NDAwNjE@._V1_SY1000_CR0,0,713,1000_AL_O cinema e a música ajudam a pôr o cenário em chamas: Sufraggette – As Sufragistas, de Sarah Gavron, apesar de focado no movimento britânico pelo voto feminino de mais de um século atrás, é um dos filmes mais memoráveis dos últimos tempos e ainda tem muito a nos ensinar sobre a desobediência civil não-violenta – que para além de Gandhi, Luther King ou Thoreau, também tem ilustres praticantes nos movimentos feministas.

Na Rússia, o “caso Pussy Riot” revelou também possibilidades estéticas de um radicalismo louvável, excitante, como na ocasião em que as “Sex Pistols do Putin” fizeram uma desbocada performance na catedral de Moscou e depois foram em cana (tema do delicioso doc A Punk Prayer), revelando todo o autoritarismo do Estado Policial putinesco. Outro documentário que está dentre os mais excelentes dos últimos anos, Je Suis Femen (Eu Sou Femen), de Alain Margot, é um retrato cheio de empatia e verve do coletivo ucraniano-francês [FEMEN], que também pode muito bem inspirar ações das ativistas latino-americanas.

Aqui no Brasil destaco também a relevância atual da teoria-e-práxis de intelectuais orgânicas como a filósofa Márcia Tiburi, uma das idealizadoras do #PartidADjamila Ribeiro, colunista de Carta Capitalsecretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo; Ivana Bentes, exonerada do cargo de Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura do Brasil no Golpe de 2016, que escreveu um belo relato sobre a mobilização feminista, no Rio, em 02 de Junho; dentre outras figuras que vale a pena acompanhar. Nas redes sociais, recomendo: Geledés | Instituto da Mulher Negra; Não Me Kahlo; Juntas.

* * * *

CONFIRA TAMBÉM:

LIVRARIA FEMINISTA – ALGUMAS OBRAS RECOMENDADAS
PELA EDITORA VERSO BOOKS

“A landmark manifesto” — Susan Faludi, New Yorker

An international bestseller, originally published in 1970, when Shulamith Firestone was just twenty-five years old, The Dialectic of Sex was the first book of the women’s liberation movement to put forth a feminist theory of politics.

Beginning with a look at the radical and grassroots history of the first wave (with its foundation in the abolition movement of the time), Firestone documents its major victory, the expansion of the franchise in 1920, and the fifty years of ridicule that followed. She goes on to deftly synthesize the work of Freud, Marx, de Beauvoir, and Engels to create a cogent argument for feminist revolution.

Ultimately she presents feminism as the key radical ideology, the missing link between Marx and Freud, uniting their visions of the political and the personal.The Dialectic of Sex remains remarkably relevant today—a testament to Firestone’s startlingly prescient vision. The author died in 2012, but her ideas live on through this extraordinary book.

* * * *

An examination of how mainstream feminism has been mobilized in support of racist measures

Feminist Christine Delphy co-founded the journal Nouvelles questions féministes with Simone de Beauvoir in the 1970s and became one of the most influential figures in French feminism. Today, Delphy remains a prominent and controversial feminist thinker, a rare public voice denouncing the racist motivations of the government’s 2011 ban of the Muslim veil. Castigating humanitarian liberals for demanding the cultural assimilation of the women they are purporting to “save,” Delphy shows how criminalizing Islam in the name of feminism is fundamentally paradoxical.

Separate and Dominate is Delphy’s manifesto, lambasting liberal hypocrisy and calling for a fluid understanding of political identity that does not place different political struggles in a false opposition. She dismantles the absurd claim that Afghanistan was invaded to save women, and that homosexuals and immigrants alike should reserve their self-expression for private settings. She calls for a true universalism that sacrifices no one at the expense of others. In the aftermath of the Charlie Hebdo massacre, her arguments appear more prescient and pressing than ever.

