Filósofa Marilena Chauí explica como o ódio político decorre do neoliberalismo e do conceito de meritocracia

Acima: Palestra na Fundação Perseu Abramo (28 min)

 

“Fernando Haddad​ é marcado pela excelência, foi um dos alunos mais brilhantes que eu já tive”, afirmou a filósofa Marilena Chauí​. Em palestra recente na Fundação Perseu Abramo​, a professora da USP – Universidade de São Paulo​ explicou que, em sua avaliação, vivemos um momento trágico da história do Brasil e que o ódio político decorre do neoliberalismo e do conceito de meritocracia. O capitalismo teria entrado, em sua fase neoliberal, em uma fase totalitária, protofascista, com a imposição da forma “empresa” a todas as instituições sociais. Assista (28 min).

Sobre o candidato do PT – Partido dos Trabalhadores à Presidência da República (com Manuela D’Ávila vice), Chauí lembra-nos que Haddad inventou os CEUs (Centros de Artes e Esportes Unificados): “A ideia foi dele: visitou as periferias de São Paulo e depois propôs os CEUs. Depois, foi Ministro da Educação, e com Haddad nunca houve uma coisa igual: não só pelos programas de inclusão, da alfabetização de adultos e jovens, da imensa expansão da rede de educação pública federal, mas também através do ENEM, que confrontou a Indústria do Vestibular.”

A filósofa também revelou os laços de amizade entre ela e o candidato do PT à Presidência da República: “Também conheço Haddad como meu amigo. Leal, sincero, de coração puro e uma cabeça nova. Haddad tem uma proposta civilizatória, inclusiva, solidária e justa. Isto é o novo; o novo não é o rosto, o novo é a idéia, a proposta.”

Chauí também elogia a capacidade de Haddad em manter-se fiel ao princípio político essencial da modernidade iluminista, a laicidade do Estado. Ele é o oposto da demagogia teocrática de Malafaias, Felicianos e Bolsonaros. Segundo a filósofa, é alguém que respeita a separação entre Estado e Igrejas, um inovador secular sem medo de ousar na construção de uma sociedade mais inclusiva, justa e solidária.

Assistas aos vídeos:

#LulaLivre#HaddadPresidente#ManuNoJaburu

O esforço lúcido de Vladimir Safatle para esclarecer o imbróglio brasileiro, fornecer balizas para a refundação da esquerda e propor vias para a democracia real

Vladimir Pinheiro Safatle, “Só Mais Um Esforço”
(Três Estrelas, 2017, 144 pgs)
Disponível na livraria A Casa de Vidro: http://bit.ly/2hPuW97

Após a consumação do golpe parlamentar que expulsou Dilma Rousseff da presidência da república, em Abril de 2016, Vladimir Safatle publicou em sua coluna na Folha de S.Paulo um artigo-manifesto chamado “Nós Acusamos”. Nele, evocando Émile Zola no Caso Dreyfus, Safatle fazia uma série de acusações contra os cleptocratas que usurparam o poder: “Nós acusamos”, bradava em tom jacobino, “os representantes deste governo interino de seres personagens de um outro tempo, zumbis de um passado que teima em não morrer. Eles não são a solução da crise política, mas são a própria crise política no poder.”

Neste livro de intervenção, “Só Mais Um Esforço”, o professor de filosofia da USP – Universidade de São Paulo dá sequência à sua obra anterior “A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu Nome”, publicando no calor da hora, à luz das ruas que queimam, palavras urgentes e contundentes numa espécie de amálgama de manifestos. São textos mais acessíveis ao grande público do que suas complexas análises de Hegel, Lacan, Adorno, Derrida, Butler, dentre outros pensadores, que marcam sua trajetória intelectual.

Na imprensa, em debates públicos, em entrevistas midiáticas e em livros como este, Safatle revela-se “um pensador comprometido com a causa dos oprimidos e explorados, um homem de esquerda autêntico, que usa sua pluma para denunciar os crimes e as injustiças do sistema capitalista e para propor alternativas radicais” – como escreve Michael Löwy no prefácio, .

Sem esconder sua admiração pelo governo de Salvador Allende no Chile (1970-1973), experimento de socialismo democrático rico em legados para o futuro da práxis utópica latino-americana, Safatle também se empolga com as insurreições recentes, pelo mundo afora, desde a Primavera Árabe e o Occupy Wall St. às Jornadas de Junho de 2013 no Brasil:


“Nada que se refere ao destino e às dificuldades da esquerda brasileira pode ser compreendido sem uma meditação a respeito das manifestações de Junho de 2013. Tais manifestações são certamente o conjunto mais importante de revoltas populares da história brasileira recente, não por aquilo que produziram, mas por aquilo que elas destruíram. A partir delas, todo o edifício da Nova República entrou paulatinamente em colapso. Mas, além disso, algo mais terminou: a primeira parte da longa história da esquerda brasileira chegou ao fim.” (p. 107)

Safatle lembra que 2013 foi o ano com “o maior número de greves desde o fim da ditadura, ou seja, 2.050 greves, sendo 1.106 apenas no setor privado. Tal fenômeno era sintomático: tratava-se de trabalhadores que não reconheciam mais suas ‘representações’ e que procuravam deixar claras sua insatisfação e precariedade.” (p. 108) A ascensão da insurreição popular que se viu em 2013, e que culminou nas mega-manifestações de Junho, manifesta o que Ruy Braga chamou de “A Revolta do Precariado”, uma insatisfação imensa da classe trabalhadora diante das condições de trabalho impostas pela hegemonia capitalista neoliberal globalizada, aquilo que Viviane Forrester – em livro traduzido pelo próprio Safatle e lançado pela Editora Unesp – chamou de “Uma Estranha Ditadura”.

Ora, Junho de 2013 foi uma “revolta que pegou a esquerda desprevenida, enfraquecida e acomodada à ilusão de perpetuação infinita no poder”, analisa Safatle. “Por isso, uma parte da esquerda preferiu abraçar o discurso da desqualificação da revolta, o que a livraria de ter de encarar sua própria obsolescência e envelhecimento.” (p. 53)

Safatle provoca-nos dizendo que, “em vista da paralisia completa do governo diante de tais revoltas e da incapacidade de todo o setor da esquerda de se constituir como intérprete qualificado das novas demandas, foi a direita que soube captar o momento, absorvendo de vez o discurso anti-institucional. Pela primeira vez desde 1984, a direita voltava às ruas, procurando mobilizar a força anti-institucional da política, enquanto a esquerda brasileira havia se transformado no mais novo partido da ordem. Com tal força, a direita, mesmo não tendo ganhado as eleições de 2014, impôs uma dinâmica acelerada de desabamento do governo e de incitação a um golpe parlamentar travestido de legalidade…” (p. 155)

Como a Revolta do Precariado e as insurreições vinculadas às demandas por um transporte público mais digno – capitaneadas pelo Movimento Passe Livre – MPL – puderam ser “colonizadas” pelas forças da Direita? O que explica que, ao fim de Junho, os “coxinhas” tivessem tomado a cena, mobilizados pela grande mídia corporativa e por entidades patronais como a Fiesp? A resposta, para Safatle, encontra-se no “circuito dos afetos”, em especial na mobilização que as forças reacionárias fizeram do medo. É o medo da desordem e da “anarquia” – brandido pelos mass media a todo momento através das imagens de vandalismo e descontrole – que permite a ascensão proto-fascista de uma ideologia que prega o autoritarismo truculento para resolver os conflitos sociais.

Em um dos capítulos mais interessantes de “Só Mais Um Esforço”, Safatle discute três fotografias emblemáticas: Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura militar brasileira aos 37 anos de idade; o ex-presidente Lula com as mãos sujas de petróleo; e manifestantes que depredam o Palácio Itamaratyem um episódio de clímax das Jornadas de Junho. Sinais de um país que, através da anistia, deixou praticamente impunes os torturadores e assassinos do Estado de Exceção inaugurado pelo golpe militar de 1964; que não soube propor modelos de desenvolvimento alternativos à civilização industrial devoradora de combustíveis fósseis e geradora de uma hecatombe ecológica global; e que não sabe lidar com a emergência de uma contestação bruta senão mobilizando a força repressiva de um Estado ainda militarizado e que tem na PM um dos piores legados de seu passado mal enterrado.

“A foto do Palácio do Itamaraty em chamas tem sua ironia”, explica Safatle. Pouco antes, a massa estivera enfurecida diante do Congresso Nacional do Brasil, ameaçando quebrá-lo. A Polícia Militar tentou impedir, mas não conseguiu fazer nada melhor do que empurrar a massa para o lado, fazendo com que sua fúria destruísse o primeiro edifício público à frente…. A foto mostra a destruição de um substituto. Para salvar o Congresso com seus oligarcas, outro objeto é oferecido para ser sacrificado em um ritual de expiação da revolta. Essa estratégia será utilizada uma segunda vez, de maneira simbólica e bem-sucedida, no golpe de 2016.

Mas essa imagem não será apenas a expressão de uma armadilha criada de forma astuta por uma oligarquia exímia na arte de se perpetuar. Ela será o eixo dos últimos anos da história brasileira em um outro sentido, mais forte. Pois a fúria popular contra o Itamaraty era a encarnação do verdadeiro medo que sempre assombrou este país, a saber, o medo da insurreição de uma massa amorfa e descontrolada, de força negadora bruta, que encarnaria todas as décadas e séculos de revolta muda e surda. Uma força que não se submeteria mais ao poder do Estado, à lógica de suas representações. ” (p. 53)

É “o povo que diz não” subindo à cena política. “Essa insurgência, com sua negação bruta, que pareceu ser uma ferida aberta que poderia não mais parar de sangrar, foi o motor que levou parcelas da população brasileira, depois de 2013, a reagir e a abraçar de forma cada vez mais descomplexada os discursos protofascistas de ordem e de justificação da violência estatal. Pode parecer paradoxal esse resultado, mas não será a primeira vez na história que as latências de uma revolta popular dão espaço à emergência de um sujeito reativo.” (p. 55)

Junho de 2013, longe de ter tido efeitos libertários de longo prazo, causou um assanhamento das forças reacionárias e fascistas no Brasil, com o cenário preocupante que se desenha para 2018: a da candidatura, apoiada por milhões, do racista, misógino, homofóbico, militarista – amálgama de toda a estupidez desavergonhada do fascismo brazzzileiro – Jair Messias Bolsonaro. São sinais claros de que o Brasil fracassou em lidar com seu passado, que volta a assombrá-lo como um espectro horrendo:

“Nenhum outro país protegeu tanto seus torturadores, permitiu tanto que as Forças Armadas conservassem seu discurso de salvação através do porrete, integrou tanto o núcleo civil da ditadura aos novos tempos de redemocratização quanto o Brasil. Há de se lembrar que o Brasil é o único país da América Latina onde os casos de tortura aumentaram em relação à ditadura militar. Por isso, nenhum outro país latino-americano teve um colapso tão brutal de sua ‘democracia’ como o nosso, com uma polícia militar que age como manada solta de porcos contra a própria população que paga seus salários. Nenhum outro país latino-americano precisa conviver com um setor proto-fascista da classe média a clamar nas ruas por ‘intervenção militar’, a ponto de invadir o plenário do Congresso Nacional com suas bandeiras. Tudo isso demonstra algo claro: a ditadura brasileira venceu. Como um corpo latente sob um corpo manifesto, ela se conservou e a qualquer momento pode novamente emergir.” (p. 65)

É o que estamos vendo na era Michel Temer: uma cleptocracia escrota que vem massacrando sem dó os direitos trabalhistas, que vem impondo medidas de austeridade altamente impopulares, que vem enfiando-nos goela abaixo as intragáveis PECs do Fim do Mundo que ameaçam precarizar escolas e hospitais pelos próximos 20 anos – e quem protesta contra isso é considerado um inimigo público digno só do porrete, do spray de pimenta, das bombas de gás lacrimogêneo.

