Elza Soares retorna com suas flamejantes canções de libertação em “Planeta Fome” (2019) – Ouça o álbum íntegra e leia a matéria @ A Casa de Vidro

Deixem Elza cantar até o fim. Nada será para este país mais salutar. Depois de A Mulher do Fim do Mundo (2015) e de Deus é Mulher (2018)a diva afrobrasileira chega com estrondo, sambando na cara da opressão, fula da vida com o blá blá blá do macho tóxico e racista, apresentando ao mundo sua mais nova coleção de canções de libertação.

“Não vamos sucumbir”, garante Elza na aurora de “Libertação”, acompanhada pelo BaianaSystem. Com esta aliança com os autores do sensacional O Futuro Não Demora, Elza também mostra-se interessada em “seguir cantarolando e bolando altos planos pra poder contra-atacar”.


Enquanto nos cinemas Bacurau estremece o chão do conformismo com seu neo-cangaço cineguerrilheiro, desembarca entre nós um disco que vem todo efervescente de insurgência cultural e política, evocando ícones e proliferando links – Marielle Franco, Rosa Parks, Wakanda… – para mandar um forte recado. Toda a resiliência, toda a ancestralidade guerreira, todo o ímpeto dionisíaco-carnavalesco do povo afrobrasileiro pulsa nesta obra-prima recém-parida por uma gênia do Planeta Fome.

É negro, é branco, é nissei
É verde, é índio peladão
É mameluco, é cafuzo
É confusão Oh, Pindorama eu quero o seu porto seguro
Suas palmeiras, suas feiras, seu café
Suas riquezas, praias, cachoeiras

Há muitos Brasis – e Elza quer mesmo é o “Brasil de cabeça em pé” e ciente de sua própria confusão. Dessa mixórdia de etnias e tradições dos Brasis todos nasceu toda a nossa desgraça e maravilha – eis o que Elza parece querer expressar através de um álbum destinado a ecoar pelo mundo e quebrar muitos paradigmas do que os gringos consideram como world music. E lá vem os rótulos espertinhos para catalogá-la como “dirty samba” ou algo que o valha.

Mas restam poucas dúvidas de que na história de nossa arte, Elza Soares expressa como poucos a tragicomédia épica desta pátria fraturada. Ela exige, com seu cantos e batuques, um “País do Sonho” na mais utópica das músicas do disco:

Eu preciso encontrar um país
Onde a saúde não esteja doente
E eficiente, uma educação
Que possa formar cidadãos realmente

Eu preciso encontrar um país
Onde a corrupção não seja um hobby
Que não tenha injustiça, porém a justiça
Não ouse condenar só negros e pobres

Eu preciso encontrar um país
Onde ninguém enriqueça em nome da fé
E o prazer verdadeiro do crack
Seja fazer gols como Garrincha, obrigada Mané!

Eu preciso encontrar um país
Onde tenha respeito com austero pudor
E qualquer pessoa em pleno direito
Diga: “Adeus preconceito de raça e de cor”

Eu preciso encontrar um país
Onde ser solidário seja um ato gentil
Eu prometo que vou encontrar
E esse país vai chamar-se Brasil.

No título de “Planeta Fome” (2019), Elza relembra o episódio lendário de seu passado: com cerca de 13 anos de idade foi participar do programa de rádio do Ary Barroso, que perguntou à jovem aspirante a cantora de onde ela tinha vindo e ela cravou: “Vim do Planeta Fome”.

De fato: a carioca, nascida em 1937, hoje com 82 anos, emergiu do Planeta Fome de sua infância e ascendeu até o destino de alguém que já marcou para sempre a história da Música Popular de seu país. E Elza sempre teve um talento espontâneo pela subversão, por uma cultura comprometida com a libertação, com a superação da opressão. Tudo isso jorra na nova obra da cantora, que traz em sua capa uma cromática odisséia criada pela pena da pessoa pós-binária Laerte (que declarou, sobre o processo criativo:  “Primeiro dei uma ouvida nas canções e achei que era o caso de evocar as turbulências da nossa realidade combinadas com os movimentos siderais. Minha intenção era produzir uma sensação de caos”).

Este álbum já nasce clássico. O primeiro clássico novíssimo em folha dos nossos Brasis em meio a este hospício em chamas que é o desgoverno BolsoNero. Elza recupera duas canções de Gonzaguinha, um dos artistas mais censurados pela Ditadura Militar, para reativar na Nova Ditadura a mordaz dissidência dos que se insurgiram na arte contra a Velha Ditadura. Em “Comportamento Geral” e “Pequena Memória Para Um Tempo Sem Memória”, Gonzaguinha revive na voz de Elza em arranjo classudo e complexo.

Ainda que transpire tanta revolta ardente e indignação justa, a constelação afetiva do novo disco é sobretudo afirmação da vida, sim à resistência que a vivacidade ergue contra as hordas da necrofilia. Mauro Ferreira propôs, em seu artigo para o G1, que:

“A cantora concilia indignação e esperança ao discorrer sobre questões sociais do Brasil no disco produzido por Rafael Ramos. (…) No país dos banguelas, a cantora carioca tem fome de igualdade e justiça social, assuntos recorrentes no repertório do 34º álbum dessa artista cuja dureza na queda é reafirmada nos versos quase clichês da letra da ‘Virei o jogo’ (2019).

Música inédita escrita por Pedro Luís para Elza, Virei o jogo é ouvida em gravação cujos vocais remetem à arquitetura sonora do álbum anterior da cantora, ‘Deus é Mulher’ (2018), cuja composição-título também é da lavra de Pedro. “Se vem de não / Eu vou de sim / Afirmação até o fim”, brada Elza na penúltima faixa do disco ‘Planeta Fome’. [https://glo.bo/2lOIh3i]

Elza é a verdadeira voz que o Brasil, em sua pluralidade de povos, deveria propagar para os outros povos do planeta. A boca-ânus que não cessa de vomitar atrocidades dos Bolsonaristas brazileiros, a começar pelo pseudo-Mito, só nos envergonha diante do mundo e só macula nossa História. A cultura não se cala diante deste crudelíssimo neofascismo, desde bárbaro capitalismo neoliberalizado até as raias da insânia. Elza, ao contrário, é uma vida extraordinária que hoje lembra às novas gerações sobre lutas pretéritas que voltaram a se tornar nossas urgências presentes.

