Carona com Cornel West – Trecho do filme “Examined Life” de Astra Taylor


Carona filosófica com o figuraça Cornel West!
Trecho do filme “Examined Life” de Astra Taylor

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examined-lifeASSISTA O FILME COMPLETO

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO – “Além da Metafísica e do Niilismo: a Cosmovisão Trágica de Nietzsche” [Eduardo Carli de Moraes, UFG, 2013]

Resumo
Ficha2
Além da Metafísica e do Niilismo:
a Cosmovisão Trágica de Friedrich Nietzsche (1844-1900)

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PREFÁCIO DO AUTOR

Nietzsche: eis um pensador que – nas palavras de um de seus comentadores, Gianni Vattimo – “é decisivo para o nosso presente e ainda repleto de futuro.”

 Uma das frases mais célebres de Nietzsche está em Ecce Homo: “Eu não sou um homem, eu sou dinamite” [1]. Já o sub-título de Crepúsculo dos Ídolos traz outra imagem de impacto: “Como filosofar com o martelo”. Estes dois retratos que Nietzsche pinta de si mesmo mostram que o filósofo sabe do potencial explosivo de suas críticas e demolições. Mas não nos esqueçamos que a dinamite não serve apenas para destruir e arruinar, mas também para abrir terreno para novas construções [2]. E também que um martelo, nas mãos de um escultor, serve para transformar um bloco de pedra em uma obra-de-arte, e que um médico, por sua vez, utiliza o martelo como instrumento para um diagnóstico clínico.

Na minha investigação, procurei compreender a filosofia nietzschiana como um empreendimento em que as facetas crítica e a criativa são indissociáveis, em que o destruidor e o criador estão reunidos. Uma máxima de A Gaia Ciência expressa isso muito bem: “Somente enquanto criadores temos o direito de destruir!” [3] Não considero, portanto, que o pensamento de Nietzsche seja motivado por um ímpeto apenas iconoclasta, polêmico e aniquilador. Mas sim que procura contribuir para libertar-nos do jugo de morais autoritárias, valores anti-naturais, superstições daninhas, dogmas inquestionados etc. A sabedoria nietzschiana nos convida à afirmação e à celebração da existência, em prol do desabrochar de potencialidades ainda não efetivadas, em favor de uma vitalidade ascendente e transbordante.

Neste trabalho, procurei mostrar que Nietzsche realiza não apenas uma crítica devastadora dos sistemas filosóficos metafísicos, das religiões instituídas e dos valores morais sacrossantos. Mas que há também um esforço, por parte do filósofo, em compartilhar uma sabedoria cujas características procurei explorar e que inclui uma revalorização do corpo, da sensorialidade, do devir, da multiplicidade, da alteridade, da pluralidade de perspectivas etc.

karamazov

“Se Deus não existisse, tudo seria permitido.” – Ivan Karamázov, personagem de Dostoiévski (1821-1881)

Apesar de muitas vezes referir-se a si mesmo como um “imoralista”, isto não significa, como procurei argumentar, que Nietzsche faça apologia de um vale-tudo moral, onde é abolida toda e qualquer responsabilidade e dever. Seria  simplista e falsificador atribuir a Nietzsche a célebre idéia do personagem de Dostoiévski, Ivan Karamázov, que sustenta que “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. Procurei mostrar que a morte de Deus, em Nietzsche, é vista como acontecimento potencialmente libertador, como ocasião para a emergência de novos valores e estilos-de-vida.

“As consequências mais próximas [da morte de Deus], suas consequências para nós, não são, ao inverso do que talvez se poderia esperar, nada tristes e ensombrecedoras, mas antes são como uma nova espécie, difícil de descrever, de luz, felicidade, facilidade, serenidade, encorajamento, aurora… De fato, nós filósofos e ‘espíritos livres’ sentimo-nos, à notícia de que ‘o velho Deus está morto’, como que iluminados pelos raios de uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, assombro, pressentimento, expectativa – eis que enfim o horizonte nos aparece livre outra vez, posto mesmo que não esteja claro, enfim podemos lançar outra vez ao largo nossos navios, navegar a todo perigo, toda ousadia do conhecedor é outra vez permitida, o mar, o nosso mar, está outra vez aberto, talvez nunca dantes houve tanto ‘mar aberto’…” (A Gaia Ciência, 343)

Procurei destacar a ruptura que Nietzsche realiza com uma das correntes hegemônicas da filosofia ocidental, o platonismo, em especial a cisão do real em dois “mundos” (o Sensível e o Inteligível), o que Nietzsche considera uma “fábula”. A ideia de um mundo metafísico, sobrenatural, suposta morada do absoluto e do imutável, seria, segundo o pensamento nietzschiano, um dos mais duradouros equívocos da história da filosofia. Procurei argumentar que, em Nietzsche, todos os conceitos abstratos da razão, forjados a partir da experiência empírica, permanecem tendo uma existência derivada, como produção de cérebros humanos necessariamente vinculados a corpos animados pela vontade. Procuramos elucidar, portanto, o quanto a filosofia de Nietzsche procura refletir sobre a base fisiológica e psico-somática de onde emergem os conceitos abstratos, os valores morais, as doutrinas religiosas etc. Trata-se, como indica Patrick Wotling, de “denunciar as interpretações falíveis que desde Platão triunfam na tradição filosófica, interpretações idealistas, que esquecem seu estatuto e sua fonte produtora, o corpo.” [4]

Procurei elucidar que Nietzsche se mostra contrário a todas as moralidades baseadas no ideal ascético, ou seja, que negam valor ao corpo, ao desejo, às paixões, ao tempo, à esfera dita “mundana”. A ascese, isto é, o esforço auto-mortificante de purificação, baseia-se em geral na crença em uma alma imortal, que supõe-se destinada a um destino glorioso no além-túmulo. Nietzsche diagnostica neste ideal ascético uma hostilidade contra a vida, uma “calúnia” contra a realidade terrena, um anátema lançado contra o corpo e seus instintos, uma incapacidade de afirmação da existência em sua real finitude e em seus incontornáveis tormentos. Como diz Oswaldo Giacóia, o ideal ascético, como se manifesta por exemplo no platonismo e no cristianismo, “leva a efeito um movimento de completa desvalorização da imanência em proveito da transcendência. (…) Representa, assim, a desvalorização absoluta do ‘mundo’ e da ‘vida’ em proveito de uma vida imaginária, de um ‘além-do-mundo’.”[5]

O esforço de crítica da moral que Nietzsche empreende, portanto, tem como intenção possibilitar uma libertação das energias vitais que foram sufocadas, reprimidas e culpabilizadas por doutrinas morais ascéticas que oprimem os corpos, condenam os prazeres e pregam a hipertrofia de uma razão tirânica contra as paixões. Como diz Tongeren, “mediante uma crítica à moral, Nietzsche pretende abandonar intencionalmente o caminho aplainado e descobrir a abertura para aquilo que é possível para além desse horizonte, a abertura para ‘muitas auroras que ainda não brilharam’.” [6]

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Em meu trabalho destaco também que Nietzsche confere muita importância ao senso histórico, isto é, a um pensamento filosófico sempre atento ao ininterrupto fluir do tempo. Nietzsche forjou seu método genealógico no intento de compreender como vieram-a-ser as instituições, legislações, valores morais, costumes e crenças com que hoje nos deparamos. Compreender a origem histórica dos valores morais e relacionar seu surgimento a conflitos sociais de classe e jogos de dominação equivale a mostrar quão infundada e ilegítima é a pretensão das morais e das religiões de possuírem uma verdade eterna de fonte divina. Em Humano, Demasiado Humano, por exemplo, Nietzsche critica um defeito de muitos filósofos, que:

“Involuntariamente imaginam o homem como uma verdade eterna, como uma constante em todo o redemoinho, uma medida segura das coisas. Muitos chegam a tomar a configuração mais recente do homem, tal como surgiu sob a pressão de certas religiões e de certos eventos políticos, como a forma fixa de que se deve partir. Não querem aprender que o homem veio a ser, e que mesmo a faculdade de cognição veio a ser…  Tudo veio a ser, não existem fatos eternos, assim como não existem verdades absolutas. – Portanto, o filosofar histórico é doravante necessário, e com ele a virtude da modéstia.” [7]

heraclito

“Tudo flui. Não se entra duas vezes no mesmo rio.” – Heráclito de Éfeso (535 a.C. – 475 a.C.)

Quis mostrar que a filosofia de Nietzsche combate, portanto, a idéia de que existem valores morais, sistemas filosóficos ou doutrinas religiosas de validade eterna, verdade absoluta ou universalidade legítima. A própria Humanidade é concebida como um fenômeno histórico, re-inserida na Natureza que lhe deu origem, de modo que Nietzsche rompe também com a noção criacionista de uma origem sobrenatural para o homem. Por estar “embarcado” na correnteza da história, e por ser uma espécie animal dentre milhões de outras que co-existem no seio da Natureza em fluxo, o homem é inescapavelmente um ser mutante, que integra um cosmos eternamente movediço. Quer aceite este seu destino, quer lute contra ele, cada um de nós, para usar a expressão da canção de Raul Seixas, é uma “metamorfose ambulante”. Procuro compreender o pensamento de Nietzsche, portanto, como fiel ao preceito do filósofo grego Heráclito, que sustentava que “tudo flui” e que “é impossível entrar duas vezes no mesmo rio”.