“Diante desse cenário, a tendência brasileira agora é a desagregação. Com uma casta política que bloqueou todo processo de renovação, com uma paralisia em relação à compreensão de processos de emergências de novas modalidades de corpos políticos, o país tende a se deslocar paulatinamente para um modelo cada vez mais autoritário e desprovido de qualquer legitimidade. Os sistemas de pactos ruíram e não é mais possível reeditá-los. Todas as ‘reformas’ apresentadas em 2016 e 2017 visam à destruição das defesas trabalhistas e ao fortalecimento das dinâmicas de produção da desigualdade, no pior dos pesadelos neoliberais.

Nesse cenário, não é surpreendente que, diante do crescimento da resistência contra a espoliação, a elite dirigente brasileira jogue todas as suas forças na brutalização do discurso social, na criminalização da oposição e no uso recorrente de seu braço armado para gerir conflitos.” (p. 117-118)

As alternativas radicais propostas por Safatle para sairmos do atual cenário catastrófico envolvem medidas que deixam nossas elites com a pulga atrás da orelha: taxação de grandes fortunas e heranças; instauração do salário máximo; restrição do direito à propriedade privada etc. O leitor atento pode ficar estarrecido com certas omissões: o filósofo não menciona em lugar algum do livro a reforma agrária, a demarcação de terras indígenas, a luta contra o agronegócio e os agrotóxicos, nem menciona movimentos sociais como o MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e o MTST – Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, tão esforçados na instauração de uma outra realidade, menos injusta e hedionda do que a que vivemos.

O outro mundo possível que hoje demanda nosso esforço e nossa luta também exige a refundação radical da esquerda e a construção coletiva de uma autêntica democracia direta, onde o povo não delegue sua soberania a ninguém, e onde o Estado se utilize de todas as ferramentas das novas tecnologias digitais para a instauração de uma “ágora virtual” onde proliferariam os plebiscitos e assembléias populares.

“Temos atualmente todas as condições técnicas para criar uma sociedade de deliberação contínua baseada em uma democracia digital”, opina Safatle (p. 128), propondo inovações políticas nos processos decisórios através de uma “ágora virtual” (noção contestada por Luis Felipe Miguel, cientista político e professor da UnB – Universidade de Brasília, neste artigo em Justificando).

Longe de decretar que o marxismo ficou obsoleto, Safatle busca re-avivar a chama de Karl Marx eEngels para nossos tempos, dizendo que “a teoria marxista da revolução é, mais do que uma teoria das crises, uma teoria da emergência de sujeitos políticos com força revolucionária. No caso de Marx, tais sujeitos têm nome: proletários.” (p. 102)

Safatle insiste que o conceito de proletário no pensamento marxista não é apenas uma “categoria sociológica dos trabalhadores que têm somente sua força de trabalho”, mas sim uma “categoria ontológica que diz respeito a certo modo de existência com grande força revolucionária, é um modo que depõe regimes de existência baseados na propriedade, no individualismo possessivo e na identidade, com seus sistemas defensivos e projetivos.

O século XIX conheceu uma sequência impressionante de revoltas, movimentos e insatisfação social oriundos de crises econômicas profundas em todos os lados da Europa. Tal como agora, as ruas queimaram em sequência. Mineiros da Silésia, operários ingleses, tecelões franceses: todos pararam fábricas, quebraram máquinas, montaram barricadas, desafiaram a ordem instituída. No entanto, essa multiplicidade de revoltas só se transformou em um fantasma que assombrava aquele tempo quando todas as ruas em chamas foram vistas como a expressão de um só corpo político, um só sujeito em marcha compacta pelo desabamento de um mundo que teimava em não cair.

Um sujeito político só emergiu quando os mineiros deixaram de ser mineiros, os tecelões deixaram de ser tecelões e se viram como um nome genérico, a saber, ‘proletários’, a descrição de quem é totalmente despossuído, de quem é ninguém. Foi quando a multiplicidade das vozes apareceu como a expressão da univocidade de um sujeito presente em todos os lugares, mas com a consciência de sua ausência radical de lugar, que a revolta deixou de ser apenas revolta. Pois essa força de síntese de outra ordem que aparece através da univocidade da nomeação era a condição para que a imaginação política entrasse em operação, permitindo a emergência de um novo sujeito. De certa forma, é isto que nos falta: precisamos ser, mais uma vez, proletários.” (p. 103)

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Por Eduardo Carli de Moraes
 www.acasadevidro.com

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Leia também:

ESTILHAÇOS DE INDIGNAÇÃO E ESPERANÇA – UMA SOCIOLOGIA À ALTURA DE JUNHO, POR RUY BRAGA EM “A PULSÃO PLEBÉIA” (ALAMEDA/FFLCH-USP)

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Alguns vídeos:



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15M: Um milhão de pessoas tomam as ruas em protesto contra o Pacote de Maldades do regime golpista

Cerca de 1 milhão de brasileiros, segundo Brasil de Fato (http://bit.ly/2mCf6vQ), tomaram as ruas neste 15 de Março de 2017. A maré torrencial de participação contestatória deu-se em protesto contra a avalanche de retrocessos propostas pelo (des)governo instaurado após o golpeachment.

A cidadania insurgente manifestou-se em um dia histórico de greve e mobilização nacional, com foco no repúdio à Reforma da Previdência. Parte do “Pacote de Maldades” proposto pelo regime golpista de Michel Temer, a (D)eforma Previdenciária propõe aquilo que o humorista José Simão chamou de “aposentadoria póstuma”: morra primeiro, aposente depois.

Caso o Congresso Nacional aprove a medida, para ter direito à aposentaria integral o trabalhador precisará de 49 anos de contribuição ininterrupta e idade mínima de 65 anos, tanto para homens quanto para mulheres. Sobre o tema, o filósofo Vladimir Safatle escreveu com clareza na Folha de S. Paulo: “Como em várias regiões do Brasil a expectativa de vida não chega a 65 anos, a contribuição previdenciária será, para boa parte das pessoas, uma pura e simples forma de espoliação de seus rendimentos, já que elas morrerão antes de se aposentar.”

O argumento é ecoado em um vídeo, que viralizou nas redes, bolado pela frente Povo Sem Medo em parceria com o ator Wagner Moura. Neste vídeo, critica-se com sarcasmo: “Vão transformar o INSS em uma funerária: as pessoas vão se aposentar no caixão.”

Em ato que reuniu mais de 200.000 mil pessoas na Avenida Paulista (e não mereceu uma mísera linha ou foto no jornal Estadão, que realizou uma omissão criminosa e suína que o faz merecedor da alcunha de membro do P.I.G.), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou: “está ficando cada vez mais claro que o golpe dado neste país não foi só contra a [ex-presidenta] Dilma Rousseff e os partidos de esquerda, mas para colocar um cidadão sem nenhuma legitimidade para acabar com os direitos trabalhistas e com a Previdência Social” (http://bit.ly/2mQgmMV).

Goiânia, 15M

ASSISTA: A MARÉ: Goiânia, 15 de Março de 2017
(Documentário, Curta-metragem, 14 minutos.)

Neste documentário curta-metragem A Maré, de 14 minutos, confiram um pouco dos agitos nas ruas da capital de Goiás neste 15M, quando uma significativa manifestação popular tomou conta do centro da cidade. Estima-se que mais de 15 mil goianienses participaram do ato, que reuniu ativistas de vários movimentos sociais e centrais sindicais, além de estudantes secundaristas e universitários, professores e servidores da educação pública, funcionários dos Correios e de empresas públicas como a CELG, com forte presença do Povo Sem Medo que têm resistido ao golpe e seu séquito de retrocessos.

Diante de uma corja golpista e corrupta de cleptocratas elitistas, a população do Brasil vê-se diante da necessidade histórica de levantar-se contra o tsunami de retrocessos que pretendem, para lembrar a boutade de Millôr Fernandes, perpetuar nosso status de país “com um longo passado pela frente”. Ou, como disse o humorista André Dahmer, permitiremos a instalação da grotesca Ponte Para O Futuro: “imaginem quantos pobres vão morar debaixo dela!”

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fblogacasadevidro%2Fvideos%2F1825325334160450%2F&show_text=1&width=560

“A Maré” é um filme de Eduardo Carli de Moraes; uma produção independente d’A Casa de Vidro – Livraria e Produtora Cultural [http://www.acasadevidro.com]. Com falas de Renato Costa, Pedro Henrique Melo Albernaz, Lucas Nunes, Jules Groucho Maigret, Davi Maciel, dentre outros. Trechos musicais de Paulinho da Viola e Anita Tijoux (nenhuma violação dos direitos autorais das obras musicais esteve entre nossas intenções; trechos das canções foram utilizados para ilustrar as imagens de modo lúdico e sugestivo e esta obra audiovisual não tem nenhum fim lucrativo).

Se preferir, assista também no Youtube:

Leia também uma boa análise de conjuntura: “O Que Não Te Contaram Sobre A Reforma Da Previdência”

O GOLPISMO PLUTOCRÁTICO E O ÓDIO À DEMOCRACIA: Reflexões na companhia de Jessé Souza, David Graeber e Jacques Rancière

I. UM CONTO DE FADAS PARA ADULTOS

Os crimes cometidos e as catástrofes causadas pelas corporações capitalistas saltam aos olhos: da Monsanto à Shell, da Volkswagen à Vale, não faltam exemplos de corrupção, fraude, enriquecimento ilícito, danos socioambientais irreversíveis, etnocídio e genocídio, dentre outros malefícios acarretados pelo comportamento – psicótico e cotidianizado – de muitas megaempresas transnacionais nesta nossa era de hegemonia do ultraliberalismo.