Genialmente, trazendo versos fortíssimos de Gonzaguinha de volta da tumba, des-censurando quem outrora foi ditatorialmente censurado, Elza realimenta todo o potencial subversivo dos Brasis que se recusam a sucumbir ao pesadelo neofascista que por enquanto nos desgoverna. E com poesias cantadas de intensa beleza como as que seguem, ela nos conclama, de novo, “vamos à luta!”:

“Memória de um tempo onde lutar
Por seu direito
É um defeito que mata
São tantas lutas inglórias
São histórias que a história
Qualquer dia contará
De obscuros personagens
As passagens, as coragens
São sementes espalhadas nesse chão
De Juvenais e de Raimundos
Tantos Júlios de Santana
Uma crença num enorme coração
Dos humilhados e ofendidos
Explorados e oprimidos
Que tentaram encontrar a solução
São cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas
Memória de um tempo onde lutar por seu direito
É um defeito que mata
E tantos são os homens por debaixo das manchetes
São braços esquecidos que fizeram os heróis
São forças, são suores que levantam as vedetes
Do teatro de revistas, que é o país de todos nós
São vozes que negaram liberdade concedida
Pois ela é bem mais sangue
Ela é bem mais vida
São vidas que alimentam nosso fogo da esperança
O grito da batalha
Quem espera, nunca alcança
Ê ê, quando o Sol nascer
É que eu quero ver quem se lembrará
Ê ê, quando amanhecer
É que eu quero ver quem recordará
Ê ê, não quero esquecer
Essa legião que se entregou por um novo dia
Ê eu quero é cantar essa mão tão calejada
Que nos deu tanta alegria
E vamos à luta.”


Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro.
Setembro de 2019. Faça o download do álbum completo.

Leia também: Pan African MusicTireless advocate of the women’s rights, and loud activist for the Afro-Brazilian culture, legend Elza Soares released her 34th studio album with Planeta Fome via Desk Records. The new album features notable artists from Soares’ native country, such as veteran rapper BNegão and rising artist Rafael Mike. On the single “Libertação” the diva invites Brazilian vocalist Virgínia Rodrigues and afro-futuristic band BaianaSystem.

Anelis Assumpção ao vivo e a cores no Teatro do Centro Cultural UFG || Veja o vídeo em A Casa de Vidro

Para os sentidos e a inteligência, testemunhar Anelis sobre um palco é um pouco como estar diante de um fenômeno da natureza que estarrece. Uma mulher empoderada, cheia de encantos expressivos, chega com seu séquito de músicos dionisíacos querendo “jogar conversa dentro”. E nos pergunta, em plena era do frenesi e da desatenção: “cê tá com tempo?” Uma hora e meia na companhia de Anelis e banda são tempo-de-vida bem utilizado, pode ter certeza. Tenha tempo pra deixá-la cair dentro de ti, com Música que convida pra dança mas também instiga um “mergulho interior”.

Filha de “Nego Dito” Itamar Assumpção, irmã da falecida Serena (que fez Ascensão), companheira de Curumin o superbatera-do-groove, Anelis decerto não chega jamais sozinha pra nos brindar com sua arte que não é só conversa fiada. Um sexteto sonicamente esplendoroso a acompanhou em seu show no Teatro Centro Cultural UFG ao raiar deste segundo semestre de 2019 em evento promovido pelo Engroove. E em tempos de radicalização tantos das censuras ditatoriais quanto da resistência contracultural (vide o Caso B Negão em Bonito/MS), Anelis tratou de sagazmente traficar para dentro da letra de “Eu Gosto Assim”: “Jair Bolsonaro… não gosto!”

Pra me sacar não tem segredo
Sou bem fácil de acessar
Agonia demais é que me amarga
Eu gosto mesmo é de gostar…

Marginal parada não gosto
Burocracia não gosto
Guerra no Golfo não gosto
Panela vazia não gosto

Mentira deslavada não gosto
Porrada na cara não gosto
Conversa fiada não gosto
Dedada no zóio não gosto…

É com um trechinho desta música, transformada em um mini-panfleto antibozo, que se inicia o vídeo produzido por A Casa de Vidro durante o show. Na sequência do videoclipe live temos um gostinho do álbum mais recente da diva, o Taurina. Integrante deste, a canção chama-se “Mortais À Toa” e fala com sabedoria zen e certa profundida filosófica sobre a “desgraça de ser mortal” e a “graça de estar mortal”.

Ela gravou a canção na excelente companhia de Liniker, Tulipa Ruiz e Ava Rocha (esta última, colaboradora de Anelis também em videoclipes como o de “Song to Rosa”). Para além da musicalidade experimental e exploratória, que não deixa de evocar um certo sabor de Arrigo Barnabé e Clara Crocodilo, a música é também pura poesia musicada. Suspeito que Leminski, se vivo estivesse, adoraria este rebento de Anelis e sua turma:

Da morte tudo se sabe
Fato fatídico
Viver é inevitável
Mas até que se cale, pare, congele
Todo corpo vale
O prazer de ser mortal na proa
De dar mortal à toa, à beira mar
Mortal garoa e a dor de ser mortal

Da morte não se escapa
Escalope a galope
Na esquina do destino
Cavalo marinho
Até que o coração pare
Todo corpo é um vale
Um passe para ser
Um passe para dar
Um passe pra sofrer
Um passe pra curar
Mortal na proa

Um beijo mortal
Um abraço mortal
Um gosto mortal
Um cheiro mortal

[Refrão]
Desgraça de ser mortal
E a graça de estar mortal

Satisfação imensa poder apreciar a performance de uma das figuras que mais admiro no Brasil atual – a filha-maravilha do lendário Itamar, el cascavel à frente da Isca de Polícia. Anelis Assumpção, na última década, vem numa trajetória incandescente, fez ao menos um discaço-destino-a-clássico ao lado da banda Amigos Imaginários e hoje está consolidada como uma das mais magistrais cantoras-compositoras da atual conjuntura cultural brasileira.