Considero ainda que Nietzsche jamais sugeriu “fazer tábula rasa do passado”, nunca elogiou o esquecimento da História ou o aniquilamento de seus legados, mas sim uma relação dinâmica e fecunda com o passado: como escreve Karl Jaspers, “em nenhuma parte Nietzsche estima o ato de esquecer o que foi transmitido pela história e recomeçar a partir do nada… Toda sua obra é penetrada por seu intercâmbio com a grandeza do passado, mesmo daquele que ele rejeitou.”[8]

Prova desta relação frutífera com o passado é o modo como Nietzsche reativa a potência do mundo grego pré-socrático, como por exemplo os ritos dionisíacos e a obra dos poetas trágicos (em especial Ésquilo e Sófloces). Nietzsche formulou assim uma sabedoria, que encarna em seu Zaratustra ou nos espíritos livres, cujas características procuramos explorar nessa pesquisa: trata-se de um sujeito afirmador de sua vontade e de seu corpo, criativo e questionador, capaz de superar todo ressentimento através do amor fati, que jamais se acomoda em seu estado atual e procura sempre superar-se, e que age no mundo mais como sátiro do que como santo, mais como dançarino do que como estátua. Em A Gaia Ciência, por exemplo, Nietzsche pinta o retrato do espírito livre, que seria dotado de “uma alegria e uma força de soberania  (…) em que o espírito recusaria toda fé, todo desejo de certeza, tendo prática em manter-se sobre as cordas leves de todas as possibilidades e até mesmo em dançar à beira do abismo. Esse seria o espírito livre por excelência.” [9]

Para Nietzsche, as convicções e os dogmas são inimigos do filósofo e prejudicam-nos em nossa aventura de conhecimento. Quem quer de fato tornar-se amigo da sabedoria tem de ousar libertar-se de certezas apaziguadoras, crenças reconfortantes e tomadas-de-partido inquestionadas. Como diz em Aurora: “A serpente que não pode mudar de pele perece. O mesmo ocorre com os espíritos que se impedem de mudar de opinião; cessam de ser espíritos.” [10] O filósofo autêntico, de acordo com Nietzsche, é uma figura em que se encarna um certo ímpeto heroico de busca pelo saber. Relembremos as palavras de Aurora:

“Nosso impulso ao conhecimento é demasiado forte para que ainda possamos estimar a felicidade sem conhecimento ou a felicidade de uma forte e firme ilusão. (…) A inquietude de descobrir e solucionar tornou-se tão atraente e imprescindível para nós (…) que o conhecimento transformou-se em paixão que não vacila ante nenhum sacrifício e nada teme, no fundo, senão sua própria extinção…” [11]

Um clássico comentário do pensamento de Nietzsche escrito por Karl Jaspers

Um clássico comentário do pensamento de Nietzsche escrito por Karl Jaspers

A filosofia, afinal, não é uma busca interesseira por ideias apaziguadoras ou convicções agradáveis, nem por um cômodo repouso no colo de verdades imutáveis, mas um heróico navegar, em mares perigosos, em busca de um saber sobre o real que nada garante que terá um sabor doce ou que vá nos tornar felizes. O filósofo autêntico, para Nietzsche, segundo nossa interpretação, é aquele que ousa ir à conquista de um saber, ainda que este possa ter um gosto amargo e ainda que acarrete consequências trágicas; é aquele que, como diz Karl Jaspers, tem a coragem de entrar no labirinto, como fez Teseu, mesmo sabendo que terá que defrontar-se com o Senhor Minotauro. [12]

Consideramos que o efeito do convívio com a obra Nietzsche é a de um tônico para a vontade-de-viver. Eis uma filosofia, enfim, onde há muita sabedoria a assimilar, em especial por aqueles que, como diz Giacóia, “não temem fazer dos abismos do sofrimento uma fonte inestimável de conhecimento.” [13]

Em suma: procuramos mostrar o pensamento de Nietzsche como superação tanto da metafísica quanto do niilismo, culminando numa cosmovisão trágica que, longe de ser pessimista, significa uma celebração dionisíaca da existência como ela é, sem exclusão de seus aspectos mais dolorosos e problemáticos. Arqui-inimigo da apatia da vontade, do niilismo desalentador, do ascetismo auto-mortificante, Nietzsche, através de sua obra, canta um hino à vida que inclui um louvor à alegria, aquele afeto que, segundo Spinoza, aumenta nossa potência de existir. Como diz Zaratustra: “Desde que existem homens, o homem se alegrou muito pouco: apenas isso, meus irmãos, é nosso pecado original!” [14] Já em Humano, Demasiado Humano, Nietzsche escreve: “Eis o melhor meio de começar cada dia: perguntar-se ao despertar se nesse dia não podemos dar alegria a pelo menos uma pessoa. Se isso pudesse valer como substituto do hábito religioso da oração, nossos semelhantes se beneficiariam com tal mudança.” [15]

Para concluir este prelúdio, cito mais uma instigante idéia de Nietzsche, que me parece um belo emblema de sua “fidelidade à Terra”, em oposição à idolatria religiosa de ídolos sobrenaturais ou metafísicos: “Não há no mundo amor e bondade suficientes para que tenhamos direito de dá-los a seres imaginários.” [16]

Eduardo Carli de Moraes,
Goiânia – 08/11/2013
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REFERÊNCIAS:


[1] NIETZSCHE, Ecce Homo. Por Que Sou um Destino, §01.

[2] É o que aponta Martha Nussbaum: “Indeed, this was the whole purpose of genealogy as Nietzsche, Foucault’s precursor here, introduced it: to destroy idols once deemed necessary, and to clear the way for new possibilities of creation.” Citada por Brobjer, Nietzsche’s Ethics of Character, Pg. 49.

[3] NIETZSCHE. A Gaia Ciência, §58.

[4] Ibid. Pg. 155.

[5] GIACOIA, O. Labirintos da Alma: Nietzsche e a Auto-Supressão da Moral. Pg. 13-38.

[6] TONGEREN, P.V. A Moral da Crítica de Nietzsche à moral. Pg. 43-44.

[7] NIETZSCHE. Humano, Demasiado Humano. Capítulo 1, §2.

[8] JASPERS. Nietzsche: Introduction à sa Philosophie. Pg. 445.

[9] NIETZSCHE. A Gaia Ciência. §347.

[10] NIETZSCHE. Aurora.  §573.

[11] Ibid, §429.

[12] JASPERS. Op Cit. Pg. 231.

[13] GIACOIA. O Humano Como Memória e Como Promessa. Pg. 183.

[14] NIETZSCHE. Assim Falou Zaratustra. Op cit. Livro II, Dos Compassivos. Pg. 84.

[15] NIETZSCHE. Humano Demasiado Humano, §589.

[16] Humano, Demasiado Humano, § 129. Citado a partir de Lou Andreas-Salomé, op cit, Pg. 139: “Il n’y a pas assez d’amour et de bonté dans le monde pour avoir licence d’en rien prodiguer à des êtres imaginaires.”

Souvenir da banca na companhia de Adriana Delbó, Maria Cristina Franco Ferraz e Adriano Correia.

Um souvenir fotográfico da banca – com Adriana Delbó, Maria Cristina Franco Ferraz e Adriano Correia.

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P.S. – nos próximos meses, tentarei desmembrar este mestrado em 3 ou 4 artigos, a serem publicados em revistas de filosofia, se possível, ou aqui no blog mesmo, pra “socializar” a pesquisa e “pôr na roda” o conhecimento. Em breve!

Siga viagem…

Emil Cioran (1911 – 1995): 10 livros do filósofo romeno para baixar + documentário completo (1999, 48 min)

Emil Cioran nasceu em 1911, na Romênia, formando-se em Filosofia pela Universidade de Bucareste. Em 1937, mudou-se para a França, onde escreveu a maior parte de sua obra. Morreu em 1995, em Paris, legando-nos uma obra perturbadora, provocante, densa, de linguagem profundamente poética e estilo verbal arrojado e radical. Filósofo-poeta que confronta os cumes do desespero, sonda os abismos do niilismo e ainda tem a coragem de persistir na existência ainda que considere ter nascido mais como inconveniente do que como maravilha, Cioran escreveu algumas das mais belas páginas de filosofia que conheço. Sua escrita a marteladas às vezes tem o sabor dos melhores aforismos de Nietzsche e sua lucidez sem limites parece conduzir a extremos alguns dos convites do existencialismo Camusiano. Sobre seu “projeto filosófico”, Cioran diz o seguinte:

“queria semear a Dúvida até nas entranhas do globo, impregnar com ela toda a matéria, fazê-la reinar onde o espírito jamais penetrou e, antes de alcançar a medula dos seres vivos, sacudir a quietude das pedras, introduzir nelas a insegurança e os defeitos do coração. Arquiteto, teria construído um templo à Ruína; predicador, revelado a farsa da oração; rei, hasteado a bandeira da rebelião. Eu teria estimulado em toda parte a infidelidade a si mesmo, impedindo multidões de corromperem-se no podredouro das certezas…” (Breviário de Decomposição)

Aqui na Casa de Vidro disponibilizamos abaixo 10 ebooks completos para download, reunidos e compartilhados pelo Arquivo Kronos. Confira também o texto de Cioran Diógenes, O Cão Celestial, que pinta um retrato desta figuraça da filosofia grega, o sábio vagabundo e provocante cínico que saía à cata de um ser humano de verdade, com sua lanterna, em plena luz do dia, e que quando teve um cargo importante a ele oferecido pelo imperador, recusou-o dizendo: “Só quero que saias da frente do meu sol.”