 As corporações capEtalistas são capazes de contaminar o meio ambiente de modo irreversível, como prova o assassinato do Rio Doce, pior tragédia ambiental da história do Brasil (2015), ou o desastre de Bophal na Índia (1984) e da British Petroleum no Golfo do México (2010). As corporações também podem mentir descaradamente para a sociedade sobre os impactos negativos de seus produtos, como fez a Volkswagen: como revelou-se recentemente em escândalo que ocasionou a queda de seu presidente, a empresa fraudou cerca de 11 milhões de motores automotivos no intento de desinformar a sociedade sobre a quantidade de poluentes e gases de efeito estufa que lançavam à atmosfera.

Tudo isso torna The Corporation, aliás, um dos documentários mais cruciais para compreender nossa época em que há um poderio sem precedentes destes grandes conglomerados capitalistas privados, que sequestram o Estado, tornam obsoleta a noção de bem público, tratam o lucro como Deus e não enxergam nas devastações que ocasionam nada além de “externalidades”. Não, não é possível rimar democracia com o capitalismo desenfreado nos moldes atuais. O que vemos, hoje, é triunfo da plutocracia, o (des)governo dos ricos.

Em meio aos intensos alarmes que soam mundo afora, alardeados pela comunidade científica internacional, sobre o colapso civilizacional que será acarretado pela intensificação do aquecimento global, as empresas petrolíferas ligam o “foda-se” para as mudanças climáticas e esforçam-se para avançar sobre as jazidas de petróleo, querendo drillar até no Ártico (caso daquela famosa empresa – Shell From Hell – já agraciada com o “prêmio” de pior empresa do planeta pelo Public Eye Awards).

É de fato uma imensa coleção de vergonhas, que pode encher um vasto livro, todos os malefícios ecológicos, econômicos e políticos causados por corporações capitalistas privadas – que muitas vezes gastam milhões de dólares em campanhas de desinformação, como as empresas de cigarros que fazem campanhas para provar que não há nenhuma conexão entre os produtos que vendem e o câncer de pulmão (são os Merchants of Doubt, ou Mercadores da Dúvida, de que fala em seu livro a Naomi Oreskes).

As principais destas corporações, campeãs da infâmia e da barbárie, estão reunidas neste Hall of Shame em que marcam presença Chevron, Gap, Wal Mart, Walt Disney, Dow Chemicals, dentre outros agentes de Satanás. Podemos agora adicionar à lista a Besta Encarnada na fusão Monsanto e Bayer…

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Nas trevas das fábricas, nos sweatshops onde a violação dos direitos humanos é cotidiana, muitas destas empresas exploram trabalho como se o escravismo ainda fosse legalizado; fazem lobby junto a políticos como se suborno e propina fosse algo respeitável e digno de institucionalização; põe milhões em publicidade para divulgar álcool e cigarros, hambúrgueres e remédios, mas nada publicam na mídia vendida sobre a grana em paraísos fiscais e a sonegação-monstro (vide os Panama Papers).

Para não falar na obscenidade grotesca que é a indústria bélica – que viverá dias de glória na Era Donald Trump… – e que literalmente lucra com a morte e a destruição. Para não falar, tampouco, das petroleiras transnacionais que financiam guerras imperialistas para tomar conta do “ouro negro”, seja através do belicismo interventor no Oriente Médio, seja através dos golpes de Estado latino-americanos, vide os casos de Hugo Chávez e de Dilma Rousseff, residentes legítimos que acabaram entrando na mira do golpismo imperial desejoso de instalar regimes-fantoche e vende-pátria.

Na Bolívia, quando o Estado nacional fez-se servil aos interesses das corporações capitalistas que desejavam privatizar a água, lançando milhares de pessoas na miséria da sede e da desidratação, a fúria das rebeldias justas estourou na insurreição popular de Cochabamba, evento essencial à posterior eleição de Evo Morales para a presidência do país. Eis um ícone da batalha de Pachamama contra a barbárie neoliberal. (Saiba mais no artigo que fiz sobre o filme Hasta La Llúvia, estrelado por Gael Garcia Bernal: Uma Viagem Com Mais Náufragos Que Navegantes).

Na Índia, dezenas de milhares de camponeses empobrecidos já se suicidaram – o método mais comum: beber o agrotóxico venenoso que os desgraçou a vida. A onda de suicídios é decorrência do cruel Monsantismo e do devastador agrobiz que tomou conta do país e que ocasionou, como resistência, a emergência das guerrilhas maoístas. Sobre estas, Arundhati Roy escreveu algumas obras-primas do jornalismo literário contemporâneo, como Walking With The Comrades, além do livro magistral Broken Republic. 

aRUNDHATI

Já em Chiapas, no México, o levante zapatista iniciado em 1994 é emblemático da encarniçada e trágica batalha dos povos originários deste continente contra os horrores propiciados pela ditadura do capitalismo sem freios que recebe o cognome eufemístico de “neoliberalismo”. Considero o Subcomandante Marcos, misterioso líder zapatista que se oculta atrás da máscara, como um dos pensadores políticos mais fundamentais do nosso tempo:

CddeMexico

“To kill oblivion with a little memory,
we cover our chests with lead and hope.”

SUBCOMANDANTE MARCOS, Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN).
In: ‘Our Word is Our Weapon: Selected Writings’,
Published by Seven Stories Press (New York, 2003, Pg. 100.)

“Marcos is gay in San Francisco, Black in South Africa, an Asian in Europe, a Chicano in San Isidro, an anarchist in Spain, a Palestinian in Israel, a Mayan Indian in the streets of San Cristobal, a Jew in Germany, a Gypsy in Poland, a Mohawk in Quebec, a pacifist in Bosnia, a single woman on the Metro at 10 pm, a peasant without land, a gang member in the slums, an unemployed worker, an unhappy student and, of course, a Zapatista in the mountains. Marcos is all the exploited, oppressed minorities resisting and saying ‘Enough’. He is every minority who is now begining to speak and every majority that must shut up and listen. He makes the good consciences of those in power uncomfortable – this is Marcos.”  – Subcomandante Insurgente Marcos, EZLN – People’s Global Action 2002 (Read Awestruck Wanderer’s posts about the Zapatistas)

 Que muitos não percebam a podridão inerente à atual hegemonia global das multinacionais e dos Estados a elas servis é mais um sinal do poderio não só econômico, mas cultural e midiático, que a elite planetária – o 1% da cúpula financeira – adquiriu sobre corações e mentes. Através das poderosas e prepotentes mídias-de-massa privadas, controladas por magnatas cheios da bufunfa, podem-se disseminar ideologias que pregam as benesses do Livre Mercado, o que milhares de evidências empíricas e estatísticas, contemporâneas e históricas, provam ser mentirosas.

Este me parece um dos argumentos mais claros e recorrentes na argumentação do sociólogo brasileiro Jessé Souza: estamos sendo feitos de otários por um conto-de-fadas para adultos, a noção extravagante e absurda de que a corrupção é um problema que aflige exclusivamente o Estado (o poder público), não envolvendo de modo algum o puro e imaculado Mercado (o poder privado).

Que ainda se encontrem crédulos desta lorota na América Latina é estarrecedor, considerada a nossa história colonial repleta de saques imperiais das riquezas locais, rapinas promovidas por poderes de mentalidade privatista, lucrocêntrica, excludente.  Este enredo infantil de bandido e mocinho – algo como “o capitalismo é gente-fina, o problema é este bando de políticos sujos!” – é o conto da carochinha que é destroçado pela argumentação de Jessé, sociólogo brasileiro que não teme criticar e bater de frente contra as ideias consagradas por Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda ou R. Faoro.

Professor de ciência política da UFF (RJ) e ex-presidente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) – exonerado do cargo quando Temer assumiu a função de presidente interino após a grotesca sessão na Câmara conduzida por Eduardo Cunha – Jessé Souza tem um bocado a ensinar ao Brasil em seus contundentes A Tolice da Inteligência Brasileira (Ed. Leya, 2015, 271 pgs) e A Radiografia do Golpe (Ed. Leya, 2016, 142 pgs).

Em uma das sociedades mais perversamente desiguais do planeta – tanto que já fomos apelidados de “Belíndia”, uma mistura caótica de Bélgica com Índia – nada mais urgente do que desmontar o conto-de-fadas que tece louvores ao mercado, supostamente virtuoso e angelical – e que muitos pregam que deveria ser deixado em paz e sem freios para que floresçam a prosperidade e a felicidade gerais que seriam orquestradas pela Divindade secularizada, a “mão invisível” de Adam Smith.

Esta noção interesseira, propagada pelos demagogos neoliberais, de que o mercado deve ser desregulado e não pode ser atrapalhado por um Estado corrupto e ineficiente, é contestada por Jessé numa argumentação calcada em autores clássicos da sociologia como Florestan Fernandes e Pierre Bourdieu. Os argumentos de Jessé somam-se ao arsenal reunido em livros clássicos como As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, ou A Doutrina do Choque, de Naomi Klein, obras que mostram claramente que não foi pela via democrática que instalou-se no Chile ou no Brasil este nosso capitalismo-da-barbárie hoje vigente.

O neoliberalismo faz sua entrada triunfal por aqui como imposição autoritária (ninguém votou em prol das doutrinas dos Chicago Boys no Chile!). Obviamente o imperialismo não trabalha sozinho, mas tem seus aliados entre as elites locais, colonizadas até o osso e que idolatram de modo acrítico o Tio Sam (e o Tio Patinhas!), tomando como modelo de sucesso, paradigma de excelência a serem imitados, um regime que lança na miséria e na sub-humanidade imensas proporções da população, para o bem da mísera minoria de milionários no tope.

