O IMENSO ESPELHO DO CÉU – Documentário curta-metragem filmado no Salar de Uyuni, em Potosí, Bolívia (2018, 14 min)

EL INMENSO ESPEJO DEL CIELO

 

 

“O que é a História de toda a América senão uma crônica do real-maravilhoso?” Alejo Carpentier

Salar de Uyuni é um dos locais mais deslumbrantes sobre a face da Terra. É o maior e mais alto deserto de sal do mundo: estende-se por 10.582 km quadrados e encontra-se a 3.656 metros acima do nível médio do mar. Está localizado nos estados de Potosí e Oruro, na Bolívia, sendo um dos destinos turísticos mais procurados do país.

Era época de chuvas, quando o salar se transforma em um “Imenso Espelho do Céu” – “El Inmenso Espejo Del Cielo”, título deste documentário curta-metragem, falado em espanhol, em que registro um pouco da travessia maravilhosa que fiz na excelente companhia de Elvis Félix (nosso guia), o peruano Alexander Ccoycca Ccaulla, a holandesa Amanda Sabat, os chilenos Hans Richard Carrasco Jorquera e Carla Ríos Martinez, e o japonês Hiroki Matsubara.

Ali passei algumas das experiências mais extraordinárias que essa existência já me proporcionou. Era o início de 2018 e eu vinha de uma travessia extremamente fascinante pelo Peru – primeiro, por Cuzco e Macchu Picchu, depois em Puno para as festividades folclóricas da Candelária no Lago Tititica. Após deixar para trás a região do Titicaca, chegando em La Paz e seus teleféricos de transe, peguei um vôo doméstico da BOA rumo à Uyuni que foi um dos piores que já tive o desprazer de experimentar: tanta turbulência e tempestade que eu, em meio às taquicardias, já estava me despedindo dos vivos e imaginando que morreria espatifado no chão com a queda daquele teco-teco treme-treme. Chegar vivo em Uyuni foi um alívio tão maravilhoso que me colocou na vibe certa para apreciar cada segundo da jornada.

No vídeo, registro algumas conversas que tive com os companheiros de viagem sobre temas importantes de nossa latinoamericanidade: o que significa que a Bolívia tenha se tornado, na era Evo Morales, um “Estado Plurinacional”? Por que há um “Cemitério de Trens” nas proximidades do salar e para quê finalidades eram utilizados os vagões e trilhos? Que minérios foram extraídos dali no passado, e quais os minérios que hoje fazem crescer os olhos dos mineradores? Por que este é um dos locais mais “fotogênicos” do planeta e por que tanta gente gosta de levar pra lá dinossauros em miniatura?

Este filme, mescla de diário turístico com tentativa de etnografia documental a quente, revela alguns vislumbres das belezas infindas da paisagem natural e humana da Bolívia. Filmagem, montagem e som direto por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro. Trilha sonora com canções queridas do Quilapayun e do Perotá Chingó.

Dále! 

 

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Questionar veracidade da teoria da origem das espécies, desculpem, é ignorância – Por Dráuzio Varella

Criacionismo outra vez

Questionar veracidade da teoria da origem das espécies, desculpem, é ignorância

por Dráuzio Varella em Folha de São Paulo (9.dez.2018)

Voltamos a falar no ensino do criacionismo nas escolas. A mania de andar para trás teima em nos perseguir.

Até 1859, quando Charles Darwin publicou o livro sobre a origem das espécies, todos acreditavam que Deus as havia criado num único dia.

Essa crença começou a ser questionada no século 19, época em que os museus ingleses passaram a exibir plantas e esqueletos de animais já extintos. Como justificar o desaparecimento de tantas espécies tão semelhantes às que ainda povoavam a Terra?

A explicação corrente era a de que a ira divina exterminava periodicamente algumas espécies para criar outras, parecidas com as anteriores.

Darwin entendeu que a ciência devia estudar a grande variabilidade existente entre os indivíduos da mesma espécie, característica que não era levada em consideração pelos naturalistas da época.

Suas observações sobre os pássaros das ilhas que visitou a bordo do Beagle, bem como a leitura dos trabalhos de Malthus a respeito da finitude dos recursos naturais, levaram Darwin a concluir que a vida é uma eterna competição pelo acesso a eles, na qual os indivíduos que não se adaptaram às exigências do ambiente foram eliminados por seleção natural.

Como consequência, todos os seres vivos deviam ter ancestrais comuns. O homem, por exemplo, seria descendente do mesmo ancestral que deu origem aos demais primatas.

Imaginem o furor que essa ideia provocou na Inglaterra vitoriana e no mundo religioso. Negar que fôramos criados à imagem e semelhança de Deus era uma blasfêmia inaceitável (ainda hoje considerada como tal por muitos religiosos).

Desde então, a teoria que Darwin enunciou naquele tempo foi exaustivamente testada e confirmada. O conceito de mutação gênica, a descrição da molécula de DNA e as descobertas da genética e da biologia molecular nos séculos 20 e 21 demonstraram que a seleção natural está presente até nos mecanismos moleculares das funções fisiológicas das células.
Theodosius Dobzhanski, um dos maiores geneticistas do século passado, afirmou: “Nada em biologia faz sentido senão à luz da evolução”.

A seleção natural é um mecanismo universal que explica a evolução da vida na Terra e em qualquer planeta em que venha a ser encontrada.

Ao contrário do pensamento científico, o religioso está alicerçado na fé. Como não preciso de experimentos para provar que Deus existe, que Jesus Cristo foi seu filho e que a vida eterna é o nosso destino, posso crer que a Terra tem 10 mil anos e que Eva foi criada a partir de uma costela de Adão.

Nada contra os crentes, a ciência não é a única forma de entender o mundo, as religiões procuram fazê-lo por outros caminhos. No entanto, assim como os cientistas têm obrigação de respeitar crenças alheias, os religiosos não devem se opor ao conhecimento científico.

O problema não está no ensino do criacionismo como pensamento religioso que ainda influencia muitas pessoas, mas em apresentá-lo como alternativa em pé de igualdade à evolução das espécies por seleção natural.

Questionar a veracidade da teoria da origem das espécies enunciada por Darwin e Wallace há mais de 150 anos, desculpem, é ignorância. É o mesmo do que duvidar da gravitação universal de Newton, colocar outra vez a Terra no centro do universo sem levar em conta Copérnico e Galileu, negar a relatividade enunciada por Einstein ou a teoria quântica de Max Planck.

A Terra não tem 10 mil anos, mas 4,5 bilhões. A vida surgiu a partir das moléculas primordiais de RNA que se formaram há uns 4 bilhões, assim que o planeta esfriou. Chimpanzés e bonobos compartilham conosco mais de 95% dos genes que herdamos de nosso ancestral comum. Não fosse um meteorito cair na península de Yucatán, no México, há 65 milhões de anos, os dinossauros ainda dominariam a Terra e, nós, dificilmente estaríamos por aqui.

Há os que preferem crer que a mão de Deus deu origem ao homem e a todos os seres vivos. Alguns não negam as evidências da evolução, mas propõem que Ele está por trás de todas as mutações gênicas adaptativas que selecionaram as espécies. Para eles, admitir que surgimos como resultado dos acasos envolvidos na seleção natural não faz sentido.

Para mim, imaginar que um ser superior criou tudo num passe de mágica reduz a complexidade da biologia que através de mecanismos seletivos chegou ao único animal que se atreveu a desvendar os mistérios da criação da vida.

Drauzio Varella
Médico cancerologista, autor de “Estação Carandiru”.

A MÚSICA EXISTE POIS A VIDA NÃO BASTA – Na Escola da Vida, os aprendizados e benfeitorias de levar uma Existência Musicada (por Eduardo Carli de Moraes)

Assim como “a arte existe pois a vida não basta” (como diz Ferreira Gullar), daria pra dizer que a música existe pois o silêncio e o ruído nunca são suficientes aos nossos vorazes corações. A Humanidade tem ânsia de sentido e beleza, ela não se conforma apenas com o estrondo e a fúria. Temos vontade de algo melhor que a mera anarquia sônica.

Não conheço doido que julgue que o estrondo de uma bomba ou o barulho de uma britadeira seja preferível às melodias deliciosas e ao beat contagiante dos Beatles. E pouca gente além de monges, em busca da iluminação búdica, acham que o mutismo completo das bocas ao nosso redor seja mais propício a uma vibe nirvânica que Nina Simone ou Jeff Buckley cantando e encantando com seus gogós de ouro.

O ser humano não sabe se resignar a ser vítima de seu ambiente sonoro: ele quer intervir ativamente, transformar o seu arredor sônico, forjar pra si um ninho de sons. O ser humano quer infundir ao ar em que está mergulhado, éter através do qual transita e atravesse por toda a vida, aqueles salutares doses de ritmo, pulso, cadência, melodia, coro, consonância…

A Música – aquilo que, segundo Nietzsche, se não existisse transformaria a vida em um erro – é uma arte que acompanha o caminhar humano, infundindo à caminha da espécie aquilo que é quintessencial para que a nossa existência possa ter um sentido, ainda que este sentido seja estético. O sentido da vida estaria em sua beleza, e esta é nossa responsa inventarmos como pudermos. Sem a bela dança dos sons a vida seria bem mais parecida com um pesadelo.

“O mesmo fluxo de vida que corre por nossas veias, noite e dia, corre pelo mundo da dança em pulsações ritmadas.” – RABINDRANATH TAGORE, Prêmio Nobel de Literatura, poeta e músico da Índia

Fazer música é como esculpir com um mármore invisível. Os sons animam e entusiasmam quaisquer cegos! É como criar arquiteturas sem pedras, usando tijolos que os olhos não enxergam pois são ondas e vibrações a se irradiarem pelo éter. Os autofalantes vão lançando ao nosso redor as vibrações esculpidas que se movimentam no ar como se dançassem. Produzir música é como lançar no ar um remédio que se consome pelas orelhas, salutar para a saúde de coração e mente.

Pesquisas garantem que a música é reguladora do bioritmo: interfere no batimento cardíaco e é capaz de realizar proezas pelo aparelho respiratório e motor daqueles que a praticam. Para além desta utilidade visceral – a música é terapêutica desde antes de existirem farmácias e antidepressivos – a música pode ser (e anseia ser) bela. E será sempre suspeito de ser tosco e tacanho aquele que disser que a beleza é inútil… Beleza também é vida. Tente não querer se matar quando tudo ao seu redor é feio, fedorento, ruidoso.

Não serei eu o primeiro a sugerir que certas sinfonias são como catedrais, nem o primeiro a apontar as imensas dificuldades para uma autêntica escrita sobre a música, já que isso equivaleria a “dançar sobre arquitetura” (como disse Elvis Costello). Mas Costello, que desde sua estréia com o álbum (que tanto adoro) My Aim Is True nunca foi um poeta-cantor de economizar palavras (que nerd mais verborrágico!!!), não está falando que a escrita musical é inútil, só está frisando o quanto ela é difícil e desafiadora.

Animais obstinados e criativos, não só musicamos nosso mundo, mas também tentamos explicar com palavras e símbolos isto que nos fascina para além da razão, a Música. Escrevem-se tratados e sumas musicológicas, de lógicas intrincadas e assustadoras, tentando explicar o que é, por exemplo, a Harmonia – como o calhamaço aterrador de Arnold Schoenberg.

Humanos ficam escrevendo sobre os meios para a transmissão, a reprodução e a transfiguração dos nossos tesouros musicais. E há ainda desses doidos que escrevem, sabe-se-lá porque transtorno mental, um caudaloso rio de palavras infindáveis, aparentemente bastante inúteis, sobre os fascínios que a música é capaz de propiciar. Um destes agora vos escreve – e saúda ao raro leitor que, se está lendo até aqui, deve padecer também de alguma estirpe de melomania incurável.

Nesta minha torta e aflita jornada de aprendiz, em que caminho, por Amor à Música, nas páginas de manuais de Teoria Musical (Bohumil Med, Almir Chediak, Pozzolli etc.), vou compreendendo o quanto a Música é complexa, e o quanto sua linguagem específica é um imenso quebra-cabeças cognitivo. A experiência de aprendizado da linguagem musical é similar ao do aprendizado de uma língua estrangeira. Eu, que tenho facilidade com estas (em especial o inglês, o francês e o espanhol), literalmente quebro a cabeça com o idioma musical das partituras, um pouco como se estivesse diante do desafio cognitivo de aprender uma língua gringa que tem um alfabeto diferente do nosso – o grego, o russo ou o chinês, por exemplo.

A música é a arte da diferença, tão mais bela quanto melhor souber celebrá-la. A diferença é o ídolo do músico: ela não é “o oposto da harmonia, mas sua condição” (como explica Debray).

Ainda que possa conter palavras, isto é, utilizá-las como uma de suas ferramentas, a música transcende o verbo escrito. A música, apesar de a certo momento de sua trajetória histórica, ter encontrado meios para se fixar em pergaminho, em papel, em telas digitais (um assunto desvendado com maestria por Régis Debray, criador da Midialogia), existiu milênios e milênios descolada da escrita. Colada, isso sim, aos tambores rituais ou lúdicos, às gargantas ressonantes, às mãos batendo palmas percussivas – enfim às ritualidades da humanidade em sua ânsia de significação e deleite.

Por isso, a música é bem mais ancestral, no caminhar do gênero humano, do que a escrita. E creio que não há quem ponha seriamente em dúvida o fato de que terá um longo futuro pela frente. Não há sinal de que os humanos vão parar com o vício incurável da Música tão cedo! E como eu gostaria de saciar minha curiosidade sobre que sonzeiras estarão sendo realizadas e ouvidas no século 28 ou 29 da Era Corrente! Pena: não me sobrarão ouvidos nem mesmo para ouvir a música do século 22! 😦

A música, ao proporcionar uma vivência sensorial que transcende – em beleza, excitação e capacidade de mobilização! – tudo aquilo que um ambiente sonoro quieto ou ruidoso nos propiciam, acaba tornando-se uma parte integrante da condição humana. Está na condição dos artefatos, das criações humanas, das modificações que impomos à natureza, que destina-se a mudar o meio ambiente em que estamos inseridos de modo a que ele atenda melhor às nossas necessidades e vontades. E nossa vontade inclui a de uma vida que não seja atroz – a ânsia de beleza que em nós demanda e suplica, como a poetisa moçambicana Noémia de Souza: “tirem-nos tudo, mas deixem-nos a música!”