Assista na sequência o vídeo, produzido por A Casa de Vidro – Ponto de Cultura, com alguns dos melhores momentos da Anelis em Goiânia, incandescendo no CCUFG:

Eduardo Carli de Moraes – Goiânia, Ago/2019

 

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TSUNAMI DA BALBÚRDIA #2: Somos Gotas Nesse Mar de Revolta || Documentário A Casa de Vidro

A Casa de Vidro lança a segunda parte do documentário “Tsunami da Balbúrdia”, retrato histórico a quente das manifestações em defesa da rede federal de educação (#30M)

“A praça é do povo
Como o céu é do condor.”
Castro Alves (1847 – 1871)

Um coro de vozes, incontáveis e altissonantes, levantou-se para espalhar pelas cidades os cantos e batuques da emancipação: era 30 de Maio de 2019 e éramos um segundo Tsunami de Gente, dando continuidade aos atos grandiosos do #15M que levaram mais de 2 milhões de cidadãos às ruas de mais de 200 cidades.

Mais uma vez, no #30M, as aulas foram nas ruas. Nestas aulas de cidadania coletiva, nestas multitudinárias manifestações, as bandeiras eram muitas e o colorido humano terrestre superava em muito as cores do arco-íris celeste (como ensina Eduardo Galeano).

Queríamos “mais livros e menos armas”, “+ Freire – Guedes”, “Liberdade para Lula“, “Fora Bolsonaro”. Com entusiasmo e coesão, os “blocos” da luta carnavalizada fluíram pelas praças e avenidas, gritando palavras-de-ordem rimadas e ritmadas, feitas para chacoalhar toda a apatia dos fatalistas e todo o conformismo dos privilegiados. Entre os refrões, ressoavam:

– Trabalhador, preste atenção: a nossa luta é pela educação!
– Trabalhador, preste atenção: o Bolsonaro só governa pra patrão!
– Não é mole não! Tem dinheiro pra milícia, mas não tem pra educação!
– A nossa luta é todo dia, educação não é mercadoria!

Fotos acima: Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo no #30M

No documentário curta-metragem Tsunami da Balbúrdia, parte 2, tentamos captar um pouco destas efervescências cívicas que nos transformaram em gotas nesse mar de revolta. Pois, como Albert Camus ensinava, é na superação do individualismo típico do sujeito egoísta, fissurado em correr atrás de seu interesse privado, que podemos nos alçar para longe do pântano da absurdidade do mundo, rumo à esfera superior da revolta que nos solidariza: “eu me revolto, logo somos” (do livro L’Homme Revolté / O Homem Revoltado). 

TSUNAMI DA BALBÚRDIA #2
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Um filme de Eduardo Carli de Moraes (câmera, montagem e direção), com apoio de Lays Vieira (câmera) e participação de Aymê VirgíniaKleuber GarcezBeatriz DurãesLucas CardosoHenrique SouzaLey SilvaNicolle PiresAndreoly N. MonçãoDanny Cruz. Com fotografias de Hugo Brandão, Marianna Cartaxo, José Almeida, dentre outros. Trilha sonora com canções de: Flaira Ferro, Francisco El Hombre, Adriel Vinícius e Ceumar.

A vida só se renova com revolta contra as injustiças e as opressões que nos imobilizam. Quando animada por um espírito de solidariedade, a revolta é a força material que impele um princípio ético em sua tentativa de devir carne. Na Praça Universitária, enquanto os estudantes da EMAC (Escola de Música e Artes Cênicas) / UFG faziam a sua performance subversiva, vivi na pele aquela verdade dos existencialistas mais lúcidos e que ganhou sua mais bela expressão em Paulo Freire: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão.” (Pedagogia do Oprimido, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.)

A “Tropa de Choque” da Educação, empunhando escudos de papelão transformados em reproduções de capas de livros, vai na vanguarda da marcha, levando seus estandartes que sinalizam a vontade e o ímpeto de defender a cultura, a inteligência, a criatividade, nas figuras de George Orwell, Hilda Hilst, Michel Foucault, Cabral de Melo Neto, Mário de Andrade, Angela Davis, Paulo Freire, Augusto Boal, Cervantes, dentre outros.

Protestando também com muita arte, a galera da Faculdade de Artes Visuais deu expressão à palavra tsunami com uma grande onda que conectava os indivíduos ali presentes numa espécie de centopéia. O super-organismo da cidadania organizada e insurgente cantava canções irreverentes e ousadas como aquele adorável “ô Bolsonado, seu fascistinha, os estudantes vão botar você na linha!”

Em marchas repletas de beleza, em que ética e estética davam as mãos para fazer da cultura em movimento uma força de transformação social, estávamos unidos na diversidade. Questionávamos Weintraub, o Bobo dos Cortes, indignados com a tentativa de desmonte da rede federação de educação que está em curso. Assim como em Junho de 2013, não eram só 20 centavos, desta vez também podemos dizer: não são 3 chocolatinhos e meio.

Estar nas ruas fervilhantes de gente desperta e valente foi um bálsamo para as energias. É que nestes tempos de hegemonia da idiocracia neofascista e sua necropolítica, o pessimismo imobilizador poderia muito bem ter tomado conta, feito uma epidemia, matando no nascedouro qualquer capacidade de mobilização e resistência. Não foi o que aconteceu. Os Tsunamis da Educação foram gigantescos sopros de vida de um povo guerreiro e que não aceita o jugo do opressor, com protagonismo de uma “juventude que sonha sem pudor”, como canta a linda Flaira Ferro inspirada pelo tsunami recifense:

“na calada da noite
os estudantes fazem o futuro amanhecer
quem aprendeu a ler e escrever
sabe bem que analfabeto
jamais voltará a ser

mesmo que o destino
reserve um presidente adoecido
e sem amor
a juventude sonha sem pudor
flor da idade, muito hormônio
não se curva a opressor

pode apostar
a rebeldia do aluno é santa
não senta na apatia da injustiça
agita, inferniza e a rua avança
escola não tem medo de polícia

pode apostar
balbúrdia de aluno é o que educa
ensina ao governante que caduca
retroceder não é uma opção
respeito é pra quem dá educação.”

Aos historiadores do futuro que quiserem saber quais as causas da revolta destas gotas cidadãs que se uniram neste tsunami de gente, deixamos algumas pistas. Não se trata apenas de protestar contra os cortes nos investimentos públicos na rede federal de educação, mas de protestar um contexto mais amplo em que a educação já vive um “clima de Ditadura”, como argumentou Juan Arias em El País.

Através da idiocracia de extrema-direita encabeçada por Bolsonaro, Guedes, Damares, Moro etc., o que está em ascensão é uma Cruzada Obscurantista, uma lunática campanha para livrar o Brasil das várias faces de Satanás: na mente desses dementes, Satã é representado na face da Terra por Paulo Freire, Gramsci, o Marxismo Cultural, mas sobretudo o lulismo e o petismo. Gente de Deus? Damares, Edir Macedo, MC Reaça, Malafaia, Ustra… Há quem até mesmo diagnostique na loucura da “mitologização” de Jair Messias Bolsonaro um sintoma do cristofascismo à brasileira.