Bem antes de Ronald Reagan e Margareth Tatcher conduzirem o mundo anglo-saxão para a era neoliberal, foi ao Sul do Equador – no Brasil, no Chile, na Argentina, lançados às trevas de ditaduras militares – que testou-se a fórmula do Estado mínimo (ainda que máximo no que tange à repressão, à vigilância policial, ao encarceramento em massa). Foi através de um totalitarismo belicista militarizado, de um Estado policial-penal, que Pinochets e Geisels defenderam com punho de ferro um mercado dito “livre” – leia-se: um regime onde os interesses privados estão livres para praticar seus vandalismos sociais, lançando muita gente às margens, pauperizada e esfomeada por um status quo excludente e de flagrantes injustiças, praticante impenitente de um  autêntico apartheid tropical baseado na miséria planificada. Para lembrar Rodolfo Walsh:

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Em 1977, em sua “Carta Aberta à Junta Militar” da Argentina, o valente jornalista Rodolfo Walsh denunciou a repressão desse regime, uma ditadura que organizou o assassinato e a desaparição de mais de 30 mil pessoas. “Não obstante, esses acontecimentos que comovem a consciência do mundo civilizado, não constituem o maior sofrimento infligido ao povo argentino, tampouco a pior violação dos direitos humanos que vocês já cometeram”, escreveu Walsh a respeito da tortura e dos assassinatos. “É na política econômica deste governo onde se percebe não só a explicação dos crimes, mas também uma gigantesca atrocidade que castiga a milhões de seres humanos: a miséria planificada…  Basta dar uma volta de algumas horas pela Grande Buenos Aires para comprovar a rapidez com que essa política transformou a cidade numa favela de dez milhões de pessoas”. (BENJAMIN DANGLR em CARTA MAIOR)

Se o golpismo de hoje não é lá muito diferente do golpismo de outrora, é pois em ambos os casos quem chega para tratorar a democracia são justamente os interesses dos capitalistas mais empedernidos, dos plutocratas mais desavergonhados na defesa dos próprios privilégios injustos. Aqueles que não tem pudor de fazerem valer seus interesses com o auxílio da força bruta ou das conspirações corporativo-parlamentars. Como ensinava Galeano, o 1% pode até ser de uma criminalidade absolutamente mortífera, ou mesmo genocida, mas raramente vai em cana pois são os caras que mandaram construir as prisões e que detem as chaves dos cárceres e os acessos aos botões nucleares.

Diante de uma Justiça vendida, exercida por aqueles que vendem-se como prostitutos de luxo no mercado das indulgências compráveis, o rico criminoso adquire sua impunidade, financiando aqueles que se prestam ao serviço de fazerem vistas grossas à barbárie e permitirem a corrupção cotidianizada de corporações e empresários – a Elite do Poder, de que falava C. Wright Mills, e que, em seus efeitos sociais, são como tsunamis devastadores ou nuvens de gafanhotos que arrasam plantações.

Este modelo de capitalismo plutocrático, oligárquico, autoritário, que o Golpe político-corporativo-jurídico em curso no Brasil em 2016 pretende forçar-nos goela abaixo, instaurando um regime de austeridade para o povo regalias para o tope, é irmão próximo daquele capitalismo made in U.S.A. e defendido pela força militar, instalado por aqui pelos coup d’états, teleguiados lá de Washington, que puseram a Ditadura no lugar do “Janguismo” (a partir de 1964) e que comemoraram o triunfo de Pinochet sobre o cadáver do regime de Salvador Allende em 1973.

Nestes casos extremos, que vivenciaram na pele os brasileiros e chilenos durante as respectivas ditaduras, o que ocorreu foi apropriação do Estado por parte dos interesses mercadológicos e empresariais. Um Estado policial somado a um Mercado a quem se permitia que a lei da selva vigorasse, ou seja, a competição dita “livre”, que na verdade só liberta os mega-capitalistas para faturarem lucros sobre as lágrimas de labor exaustivo extraídas das classes oprimidas e espoliadas.

“A única questão razoável é saber se o Estado é apropriado por uma pequena minoria privilegiada ou se pelo interesse da maioria”, escreve Jessé Souza. “Como se pensar, por exemplo, que o Estado norte-americano – o paraíso na terra para os liberais brasileiros colonizados até o osso – depois da guerra do Iraque quando o interesse de companhias petrolíferas saqueou e provocou a morte de milhões, inclusive de norte-americanos, com base em mentiras para obter lucros; ou depois das fraudes da crise de 2008 operada pelo mercado financeiro – como ‘Estado público’ e não apropriado por uma minoria?” (SOUZA: A Tolice… p. 67)

Ainda carecemos superar o complexo de vira-latas de achar que o Brasil é inferior, é sub, está por baixo, babando ovo pra Yankee como se os EUA fossem o ideal que devemos almejar. Só quem está dormindo – ou midiotizado pela lavagem cerebral da imprensa corporativa! – pode acreditar ainda no “Sonho Americano” diante de uma sociedade tão perversa e injusta quanto os Estados Unidos. Como disse George Carlin, ele se chama sonho americano pois é preciso estar dormindo para acreditar nele.

Nos EUA, por exemplo, milhares de cidadãos são largados para morrer à míngua de qualquer auxílio por não terem condições econômicas de pagar o sistema de saúde vastamente privatizado e elitista (revejam Sicko de Michal Moore). Pergunte sobre o American Dream aos negros e latinos, pergunte aos imigrantes árabes, pergunte aos que estão presos em Guantánamo… eles te apresentarão ao pesadelo americano!

Os livros de Jessé Souza devotam-se a criticar esta ideologia, simplista e maniqueísta, que pinta com atributos angelicais os empresários, os banqueiros, as mega-corporações, supostamente livres do vício da corrupção que contaminaria tão somente o governo – ou mesmo, para cúmulo da tolice, um único partido, como sustentam muitos acéfalos e esbravejantes moralistas de ocasião em sua cruzada anti-petista.

Idealizar o Mercado e demonizar o Estado equivale a não enxergar com clareza que a raiz do problema da corrupção está nas relações entre estas duas instâncias: quase inexiste um político comprovadamente corrupto que não possua corruptores no setor financeiro ou empresarial. Por que não se diz claramente que o crime organizado é também praticado por Odebrechts e Globos, por Ambevs e Volkswagens, e não somente por políticos?

Contra as falácias dos apologistas do Estado Mínimo e do Mercado Livre, é preciso sublinhar, como faz Jessé Souza, que o “lucrocentrismo” que domina nosso capitalismo selvagem e concentrador é  corrupção institucionalizada, um fenômeno que só se agrava quando a economia torna-se desregulada – como explicam, em épocas diferentes, Karl Polanyi, Stiglitz, Piketty. Cabe a nós colocar os pontos de interrogação bem no fundo e perguntar: será que o capitalismo não é intrinsecamente corruptor? Não tende sempre a agravar a concentração de capitais e poderes nas mãos da aquela minúscula elite que o movimento Occupy Wall Street cognominou, com justeza, o “1%”?

A Tolice da Inteligência Brasileira

“Esse ‘conto de fadas para adultos’, como todo conto de fadas, infantiliza, distorce o mundo e nos faz de tolos por não termos mais 5 anos de idade. A simples ideia da separação entre mercado e Estado é absurda. Os dois formam, afinal, um complexo único, dependente um do outro. Não existem, por exemplo, contratos válidos no mercado – e todos os atos do mercado são contratuais – sem que o Estado forneça o aparato de Justiça e de repressão para obrigar o cumprimento contratual. Por outro lado, o Estado depende da produtividade do mercado para sua receita fiscal. Um não existe sem o outro. Antes de tudo, não há corrupção sistemática no Estado sem que seja provocada por interesses de mercado. Aqui não tem ‘santinho’ nem ‘virtuoso’.

(…) É vontade dos ‘endinheirados’ que todas as dimensões da vida social fiquem à mercê do interesse de lucro. É para isso que serve o conto de fadas do mercado virtuoso e do Estado corrupto e ineficiente. Assim, podem-se concentrar fatia desproporcional do PIB brasileiro em ganhos de capital, cuja parte do leão vai para o bolso dos endinheirados que perfazem menos de 1% da população, ficando uma pequena parte para a enorme maioria da população que vive de salários.

Na verdade, o mercado capitalista, aqui e em qualquer lugar, sempre foi uma forma de ‘corrupção organizada’, começando com o controle dos mais ricos acerca da própria definição de crime: criminosos passa a ser o funcionário do Estado ou o batedor de carteiras pobre enquanto o especulador de Wall Street – a matriz da avenida Paulista – que frauda balanços de empresas e países e arruína o acionista minoritário, embolsa, hoje mais que antes da crise, bônus milionários. Enquanto os primeiros vão para a cadeia, o segundo, que às vezes arrasa a economia de países inteiros, ganha foto na capa da revista The Economist como financista do ano.” (SOUZA: 2015, p. 244-247)

Dentre os contos de fada para adultos mais famosos, para além das religiões instituídas no mercado das crendices, há o famoso “mito nacional”. Não importa se é verdadeiro ou ilusório o mito nacional, ele foi forjado para ter uma eficácia prática, produzir uma certa solidariedade social, forjando uma unidade entre aqueles que, no nosso caso, calharam de nascer neste território que historicamente foi delimitado e batizado Brasil, o mais gigantesco Estado Nacional da América Latina.

O mito nacional, inspirador dos sentimentos de nacionalismo (que se manifesta também como narcisismo nacionalista ferido, por exemplo quando nos sentimos humilhados como nação ao apanhar de 7 a 1 da Alemanha na Copa de 2014), não cessa de ser mobilizado hoje em dia. E esta velharia mofada que é Ordem e Progresso, mote positivista de Augusto Comte, salta da tumba como merchandising (por sinal, péssimo!) do governo golpista de Temer e seus consortes.

“O mito nacional não se reduz ao seu valor como verdade”, explica Jessé. “Ao contrário, fundamental é seu papel produtor de solidariedades que permitem que sociedades concretas enfrentem guerras, crises e até guerras civis sem se destruir como nação, e até saiam fortificadas desses desastres. A virtude da identidade nacional é, portanto, pragmática, pois serve a uma função fundamental como conto de fadas para adultos, cumprindo papel semelhante ao das antigas religiões mundiais.” (SOUZA: p. 45)

Lendo isso, não pude evitar que surgissem na memória algumas cenas recentes da história do país, em que viu-se a Avenida Paulista tomada por dezenas de milhares de manifestantes, vestidos de verde-e-amarelo (camisetas da corruptíssima CPF!), portando bandeirolas do Brasil, muitos dos quais talvez acreditassem piamente que estavam prestando um serviço cívico à nação ao apoiarem o impeachment de Dilma Rousseff, como se a derrubada da presidenta, mesmo sem crime de responsabilidade e através de golpe parlamentar, fosse a panacéia para o lodaçal em que nos encontramos nesta interminável crise política. Agora descobrem, caso não sejam completamente tapados e vidiotas, que a dinossáurica elite plutocrática é quem está assaltando o poder e golpeando-nos (“nós, os 99%”!).