Nossa vontade de música parece ser insaciável. E para explicá-la seria preciso convocar um arsenal de argumentos de biólogos, de antropólogos, de artistas, de médicos. Pelos melômanos e musicoterapeutas, a música será descrita como um remédio para a alma; os médicos concordarão, com comprovações de cardiologistas, que ela é um auxílio na regulação dos batimentos cardíacos e do bioritmo em geral; antropólogos podem vir até com o papo de que seja um utensílio simbólico para a coesão grupal daqueles que compartilham de um mesmo território e pertencem a uma mesma etnia, cuja identidade está também conectada à unicidade de sua musicalidade… De olhos fechados, é possível diferenciar entre Fulni-Ôs e Yawalapitis somente pela música de seus ritos.

A música, se é fenômeno tão disseminado em toda parte do globo e através de toda a história humana (e esta diversidade tem sido muito bem exposta e explicitada por empreendimentos louváveis como a Putumayo Records), tem que ser por algumas de suas benfeitorias concretas, por aquilo que ela faz de bem aos seus beneficiários.

Temos que levar a sério a noção da música como terapia, como remédio, como saúde para os afetos… Mas ela também pode, como o pharmakon dos gregos, converter-se de remédio em veneno, de acordo com a dose. Tudo tem sua medida ótima, e alguém que amasse tanto a música, e que quisesse ouvi-la cada vez mais alto, ao subir o volume ao seu redor para uns 200 decibéis se arriscaria a ter seu tímpano rompido. Há quem diga que é possível inclusive causar a morte de um ser humano usando sons como punhais, manejando decibéis como balas.

Alguém pode ter uma hemorragia cerebral caso se lance pelo seu organismo adentro doses gigantescas de ruído excessivo – pensemos num torturador de Abu Ghraib ou Guantánamo Bay, que tortura até a morte os suspeitos de terrorismo sob seu jugo, impondo-lhes 12 horas diárias com 600 decibéis ininterruptos de Slipknot, Korn e Limp Bizkit… é de derreter qualquer cérebro após uma agonia das mais dolorentas!

A Música, enfim, com suas melódicas sucessões, suas harmônicas simultaneidades, suas rítmicas noções de sutis sincronicidades, cheia de ascensões e quedas, saltitando aos pinotes e pulos, sabendo cortejar também o silêncio, fluindo nas diferenças de alturas e durações, indo da quietude ao estrondo, pondo em ação a transa dos timbres, enche a nossa Vida daquela excitação que é essencial para que não sejamos mortos-vivos.

A Música é um agente intensificador da energia vital, da nossa capacidade de conexão com outros, da vivificação da convivência humana através da luz de nossos enlaces. Pois orquestra e coro são prodígios da colaboratividade humana que, caso um dia sejamos visitados por agentes extraterrestres de inteligência superior, que nos colocam como condição para que não sejamos exterminados que provemos que a Aventura Humana valeu a pena, faríamos bem em sentar os aliens diante de uma vitrola e deixá-los julgarem se merecemos seguir em existência com boas doses de Música.

PARTE 2

Como quem adiciona uma gotícula a um oceano dos escritos sobre música, quis com estas mau traçadas linhas falar também um exemplo específico disso tudo que tentei expressar em termos gerais – ou seja, quis expor um pouco do bem que me tem feito ouvir, descobrir, degustar, tocar e me inspirar com Perotá Chingó.

Escrevo para compartilhar um pouco das vivências que fizeram com que esta experiência musical, originária da Argentina, entrasse tão forte em minha vida neste 2018 – a ponto de eu já inseri-las no rol das bandas prediletas, pois das mais significativas com que já convivi. Isso tem conexão com viagens, nomadismos, descobertas territoriais e culturais, inseparáveis do clima existencial daqueles que circulam pelo mundo, que são rolling stones que não querem juntar limo, vibe dos que não querem ser imóveis e preferem ser errantes.

São as almas ciganas a imagem que sempre pinta em minha mente quando busco explicitar um pouco do afeto que me desperta a audição do Perotá. Nas andanças por Chile, Peru, Bolívia e Argentina, fui me encantando com artistas que passei a chamar de prediletos – Anita Tijoux e Quilapauyn, por exemplo – e agora o Perotá Chingó entrou neste time de artistas veneradas.

A banda explicita sua vibe viajeira, sua alma cigana, seu cosmopolitismo, ao confessar que nasceu de uma viagem: as amigas Lola e Julia, de Buenos Aires, combinaram de fazer uma viagem pelo Uruguai, tocando e cantando canções latino-americanas em bares, pubs e praias por aí. Viajaram animadas pela vontade de viver com arte, de levar arte aonde quer que fossem. Esse estilo-de-vida do artista-nômade, que quer conhecer várias culturas e construir sua obra a partir dessas influências que a jornada lhe trouxe, marca profundamente os afetos e a ambiência geral do Perotá.

Nos primórdios do projeto, Lola e Julia, acompanhadas por um videomaker, filmaram alguns vídeos desta gira musical uruguaia e um deles, “Rie Chinito”, viralizou na Internet (já contam-se mais de 18 milhões de plays). Fenômeno surpreendente para um singelo vídeo, sem sinal de efeitos especiais, gravado num único plano sequência, onde duas amigas cantam juntas, só vozes e violão. De fato, havia algo de especial e único naquele clipe de tamanha simplicidade: o espírito de contemplação reverencial da natureza se plasmou ali, na atitude das musicistas, e uma capacidade de expressão ali estava em botão que raras vezes podemos experenciar. Era o som da autenticidade da experiência vivida, a música que fazem aqueles que estão despertos para o aqui e o agora. 

RIE CHINITO

PEROTÁ CHINGÓ É:
Dolores Aguirre (Lola Membrillo)
Julia Maju Ortiz
Martín Dacosta
Diego Cotelo

Um site que serve de enciclopédia do Rock Argentino soube bem destacar os charmes do Perotá Chingó:

Perotá Chingó es aprendizaje y rasga el velo de la vida perfecta del artista, del músico, del viajero, y evidencia un estado humano de improvisación, transición y cambio que invita a compartir y adentrarse en procesos muy íntimos, exponiendo estados personales y grupales que hacen a una identidad musical en continuo proceso de transformación. (…) Perotá  es el vínculo entre tensión y armonía de dos poderosas voces y el milagro resultante de esa unión; es la relación entre seres que excede lo concretamente musical. Perotá es movimiento, es el viaje, es el amor por nuestra tierra y sus paisajes, el intercambio cultural y la integración de lo distinto; y todo eso se refleja fielmente en los primeros discos y años de su carrera donde aparece esa música fresca y descontracturada, de cara al viento, absuelta de géneros y desentendida de formas, poco pretenciosa desde la complejidad, pero capaz de hacer resonar fibras internas y profundas de quien se entregue a escucharlos.” – ROCK.COM.AR

Lembro-me muito bem que conheci realmente o som do Perotá a caminho da Chapada dos Veadeiros, de carona no Uno da Lígia, quando ela tocava uma playlist repleta de Anelis Assumpção, Quatro Cântaros, Gorillaz, e por aí vai. Era “La Cumplicidad”, que naquela ocasião me acachapou por sua beleza, pela força e sapiência dos afetos que usam a canção como veículo. Tornou-se subitamente uma de minhas canções latino-americanas prediletas, nesta muito comovedora interpretação do Perotá Chingó, que conecta-se a uma prece maconheira-rastafari (“Jah”); depois descobri que originalmente “La Cumplicidade” é uma canção do Cultura Profética, banda de Porto Rico, que com este hit caribenho atingiu mais de 80 milhões de plays no Youtube.

 

Depois de ouvir “La Cumplicidad” algumas dúzias de vezes, sem sentir seu impacto emocional diminuir, peguei o violão e tentei verter para o português aquela que eu considerava uma bela poesia-pop, de sabor um tanto idílico, sobre o amor e suas metáforas, o amor compreendido como cumplicidade. “A Cumplicidade” é uma canção sobre a rara e preciosa vivência de estar com alguém e sentir: “nossas vibrações de complementam”, “miro a teus olhos e já sei o que pensar”.

É o amor como um arrebatamento deleitoso de intimidade e confiança, o que nos conecta não só ao outro e suas vontades e necessidades, mas nos acorda para o todo da natureza. É uma espécie de folk panteísta, que corteja o silêncio de maneira zen, mas que sabe extravasar-se numa catarse de beleza. Uma canção que me parece transmitir uma sábia e lúcida poesia da interconexão. É uma canção que fala um pouco sobre aquilo que Paulo César Pinheiro, em um de seus poemas, define lindamente como “a luz de nosso enlace.”

(Versão caseira / demotape, a ser gravada com melhor qualidade no futuro)

A CUMPLICIDADE

SOU:
Um verbo que dá ação a uma boa conversação,
Sempre que me chamas sentes ganas. SOU:
A nova alternativa contra contaminação,
Tu és a energia que recarga. SOU:
Um arvoredo que dá sombra à tua casa
A brisa suave que sopra tua cara
Dos teus sonhos, nêga, sou a manifestação
Tu és a liberdade tão sonhada.

Sou a serenidade que leva à meditação,
E tu és aquele tão sagrado mantra. SOU:
Esses carinhos, Pacha, que te baixam a pressão,
E sempre que ela sobe ‘cê me chama e VOU.
Tu abres teus lençóis, vamos à cama.
Vamos conquistar toda a galáxia.
De tudo que acostuma sou contradição.
Das nossas cinzas reacendo chamas.

REFRÃO
A cumplicidade é tanta
Que nossas vibrações se complementam
O que tenho te faz falta
E o que tens me faz ser mais completa
A afinidade é tanta
Miro a teus olhos e já sei o que pensas
Te quero porque és tantas
Coisinhas belas que me fazer crer que SOU

SOU:
A levedura que faz crescer o amor-pão,
Tu és a vitamina que me falta. SOU:
Orvalho repousando à noite em tua plantação,
Tu és a terra fértil tão escassa. SOU:
A branca areia que alfombra tua praia,
Toda a folhagem que dá vida a teu mapa.
De toda idéia criativa sou a gestação,
Tu és a utopia liberada.

REFRÃO

Sou a loucura que estremece, tua adicção
Tu és a bússola pr’um frágil náufrago
Sou uma colônia que vai em busca de libertação
Tu és aquela dose de esperança, SOU
A Cordilheira que, lá na distância,
Cura teu olhar com sua elegância
De todo doido que contesta sou celebração
A nossa vida é um mistério que me encanta.

Testemunhar a interação entre Lola e Julia nos videos musicais do Perotá Chingó nos leva a refletir sobre entrosamento, interatividade, sincronia, solidariedade, joie de vivre, felicidade de conviver, sabedoria compartilhada, experiência vivida do convívio, utopia micropolítica, e por aí vai. O canto delas nos encanta pois carrega uma carga de cumplicidade, de expressividade, de abertura à colaboratividade, que nos aponta para um viver mais sábio.

“La Complicidad” é um tratado de filosofia condensado em 5 minutos de canção. Uma canção que desnuda a existência humana como conectividade, que celebra a possibilidade, rara mas existente, de uma boa conexão: aquela de cúmplices na criação. Aquela de amigos unidos pela busca infindável da sabedoria. Aquela de viajantes que estão felizes por terem se juntado para irem juntos pela estrada por este efêmero pedaço do caminho.

É também uma arte que, para mim, inspira uma modéstia maravilhada diante da majestosidade da Natureza, do Cosmos. Os dois álbuns que elas já lançaram – Perotá Chingó (2013) Aguas (2017) – são o tipo de música que pode ser usada para meditação ou contemplação diante de uma paisagem acachapante. São trilha sonora pra ouvir em Machu Picchu, diante da Cordilheira dos Andes, ou diante do Lago Titicaca.

Uma música que celebra os fluxos, os aguaceiros, as montanhas que nos curam a visão com sua exuberância… É uma música que quer plantar sementes de árvores cujos frutos no futuro brotarão. É um pouco o clima emocional que também tanto me comove na canção de Muerdo, cantor-compositor espanhol, chamada “Semillas”, e gravada ao vivo com Lola do Perotá. Também busquei expressar algo de meu em uma re-leitura e interpretação desta canção, “Somos Sementes”:

SOMOS SEMENTES

Terei que caminhar onde não há sendas
Onde ninguém cantou já meu cantar
Irei atravessar espinhentas veredas
Rumo a um tempo que amanhã nascerá

Atirarei sementes à terra
Sementes que de pronto brotarão
Com frutos de amor, e não de guerra
Com sabor de redenção e “Libertad!”

Te deixes sentir como vai entrando tudo em ti
Todo o Cosmo brilhoso explode por aqui
Posso ver a Raiz, sentir-me Terra também
Quero sentir marés vertendo sobre mim
Catarata que empurra tudo que não quer sair
E o que não me faz bem, vou enxotando de mim
AFUERA!

Quero navegar contra a Maré (ai ai)
Que trata de arrastar-me até o final
Terei que decolar com asas novas
Ícaro de acordes, ao compasso do ritmo

Atirarei sementes à Terra
Sementes que de pronto brotarão
Com frutos de amor, e não de guerra
Com sabor de redenção e “Libertad!”

Te deixes sentir como vai entrando por ti
Todo o Cosmo brilhoso explodindo por aí
Posso ver a Raiz… Sentir-me Terra também.
Quero sentir o Cosmo adentrando por mim
Catarata cósmica que não quer mais sair
E o que não me faz bem, vou enxotando daqui
E o que não nos faz bem, vamo enxotando daqui
E o que não nos faz zen, vamo enxotando daqui
AFUERA!

No embalo das vivências do Encontro de Culturas na Chapada, apaixonado por outra canção das hermosas hermanas do Perotá, dei sequência ao projeto com “Piel”, outra música-de-amor do Perotá que nos coloca para dançar a Valsa do Adeus e do Reencontro. Quando vi as duas cantando ao vivo, me encantei com tanta simplicidade e singeleza: trata-se de dizer ao outro que ele vale por inteiro, inclusive e sobretudo por sua pele. Pele: instrumento do abraço (que é, por sua vez, quando envolve de fato, o caminho para tornar-se um alguém total). Pele: o que entra em festa no sexo. Pele: o sensível por nosso corpo todo disseminado.