* * * *
Barrett - Womens Oppression Today - PRINT

Women’s Oppression Today: The Marxist/Feminist Encounter

Women’s Oppression Today is a classic text in the debate about Marxism and feminism, exploring how gender, sexuality and the “family-household system” operate in relation to contemporary capitalism. In this updated edition, Michèle Barrett surveys the social and intellectual changes that have taken place since the book’s original publication, and looks back at the political climate in which the book was written. In a major new essay, she defends the central arguments of the book, at the same time addressing the way such an engagement would play out differently today, over thirty years later.

 * * * *

Livro5

Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis

During the ferment of the New Left, “Second Wave” feminism emerged as a struggle for women’s liberation and took its place alongside other radical movements that were questioning core features of capitalist society. But feminism’s subsequent immersion in identity politics coincided with a decline in its utopian energies and the rise of neoliberalism. Now, foreseeing a revival in the movement, Fraser argues for a reinvigorated feminist radicalism able to address the global economic crisis. Feminism can be a force working in concert with other egalitarian movements in the struggle to bring the economy under democratic control, while building on the visionary potential of the earlier waves of women’s liberation. This powerful new account is set to become a landmark of feminist thought.

* * * *

* * * * *

OUÇA TAMBÉM:

Cobain

“O estupro é um dos mais terríveis crimes na terra e isso acontece a cada poucos minutos. O problema com os grupos que lidam com o estupro é que eles tentam educar as mulheres sobre como se defender. O que realmente precisa ser feito é ensinar os homens a não violar. Vá à fonte e comece por aí.” – Kurt Cobain @ Nirvana


ESCUTA TAMBÉM NA JUKEBOX:

RIOT GIRLS & GRUNGY CHICKS – 25 músicas poderosas do “rock’n’roll das minas”

“THE TRUMAN SHOW / O SHOW DA VIDA” (PETER WEIR, 1998) #CINEPHILIA_COMPULSIVA (por Eduardo Carli de Moraes)

A Caverna de Platão, reinventada na era hi-tech da indústria cultural: eis o que The Truman Show concretiza frente a nossos olhos. A febre televisiva dos reality shows – fenômeno da cultura de massa que se tornou uma epidemia com a proliferação de Big Brothers e similares – é o tema do filme de 1998 realizado pelo cineastra australiano Peter Weir, o mesmo de Sociedade dos Poetas Mortos. 

A ironia começa no título: The Truman Show seria mais apropriadamente traduzido como “O Show do Homem de Verdade”, o espetáculo “honesto” do true man. Só que o programa de TV em questão exorbita em falsidade, artificialidade, sendo claramente percebido pelo espectador como um mundo fake, como uma pseudo-realidade. Estamos diante de alguém que parece-nos preso numa cidade-de-brinquedo, numa vila artificial como estas que se fabrica nos jogos à la Simcity.

Neste Simcity-real que é Hollywood, por exemplo, edificam-se cidades cenográficas inteiras, fabricam-se pirotecnias e efeitos especiais mil, para poder criar um produto midiático cuja conexão com a realidade muitas vezes se perdeu tão amplamente que vemos diante dos olhos um carrossel de mentiras filmadas. E com o terreno todo minado pelas iscas do merchandising.

Caverna Platon Atemporal

 O personagem interpretado por Jim Carrey é o prisioneiro de uma Caverna similar àquela descrita por Platão em seu diálogo A República, só que agora numa versão atualizada para a era digital e cibernética. Assim como na Caverna estavam acorrentados os prisioneiros, que nada viam além das imagens fantasmáticas projetadas na parede de seu cárcere, Truman é o prisioneiro de uma ilha, gerida pela indústria do entretenimento, onde ele é tratado sempre, desde o princípio de seus dias, como uma marionete, um títere a ser manipulado, um peão a mexer no tabuleiro de xadrez do Espetáculo, sempre com o fim de maximizar os Ibopes e os lucros…

Todas as táticas astuciosas do merchandising estão sendo ironicamente criticadas pelo filme: Truman é muitas vezes coagido, pelas pessoas com quem “convive” na cidade cenográfica de que é um prisioneiro iludido, a postar-se diante dos anúncios publicitários. Empurram Truman para um cenário urbano onde, no segundo plano, vê-se um outdoor seduzindo para as delícias de um frango frito vendido nas junkfoodarias ao estilo McDonald’s e KFC.