Estes fanáticos – tanto do Livre Mercado quanto de um Deus conexo à Teologia da Prosperidade – agora atacam numa espécie de Cruzada Anti-Iluminista, numa Aliança Terraplanista em prol do retorno da Inquisição, do fortalecimento da Klu Klux Klan, de “programas sociais” como o Arma Para Todos, o Escola Para Poucos e o Menos Médicos (especialidades Bolsonaristas).

A intentona de criminalização do pensamento crítico e dos docentes que facilitam o avanço da pedagogia crítica está a todo vapor, sendo que filósofos e sociólogos “esquerdistas” e “marxistas” são pintados como chifrudos comedores de criancinhas, “uma paranoia ideológica que enxerga ‘esquerdismo’ e ‘comunismo’ em tudo que cheire à defesa dos interesses populares pelo Estado, flertando com o fascismo e com o ‘darwinismo social’.” (FREITAS: 2018, p. 28)

Temos “movimentos destinados a cercear a liberdade docente como o Escola Sem Partido que, como bem destaca o prof. Luiz Carlos de Freitas, é financiado e apoiado por interesses empresariais e privatistas. Imensas maquinarias de desinformação e idiotização são postas em marcha – por exemplo pelo MBL, turbinado com os dollars dos Kocj Brothers – fortalecendo a viralização das fake news, do discurso de ódio e da noção de uma da “pós-verdade”.

Esse caos todo é destravado pela ação de uma “nova direita” repleta de “velhas ideias”, uma direita que fede a velharia por ser composta sobretudo por homens, brancos, ricos, pseudo-religiosos, ambiciosos e gananciosos até a patologia, e que idólatras de Mammon querem só saber da mercantilização de tudo. Quem tenta nos dominar hoje é uma Direita que une o neoliberalismo na economia e o conservadorismo tacanho na moral (ou “costumes”).

No âmbito educacional, além de desejar sucatear e precarizar as escolas públicas, para depois tentar justificar perante a sociedade a necessidade de privatização ou terceirização, esta Direita tende a idolatrar o Mercado com uma devoção cega com que também parece cair no abismo de idolatrias ainda mais estúpidas e nefastas. Para esses debilóides, Bolsonaro não é um calhorda apologista da tortura e da Guerra Civil, mas um “Mito” e um “Cidadão de Bem”, assim como MC Reaça é um “grande artista”, Olavo nosso “maior pensador” e Edir Macedo ou Silas Malafaia os próprios enviados do Senhor para conduzir-nos à salvação (desde que possamos pagar por ela).

Como escreve Freitas, em seu texto “Um Outro Horizonte Possível”, não podemos e não devemos nos submeter docilmente à lógica privatista e à tentativa de redução da escola ao modelo empresarial:

“A privatização da escola introduz formas de gestão empresariais e verticalizadas, ensina nossos jovens a praticar o individualismo e a competição, reforçando na sociedade formas de organização limitadas e injustas – sem falar da ampliação de processos culturais relativos à violência cultural e ao não reconhecimento das diferenças raciais e de gênero.

Por tudo isso, tal perspectiva é incompatível com a qualidade social que se espera de uma educação voltada para formar lutadores e construtores de uma sociedade mais justa, sob as bases da participação na vida coletiva – na escola e na sociedade – em estreita relação com sua comunidade, da qual a escola faz parte. A competição não é, nem do ponto de vista da convivência social, nem do ponto de vista educacional, um modelo que induza uma humanização crescente das relações sociais em uma ambiência democrática.

Se estamos compromissados com a democracia, todos os espaços da escola devem permitir a vivência da democracia; devem chamar os alunos para a participação em seu coletivo, permitindo o desenvolvimento de sua auto-organização e seu envolvimento com a construção coletiva, com espírito crítico. O conhecimento que se adquire nos processos escolares deve um instrumento de luta voltado para esses objetivos…

A escola pública, no presente momento histórico, é a única instituição educativa vocacionada a acolher a todos de forma democrática. As dificuldades que ela tem para cumprir essa tarefa devem nos mobilizar para uma luta que a leve a cumprir essa intenção com qualidade e não, pelo oposto, nos leve a apostar em sua destruição.”

LUIZ CARLOS FREITASA Reforma Empresarial da Educação – Nova Direita, Velhas Ideias. São Paulo: Expressão Popular, 2018. Pg. 128.

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VEJA TAMBÉM O PRIMEIRO CURTA-METRAGEM:
TSUNAMI DA BALBÚRDIA – #15M

VEJA MAIS FOTOGRAFIAS || por Hugo Brandão, Marianna Cartaxo, José Almeida e Estudantes Ninja

“Ninguém solta a mão de ninguém”: um imperativo ético. Conheça o manifesto afetivo de resistência e pelas liberdades.

“NINGUÉM SOLTA A MÃO DE NINGUÉM é um postulado ético, de solidariedade mútua, proteção e cuidado, porém entre uma mão e outra existem diferenças que remetem à própria constituição da humanidade dos sujeitos e do enquadramento de suas vidas como vivíveis ou não. Que mãos estamos dispostos a segurar e não soltar? Ou ainda, quais mãos sequer enxergamos para segurar e não soltar? O chão que se pulveriza sob nossos pés nos traga desigualmente e de formas múltiplas. As vulnerabilidades e fragilidades das vidas ao nosso lado são, muitas vezes, imperceptíveis, se vistas estritamente sob a nossa perspectiva.

A ética expressa nesse enunciado tem ainda outra dimensão fundamental sobre a qual não posso deixar de falar. A proposição expressa é profundamente corporal. Não se trata de “Ninguém esquece ninguém” e nem mesmo de “Ninguém deixa de pensar na vida de ninguém”. Convida o corpo à ação e ao encontro. Convida à contaminação com o suor que o contato ininterrupto com outra mão produz. Seu acerto, penso eu, consiste justamente na mobilização corporal e não simplesmente racional.