Não se trata de mera superfície: a pele do outro é o calor de que a gente precisa pra nos aquecer por dentro. A pele é subestimada por milênios de culto ascético de uma suposta alma desencarnada (miragem dos idealismos e das religiões…). A pele é aquilo que vale a pena preferir às miragens do amor platônico, pois contato sem tato é algo desconexo, não tem base… Contato é com tato – aí inclusos beijos, amplexos, transas, e etecétaras.

Acredito que as hermosas cantoras do Perotá Chingó são veículo de uma sabedoria afetiva e existencial que está muito bem manifesta neste minitratado sobre o amor sensual: o desejo por um outro com todo o seu corpo, aí incluso o território imenso da pele. Contra qualquer platonismo – idolatria do outro transformado em ideal descarnado -, a música fala das doçuras e dos calores do tocar, do roçar das peles calientes, do CONTATO COM TATO.

A canção fala sobre um amor que, longe de ficar aprisionado nas catacumbas escuras de uma subjetividade inacessível, vem para se manifestar à flor da pele. Na ausência do tocar – como sugere o belo livro de Ashley Montagu (Tocar: O Significado Humano da Pele) – o ser humano não consegue florescer. Chegou a era de sermos de novo os espíritos livres, hippie-dionisíacos, superficiais por profundidade!


PARTE 3 – MÚSICA NA ESCOLA DA VIDA, PARA ALÉM DOS ACESSÓRIOS PEDAGÓGICOS

Tanto pelo fato de ser, há pelo menos uns 15 anos, um melômano incurável e um músico amador, alguém que ouve muita música e que tenta sempre aprender mais sobre a feitura, sobre o métier do compositor, cada vez mais percebo a música como algo visceralmente conectado à educação.

O vínculo pode parecer um pouco absurdo para muitos leitores: acostumamos a pensar que a música pode ser, no máximo, uma espécie de coadjuvante em uma aula, utilizada por um professor de modo eventual, como material complementar ou como momento de descontração em relação à disciplina mais férrea que a transmissão dos conteúdos obriga a impor.

Já eu venho pensando que música e educação podem ter relações muito mais expandidas do que sonha nossa tradicional pedagogia. Digo isso por muitas razões: a primeira delas é que aprendo uma imensidão com a música, e se ela serve para mim como uma preciosa escola, que não cessa de produzir excelentes ensinamentos, por que não compartilhar no ambiente escolar os saberes e as práticas que se utilizam da música como veículos?

Alguns acharão ainda mais absurda a proposta deste aprendiz-de-educador de que a Filosofia, na escola, pode e deve ter na música uma de suas melhores aliadas. Explico: a filosofia costuma ser vista como algo destinado a cultivar a razão, o intelecto, as capacidades de raciocínio lógico. Mas isto está muito longe de esgotar seus potenciais, já que a filosofia é também cultivo da sensibilidade, da atenção às nossas percepções, da reflexão sobre aquilo que nos estimula, nos adentra, nos transforma ao fluir através de nós.

Mais ainda: alunos de filosofia, ao assistirem um videoclipe musical, são colocados concretamente na posição de sujeitos da experiência sensível, sob o impacto da arte, e podem assim aprender com as portas dos sentidos, que são assim escancaradas, aquelas lições que jamais se entregam aos que trazem os seus sentidos com as portas trancadas a cadeados (o que é o caso, creio eu, das maiorias – quantos de nós estão adormecidos, autômatos, teleguiados, auto-enclausurados, para tão poucos despertos Budas!).

Para além disso, creio que pode-se falar muita coisa interessante sobre ética e política, durante as aulas de filosofia, a partir da música.

A música pode auxiliar imensamente no aprendizado, desenvolvendo a rítmica corporal, a apreciação estética e as capacidades sinestésicas. Descobri recentemente que estas são sendas de interconexão entre música e educação que vem sendo exploradas por alguns inovadores como Emile Jacques Dalcroze (1865 – 1950), Carl Orff ou Lucas Ciavatta. Uma pedagogia das Eurhythms está em emergência e pode ser conhecida através do livro The moving body in the aural skills classroom, de Diane J. Urista (Oxford, 2016).


A música pode e deve invadir a sala-de-aula não apenas nas aulas de artes ou de ciências humanas, mas também (por que não? por que não?) em plena Física. Afinal, o material que a música utiliza como sua obra-prima são os sons, fenômenos físicos, evidentemente, como sabe quem já tentou quebrar vidro ao gritar bem alto. É possível quebrar vidraças ouvindo Rage Against The Machine em volume suficientemente extremo (e era isso que eles queriam dizer com Guerrilla Radio?).

Sem falar que a ação desse fenômeno físico sobre nossa realidade biológica e psíquica é uma ampla estrada repleta de ensinamentos e mistérios. A música pop, em inúmeros formas, já adorou explorar a conexão entre a pulsação rítmica intensa e a possibilidade de deixar o coração aos pinotes, ao ponto de explodir em shattered glass, como ocorre quando curtimos adoidado aquela lá do Blondie:

Na Escola da Vida, os aprendizados e benfeitorias de levar uma Existência Musicada são inúmeros. Nietzsche tinha razão: que tremendo equívoco seria, para qualquer ser humano, diante da chance única e insubstituível de ser quem é neste momento do tempo e neste local do espaço, passar pela vida sem ligar o mínimo para a Música, esta deusa majestosa e invisível que faz de nosso percurso do berço ao túmulo algo além de estrondo e fúria – ou seja, cadência, melodia, ritmo, sincronicidade, harmonia, coligação, diferença em dança, Beleza Que Flui…

por Eduardo Carli de Moraes, Setembro de 2018


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A ÁRVORE DA VIDA NA VIAGEM DO TEMPO – Sobre Ética e Responsabilidade Pela Vida Vindoura

A ÁRVORE DA VIDA NA VIAGEM DO TEMPO

“We did not weave the web of life, we are merely strands in it. Whatever we do to the web we do to ourselves.”
― Chief Seattle

Que a Vida emergiu no seio da Natureza, que inúmeros organismos animados incandescem no pulsante coração da Phýsis, isto é o irrefutável – é o que Hans Jonas chama de o “testemunho do Ser” e que é difícil para qualquer vivente conseguir negar. Mesmo o mais empedernido niilista, o mais pessimista dos misantropos, não conseguiriam negar que a vida existe – podem negar somente que ela tenha algum valor, que seja digna de ser preservada, mas o fato ontológico de seu Ser é aquilo que agarra qualquer indivíduo em seu seio com o abraço magnético das verdades irrefutáveis. Nem mesmo os suicidas conseguem negar o fato vital, ainda que apaguem o élan vital deste minúscula parte do cosmos que é um indivíduo. Mas matar-se é sempre afirmar que a vida, indubitavelmente, existia, e que sobrevivem vidas às mancheias a qualquer cadáver. Todo suicida é sobrevivido por uma profusão de vivos que insistem e resistem.

Respiro, resisto, provo que existo. Para além do racionalismo cartesiano, a evidência irrecusável de que há Vida.

Quer a descrevamos como Árvore, quer como Teia, a Vida é aquilo de que não se pode duvidar sem absurdo: qualquer vivo é prova viva de que não existe, nem atualmente nem nos milhões de anos do passado mais recente, Natureza desprovida de vida. Está ao nosso redor em toda a exuberância que alucinava Williams Blakes e Lucrécios, it’s plain to see and it doesn’t need Belief. 

A Vida, fenômeno dinâmico e mutável, inclui entre as suas potencialidades uma diversidade de formas cambiante, uma biodiversidade que pode ir do mínimo (imaginemos um mundo onde só existem organismos unicelulares) a uma exuberante cornucópia de milhões de espécies diversas. Este colorido da Árvore da Vida, o número de “frutos” diferentes que esta grande árvore consegue nutrir com sua seiva, varia enormemente conforme corre o rio do tempo em sua infindável viagem. Espécies podem ser extintas em massa devido a eventos cataclísmicos como aquele que, há cerca de 65 milhões de anos atrás, varreu os dinossauros da face da Terra. Não temos que enxergar como nossa responsabilidade coletiva, enquanto seres humanos capazes de impactar tremendamente esta Árvore a qual pertencemos, a preservação das condições não só de nossa própria existência específica, mas de algo mais vasto, de todo o conjunto da pluridiversa teia da Vida? E o que fazemos hoje senão, irresponsavelmente, serrar o galho sobre o qual estamos sentados?

O aquecimento global causado pelas excessivas emissões carbônicas que empestam a nossa atmosfera e produzem o Efeito Estufa, os 9 milhões de mortes prematuras causadas pela poluição e a crescente acidificação dos oceanos são algumas das causas atuantes na contemporaneidade que vem causando uma extinção em massa da biodiversidade terrestre que está entre os processos globais mais assustadores hoje em curso. A ética e a política necessitam dar o salto percepcional – vivemos, como diz Fritjof Capra em Ponto de Mutação – uma crise sócio-ambiental global que decorre também de uma disseminada e nefasta crisis of perception.

Ainda há muitos que não perceberam que a Humanidade, com o conjunto de seus meios de produção, tem transformado tão radicalmente toda a biosfera que hoje tornou-se o perigo suprem para a própria Teia da Vida sobre a face da Terra. No Antropoceno, uma forma de vida pode estar causando a extinção de milhares e milhares de espécies vivas, agindo de uma maneira que justifica plenamente as preocupações da Mafaldita, a guria-filósofa de Quino. Muito esperta e afinada com a filosofia de Hans Jonas, Malfada um dia grudou ao mapamúndi o dito: “CUIDADO! IRRESPONSÁVEIS TRABALHANDO!”



É para transcender a irresponsabilidade hoje hegemônica – e que leva, p. ex., fazendeiros acéfalos, cheios de bufunfa mas nulos de sabedoria, a botarem fogo de maneira criminosa na Chapada dos Veadeiros, como fizeram em Outubro de 2017 –  que podemos encontrar muita serventia na filosofia de Hans Jonas. Desde que a conectemos a mais de 25 séculos de reflexão sobre a Phýsis, desde os primeiros pré-socráticos (Tales de Mileto, Empédocles, Xenófanes, Heráclito etc.) até a constituição da primeira teoria científica de explicação da Natureza –  a teoria atômica.

O materialismo, em suas primeiras encarnações históricas, com Demócrito de Abdera, Epicuro de Samos, Lucrécio de Roma, faz a aposta ontológica em uma Natureza integralmente composta de átomos e vazio. Em outros termos: tudo que há compõe-se de Matéria a interagir de maneira dinâmica no interior e na imanência de um espaço imenso. No salão de danças do cosmos, sóis e planetas entretecem suas matérias no fluxo sem fim do Tempo, viagem sem arremate, percurso sem repouso. Everything forever flows.

Como a vida pôde emergir deste fluxo? Como a Natureza foi capaz de parir a primeira centelha de vida? Que forças e contextos fizeram eclodir, em meio à matéria inanimada, a vida animada? Isto faltava ao precursor histórico do materialismo: a filosofia de Demócrito, tal como chegou até nós – mutilada pelo Tempo, censurada pelos adversários… – não parece realizar as devidas distinções entre a matéria animada (viva) e a matéria inanimada (ou inorgânica). Darwin e sua Teoria da Evolução pressupõe uma continuidade entre estes dois “reinos”: eles teriam bem mais do que pontes os conectando, seriam ontologicamente unos, unidos no seio do Ser, irmanados pela matéria comum. Demócrito, sobre isso, calou-se.

O esplendor da diversidade da vida seria algo que o materialismo só saberia cantar com o devido esplendor alguns séculos depois, com Lucrécio, poeta-pagão de verbo incandescente, que legou à Humanidade seu “De Rerum Natura – Da Natureza das Coisas”, obra de amplíssima repercussão histórica (como demonstrado por Greeenblatt em “A Virada”), livro que ajudou a parir o Mundo Moderno e enterrar a Idade das Trevas (Saiba mais:http://wp.me/pNVMz-1QY).

Estamos hoje em pleno Antropoceno – nome da nova era geológica que os antropobichos encontraram para designar isto que estamos vivendo, ou seja, o Planeta Terra sequestrado aos desígnios colonizadores de uma Humanidade com mais de 7 bilhões de membros, endoidecida em seus processos de devastação da Natureza e de destruição da Teia (ou Árvore) da Vida.

Nesta encruzilhada urgente e fatal onde a Humanidade se encontra, a maioria de seus membros talvez ainda não tenha acordado para a plena consciência do que significa o homo sapiens ter se convertido em agente de extinção em massa. Que nós, humanos, possamos estar sendo, aos viventes com quem convivemos, algo equivalente a um cometa cataclísmico capaz de varrer os dinossauros para sempre de estarem “among the living”, é uma notícia que muito humano ainda não teve. Ou preferiu recebê-la fingindo-se de avestruz.



O mito de Narciso, que Freud aplicou à Humanidade como um todo em sua célebre preleção sobre as Três Feridas Narcísicas (o Heliocentrismo, o Evolucionismo, a Psicanálise…), merece ser re-ativado para pensarmos os porquês desta lamentável situação em que nos encontramos enquanto “raça humana” (como se diz na expressão infeliz…).

A Humanidade – o conjunto de todas as pessoas que existem em dado momento da história – ainda prefere o seu velho conhecido, o narcisismo antropocêntrico, àquela desagradável tarefa de honestidade consigo mesma que também é um dos alvos inglórios da Filosofia promover. A Humanidade-Narcisa, a Humanidade-avestruz, no geral apenas se esquiva dos conhecimentos que podem ferir sua auto-imagem positiva e brilhosa.

Os membros da Humanidade com síndrome narcísica não querem nem mesmo pensar na possibilidade de que possamos estar agindo como “espécie daninha” e produzindo alguns dos mais hediondos desequilíbrios ecosistêmicos já perpetrados por qualquer espécie de seres vivos…

É o momento, urgente e inadiável, de refletirmos a fundo sobre a Natureza e sobre a emergência, nela, de nós, que somos a natureza em processo de conscientizar-se sobre si mesma (para lembrar uma bela idéia do geógrafo anarquista Elisée RECLUS).