[+] >>> https://acasadevidro.com/2012/05/21/diogenes-o-cao-celestial-por-emil-cioran-1911-95/

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DOCUMENTÁRIO COMPLETO:

“Além da metafísica e do niilismo: a cosmovisão trágica de Nietzsche” (Mestrado // Eduardo Carli de Moraes)

Mestrado

Pessoal, disponibilizei na íntegra no portal Academia.edu a dissertação que nasceu como fruto dos meus 2 anos de Mestrado, na faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Goiás – UFG: (voilà!) >>> http://bit.ly/1wvIY0b. Evoé, Friedrich Nietzsche!!! Este mestrado foi defendido em Novembro de 2013 diante da banca ilustre composta por Adriano Correia, Adriana Delbó e Maria Cristina Franco Ferraz. Agora, o arquivo está aí, compartilhado e liberado pra ser lido na Internet, baixado de graça e “pirateado” livremente (é filosofia copyleft…); todo e qualquer feedback será bem-vindo! Eis o link para download em PDF (menos de 2 megabytes).

Photo
MORAES, E. C. Além da metafísica e do niilismo: a cosmovisão trágica de Nietzsche. Dissertação (Mestrado em Filosofia), Universidade Federal de Goiás. 2013.

Esta dissertação de mestrado tem por objetivo refletir sobre a filosofia de Friedrich Nietzsche (1844-1900), compreendida como tentativa de superação tanto da metafísica quanto do niilismo. Destaca-se a valorização nietzschiana de um pensamento dotado de senso histórico, fiel ao devir ininterrupto do real, o que implica em uma cosmovisão semelhante à de Heráclito. Defende-se que a posição peculiar de Nietzsche na história da filosofia moral consiste na análise crítica da multiplicidade de diferentes valorações morais, sempre remetidas a suas fontes humanas (demasiado humanas). Através da atenção às circunstâncias e condições de surgimento, desenvolvimento e ocaso dos diversos ideais, valores morais e doutrinas religiosas, procuramos mostrar como Nietzsche constitui uma filosofia que rompe com a noção de valores divinos e imutáveis, além de des-estabilizar crenças em verdades absolutas. De modo a ilustrar o método genealógico nietzschiano em operação, investigam-se fenômenos como o ressentimento e o ascetismo, re-inseridos no fluxo histórico e compreendidos a partir de seus pressupostos psicológicos, fisiológicos e sócio-políticos. Com base em ampla pesquisa bibliográfica da obra de Nietzsche e comentadores (como Jaspers, Wotling, Rosset, Giacoiua, Moura, Ferraz, dentre outros), argumenta-se que a filosofia nietzschiana realiza uma ultrapassagem da cisão platônico-cristã entre dois mundos, além de uma superação do dualismo entre corpo e espírito. Procura-se descrever como a filosofia anti-idealista de Nietzsche, avessa ao absolutismo e ao sobrenaturalismo, age como uma “escola da suspeita”, convidando-nos a um filosofar liberto de subserviência, credulidade e obediência acrítica à tradição. Explora-se também a temática da “morte de Deus” e da derrocada dos valores judaico-cristãos, além da concomitante escalada do niilismo, no contexto de uma filosofia que busca sugerir e abrir novas vias para a aventura humana ao mobilizar conceitos como amor fati, além-do-homem e “fidelidade à terra”. Nietzsche é compreendido não somente em seu potencial crítico, demolidor da tradição idealista e metafísica, mas também como criador de uma sabedoria trágica e dionisíaca que se posiciona nas antípodas tanto dos ideais ascéticos quanto dos ideários niilistas.

PALAVRAS-CHAVE: Friedrich Nietzsche, Sabedoria Trágica, Crítica à Metafísica, Niilismo, Ética.

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“PAIS E FILHOS”, de Ivan Turguêniev [1818-1883] (Ed. Cosac & Naify, 2ª Edição, 2011, 361 pgs)

 

“O lugarzinho estreito que ocupo é tão minúsculo em comparação com o espaço onde eu não estou e onde as coisas não me dizem respeito; e a parcela de tempo que me foi dada para viver é tão ínfima ao lado da eternidade, onde não estive e nunca estarei… Mas neste átomo, neste ponto matemático, o sangue circula, o cérebro trabalha, também ele quer alguma coisa… Mas que vergonha! Que disparate!” – BAZÁROV (pg. 195)

pais e filhos

Pais e Filhos vem ao mundo numa época em que “uma Rússia morria e outra Rússia nascia” – como diz a matéria da revista Bravo!. O fim da servidão, em 1861, foi um histórico divisor de águas; no mesmo ano, é criado o movimento Terra e Liberdade, “a primeira de uma série de organizações políticas secretas empenhadas em ações violentas contra autoridades e instituições oficiais” (como relata Figueiredo no prefácio da obra). Iniciava-se uma era turbulenta, repleta de atentados violentos contra o ancien régime, que culminaria, em 1881, com o assassinato do tsar Alexandre II. 

“A polêmica que se seguiu à publicação de Pais e Filhos foi a maior de que se tem notícia na literatura russa”, relata o tradutor Rubens Figueiredo, que verteu o livro para o português direto do russo. “O termo ‘niilista’, usado por Turguêniev para definir seu herói Bazárov, popularizou-se instantaneamente e, como que de propósito, uma sucessão de incêndios criminosos de cunho sabidamente político agitou São Petersburgo. Quando Turguêniev, vindo da Europa, onde sempre passava a maior parte do ano, chegou à capital, ouviu na rua a acusação de um homem indignado: ‘Olhe só o que os seus niilistas estão fazendo: estão pondo São Petersburgo em chamas!’ Turguêniev, homem de índole pacífica e cordial, fora apanhado no meio de um turbilhão…”.

A leitura do romance torna evidente que seu autor não está elogiando, endossando ou recomendando as atitudes niilizadoras de seu protagonista; em outras palavras, Turguêniev está longe de ser ele mesmo um niilista e nada seria mais equívoco do que imputar ao autor uma visão-de-mundo idêntica a de seu personagem. Neste livro, dedicado à memória de Biélinski, elogiado por Herzen e Dostoiévski, Turguêniev  “manifesta contínuo esforço de imparcialidade” (pg. 8) e sua postura fica “longe de qualquer pendor panfletário ou mesmo polêmico” (pg. 14), afirma com propriedade o Rubens Figueiredo. Se Pais e Filhos gerou um bafáfá danado, parece-me que foi a despeito das intenções do artista, que jamais quis inspirar radicais violentos a pôr a Rússia “em chamas” – de modo similar a Goethe, que tampouco desejou, com seu Werther, desencadear na Alemanha uma série de suicídios.

Como Figueiredo destaca com acerto, “a singularidade e a audácia do livro consistiram em investigar, em termos literários, um quadro social novo e potencialmente explosivo no exato instante em que nascia… Turguêniev tinha de caminhar enquanto o solo se deslocava rapidamente sob seus pés.” (pg. 8) A matéria da Bravo! também enfatiza que “o efeito do romance foi o de uma cortina que se abre e deita luz sobre uma cena a desenvolver-se na penumbra.” Esta realidade penumbrosa, ainda inexplorada na literatura até então, este monstro nascente, não é outro senão diagnosticado também por Nietzsche, que foi contemporâneo da eclosão de incendiárias manifestações da niilina russa. 

Segundo Nietzsche, a Europa do século XIX foi invadida por um “hóspede sinistro”: o niilismo. No âmbito da filosofia nietzschiana, este termo se refere àqueles que negam todo valor à existência (a própria, a dos outros e a do mundo), que são incapazes de afirmar a realidade terrena e amar o destino. Para Nietzsche, são niilistas tanto os crentes em um Deus único e transcendente, que concluem de sua fé que devem negar o pecaminoso e corrupto mundo da carne e dos sentidos, quanto aqueles que, como Schopenhauer e os budistas, convidam à negação da vontade ou à extirpação do desejo, baseados na ideia de que o querer é a fonte de todo o sofrer. Contra a disseminação epidêmica destas doutrinas impregnadas de niilina, Nietzsche pôs em ação todo seu ardor intelectual e poder criativo, tendo se tornado talvez o maior dos mestres para aqueles que desejam superar o niilismo, vê-lo abaixo de si…

O livro de Turguêniev celebrizou-se como a primeira obra literária a protagonizar um auto-declarado “niilista”, o médico e estudioso das ciência naturais Bazárov. Na primeira ocorrência do termo no romance, o “niilista” é descrito por Arkádi, o camarada e companheiro de peripécias de Bazárov, como alguém que “considera tudo de um ponto de vista crítico” (pg. 48). Mas nem todo cri-cri é um niilista, claro: muitos críticos são afirmadores de mundivisões, valores e mitos distintos daqueles que se empenham em criticar (o próprio Nietzsche é um excelente exemplo!). Na sequência, Arkádi adiciona outros traços ao retrato de seu amigo: “O niilista é uma pessoa que não se curva diante de nenhuma autoridade, que não admite nenhum princípio aceito sem provas, com base na fé, por mais que esse princípio esteja cercado de respeito.” (pg. 48)

Definição interessante, mas que também caberia a um anarquista ou um punk. E, ao contrário do que julga o senso-comum, estes não são necessariamente niilistas: anarquistas como Kropotkin ou Emma Goldman podem negar com veemência a autoridade do Estado, criticar com insolência o sistema capitalista, criticar severamente a apropriação privada dos frutos do trabalho das massas, mas por outro lado afirmam com ardor valores de solidariedade, fraternidade e igualitarismo, engajam-se na construção de um mundo liberto de autoridades espúrias, exploradoras e parasitas.  “Niilista” e “anarquista”, pois, não são termos sinônimos. Além do mais, a definição de Arkádi, citada no parágrafo anterior, também conviria perfeitamente à figura do cético ou do cínico, aqueles que recusam qualquer tipo de sacralidade dos dogmas e doutrinas, que rejeitam todos os argumentos de autoridade… A essência do “niilismo bazároviano” deve ser buscado mais fundo, pois.