Concretizado o afastamento da presidenta após as votações na Câmara e no Senado, estas massas de “coxinhas”, especialistas em papaguear a indignação seletiva da mídia interesseira cognominada P.I.G. (apelido suíno que faz plena justiça a seus serviços porcos de emporcalhar democracia!), calaram-se com suas panelas nas varandas gourmet. Estas massas de manobra da nossa Direita golpista e interesseira simplesmente sumiram das ruas, ainda que os escândalos de corrupção só tenham se multiplicado desde que Temer virou o interino e depois o presidente (apesar de ficha-suja e inelegível por 8 anos, é bom lembrar).

Para além da cusparada cheia de catarro que foi dada sobre a imensa maioria da população brasileira com a escolha de seu Sinistério – que não representa as mulheres, os jovens, os negros, os índios, os gays (não representa ninguém senão homens brancos, velhos e endinheirados!) – o golpismo temerário logo explicitou seu desejo de prosseguir com o plano da privataria, a começar pela Petrobras e pelo pré-sal. Entreguismo pouco é bobagem. Deu facadas no coração do SUS, do Bolsa Família, do MinC, do Mais Médicos. Arreganhou os dentes de seu fascismo, de sua oposição a qualquer projeto de país mais utópico onde tivessem lugar a democratização da dignidade e uma inclusão social ampla e solidária. Como “cereja” de seu bolo – ou melhor, como bomba atômica de sua blitzkrieg – preparou a PEC 241 / 55, verdadeiro genocídio planificado, que com o congelamento de investimentos públicos na saúde e na educação pretende bombardear a qualidade de vida, já muito abaixo da dignidade, daqueles que no Brasil são os milhões de pessoas mais vulneráveis e oprimidas.

Na mesma época em que até o FMI admite que o neoliberalismo foi um fracasso e que preparam-se novas edições dos laboratórios de outros-mundos possíveis (como o Fórum Social Mundial, ocorrido em Agosto de 2016 em Montréal, Québec), estes dinossauros da política institucionalmente corrompida querem impor-nos a Doutrina do Choque sobre os escombros de uma democracia achincalhada. Uma democracia atingida no peito pelos atentados conjuntos perpetrados pelo empresariado (o pato da Fiesp é um psicopata!), pelos magnatas do  P.I.G. e suas marionetes, pelos partidos plutocráticos como o PMDB, o PSDB e o DEM, pela Bancada BBBB (Boi, Bíblia, Bala, Banco), para não falar da “base social” do Golpe, seus apoiadores na sociedade civil, uma gente que não compreenderemos  bem só por termos apelidado de coxinhas.

 Jessé Souza fornece pistas importantes para compreender o papel das chamadas classes médias em nossa atual desventura coletiva, explanando um pouco a “genealogia do Coxinato”, este setor proto-fascista das classes médias e altas que desempenha papel chave no Golpe. Se compreendi bem, o sociólogo estabelece distinções, na pirâmide social do Brasil, entre pelo menos 4 “estamentos”: na base da pirâmide está a “ralé”, os excluídos e marginalizados, aquilo que alguns chamam de lumpen ou de subproletariado; mais acima estão aqueles trabalhadores que, apesar de pobres, são apelidados por Jessé como “batalhadores”, aqueles que cumprem devidamente suas funções sociais em seus empregos assalariados e que a duras penas ascendem socialmente ainda que não tenham nascido com privilégios de berço; subindo mais alguns degraus, encontraríamos a tal classe média oficial, a velha classe média; por cima dela (literalmente) amacaca-se no tope a famigerada elite, plutocrática, golpista, proto-fascista (aquela que, nas pesquisas de intenção de voto, tem predileção por Jair Bolsonaro…).

É que o Brasil mudou um bocado desde a eleição de Lula e os 13 anos de PT na presidência geraram um fenômeno sociológico que estarrece – e que teve na obra de André Singer, Os Sentidos do Lulismo, uma das mais importantes contribuições à compreensão: falo da  ascensão social de mais de 40 milhões de pessoas, que teriam formado uma suposta nova classe média (tanto Jessé Souza quanto Marilena Chauí irão contestar a nomenclatura, sem negar a efetiva ascensão de classe):

“Essa suposta nova classe média, como foi apelidada no discurso oficial triunfalista do governo e da mídia brasileiros, refere-se à efetiva ascensão social de cerca de 40 milhões de brasileiros, que não só tiveram um aumento de renda, mas também levou a que cerca de metade deles entrasse no mercado formal, com proteção de leis trabalhistas, previdenciárias e sociais. Esta foi, sem qualquer dúvida, a melhor notícia dos 10 anos de elevado crescimento econômico do Brasil entre 2002 e 2012. Pela primeira vez em muitas décadas, o crescimento econômico beneficiou também os setores populares da sociedade brasileira. Políticas redistributivas, como o Bolsa Família, que beneficia mais de 46 milhões de pessoas, aliadas ao aumento real do salário mínimo em cerca de 70%, a políticas de microcrédito e de facilidades ao crédito de modo geral, além de políticas tópicas de acesso à educação superior para a população mais pobre, fortaleceram a base da pirâmide social brasileira e operaram importantes mudanças morfológicas na estrutura de classes da sociedade brasileira contemporânea. Isso comprova que não existe classe condenada para sempre e que condições econômicas e políticas favoráveis podem desempenhar papel decisivo.

A confusão implicada na denominação desta classe como ‘nova classe média’ reflete a influência dos discursos liberais que confundem ‘classe social’ com ‘faixa de renda’. Na realidade esta ‘nova classe média’ não possui quaisquer dos privilégios de nascimento das classes médias e altas. Ao contrário, seus membros típicos tem que trabalhar desde cedo, frequentemente já aos 11 ou 12 anos, e conciliar escola e trabalho. Muitos são também super-explorados com jornadas de trabalho de até 14 ou 15 horas por dia, acumulando mais de um emprego e fazendo ‘bicos’ de fim de semana… As condições de trabalho e de exploração dessa mão de obra a aproximam muito do patamar de uma classe trabalhadora precarizada, típica da fase atual do capitalismo sob hegemonia do capital financeiro.” (SOUZA: p. 209)

Esta distinção me parece interessante: existe uma velha classe média, com privilégios de berço, convivendo com estes cerca de 40 milhões de pessoas da classe trabalhadora e da ralé que vivenciaram a efetiva ascensão social propiciada pelos programas sociais do governo Lula, que até seus mais encarniçados detratores admitem que foi capaz de gerar “expansão do emprego formal com carteira assinada, potencial de mobilidade ascendente acompanhado de inclusão no mercado de bens de consumo e diminuição da abissal desigualdade brasileira”, com “ganhos de salário real e aumento real do salário mínimo, por um lado, e o sucesso do Bolsa Família e do microcrédito, por outro, compreendidos como elementos decisivos.” (p. 222)

Apesar do avanço conservador e golpista, ilude-se quem pensa no lulismo como força histórica derrotada, muito pelo contrário: todas as pesquisas de intenção de voto colocam Lula como franco favorito para uma hipotética eleição em 2018, sinal de que há ainda uma base social enorme fiel a este projeto de inclusão social que logrou, se confiarmos no Instituto Lula, transformar a pirâmide social em um losango.

* * * * *

II. FALÁCIAS DA MERITOCRACIA E ÓDIO À DEMOCRACIA

Mas engana-se quem pensa que a velha classe média simplesmente acolheu de braços abertos, e com jovial hospitalidade, os recém-chegados “batalhadores” das classes trabalhadores que lograram ascender socialmente: uma fração considerável da velha classe média permanece aferrada à sua arrogância e seu elitismo, desejando ver-se novamente separada da ralé por um abismo de desigualdade. Esta classe média reacionária, que flerta com o fascismo, que aplaude Fleurys, que votaria em Bolsonaro, que apoiou o Golpe quando este tinha em seu leme delinquentes como Eduardo Cunha e Aécio Neves, tem como uma de suas ideologias de estimação a meritocracia. 

A meritocracia, ou ideologia do mérito individual, prega que cada um está onde merece na pirâmide social. Trata-se de uma construção falsificadora que procura fazer com “que o privilégio apareça como merecido” e é “a forma especificamente capitalista e moderna de legitimação da desigualdade social” (p. 228), como diz Jessé. A velha classe média apega-se a este ídolo da meritocracia para poder esquecer, ou cegar-se voluntariamente, quanto à exploração bárbara da ralé que sustenta toda a estrutura de privilégios injustos de que gozam as classes possidentes:

“A ralé – ainda que as fronteiras entre as diversas classes populares na realidade concreta sejam na imensa maioria dos casos muito fluida – pode ser definida, para fins analíticos, como a classe ‘abaixo’ da clase trabalhadora. Isso não significa, obviamente, que esta classe também não seja explorada. Ela o é de modo inclusive muito mais cruel, já que é jogada nas ‘franjas do mercado competitivo’, condenada a exercer todos os trabalhos mais duros, humilhantes, sujos, pesados e perigosos. As classes do privilégio exploram esse exército de pessoas disponíveis a fazer quase de tudo. O motoboy que entrega pizza, o lavador de carros, o trabalhador que carrega a mudança nas costas, a prostituta pobre que vende o corpo para sobreviver, ou o exército de serviçais domésticos que fazem a comida e cuidam dos filhos das classes média e alta, que, assim, podem se dedicar a estudos ou trabalhos mais rentáveis.

É este tempo ‘roubado’ de outra classe que permite reproduzir e eternizar uma relação de exploração que condena uma classe inteira ao abandono e à humilhação, enquanto garante a reprodução no tempo das classes do privilégio. Luta de classes não é apenas a greve sindical ou a revolução sangrenta nas ruas que todos percebem. Ela é, antes de tudo, o exercício silencioso da exploração construída e consentida socialmente. (…) A noção superficial e triunfalista de ‘nova classe média’, ao reduzir as classes à sua renda, simplesmente esquece o principal: as relações de dominação que fazem com que alguns monopolizem todos os privilégios enquanto outros são excluídos.  Procuramos, sem deixar de reconhecer as conquistas e a ascensão social de tantos, mostrar o sofrimentos e a luta diária de quem ascende sem possuir qualquer dos privilégios de nascimento da verdadeira classe média.

As classes médias são classes do privilégio no mundo todo. Como toda classe privilegiada, a classe média tem interesse em esconder as causas do privilégio injusto. Ao contrário da classe dos ‘endinheirados’, acima dela, cujo prestígio se baseia no monopólio do capital econômico, o privilégio da classe média se baseia na apropriação de capital cultural altamente valorizado e indispensável para a reprodução de mercado e Estado. Este tipo de capital se materializa, por exemplo, no conhecimento oferecido nos cursos universitários de prestígio, nas pós-graduações, no conhecimento de línguas estrangeiras etc.  Mais importante ainda é perceber que o capital cultural não é formado apenas por títulos escolares, mas, antes de tudo, pelo aprendizado na socialização familiar, desde tenra idade, de certas ‘disposições invisíveis para o comportamento competitivo’. (…) A classe média tende a se acreditar como a classe do milagre do mérito individual, conquistado pelo esforço, e não por privilégios de nascimento. A classe média é a classe da meritocracia por excelência, retirando dessa falácia sua ‘dignidade’ específica.