Gosto de pensar a Vida como uma Árvore que cresce por um período imensamente superior no tempo em comparação com as árvores normais que conhecemos: a Árvore da Vida persevera no ser por bilhões de anos, apesar de cataclismos e extinções, o que traz à mente os poetas que lindamente nos ensinaram, como Pablo Neruda, que “pode-se cortar todas as flores, mas não se pode deter a primavera.” Porém, espécies extintas são perdas irrecuperáveis. São primaveras que foram de fato detidas. O que a Natureza forjou em milhões e milhões de anos de evolução, aniquilamos para sempre.

“Estamos em guerra contra a natureza. Se vencermos, estamos perdidos” – Hubert Reeves


Um dos meus maiores interesses na obra do Hans Jonas, “O Princípio Responsabilidade”, livro magistral e que me vejo tão atraído a estudar mais a fundo, está na capacidade deste autor de filosofar com um enraizamento profundo no solo vital da Vida em Árvore, em seu processo infindável de acontecer.

Hans Jonas sabe que o presente da Vida inclui necessariamente, como testemunhado por nós mesmos, a vida consciente, a vida animada por subjetividade. Esta consciência, esta subjetividade, caso queiramos nos manter em solo monista, na companhia de Réclus e de Spinoza, de Deleuze e de Nietzsche, de Darwin e de Marx, esta vida capaz de consciência e que se qualifica como sujeito do conhecimento e da percepção, tem necessariamente que ter emergido do próprio seio da Matéria natural. A Vida emerge da própria imanência material em certo ponto de sua caminhada histórica. Isto não é apenas fato – impõe certos valores. O que é, por ser, implica-nos num dever-ser.

O axioma de Jonas – não muito distante de um vitalismo Nietzschiano – afirma que a Vida exige que a Vida continue. A Vida é um valor e um fim para a Vida. É o que Hans Jonas vai procurar provar através dos meandros de sua prosa filosófica densa e bem argumentada.

A Vida não está aí à-toa. A Vida trabalha. Rumo ao quê? Qual o alvo que a Vida busca em seus labores milenários? Qual o sentido de haver uma Árvore da Vida nascendo e perseverando no jardim terrestre, na espaçonave Terra? Segundo Hans Jonas, em seu ímpeto de tentar dar resposta a questões filosóficas tão antigas e tão sempiternas, a Vida nos dá como testemunho aquilo que não podemos legitimamente recusar: a Natureza tem sim seus fins, seus objetivos, suas vontades, seus télos, e entre eles está certamente a própria vida.

“A subjetividade é, em certo sentido, uma manifestação superficial da natureza – a ponta visível de um iceberg muito maior -, ela fala também em nome do seu interior mudo. Ou: o fruto revela algo da raiz e do caule dos quais ele proveio. (…) A ciência natural não nos diz tudo sobre a natureza: disso é testemunha mais cabal a sua incapacidade de dar conta do caso mais elementar do sentir (e, portanto, do fenômeno mais bem comprovado de todo o universo!) – exatamente a ponta do iceberg. Essa é uma incapacidade essencial, e não provisória. Um efeito colateral e paradoxal dessa incapacidade é o fato de que a própria ciência natural, como um evento no universo a ser explicado, permanece eternamente excluída daquilo que ela pode explicar.

De todo modo, repetimos, da mesma forma como a subjetividade manifesta (que também é sempre particular) é algo assim como um fenômeno que emerge na superfície da natureza, ela se encontra enraizada nessa natureza e em continuidade essencial com ela, de modo que ambas participam do ‘fim’. À luz do testemunho da vida (que nós, rebentos que nos tornamos capazes de compreender a nós mesmos, deveríamos ser os últimos a negar), afirmamos, portanto, que o fim, de modo geral, tem domicílio na natureza. E podemos dizer algo mais quanto ao conteúdo: ao gerar a vida, a natureza manifesta pelo menos um determinado fim, exatamente a própria vida… Evitamos dizer que a vida seja ‘o’ fim, ou mesmo o principal fim da natureza, pois não temos elementos para fazer tal tipo de suposição; basta dizer: um fim.”

[HANS JONAS, “O Princípio Responsabilidade – Ensaio de uma Ética para a Civilização Tecnológica ” (Das Prinzip Verantwortung – Versuch einer Ethic für die Technologische Zivisilation). Publicado em alemão em 1979 e em inglês em 1984. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2006. P. 136-139.]


Ora, se a Natureza tem por um de seus alvos a Vida, e a Vida está aqui como testemunho da resiliência da Natureza na persecução incansável de seus planos, quem somos nós enquanto Humanidade para violar esta lei natural e rompermos com nossa ação conjunta todo o tecido vital? Isso é modo de tratar nossos con-viventes? O desprezo e a negligência, que manifestam muitos de nossos líderes políticos em posição de poder e decisão no topo de hierarquias econômicas e políticas, pelo FUTURO DA VIDA SOBRE A FACE DA TERRA é algo que deveria nos estarrecer, indignar e revoltar. A leitura de Hans Jonas, acredito, possui um certo potencial inflamável: lê-lo poderia nos ajudar a aumentar a temperatura de nossa ação comum contra todos aqueles que violam a vontade natural de que siga existindo Vida em diversidade e em evolução no seio da Natureza imediata – onde estamos mergulhados e enraizados.

“A natureza cultiva valores”, escreve Jonas, e a expressão me faz pensa no Jardim de Epicuro. Ali, cultivava-se a amizade, ali as flores que se queriam colher tinham o perfume delicioso da amorosidade entre pessoas que buscam sinceramente a verdade e a felicidade. Como propor que a Natureza é “neutra de valores” se temos a prova do contrário em nós mesmos, se temos a evidência suprema em nosso próprio coração, na pulsância mesma de nossas viscerais vontades? Se nós, que estamos na Natureza e somos Natureza, perseguimos fins, temos metas, somos impulsionados por desejos por aquilo que encontra-se ainda no horizonte do possível e do realizável, por que a Natureza seria diferente? É o que Jonas chama de “a imanência dos fins no Ser”.

Seríamos, nós humanos, corpóreos espíritos que manifestam por sua própria existência que o Ser em sua totalidade não poderia jamais ser considerado como isento de fins. A Natureza encontra na Vida seu sentido e não teríamos nós, humanos, o direito de tudo destroçar.

“O mais forte argumento do materialismo”, segundo Jonas, é que “em conformidade com toda experiência humana, existe matéria sem espírito, mas não espírito sem matéria: não se conhece qualquer exemplo de espírito incorpóreo.” Ora, esta união corpo-espírito, que atravessa a história da filosofia, de Demócrito e Epicuro, de Lucrécio e Spinoza, de Bergson a Jonas, é aquilo que justifica a noção de felicidade como fim imanente irrecusável de qualquer ética monista-materialista.

É aí que Jonas e Epicuro podem se unir, através dos abismos do tempo histórico, para dançarem uma ciranda muito solidária sobre a canção entoada pela Felicidade – musa-Vênus que, como élan, em nossos peitos irrefutavelmente pulsa:

“Todos os homens, diz-se, almejam a felicidade. Não se diz isso em virtude de uma comprovação estatística, pois ao dizê-lo acrescentamos a afirmação de que tal busca da felicidade se encontra na sua própria natureza; portanto, fazemos uma constatação sobre sua essência. A universalidade do objetivo de ser feliz, definida dessa forma, a princípio não é mais do que um fato: não parece que seja necessário concordar com o consequente esforço de buscá-la; pode-se desdenhá-lo ou rejeitá-lo.

É preciso reconhecer que a busca da felicidade não é fruto de escolhas voluntárias, e o fato de que ela se encontre enraizada de modo tão universal em nossa natureza provoca no mínimo uma forte presunção de que esta seja uma busca legítima. Se ela não indica uma obrigação, pelo menos indica um direito: se não temos a obrigação, pelo menos temos o direito de buscar a felicidade (desde que respeitemos um certo número de condições). Mas daí, por sua vez, resultaria então a obrigação – ou seja, um dever – de respeitar no outro esse direito, de não impedi-lo, e talvez até de promovê-lo.” (JONAS, p. 143)


O que não temos o direito de fazer, argumenta Jonas, é aniquilar a possibilidade do surgimento de novos seres que, como nós, têm a capacidade da finalidade, o desejo de dignamente buscarem serem felizes. Ser responsável – pôr em prática o Princípio Responsabilidade! – é olhar em direção ao futuro e enxergar que aqueles que não nasceram ainda não podem ser por nós condenados à não-existência sem que com isso nós cometamos o mais tolo, o mais vil, o mais suicida de todos os crimes: o crime contra a Natureza, que equivale a serrarmos o galho onde nós mesmos estamos sentados.

Urge acordarmos para o fato de que não temos nenhum direito a depredar a Árvore da Vida, de meter fogo nela como fazem ruralistas do agrobiz no Cerrado brasileiro, e que ao fazê-lo nos expomos à pérfida posição de inimigos da vida, agentes da morte, laboradores pela extinção – feia e triste coisa de se ser…

Estou com os que afirmam e defendem a Vida, irrefutável não só por sua beleza e diversidade, mas por ser, no seio da Natureza, uma das produções imanentes mais complexas e resilientes que Pachamama já pariu de seu incansável útero grávido de estrelas e células.

Temos o direito de condenar futuras gerações de viventes a uma miséria de vida em meio a um ecosistema desequilibrado, caótico, contaminado? Não é irresponsável legar aos vindouros que viverão um dia uma situação tão desgraçada que eles estejam condenados ao fracasso naquela busca pela felicidade que a Natureza solidamente implantou em suas vísceras e nos recônditos de seus cérebros perpassados pela Pulsão, pelo Impulso, pela Vontade?

“O interesse do Outro, que eu devo respeitar, poderia ter como consequência indireta para mim o dever de também promover a minha própria felicidade, cuja limitação poderia perturbar a felicidade comum…” (JONAS: p. 143)

O Princípio Responsabilidade não é exatamente uma doutrina ética que pregue o ascetismo individual, nem exatamente uma pregação moralista que exige o sacrifício da geração presente em prol da futura. Essencialmente um pensador ético-político, Hans Jonas propõe uma nova governança e uma nova legalidade coletivas para os novos tempos – que ele ainda não chamava de Antropoceno, como será batizado por Paul Crutzen . A ética da responsabilidade pela vida vindoura que Hans Jonas propõe postula a posição de primazia que aquele que ainda vai nascer pede de nós, os hoje-vivos, dada a magnitude da potencialidade humana de aniquilar tecnicamente as condições para a continuação da vida sobre a face da Terra.

Esses vindouros que um dia ainda vão nascer neste nosso Mundo Comum, superando o Outro sempre-contemporâneo das éticas tradicionais, devem ganhar mais espaço em nosso radar moral, os viventes vindouros devem se torna o Outro pelo qual nos responsabilizamos. E quando dizemos vivemos vindouros, queremos incluir aí todas as vidas não-humanas, inserir na ética e logo na responsabilização inclusive este estranho Outro, este Outro que ignoramos tanto e tão irresponsavelmente, que é o Futuro Ser Vivo Não-Humano, que desde já estamos aniquilando em vastíssima escala (conferir Elizabeth Kolbert e seu livro premiado com o Pulitzer, “A Sexta Extinção”: http://wp.me/pNVMz-470).

Novos imperativos categóricos daí decorrem. Aja sempre de modo a não aniquilar a possibilidade de continuação da aventura da Vida na viagem do Tempo. Jamais ponha em risco a capacidade da Natureza em prosseguir produzindo a Vida em sua diversidade e em sua capacidade de diversificação, mutação, inovação.

Procure sempre olhar para além do umbigo do instante imediato e enxergue que Mundo Comum, como ensina Hannah Arendt, é aquilo que adentramos ao nascer, que deixamos ao morrer, que precede em bilhões de anos nossa entrada, que sobreviverá por bilhões de anos após a nossa saída.

A dita Mãe-Natureza, a Espaçonave em que estamos todos embarcados, obriga-nos a percebermos, caso queiramos ser sábios e colaboradores de seus astrofísicos projetos, que “diante dos nossos desejos e opiniões particulares ela detém os privilégios do todo diante das partes, do duradouro diante do transitório, do poderoso diante do ínfimo.” (HANS JONAS, p. 144)

* * * *

A UTOPIA COMUNISTA EM QUESTÃO: Hans Jonas comenta a herança marxista

Poderíamos legitimamente atribuir a degradação ambiental do planeta toda ao capitalismo? Como a utopia comunista se coloca, no campo de debates e conflitos, em relação à gestão ambiental? O que o marxismo e as revoluções por ele inspiradas propõe diante da perspectiva da Terra, no Antropoceno, vivenciar algumas das piores catástrofes e crises humanitárias já vivenciadas por qualquer geração humana? Precisamos de fato de uma utopia, como a comunista, para guiar nossas ações rumo a um futuro melhor, ou devemos ser mais modestos e, como propõe Hans Jonas, abandonar utopias para focar na tarefa urgente de tornar este mundo um pouco menos hediondo?

Vejamos, por exemplo, no capítulo V de O Princípio Responsabilidade, o que diz Jonas sobre “os efeitos desmoralizantes da exploração econômica”. Ele parte do “mote da crítica marxista ao capitalismo, segundo a qual as relações de exploração são imorais como tal, sendo seus efeitos igualmente desmoralizantes, tanto para os ganhadores quanto para os perdedores. Os exploradores são culpados pelo simples fato de sê-lo e, além disso, como ninguém é capaz de suportar por muito tempo a consciência da culpa, eles sofrem com a deformação moral da insensibilização e da consciência mentirosa, sem as quais não poderiam continuar a desemprenhar seu papel. (…) A sentença socrática, de que o injusto antes de tudo prejudica a si mesmo, cabe aqui também ao ‘explorador’… o sistema é moralmente prejudicial até para os seus beneficiários.” (p. 275)

O capitalismo só tem perdedores – mesmo aqueles que pensam estar ganhando, ou seja, aqueles que comemoram seus privilégios nos topos de pirâmides econômicas, estão moralmente na lama, no lodaçal da injustiça praticada cotidianamente e recalcada através das invenções psíquicas alienantes e perigosas produzidas pela hipocrisia. O bilionário hipócrita irá colocar a máscara de cidadão caridoso ao doar alguns milhões para uma ONG de combate à desnutrição infantil, mas jamais ousará questionar que a própria fonte de seu capital bilhardário seja de fato um sistema que condena milhões a morrer de fome.