Enquanto joga golfe no asfalto, com seu falso amigo (na verdade um ator…), Truman é interpelado pela ideologia subliminar do consumismo: olhando para as câmeras com o rosto de quem está deliciosamente embriagado, mostrando claramente para a lente a marca da cerveja, o “amigo” obriga Truman a ouvir repetidas vezes: “Meu caro, não há cerveja mais deliciosa do que esta!” (Na real, o interlocutor não é Truman, de verdade, mas o imenso público de telespectadores que precisam ser convencidos a comprar o produto da marca Y…).

Truman Show 21

De modo similar, sua esposa está frequentemente conversando com Truman ao modo de um anúncio ambulante de gadgets à disposição no supermercado: reclama com o maridão que a grama está muito mal cortada, para em seguida recomendar que cumpre comprar  uma máquina nova, melhor, mais charmosa, à venda no WalMart, em promoção imperdível, proclamada nos slogans como revolucionária invenção da maravilhosa e humanitária empresa X…

A mesma “estrutura narrativa” do mito da Caverna platônico também é utilizada no filme de Weir, que descreve como Truman de certo modo vai buscando libertar-se de sua prisão, passando a questionar a veracidade do mundo que rodeia seus sentidos. A descoberta de sua condição de escravo manipulado pela indústria do entretenimento é o que constitui a verdade aventura do filme. Truman vai “despertando” para sua real condição: a de alguém que foi desde o princípio ludibriado.

Quando começa a descobrir-se como alguém que foi enganado, alguém que foi encerrado na prisão – literal e mental – de uma Caverna que Marx & Engels analisarão sob o conceito de ideologia. Truman é prisioneiro da caverna ideológica no sentido de que foi. por 10.000 dias. o funcionário exemplar da maquinaria do Espetáculo, trabalhando sorridente para o lucro e o deleite dos empresários midiáticos, que enriqueciam suas contas bancárias com a venda de mercadorias nos tele-mercados altamente capitalizados.

O filme, porém, descreve uma crise, que se passa aproximadamente no dia 10.000 do programa (uma longevidade impressionante, mas que não é inteiramente irrealista: vejam quanto tempo de duração no ar tiveram shows televisivos como Seinfeld, Friends, Chaves, TrapalhõesJô Soares  etc.). Todo o cenário destinado a ludibriar Truman começa a desabar como um castelo de cartas na ventania. O prisioneiro começa a se debater contra aquilo que o acorrenta à Caverna, aquilo que o prende a esta ilha de enganações impostas por autoridades invisíveis.

Truman, se um dia pôde engolir direitinho a lorota ideológica, que lhe inculcou o pensamento de que ele vivia num dos lugares mais maravilhosos da terra, a ilha de Seahaven, no decorrer do filme vai rebelando-se contra a cidade. Vai tornando-se, de cidadão respeitador da lei e da ordem, em anárquico subversor de limites e regras.

Além do mais, se Truman pode escapar às teias totalitárias do sistema que o rodeia com suas câmeras de onivigilância, é também porque seu mundo subjetivo não é totalmente domável pelo poder. Não se controla tão facilmente a “vida afetiva” de um ser humano como se faz com um robô programado a responder aos comandos de um controle remoto. Vejam, por exemplo, esta “cena” chave do quebra-cabeças: para os empresários de TV, foi apenas uma bela cena, um ótimo produto da teledramaturgia, quando Truman, em sua infância, velejando no mar com seu pai, enfrentou uma tempestade (artificalmente induzida, é claro!), e na qual seu pai supostamente morreu afogado e foi sepultado no chão do oceano, para nunca ter seu cadáver encontrado. Pode-se imaginar os magnatas da mídia celebrando os milhões de dólares provindos dos picos de audiência. Para Truman, porém, aquilo não é “cena”, é vivência; e torna-se, é evidente, um trauma. 