Saiba mais: A obra “Ninguém solta a mão de ninguém”, que viralizou nas redes sociais durante as Eleições de 2018, foi criada pela tatuadora de Belo Horizonte Thereza Nardelli. “Em poucas horas, o perfil da artista ganhou mais de 5 mil novos seguidores e sua imagem foi muito replicada.” >>>http://radioguimguim.com.br/site/2018/10/30/postagm-ninguem-solta-a-mao-de-ninguem-foi-criada-por-tatuadora-de-bh/

É certo que se trata de uma metáfora construída, inicialmente, na conjunção de imagens-palavra e imagens-desenho que, se por um lado comunicam solidariedade, cuidado, corpo e ética, por outro parecem produzir um afeto não consolidado no plano do simbólico, posto que é linguagem poética… produz afetações múltiplas, subvertendo as molduras masculinistas das teorias da solidariedade, constituindo, talvez, uma ética do encontro, que se orienta pela perturbação das forças e poderes que fabricaram o mundo abissal que parecemos habitar nos últimos tempos.

* * * * *

Uma travesti em Campinas tem seu coração arrancado. Sobre seu peito vazio o assassino deita a imagem de uma santa. (…) ‘Quién dijo que todo está perdido? / Yo vengo a ofrecer mi corazón“, este famoso trecho da composição de Fito Páez, eternizada na voz de Mercedes Sosa, foi a primeira lembrança que me veio à mente depois da notícia desta crime bárbaro. O coração de Quelly da Silva não foi oferecido a ninguém. Ofereçamos os nossos em nome da vida, para que não nos sejam arrancados. Falemos de esperança e afirmemos a vida.

* * * *

Conheci um coletivo de artivismo chamado A Revolta da Lâmpada. Para além dos nomes já conhecidos e inscritos nas tradições reivindicatórias do Ocidente (LGBT, queer, feminismo), eles falavam em ‘corpo livre’. Todos são corporificados. O corpo imigrante. O corpo gordo. O corpo deficiente. O corpo das mulheres. O corpo dos homens. Todos esses corpos são alvo do controle, frequentemente violento. Uma política que parta do corpo livre. Livre da pobreza. Livre da tortura. Livre da violência. Livre dos estigmas. O que pode uma política do corpo?”


HELENA VIEIRA. Ninguém Solta a Mão de Ninguém – Manifesto Afetivo de Resistência e pelas Liberdades. Ed. Clarabóia, 2019, p.125.

Acompanhe A Casa de Vidro.

“Por quantas vezes
meus olhos
por quantas vezes
foram a cólera,
por quantas
o brilho do amor?

Meus lábios
por quantas vezes
foram sussurros,
por quantas
palavras sem cor?

Meus braços
por quantas vezes
travesseiro macio,
por quantas vezes
pesadelo e torpor?

Meus pés
por quantas vezes
um afago de chão,
por quantas vezes
patadas de dor?

Minhas mãos
por quantas vezes
foram acenos,
por quantas vezes
foram adeus?

Mas
do amor
eu não solto a mão.
Não solto, não!

Ninguém solta a mão de ninguém.”

Música e letra: Lauro Henriques Jr e Ceumar
Voz: Ceumar
Sanfona: Lívia Mattos
Ilustrações: Thereza Nardelli
Direção geral e montagem: Rafael Bispo 
Direção de fotografia: Eduardo Makino

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LIBERDADES SUPRIMIDAS: A restrição da renovação é o fruto amargo do “casamento infeliz entre neoliberalismo e conservadorismo moral”, avalia a cientista política Flávia Biroli

“Your silence will not protect you.”
Audre Lorde

Quer você se cale, quer você fale; quer você se abstenha, quer saia à luta; quer seja atuante, quer prefira quedar passivo, no fim das contas vai acabar morto. O teu silêncio, a tua abstenção, a tua passividade, nunca vão te impedir de morrer. Por que não, então, fazer das vísceras coração para falar, lutar, agir, sempre na ciência de que “we were never meant to survive”?

Diante das calamidades triunfais, diante das liberdades suprimidas, diante dos zumbis políticos do ecoapocalipse, diante da restrição da renovação e do amordaçamento das vozes, quem seríamos nós, caso calássemos, senão cúmplices do pior?

Na América Latina se respira luta, como sabe qualquer um que tenha se aventurado a conhecer a história conturbada deste continente. E não há nem sinal no nosso Horizonte Histórico de que isso pare de ser verdade no futuro próximo: seguiremos respirando luta. Na Chiapas zapatista, na Bolívia de Evo, com os Mapuches chilenos, na companhia das resistências indígenas e quilombolas, em toda parte do continente onde se peleja por dias melhores, seguiremos hasteando a bandeira colorida (onde o vermelho e o preto, é claro, sempre terão seus devidos lugares de honra…).

Seguir respirando lutas libertárias: é esta nossa sina e tarefa histórica, a da ação coletiva para construir “um outro mundo possível”, como propôs o Fórum Social Mundial nascido em Porto Alegre na aurora do século 21. Um mundo onde caibam todos os mundos. E cuja construção coletiva inspira-se nas sugestões e utopias de figuras como Eduardo Galeano, Noam Chomsky, Naomi Klein, Leonardo Boff, Vandana Shiva, Raj Patel, Arundhati Roy, Boaventura dos Santos, dentre tantos outros.

O Sistema que temos a missão de fazer colapsar, no mesmo processo em que o substituímos por um melhor, é aquele que degrada a Teia da Vida, submetendo-a ao deus Lucro, esse devorador Mammon que conspurca tudo.

Historiadores do futuro talvez se debrucem sobre a época que atualmente atravessamos com o interesse de compreender como se deu esta bizarra fusão, que ora nos desgoverna, do capitalismo neoliberal “selvagem” (a doutrina de que nenhum Estado deve controlar a economia, tudo deve ser entregue ao livre jogo da mão invisível do deus Mercado…) com um neofascismo todo calcado em conservadorismo moral.

Revista Piauí – Ilustração: Roberto Negreiros. Matéria de Marcos Nobre, “O Caos Como Método”.

Sabemos que vivemos, de novo, em uma era de liberdades proibidas, de direitos interrompidos, de regressões à barbárie. E que de nós depende a pulsão de primavera que possa fazer irromper, de novo, a biophilia perdida, a solidariedade estilhaçada, a rota reencontrada da reconstrução de um projeto coletivo norteado pelo bem comum. Isso exigirá que a gente se embrenhe no labirinto dos fascismos, nele agindo como libertários destruidores-construtivos, aqueles que, como Nietzsche ensina, só destroem pois são criadores e só aniquilam aquilo que superam.