O explorador, ao empobrecer o Outro, ao desrespeitar as dignidades mais básicas que seriam de direito de todos. E isso de acordo não apenas com os Direitos Humanos universais mas de acordo também com muitas pregações religiosas, como as do catolicismo, palavra que literalmente quer dizer universal e que jamais previu um deus como Jeová, particularista em sua escolha do povo eleito; no catolicismo, não há povo eleito senão a humanidade como um todo… ao (menos em teoria, ou melhor em teologia, na prática a coisa sempre foi outra e católicos não conseguiram estender aos partidários de Alá os princípios de seu ímpeto kathólico…).

“Os primeiros tempos do capitalismo industrial nos ensinaram sobre o resultado duradouro e objetivo da exploração econômica: a distribuição injusta dos bens (ou seja, não conforme ao trabalho despendido), que pode conduzir um grande número de despossuídos à degradação da sobrevivência mais elementar, que não deixa espaço para mais nada. Sobre isso, vejam o livro de Friedrich Engels, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. É óbvio que tal situação amesquinha o homem como tal: a pobreza conduz ao empobrecimento também do ponto de vista moral. O que se obtém no despotismo, por meio da violência e do medo, obtém-se aqui pela miséria material e a necessidade bruta… Ecoam as palavras de Bertolt Brecht em nossos ouvidos: ‘Primeiro vem a comida, depois a moral’, ‘mas as circunstâncias não o permitem’.” (Ópera dos Três Vinténs) 

Quando Brecht escreve esta famosa frase, quer dizer de fato que há uma relação de primazia do pão (primeiro a comida!) em relação à moral. O que queremos não é uma sociedade onde riquíssimos senhores, detentores de capitais provenientes da exploração em massa de seus próximos, fiquem em cima de púlpitos, cátedras ou parlamentos fazendo pregações morais sobre a importância da caridade, ou seja, das esmolas. O que queremos é uma sociedade onde a miséria de muitos não sirva de trampolim os privilégios injustos de poucos. Comentando o mote Brechtiano, Hans Jonas diz: “isso significa que os famintos (ameaçados de morrer de fome), bem como aqueles que estão sendo sufocados, são privados das necessidades das necessidades mais básicas da vida e, por isso, mantidos em um estado pré-moral; mas, em seguida, efetivamente vem a moral, que reivindica seu quinhão.” (p. 256)

A teoria ética de Jonas prevê um “dever moral para com terceiros” que consiste em “ajudar a superar uma condição que inviabiliza a moral”, o que significa construir uma “situação justa” que “abriria as portas para a libertação do potencial humano propriamente dito, que até agora estaria obstruído pelas relações injustas de ambos os lados da divisão em classes.” (p. 257) Parece-nos, pois, que Hans Jonas sonda a sério a possibilidade de que a utopia comunista possa participar da solução de nossos problemas, que envolvem também a tarefa monumental de formular novos paradigmas para a ética e para a política com a perspectiva da responsabilidade expandida, que deve abarcar também os que viverão um dia e não só os que vivem agora.

Porém, aquilo que torna Hans Jonas um crítico contundente do marxismo e das utopias políticas a ele vinculadas é o “culto da técnica”. Marxistas seriam idólatras da tecnologia, estariam de joelhos diante do mesmo deus de muitos capitalistas, ou seja, o chamado “progresso técnico-científico”.

“O marxismo é um dos frutos do pensamento baconiano. Ele se compreende, fundamentalmente, como aquele que foi escolhido para ser o seu executor testamentário. Desde o início o marxismo celebrou o poder da técnica, acreditando que a salvação dependesse da união desta com a socialização. Para ele, não se trata de controlar a técnica, mas de liberá-la dos grilhões da propriedade capitalista, pondo-a a serviço da felicidade humana. (…) Aqueles que são bastante idosos para terem testemunhado os primórdios da Rússia soviética se recordam do lema ‘socialismo e eletrificação’, do livro chamado Concreto, do filme de Eisenstein narrando a heroica construção de uma estrada de ferro, da glorificação dos tratores, da comemoração da instalação de cada nova fábrica e de cada progresso na engenharia, saudados como contribuições ao socialismo. Podemos hoje sorrir dessa fase infantil…” (p. 254-255)

A crítica de Jonas ao marxismo dirige-se, pois, à dominação da natureza pelos meios de produção coletivizados, de modo que mesmo na utópica sociedade em classes os humanos seguiriam impondo excessivas espoliações à Phýsis. Não tenho conhecimento suficiente sobre a obra de Francis Bacon para julgar se Jonas tem razão em vincular o pensamento de Marx e Engels a ele. Parece-me estranho, porém, que O Princípio Responsabilidade trace este vínculo Marx-Bacon e nem sequer mencione um vínculo muito mais sólido, firme, explícito, aquele que une Marx ao materialismo filosófico inaugurado por Demócrito e Epicuro. O próprio jovem Marx, em seu doutorado, devotou-se a analisar as filosofias da natureza destes dois filósofos, de modo que a visão Marxiana da Phýsis parece-me muito mais próxima das percepções materialistas (reavivadas no Iluminismo francês, que Marx tão bem conhecia, por Helvétius, Diderot, D’Holbach etc.) do que da tradição Baconiana… Contestável, a tese de Jonas afirma:

“Pode-se dizer que o marxismo, que integra a ingênua fórmula baconiana da dominação da natureza e a transformação radical da sociedade, pode ser hoje considerado seriamente como fonte de uma ética que oriente a ação predominantemente para o futuro, daí extraindo suas normas para o presente. Pode-se dizer que o marxismo pretende colocar os frutos da herança baconiana à disposição da humanidade, realizando a promessa original de um gênero humano superior, promessa que se encontrava em má situação nas mãos do capitalismo. Por isso, podemos dizer que o marxismo é uma escatologia ativa, da qual tanto a previsão quando a vontade são elementos equitativos, e cuja busca se impõe como um dever irrecusável, posta inteiramente sob o signo da esperança.” (p. 239)

Sabe-se que a série de livros de Ernst Bloch, O Princípio Esperança, é aquilo que Hans Jonas busca refutar em seu O Princípio Responsabilidade. Digamos, de modo simplista, que Hans Jonas prefere uma ética do medo a uma ética da esperança. Jonas acha que o medo da catástrofe deve servir como motivação para o nosso agir presente de modo mais determinante do que a esperança de uma mundo melhor. Ao utopismo, ao “melhorismo”, ao progressismo, ele opõe a noção, supostamente realista, de que o melhor que temos a fazer é combater a vinda do pior. Nosso dever é criar obstáculos à barbárie, é resistir aos destruidores de ecosistemas, é evitar que o pior se concretize. Hans Jonas olha para o futuro com olhos cheios de terror e pânico, e depois nos pede: renunciem à utopia! Só precisamos, no real distópico em que estamos afundados, de responsabilidade, não de delírios quiméricos de comunas perfeitas prometidas no futuro radiante…

“A abundância material, produzida pela tecnologia moderna, constitui um elemento essencial do ideal socialista. De fato, em todas as partes onde o socialismo conquistou o poder, acelerar a industrialização foi a marca da sua política efetiva e resoluta. Assim, é válido seguir dizendo que o marxismo ‘progressista’ na origem,nascido sob o signo do ‘princípio da esperança’ e não sobre o ‘princípio do medo’, é tão tributário do ideal baconiano quanto a sua contra-parte capitalista, com a qual ele compete: a lógica que comanda o projeto socialista é igualar e depois ultrapassar o capitalismo na coleta dos frutos obtidos graças à técnica.  Em suma, o marxismo é, quanto à sua origem, um herdeiro da revolução baconiana, compreendendo-se como seu testamenteiro – aliás, como melhor testamenteiro do que o capitalismo, pois mais eficiente.

Resta provar se ele poderá ser superior ao mestre. Nossa resposta é a de que ele só poderá sê-lo caso modifique a forma como interpreta a si mesmo, deixando de ser aquele que traz a salvação para tornar-se aquele que protege do mal, renunciando, portanto, ao seu sopro vital, a utopia. Esse seria um marxismo muito diferente, quase irreconhecível…. Estaria perdido o ideal que o animava (não sabemos se a dor da perda seria ou não salutar). A sociedade sem classes não mais apareceria como a realização do sonho da humanidade, mas, de forma muito sóbria, como a condição para preservar a humanidade diante da era crítica que se anuncia.” (p. 241)

Ora, Hans Jonas insiste que sua obra é escrita na pressuposição de que “vivemos em uma situação apocalíptica, às vésperas de uma catástrofe, caso deixemos que as coisas sigam o curso atual. O perigo decorre da dimensão excessiva da civilização técnico-industrial, baseada nas ciências naturais. O que chamamos de programa baconiano – ou seja, colocar o saber a serviço da dominação da natureza e utilizá-la para melhorar a sorte da humanidade – não contou desde as origens, na sua execução capitalista, com a racionalidade e a retidão que lhe seriam adequadas….” (p. 235) Os excessos de produção e consumo, com as consequentes emissões de poluentes e lixo, trazem para cima de nossas cabeças as nuvens carregadas de tempestade.




Fotografias por Edward Burtynsky – Saiba mais

O Antropoceno é justamente a fase histórica conde estamos “sob perigo do esgotamento dos recursos naturais” que ocorre devido “a um crescimento enorme do intercâmbio metabólico entre o corpo social e o ambiente natural”, somado ao “aumento numérico desse mesmo corpo coletivo metabolizante, ou seja, o crescimento exponencial da população na esfera de influência da civilização técnica, estendendo-se recentemente por todo o planeta.” (p. 235) Esta globalização da civilização técnica-científica-industrial impactou toda a biosfera, e analisando o marxismo Hans Jonas conclui que ele também é, de certa maneira, cúmplice no culto “Baconiano”. Ficamos tentados a dizer que ele fornece arsenal para aqueles que, dissidentes do marxismo até certo ponto, inventam vertentes ecosocialistas e anarcoecologismos. Filia-se também às teses sobre a necessidade de decrescimento, como as de Serge Latouche.

Decerto Hans Jonas se filia àqueles pensadores que criticam severamente a noção de crescimento econômico, tecnológico e industrial infinitos, uma quimera das mais nefastas e que decorre da incapacidade de enxergar que estamos em um mundo finito e que este dito “progresso” vem se dando às custas da dilapidação de recursos naturais não-renováveis. Nossa situação é tão catastrófica pois o aumento da população humana é uma tendência real, a população humana em ascensão é uma verdadeira bomba demográfica que não tarda a inviabilizar a sustentabilidade da biosfera – em breve seremos, segundo as estimativas, cerca de 9 bilhões de humanos.

“Uma população estática poderia em determinado momento dizer “BASTA!”, mas uma população crescente obriga-se a dizer “MAIS!”. Hoje começa a se tornar assustadoramente evidente que o êxito biológico não só coloca em questão o êxito econômico, reconduzindo-nos do efêmero banquete da abundância para o quotidiano crônico da miséria, mas ameaça levar-nos a uma catástrofe aguda da humanidade e da natureza, de proporções gigantescas. A explosão demográfica, compreendida como problema metabólico do planeta, rouba as rédeas da busca de uma melhora no nível de vida, forçando uma humanidade que empobrece, na luta pela sobrevivência mais crua, àquilo que ela poderia fazer ou deixar de fazer em função de sua felicidade: a uma pilhagem cada vez mais brutal do planeta, até que este diga a última palavra, não mais consentindo em sua superexploração. É com pavor que imaginaríamos as mortes e os assassinatos em massa que acompanhariam uma situação como essa. Mantidas por longo tempo fora do jogo, graças à técnica, as leis de equilíbrio da ecologia, que impediam o crescimento excessivo de uma única espécie, se imporão de forma assustadora, na mesma proporção em que se atingiram os limites de sua tolerância. É um grande desafio especular como será possível que aquela parte da humanidade, que restará, seguirá vivendo em uma Terra devastada.” (p. 236)

“PROMETEU ACORRENTADO”, de JORDAENS, Jacob. 1640.

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Eduardo Carli de Moraes, professor de Filosofia do Instituto Federal de Goiás (IFG) – oficial. A comunicação sobre estes temas será realizada durante o III Seminário Nupefil e VII Encontro de Filosofia – IFG, na Segunda-Feira, 30 de Outubro, no câmpus Goiânia, às 13:30. Estão todos convidados.

https://www.facebook.com/pg/blogacasadevidro/photos/?tab=album&album_id=2165251576834489

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Saiba mais em A Casa de Vidro:

  • A CORNUCÓPIA DAS CRISES E AS TAREFAS DA FILOSOFIA – Reflexões após o III Seminário NUPEFIL e VII Encontro de Filosofia no IFG Goiânia >>> https://wp.me/pNVMz-49v.

  • PROMETEU DESACORRENTADO – A responsabilidade pelos viventes vindouros na filosofia de Hans Jonas (1903 – 1993) >>> http://wp.me/pNVMz-2dY

  • NÓS SOMOS A CATÁSTROFE: A Humanidade Como Força Geológica Cataclísmica na obra “A Sexta Extinção” de Elizabeth Kolbert >>>http://wp.me/pNVMz-470

  • O CINEMA COMO HINO A GAIA: Terrence Malick e “A Viagem do Tempo: Jornada da Vida” (2016, 90 min) >>> http://wp.me/pNVMz-43s

  • BLISSFUL IMPERMANENCE – A impermanência não é um argumento contra a vida, mas é parte essencial de seu esplendor: um tributo a Alan Watts>>> http://wp.me/pNVMz-43U.