Truman Show 3
Truman Show 4

Cedo no filme nos damos conta do caráter neurótico de Truman, que cedo se manifesta no seu sintoma da fobia à água. Em seu trabalho, mandam-lhe realizar um serviço em outra ilha, que exige uma viagem de balsa (ferryboat), mas Truman, ao encaminhar-se ao barco, é acossado e possuído pelo trauma, pelo retorno da experiência antiga e amarga. Sua fobia o impede de seguir viagem. A fobia de Truman é o que prende-o a Seahaven e o que, no filme, ele terá o empenho heróico de superar.

 A neurose que lhe restou como legado de suas vivências como prisioneiro da indústria cultural de espetáculos lucrativos é também a raiz de sua insatisfação existencial, inseparável esta de sua rebeldia. A tensão dramática impressionante do filme tem a ver com o conflito interior que toma conta do personagem enquanto ele vê digladiarem-se, em seu peito, o “conservadorismo”/conformismo daquele que adapta-se e não questiona, de um lado, e o ímpeto de rasgar o véu de Maya e saber de fato o que está ocorrendo, de outro.

Se, por um lado, o peso do passado lhe legou o imobilismo e a fobia, ou seja, a incapacidade psicológica e física de escapar pelo mar, por outro lado Seahaven vai tornando-se tão mais insuportável quanto mais Truman vai desvelando sua verdadeira natureza: a de uma prisão. Da prisão da ideologia só podemos nos libertar quando tivermos plena consciência de sermos prisioneiros! Rosa Luxemburgo dizia que “quem não se move não sente as correntes que o prendem”. Truman, conforme o filme progride, sente cada vez melhor as correntes que o prendem, e esta consciência da servidão, a insatisfação diante desta condição servil, são aquilo que dá força à seu ímpeto rebelde, disruptivo.

Truman Show

1984Não sei se concordam comigo, mas para o meu gosto o filme fica bom mesmo quando Truman vai virando a ovelha negra, caso-de-polícia, perigoso subversivo. Pois o filme versa também sobre o fracasso, em última instância, do poder controlador e manipulador que procura seu domínio através da vigilância e do policiamento mais invasivos. Temos no filme Truman Show, pois, uma prefiguração de toda a temática que veio à tona com as revelações de Edward Snowden e as práticas cotidianas, nos EUA, da NSA (National Surveillance Agency). Certas forças políticas acabaram por acreditar que 1984, o clássico romance-denúncia de George Orwell, era um manual de instruções (!), ao invés de uma contundente porrada dada nos totalitarismos de ambições dominadoras.

A Sociedade do Espetáculo revelou-se como a era dos control freaks, com a proliferação de um complexo industrial carcerário e policial que atinge, em especial nos EUA (mas também no Brasil, na Rússia, na China e em tantas outras regiões) a dimensão de uma epidemia bastante triste onde o aprisionamento em massa, para punir os pobres, encontra-se articulado com uma indústria cultural destinada a perpetuar ideologias de sistemas econômicos e políticos que são justamente os responsáveis pelo militarismo, pelo belicismo, pelo frenesi carcerário.  Truman é “prisioneiro de luxo”, é claro, e sua condição nem de perto lembra a condição execrável em que são condenados a viver os “condenados” pela Justiça, lançados ao sistema carcerário hoje dominante…

A teia de mentiras, tecida ao redor de Truman, começa a colapsar quando ele revê seu pai, que ele pensava morto, reaparecer em cena como um mendigo. Para economizar uns trocados, a empresa de TV provavelmente resolveu utilizar o mesmo ator para personagens diferentes, o que é o estopim para a onda de ceticismo que toma conta de Truman. Desconfiando ele desperta. É duvidando da veracidade do sistema à sua volta que ele começa, mexendo-se, a sentir as correntes que o prendem. Sua insurgência, é claro, nasce de modo instintivo e um tanto caótico.