Em uma das cenas mais notáveis do romance, Bazárov dialoga com Ana e lhe confessa ser completamente desprovido de “sentido artístico” (“de fato não existe em mim tal coisa…”). Diante de fotografias de paisagens suíças, ele permanece afetivamente indiferente, incapaz de enxergar qualquer beleza. “Essas paisagens poderiam me interessar do ponto de vista geológico, por exemplo, do ponto de vista da formação das montanhas…” (pg. 133). Esta frieza é uma marca do caráter de Bazárov, que não tem um pingo de gosto pela poesia, pela música ou pela contemplação da Natureza: tudo isso não parece encontrar eco em sua sensibilidade, como se esta estivesse congelada por uma nevasca. O próprio Turguêniev dirá, em suas Reminiscências, que partilha muitas das ideias de seu personagem, que admira em sua criatura o fato de Bazárov ser “soberanamente alheio a tudo que é trivial, vulgar e falso”, mas que não compartilha com ele este vigoroso desdém pela arte e pela beleza.

 Isto se manifesta de modo explícito nas relações humanas de Bazárov, que age quase sempre com rudeza, insolência, falta de gentileza. Ele é  arredio a todo tipo de sentimentalismo e sempre deseja de se livrar do “registro afetivo” sempre que este se manifesta. Ao contrário de um anarquista ou de um punk, por exemplo, Bazárov é um sujeito que não se vincula, que não se une, que permanece ilhado numa solidão anti-social obstinada. O leitor o acompanha em sua marcha niilizadora em que ele aniquila, uma após outras, todas as oportunidades de consumar amores e de amizades.

O romance de Turguêniev, pois, tem acentos trágicos: não descreve um homem afetuoso, bem-sucedido, triunfante, mas alguém que tem a vida desgraçada por seu comportamento sempre niilizador das opiniões e comportamentos do meio social que o rodeia. Ele não suporta nem os mujiques nem os “senhores feudais”; não tem respeito algum seja pelo tsar, seja pelo povo, seja por si mesmo. É bem verdade que esta disposição de espírito misantrópica acaba gerando, vez ou outra, comentários irônicos mordazes que lembram a língua ferina e impiedosa de autores como Heine, Chamfort ou Sade. Mas se vez ou outra Bazárov aparece aos olhos do leitor como espirituoso e inteligente, esta simpatia dificilmente se mantêm nos momentos em que ele que se torna mais bélico – como na cena do duelo de pistolas contra seu desafeto Pável… – ou quando ele se mostra incapaz de tratar uma mulher linda e interessante (como Ana) com o devido carinho e amorosidade.

Vejam, por exemplo, o que ele diz à Ana em um dos primeiros diálogos dos dois:

“- Garanto à senhora que estudar as personalidades individualmente não vale a pena. Todas as pessoas se parecem no corpo e também na alma; todos temos cérebro, baço, coração, pulmões, tudo igualmente constituído; assim também as chamadas qualidades morais são exatamente iguais em todos: pequenas alterações nada significam. Basta um exemplar humano para julgar todos os demais. Pessoas são como árvores na floresta; botânico algum se daria ao trabalho de estudar cada bétula isoladamente…” (pg. 134)

Terrível equívoco, diante de uma mulher com quem o amor é possível, promulgar orgulhosamente, do alto de um púlpito, este discurso niilizador da diferença, que reduz o outro a ser igual a qualquer um! Não surpreenderá a nenhum leitor, pois, que a vida amorosa de Bazárov seja tão insatisfatória: ele explicitamente não valoriza o amor (ele não chega ,es,p a xingar o “romantismo” por não ser nada além de “espalhar açúcar sobre as coisas”?). De modo que fecha as portas a todas as possibilidades de vínculos jubilativos e alegradores da existência. “Bazárov era um grande apreciador das mulheres e da beleza feminina”, escreve Turguêniev, “mas considerava o amor, no sentido ideal ou, conforme ele dizia, romântico, um disparate, uma insensatez imperdoável… ‘Se uma mulher lhe agrada’, dizia ele, ‘tente tirar algum proveito; se não for possível, bem, não importa, dê as costas para ela e pé na estrada: o mundo é grande’…” (pg. 146).

Como se surpreender com o desenlace infeliz da relação entre Bazárov e Ana? Nosso niilista, ao negar qualquer valor a si mesmo, ao tripudiar sobre a auto-estima como se fosse seu dever tratar a si mesmo como um trapo, parece acarretar em sua vida o afastamento dos outros, que descobrem logo que serão pouco ou nada valorizados por alguém que não se valoriza. “Não vale a pena sentir saudades das pessoas, de um modo geral, e de mim, menos ainda…” (pg. 150) – declara Bazárov a Ana.

Os momentos mais comoventes do romance, segundo o meu gosto, são estes em que Turguêniev narra o modo como este vínculo amoroso fracassa. Ana não consegue evitar a sensação de que Bazaróv “a conhece pouco, apesar de crer que todas as pessoas se parecem e que não vale a pena estudá-las individualmente” (pg. 152). Aliás, não seria um sintoma da falta de conhecimento real dos outros esta crença bazaróviana que desdenha das particularidades e que não enxerga ninguém como único? Destaco um diálogo magistral de Ana e Bazárov onde ela força uma conversação sobre o tema da felicidade, sobre a qual nosso niilista conhece tão pouco:

“- Falávamos sobre a felicidade…. Diga-me por que, mesmo quando experimentamos um prazer, por exemplo, com uma música, com uma noite agradável, com uma conversa entre pessoas simpáticas, por que tudo isso parece antes uma alusão a alguma felicidade ilimitada, que existe não se sabe onde, do que uma felicidade real, ou seja, aquela que nós mesmos desfrutamos? Por que é assim? Ou, quem sabe, o senhor não sente nada de parecido?

– A senhora – respondeu-lhe Bazárov – conhece o provérbio: ‘Lugar bom é onde não estamos’…” (pg. 160)

Como seu próprio título já anuncia, Pais e Filhos é também um livro em que Turguêniev explora o tema do conflito entre as gerações. Escrito numa época (entre 1860 e 1862) em que a Rússia começava a se sublevar contra a tirania ancestral do tsarismo, em que a servidão dos camponeses começava a ser questionada e novas formações sociais emergiam, nota-se uma diferença radical entre pais e filhos – explorada no romance através da relação entre o filho Bazárov e seus ímpetos niilistas, de um lado, e seus velhos pais, devotos e tradicionalistas, de outro.

Apesar de dedicar-se ao estudo das ciências naturais e ser praticante da medicina, Bazárov é um sujeito baudelaireano que sofre terrivelmente com o spleen, tédio de viver, a sensaboria de estar-no-mundo e sentir-se insignificante no espaço e no tempo. Sua fala citada na epígrafe é um dos exemplo deste estado de espírito. A certo momento, confessa a seu amigo Arkádi: “Meus pais vivem atarefados e não se incomodam com a própria nulidade, não sentem esse mau cheiro… enquanto eu… sinto apenas enfado e raiva.” (pg. 196)

Bazárov visita raramente seus pais, e quando vai vê-los não permanece por muito tempo; além do mais, quando visita-os, exige que seja respeitada sua “reserva afetiva”: que não lhe incomodem com mimos e carinhos excessivos, que tenha o direito de permanecer só!  Seu pai assim descreve seu rebento: “É inimigo de qualquer expansão de afeto; muitos até o condenam por essa dureza do seu caráter e veem nisso um sinal de orgulho ou de insensibilidade; mas não se pode medir pessoas como ele com o metro comum, não é verdade? Outro, em seu lugar, não deixaria de tirar dos pais todo o dinheiro que pudesse; mas, de nós, acredite-me, ele nunca tomou um copeque além do necessário…” (p. 192).

De fato, Bazárov também é um homem de vida frugal, que não aprecia o luxo, inimigo de uma sociedade hierarquizada e rachada em castas. Uma frase me parece sintetizar bem a personalidade de Bazárov: “ele não gostava dessa pontualidade cadenciada e um pouco solene na vida diária; ‘como rodar sobre trilhos’, sentenciava ele; lacaios de libré e mordomos cerimoniosos insultavam o seu sentimento democrático…” (pg. 144). Ele não pode suportar a vida bem-regrada dos pais, que lhe enche de tédio, mas ao mesmo tempo não consegue se desvincular de fato de seu meio social de origem: uma estranha atração faz com que ele retorne ao seio familiar como um bumerangue. 

Incapaz de apreciar uma vida bem-regrada, com um cotidiano fixo de ações previamente mapeadas, ele deseja lançar-se “para fora dos trilhos” da comodidade e do conforto… “O lado elegante da vida me é inacessível”, confessa à Ana. Mas o curioso é que também este desejo permanece irrealizado e, longe de aventurar-se em peripécias quixotescas ou embarcar em viagens cheias de perigo, Bazárov aferra-se a estes meios sociais que considera tediosos e banais: grande parte do romance narra o modo pouquíssimo aventureiro com que Bazárov, acompanhado por seu escudeiro Arcádin, fica pulando de casa em casa, em visitas aos parentes (os seus e os de seu amigo).

Além do mais, não consegue se libertar de um ideário viril em que crê que “o homem deve ser feroz”, de modo que considera a companhia feminina como um rebaixamento ou uma fraqueza. Além disso, não há nenhum tipo de engajamento político do personagem no romance: Bazárov é um niilista isolacionista, que não luta por nenhum mundo melhor, nem mesmo através das bombas e atentados destinados a “limpar o terreno”. O que torna surpreende os efeitos imputados ao livro de ter influenciado os incendiários terroristas de São Peterbursgo!