Max Weber percebia claramente que todas as classes dominantes em todo lugar e em todas as épocas não querem apenas usufruir os privilégios que são a base de sua felicidade, querem também saber que ‘têm direito aos privilégios’. Assim, é necessário tornar invisíveis todos os privilégios de nascimento… garante-se a boa consciência do privilegiado, que passa a achar que tem ‘direito’ a prestígio, reconhecimento e melhores salários e a culpar as vítimas, de um processo social que torna invisível a injustiça, por sua própria miséria e sofrimento, como se fosse possível ‘escolher’ ser humilhado e pobre.” (SOUZA: p. 232-233-240-241)

A ideologia da meritocracia é uma falácia que serve para justificar e naturalizar o apartheid social e a desigualdade obscena, que são produtos históricos e não ditames divinos ou fatalidades inexoráveis. Aquele que procura justificar sua posição de classe privilegiada apelando para seu mérito pessoal está ocultando as raízes sociais que produzem e reproduzem sistematicamente as desigualdades ao instituírem, por exemplo, os acessos diferenciais à apropriação do capital cultural (conceito desenvolvido com maestria por Bourdieu).

Não se trata somente de mérito individual quando alguém já nascido nas classes médias ou alta “conquista” um lugar ao sol – digamos: uns 25.000 reais de salário mensal, com muita sombra e água fresca – pois tem doutorado, pHd e Lattes bombadão – esta “história de sucesso” decorre de privilégios de nascimento, de acessos à formação de que vastos contingentes da população estão excluídos, de caminhos que só puderam ser trilhados pois outros trabalhadores, da chamada ralé, laboravam duramente em trampos braçais e mecânicos para que os supostamente meritórios membros da elite cultural pudessem, de bundas confortavelmente sentadas na cadeira, estudar e se diplomar, conquistando os prestígios decorrentes da apropriação bem-sucedida dos capitais culturais valorizados no mercado.

“Afinal, tanto no Brasil quanto na Alemanha ou na França a naturalização da desigualdade é possível pela sutil violência da ideologia da meritocracia. (…) Como explica Bourdieu, a ideologia da meritocracia esconde sistematicamente a produção social dos desempenhos diferenciais entre os indivíduos, tornando possível que o desempenho diferencial apareça como diferença de talentos inatos. Na sociedade moderna os indivíduos creem em uma igualdade de oportunidades para quem ‘realmente quer vencer na vida’, mas também isso é, na enorme maioria dos casos, já pré-decidido por vantagens acumuladas desde o berço. A ideologia da meritocracia, que resulta desta crença ingênua, transforma constantemente privilégio social em ‘talento individual’. ” (SOUZA: p. 154-197)

A obra de Jessé Souza tem o poder de desvelar os mecanismos da ideologia da meritocracia como violência simbólica praticada pelos privilegiados contra os despossuídos e explorados. Trata-se de esconder o processo de produção dos privilégios injustos para que estes apareçam, ilusoriamente, como méritos meramente individuais – algo muito próximo da doutrina yankee do self-made man, famosa entre nós também sob o nome de “empreendedorismo”. O grande problema da falácia meritocrática é que ela tende a culpar as vítimas da desigualdade social institucionalizada e a estigmatizar aqueles que são desprovidos de capital econômico como indignos, como subgente, processo que Jessé analisa em outra de suas obras, A Construção Social da Subcidadania.

A ideologia meritocrática pode conduzir a um “racismo de classe”, ou seja, a noção elitista e egocêntrica, nutrida por classes privilegiadas, de que elas são melhores, mais competentes, mais inteligentes, mais humanas, do que a ralé ignorante, preguiçosa, que bem merece viver em favelas, em comunidades sem saneamento básico, com acesso precário (ou nulo) à saúde e educação de qualidade. O defensor da meritocracia é normalmente aquele sujeito que, dentro de seu BMW ou Mercedes Benz blindado, dirige pelas ruas de uma metrópole achando-se superior ao povão que está, segundo o ricaço, justamente condenado a ficar espremido no busão e a receber salários de fome ainda que levante às 5 da manhã e volte pra casa só às 10 da noite.

Intimamente conectada à ideologia maniqueísta e simplista que presume um Livre Mercado (virtuoso) oposto a um Estado do Mal (ineficiente, corrupto, que deveria simplesmente privatizar tudo e entregar a gestão social aos empresários e aos consumidores!), a meritocracia é um desses contos-de-fada para adultos que dissemina cegueira e nos impede de enfrentar os desafios para uma efetiva democratização da dignidade. Demonizar o Estado de nada nos serve, já que ele é a única instância institucional com capacidade de regular, controlar, coibir e punir os excessos criminosos, as corrupções lesivas ao bem público, cometidas em tenebrosas transações mercadológico-políticas.

Tampouco o ingênuo anarquismo que pretende aniquilar totalmente o Estado parece-me realista: os sistemas públicos de saúde e educação, por exemplo, devem ser extintos? Os programas sociais de redistribuição de renda devem ser abolidos simplesmente pois são estatais? Um certo anarquismo aproxima-se perigosamente do neoliberalismo em seu anti-estatismo radical, que corre o risco de fazer o jogo que interessa aos anarco-capitalistas, os que desejam o lucrocentrismo sem freios.

O Estado pode ser inclusivo ou excludente; pode trabalhar em prol do bem comum da comunidade e todos seus membros, ou praticar alianças plutocráticas que favoreçam somente certas classes do privilégio. Que a tendência do Estado seja transformar-se, de modo recorrente, em instrumento de dominação de classes e balcão de negócios da burguesia, não me parece justificar a defesa de uma destruição total da utopia de um Estado como gestor do bem público, devotado ao bem comum.

Vivemos, porém, em tempos sombrios, em que parece que a democracia é mais um valor ou utopia do que realidade efetiva. Tempos que, para lembrar o título de um livro de Jacques Rancière, são de Ódio à Democracia. A aristocracia odeia a democracia direta e a participação política; mas a esquerda também às vezes odeia a democracia e prega a liderança das vanguardas iluminadas que conduzem o povo a um melhor amanhã (um dirigismo que ameaça aniquilar autonomia e manter o coletivo na servidão). O poderio dos mais ricos – oligarquia – procura travestir-se com as nobres vestes do mérito, o que veio dar no aristocratismo da meritocracia de que falamos há pouco. Sobre isto, Rancière escreveu palavras que eu subscrevo:

“Em 1963, Hannah Arendt ainda via na forma revolucionária dos conselhos o verdadeiro poder do povo, na qual se constituía a única elite política efetiva, a elite autosselecionada no território daqueles que se sentem felizes em se preocupar com a coisa pública. (…) A democracia, longe de ser a forma de vida dos indivíduos empenhados em sua felicidade privada, é o processo de luta contra essa privatização, o processo de ampliação dessa esfera. Ampliar a esfera pública não significa, como afirma o chamado discurso liberal, exigir a intervenção crescente do Estado na sociedade. Significa lutar contra a divisão do público e do privado que garante a dupla dominação da oligarquia no Estado e na sociedade.” (RANCIÈRE, Boitempo:2014, p.69- 72)

A luta de classe, longe de ter sido abolida pelo propugnado mas nunca acontecido Paraíso Capitalista e “fim da História”, a luta de classes na real está pegando fogo, mundo afora (vejam a França e o Nuit Debout!), agora em escala global: Plutocracia vs Precariado vão digladiar num planeta que talvez possamos mudar de nome, conforme os termômetros esquentam (e não haverá Papa que os pare!), fazendo recurso a Mike Davis – que chamou-o de Planet of Slums ou Planeta Favela. Ou então podemos apelas a um re-batismo poético: que tal nos inspirarmos em T. S. Eliot e mudar o nome do planeta de Earth para Wasteland? Bem-vindos à Devastolândia (tradução de Leminski para a Wasteland de Eliot…)!

Rio Doce

“O fotógrafo Gabriel Lordêllo, parceiro do Instituto Últimos Refúgios, sobrevoou o Rio Doce 7 mêses após o início da tragédia causada pelo rompimento da barragem da Samarco em Bento Rodrigues/MG. O objetivo era registrar como está a situação atual deste que foi um dos maiores crimes ambientais da história do país. O sobrevoo começou em um trecho de Linhares/ES e foi até Governador Valadares/MG. Ainda é possível observar rejeitos descendo o rio.”

III. DEMOCRACIA NA UTI

Um sinal de que a democracia, ainda que esteja na UTI, ainda não foi mandada ao cemitério de vez, é o fato de que no Brasil ainda exista uma certa margem de liberdade de expressão e de imprensa que permite que um vozerio se erga, nas redes e nas ruas, para denunciar o ataque à democracia. Nada seria mais enganador que supor que a democracia é um valor universalmente louvado, isto é, que todo mundo tem consenso sobre a democracia ser o melhor sistema de governo – ou ao menos o menos pior.

A instauração do regime militar após o coup d’État de 1964 acarretou um tal sufocamento da democracia que, para denunciar a ditadura e permanecer livre da tortura ou do presídio, artistas tinham que recorrer a sutis subterfúgios poéticos. É Chico Buarque não ousando dizer o “cale-se” em aberto, mas referindo-se à cultura do autoritarismo silenciador em sua “Cálice”. Ou é aquela famosa “tarde que caía feito um viaduto”, em O Bêbado e a Equilibrista de Aldir Blanc e João Bosco, célebre na voz de Elis Regina, que era metáfora “para falar de uma obra super faturada, com material inferior, que desabou.” (KARNAL, Leandro)

Sintoma de que a ditadura ainda não voltou de vez é que possamos, ao menos na blogosfera e nas redes sociais, ao menos em comícios e passeatas, marchas e assembleias, denunciar o processo, a meu ver justamente cognominado O Golpe, em curso neste país que ainda não soube tirar a sabedoria necessária de seus trágicos erros do passado (um exemplo: a Comissão Nacional da Verdade ficou longe de tornar-se comoção nacional ou oportunidade para aprendizado coletivo sobre os rumos passados e potencialidades futuras deste território que chamamos Brasil).