Como um bicho feroz numa jaula pequena, começa a sonhar em ir para a ilha de Fiji – que é exatamente do outro lado do mundo, o lugar mais longínquo que existe para ele. Que Truman queira vazar para o mais longe possível de Seahaven é um sinal de sua insatisfação com sua condição. O filme de Peter Weir vai convertendo-se aos poucos em um jailbreak, uma aventura de fuga-da-prisão, mas bem mais alegórica do que os enredos realistas de filmes como Fuga de Alcatraz, PapillonUm Sonho de Liberdade.

 O sistema organizou-se ao seu redor no sentido de amedrontá-lo diante da perspectiva de viajar, de partir. Ele tenta comprar uma passagem de avião para Fiji, mas é óbvio que não conseguirá do sistema tão fácil o seu tíquete de fuga. Tudo fazem os “donos do jogo” para dissuadir Truman de escapar de sua jaula dourada. Como uma mosca aprisionada na teia do poder, Truman tenta escapar dos controles, mas tem a experiência reiterada de que o poderio dessa entidade controladora é muito extenso. Com seus tentáculos, que parecem estar em toda parte, o grande polvo do “poder” tenta impedir todas as rotas de fuga de Truman. Suas tentativas de escapar devem apenas gerar boas cenas de ação, aumentos nos picos de audiência, mas devem mantê-lo preso ao labirinto, como um rato de laboratório.

Com o carro, Truman tenta se dirigir a Atlantic City, depois a New Orleans, mas o polvo do poder não cessa de interpor obstáculos em seu caminho, fabricando trânsito congestionado, botando fogo em estradas ou simulando uma contaminação radioativa que impede o tráfego na via. É como se uma divindade transcendente se manifestasse em atos ao redor de Truman. Mas não se trata de um deus, mas sim do personagem de Ed Harris, o “coordenador” daquela peça complexa de teledramaturgia…

O Ed Harris encarna a figura do manipulador-mor, do mestre-de-títeres; para ele, Truman, apesar de um homem de carne-e-osso, é tratado como marionete, como boneco. Provocar emoções intensas em sua cobaia, o Truman que é seu rato-de-laboratório-midiático, é a função desta figura cheia de poderio. Ele “orquestra” não apenas um programa de TV, mas todo um sistema de doutrinação social, toda uma máquina difusora de ideologia.

Um exemplo muito concreto: o Titereiro Christof (Ed Harris) conduz sua cobaia (O Truman, Jim Carey) de experiência traumática (a suposta morte do pai) a re-encontro triunfal – e o Ibope bomba! Truman descobre que seu pai não morreu de fato naquela noite fatídica, mas que sobreviveu e re-aparece agora em cena, em boa hora, para fornecer à telenovela a possibilidade de um lucrativo melodrama sobre a reunião de pai e filho. “Grande show!”, comemoram os produtores do Truman Show, quando o títere de carne-e-osso Truman abraça-se com seu pai, como se estivesse aplaudindo a transcendência divina que intercedeu a seu favor.

mafalda1

Truman é sobretudo um Frankenstein da indústria cultural globalizada, uma criatura disfuncional e estranha do sistema que o incubou. A ideia era realizar um reality show realmente global – 1.7 bilhões de pessoas assistem pela TV ao nascimento de Truman; 220 países estão ligados em suas aventuras e desventuras… – mas que acaba revelando a própria máquina de produzir psicose que é todo esse o sistema Capitalista-Espetacular.