Bazárov é de fato um personagem memorável: fechamos o livro com a sensação de que conhecemos uma pessoa que não iremos esquecer mais, apesar de seus equívocos, fraquezas, desventuras. Ele não é um modelo de conduta, um paradigma de virtude, nada se assemelha a um herói ou a um santo; é humano, demasiado humano, e sua vida é narrada por Turguêniev sem idealizações, com a inclusão de seus infortúnios e tragédias.

 Ademais, para os estudiosos de Nietzsche, esta não deixa de ser uma experiência estética altamente válida, não só por oferecer um exemplo literário de niilista encarnado, mas também para mostrar que o niilismo não é uno: há vários modos de ser niilista, sendo Bazárov um tipo particular de existência niilizadora. O que Bazárov nega, sobretudo, além de uma sociedade revoltante e de autoridades indignas de respeito, é a possibilidade humana de vínculo e de transformação. A impressão indelével que me fica é a de que Bazárov só é um niilista consumado pois é um descrente no amor.

A leitura do romance de Turguêniev foi iluminadora, pois, para refletir mais a fundo sobre este tema tão importante para a filosofia dos últimos séculos, em especial no âmbito do nietzschianismo, do niilismo. Decerto que, em Nietzsche, há um vínculo entre niilismo e metafísica – o que Turguêniev não explora. Compreendo o niilismo, segundo Nietzsche, como uma orgia de negação que acomete os espíritos que se desiludem das miragens metafísicas: quando se perde a crença em Deus, ou na bondade da Natureza, ou no final feliz da História, e ainda não se encontrou nenhum substituto para estes ídolos caídos, o sujeito tende a mergulhar numa náusea existencial de completa negatividade.

Os valores metafísicos, as verdades absolutas, os finais-felizes redentores, tudo isso, quando se esboroa no universo interior, quando deixa de ser crível, gera este estado afetivo niilizador em que o sujeito, nostálgico do absoluto, não consegue suportar a relatividade do real, a efemeridade da vida, os antagonismos que povoam a Terra. Para Nietzsche, ademais, o próprio pensamento religioso ou metafísico possui um elemento profundamente niilista na medida em que postula uma dimensão transcendente, morada do Bem e da Verdade, o que acarreta a depreciação da imanência. Em termos mais simples: niilista é aquele que não dá valor nenhum ao aqui-agora (a imanência…) pois só consegue valorizar o alhures (a transcendência).

Depois de aniquilada a crença numa transcendência redentora (Paraíso, Reino de Deus, Imortalidade da Alma, Utopia Realizada…), resta ao homem um novo desafio: o de aprender a amar o real. O niilista é aquele que se mostra incapaz deste amor fati; é o homem que insiste em recusar valor ao que existe; aquele que, diante de tudo, diz “tanto faz” e “tudo dá no mesmo…”. Descrente de tudo, cultuador da indiferença, com fixação mórbida por Tânatos, incapaz de ação criadora, transformadora e colaborativa, congela seus afetos e sua criatividade, sua capacidade de vínculo e sua aptidão para o êxtase, prostrando-se em devoção preguiçosa no altar do Nada.

Como antídotos à esse sinistro hóspede, a obra de Nietzsche fornece muitas sugestões: remeto brevemente à figura de Zaratustra, o anti-niilista por excelência, discípulo de Dionísio, dançarino ornado com sua coroa de flores, santificador do riso, mais sátiro que santo, que está nas antípodas do niilismo. Ou seja, Zaratustra é alguém em quem o poder afirmativo atingiu tal ardor que a existência é jubilosamente celebrada, com tudo o que ela inclui de problemático e terrível, com um “sim!” veemente e incondicional.

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Os Relâmpagos da Fatalidade: Reflexões Sobre o Trágico a Partir de Nietzsche & Shakespeare

“Ofélia” – John Everett Millais (1828-1896)

Caros leitores desta goma vítrea,

Segue abaixo um artigo que escrevi na tentativa de ilustrar as reflexões nietzschianas sobre a Tragédia com o auxílio das desgraceiras geniais presentes na obra shakespeareana. Eis um estudo dedicado a todos os inocentes que não escaparam que lhes caísse na cabeça um raio; a todos os que morreram em terremotos e tsunamis; a todas as vítimas de tiranias, e que nada fizeram para merecer uma existência desgraçada… É uma reflexão sobre todo o sofrimento, neste mundo, que não se explica por uma culpa prévia nem é justificável por qualquer raciocínio razoável. Chestóv me convenceu de que o trágico só está nos livros pois faz parte da vida e é parte integrante da história. Este trabalho foi apresentado na XIX Semana de Filosofia da UFG (Universidade Federal de Goiás), em maio de 2012, na mesa sobre Estética/Filosofia da Arte, e deve muito ao inspirador curso sobre o trágico do Prof. Adriano Correia. Para ler com mais facilidade, sugiro dar um pulo lá no Scribd.

Criatividade e Descrença em Nietzsche (por Martin Heidegger)


O CRIADOR É NECESSARIAMENTE UM DESCRENTE
por Martin Heidegger

 (em Nietzsche, Volume I, Ed. Forense Universitária, pg. 300-301)

Segundo Nietzsche, “toda crença é um tomar-por-verdadeiro” (A Vontade de Poder, n. 15; 1887). Porém, Nietzsche deseja ensinar-nos a “caminhar com os próprios pés” ao invés de sermos papagaios de crenças que nos foram ensinadas, impingidas, impostas. Ao invés de ser ovelhinha submissa ao pastor, crente que não questiona as “verdades sagradas”, Nietzsche nos convoca à libertação desta sina de subserviência e nos chama para que assumamos o papel de criadores. A criatividade, afinal de contas, não é o atributo de divindades que não existem, mas uma das possibilidades do humano mais dignas de serem afirmadas. Ouçamos o que diz Heidegger ao comentar o assunto:

“ ‘Eu não acredito em mais nada!” – esse é o modo correto de pensar de um homem criador.” (Nietzsche, XII, 250, n. 68) O que significa dizer: “Eu não acredito em mais nada?” Normalmente, essa asserção se mostra como o mais claro testemunho do “ceticismo absoluto” e do “niilismo”, da dúvida e do desespero em relação a todo conhecimento e ordem, e, por conseguinte, também como o sinal da fuga diante de toda decisão e de toda tomada de posição, como expressão daquela ausência de atitude para a qual nada mais vale a pena. Aqui, porém, não-acreditar significa não se ater sem mais a algo previamente dado e aí se aquietar, fechando os olhos para o próprio comodismo sob a aparência dessa suposta decisão.

 Segundo a concepção nietzschiana, o que é, afinal, o verdadeiro? O verdadeiro é o que é fixado no fluir e na mudança constante do que vem-a-ser (do que devém), aquilo a que os homens precisam e mesmo querem se agarrar firmemente. O verdadeiro é o elemento firme a partir do qual os homens traçam os limites contra a atuação de todo questionamento e de toda inquietação e perturbação ulterior. Assim, o homem traz constância para o interior de sua própria vida… uma proteção contra toda inquietação e uma garantia de sua tranquilidade.

 Em Nietzsche, a expressão “eu não acredito em mais nada” diz o contrário da dúvida e da paralisia ante a decisão e a ação. Ela significa: eu não quero colocar a “vida” em repouso em vista de uma possibilidade e de uma configuração. Eu quero muito mais permitir e garantir à vida o seu direito maximamente intrínseco ao devir, na medida em que pré-figuro e projeto para ela possibilidades novas e mais elevadas, e, assim, a conduzo criativamente para além de si mesma. Portanto, o criador é necessariamente um descrente no sentido citado da crença como um colocar em repouso. O criador é, ao mesmo tempo, um destruidor no que concerne ao que se enrijeceu e se cristalizou. No entanto, ele só desempenha tal papel porque comunica primeiramente e antes de tudo à vida uma nova possibilidade como a sua lei mais elevada. É o que nos afirma Nietzsche: ‘Todo criar é um comunicar. O cognoscente, o criador e o amante são um‘.”

:: Camus e Nietzsche ::


Albert Camus
 (1913-1960) falando sobre Nietzsche no clássico “O Homem Revoltado”(originalmente publicado em 1951 pela Gallimard). Tradução de Valerie Rumjanek. Editora Record, 5ª edição, 2003.

“Nietzsche: com ele, a revolta parte do ‘Deus está morto’, que ela considera fato consumado; volta-se em seguida contra tudo aquilo que visa substituir falsamente a divindade desaparecida e desonra o mundo. (…) Nietzsche não meditou o projeto de matar Deus. Ele o encontrou morto na alma de seu tempo. Foi o primeiro a compreender a dimensão do acontecimento, decidindo que essa revolta do homem não podia conduzir a um renascimento se não fosse dirigida. Qualquer outra atitude em relação a ela, quer fosse o remorso, quer a complacência, devia levar ao apocalipse.” (pg. 89)

* * * * * *

“Qual é a corrupção profunda que o cristianismo acrescenta à mensagem de seu senhor? A ideia de julgamento, estranha aos ensinamentos do Cristo, e as noções correlativas de castigo e de recompensa. A partir desse instante, a natureza torna-se história, e história significativa: nasce a ideia da totalidade humana. Da boa-nova ao juízo final, a humanidade não tem outra tarefa senão conformar-se com os fins expressamente morais de um relato escrito por antecipação. (…) O cristianismo acredita lutar contra o niilismo, porque ele dá um rumo ao mundo, enquanto ele mesmo é niilista na medida em que ao impor um sentido imaginário à vida impede que se descubra o seu verdadeiro sentido: ‘Toda igreja é uma pedra que se coloca sobre o túmulo do homem-deus; ela tenta evitar sua ressurreição à força.” (pg. 90)