O autoritarismo das elites manifesta-se em 2016 com a voracidade e a fúria de que já demonstrou-se tão capaz em outras oportunidades históricas, tudo em prol da instauração de um regime que é benesse pra privilegiado austeridade para o resto. O 1%, camaradas, está escarrando em nossa cara. E chocando o ovo de serpente do fascismo redivivo.

Um livro que adorei ler recentemente, e que me parece preciosa contribuição aos debates contemporâneos sobre a democracia, é de David Graeber: no capítulo A História oculta da democracia, o antropólogo estadunidense e ativista do movimento Occupy Wall Street revela o quanto a democracia já foi demonizada, vista como inimiga, temida como um pesadelo, através da História, em especial pelas classes dominantes ciosas de defender sua posição no status quo:

democracyproject

“A maior parte da população desconhece o fato de que a Declaração de Independência e a Constituição [dos EUA] não mencionam que os Estados Unidos sejam uma democracia. (…) A maioria dos Pais fundadores aprendeu tudo o que sabia sobre o tema da democracia por meio da tradução de Thomas Hobbes para o inglês da História, de Tucídides, um relato sobre a Guerra do Peloponeso. A tradução pretendia ser um alerta de Hobbes sobre os perigos da democracia… Os Fundadores usavam a palavra no sentido grego antigo, que é o de autogoverno comunitário por meio de assembleias populares. Era o que hoje chamaríamos de ‘democracia direta’.” (GRAEBER: Um Projeto de Democracia. Paz e Terra: 2015, p. 160.)

Graeber na sequência explica que os EUA não nasce como democracia, mas sim como um república de molde emprestado à Roma Antiga e que os norte-americanos herdaram dos britânicos colonizadores. Trata-se de um sistema político que funciona pelo sistema da representação: “na Inglaterra remontava, pelo menos, ao século XIII. Por volta do século XV, tornou-se uma prática padrão que os homens com posses escolhessem seus representantes parlamentares mandado seus votos ao xerife.” (p. 161)

Quando se diz “homens de posses”, deve-se atentar para o princípio de exclusão que aí se manifesta: não é permitida a participação de mulheres, nem de pobres. Quem assistiu ao filme Sufraggette sabe que o voto feminino é uma dura conquista que só virá no Reino Unido ao raiar do século XX. As eleições eram portanto, no berço da democracia anglo-saxã de inspiração romana,

“consideradas uma extensão do sistema de governo monárquico, já que os representantes não tinham poderes para governar. Eles não governavam nada, coletiva ou individualmente; seu papel era falar em nome (‘representar’ os habitantes de seu distrito diante do poder soberano do rei, para oferecer conselhos, expressar queixas e, acima de tudo, entregar os impostos de sua região). (…) A ideia, que nasceu nos Estados Unidos, de dizer que o povo pode exercer poder soberano – o poder antes exercido por reis – votando em representantes com real poder para governar, foi uma invenção reconhecidamente inovadora.” (p. 161)

 A democracia representativa, que só permite que sejam eleitos aqueles com dinheiro, poder e prestígio, restringe a atuação política às classes privilegiadas, detentoras de capital econômico ou cultural. Esta pseudo-democracia, mais próxima de uma oligarquia, sempre teve pavor da democracia direta, ou seja, do poder popular ou comunitário. O medo da democracia, a noção de que é muito perigoso permitir às maiorias que tenham voz e vez, é muito bem exemplificada por Graeber a partir de John Adams, que argumentou:

“Se tudo fosse decidido pelo voto da maioria, os 8 ou 9 milhões de pessoas que não têm propriedades não pensariam em usurpar os direitos dos 1 ou 2 milhões de pessoas que têm? (…) A primeira coisa seria a extinção das dívidas; depois, pesados impostos recairiam sobre os ricos e absolutamente nenhum sobre os demais; e, finalmente, uma divisão absolutamente igual seria exigida e votada. Qual seria a consequência disso? O ocioso, o vicioso, o destemperado não perderia tempo em adotar uma vida de indulgência plena, venderia e gastaria todo o seu quinhão, e logo exigiria uma nova divisão… No momento em que ideia de que a propriedade não é tão sagrada quanto as leis de Deus e de que há uma força de lei e uma justiça pública capazes de protegê-la é admitida na sociedade, a anarquia e a tirania se iniciam.” (apud GRABER: p. 168)

A democracia, longe de ser amada e idolatrada, costuma ser desprezada, temida, evitada, vilipendiada e obstaculizada por classes privilegiadas que a retratam como caos, falta de ordem, turbulento reinado da turba ignara. Tanto que o cientista político canadense Francis Dupuis-Déri (da UQAM-Montréal)

“mapeou cuidadosamente o modo como a palavra ‘democracia’ foi usada por grandes figuras políticas nos Estados Unidos, na França e no Canadá durante os séculos XVIII e XIX, e descobriu, em todos os casos, exatamente o mesmo padrão. Quando a palavra começou a ser usada com alguma frequência, entre 1770 e 1800, foi empregada quase exclusivamente em sentido vexatório e ofensivo… era vista como anarquia, falta de governo e caos sem controle.” (p. 169)

democratie-siteSAIBA MAIS: LEIA O LIVRO, DISPONÍVEL EM EBOOK:
De Francis Dupuis-Déri

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Na sequência, convido a todos que leiam um trecho de UM PROJETO DE DEMOCRACIA – de David Graeber (Baixe o scan do livro em PDF, 30 mb:http://bit.ly/1OXbpNB)

“No mesmo dia do bloqueio da ponte do Brooklyn, em 2 de outubro de 2012, o Occupy Wall Street recebeu uma mensagem assinada por 50 intelectuais e ativistas chineses:

‘A erupção da Revolução de Wall Street no coração do império financeiro do mundo mostra que 99% das pessoas do planeta continuam a ser exploradas e oprimidas – independentemente de seres de países desenvolvidos ou em desenvolvimento. Pessoas de todo o mundo têm sua riqueza saqueada e seus direitos confiscados. A polarização econômica é hoje uma ameça comum a todos nós. O conflito entre o poder popular e o poder da elite está presente em todos os países. Agora, no entanto, a revolução democrática popular encontra repressão não só por parte de sua própria classe dominante, mas também da elite mundial que se formou com a globalização. As brasas da revolta estão espalhadas entre todos nós, esperando para queimar com a mais leve brisa. A grande era da democracia popular, que vai mudar a história, está entre nós novamente!’

Os intelectuais chineses dissidentes, assim como a maioria das pessoas no mundo, encararam o que aconteceu no Parque Zuccotti como parte de uma onda de resistência que varria o planeta. Estava muito claro que o aparato financeiro global, e todo o sistema de poder sobre o qual foi construído, estava cambaleando desde seu quase colapso em 2007-2008. Todos esperavam a reação popular. As revoltas na Tunísia e no Egito foram o início? Ou tratava-se de situações estritamente locais ou regionais? Então elas começaram a se espalhar. Quando a onda atingiu o ‘coração do império financeiro mundial’ ninguém mais podia duvidar de que algo memorável estava acontecendo.

O Occupy foi e continua a ser em sua essência um movimento de jovens voltados para o futuro, mas que ficaram completamente paralisados pela dívida. Agiram conforme as regras e assistiram à classe financeira desobedecê-las por completo, destruir a economia mundial com especulação fraudulenta, depois ser salva pela imediata e maciça intervenção governamental e, como resultado, exercer um poder ainda maior e ser ainda mais reverenciada do que antes. Enquanto isso, eles ficaram relegados a uma vida de permanente humilhação.

Especialistas em contrainsurgência dos Estados Unidos sempre souberam que o prenúncio mais provável de efervescência revolucionária em qualquer país é o crescimento da população universitária desempregada e empobrecida, ou seja, jovens cheios de energia, com muito tempo disponível, com acesso a toda a história do pensamento radical e com todos os motivos do mundo para estarem furiosos.”

DAVID GRAEBER é um ativista norte-americano, professor de antropologia da London School of Economics, e este é um trecho de seu livro “Um Projeto de Democracia – Uma História, Uma Crise, Um Movimento” (Rio: Paz e Terra, 2013, pg. 78, 84-85)

 Eduardo Carli de Moraes – Goiânia, 2016
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“É O PETRÓLEO, ESTÚPIDO!” – ASSISTA À ENTREVISTA COM O JORNALISTA INVESTIGATIVO PEPE ESCOBAR (40 MINUTOS)

patopatinhas1ASSISTA À ENTREVISTA COM O JORNALISTA INVESTIGATIVO
PEPE ESCOBAR (40 MINUTOS):

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O BRASIL NO EPICENTRO DA GUERRA HÍBRIDA @ Outras Palavras
por Pepe Escobar

PepeRevoluções coloridas nunca são demais. Os Estados Unidos, ou o Excepcionalistão, estão sempre atrás de atualizações de suas estratégias para perpetuar a hegemonia do seu Império do Caos.

A matriz ideológica e o modus operandi das revoluções coloridas já são, a essa altura, de domínio público. Nem tanto, ainda, o conceito de Guerra Não-Convencional (UW, na sigla em inglês).

Esse conceito surgiu em 2010, derivado do Manual para Guerras Não-Convencionais das Forças Especiais. Eis a citação-chave: “O objetivo dos esforços dos EUA nesse tipo de guerra é explorar as vulnerabilidades políticas, militares, econômicas e psicológicas de potências hostis, desenvolvendo e apoiando forças de resistência para atingir os objetivos estratégicos dos Estados Unidos. […] Num futuro previsível, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerras irregulares (IW, na sigla em inglês)”.

“Potências hostis” são entendidas aqui não apenas no sentido militar; qualquer país que ouse desafiar um fundamento da “ordem” mundial centrada em Washington pode ser rotulado como “hostil” – do Sudão à Argentina.

As ligações perigosas entre as revoluções coloridas e o conceito de Guerra Não-Convencional já desabrocharam, transformando-se em Guerra Híbrida; caso perverso de Flores do Mal. Revolução colorida nada mais é que o primeiro estágio daquilo que se tornará a Guerra Híbrida. E Guerra Híbrida pode ser interpretada essencialmente como a Teoria do Caos armada – um conceito absoluto queridinho dos militares norte-americanos (“a política é a continuidade da guerra por meios linguísticos”). Meu livro Império do Caos, de 2014, trata essencialmente de rastrear uma miríade de suas ramificações.

Essa bem fundamentada tese em três partes esclarece o objetivo central por trás de uma Guerra Híbrida em larga escala: “destruir projetos conectados transnacionais multipolares por meio de conflitos provocados externamente (étnicos, religiosos, políticos etc.) dentro de um país alvo”.