As câmeras escondidas (um enxame delas!) vigia e transmite a vida de Truman sem parar – ele está sempre no ar… –   e isso lhe dá a impressão alucinante de que o mundo gira ao seu redor. A psicopatologia de Truman é pior que um narcisismo, que um antropocentrismo patológico, é uma espécie de egocentrismo com elefantíase. E difícil é decidir qual dos dois tem o ego mais elefântico, se Truman ou se Cristof. Na verdade, no filme Cristof é quem “brinca de Deus”, realmente; Truman é sua vítima, seu títere, seu Frankenstein. A noção de divindade se aplica aqui porque a Truman, os poderes de Cristof parecem de fato como emanados de um “poder superior”: aquele poder, que na realidade concreta mantêm Truman num cárcere, num imenso bunker de metal, situado em Hollywood, California.

Truman não tem idéia e não toma consciência com facilidade do fato de que ele não está em “Seahaven”, a ilha, porra nenhuma; ele está aprisionado dentro de um artifício, dentro de um bunker que foi isolado do real. Não é permitido a Truman que saiba de sua condição de cidadão de Hollywood – ele tem que prosseguir cego, preso à lorota de que ele de fato vive numa inventada terra de ficção, uma fantasia armada em concreto.

A questão que fica é: caso tiremos Truman desta sua prisão-bolha, deste seu bunker de artificialidade, o que ele faria depois de viver um tempo “no real”? Talvez sentisse uma saudade imensa de sua Ítaca, a Seahaven onde “tudo gira ao seu redor”. O narcisismo de Truman é um construto da condição social em que se encontra, na posição de uma espécie de escravo da indústria cultural. Cristof, o pequeno deus deste micromundo onivigiado e onicontrolador, o tirano-mor deste totalitarismo em microcosmo, é o megalômano dos megalômanos. No filme, Cristof é figura meio Prometeica, que quer rivalizar com o poder de deus, e que por isso acaba tratando outro ser-humano como coisa – peão de xadrez, marionete de um teatro de Ibopes…

Para Truman, existe também um “Dark Side Of The Moon”, um lado escuro da Lua, e é literalmente o fato de que a Lua em seu céu é uma fake-Moon, uma construção humana, e nela escondido está o “olho” do Poder, o Panopticon da trupe de Cristof, essa figura que é celebrada na TV como um “televisionary”. Ou seja, o “televisionário”, o visionário da mídia, soube criar toda uma teia de artificialidade dentro do qual manipula sua cobaias humanas, instigando-os às situações e aos afetos que dão boa audiência e aumentam a venda de mercadorias… O importante é que o Truman Show continue “vendendo”, e pra isso a cobaia-Truman deve levada a extremos, mesmo que isso destrave comportamentos excêntricos e imprevisíveis.

No fim das contas, Cristof vende seu supostamente “revolucionário” produto-midiático como uma grande inovação pois é um show sem script pré-definido, um show que vai se escrevendo conforme acompanha a “aventura de formação” de seu protagonista entre o berço e o seu 10.000 dia… A crise destravada neste limite transposto do 10.000 dias tem a ver com uma série de irrupções de estranhezas no cotidiano de Truman, a começar por aquele cena, bem no inicío, quando um holofote de luz despenca do céu como se fosse uma estrela cadente e espatifa-se no asfalto, para assombro de Truman, que não sabia que holofotes podiam chover das nuvens… Que estranho mundo, digno da imaginação de um Lewis Carroll, o cinema de Peter Weir soube realizar com este neo-clássico do sci-fi!

A crise de Truman impulsiona-o ao jailbreak, o que faz com que ele escape, pela primeira vez, ao radar do poder, furtando-se aos tentáculos do polvo onipresente. Cristof, quando seu Frankeintein desaparece, como se escapulisse de sua coleira, brinca de deus em modo hard e apela pesado: ordena que, no meio da madrugada, faça-se nascer um sol… C0m a luz do sol artificial, chamado a raiar antes da hora pelo teledramaturgo em seu jogo de “Master of Puppets”, Christof manifesta-se enfim com a arbitrariedade que se espera de uma boa divindade. Chuta o pau da barroaca e ousa penetrar na “normalidade instituída” do “cosmos” de Truman e subverter as regras do jogo. Truman, diante disso, pensará estar diante de um milagre? Ou já raiará nele a noção de estar preso dentro de um grande estúdio, dum pequeno theathrum mundi, onde a Verdade lhe foi vedade?