  • AS BACANTES SEMPITERNAS – Sobre a atualidade perene da celebração comunal e do êxtase coletivo na obra de Barbara Ehrenreich >>>http://wp.me/pNVMz-3zQ

O CLAMOR DA TERRA – REFLEXÕES SOBRE O PRODIGIOSO PAPA ANTI-CAPITALISTA (Comentário crítico da encíclica “Laudato Si – Sobre o Cuidado Da Casa Comum”)

“A terra, nossa casa comum, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo.”
Papa Francisco, 
Encíclica Laudato Si, #21

Uma imagem polêmica circulou o mundo e “viralizou” na Internet em Julho de 2015 (veja acima): nela, o Papa Francisco, em visita à Bolívia, recebe do presidente Evo Morales um curioso artefato, mescla da cruz cristã com o supremo símbolo comunista, a foice-e-martelo. Vale lembrar, diante da desinformação que circula por aí, que a foice-e-martelo não é um instrumento de tortura, como alguns acéfalos ideólogos da Direita anti-comunista dizem, mas significa  a união entre a classe trabalhadora, a foice representando o campesinato e o martelo servindo como símbolo proletariado, emblema incorporado à bandeira escarlate da URSS.

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Promulgada pelo governo de Evo Morales em 2012, como reportado pela Opera Mundi, a formidável Ley de Derechos de la Madre Tierra do Estado Plurinacional da Bolívia (click para ler na íntegra), é uma das mais importantes contribuições políticas da América Latina ao debate global sobre nosso futuro comum. Nesta era geológica nova em que nos encontramos, o Antropoceno, marcada pela crise em curso do aquecimento global e da vasta degradação socioambiental globalizada causadas pelos mais de 7 bilhões que hoje infestam o planeta, os bolivianos inseriram na constituição:

La Madre Tierra es el sistema viviente dinámico conformado por la comunidad indivisible de todos los sistemas de vida y los seres vivos, interrelacionados, interdependientes y complementarios, que comparten un destino común. (…) Para efectos de la protección y tutela de sus derechos, la Madre Tierra adopta el carácter de sujeto colectivo de interés público.” (Fonte) (Confira também: The Guardian, Al Jazeera)

Muita coragem e ímpeto de renovação ficam manifestam na atitude do líder espiritual supremo da Cristandade ao ousar uma aproximação com uma doutrina ética, política e jurídica que me parece digna de todo respeito e consideração: já consagrada nas legislações de várias nações latino-americanas – como Bolívia, Peru e Equador – aquilo que está sendo chamado de “ecologia dos Andes” afirma-se  devotada à salvaguarda de uma entidade conhecida como Pachamama, a “Mãe-Terra”, em homenagem ao mito ameríndio dos Incas.

"Tierra Madre Pacha Mama" - Graffiti

“Tierra Madre Pacha Mama” – Graffiti

A encíclica papal Laudato Si – Sobre o Cuidado Da Casa Comum  (Ed. Paulus/Loyola, SP, 2015), escrita na consciência plena da deterioração global do meio ambiente, comunica claramente a possibilidade de uma catástrofe ecológica sob o efeito da explosão da civilização industrial nos últimos séculos. Francisco frisa de modo recorrente a necessidade urgente de uma mudança radical no comportamento da humanidade e também refere-se à Terra como uma espécie de divindade feminina – que tem lá suas similaridades com Pachamama ou Gaia – e que é descrita como

“nossa casa comum, que se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços. (…) Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos pensando que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. (…) Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra. O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta: o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos.” (#1 e #2)

Está em curso o esforço do Papa em questionar a “confiança irracional no progresso” (#19), pondo em dúvida a ideologia da tecnocracia hoje triunfante e que vê a natureza como algo a ser explorada, dominada, espoliada, em prol da modernização, da industrialização e dos fluxos de capitais e mercadorias através do globo. A encíclica faz parte de uma longa jornada de Jorge Bergoglio – nome de batismo do argentino hoje conhecido sob a alcunha de Francisco – em prol da conscientização social. Ele clama por uma “crescente sensibilidade relativamente ao meio ambiente e ao cuidado da natureza”, com o “objetivo de tomar dolorosa consciência, ousar transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece no mundo e, assim, reconhecer a contribuição que cada um lhe pode dar.” (#19)

KillsDentre os livros já publicados sobre o engajamento político do Sumo Pontífice, um deles é explícito em apontar a postura “anti-capitalista” daquele que não tem poupado esforços para denunciar a “nova tirania” de um sistema econômico “assassino”: This Economy Kills: Pope Francis on Capitalism and Social Justice de Andrea Tornielli e Giacomo Galeazzi. Na encíclica, fica explícita a intervenção papal de crítica aos poderes que lançam à nossa casa comum os “poluentes atmosféricos” e “fumos da indústria” que “provocam milhões de mortes prematuras”; ele fustiga também os “fertilizantes, inseticidas, fungicidas, pesticidas e agrotóxicos em geral”; além das “centenas de milhões de toneladas de resíduos, muitos deles não biodegradáveis, altamente tóxicos e radioativos” (#20, 21).

Com sua incisiva crítica ao ecocídio globalizado produzido pelo capitalismo desenfreado, o argentino  deu muitos motivos para preocupações daquela facção mais conservadora da Igreja Católica que jamais admitiria uma aproximação ideológica entre Vaticano e a esquerda socialista. Por essas e outras, o Papa tem sido acusado por muitos por sua diabólica postura marxista, inclusive pelo crime de ter sido recebido com clamor popular em Cuba. Por essas e outras, este Papa é um prodígio da Cristandade sem precedentes nas últimas décadas, o que fica ainda mais claro quando lemos sua encíclica “ecológica”, de profundas reverberações anti-capitalistas: Laudato Si – Sobre o Cuidado Da Casa Comum, que aqui pretendemos esmiuçar, comentar e criticar.

Cuba

Alçado ao cargo de Sumo Pontífice após a renúncia do alemão Ratzinger (Bento XVI) em 2013, Bergoglio adotou sua nova alcunha em homenagem a  São Francisco de Assis (1182 – 1226) e cometeu desde então toda uma série de atos e falas estarrecedoras em seu compromisso de preferir os pobres, defender os oprimidos e pregar uma verdadeira revolução cultural em prol da sustentabilidade socioambiental. O Papa Chico ousou inovar. Sua visita à Bolívia deixou isto explícito e demonstrou, na prática, que a Igreja Católica não é exatamente um sólido monolito, incapaz de mudança e inovação, esclerosado em dogmas mofados.

Não era mera diplomacia, para o Papa Chico, aceitar o presente curioso da cruz-comunista, doado pelo presidente boliviano Evo Morales, o primeiro presidente latino-americano de raízes indígenas a ser eleito democraticamente para o cargo executivo supremo de uma república. O pensamento ecológico-político de que Evo Morales é um dos mais célebres representantes está muito presente na encíclica papal Laudato Si.

Quem tiver o cuidado de lê-la com atenção encontrará uma notável reverência de Francisco pelas conclusões dos bispos da Bolívia, citados e louvados pelo Papa argentino por terem afirmado: “Os países que foram beneficiados por um alto grau de industrialização, à custa de uma enorme emissão de gases com efeito estufa, têm maior responsabilidade em contribuir para a solução dos problemas que causaram.” (#170)

Emissions

Emissões de CO2 por país (via Wikipédia)

Este é um dos fatos mais extraordinários, revelados com clareza pela encíclica de Papa Chico: não somente ele está plenamente consciente da degradação socioambiental que vivemos e do tempestuoso futuro climático de nosso planeta, como também está antenado com a vanguarda do movimento ecosocialista, que frisa a questão das responsabilidades diferenciais que decorrem dos diferentes graus de “culpa” na determinação da catástrofe ecológica que vivenciamos.

Ou seja, os países que mais poluíram a atmosfera e que mais determinantes foram para a condição – em constante agravamento – do efeito estufa, agora devem também ser os países que mais arquem com os custos da transição energética rumo às energias renováveis. Os países que foram mais criminosos em sua relação com o meio-ambiente (EUA e China no topo da lista) também teriam de ser aqueles mais responsabilizados para prestar os auxílios humanitários aos atingidos pelas catástrofes que já não podemos evitar.

No aforismo #161 da encíclica, o Papa diz:

“As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Às próximas gerações, poderíamos deixar demasiadas ruínas, desertos e lixo. O ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida atual – por ser insustentável – só pode desembocar em catástrofes, como, aliás, já está acontecendo periodicamente em várias regiões. A atenuação dos efeitos do desequilíbrio atual depende do que fizermos agora, sobretudo se pensarmos na responsabilidade que nos atribuirão aqueles que deverão suportar as piores consequências.”

 Teses similares podem ser encontradas na obra de alguns dos pesquisadores, ecoativistas, jornalistas e acadêmicos que devotaram-se à compreensão sobre as mudanças climáticas e a degradação socioambiental global, como Naomi Klein, George Monbiot, Bill McKibben, Naomi Oreskes, dentre tantos outros. Outras lideranças políticas, como o ex-presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, também falaram em tom bastante semelhante ao do Papa Francisco sobre a insustentabilidade do modo-de-produção-e-consumo hoje vigente, clamando por valores éticos como a temperança e a frugalidade.

A encíclica não poupa pregação contra “a busca egoísta da satisfação imediata”, o “consumo excessivo e míope”, apontando que a deterioração ecológica é resultado de uma crise que é tanto ética-cultural quanto sócio-política: “Esta falta de capacidade para pensar seriamente nas futuras gerações está ligada com a nossa incapacidade de ampliar o horizonte das nossas preocupações e pensar naqueles que permanecem excluídos do desenvolvimento.” (#162)

Um dos filósofos-da-ética mais importantes do século XX, Hans Jonas, também destacava a necessidade urgente de formularmos uma ética que leve em conta não apenas nossas relações interpessoais presentes, mas também o mundo que será legado aos que ainda não nasceram, de modo a somar aos direitos humanos uma espécie de cláusula aditiva que consagra os direitos dos viventes-ainda-por-nascer: os que um dia viverão também têm direito a uma vida digna e isto é nossa responsa, aqui-e-agora. Diante do capitalismo atual, para julgá-lo com lucidez e numa apreciação justa de seu real valor, precisamos também avaliar: que tipo de casa comum será legada às gerações do futuro por nossas ações, aqui e agora?

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Não é Che Guevara nem Lula quem disse as próximas palavras de exortação à uma “opção preferencial pelos mais pobres”: “Nas condições atuais da sociedade mundial, onde há tantas desigualdades e são cada vez mais numerosas as pessoas descartadas, privadas dos direitos humanos fundamentais, o princípio do bem comum torna-se imediatamente, como consequência lógica e inevitável, um apelo à solidariedade e uma opção preferencial pelos mais pobres.” (#158)

Por essa não esperávamos: no momento histórico em que a Igreja Católica via-se chafurdando na lama de um escândalo global envolvendo a prática epidêmica de pedofilia por parte dos padres, após o fato inédito de uma renúncia como a de Bento XVI (há várias gerações um Papa não “jogava a toalha”, admitindo que não dá conta do recado!), o novo pontífice supremo da Cristandade não só surge como antenadíssimo às mais importantes lutas sociais de raiz – conhecidas em inglês como grassroots activism – mas mais do que isso: re-aproxima Roma da América Latina, já que flerta abertamente com Pachamama e com a Teologia da Libertação!

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Papa Chico defende os direitos indígenas ao criticar os grandes projetos que avançam sobre territórios que são vistos pelos habitantes “não como um bem econômico”, mas sim como uma terra que é “espaço sagrado” onde “descansam os antepassados” e “com a qual precisam interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida. Em várias partes do mundo, porém, são objeto de pressões para que abandonem suas terras e as deixem livres para projetos extrativos e agropecuários que não prestam atenção à degradação da natureza e da cultura.” (#146)

Talvez ele concordasse comigo que os Krenak são gestores da natureza muito mais conscientes e responsáveis do que a corporação Samarco/Vale/BHP, que logrou assassinar o Rio Doce e contaminar todo um ecossistema, como vimos na pior catástrofe socioambiental já ocorrida no Brasil.

O Papa Chico sabe também que há “áreas rurais aonde não chegam os serviços essenciais” e “há trabalhadores reduzidos a situações de escravidão.” (#154) Diante deste quadro catastrófico, ele ousa explicar, no capítulo III da encíclica, qual a “raiz humana da crise ecológica”. Sua acusação recai, de modo bastante similar à argumentação de Fritjof Capra em O Ponto de Mutação, no paradigma do capitalismo tecnocrático dominante, que impõe uma “cultura consumista corrompida”, que consagra a lógica do descarte e acarreta lixo em excesso, aferrando-se ademais às fontes de energia fósseis, não-renováveis (petróleo, carvão e gás natural), ignorando todos os limites na busca egoísta do gozo de curto prazo. O mito do crescimento econômico infinito é desmascarado como ilusão perniciosa:

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“Daqui passa-se facilmente à idéia de um crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos da finança e da tecnologia. Isso supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta, que leva a ‘espremê-lo’ até ao limite e para além deste. Trata-se do falso pressuposto de que existe uma quantidade ilimitada de energia e de recursos a serem utilizados, que a sua regeneração é possível de imediato e que os efeitos negativos das manipulações da ordem natural podem ser facilmente absorvidos. (…) Temos um superdesenvolvimento dissipador e consumista que contrasta, de modo inadmissível, com perduráveis situações de miséria desumanizadora, mas não se criam, de forma suficientemente rápida, instituições econômicas e programas sociais que permitam aos mais pobres terem regularmente acesso aos recursos básicos.” (#106, #110)

Na era da biotecnologia, do DNA, da informática, das redes sociais digitais, dos foguetes e satélites, Papa Chico mostra-se estarrecido com o nosso “poder tremendo” – apesar de não batizar, como fazem boa parte dos geólogos e antropólogos atualmente, nossa era de Antropoceno. Critica incisivamente a “cultura do descarte”: “o sistema industrial, no final do ciclo de produção e consumo, não desenvolveu a capacidade de absorver e reutilizar resíduos e escórias. Ainda não conseguiu adotar um modelo circular de produção que assegure recursos para todos e para as gerações futuras e que exige limitar, o mais possível, o uso dos recursos não renováveis, moderando o seu consumo, maximizando a eficiência no seu aproveitamento, reutilizando e reciclando-os.” (#22)

Quanto ao “preocupante aquecimento do sistema climático”, “acompanhado de uma elevação constante do nível do mar”, o Papa é digno o bastante para frisar a responsabilidade humana na gênese do problema e de clamar, como tantos cientistas atuais, pelo fim da era dos combustíveis fósseis: “a maior parte do aquecimento global das últimas décadas é devida à alta concentração de gases de efeito estufa emitido sobretudo por causa da atividade humana. A sua concentração na atmosfera impede que o calor dos raios solares refletidos pela terra se dilua no espaço. Isso é particularmente agravado pelo modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis, que está no centro do sistema energético mundial.” (#23)

As consequências concretas do aquecimento global incidem “sobre a disponibilidade de recursos essenciais como a água potável, a energia e a produção agrícola das áreas mais quentes e provocará a extinção de parte da biodiversidade do planeta. (…) A perda das florestas tropicais piora a situação, pois estas ajudam a mitigar a mudança climática. A poluição aumenta a acidez dos oceanos e compromete a cadeia alimentar marinha. Se a tendência atual se mantiver, este século poderá ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e de uma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências para todos nós. Por exemplo, a subida do nível do mar pode criar situações de extrema gravidade, se se considerar que um quarto da população mundial vive à beira-mar ou muito perto dele, e a maior parte das megacidades está situada em áreas costeiras.” (#24)

Matéria do jornal inglês The Guardian realiza previsões sobre a elevação constante do nível do mar causada pelo aquecimento da temperatura global: "mesmo que consiga-se limitar o aumento de calor a 2 graus Celsius, ainda assim 20% da população global seria obrigada a migrar e mega-cidades seriam submersas, incluindo

Parenti-Tropic-ofUma matéria do jornal inglês The Guardian contêm preocupantes previsões sobre a elevação do nível do mar causada pelo aquecimento da temperatura global: mesmo que consiga-se limitar o aumento de calor a 2 graus Celsius, ainda assim 20% da população global seria obrigada a migrar e mega-cidades litorâneas seriam submersas, incluindo Nova York, Londres, Rio de Janeiro, Cairo, Calcutá e Xangai.