Os países do BRICS (Brasil Rússia, Índia, China e África do Sul) – uma sigla/conceito amaldiçoada no eixo Casa Branca-Wall Street – só tinham de ser os primeiros alvos da Guerra Híbrida. Por uma miríade de razões, entre elas: o plano de realizar comércio e negócios em suas próprias moedas, evitando o dólar norte-americano; a criação do banco de desenvolvimento dos BRICS; a declarada intenção de aumentar a integração na Eurásia, simbolizada pela hoje convergente “Rota da Seda”, liderada pela China – Um Cinturão, Uma Estrada (OBOR, na sigla em inglês), na terminologia oficial – e pela União Econômica da Eurásia, liderada pela Rússia (EEU, na sigla em inglês).

Isso implica em que, mais cedo do que tarde, a Guerra Híbrida atingirá a Ásia Central; o Quirguistão é o candidato ideal a primeiro laboratório para as experiências tipo revolução colorida dos Estados Unidos, ou o Excepcionalistão.

No estágio atual, a Guerra Híbrida está muito ativa nas fronteiras ocidentais da Rússia (Ucrânia), mas ainda embrionária em Xinjiang, oeste longínquo da China, que Pequim microgerencia como um falcão. A Guerra Híbrida também já está sendo aplicada para evitar o estratagema da construção de um oleoduto crucial, a construção do Ramo da Turquia. E será também totalmente aplicada para interromper a Rota da Seda nos Bálcãs – vital para a integração comercial da China com a Europa Oriental.

Uma vez que os BRICS são a única e verdadeira força em contraposição ao Excepcionalistão, foi necessário desenvolver uma estratégia para cada um de seus principais personagens. O jogo foi pesado contra a Rússia – de sanções à completa demonização, passando por um ataque frontal a sua moeda, uma guerra de preços do petróleo e até mesmo uma (patética) tentativa de iniciar uma revolução colorida nas ruas de Moscou. Para um membro mais fraco dos BRICS foi preciso utilizar uma estratégia mais sutil, o que nos leva à complexidade da Guerra Híbrida aplicada à atual, maciça desestabilização política e econômica do Brasil.

No manual da Guerra Híbrida, a percepção da influência de uma vasta “classe média não-engajada” é essencial para chegar ao sucesso, de forma que esses não-engajados tornem-se, mais cedo ou mais tarde, contrários a seus líderes políticos. O processo inclui tudo, de “apoio à insurgência” (como na Síria) a “ampliação do descontentamento por meio de propaganda e esforços políticos e psicológicos para desacreditar o governo” (como no Brasil). E conforme cresce a insurreição, cresce também a “intensificação da propaganda; e a preparação psicológica da população para a rebelião.” Esse, em resumo, tem sido o caso brasileiro.

Precisamos do nosso próprio Saddam

Um dos maiores objetivos estratégicos do Excepcionalistão é em geral um mix de revolução colorida e Guerra Híbrida. Mas a sociedade brasileira e sua vibrante democracia eram muito sofisticadas para métodos tipo hard, tais como sanções ou a “responsabilidade de proteger” (R2P, na sigla em inglês).

Não por acaso, São Paulo tornou-seo epicentro da Guerra Híbrida contra o Brasil. Capital do estado mais rico do Brasil e também capital econômico-financeira da América Latina, São Paulo é o nódulo central de uma estrutura de poder interconectada nacional e internacionalmente.

O sistema financeiro global centrado em Wall Street – que domina virtualmente o Ocidente inteiro – não podia simplesmente aceitar a soberania nacional, em sua completa expressão, de um ator regional da importância do Brasil.

A “Primavera Brasileira” foi virtualmente invisível, no início, um fenômeno exclusivo das mídias sociais – tal qual a Síria, no começo de 2011.

Foi quando, em junho de 2013, Edward Snowden revelou as famosas práticas de espionagem da NSA. No Brasil, a questão era espionar a Petrobras. E então, num passe de mágica, um juiz regional de primeira instância, Sérgio Moro, com base numa única fonte – um doleiro, operador de câmbio no mercado negro – teve acesso a um grande volume de documentos sobre a Petrobras. Até o momento, a investigação de dois anos da Lava Jato não revelou como eles conseguiram saber tanto sobre o que chamaram de “célula criminosa” que agia dentro da Petrobras.

O importante é que o modus operandi da revolução colorida – a luta contra a corrupção e “em defesa da democracia” – já estava sendo colocada em prática. Aquele era o primeiro passo da Guerra Híbrida.

Como cunhado pelos Excepcionalistas, há “bons” e “maus” terroristas causando estragos em toda a “Siraq”; no Brasil há uma explosão das figuras do corrupto “bom” e do corrupto “ruim”.

O Wikileaks revelou também como os Excepcionalistas duvidaram da capacidade do Brasil de projetar um submarino nuclear – uma questão de segurança nacional. Como a construtora Odebrecht tornava-se global. Como a Petrobras desenvolveu, por conta própria, a tecnologia para explorar depósitos do pré sal – a maior descoberta de petróleo deste jovem século 21, da qual as Grandes Petrolíferas dos EUA foram excluidas por ninguém menos que Lula.

Então, como resultado das revelações de Snowden, a administração Roussef exigiu que todas as agências do governo usassem empresas estatais em seus serviços de tecnologia. Isso poderia significar que as companhias norte-americanas perderiam até US$ 35 bilhões de receita em dois anos, ao ser excluídos de negociar na 7ª maior economia do mundo – como descobriu o grupo de pesquisa Fundação para a Informação, Tecnologia & Inovação (Information Technology & Innovation Foundation).

O futuro acontece agora

A marcha em direção à Guerra Híbrida no Brasil teve pouco a ver com as tendências políticas de direita ou esquerda. Foi basicamente sobre a mobilização de algumas famílias ultra ricas que governam de fato o país; da compra de grandes parcelas do Congresso; do controle dos meios de comunicação; do comportamento de donos de escravos do século 19 (a escravidão ainda permeia todas as relações sociais no Brasil); e de legitimar tudo isso por meio de uma robusta, embora espúria tradição intelectual.

Eles dariam o sinal para a mobilização da classe média. O sociólogo Jesse de Souza identificou uma freudiana “gratificação substitutiva”, fenômeno pelo qual a classe média brasileira – grande parte da qual clama agora pela mudança do regime – imita os poucos ultra ricos, embora seja impiedosamente explorada por eles, através de um monte de impostos e altíssimas taxas de juros.

Os 0,0001% ultra ricos e as classes médias precisavam de um Outro para demonizar – no estilo Excepcionalista. E nada poderia ser mais perfeito para o velho complexo da elite judicial-policial-midiática do que a figura de um Saddam Hussein tropical: o ex-presidente Lula.

“Movimentos” de ultra direita financiados pelos nefastos Irmãos Kock pipocaram repentinamente nas redes sociais e nos protestos de rua. O procurador geral de justiça do Brasil visitou o Império do Caos chefiando uma equipe da Lava Jato para distribuir informações sobre a Petrobras que poderiam sustentar acusações do Ministério da Justiça. A Lava Jato e o – imensamente corrupto – Congresso brasileiro, que irá agora deliberar sobre o possível impeachment da presidente Roussef, revelaram-se uma coisa só.

Àquela altura, os roteiristas estavar seguros de que a infra-estrutura social para a mudança de regime já havia produzido uma massa crítica anti-governo, permitindo assim o pleno florescimento da revolução colorida. O caminho para um golpe soft estava pavimentado – sem ter sequer de recorrer ao mortal terrorismo urbano (como na Ucrânia). O problema era que, se o golpe soft falhasse – como parece ser pelo menos possível, agora – seria muito difícil desencadear um golpe duro, estilo Pinochet, através da UW, contra a administração sitiada de Roussef; ou seja, executando finalmente a Guerra Híbrida Total.

No nível socioeconômico, a Lava Jato seria um “sucesso” total somente se fosse espelhada por um abrandamento das leis brasileiras que regulam a exploração do petróleo, abrindo-a para as Grandes Petrolíferas dos EUA. Paralelamente, todos os investimentos em programas sociais teriam de ser esmagados.

Ao contrário, o que está acontecendo agora é a mobilização progressiva da sociedade civil brasileira contra o cenário de golpe branco/golpe soft/mudança de regime. Atores cruciais da sociedade brasileira estão se posicionando firmemente contra o impeachment da presidente Rousseff, da igreja católica aos evangélicos; professores universitários do primeiro escalão; ao menos 15 governadores estaduais; massas de trabalhadores sindicalizados e trabalhadores da “economia informal”; artistas; intelectuais de destaque; juristas; a grande maioria dos advogados; e por último, mas não menos importante, o “Brasil profundo” que elegeu Rousseff legalmente, com 54,5 milhões de votos.

A disputa não chegará ao fim até que se ouça o canto de algum homem gordo do Supremo Tribunal Federal. Certo é que os acadêmicos brasileiros independentes já estão lançando as bases para pesquisar a Lava Jato não como uma operação anti-corrupção simples e maciça; mas como estudo de caso final da estratégia geopolítica dos Excepcionalistas, aplicada a um ambiente globalizado sofisticado, dominado por tecnologia da informação e redes sociais. Todo o mundo em desenvolvimento deveria ficar inteiramente alerta – e aprender as relevantes lições, já que o Brasil está fadado a ser visto como último caso da Soft Guerra Híbrida.

PEPE ESCOBAR

NOAM CHOMSKY: RÉQUIEM PARA O SONHO AMERICANO – Assista o filme completo com legendas em português (2015, 71 min)

DocRequiem for the American Dream (2015)
Directed by Peter D. Hutchison, Kelly Nyks, Jared P. Scott

ASSISTA JÁ COM LEGENDAS EM PORTUGUÊS:
Réquiem para o Sonho Americano – Noam Chomsky e os
Princípios de Concentração de Riqueza e Poder
https://youtu.be/gifbKMEp7YU

REQUIEM FOR THE AMERICAN DREAM is the definitive discourse with Noam Chomsky, widely regarded as the most important intellectual alive, on the defining characteristic of our time – the deliberate concentration of wealth and power in the hands of a select few. Through interviews filmed over four years, Chomsky unpacks the principles that have brought us to the crossroads of historically unprecedented inequality – tracing a half century of policies designed to favor the most wealthy at the expense of the majority – while also looking back on his own life of activism and political participation. Profoundly personal and thought provoking, Chomsky provides penetrating insight into what may well be the lasting legacy of our time – the death of the middle class, and swan song of functioning democracy. A potent reminder that power ultimately rests in the hands of the governed, REQUIEM is required viewing for all who maintain hope in a shared stake in the future. Written by Jared P. Scott – IMDB

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VEJA TAMBÉM:

Noam Chomsky e Michel Foucault – “On human nature”
(legendas em português)