Quando Truman tenta escapar das garras deste mundo imundo e seu deus arbitrário e onicontrolador, Chrisof se irrita e sua psicose se manifesta. Truman é, para Cristof, uma espécie de posse, de propriedade, que ele não tolera perder. Truman tenta navegar para longe de seu cárcere, mas seu carcereiro Cristof destrava os temporais relampejantes, ainda que sob ameaça de virar seu barco e lançá-lo a uma possível morte por afogamento. Ao vivo, um magnata da mídia pratica uma tentativa de homicídio, ao vivo e a cores, justificando-se assim: “Truman nasceu diante das câmeras, por que não poderia morrer diante dela?”

Truman embarca em sentido inverso ao de Ulisses na Odisséia: este queria sair das tormentas do mar para retornar ao lar e à sua Penélope em Ítaca. Já Truman quer deixar o porto seguro de Seahaven para enfrentar as tormentas que o enviem ao coração do desconhecido, ao cerne da descoberta. É aí que Truman realmente vira herói de um filme quase contracultural: quando escolhe encarar o risco e tentar sua fuga, custe o que custar. Ele quer intensamente libertar-se de seu “deus” perseguidor, sempre vigilante, sempre interventor.

nirvana-nevermindSeu último ato, que põe um the end no programa de TV mais longevo e mais lucrativo da história da teledramaturgia (isso no mundo fictício tão bem bolado pelo roteiro de Andrew Nicol), sugere a escolha de Truman por um “salto no escuro”: ele prefere a independência à escravidão, o controlar-se como ser autônomo ao invés de prosseguir marionete de um Master of Puppets. Para relembrar uma imagem icônica da chamada Geração X, ainda carecemos do aprendizado necessário para, ao invés de ficar nadando atrás da isca do dólar, como o bebê na capa do Nevermind, nadarmos em direção à saída do aquário onde estamos encerrados…

Batendo de frente com a parede onde o céu estava pintado – aquele céu, que visto de longe, lá das margens de Seaheaven, parecia de fato um real horizonte sem fim! –  Truman chega ao estopim final da crise revolucionária que o transformou e transtornou. Ele bate de frente com o horizonte limitado, com as barras de ferro de sua jaula, que ele confundia com o céu aberto.

Custe o que custar, a verdade ele quer degustar. Truman abre a porta e deixa o recinto, abandona a farsa, vaza da Caverna, põe um ponto final à manipulação sem fim. O que ocorre depois o filme deixa no escuro. Quem ficou aguardando uma continuação, esperou em vão. É bom que seja assim: é deixada à imaginação do espectador o que ocorre com Truman no “mundo real”, onde ele sem dúvida fará muitas desagradáveis descobertas

A vida do prisioneiro após sair de sua platônica Caverna, ou melhor, como é estar com a consciência desperta após livrar-se das correntes e miragens ideológicas, tudo isso, que Peter Weir relega ao escuro que segue o “The End”, está aí para cada um descobrir – basta, para isso, mover-se para sentir as correntes que nos prendem, e em seguida cortá-las, para viver na pele o que é, após ter sido condenado a estar preso, imitando estereótipos, descobrir como é estar condenado a ser livre, forjador autônomo de percurso próprio…

 

p.s. – “O pão com que a indústria cultural alimenta os homens continua a ser a pedra da estereotipia.”
Adorno & Horkheimer (Dialética do Esclarecimento, pg 123)

Mais textos sobre cinema?
Acesse Cinephilia Compulsiva @ A Casa de Vidro