* * * * *

“O espírito livre destruirá tais valores [judaico-cristãos] ao denunciar as ilusões sobre as quais repousam, a barganha que implicam e o crime que cometem ao impedir que a inteligência lúcida realize a sua missão: transformar o niilismo passivo em niilismo ativo. (…) Por ser um espírito livre, Nietzsche sabia que a liberdade do espírito não é um conforto, mas uma grandeza que se quer e obtém, uma vez ou outra, com uma luta extenuante. (…) Compreendeu que o espírito só encontrava sua verdadeira emancipação na aceitação de novos deveres. (…) O essencial de sua descoberta consiste em dizer que, se a lei eterna não é a liberdade, a ausência de lei o é ainda menos. (…) O próprio caos também é uma servidão. (…) Sem lei, não há liberdade. Se o destino não for orientado por um valor superior, se o acaso é rei, eis a marcha para as trevas, a terrível liberdade dos cegos.” (pg. 92)

* * * * *

“NIETZSCHE: ‘Se não fizermos da morte de Deus uma grande renúncia e uma perpétua vitória sobre nós mesmos, teremos que pagar por essa perda.’ (…) Se o homem não quiser perecer nas dificuldades que o sufocam, será preciso que as desfaça de um só golpe, criando os seus próprios valores. A morte de Deus não dá nada por terminado e só pode ser vivida com a condição de preparar uma ressurreição. ‘Quando não se encontra a grandeza em Deus’, diz Nietzsche, ‘ela não é encontrada em lugar algum; é preciso negá-la ou criá-la.’ Negá-la era a tarefa do mundo que o cercava e que ele via correr para o suicídio. Criá-la foi a tarefa sobre-humana pela qual se dispôs a morrer.” (pg. 93)

* * * * *

“Nietzsche grita-nos que a terra é a única verdade, a qual é preciso ser fiel, na qual é preciso viver e buscar a sua salvação. Mas ensina-nos, ao mesmo tempo, que é impossível viver em uma terra sem lei. (…) A partir do momento em que se reconhece que o mundo não persegue nenhum fim, Nietzsche propõe-se a admitir a inocência do mundo, a afirmar que ele não aceita julgamentos, já que não se pode julgá-lo quanto a nenhuma intenção, substituindo, consequentemente, todos os juízos de valor por um único sim, uma adesão total e exaltada a este mundo. Dessa forma, do desespero absoluto brotará a alegria infinita… A mensagem de Nietzsche é que o revoltado só se torna Deus ao renunciar a toda revolta, mesmo à que produz os deuses para corrigir este mundo. (…) Há, na verdade, um Deus, que é o mundo. Para participar de sua divindade, basta dizer sim. ‘Não rezar mais, mas dar a bênção’, e a terra se cobrirá de homens-deuses. (…) Da mesma forma que Empédocles, que se atirava no Etna para ir buscar a verdade onde ela está, nas entranhas da terra, Nietzsche propunha ao homem mergulhar no cosmos…” (pg. 93)

:: Nietzschianismos! (Meu Projeto de Mestrado…) ::


Além da Metafísica e do Niilismo:
Nietzsche e uma ética para espíritos livres

…as consequências mais próximas [da morte de Deus], suas consequências para nós, não são, ao inverso do que talvez se poderia esperar, nada tristes e ensombrecedoras, mas antes são como uma nova espécie, difícil de descrever, de luz, felicidade, facilidade, serenidade, encorajamento, aurora… De fato, nós filósofos e ‘espíritos livres’ sentimo-nos, à notícia de que ‘o velho Deus está morto’, como que iluminados pelos raios de uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, assombro, pressentimento, expectativa – eis que enfim o horizonte nos aparece livre outra vez, posto mesmo que não esteja claro, enfim podemos lançar outra vez ao largo nossos navios, navegar a todo perigo, toda ousadia do conhecedor é outra vez permitida, o mar, o nosso mar, está outra vez aberto, talvez nunca dantes houve tanto ‘mar aberto’. — NIETZSCHE. A Gaia Ciência, aforismo #343.

Um dos fenômenos humanos mais profundamente estudados por Nietzsche é a moral, objeto de uma consideração prolongada e pormenorizada que perpassa muitas obras do filósofo alemão, a ponto de seu “interesse e preocupação com a questão dos valores” ser descrita por Brobjer como “the centre of gravity of all his writings”1. Alguns dos escritos nietzschianos já revelam em seus títulos as ambições de seu autor: Aurora – Reflexões Sobre os Preconceitos Morais e A Genealogia da Moral, por exemplo, esclarecem que algumas das principais tarefas a que se propôs Nietzsche eram averiguar as origens das estimações humanas a respeito do Bem e do Mal, criticar as ilusões ou preconceitos que subjazem a estes juízos, num empreendimento que acaba pondo em questão o valor de sistemas de moralidadeque norteiam condutas humanas e definem culturas e civilizações: “enquanto para toda a tradição o valor dos valores morais era visto como um dado inquestionável, agora se colocará sob suspeita o próprio valor desses valores.”2

Estes são alvos que Nietzsche atinge seja através de um procedimento genealógico (que busca compreender as raízes históricas das avaliações morais, uma vez que todo código de moralidade ou tábua de valores é concebido pelo filósofo não como dádiva ou revelação divina, mas como construto humano), seja através de uma análise psicológica (reveladora de afetos e motivações ocultos nos posicionamentos morais, com a inclusão de elementos fisiológicos e impulsos inconscientes, procedimento exemplificado pela “dissecação” nietzschiana da figura do sacerdote ascético). Por essas e outras, Nietzsche chegou a ser descrito por seu conterrâneo Thomas Mann, influente literato do século XX e Prêmio Nobel de Literatura, como “o maior crítico e psicólogo da moral conhecido na história da mente humana”.3

A filosofia de Nietzsche, célebre por seu caráter crítico e polêmico (a ponto de seus procedimentos serem descritos como análogos a marteladas destinadas a “demolir ídolos”), procede a uma crítica conjunta tanto da metafísica de inspiração platônica quanto da moralidade judaico-cristã (consideradas como intimamente implicadas, já que o cristianismo não passaria de “platonismo para o povo”4). Como elucida Moura, “o cristianismo é apresentado como uma das peles com as quais a serpente platônica se revestiu… a ‘morte de Deus’ é, assim, um estágio da morte do platonismo”5. O vínculo entre a crítica à metafísica, de um lado, e à moralidade a ela acoplada, de outro, é íntimo. Tanto que o procedimento genealógico é descrito como um antídoto contra a pretensão universalista de certas moralidades específicas, que pretendem falar de modo absoluto e universal, independentemente de tempo histórico ou espaço geográfico, cometendo o “erro habitual” de concluir que há uma “obrigatoriedade incondicionada”6:

 A verdadeira genealogia pretenderá antes marcar as diferenças do que forjar identidades, ela será atenta às mutações das significações e desconfiada diante dos conceitos supostamente unívocos. Por isso, ela não decretará a existência de nenhuma finalidade meta-histórica a orientar o vir-a-ser, ela investigará a história sem a pretensão de reencontrar ali a realização de qualquer ideal eterno. Afinal, a história dos historiadores, ao procurar ler nos eventos a realização progressiva de uma finalidade imutável, é apenas uma metafísica travestida. Por isso Nietzsche oporá o ‘filosofar histórico’ a toda pretensão metafísica de reencontrar dados eternos, e insistirá na denúncia de que qualquer teleologia é construída sobre o erro de se imaginar um homem eterno, em torno do qual todas as coisas do mundo estariam alinhadas desde o começo. Assim, a genealogia será a história desembaraçada da metafísica. (…) Segundo Nietzsche o verdadeiro sentido histórico é aquele que reintroduz no devir tudo o que se tinha acreditado eterno.7

O procedimento genealógico-crítico empregado por Nietzsche em sua investigação da moral, portanto, faz parte de um projeto mais amplo de desmantelamento da metafísica de raiz platônica-cristã (à qual o filósofo tão enfaticamente se opõe). Ao versar sobre o fenômeno da “morte de Deus”, isto é, do crescente descrédito lançado sobre as crenças cristãs na Europa de seu século, Nietzsche destaca que não se pode desvincular esta decadência da fé da concomitante crise damoral ligada a ela: “depois de solapada essa crença”, não é somente a religião que se vê posta no banco dos réus, mas “tudo quanto estava edificado sobre ela, apoiado a ela, arraigado nela; por exemplo, toda a nossa moral européia.” 8 Nietzsche assim resume tudo que se esboroa com a “morte de Deus” e a “vitória do ateísmo científico”:

Considerar a natureza como se ela fosse uma prova da bondade e custódia de Deus; interpretar a história em honra de uma razão divina, como constante testemunho de uma ordenação ética do mundo com intenções finais éticas; interpretar as próprias vivências, como a interpretavam há bastante tempo homens devotos, como se tudo fosse providência, tudo fosse aviso, tudo fosse inventado e ajustado por amor da salvação da alma: isso agora passou… isso, para toda consciência mais refinada, passa por indecoroso, desonesto, por mentira, efeminamento, fraqueza, covardia…9

 Scarlett Marton resume assim as “oposições” nietzschianas:

 Nietzsche desautoriza as filosofias que supõem uma teleologia objetiva governando a existência, desabona as teorias científicas que presumem um estado final para o mundo, desacredita as religiões que acenam com futuras recompensas e punições. Recusa a metafísica e o mundo supra-sensível, rejeita o mecanicismo e a entropia, repele o cristianismo e a vida depois da morte.10


A moral judaico-cristã, além de baseada numa concepção metafísica platônica que Nietzsche rejeita como ilusória, é criticada com severidade por várias razões: por ser “hostil à vida” (“dirige o olhar, verde e maligno, contra o próprio prosperar fisiológico”11), sexualmente repressora (“conseguiu fazer de Eros e Afrodite duendes infernais”12), nascida de afetos reativos como o ressentimento e a crueldade internalizada (a ponto de ser equiparada a um “levante de escravos na moral”):

A Igreja combate as paixões através do método da extirpação radical; seu sistema, seu tratamento, é a castração. Não se pergunta jamais: como se espiritualiza, embeleza e diviniza um desejo? Em todas as épocas o peso da disciplina foi posto a serviço de extermínio.” (…) “Mas atacar a paixão é atacar a raiz da vida; o processo da Igreja é nocivo à vida.13

 Nietzsche diagnostica na moralidade judaico-cristã uma “calúnia” contra a realidade terrena, uma aversão a tudo que é “mundano”, e esta tábua de valores anti-naturais não passaria de um “doentio moralismo que ensinou o homem a envergonhar-se de todos os seus instintos”14. Dois trechos, um da Genealogia e outro d’O Anticristo, sintetizam tais opiniões:

 Ódio contra o humano, mais ainda contra o animal, mais ainda contra o material, essa repulsa aos sentidos, à razão mesma, o medo da felicidade e da beleza, esse anseio por afastar-se de toda aparência, mudança, vir-a-ser, morte, desejo, anseio mesmo – tudo isso significa, ousemos compreendê-lo, uma vontade de nada, uma má-vontade contra a vida…” 15 “Não encontramos nenhum deus, nem na história nem na natureza, nem por trás da natureza – mas sim sentimos aquilo que foi venerado como Deus, não como ‘divino’, mas como digno de lástima, como absurdo, como pernicioso, não somente como erro mas como crime contra a vida…16

Como aponta ainda Deleuze, Nietzsche concebe todo o pensamento metafísico como uma depreciação do mundo e da existência: “Il n’y a pas de métaphysique qui ne juge et ne déprecie l’existence au nom d’une monde supra-sensible.”17 Ora, superar a metafísica equivaleria a uma superação da cisão entre uma dimensão supra-sensível (concebida como “morada” e fonte de todo valor) e uma sensível (tida como falsa, transitória, “corruptora”). Trata-se de romper com a separação entre estes dois “mundos”, o que equivale a libertar a filosofia do império do platonismo e do ideal ascético. Pois também a filosofia, segundo Nietzsche, viveu sob o jugo do ideal ascético, como aponta o 3º ensaio da Genealogia, e “Nietzsche identifica esse traço ascético como uma espécie de pecado original da metafísica; como metafísica, a filosofia se institui a partir da negação e desvalorização do sensível, do corpo, da materialidade, do movimento, do transitório, do devir, do histórico.” 18 Trata-se, ademais, no âmbito da filosofia nietzchiana, de afirmar que este vir-a-ser não pode ser julgado (nem aprovado, nem condenado) a partir de modelos ideais, de modo que, para Nietzsche, “ni l’existence n’est posée comme coupable, ni la volonté ne se sent elle-même coupable d’exister.”19

Fica claro, a partir do exposto até aqui, o quanto a filosofia de Nietzsche é radicalmente crítica tanto da metafísica quanto da moralidade características do cristianismo. Esta dimensão “destrutiva” da obra do filósofo, porém, não esgota seu empreedimento filosófico, de modo que cabe perguntar: não haveria um esforço nietzschiano em sugerir novas vias, isto é, a obra de Nietzsche não conteria uma vasta reflexão sobre a necessidade de instituir novas tábuas de valores e novas virtudes? Em outras palavras, como sustenta Brobjer20, não estaria presente uma faceta construtiva e afirmativa na filosofia moral nietzschiana? Nietzsche, que com tanto empenho iconoclasta tratou de criticar a moralidade dominante em seu tempo, não o teria feito com o intento de expor a “maldição” que certos ideais lançavam sobre a realidade e sugerir a possibilidade de uma outra ética, digna de “espíritos livres” e dionisíacos, afirmadores da vida e fiéis à terra, cuja imagem modelar é o sábio Zaratustra, que dança em celebração da inocência do devir?

Em nossa pesquisa, portanto, temos como objetivo principal investigar as reflexões de Nietzsche no que concerne a uma ética afirmativa capaz de superar tanto a metafísica quanto o niilismo. Tendo esta ética para espíritos livres como fio condutor de nosso estudo, pretendemos analisar conceitos de Nietzsche como a transvaloração dos valores, o eterno retorno, o amor fati, a afirmação da vontade de potência, o Além-do-homem, dentre outros.

  2. JUSTIFICATIVA

Julgamos de primeira importância investigar a fundo a faceta positiva ou construtiva da filosofia moral nietzschiana, defendendo-a contra uma interpretação equivocada de que Nietzsche realizaria apenas uma crítica devastadora que conduziria a um “imoralismo” absoluto. Parece-nos relevante enfatizar, através de nossa pesquisa, que a obra nietzschiana comporta um empreendimento filosófico que busca refletir sobre ética de modo a ir além tanto da metafísica quanto do niilismo, de modo que não nos parece adequado desvincular seus procedimentos críticos dos criativos. Esta convicção de que a filosofia de Nieztzsche não se esgota em seus procedimentos destruidores, indo além da mera iconoclastia, fundamenta-se na opinião de comentadores que apresentaremos concisamente na sequência.

O projeto nietzchiano de “derrubar ídolos”, como elucida Moura, não se deve a

algum gratuito furor iconoclasta, mas sim porque a realidade ‘foi despojada de seu valor, seu sentido, sua veracidade, na medida em que se forjou um mundo ideal… A mentira do ideal foi até agora a maldição sobre a realidade, através dela a humanidade mesma tornou-se mendaz e falsa até seus instintos mais básicos – a ponto de adorar os valores inversos aos únicos que lhe garantiriam o florescimento, o futuro, o elevado direito ao futuro.’ (Ecce Homo, Prólogo, #02, p.18). Ao invés do tácito platonismo de todos os ‘professores da meta da existência’, o que se busca agora é desenraizar a exigência mesma de um ideal – não instituir um novo ideal, mas voltar para aquilo que Nietzsche chamará de ‘inocência do vir-a-ser’: antes de tudo, a decisão de não medir mais a realidade segundo normais ideais das quais ela está afastada, em direção às quais ela deveria caminhar – uma estratégia que sempre terá por consequência condenar o mundo do vir-a-ser em nome desses ideais.21

Scarlett Marton

É o que Marton destaca, por sua vez:

Se a ruína do cristianismo trouxe como consequência a sensação de que ‘nada tem sentido’, ‘tudo é em vão’, trata-se agora de mostrar que a visão cristã não é a única interpretação do mundo – é só mais uma. Perniciosa, ela inventou a vida depois da morte para justificar a existência; nefasta, fabricou o reino de Deus para legitimar avaliações humanas. Na tentativa de negar este mundo em que nos achamos, procurou estabelecer a existência de outro, essencial, imutável, eterno; durante séculos, fez dele a sede e a origem dos valores. É urgente, pois, suprimir o além e voltar-se para a terra. 22

Gilles Deleuze

 Deleuze destaca ainda que o procedimento crítico-genealógico de Nietzsche não está preso nas malhas do ressentimento e da vingança (afetos essencialmente reativos): “La critique n’est jamais conçue par Nietzsche comme um réaction, mais comme une action. (…) La critique n’est pas une ré-action du re-sentiment, mais l’expression active d’um mode d’existence actif”23.Nietzsche ao opõe-se àqueles que caluniam o mundo, a vida e a natureza por estarem ainda presos na “teia de aranha” metafísica ou ao ideal ascético (“em vez de unidade de uma vida ativa e de um pensamento afirmativo, vemos o pensamento dar-se por tarefa julgar a vida, de lhe opor valores pretensamente superiores, de a medir com esses valores e de a limitar e condenar”, explica Deleuze). A isto Nietzsche propõe uma alternativa, assim exposta por Deleuze: “as duas virtudes do filósofo legislador eram a crítica de todos os valores estabelecidos, quer dizer, dos valores superiores à vida e do princípio de que eles dependem, e a criação de novos valores, valores da vida que reclamam outro princípio. Martelo e transmutação.” 24 Esta concepção nietzschiana também está muito bem exposta na parábola das Três Transmutações, em Assim Falava Zaratustra, que destaca que não basta que o leão rebele-se contra o camelo, mas é crucial que torne-se, como uma criança, um novo começo.

Em nossa pesquisa, portanto, pretendemos esclarecer que a obra nietzschiana não é justamente interpretada quando faz-se dela um elogio do “imoralismo” completo, de um niilismo axiológico sintetizado pela fórmula “Nada é verdadeiro, tudo é permitido”. É o que Moura nega com veemência, enfatizando que Nietzsche jamais preconizou o laxismo do “tudo é permitido”:

Justo ele, que sempre se manifestou contra qualquer versão do laisser-aller; ele que, ao criticar os valores morais vigentes (…) atribuía como tarefa, ao filósofo do futuro, precisamente a criação de valores; ele, enfim, que já indicara expressamente aos seus leitores que seu trabalho de toupeira, para minar a confiança na moral, era realizado em nome da… moralidade!25

 Parece-nos de importância fundamental frisar, pois, o quanto a filosofia nietzschiana, longe de conceber-se como mera destruição de antigos ídolos e valores venerados, comporta também uma outra dimensão: construtiva e criativa. Com recorrência o filósofo destaca a necessidade de escrever novas tábuas de valores, tendo em vista o porvir do homem, a ponto de julgar que é justamente esta a tarefa do autêntico filósofo: tornar-se legislador. Como Brobjer aponta, “Nietzsche’s references to himself and Zarahustra as immoralists and his critique of morality can be understood as referring to essentially one kind of morality which Nietzsche regarded as having been paradigmatic during the last two thousand years or so”. 26 Também Leiter comenta que o ataque de Nietzsche à moralidade dominante era baseada no diagnóstico nietzschiano de que o florescimento da excelência humana e o desabrochar do gênio criativo eram obstaculizados pelas concepções morais vigentes:

Nietzsche attacks morality, most simply, because he believes its unchallenged cultural dominance is a threat to human excelence and human greatness. (…) In a posthumously published note of 1885, he remarks that ‘men of great creativity, the really great men according to my understanding, will be sought in vain today’ because ‘nothing stands more malignantly in the way of their rise and evolution… than what in Europe today is called simply ‘morality’ (WP: 957) 27

O projeto de investigar a fundo, pois, a faceta “positiva” e “construtiva” da filosofia moral nietzchiana parece-nos plenamente justificada, uma vez que, como aponta ainda Nussbaum, o propósito de Nietzsche, através de sua crítica à moralidade, foi “limpar o terreno para novas possibilidades de criação”: “Indeed, this was the whole purpose of genealogy as Nietzsche, Foucault’s precursor here, introduced it: to destroy idols once deemed necessary, and to clear the way for new possibilities of creation.” 28

3.  HIPÓTESES DE TRABALHO

– A obra nietzschiana procura oferecer não somente uma crítica radical do ideal ascético (descrito no Ecce Homo como “o ideal nefasto par excellence, um ideal de décadence”), mas a tentativa de fazer frente a ele com um “contra-ideal” que poria fim ao reinado da moralidade de auto-renúncia29. Aí se desvela o projeto nietzschiano, para além da crítica e da demolição, de oferecer uma alternativa a este “monstruoso método de avaliação” característico dos sacertodes ascéticos e que “não está inscrito na história humana como uma exceção ou curiosidade: é um dos mais disseminados e longevos fatos que há”30. Nietzsche, após fazer uso do martelo e da dinamite, não se dá por satisfeito: cabe aos espíritos-livres construir novas tábuas de valores que façam com que a terra deixe de ser a “a estrela ascética”. Tendo como fio condutor a caracterização de uma “ética para espíritos livres”, analisaremos como se relacionam conceitos como além-do-humano (Übbermensch), amor fati, segunda inocência, eterno retorno, afirmação dionisíaca etc.

– Se Nietzsche tanto criticou e rejeitou os “pessimistas” e “niilistas”, foi também por vislumbrar a possibilidade de que a “morte de Deus” pudesse representar um auspicioso recomeço, como tão bem sustenta o trecho de A Gaia Ciência que citamos em nossa epígrafe. “Não devemos rejeitar a perspectiva de que a vitória total e definitiva do ateísmo possa livrar a humanidade desse sentimento de estar em dívida com seu começo, sua causa prima [causa primeira]. O ateísmo e uma espécie de segunda inocência são inseparáveis.”31 Pretendemos sustentar que a superação da metafísica e do niilismo representaria, segundo Nietzsche, o que Giacóia chama de um “ultrapassamento” em relação a um horizonte cultural limitado: “No mundo contemporâneo, com o aprofundamento e a máxima intensificação do niilismo europeu, abrem-se novamente horizontes para uma repetição ímpar desse resgate de uma virtualidade cultural que corresponderia a um ultrapassamento dos mais sagrados ideais vividos até o presente.”32.

– Cientes de que não há em Nietzsche nada que se assemelhe a um sistema prescritivo dogmático, tentaremos investigar que concepção tinha o filósofo a respeito das virtudes ou “traços de caráter” que conduzem à excelência humana, à sabedoria terrena. A hipótese que pretendemos sustentar, com auxílio dos textos nietzschianos e de alguns de seus comentadores, é a de que existe sim uma intensa preocupação de Nietzsche com uma reflexão a respeito de uma tábua de valores ou sistema de moralidade que oferecesse ao potencial humano um maior florescimento. Como aponta Moura, o homem “sábio” ou “virtuoso”, para Nietzsche, não pode ter um rosto definido, isto é, uma definição demasiado estreita; mas isto não impede que encontre-se vários elementos na obra nietzschiana que possibilitam explorar as características da excelência humana como Nietzsche a concebe:

Com o conceito de além-homem se estará designando uma perpétua superação de si, e por isso esse além-homem nunca terá rosto definido, nem poderia tê-lo. Com esse conceito não se traça nenhuma imagem de um novo homem divino, a idéia de superação de si proíbe toda e qualquer cristalização de uma figura determinada, algo do qual se possa repertoriar os traços, e por isso o espírito livre – viajante sem porto de chegada – era a sua melhor prefiguração.” (…) “…o espírito livre é um personagem que não se fixa em convicções e experimenta as mais variadas perspectivas… ele jamais se fixará em alguma certeza, superando-se perpetuamente em direção a novas opiniões, novas perspectivas. É porque a vontade de potência é superação de si que as convicções são prisões, e o espírito livre estará condenado a ser um experimentador.33

– Em suma, nossa investigação pretende analisar a hipótese de que, após o trabalho de “dinamitação” realizado por sua filosofia, há decerto uma tentativa de Nietzsche de sugerir um novo “regime ético”, não mais dominado pelo ideal ascético, que rompe com a metafísica platônica-cristã, não mais baseado na promessa de uma recompensa ou de uma punição extra-terrenas, não mais hostil à vida e caluniadora do mundo. Em resumo: uma ética que supera tanto a metafísica quanto o niilismo, cuja tábua de valores não é baseada em ideais transcendentes em contraste com os quais a realidade é caluniada, mas sim numa “sabedoria da imanência”, digna daqueles espíritos livres a quem Zaratustra conclamava a “permanecerem fiéis à Terra”:

Eu vos exorto, meus irmãos! Permanecei fiéis à terra e não acrediteis naqueles que vos falam de esperanças supraterrestres. São envenenadores, quer o saibam ou não! São menosprezadores da vida! (…) Em outros tempos, blasfemar contra Deus era o maior dos ultrajes, mas Deus morreu e com ele morreram esses blasfemadores. De ora em diante, o crime mais atroz é ultrajar a terra e ter em maior conta as entranhas do insondável do que o sentido da terra!34



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 BROBJER, T. Nietzsch’s Ethics of character. Suécia: Uppsala University, 1995. P. 12.

2 MOURA, C.A.R. Nietzsche: Civilização e Cultura. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Introdução, XVI.

3 MANN, T. Nietzsche’s Philosophy in The Light of Contemporary Events. Washington: library of Congress, 1947. Pg. 17.

4 NIETZSCHE. Além do Bem e do Mal. Prólogo. Cia das Letras, 1992, p. 8

5 MOURA. Nietzsche: Civilização e Cultura. Martins Fontes, 2006. Pg. 30.

6 NIETZSCHE. A Gaia Ciência. Livro V, §345. In: Obras incompletas. São Paulo: Nova Cultural, 1999 (Os Pensadores). Pg 198.

7 MOURA. Op Cit. Pg. 114-115.

8 NIETZSCHE. Op Cit. Pg 195.

9 NIETZSCHE. A Gaia Ciência. Livro V, §357. In: Obras incompletas. São Paulo: Nova Cultural, 1999 (Os Pensadores). Pg 203.

10 MARTON, Scarlett. “O eterno retorno do mesmo: tese cosmológica ou imperativo ético”. In: Ética, org: Adauto Novaes. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. pg. 218.

11 NIETZSCHE. A Genealogia da Moral. Terceira Dissertação, §11. p. 358.

12 NIETZSCHE. Aurora, §76. P. 149.

13 NIETZSCHE. Crepúsculo dos Ídolos. A Moral Como Manifestação Contra a Natureza. §01.

14 NIETZSCHE. A Genealogia da Moral. II Dissertação. §7.

15 NIETZSCHE. A Genealogia da Moral. III Dissertação. §28.

16 NIETZSCHE. O Anticristo, §47.

17 DELEUZE, G. Nietzsche et la philosophie. Paris: PUF, 1962. Pg. 40.

18 GIACÓIA, O. Nietzsche Como Psicólogo. São Leopoldo (RS): Unisinos. Pg. 48.

19 DELEUZE, G. Op Cit. Pg. 41.

20 “…ethics is a fundamental concern for Nietzsche and his affirmative ethics is closely associated with, and represents the other side of, his critique of morality and it is no less important” . In: BROBJER, Thomas. Op Cit. Pg. 41.

21 MOURA. Op Cit. Introdução, XIX.

22 MARTON, Scarlett. “O eterno retorno do mesmo: tese cosmológica ou imperativo ético”. In: Ética, org: Adauto Novaes. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. pg. 218.

23 DELEUZE, G. Op Cit. Pg. 3.

24 DELEUZE, G. Nietzsche. Lisboa: Edições 70, 2009. P. 19.

25 MOURA. Op Cit. Pg. 239

26 BROBJER, T. Op Cit. P. 25.

27 LEITER, B. Nietzsche On Morality. Routledge: London, 2002. Pg. 25 e 114.

28 NUSSBAUM, M. Citada por Brobjer, op cit. p. 49.

29 NIETZSCHE. Ecce Homo. Pg. 140.

30 NIETZSCHE. Genealogia da Moral, III Dissertação.

31 NIETZSCHE. Genealogia da Moral. II Dissertação, #20, p.73.

32 GIACÓIA. Nietzsche Como Psicólogo. São Leopoldo (RS): Unisinos. Pg. 149.

33 MOURA. Op Cit. Pg. 201.

34 NIETZSCHE. Assim Falava Zaratustra. Primeiro Livro. Pg. 23.