Ajudemos os historiadores do porvir, fazendo uma espécie de relato histórico a quente das últimas ocorrências no cabaré incendiado chamado Brasil – e compartilhando algumas reflexões sobre todos os pertinentes movimentos sociais e ativismos cívicos que tem contribuído no sentido de alargar os limites da democracia (falha, de baixa intensidade, sempre restringida por elites contrárias à renovação).

“O golpe de 2016 encerra um ciclo que se iniciou com a Constituição de 1988”, avalia a cientista política Flávia Biroli, professora da UnB e autora de vários livros publicados pela Ed. Boitempo (dentre outros). O encerramento de ciclo que o golpeachment instaura se deu após a ruptura constitucional operada com a meta da deposição de Dilma Rousseff. Hoje, a dita Constituição Cidadã se encontra em frangalhos, sangrando na UTI.

“A Constituição de 1988 é o resultado de disputas e pactos”, lembra Biroli. Todo o processo Constituinte (vejam isso em minúcias na obra de Florestan Fernandes, deputado constituinte pelo PT, em seus artigos e livros da época) ocorreu um confronto de forças opostas, numa espécie de cabo-de-guerra entre a Ditadura debatendo-se por sua vida e a Democracia em seu ímpeto de renascença: opuseram-se naquela época “ações de elites políticas bem posicionadas no regime de 1964, que foram capazes de manter o controle sobre recursos econômicos e políticos no processo de democratização, e as reivindicações que partiram de outros grupos e públicos, com agendas alternativas e conflitivas.”

“O predomínio de setores religiosos conservadores, de interesses empresariais, de proprietários de terra e de empresas de comunicação, em um ambiente internacional de ascensão da agenda neoliberal, barrou a possibilidade de que o processo democrático alargasse as condições para uma igualdade mais substantiva, para o controle popular sobre a economia e para a igual cidadania das mulheres e da população negra.” (BIROLI, In: Tem Saída?, Ed. Zouk, Porto Alegre, 2017. p. 17)

Estes movimentos cívicos que se envolveram na luta pela Constituição de 1988 – “luta pelos direitos humanos, pela igualdade de gênero e racial, pelo direito à saúde e à moradia, pela universalização do acesso à educação, pelo direito à terra” – não podem ser enxergadas pelo viés apequenador das batalhas já ganhas. Mas muito menos como batalhas perdidas. São ainda as nossas batalhas, e sempre haverá na América Latina lutadora – aquela de Martí, de Zapata,  Bolívar, de Fidel, de Guevara, de Sandino… – quem siga em levante contra o tropel triunfante das injustiças multiformes.

Vivemos, no Brasil, numa espécie de híbrido entre Ditadura militar e Democracia liberal, uma simbiótica cooperação entre Estado e Mercado para que o primeiro seja o punho visível do Leviatã que garante, a partir de seu poder policial e encarcerador, um grau mínimo de ordenação social para que a mão invisível do Deus Mammon possa fazer seu traquinice peralta mais recorrente: Robin Hood às avessas, rouba dos pobres pra dar aos ricos.

A despeito de ter quase a mesma carga tributária que países como o Reino Unido, por exemplo, o Brasil é um dos países mais ineficazes na redução da desigualdade de renda, beneficiando mais a camada mais rica da população.

É o que conclui um estudo da Seae (Secretaria de Acompanhamento Econômico), do Ministério da Fazenda, publicado nesta sexta-feira (8), que classifica o país como um “Robin Hood às avessas”.

“Em vez de tributar os mais ricos para distribuir para os mais pobres, [o Brasil] termina tributando a todos para distribuir via transferência monetária, em especial aposentadorias e pensões, para a metade mais rica da população”, afirma o levantamento.

De acordo com o documento, o país gasta cerca de 12% do PIB (Produto Interno Bruto) com programas de transferência de renda, o que inclui aposentadorias (que representam 83% do total) e programas sociais como seguro-desemprego e Bolsa Família.

Apesar disso, a diferença entre a carga tributária e essas transferências contribui para reduzir o índice de Gini, indicador que mede a desigualdade, em apenas 17%.

É a metade da média dos países da OCDE, onde esse percentual é de 34%.

“Fica evidente que, no caso do sistema fiscal brasileiro, o impacto redistributivo mais fraco não resulta de uma baixa arrecadação tributária, mas sim da forma que o Estado brasileiro devolve os recursos arrecadados para a sociedade”, afirma o levantamento. “Só o México e o Chile apresentam desigualdade no mesmo patamar do Brasil depois das transferências e tributos.”

MAELI PRADO
Folha de S. Paulo
08/12/2017

Enquanto esta mentalidade obcecada por lucros e ganhos financeiros for hegemônica, seguirá acarretando a lamentável e epidêmica degradação da vida em que estamos imersos até o pescoço. Degradação das condições dignas de trabalho – nossos celulares, por ex., sujos com o sangue das crianças africanas que são escravizadas nas minas de cobalto do Congo. Degradação dos ecossistemas e biomas, antes repletos de biodioversidade, hoje áreas com jeitão de Chernobyl (vide as tragédias socioambientais em Minas Gerais, Mariana e Sobradinho…).

Degradação de todos os mecanismos de participação política efetiva, corrosão das portas e pontes abertas para a real manifestação da soberania popular. Em canetada palaciana, Jair Bolsonaro extinguiu boa parte dos conselhos destinados a intermediar a relação entre representantes e população. Uma das muitas sabotagens ao processo democrático que estão sendo feitas.

É como se os dois regimes pós-Golpe – ou seja, os governos encabeçados pelos presidentes Temer e Bolsonaro – estivessem devotados a revogar a Constituição de 1988 de modo análogo ao que fez a Ditadura promulgando, em 1967, uma Constituição que reforçou a censura e a repressão:  “a dura política repressiva que se instalara com o AI-5”, a partir de Dezembro de 1968, já havia sido prenunciada pelo reforço dado, no ano anterior, à Divisão de Censura de Diversões Públicas. A liberdade de expressão era cada vez mais duramente cerceada e combatida, como mostra, para o caso da literatura brasileira, a obra da Sandra Reimão, Repressão e Resistência: censura a livros na ditadura militar.

Autores como Darcy Ribeiro, Rubem Fonseca, Caio Prado Jr., Inácio de Loyola Brandão, Cassandra Rios e Rose Marie Muraro foram alguns dos alvos do amordaçamento. Entre os editores, foram atacadas figuras como Ênio Silveira, dono da editora Civilização Brasileira, que teve sua sede invadida, livros confiscados e enxurradas de processos provindos da lawfare ditatorial.

Na MPB, como é bem sabido, a repressão também desceu com seu porrete amedrontador sobre vários artistas, e um caso emblemático é o espetáculo de Gal Costa, Gal a Todo Valor, em 1971.

Segundo Eduardo Jardim, podemos ler todo o contexto histórico ou zeitgeist em canções de Caetano que Gal interpreta, a exemplo de “Como 2 e 2”. No Teatro Teresa Raquel, em Copabacana, “o público que lotava o teatro” entendia a palavra DESERTO, no verso “TUDO EM VOLTA ESTÁ DESERTO”, com significados profundos que remetiam ao estrangulamento das liberdades, da supressão dos ímpetos libertários pela ditadura militar:

“Quando você me ouvir cantar
Venha, não creia, eu não corro perigo!
Digo, não digo, não ligo, deixo no ar.
Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar…

Tudo vai mal, tudo!
Tudo é igual quando eu canto e sou mudo
Mas eu não minto, não minto
Estou longe e perto
Sinto alegrias tristezas e brinco

Meu amor
Tudo em volta está deserto, tudo certo
Tudo certo como dois e dois são cinco.

Quando você me ouvir chorar
Tente, não cante, não conte comigo
Falo, não calo, não falo, deixo sangrar
Algumas lágrimas bastam pra consolar…

Tudo vai mal, tudo!
Tudo mudou, não me iludo e contudo:
A mesma porta sem trinco, o mesmo teto
E a mesma lua a furar nosso zinco…

Meu amor
Tudo em volta está deserto, tudo certo.
Tudo certo como dois e dois são cinco…”

“Aqueles jovens apinhados em uma sala fechada, em um estado de forte emoção , sabiam que, fora dali, tudo era mesmo um deserto e tudo estava tão errado como a matemática da canção. O público era basicamente de estudantes e jovens artistas, os quais, de algum modo, tinham sido atingidos pela dura política repressiva que se instalara com o AI-5.

O governo avaliava com razão que os quadros das organizações armadas, que contestavam o regime, eram recrutados no meio universitário. Por este motivo baixou o decreto 477, em fevereiro de 1969, que punia com a expulsão da universidade e impedia o reingresso nela, por 3 anos, de todos os que participassem de atividades consideradas subversivas, como convocação de greves, organização de passeatas, produção ou porte de material de propaganda política, uso das dependências escolares para fins de subversão ou prática de ‘ato considerado imoral ou contrário à ordem pública’.

Além de dificultar a arregimentação de quadros para os grupos armados, outro objetivo do decreto foi impedir que o movimento estudantil se reorganizasse e voltasse a promover manifestações como as ocorridas nos anos anteriores.”

JARDIM, Eduardo. Tudo em volta está deserto: Encontros com a literatura e a música no tempo da ditadura.

Este desvio pela arte tropicalista nos tempos da ditadura não é à toa: é pra lembrar que, na Ditadura, as inovações estéticas e comportamentais sugeridas pelos artistas da Tropicália foram duramente reprimidas e silenciadas. E que foi justamente a Constituição de 1988, aquela da “redemocratização”, que enfim derrubou a censura às artes e aos meios de comunicação:

As obras de pensadores como Flávia Biroli, Márcia Tiburi, Luis Felipe Miguel, Vladimir Safatle, Edson Telles, Maria Rita Kehl, Rubens Casara, Débora Diniz, para citar apenas alguns dos mais ilustres, são cruciais para que questionemos a fundo se está viva e saudável, ou se está moribunda e agonizante, a dita Constituição Cidadã e a chamada “Redemocratização”.

Os governos Temer e Bolsonaro mostram toda a fúria destrutiva da Elite do Atraso que não deixa dúvidas: Cultura e Educação não apenas estão longe de serem prioridades, mas também merecem todo o ímpeto de desmonte e destruição que ora presenciamos, com a extinção do MinC e com cortes brutais nos investimentos na rede federal de educação.

Bolsonaro é o cadáver insepulto da Ditadura que ressurge da tumba. Um zumbi que vem para nos relembrar de nosso mal enterrado passado de violências de Estado impunes. A velha face de uma elite brutal que perpetra opressões e impunemente se deleita com as inúmeras degradações da dignidade humana dos mais vulneráveis que impõe.

Lembremos que o regime nascido do golpe de Estado de 1964, exatamente como o regime de Bolsonaro em 2019, usava instrumentos repressivos “contra os professores das universidades”: durante o domínio dos milicos que golpearam o governo Jango em 1964, “foram feitas listas de docentes que deveriam ser demitidos” e “houve casos em que estas medidas foram devastadoras, como no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ”.

Ali, rememora Edu Jardim, estavam reunidos os cursos de Filosofia, Ciências Sociais e História – velhos inimigos jurados dos regimes totalitários e dos autocratas que os encabeçam. Choveu repressão, mordaça e expurgo patrocinados pela Ditadura, e “com o esvaziamento do quadro docente, professores tinham que improvisar aulas das mais diferentes disciplinas e agentes infiltrado da polícia, chamados de assessores pedagógicos, circulavam pelos corredores da antiga Escola de Engenharia, no Largo de São Francisco, no centro do Rio de Janeiro. Lembro-me de um casal de namorados sendo admoestado, a mando de um professor, pelo fato de a moça estar com a cabeça reclinada no ombro do rapaz.” (JARDIM, op cit, p. 59)

Hoje não estamos muito melhor: Bolsonaro não difere tanto de um Médici; Paulo Guedes é admirador do regime ditatorial que Pinochet instalou no Chile, para testar a doutrina neoliberal burgofascista dos Chicago Boys; Sérgio Moro é uma figura meio Torquemada, meio Grande Inquisidor, que fede um pouco à jurisprudência medieval (aquela história de quem acha que, para condenar e aprisionar, não são necessárias provas, bastam as convicções); já no MEC e no Itamaraty, temos sectários Olavetes que não tem muito a propor senão despautérios imbecilóides como “o nazismo com certeza foi um movimento de esquerda” e “aquecimento global é uma fraude inventada pelos marxistas”…

Diante da restrição à renovação, renovação que é essencial ao avanço coletivo rumo a uma realidade alternativa menos injusta e menos sofrida, não nos resta caminho a não ser “sacar a voz”, como recomendam Anita Tijoux e Jorge Drexler, e irmos à luta. Até o Patriarcado cair, até a cleptocracia rodar, até o fascismo vazar, até tudo reflorescer – pois se o inverno é deles, a primavera pode ser nossa.

Resta saber se você é cúmplice do gelo, ou aliado da flor. Sabendo sempre que o silêncio nunca vai te proteger e no final, na certa, você vai morrer. Com o risco supremo: no momento fatal, olhando de cara para silêncios, passividades, obediências e inações, aí se concentre todo o fardo pesado do arrependimento. Pela vida não vivida, pela luta não lutada.

“Your silence will not protect you!”

É TEMPO DE SEMEAR A LUTA & FLORESCER POR MARIELLE

VÍDEOS RECOMENDADOS:

O FLORESCER DA VOZ, de Jaime Leigh Gianopoulos

O FEMINISMO DA REPRODUÇÃO SOCIAL, por Flávia Biroli

HISTÓRIA DA MÚSICA LATINO AMERICANA: Alguns discos independentes que ilustram nosso passado e presente – Por Tamyres Maciela

HISTÓRIA DA MÚSICA LATINO AMERICANA: ALGUNS DISCOS INDEPENDENTES QUE ILUSTRAM NOSSO PASSADO E PRESENTE

Por Tamyres Maciela, colunista d’A Casa de Vidro

Vivo em um vai e vem de estudos musicais. Quando paro pra descansar a cabeça das contemporaneidades aprofundo mais no passado musical brasileiro e das nuestras hermanas nações latino americanas. Me encontro agora no garimpo dos sons produzidos lá pelas décadas de 70 e 80. Acho que já comentei que sou usuária assídua do Youtube e sempre percebo movimentações novas nesse site, pessoas publicando sons e créditos de discos de vinil que guardam há anos, sites de resgate da memória cultural nacional, até mesmo canais de tv como Canal Brasil e TV Cultura, que têm um acervo riquíssimo das produções culturais de antigamente. Têm todo meu respeito e admiração as pessoas que disponibilizam seus acervos pela internet. Muchas gracias!

Alguns discos independentes são fundamentais na história musical brasileira e latino americana. Musicistas que falam do nosso povo, nossas riquezas naturais, nossos sentimentos mais singelos, nossas lutas eternas por justiça, igualdade, equidade. Divido com vocês o início de uma viagem rumo ao que há de mais rico e necessário na Música Popular Latino Americana.

Em algumas conversas com a Doroty Marques ela sempre afirma o caráter independente de seu trabalho. Trata-se de uma das primeiras mulheres no Brasil a produzir músicas de forma independente. A capa desse disco simboliza muito do que somos enquanto América Latina: trabalhadores do campo. Esse desenho foi criado no Presídio Político do Barro Branco – São Paulo em 1978 e descreve com fidelidade o conteúdo das canções interpretadas por Doroty. As músicas carregam mensagens de reflexão política por todo o álbum, contam histórias de lutas, além de exaltar a vivência nos interiores, as chuvas e geadas que acometem nossos cafezais.

Das mais belas obras musicais regionais da nossa história. O terceiro disco do mineiro Dércio Marques conta com participações especiais de sua irmã Doroty Marques, além de Diana Pequeno, Paulinho Pedra Azul, Parê e grupo Paranda. No repertório, muitas músicas dedicadas a figuras emblemáticas da música popular, sonoridades que nos levam aos mais longínquos interiores do Brasil e riquíssima mescla de elementos sonoros, como na música Fulejo (ritmos negros fundidos de Moçambique mineiro, samba rural do litoral, chula gaúcha, manha maranhense e cajón afroperuano). As canções retratam a preservação de valores e virtudes, a vida no campo, sons de passarinhos e a realidade de quem sempre viveu lutando por justiça e amores impossíveis. “Saudade, morena, sei que vou sentir, tenho um coração no peito, não posso ficar aqui, porque a polícia se espalhou no mundo inteiro e até hoje vive atrás de cangaceiro”.

Cátia de França representa pra mim um dos símbolos mais legítimos de resistência pela arte. Mulher negra paraibana compositora lançou Estilhaços em 1980 em parceria com outras gigantes da nossa música. Esse disco conta com participação especial de Clementina de Jesus e Pedro Osmar. A poeta se inspira em diversos outros poetas da nossa literatura nas letras e recita suas obras numa harmonia sonora incrível. Panorama traz uma metáfora genial da cidade grande, em que “tudo isso não faz inveja pra quem vem lá do sertão, bicho de qualquer qualidade soltinho na amplidão…” e Menina Passarinho é a descrição mais verdadeira de amor livre que já ouvi, “amor bom é o nosso, que sabe aceitar a hora da apartação”.

A Banda de Pau e Corda também faz parte dos sons necessários que melhor descrevem nossa história. Esse disco de 1973 traz causos, histórias, cenários, até o cheiro dos matos do interior dá pra sentir. Me gusta mucho a canção “Lampião”, uma poesia que ilustra a história do cangaceiro, diferente das perspectivas limitadamente negativas de sua existência. Roberto Andrade é uma grande inspiração como compositor e estudioso da cultura popular.

Contemplo aqui uma mulher que muito representa a música latino-americana. Outra guerreira que sempre falou sobre, pelo e para o povo. Em diversos registros que a internet nos traz dos shows de Mercedes Sosa percebemos que, além do espetáculo musical, ela trazia ricas referências sobre as inspirações das letras que interpretava.

Amplio meu olhar para músicas da América Latina por acreditar que a história do Brasil e de nossas hermanas latino americanas é a mesma. Disseram nos livros de história que fomos descobertos, mas na verdade fomos invadidos, explorados, estuprados. Porém nossa ancestralidade jamais se resumiu ou se limitará à glória das conquistas nortistas. Nosso povo sempre resistiu e resistirá com luta e sabedoria. Aquí se respira lucha!

Tamyres Maciela

REFERÊNCIAS

Armazém da memória (http://armazemmemoria.com.br/)

Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira (http://dicionariompb.com.br/)

LEIA AS COLUNAS ANTERIORES DA TAMYRES EM A CASA DE VIDRO:

#1 – Meu agora até aqui
#2 – Sobre construção de repertórios e produção musical contemporânea
#3 – Garimpar Músicas: uma das maneiras de se fazer bom uso da internet
#4 – Olhares sobre o maior carnaval de rua do Brasil