Na encíclica, Francisco também se mostra intensamente ciente de que o futuro humano será marcado por uma ascensão espetacular dos refugiados climáticos (tema de livros como Tropic of Chaos – Climate Change and the new geography of violence, de Christian ParentiClimate Wars: What People Will Be Killed For in the 21st Century, de Harald Welzer):

 “É trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental, que, não sendo reconhecidos como refugiados nas convenções internacionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa. Infelizmente, verifica-se uma indiferença geral perante essas tragédias que estão acontecendo agora mesmo em diferentes partes do mundo. A falta de reações diante desses dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil.” (#25)

Extraordinário é o teor anti-quietista pró-ativista que Papa Francisco insufla à sua encíclica: não há nenhum sinal do deplorável discurso de muitas autoridades religiosas que pregam, como única solução, a oração… Tanto as causas quanto as soluções estão no âmbito humano e “não podemos enfrentar adequadamente a degradação ambiental”, escreve Francisco, se não reconhecermos o fato de que “a deterioração do meio ambiente e da sociedade afetam de modo especial os mais frágeis do planeta” e que “os efeitos mais graves de todas as agressões ambientais recaem sobre as pessoas mais pobres” (#48).

Como exemplo do quanto a encíclica está próxima do pensamento eco-político mais contemporâneo, cito um trecho do artigo de Rebecca Solnit:

“A mudança climática é antropogênica – causada por humanos, alguns mais que outros. Nós sabemos as consequências dessas mudanças: a acidificação dos oceanos e o declínio da maioria das espécies que vivem neles, o lento desaparecimento de ilhas-nações, como é o caso das Maldivas, o aumento de inundações, secas, a quebra na produção agrícola, o que leva ao aumento do preço dos alimentos e à fome, aumento da instabilidade climática. (É só pensar no furacão Sandy e no recente tufão nas Filipinas. Nas ondas de calor que mataram idosos aos milhares). Mudança climática é violência. Portanto, se nós queremos conversar sobre violência e mudanças climáticas – e nós estamos falando sobre isso, depois do informativo aterrador da última semana, vindo dos melhores cientistas climáticos do mundo – então vamos falar sobre mudanças climáticas como violência. Ao invés de nos preocuparmos se os homens e mulheres comuns vão reagir com turbulência à destruição de seus meios de sobrevivência, vamos nos preocupar com essa destruição – e com a sobrevivência. Obviamente a escassez de água, as péssimas colheitas, inundações, entre outras coisas, vão desencadear migrações em massa e refugiados climáticos – eles já existem – e isso vai gerar conflitos. Esses conflitos estão entrando em ação, agora.” (SOLNIT, publicado em A Casa de Vidro, trad. Josemar Vidal Jr)

No contundente capítulo da encíclica intitulado Desigualdade Planetária, não faltam exemplos deste verdadeiro massacre dos pobres que está em curso:

“a poluição da água afeta particularmente os mais pobres que não têm possibilidades de comprar água engarrafada, e a elevação do nível do mar afeta principalmente as populações costeiras mais pobres que não têm para onde se transferir. O impacto dos desequilíbrios atuais manifesta-se também na morte prematura de muitos pobres e nos conflitos gerados pela falta de recursos” (#48).

A natureza anti-capitalista da encíclica se exacerba quando a desigualdade planetária é mencionada:

“uma minoria se julga com o direito de consumir numa proporção que seria impossível generalizar, porque o planeta não poderia sequer conter os resíduos de tal consumo. Além disso, sabemos que se desperdiça aproximadamente um terço dos alimentos produzidos, e a comida que se desperdiça é como se fosse roubada da mesa do pobre. (…) O aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns países ricos tem repercussões nos lugares mais pobres da terra, especialmente na África, onde o aumento da temperatura, juntamente com a seca, tem efeitos desastrosos nos rendimentos das cultivações.” (#51)

Planeta Sustentável

EcocidioA conexão entre ecocídio e corporações capitalistas multinacionais também não escapa à análise apresentada pela encíclica, que denuncia “os danos causados pela exportação de resíduos sólidos e líquidos tóxicos para os países em vias de desenvolvimento”.

Francisco ergue um dedo acusador contra a “atividade poluente de empresas que fazem nos países menos desenvolvidos aquilo que não podem fazer nos países que lhes dão o capital”, de modo que os bispos da Patagônia, na Argentina, expressaram em sua Mensaje de Navidad (2009):

“Constatamos frequentemente que as empresas que assim procedem são multinacionais que fazem aqui o que não lhes é permitido em países desenvolvidos ou do chamado primeiro mundo. Geralmente, quando cessam as suas atividades e se retiram, deixam grandes danos humanos e ambientais, como o desemprego, aldeias sem vida, esgotamento de algumas reservas naturais, desflorestamento, empobrecimento da agricultura e pecuária local, crateras, colinas devastadas, rios poluídos e qualquer obra social que já não se pode sustentar.”

Diante de tal cenário catastrófico, em que o interesse financeiro e o poderio capitalista prevalece sobre o bem comum e os direitos da natureza, a encíclica não é somente a evidência de uma revolucionária “virada ecológica” da Igreja Católica, é também o momento para uma inédita aposta no ativismo social: “hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres.” (#50, grifo meu)

De modo que Papa Francisco aproxima-se bastante da mensagem de todos aqueles movimentos sociais, coletivos de ativismo e fóruns participativos que nos últimos anos estiveram engajados na discussão sobre “um outro mundo possível”, mote do Fórum Social Mundial.

Apesar de um certo apego ao tradicionalismo católico – pois a noção patriarcal-machista de um Deus-Pai, a centralidade da família monogâmica heterossexual, a crítica inflexível de qualquer interrupção da gravidez prosseguem marcando o discurso papal – é notável a aproximação que Francisco realiza com o grassroots activism, com a Teologia da Libertação, com o “levante de Pachamama” nos Andes, com todas as forças contra-hegemônicas que questionam a globalização hegemônica, teorizada pelo sociólogo português Boaventura de Sousa Santos: 

Deus

GLOBALIZAÇÃO HEGEMÔNICA & CONTRA-HEGEMÔNICA

A globalização hegemônica é a nova fase do capitalismo global, constituída pela primazia do princípio do mercado, liberalização do comércio, privatização da economia, desregulação do capital financeiro, precariedade das relações de trabalho, degradação da proteção social, exploração irresponsável dos recursos naturais, especulação com produtos alimentares, mercantilização global da vida social e política. A globalização hegemônica tem ao seu serviço uma institucionalidade diversificada e muito poderosa, dos Estados centrais à União Européia, do Banco Mundial ao Fundo Monetário Internacional, das grandes empresas multinacionais à Organização Mundial do Comércio. 

Por outro lado, a globalização contra-hegemônica, ou globalização a partir de baixo,  engloba os movimentos sociais e organização não governamentais (ONGs) que, por meio de articulações locais, nacionais e transnacionais, lutam contra o capitalismo e a opressão colonialista, a desigualdade social e a discriminação, a destruição ambiental e de modos de vida decorrente da voracidade da extração dos recursos naturais, a imposição das normais culturais ocidentais e a destruição das não ocidentais causada ou agravada pela globalização hegemônica.

A globalização contra-hegemônica consiste em articulações transnacionais entre movimentos sociais e ONGs, sejam elas o Fórum Social Mundial, a Assembleia Geral dos Movimentos Sociais, a Cúpula dos Povos, a Via Campesina, a Marcha Mundial das Mulheres, o Movimento Indígena Mundial, em conjunto com redes transnacionais de advocacia sobre temas específicos de resistência à globalização hegemônica. A contra-hegemonia resulta de um trabalho organizado de mobilização intelectual e política contra a corrente, destinado a desacreditar os esquemas hegemônicos e fornecer entendimentos alternativos credíveis da vida social.” (BOAVENTURA SOUSA SANTOS, p. 32-33)

 Acredito – “piamente”? – que Papa Chico tem sim agido como interventor social e cultural de teor contra-hegemônico, manifestando assim uma compreensão lúcida e profunda da figura histórica de Jesus, um cara que foi tão anti-establishment que Roma mandou-lhe crucificar feito um reles bandido quando ele só tinha 33. O poeta Paulo Leminski, na esplêndida biografia de Jesus que escreveu, argumenta que seu biografado merece estar no “time” dos revolucionários vinculados ao socialismo utópico. Evidentemente é um anacronismo, mas poeta tem direito a tudo – e que vivam livres as “licenças poéticas”! Para Leminski, Jesus foi sim um socialista que criticou as classes abastadas e em sermão célebre vaticinou que era mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus… (LEIA: Quarteto Vital, de Paulo Leminski)

Papa Francisco reata com uma certa tradição do cristianismo primitivo, ao mesmo tempo que liga-se com o que há de mais vital e pulsante no atual movimento global de resistência à catástrofe ecológica e às mudanças climáticas antropogênicas, fenômeno que Naomi Klein propôs batizar de Blockadia e que analisa em minúcias em This Changes Everythingfilme e documentário.

O “emblema” da “nova era” na Igreja Católica parece-me ser o encontro de Bergoglio e Morales, curiosa aliança entre o Vaticano e os Andes, excêntrico sincretismo cultural que re-significou tudo o que pensávamos sobre o Papa e até mesmo sobre Deus: que virada realmente revolucionária caso a Cristandade modifique suas concepções religiosas para a de um Deus menos parecido com Jeová e mais afinado com Pachamama!

Para os mais dogmáticos ou suscetíveis, a cena que envolve o Papa e o presidente Morales pode até ter um cheiro insuportável de heresia: “isso não é”, dirão alguns católicos da velha guarda, grunhindo contra o pontífice, “nem jamais será um comportamento digno de um Papa! Andar por aí, segurando uma cruz subvertida, mas que blasfêmia! Sujar as mãos com um emblema-de-comunista! Bem sabemos (apesar de nada constar sobre isso nem nos Evangelhos nem nos livros de História e Antropologia) que esta cambada de comunistas não são somente canibais, como praticam seu canibalismo sobre criancinhas!”

 Ironias à parte, estou impressionado com a capacidade de Papa Francisco de confrontar aqueles setores mais reacionários e tradicionalistas desta “instituição” – a Igreja Católica Apostólica Romana – que com frequência, na história, fez-se cúmplice e co-responsável por atrocidades e horrores, tendo sido, em outras eras, operadora internacional de infâmias éticas e catástrofes humanitárias como a célebre “Santa Inquisição”, que impôs a morte-pelo-fogo a tão incontáveis quantidades de pessoas previamente estigmatizadas como hereges, ateus, pecadores, bruxas, pagãos, feiticeiras etc.

Mais recentemente, a Igreja Católica também viu-se em meio ao escândalo global envolvendo o abuso sexual de crianças perpetrado por seus clérigos. O declínio parecia não ter fim e a renúncia de Ratzinger parecia com alguma espécie estranha de emblema da decadência e do caos. E justamente aí ocorreu essa guinada à esquerda, que trouxe uma certa versão da Teologia da Libertação para o centro polêmico do debate da Cristandade.

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Capitalismo em questão: o império das marcas e multinacionais, antes de ser tema da encíclica papal, foi foco de livros como “No Logo” de Naomi Klein

As próximas palavras, do capítulo #195 da encíclica Laudato Si, são emblemáticas deste prodígio que é um papa anticapitalista, capaz de articular uma crítica à doutrina neo-liberal e seu funcionamento na base de benefícios privados prejuízos públicos:

“O princípio da maximização do lucro, que tende a isolar-se de todas as outras considerações, é uma distorção conceptual da economia: desde que aumente a produção, pouco interessa que isso se consiga à custa dos recursos futuros ou da saúde do meio ambiente; se a derrubada de uma floresta aumenta a produção, ninguém insere no respectivo cálculo a perda que implica desertificar um território, destruir a biodiversidade ou aumentar a poluição. Em outras palavras, as empresas obtêm lucros calculando e pagando uma parte ínfima dos custos.” (#195)

O Papa não prega que oremos, ele quer sim é educação que forme para a “cidadania ecológica” e uma revolução cultural que “dê forma a um estilo de vida” baseado na “responsabilidade ambiental” (#123). Para este fim, é evidente, a ética é essencial, sendo que a encíclica é um tratado de ética, de cabo a rabo, que dialoga inclusive com muitas das ideias de Hans Jonas, autor de um dos clássicos tratados da ética no século XX – O Princípio ResponsabilidadeFrancisco afirma sem pestanejar que o atual sistema capitalista hegemônico globalmente é insustentável e só pode nos conduzir ao esgotamento e à catástrofe. Nossa era demanda uma urgente mudança de rumos.

Em 2000, em Haia, na Carta da Terra, a exortação de Bergoglio clama por um “novo início”: “Como nunca antes na história, o destino comum obriga-nos a procurar um novo início. Que o nosso seja um tempo que se recorde pelo despertar de uma nova reverência adiante da vida, pela firme resolução de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta em prol da justiça e da paz e pela jubilosa celebração da vida.” (#207)

Não estamos diante de um “profeta do Apocalipse” e nem há nenhum teor, na fala de Francisco, daquele odioso discurso que pretende transformar as catástrofes climáticas em “vinganças de um Deus enfurecido” – não, New Orleans não foi devastada pelo Furacão Katrina por causa dos pecados cometidos por seu habitantes, nem por ser uma nova Sodoma e Gomorra…

A fala de Francisco carrega mais doçura e ternura do que reprovação esbravejante. Decerto é alguém “atento ao futuro”, ou seja, alguém que está plantado no presente em condição de profundo engajamento com o porvir planetário. O Papa Francisco, diria até, integra o grupo de inteligências internacionais que, através de estudos prolongados e pesquisas empíricas cuidadosas, concluíram que existe sim razão para um “catastrofismo esclarecido”.

“Não pensemos só na possibilidade de terríveis fenômenos climáticos ou de grandes desastres naturais, mas também nas catástrofes resultantes de crises sociais, porque a obsessão por um estilo de vida consumista, sobretudo quando poucos têm possibilidades de o manter, só poderá provocar violência e de destruição recíproca.” (#204)

Enquanto pensador ético, Francisco insiste num estilo-de-vida que têm elementos do que Nietzsche chamava de “ideal ascético”, recomendando o controle dos impulsos e desejos, que conecta não somente ao pecado como também ao serviço satânico que prestamos às forças ecocidas do consumismo e do descartismo.

Em um livro polêmico, Pascal Bruckner fustigou a nova onda de “ascetismo verde”, aqueles que chamou de Fanáticos do Apocalipse. O escárnio supostamente libertário de Bruckner não me convence, e o compromisso “franciscano” com a sustentabilidade e a solidariedade intergeracional talvez seja mesmo uma das poucas “ideologias” capazes de evitar que sejamos compelidos à era das hecatombes climáticas de escala mega. “As previsões catastróficas”, diz a encíclica, “já não se podem olhar com desprezo e ironia” – e isso vale quase como uma refutação do livro de Bruckner.

Vejo, na encíclica, conexões possíveis do projeto social papal com a pedagogia do oprimido Paulo Freireana: Francisco clama por um “programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático.” (#111)

O papa filosofa sobre a liberdade que se encontra “adoecida” em todos àqueles que “se entregam às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo, da violência brutal” (#105). A ética apolínea e ascética preconizada por Chico propõe um “lúcido domínio de si”. Minha impressão é que não se tem necessidade de fé para fundar uma ética assim. Pepe Mujica e sua preconização do mérito pessoal e civilizacional vinculado às virtudes da moderação e da frugalidade parece-me uma encarnação laica e secular do que Papa Francisco representa no âmbito religioso.

No mundo cultural dos gregos havia a noção de que tragédias decorreriam sempre que não soubéssemos respeitar os limites. Aos excessos, de resultados trágicos e catastróficos, os gregos chamavam hýbris. Malditos eram todos os excessivos, todos aqueles que desrespeitavam um dos princípios básicos e sagrados, entronizado no Oráculo de Apolo em Delfos: “nada em demasia!”. As fúrias viriam assombrar e desgraçar todo aquele que fosse pego em flagrante delito de hýbris. A deusa Nêmesis não perdoa quem despreza os limites.

De certo modo, também sinto no Papa Francisco a presença, ainda que latente, de um senso trágico que compreende o quanto a desmesura / descontrole / deslimite causam como efeitos concretos muito palpáveis e catástrofes reais, dentre elas a tremenda degradação socioambiental que hoje vivenciamos.

Tenho minhas divergências, de natureza filosófica e teológica, com a noção de que estamos “em pecado” pois abusamos e desrespeitamos “os bens que Deus na Terra colocou“: não vejo porque o argumento em prol da sustentabilidade deveria enveredar por esta linha de dependência em relação à fé. Quando se diz que “a natureza deve ser preservada pois é obra de Deus“, o argumento tende a submeter as lutas ecológicas a uma prévia tomada de posição religiosa, um ato-de-fé sobre a proveniência divina daquilo que o ser humano parece tão engajado em destruir.

A proposta da encíclica é igualar “crime contra a natureza” e “pecado contra Deus”, algo que faz com que o argumento caia por terra para todos aqueles que não acreditam, por exemplo, no mito da Criação tal como o narra o livro do Gênesis. Mais inteligente e lúcido me parece Bergoglio quando aposta mais em um conceito “Pachamâmico” de interdependência, aproximando-se assim de cosmologias ameríndias e do web of life do Chief Seattle.

Porém, há vários “deslizes” de Papa Chico em um questionável teocentrismo: no aforismo #33, por exemplo, protestando contra a extinção de espécies causada pela humanidade, o Papa escreve: “por nossa causa, milhares de espécies já não darão glória a Deus com sua existência.”

Compartilho o lamento pela extinção da biodioversidade, mas não subscrevo o argumento de que a tragédia está na “destruição da obra de Deus” – prefiro falar, simplesmente, num atentado contra a teia-da-vida. Por que ateus e agnósticos, por que ativistas e políticos plenamente fiéis ao valor da laicidade, não poderiam ser entusiásticos ativistas da causa ambiental, mesmo na ausência da crença, tão duvidosa e dogmática, num planeta que supostamente foi criado pelas mãos de um Deus-Pai há 6.000 anos atrás?

À parte esta divergência de teor teológico, aplaudo o teor político e mobilizatório da intervenção de Francisco. Para a nossa geração, para nós-os-vivos-de-agora, é o próprio sentido de nossa passagem pela Terra que está agora em questão. O mundo que legaremos às próximas gerações está visceralmente conectado à questão, quiçá mais psicológica e simbólica, do sentido da vida (ou da descoberta de sua ausência ou inexistência):

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“Com que finalidade passamos por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra? Já não basta dizer que devemos preocupar-nos com as gerações futuras; exige-se ter consciência de que é a nossa própria dignidade que está em jogo. Somos nós os primeiros interessados em deixar um planeta habitável para a humanidade que vai nos suceder. Trata-se de um drama para nós mesmos, porque isto chama em causa o significado da nossa passagem por esta terra.” (#160)

Que a destruição do próprio sentido da existência da Humanidade possa estar diretamente atrelado à continuação do insustentável sistema global ecocida que hoje devasta o planeta é decerto uma das mais contundentes críticas apresentadas pela encíclica Laudato Si. O texto encontra-se atravessado por inteiro por um ethos de empatia pelo clamor da terra e pelo clamor dos pobres. Francisco não foge de tirar todas as consequências de sua teoria, tão próxima à dos ecossocialistas, tão alinhada à Teologia da Libertação, tão próxima à Pachamama andina, e acaba por claramente defender o fim do direito absoluto à propriedade privada:

“A terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos. (…) O princípio da subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens e, consequentemente, o direito universal ao seu uso é uma regra-de-ouro do comportamento social e o ‘primeiro princípio de toda a ordem ético-social’ (João Paulo II, Laborem exercens, 1981). A tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada, e salientou a função social de qualquer forma de propriedade privada. (…) A Igreja defende sim o direito legítimo à propriedade privada, mas ensina, com não menor clareza, que sobre toda a propriedade particular pesa sempre uma hipoteca social… Isto põe seriamente em discussão os hábitos injustos de uma parte da humanidade.” (#93)

Eu não chegaria a dizer, para escândalo de católicos ortodoxos, que Papa Francisco está sendo marxista, mas quem pode negar o forte conteúdo de luta de classes que marca presença na encíclica? Também nela, os maiores ecocidas, os piores poluidores, os causadores de catástrofes, têm classe e endereço.

Também é uma falácia dizer que todos os países têm a mesma responsabilidade – na verdade, são as ações de uma parcela da humanidade que está conduzindo o clima ao caos. Os países mais responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa não poderiam legitimamente querer que os miseráveis da Índia ou de Bangladesh arcassem igualmente com os custos da crise. Quem mais destruiu o bem coletivo é que deve – justiça exige! – arcar com a maior parte dos custos, investindo na transição energética para os renováveis, pagando indenizações aos países prejudicados por catástrofes etc.

“O meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos. Quem possui uma parte é apenas para a administrar em benefício de todos. Se não o fizermos, carregamos na consciência o peso de negar a existências aos outros. Por isso, na Statement on Environmental Issues  (2006), os bispos da Nova Zelândia perguntavam-se que significado possa ter o mandamento ‘não matarás’, quando ‘uns 20% da população mundial consomem recursos numa medida tal que roubam às nações pobres, e às gerações futuras, aquilo de que necessitam para sobreviver’.” (#95)

O prodigioso papa anticapitalista já percebeu – com Naomi Klein, Rebecca Solnit, George Monbiot, Christian Parenti, dentre outros – que o clamor da terra e o clamor dos pobres integram um mesmo clamor. O que faremos diante deste clamor – ouvi-lo ou ignorá-lo; agir ou padecer; mobilizar simpatia ou adormecer na indiferença; abrir os olhos para enxergar ou fingir que não se vê… – é o que definirá o “sentido de nossa passagem” por este exuberante e biodiverso jardim terrestre onde tece-se, interminável, a teia da vital “interdependência”. “O espetáculo das suas incontáveis diversidades e desigualdades significa que nenhuma criatura se basta a si mesma. Elas só existem na dependência umas das outras, para se completarem mutuamente no serviço umas das outras.” (#86)

Na reciprocidade provinda da percepção lúcida de nossa interdependência, co-laboremos contra as catástrofes acarretadas pelo capital, certos de que o vil metal das finanças nada vale diante da riqueza imensa, inestimável mas tão frágil, desta teia planetária de sociobiodiversidade hoje esgarçada e ameaçada por um Antropocalipse industrial motorizado.

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ALGUNS VÍDEOS SUGERIDOS:

Igreja dos Oprimidos – Documentário de Jorge Bodanzsky

Pachamama segundo o History Channel (dublado em português)

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ANEXO I

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Ley de Derechos de la Madre Tierra

do Estado Plurinacional da Bolívia

 La Madre Tierra tiene los siguientes derechos:
1. A la vida: Es el derecho al mantenimiento de la integridad de los sistemas de vida y los procesos naturales que los sustentan, así como las capacidades y condiciones para su regeneración.
2. A la diversidad de la vida: Es el derecho a la preservación de la diferenciación y la variedad de los seres que componen la Madre Tierra, sin ser alterados genéticamente ni modificados en su estructura de manera artificial, de tal forma que se amenace su existencia, funcionamiento y potencial futuro.
3. Al agua: Es el derecho a la preservación de la funcionalidad de los ciclos del agua, de su existencia en la cantidad y calidad necesarias para el sostenimiento de los sistemas de vida, y su protección frente a la contaminación para la reproducción de la vida de la Madre Tierra y todos sus componentes.
4. Al aire limpio: Es el derecho a la preservación de la calidad y composición del aire para el sostenimiento de los sistemas de vida y suprotección frente a la contaminación, para la reproducción de la vida de la Madre Tierra y todos sus componentes.
5. Al equilibroEs el derecho al mantenimiento o restauración de lainterrelación, interdependencia, complementariedad y funcionalidad de los componentes de la Madre Tierra, de forma equilibrada para la continuación desus ciclos y la reproducción de sus procesos vitales.
6. A la restauración: Es el derecho a la restauración oportuna y efectiva de los sistemas de vida afectados por las actividades humanas directa o indirectamente.
7. A vivir libre de contaminación: Es el derecho a la preservación de la Madre Tierra de contaminación de cualquiera de sus componentes, así como deresiduos tóxicos y radioactivos generados por las actividades humanas.

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ANEXO II – ARUNDHATI ROY

Pachamama!

Pachamama!

“If there is any hope for the world at all, it does not live in climate-change conference rooms or in cities with tall buildings. It lives low down on the ground, with its arms around the people who go to battle every day to protect their forests, their mountains and their rivers because they know that the forests, the mountains and the rivers protect them. The first step towards reimagining a world gone terribly wrong would be to stop the annihilation of those who have a different imagination—an imagination that is outside of capitalism as well as communism. An imagination which has an altogether different understanding of what constitutes happiness and fulfillment. To gain this philosophical space, it is necessary to concede some physical space for the survival of those who may look like the keepers of our past, but who may really be the guides to our future.”

—Arundhati Roy

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 2003 – PORTO ALEGRE
FALA DE ARUNDHATI ROY:

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Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 24/03/2016
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TESOURO DE VIDA NA AMAZÔNIA – Tecnologia Verde a Serviço do Clima Amigo [Palestra de Antonio Nobre, 1h58min]

TESOURO DE VIDA NA AMAZÔNIA
Tecnologia Verde a Serviço do Clima Amigo
[1h58min, CPFL Cultura]

Com Antonio Nobre, PhD em Earth System Sciences pela University of New Hampshire e autor do relatório “O Futuro Climático da Amazônia”

SINOPSE CPFL – “Na grande floresta da Amazônia, a terra guarda um de seus mais espetaculares tesouros: a profusão de vida que inala gás carbônico e exala oxigênio, transpira água, emite odores mágicos, remove gases tóxicos, pulsa e regula, umedece e faz chover, propele ventos e alimenta rios aéreos, acalmando a fúria dos elementos, tornando amigo o clima próximo e também o mais distante. As sociedades abrigadas sob seu hálito doador de vida têm nela um cordão umbilical que sustém suas economias e lhes dá bem-estar. O desmatamento reduz esse parque tecnológico da natureza a gás e cinzas, levando a um clima inóspito. Por tudo isso, é necessário, desejável, viável e até lucrativo alterar o modus operandi da ocupação humana na amazônia.”

OFF

CONFIRA TAMBÉM: