Elza Soares brilha com repertório político perfeito para sua voz – Por Luiz Fernando Vianna

Elza Soares brilha com repertório político perfeito para sua voz

Por Luiz Fernando Vianna na Folha de São Paulo (18.05.2018)

“A Mulher do Fim do Mundo”, de 2015, começava com Elza Soares interpretando a capela versos de Oswald de Andrade alusivos ao tráfico negreiro. Era o ponto de partida de uma viagem pelo Brasil sombrio.

O início de “Deus É Mulher” também tem Elza a capela, mas já cortando o presente: “Mil nações moldaram minha cara/ Minha voz, uso para dizer o que se cala/ O meu país é o meu lugar de fala”.

Canta-se um Brasil que ficou ainda mais sombrio nos últimos três anos. Em vez de abatimento, porém, há vigor. Como as precárias concertações sociais e políticas ruíram, mais do que nunca é preciso dizer o que não deve ser calado.


O reconhecimento público da força do CD de 2015 certamente encorajou Elza e seus parceiros paulistas a dobrarem as apostas.

O núcleo de compositores, músicos e produtores formado por Guilherme Kastrup, Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral, entre outros, ampliou-se e intensificou o caráter político (e nada partidário).

Quanto à sonoridade, há acréscimos, como as percussões das mulheres do Ilú Obá de Min, mas os pilares não mudaram: melodias conduzidas por sintetizadores e guitarras, muitas vezes distorcidas; mistura de sons sujos (sampler, MPC) e limpos (flauta, quarteto de cordas); criação de uma massa que não está a serviço da voz de Elza, mas que se cola a ela, formando um todo rascante, corrosivo.

No que se refere às letras, o verso “O meu país é o meu lugar de fala”, de “O Que se Cala” (Douglas Germano), é uma declaração de princípios. Dá a uma expressão das lutas identitárias (“lugar de fala”) um sentido nacional, esvaziando o tom fratricida que há nela.

Ao longo do CD, miram-se alvos concretos sem deixar de lado a qualidade musical.

Contra a intolerância religiosa e a doutrina Escola sem Partido, vem “Exu nas Escolas” (Kiko Dinucci e Edgar), em que se ensina que “Exu no recreio não é xou da Xuxa” e se propõe “tomar de volta a alcunha roubada”, ressaltando-se o lado positivo da entidade.

A liberdade religiosa é tema de “Credo” (Douglas Germano): “Minha fé quem faz sou eu/ Não preciso que ninguém me guie”. E a sexual, de “Um Olho Aberto” (Mariá Portugal): “Cada um inventa a natureza que melhor lhe caia”.

O par formado por “Língua Solta” (Alice Coutinho e Romulo Fróes) e “Hienas na TV” (Kiko Dinucci e Clima) descarta os falsos consensos. Na segunda, direcionada aos políticos e outros donos dos poderes, Elza canta: “Digo sim pra quem diz não/ E pra quem quiser ouvir/ Eu digo não”.

A primeira, espécie de súmula conceitual do CD, deixa claro: “Nós não temos o mesmo sonho e opinião/ Nosso eco se mistura na canção/ Quero voz e quero o mesmo ar/ Quero mesmo incomodar”.

As mulheres estão no poder em quatro faixas. No par “Banho” (Tulipa Ruiz)/ “Eu Quero Comer Você” (Alice Coutinho e Romulo Fróes), elas são donas de seus corpos, desejos e prazeres.

Em “Dentro de Cada Um” (Pedro Loureiro e Luciano Mello), extraem força das absurdas violências de todos os dias, mas não veem o gênero masculino como um inimigo a ser derrotado. “A mulher vai sair/ E vai sair/ De dentro de quem for/ A mulher é você”.

Almeja-se a vitória absoluta na faixa final, “Deus Há de Ser” (Pedro Luis). É dela o verso-título do CD e outro afim: “Deus é mãe” —o que, convenhamos, faz todo o sentido.

Elza está cantando como nunca porque o repertório é perfeito para a sua voz, para o que viu em mais de 80 anos, para o que viveu, para o que quer dizer e sabe dizer.

Seus discos com a turma paulista são fundamentais não só para a música brasileira mas para a vida do país.

DEUS É MULHER

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O AFROFUTURISMO É POP – Os filmes “Pantera Negra” e o álbum-visual “Dirty Computer” de Janelle Monáe agem como um terremoto cultural que afrofuturiza os rumos da Cultura Pop

por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro || Abril de 2018

A Cultura Pop anda recebendo em suas veias várias injeções de altas doses de afrofuturismo. O arrasa-quarteirão Pantera Negra (um filme de Ryan Coogler) já se tornou uma das 3 maiores bilheterias da história do cinema. Somado a isso, pousou entre nós em 2018 o Dirty Computer de Janelle Monáe, um dos projetos musicais mais ambiciosos e impactantes dos últimos anos. Estas duas obras emblemáticas sinalizam que a cultura mainstream nos EUA deu uma forte guinada afro-futurista.

Em uma excelente resgate histórico do afrofuturismo através da história da cultura popular estadunidense, a Vox lembrou os casos emblemáticos do jazzeiro Sun Ra e da banda funky Parliament / Funkadelic (de George Clinton), essenciais na constituição do estilo cultural que busca dar resposta à questão: “What does the future look like for black people?” Se o afrofuturismo pôde ganhar novo impulso através do Movimento Hip Hop, através de figuras como Outkast e Deltron 3030, nos últimos anos talvez não exista artista mais representativa dele do que Janelle Monáe.

Como provou o fenômeno Black Panther, arrasador nos cinemas pelo mundo afora, o afrofuturismo é pop – ainda que possa ser interpretado por pensadores cult como Slavoj Zizek, o ás da intelectualidade que se utiliza de uma vasta caixa de ferramentas que tem Lacan, Hegel, Marx e outros…

Vale lembrar também que, na literatura, ainda que os EUA já possua em Toni Morrison (vencedora do Nobel) e Alice Walker (premiada com o Pulitzer) duas “escritoras afro” das mais reconhecidas e cultuadas, o afrofuturismo não é representado por elas, mas sim por Octavia Butler (1947 – 2006), “a granda dama da ficção científica”, autora de Kindred – Laços de Sangre. As tensões raciais que existirão no futuro, além da luta resiliente por justiça social, fazem do afrofuturismo uma das vertentes da ficção científica que mais cresce mundo afora.

E o afro-futurismo, se já vinha rendendo intensos debates, agora o caldeirão tendem a se acirrar com a chegada de Dirty Computer (2018), projeto que já traz no nome uma certa evocação do OK Computer do Radiohead, outro marco histórico para a renovação estética e temática da produção musical no Ocidente contemporâneo. 

Janelle Monáe, após dois álbuns icônicos (ArchAndroid e Electric Lady), onde interpretava a persona de uma Andróide (à la Blade Runner) e punha em cena sua robô humanóide que era um tanto outcast no mundo do futuro, desta vez assume outra persona: a de um ser humano que sofrerá lavagem cerebral hi-tech em um mundo de dominação totalitária, onde memórias podem ser apagadas por métodos que unem a informática, as neurociências e a guerra química.

Em trabalhos anteriores, Janelle Monáe já havia manifestado suas estratosféricas ambições artísticas em álbuns conceituais como o premiadíssimo ArchAndroid (cuja capa evoca o clássico Metrópolis de Fritz Lang) e em video-clipes como “Q.U.E.E.N.”, na companhia de Erykah Badu.

Badu e Monáe, neste impressionante videoclipe, agem como artistas rebeldes e freaks de um futuro robotizado, ultra-cibernético, onde o domínio totalitário é contestado pela arte-resistente dessas afro-divas, herdeiras de Nina Simone, munidas das armas do rap, do funk, do r&b, do intenso rebolado:

Exuberante em sua expressão enquanto cantora, dançarina, performer e provocadora, Janelle Monáe gosta de alfinetar a hegemonia do White Power Yankee com decibéis em excesso e muito pansexualismo. Em Dirty Computer, ela explora com ousadia a senda da confluência de mídias: além de ser um álbum musical que pode ser meramente escutado (o que não é o mais recomendado), o Computador Sujo é sobretudo uma obra fílmica, uma Emotion Picture. 

Aliás, o sobrenome Emotion Picture que Monáe deu para o filme foi uma esperta brincadeira em que adicionou um E ao tradicional motion picture, operando uma torção de sentido que o transforma em “pintura emocional”. Não há dúvida de, no ano de 2018, este filme musical seja uma das obras absolutamente cruciais para a compreensão do zeitgeist afrofuturista que atualmente invade o pop norte-americano:

Se, em outras épocas, vivemos um certo boom da ópera-rock, com obras emblemáticas como o Ziggy Stardust de David Bowie, o The Wall do Pink Floyd (adaptado para o cinema por Alan Parker) e o Tommy do The Who, nestas primeiras duas décadas do século XXI d.C. emergiu este híbrido musical-fílmico de que Janelle Monáe é hoje uma das mais expressivas representantes. Trata-se de uma tendência em alta, que teve como precursores os experimentos da Björk, em projetos como Biophiliae do TV On The Radio com seu álbum-filme Nine Types Of Light. No Brasil, quem já trilhou esses caminhos com maestria foi a Luiza Lian, com seu álbum-visual Oyá Tempo.


Dirty Computer é um média-metragem que reúne todas as canções em um mesmo pacote, com um fio narrativo que dialoga com temas cruciais do sci-fi através de sua história, evocando obras como Laranja Mecânica (romance de Antony Burgess, filmado por Kubrick) e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (escrito para o cinema por Charlie Kaufman e dirigido por Michel Gondry).

Na excelente resenha publicada pela Rolling Stone, eles nos lembram que, no caso deste último filme, o personagem de Jim Carey contrata uma empresa, a Lacuna Corporation, para apagar todas as lembranças que ele possui de sua ex-namorada Clementine (vivida por Kate Winslet), enquanto no filme de Janelle Monáe o sujeito do deletamento não escolheu estar ali, mas foi capturado por um mecanismo ditatorial.

Encarnando a protagonista do filme, Monáe está aprisionada em um cárcere futurista e é vítima de procedimento de deletamento de memórias que lhe é imposto pelos branquelos que a capturaram e que trazem à mente também a elite gestora de Gilead, a distopia do romance de Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), que tornou-se também uma das mais importantes séries na história recente da teledramaturgia.

A semelhança com The Handmaid’s Tale – que salta aos olhos em “I Like That”, por exemplo – está na presença de um poder autoritário de postura puritana, intolerante. O poder repressor que age em Dirty Computer apaga lembranças pois compara o cérebro da vítima com um computador sujo, cheio de vírus e malware, que precisa ser formatado, tudo em um linguajar justificatório que tem certo teor religioso (é preciso trazer o sujeito “da escuridão à luz”).

Ademais, Dirty Computer está repleto de cenas quentes entre Janelle Monáe e Tessa Thompson, deixando sugerido que o erotismo lésbico é aquilo que o sistema vê como sujo, exterminável. Distopia da homofobia tecnizada.

Com a maré alta do afrofuturismo, na crista da onda do hype, é também oportuno relembrar as obras-primas do passado. É o caso do brilhante Deltron 3030, que marcou para sempre a história do movimento Hip Hop com uma obra conceitual e sci-fi.

Orquestrado e visionário, o complô afrofuturista do Deltron rompeu todas as barreiras: até mesmo o Festival de Jazz de Montréal escalou-os como uma das atrações principais do antológico evento anual no Québec onde usualmente reinam os mestres do blues e do jazz. O Deltron  pôs o rap para refletir sobre o quarto milênio, abrindo caminho para outros artistas significativos que exploraram esta senda, sendo que outro álbum emblemático é o Take Me To Your Leader, do King Geedorah.

O que há de extraordinário em Janelle Monáe, que a torna uma das artistas mais relevantes hoje em atividade? Um dos elementos é o amplo escopo de suas colaborações, em que reúne a velha guarda (“Dirty Computer”, faixa-título do álbum, tem vocais de Brian Wilson dos Beach Boys) à novíssima geração (caso de Grimes, parceira em “Pynk”, e Pharrell Williams, que soma forças a Janelle em “I Got the Juice”).

Além disso, assim como Lauryn Hill, Monáe é uma cantora capaz de rappear com contundência (como em “Django Jane”, uma subversão do Tarantinismo) e soltar a voz feito uma Tina Turner, indo do “falado” ao ultra-cantado com perfeita fluência.

Ela invoca todos os poderes dos beats eletrônicos dançantes, trabalha com DJs que sabem perfeitamente como se fabrica um hit pop, mas ela trafica subversão por debaixo da superfície colorida de suas canções – a ponto de exibir, ao fim do clipe de “Crazy Classic Life” um baile sendo invadido pela polícia e sua Tropa de Choque, com todo mundo sofrendo um baita baculejo.

O poderio de Janelle Monáe é tal que ela parece ser o tipo de pop star que será capaz de sobreviver ao próprio sucesso – ao contrário de Amy Winehouse, que nele naufragou, entrando para o Clube dos 27. Pois tudo indica que Monáe se encaminha para se tornar o equivalente atual do que foram, em outras épocas, figuras como Michael Jackson e Prince. E talvez por ser dotada de auto-ironia, de capacidade não se levar muito a sério, ela pela parece ter estrutura psíquica e amor pela vida suficientes para encarar as barras-pesadas vinculadas ao popstardom.

 Sem medo de dominar tudo na mídia de massas, ela vem deixando outras artistas norte-americanas de muita expressão nos últimos anos, como Cat Power, Saint Vincent e Feist, parecendo artistas independentes de pequena repercussão. Janelle Monáe alça-se vôo rumo ao topo do ringue de competições pelo título de Rainha Negra do Pop, onde digladiará com Beyoncé num afro-confronto em que a indústria da música vai colhendo seus bilhõe$!

Só que não seria justo reduzir artistas deste quilate ao status de marionetes de um sistema cultural caça-níqueis. Sobretudo pois Monaé e Beyoncé estão engajadas no tema da representatividade da mulher negra e vem agindo no sentido de protestar contra o silenciamento que certas forças sociais desejam continuar impondo às expressões culturais afroamericanas.

As duas artistas (e seus poderosos “times” de produção audiovisual) são mestras na utilização do videoclipe como arma para influenciar a consciência das massas, e algumas das obras-primas do gênero foram paridas por elas: caso da primorosa provocação de Beyoncé sobre a New Orleans após o Furacão Katrina em “Formation” (com mais de 100 milhões de views) e a irresistível e infectious “Tightrope” de Monaé (com mais de 23 milhões de views), que merecem um lugar de honra na história da dança e da expressão corporal:

vibe sci-fi já é tradição na obra de Monáe: em “Tightrope”, tudo ocorre em um local chamado The Palace of The Dogs, uma espécie de manicômio. O letreiro inicial nos conta que a dança foi proibida devido a seus “efeitos subversivos” e por sua “tendência a conduzir a práticas de magia ilegais”. Zanzam pelo clipe, enquanto o pessoal dança com tudo, duas sinistras figuras que tem espelhos no lugar da face e parecem Guardiões da Lei e da Ordem. Os dançarinos arrasam, homenageando todos os mestres do breakdance e da arte do bonetics (dança acrobática em que o esqueleto realiza movimentos inacreditáveis).  

Em entrevista no Espaço YouTube, Janelle Monáe disse que inspirou-se, no processo de composição de Dirty Computer, não só na sina das black women, mas nas vidas de pessoas LGBT, de refugiados, de disabled, em suma: mergulhou nas realidade de minorias que não costumam ser tão bem-representadas em um regime midiático ainda patriarcal e racialmente supremacista. Ela se utiliza do conceito, muito produtivo, de erasure (do verbo to erase, apagar ou deletar), para falar do continuado processo de apagamento / silenciamento imposto às minorias que ela visa representar em obras de aclamação majoritária. 

Não sei qual a opinião de Angela Davis sobre Janelle Monáe, mas minha impressão é a de que podemos ler a chegada de Dirty Computer como um momento raro em que o feminismo negro, vestindo-se com a exuberância do sci-fi afrofuturista, chega para demolir a opressão machista e racista com uma obra de peso. Dinamite pop, Dirty Computer quer praticar o bom e velho lema: to speak truth to power.  Janelle Monáe é tão linda, tão expressiva, tão talentosa, tão capaz de despertar nossa admiração por seus dons como cantora, dançarina, performer e comentadora política, que torna qualquer discurso machista ou racista algo ridículo e descerebrado.

Uma das razões pelas quais uma das principais revistas de música dos EUA, a Rolling Stone, celebrou Dirty Computer como uma obra-prima na história do electropop e do sci-fi é a capacidade de Janelle Monáe para colocar em discussão temas graves através de sua música repleta de infectious grooves. O álbum já começa citando a célebre tríade de valores da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, em que se institui como “direitos inalienáveis” o “LifeLiberty and the Pursuit of Happiness“. Trindade que define uma Constituição emblemática do liberalismo burguês.

Janelle gosta de clipes repletos de pursuit of happiness, compreendido como hedonismo corporal e relacional que quebra todas as regras: ela gosta de se referir a si mesma como “a free-ass motherfucker” e adora cantar versos do tipo “I just wanna break the rules” (como faz em “Crazy Classic Life”). Mas esta doutrina hedonista, somada à sua apologia do pansexualismo, choca-se com antagonismos sociais, a começar pelo puritanismo enraizado em doutrinas religiosas ascéticas (à la The Handmaid’s Tale), passando pelo reinado da ideologia conhecida como heterossexualidade compulsória, em que se baseiam todos os tipos de homofobia, para finalmente desaguar no velho e nefasto racismo, ainda não extinto mesmo tanto tempo após a Guerra Civil e a Abolição da Escravatura… Os EUA – Ferguson que o diga! – não cessa de inventar novos Jim Crows.

Sinto que a mensagem pró-hedonista pan-sexualista que Monáe dissemina merece ser problematizada, em especial em seus vínculos com um certo neoliberalismo anarcocapitalista que deseja derrubar todos os impedimentos morais ao reinados dos lucros vinculados aos Mercados do Prazer (o mundo do entretenimento e das festas/baladas, além da economia do turismo, sendo aí quintessenciais).

Mas sinto também que Monáe não é simplista no seu trato com o tema: se fica claro que ela preconiza hedonismo, parece-me também que seu culto do prazer tem a ver muito mais com uma expressividade e uma criatividade que não se compram, não se podem consumir, só se podem vivenciar de maneira dionisíaca, na fusão com o grupo, na dança em conjunto, no canto in concert. 

Se os inimigos estão claramente delineados – o puritanismo repressor, a homofobia fanática, a intolerância ao outro, a tecnologia usada para a lavagem cerebral… -, os “amigos” parecem ser muito mais diversificados, o que me parece conectável com a noção de que nossa salvação está na celebração da diversidade. Donde a positiva figura do freak e a apologia do queer, o que faz de Janelle Monáe este terremoto cultural que vai varrendo todas as oposições binárias da sexualidade, todas as dicotomias bestas da afetividade, em um processo que, aqui no Brasil, também vem sendo realizado por figuras como Liniker, As Bahias e a Cozinha Mineira e Rico Dalasam.

Uma canção de Monaé como “Screwed”, neste contexto, é de um brilhantismo fora de série. Sabe-se bem que to screw é um verbo intimamente relacionado com atos sexuais, uma espécie de sinônimo do to fuck. Porém, ambos os termos – screw fuck – são altamente polissêmicos, e para além do sentido sexual podem ser utilizados para se referir a um estado de “estar fodido na vida”, como nas expressões “she’s all fucked-up” ou “his life’s screwed”. Bandas de punk-rock costumam lidar com estes termos – é só mencionar que um dos grupos punk mais ativos no Canadá do século 21 chama-se Fucked Up  (de Toronto) e os Ramones também tem uma canção, do Brain Drain, chamada “All Screwed Up”.

You fucked the world up now,
we’ll fuck it all back down
Let’s get screwed!
I don’t care!
We’ll put water in your guns,
We’ll do it all for fun,
Let’s get screwed!

O que Janelle Monáe fez foi enfatizar a polissemia do screwed, conectando-a com os destinos que lhe importa enfatizar, como se quisesse criar musicalmente a empatia manifestada em movimentos como o Black Lives MatterEm uma canção que evoca bombas caindo, sirenes tocando, guerras acontecendo, os que estão festejando (party hard) nestes dias apocalípticos cantam refrões como “Let’s get screwed!” A ambiguidade é sexy: não se sabe se a vontade dos personagens é transar, ou se eles estão de fato saindo pra rua feito Black Blocs para espalhar subversão e serem “fodidos” pelas Tropas da Ordem, pelos Deletadores de Memória, pelos Guardiões do Estado Totalitário…

 A música pode até parecer, à primeira ouvida, como apenas um pulsante electro-pop, com belos riffs de guitarra, que dialoga inclusive com a sonoridade Madchester dos Stone Roses e Happy Mondays. Mas em termos líricos, a poetisa está embaralhando todas as cartas simplistas, fazendo uma espécie de porn-rock onde explicita os jogos entre sexo e poder. É Janelle Monáe unindo Eros e Tânatos. Na mesma estrofe do rap que finaliza “Screwed”, ela junta a demanda por salários igualitários (“equal pays”), a denúncia dos fakes (pseudo notícias, pseudo peitos, pseudo comida…), arrematando com a provocação de que estamos ainda presos na Matrix e engolindo as pílulas azuis”:

Hundred men telling me to cover up my areolas
While they blocking equal pay, sippin’ on they Coca Colas 
Fake news, fake boobs, fake food — what’s real?
Still in The Matrix eatin’ on the blue pills

São indícios de que, no contexto cultural sacudido pela guinada afrofuturista do Pantera Negra da Marvel, este espantoso fenômeno cinematográfico global, Janelle Monáe chegou com tudo para marcar época em 2018: este será o ano do afrofuturismo, em que ressurgem do fundo dos tempos, soprando seu sexies saxofones o Sun Ra e o Fela Kuti, em que a funkidade se re-politiza e o Black Power dissemina-se com força nas asas do som e da imagem. Love, Power, Unity! Se Janelle Monaé é um computador sujo, resta torcer para que contra ela fracassem todos os anti-vírus e que ela possa continuar nos infectando com seus libertários infectious groovesAfro-futurize-se mergulhando nas entranhas vivas deste Computador Sujo!

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LIDANDO EMOCIONALMENTE COM SUAS TRAGÉDIAS, BANDA GRUNGE STONE TEMPLE PILOTS RETORNA COM NOVO ÁLBUM EM 2018

Como a mítica Fênix, que não cessa de renascer das cinzas, o Stone Temple Pilots renasce após duas mortes: a de Scott Weiland (vocalista dos 6 primeiros álbuns) e a de Chester Charles Bennington (do Linkin Park, que gravou apenas 1 EP como cantor do STP, em 2013, tendo se suicidado em 2017).

Quem assume os vocais neste retorno da banda em 2018 é Jeff Gutt, que vem sendo chamado por alguns críticos de “um Scott Weiland bem-comportado”: “He nails how the late singer could slide from a snarl to a sigh, conjuring a bit of a snaky sexuality while still seeming a bit safe”, escreveu Stephen Thomas Erlewine em sua crítica para a AllMusic.

As 12 músicas novas demonstram uma banda ainda vigorosa e re-colocam o Stone Temple Pilots no epicentro do rock mainstream global para disputar as atenções com as mega-bandas Foo Fighters, em que Dave Grohl decolou após o naufrágio do Nirvana, e o Pearl Jam, já uma instituição consagrada da música global e que em breve completa 30 verões, merecendo um lugar de honra na História do Rock na companhia de um Neil Young & Crazy Horse ou de um Grateful Dead.

Já o STP, que sempre soou mais despretensio e grandiloquente que o Pearl Jam, retorna para mostrar que um dos caminhos mais interessantes para a evolução do estilo grunge estava na tentativa de mesclá-lo com a new wave, o punk rock 77, o glam à la T.Rex. O poderio guitarrístico da banda sempre foi impressionante, desde os estupendos álbuns iniciais “Core” e “Purple”, e em 2018 eles não demonstram nenhum desejo de se aquietar. Os amps continuam no talo, o batera continua batendo forte, os riffs continuam te enganchando pelo queixo e batendo contigo nas paredes até tirar sangue.


O STP é uma daquelas raras bandas que pode soar alegremente subversiva como atos punk seminais como Johnny Thunders and the heartbreakers ouRichard Hell & The Voidoids, e na próxima faixa já se transmutar num denso e desesperador propagador de um estilo de rock grave e angustiante, à maneira das bandas históricas do movimento como Screaming TreesSoundgarden eAlice in Chains. Ainda que o melhor álbum lançado ultimamente na estética grunge não tenha sido feito por uma banda que assim se rotule, ou que a este cenário cultural se vincule: me refiro ao “Wilderness Heart”, do Black Mountain, que fez neste álbum uma obra-prima do gênero, com canções magníficas como “Rollercoaster” e “The Hair Song”.

Com muito gosto ouvi este comeback do STP, um disco tão agradável de ouvir, tão lindamente executado, tão “radiofônico” (até mesmo no sentido BonJoviano do termo), que quase nos convida a abandonar qualquer pose de crítico musical e simplesmente recomendar aos amigos: “ouve lá, é um discaço da porra!” A música fala bem em sua própria defesa e até nos desarma da iniciativa inglória de perguntar pelos interesses econômicos que possam estar envolvidos nesta empreitada, certamente acusável pelos cricos de ser “caça-níqueis”.

A indústria da música é de fato uma mina de ouro e não está fora de cogitação que o STP se enxergue como uma empresa, e das mais lucrativas, mas isto não significa que estes caras não tenham algo a dizer artisticamente. Seria bem injusto, aliás, taxar de “comercial” uma banda que nunca abriu as pernas para o Sistemão do Rock Mainstream como fizeram os Creeds e Nickelbacks. O Stone Temple Pilots seguiu com seus fios elétricos plugados nas tomadas do Grunge noventista, soando como banda independente que teve acesso aos estúdios de gravação do Big Business – e soube se aproveitar disso.

Se o cérebro coloca estas questões, questionando se há vontade de grana alta por trás da nova encarnação do STP, os tímpanos e o coração simplesmente embarcam no rollercoaster deste álbum pulsante e cheios de belos thrills. Fazia tempo que um álbum de estilo grungy chegava com tamanho estrondo – que o Queens of the Stone Age    se cuide, pois tem rival forte de volta na cena.

Saudamos a chegada deste álbum como uma bela anfetamina musical para nossos tempos em que o Grunge segue tendo muitas razões para existir. Pois temos direito à divergência e a dissonância. E queremos nossa fúria tomando de assalto as ondas do rádio!

A alucinógena borboleta que estampa a capa do disco, e que parece a obra de algum artista das HQs que tomou um peiote, indica de modo simbólico o poder desta banda: dentro da borboleta, há uma teia de aranha… A aparência mais englobante, da bela butterfly, é atraente e sedutora, mas na essência mais interna esconde-se o perigo, o aracnídeo.

Entre as asas desta borboleta, parece caber todo o caos e maravilha do mundo – e o som que fazem estas asas ao voar indica que, por mais agradável que seja esta rock-sinfonia, propulsionada pelos músicos como um foguete, pulsa aqui também algo de perigoso. Algo que morde, que devora, como um aranha faz com o inseto que cai em sua teia.

As reações iniciais da imprensa musical parece ser muito positiva, com reviews que destacam o quanto o álbum traz “a banda lidando emocionalmente com suas tragédias”:

It is the band’s first album with third singer Jeff Gutt, and their first full length album since their last self-titled album in 2010 with Scott Weiland. The album comes after STP’s tragic last few years which saw the deaths of Scott Weiland and Chester Bennington.Losing two singers in such a short period is really one of the biggest tragedies in rock history, to see STP come back with a new album with some really triumphant sounding songs is powerful especially on the first few listens. Scott and Chester’s spirits are definitely felt throughout the album.” – Alternative Nation

Chester e Scott, dois mortos precoces do rock contemporâneo, somados à ausência monumental de Chris Cornell, também recentemente suicidado, mostram que a Era Trump, nos EUA, está sendo também a de uma maré cultural de redescoberta do grunge, em tudo aquilo que ele tem de problemático e obscuro. A Geração X ainda está entre nós, assim como o Fantasma de Kurt Cobain, assombrando com poesia atormentada a propaganda do cartão postal chamado American Dream, aquele em que só acreditam os que estão dormindo.

O grunge parece passar pela história da cultura humana como uma espécie de híbrido entre tragédia e resiliência. Um movimento cultural que sobrevive a todas as suas tragédias, que se reinventa na mudança: Mark Lanegan cantando com o QOTSA, Josh Homme e Dave Grohl (dos Foo Fighters) flertando com o que restou do Led Zeppelin (Them Crooked Vultures), Alice In Chains seguindo em frente com novo vocal após a morte de Layne Stanley… Para não falar da farta colheita que foram as passagens de Cornell e Weiland pelo mundo, já que eles também povoaram nosso horizonte artístico com as criações de Audioslave, Velvet Revolver, além dos respectivos álbuns-solo…
Enquanto seus heróis vão caindo mortos, o grunge segue em frente como pode, aos trancos e barrancos. E no epicentro deste drama, segue queimando supremo o inesgotável Nirvana. Cobain não precisou de mais que 27 anos de idade para causar um terremoto cultural que não dá sinais de que irá simplesmente desaparecer, e em pleno 2018 aquele som que smells like teen spirit está por aí… pulsando, pulsando no coração do Império! O retorno, em tão boa forma, do Stone Temple Pilots nos mostra isso: o ímpeto nirvânico está sendo re-acendido. A Fênix grunge alça vôo outra vez. E ela vem enraizada no passado, atenta ao novo e disposta a ser ouvida em toda sua dissonância e dissidência.

 

Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro

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OUÇA O ÁLBUM COMPLETO:

 

 

O FILME QUE CONTA COMO FOI O EXÍLIO DE CAETANO E GIL DURANTE A DITADURA: “Canções do Exílio: A Labareda que Lambeu Tudo” (2011) – Um documentário de Geneton Moraes Neto

Canções do Exílio: A Labareda que Lambeu Tudo

Canções do Exílio: A Labareda que Lambeu Tudo (2011),
Diretor: Geneton Moraes Neto, Duração: 1h 31min
DOWNLOAD TORRENT (1.3 gb)

 

Documentário de Geneton Moraes Neto conta a saga de Caetano e Gil no exílio forçado pela ditadura militar – Por João Máximo em O Globo (07/02/2011)

Duas semanas depois da decretação do AI-5 e dois dias depois do Natal de 1968, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos por oficiais do Exército. Como jamais souberam o motivo, admite-se que possa ter sido pela participação em passeatas, ou em movimentos estudantis, ou por suas nada convencionais performances em festivais, ou ainda por suas atitudes de rebeldes tropicalistas, que tanto incomodavam civis e militares. Os dois passaram por celas de vários quartéis do Rio, depois ficaram em prisão domiciliar em Salvador, e só em julho de 69, com uma advertência de três estrelas – “Só voltem quando forem autorizados” -, partiram para um exílio forçado que se estenderia por dois anos e meio, até janeiro de 1972.

Mautner e Macalé participam

Os detalhes dessa história, contados pelos dois personagens, já seriam motivo para Geneton Moraes Neto realizar “As canções do exílio – Uma labareda que lambeu tudo”, documentário em três partes de 50 minutos cada, que o Canal Brasil exibiu. Mas há pelo menos mais um motivo: Geneton inspirou-se na foto em que, aos 15 anos, aparece entrevistando Caetano para o “Diário de Pernambuco”, e a partir dela se entregou ao que considera uma guinada profissional. Tendo começado a vida como jornalista e caído na TV quase por acaso, esses anos todos ele deixou de lado o que realmente queria fazer: cinema documental.

– Este é o meu rompimento amigável com o jornalismo e a retomada da carreira de cineasta interrompida pela TV – diz Geneton, antecipando que os 150 minutos da série serão reduzidos a 120 para os cinemas.

Na produção, e também na edição do filme, ele contou com a parceria de Jorge Mansur, cujos modernos recursos tecnológicos viabilizaram uma empreitada que, na era pré-digital, seria financeiramente inviável.

Caetano e Gil – mais Jorge Mautner e Jards Macalé, que, por diversos caminhos, foram se encontrar com os amigos no exílio – contam a história cronologicamente. A detenção, o ano-novo passado atrás das grades, os tempos de prisão domiciliar, a proibição de fazer shows e gravar discos, a vinda ao Rio de um chefe de polícia de Salvador para mostrar aos superiores o absurdo da situação. Graças a isso, foi dada autorização (ou ordem) para que saíssem do país. A fim de que os dois conseguissem dinheiro para a viagem, os militares permitiram que fizessem dois shows em Salvador.

Permissões como esta, em tom de favor, fazem da história um retrato do Brasil da época, mistura surrealista de brutalidade com cordialidade. Um episódio narrado por Gil é exemplar: os mesmos homens que o prendiam sem motivo arranjaram-lhe um violão e ainda pediram que fizesse um show para os soldados do quartel. Outro oficial, generosamente, ajudou-o em sua dieta vegetariana.

– Se eu fosse antropólogo ou sociólogo, poderia escrever, partindo deste documentário, um tratado sobre a alma brasileira – diz Geneton.

Pelos depoimentos, constata-se que o exílio foi menos doloroso para os outros do que para Caetano. Gil, por exemplo, admite ter “caído na gandaia”, frequentando a noite londrina sem pensar tanto no que ficara para trás. Já para Caetano, a palavra depressão pontua algumas das passagens de sua narrativa. Mas, no homem que lembra, e não no que viveu, há lugar para humor, como suas discussões com Glauber Rocha. E palavras afetuosas, como as que dedica a Violeta Arraes (“Ainda a adoro, vou adorá-la sempre”), a mulher que abria o coração aos exilados que a procuravam em Paris.

Deprimido, Caetano chegou ao Rio para o que esperava ser um reencontro feliz: autorizaram-no a participar da festa dos 40 anos de casamento de seus pais. Logo ao desembarcar, foi preso e levado para um depoimento de seis horas, cujo objetivo era tão somente pressioná-lo a fazer uma canção enaltecendo a Transamazônica. Negativo. Só concordou com duas apresentações na TV, quando, em vez de cantar algo a alegre, pop, como supunham ele ter trazido de Londres, reviveu a triste “Adeus, batucada”.

Callado, futebol e Chico

Gil guarda detalhes de sua prisão e, mais ainda, do exílio: o apoio que o escritor Antônio Callado lhe deu no cárcere ao vê-lo de cabeça raspada; a criação de “Aquele abraço”; como “Can’t find my way home” virou sua canção de exílio; as palavras “Rivelino Revelation” pintadas nos muros de Chelsea no dia seguinte à vitória do Brasil sobre a Inglaterra em 1970 (torcer ou não pelo Brasil de Médici era a questão, resolvida pela paixão maior pelo futebol). Gil conta, ainda, como escreveu com Chico Buarque a proibida “Cálice” (ou “Cale-se”), já de volta a um país ainda sem liberdade.

Caetano fala do medo de morrer e da certeza de que matar, mesmo, os militares só queriam o Geraldo Vandré. E de como prefere não passar recibo da informação que os policiais lhe deram sobre quem eram seus “colaboradores”.

As histórias são muitas e se desenrolam depois de a atriz Lorena da Silva lembrar trechos de crônicas de Caetano para o “Pasquim” e de Paulo César Peréio dizer um texto de Geneton sobre seu projeto.

Jorge Mautner, que foi dos Estados Unidos para a Inglaterra ao encontro dos amigos, tem de tudo uma visão mais filosófica. E, mais que tudo, positiva. Acreditava e ainda acredita que o futuro está no Brasil. Dizendo-se “filho do Holocausto criado no candomblé”, não esquece o pai judeu para quem toda a cultura europeia acabou em campos de concentração. “Isso aqui é o Brasil”, bradava o velho Mautner.

Jards Macalé viajou a convite de Caetano para ajudá-lo no que seria o LP “Transa”. Vêm dele as únicas referências à relação do grupo com as drogas, já que, sabidamente, todos, menos Caetano, recorreram a elas nos tempos de exílio. Foi sob a ação de LSD que Macalé, em visita ao museu de Madame Tussaud, apaixonou-se por uma Branca de Neve de cera. Não fosse o guarda, teria matado o desejo ali mesmo: “Ainda hoje sinto saudades daquela Branca de Neve.” É dele o subtítulo de “Canções do exílio”. Ao retornar ao Rio, vindo do inverno britânico, sentiu uma forte calor entrar pela porta do avião adentro, como “uma labareda que lambeu tudo”.

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EM INGLÊS:

MATÉRIA DO JORNAL THE GUARDIAN



P.S. – Como já dizia o sábio Spinoza: “Que coisa pior pode imaginar-se para um Estado que serem mandados para o exílio como indesejáveis homens honestos, só porque pensam de maneira diferente e não sabem dissimular? Haverá algo mais pernicioso, repito, do que considerar inimigos e condenar à morte homens que não praticaram outro crime ou ação criticável senão pensar livremente?” Via NADLER, Steven. Um Livro Forjado No Inferno – O Tratado escandaloso de Espinosa e o nascimento da era secularTrês Estrelas, p. 258.

A MORTE QUE ERA SEMENTE – O Caso Marielle Franco (1979 – 2018) e a Recriação do Espaço Público na Era da Internet

Rio de Janeiro: comoção pública após o assassinato de Marielle Franco toma as ruas em 15 de Março de 2018

A MORTE QUE ERA SEMENTE…
por Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro || 19 de Março de 2018

Marielle Franco foi morta (não morreu de morte morrida, morreu de morte matada!), mas suas lutas e pautas nunca estiveram mais vivas do que nestes dias de Março de 2018. Pouco tempo depois do 8 de Março, o Dia Internacional da Mulher, um autêntico terremoto de indignação popular tomou redes e ruas.

Em especial no Rio e em Sampa, as manifestações chegaram a ganhar contornos de nova Primavera Feminista ou de uma re-encarnação das Jornadas de Junho, dado o caudal impressionante de participação em protestos públicos da galera que saiu à urbe, com os cartazes em riste e com o gogó berrando palavras-de-ordem, na cauda do cometa da comoção geral que se seguiu à execução de Marielle e Anderson.

Como escreveu Eliane Brum em seus comoventes artigos para El País (em espanhol e em português), o assassinato a converteu em totem, sua conversão em cadáver seguiu-se à sua transmutação em um corpo simbólico que não se pode assassinar, afinal suas lutas seguem vivas e, como têm expressado a Manu D’Ávila, na esteira do V De Vingança de Alan Moore, “nossas idéias são à prova de balas”:

Ao ser assassinada, Marielle revelou uma segunda realidade, esta ainda mais surpreendente: a de que os brasileiros, ora exibidos como polarizados e divididos, ora como passivos ou omissos, são capazes de se comover – e mover – por uma mulher nascida na favela, negra, lésbica e feminista.

Em nenhum momento se deve esquecer da força dessa ruptura simbólica. Com Marielle Franco há uma quebra de paradigma dos choráveis do Brasil. Como mulher negra e nascida na favela, Marielle Franco pertencia aos “matáveis” do Brasil, aqueles cujas mortes não causam espanto, normalizadas que são. O que seus assassinos não calcularam era que, com sua vida, ela já não era mais “matável”. O que ninguém poderia calcular é que Marielle havia se tornado também parte dos choráveis, aqueles por quem a maioria dos brasileiros faz luto e luta. Não é pouca coisa para um país como o Brasil. – ELIANE BRUM

Se a comoção pública com o assassinato de Marielle foi tão gigantesca, gerando uma maré de manifestações oceânicas e ampla repercussão midiática, talvez seja porque a vereadora é um emblema de um empoderamento múltiplo e interseccional que interessa às elites massacrar para calar.

Marielle reunia – “todas elas juntas num só ser”, para lembrar a canção de Lenine – o empoderamento negro, o feminino, o LGBT, o das classes despossuídas, o do socialismo. Empoderamentos concentrados numa mesma afro-mulher que florescia, a olhos vistos, ganhando cada vez mais espaços de poder e fazendo sua voz e seus argumentos serem ouvidos, não apenas dentro dos limites murados da política institucional, mas nas ruas, nas mídias, nas praças.

Escrita com o sangue de Marielle no asfalto do Rio de Janeiro está uma mensagem tétrica, que nos é mandada por aqueles que nos querem amedrontados e retraídos: com o sangue dela (e de Amarildo, e de Sabotinha, e de…), a nossa “Elite do Atraso”, conforme a expressão sagaz cunhada por Jessé Souza, vem tentando dizer-nos: “vocês, escória do mundo, favelados, bichas, sapatonas, pretos e pretas, índios, comunistas, anarquistas… esqueçam a vontade de ascensão, de reconhecimento, de participação! Quem mandará aqui seremos sempre nós, os senhores brancos, ricos, heteros, religiosos, gente de bem, cumprindo com o dever pátrio de reinar sobre os outros com pulso firme!”

Súmula do que seria desejável que acontecesse com o Brasil, como argumentou Alceu Castilho: uma enxurrada de novas Marielles invadindo o cenário político para reclamar, em alto e bom som, no espaço público, nossas batalhas anti-racistas, anti-machistas, anti-fascistas, anti-capitalistas, além de nosso direito (ainda por conquistar) a modos-de-vida e formas-de-amar destoantes da norma hegemônica imposta.

Marielle era também encarnação da ousadia dos que resistiram sempre, neste Brasil cujo Estado é tão frequentemente autoritário, aos desmandos de um terrorismo estatal que não cometeu poucos crimes e escalabros nos dois períodos ditatoriais prévios – o Varguista de 1937 a 1945 e a Ditadura Civil-Militar de 1964 a 1985. Marielle é do time daqueles que levantam a voz da soberania popular e dos direitos inalienáveis dos humilhados e ofendidos, demandando justiça e vida digna para todos, ao invés do apartheid defendido pelo Monstro-Leviatã de um Estado policial-carcerário, ainda todo contaminado com um racismo institucionalizado que nos foi legado pelo escravismo de outrora, tão mal enterrado entre nós.

Marielle era a salutar voz da interseccionalidade na práxis, a voz a um só tempo feminina-negra-lésbica-socialista-libertária, que ousava ter voz e vez em meio aos “hômi” e aos “dotô” – aqueles que nos queriam mudos, passivos, mortos-vivos comendo a pipoca da ideologia oficial nos cinemas comerciais e redes de TV, pastando na idiotia dos apolíticos que se enterram na vida privada, às vezes nem suspeitando o quanto são cúmplices de algozes, colaboradores de golpistas, louvadores da tortura…

Marielle agora entra como símbolo, como evocação constante, como emblema ensanguentado, no xadrez das novas lutas identitárias – e com certeza marcará manifestações futuras como a Marcha da Maconha e a Marcha das Vadias. O momento é, portanto, mais do que propício para tentar refletir sobre as “lutas identitárias”, sua história, seu futuro, seus alvos e métodos. E é o que faz com tanta graça, e reflexão tão profunda, o Francisco Bosco (filho de João Bosco) em seu novo livro: A Vítima Tem Sempre Razão? Lutas identitárias e o novo espaço público brasileiro  (2017, Ed. Todavia).

Fotografia: Eduardo Valente

O livro começa falando que a Marcha das Vadias é realizada no Brasil pelas “bucetas ingovernáveis” desde 2011, mas nasceu bem longe dos trópicos, em Toronto, no Canadá. A Slut Walk torontonita nasceu em reação ao comentário de um policial: “diante de recorrentes casos de abuso sexual em Toronto, ele [o policial] recomendou às mulheres que, para evitá-los, evitassem se vestir como vadias. A pauta da marcha se tornou assim o direito à irrestrita circulação do próprio corpo no espaço público”, aponta  Bosco (p. 7-8).

Se o exemplo é invocado logo no comecinho do livro, é pra frisar com um caso concreto o quanto estamos vivenciando uma intensificação geral das pautas identitárias, que forçam suas demandas e denúncias no espaço público usando a sinergia redes-ruas. E é esta sinergia redes-ruas também o que faz da Mídia Ninja. da Nexo, da Pública, emblemas dos potenciais desta nova era comunicacional em que adentramos.

A partir de 2013, Bosco diagnostica no Brasil alguns “marcos de tensionamento social”: as “Jornadas de Junho de 2013”, “o colapso do lulismo com o impeachment da Dilma em 2016″ e uma “intensificação das lutas identitárias”, exemplificadas pelos movimentos negros, feministas, LGBTs etc. Tudo isso num contexto convulsionado pelo incremento considerável das “redes sociais digitais”, pelo uso massivo das ferramentas de comunicação como Facebook, Twitter, Instagram, Whastapp etc.

Estas lutas identitárias, que são batalhas de minorias por reconhecimento de seus direitos a formas alternativas de existência e de convívio, têm seu berço histórico enquanto movimentos sociais organizados e autoconscientes: segundo Bosco, elas nascem no “momento político do Maio de 1968”, pois “na História da esquerda – ou melhor, das esquerdas -, 1968 fez surgir outra vertente: a política das diferenças”:

“Ela emerge, como observa Fredric Jameson, em meio a uma crise da concepção clássica da classe social. (…) Já no período de 1968 se estabeleceu uma crítica ao trabalho alienado, de regime taylorista, hierarquizado, que era a base da perspectiva revolucionária marxista (o proletário como a classe totalmente despossuída, de onde partiria a insurreição).

Em oposição a essa forma de trabalho, deu-se uma valorização das atividades mais flexíveis e arriscadas, cujo sentido era a autorrealização, mesmo que isso implicasse perda de estabilidade e menor remuneração. No lugar da crítica clássica à exploração da força de trabalho, há uma crítica à inautencidade do trabalho tradicional, à sua incapacidade de responder às exigências individuais de autorrealização. É no contexto dessa crítica ao trabalho, considerado em sua dimensão impessoal, que emergem os pleitos por reconhecimento de formas de vida particulares: os movimentos identitários.” (BOSCO: p. 72-73)

“Abaixo as cadências infernais!”, gritavam os muros de Paris durante a insurreição proletária-estudantil de 1968. Mas também pediam: “deixem-nos gozar sem entraves!” e “é proibido proibir!” (depois transformada em estridente manifesto tropicalista por Caetano Veloso e sua trupe).

A luta anticapitalista de Maio de 1968 teve uma face econômica, através da greve geral do operariado e dos estudantes, que em concerto cruzaram os braços em número que alguns chegam a estimar em 1 milhão de pessoas, unida à face das lutas libertárias relacionadas ao comportamento, às relações afetivas, ao tempo de vida e seu sequestro pelas instituições capitalistas.

Parar as fábricas capitalistas não estava separado de um desejo de revolucionar os modos caducos de enquadrar os comportamentos nos velhos moldes patriarcais, racistas, elitistas. E essa dissidência não mais aceitava ficar em silêncio, em segundo plano: invadia o espaço público reclamando o incremento de sua potência, de seu direito à expressão e à participação política.

Na linguagem das barricadas e dos graffitis, das canções e dos filmes, quiseram que a vida não fosse cerceada em suas manifestações plurais e multi-diversas devido à censura e à repressão por parte de um Estado institucionalmente marcado por males de origem como o patriarcalismo machista e o racismo institucionalizado.

Naqueles tempos de 68, entre os revoltosos em Paris – herdeiros da Comuna instaurada em Março de 1871 – o Herbert Marcuse era um dos gurus dos insurgentes. Intérprete perspicaz de Freud e renovador das teorias da revolução de Marx, Marcuse propunha como imagem para a época a batalha épica “Eros Contra a Civilização” – emblema que não deixava de pegar uma certa carona no cometa de Nietzsche e da oposição que ele, em Ecce Homo, propôs como síntese de sua obra: Dioniso Contra o Crucificado.

A teoria crítica de Marcuse propunha a superação revolucionária da  Sociedade Industrial Unidimensional, culpada pela brutal exploração e espoliação dos frutos de nosso trabalho, além de denunciada pelo excesso de repressão e controle que exerce sobre os cidadãos através de seu Estado policial-penal e sua tecnocracia bélica. Elementos explodidos naquela época até as dimensões insuportáveis das guerras-de-agressão imperialistas (como a perpetrada pelos Yankees no Vietnã e no Camboja). Num mundo ainda em choque pelos cogumelos nucleares e já temendo um aprofundamento das hecatombes ecológicas e desequilíbrios sócio-ambientais.

Outro herói intelectual das lutas identitárias era (é e será) Michel Foucault. Antes de ser fulminado pela AIDS em 1984, o magistral intelectual francês foi um dos mais perspicazes reveladores dos mecanismos micropolíticos de poder que operam no cotidiano de prisões, manicômios, hospitais, quartéis, escolas, mosteiros, dentre outros espaços instituídos pela Sociedade Disciplinar. Esta, em sua sempiterna aliança com o ideal ascético e a mortificação da carne alçada à ética hegemônica, sob o capitalismo impõe com truculência seu  time is money, servindo como emblema do truste realizado pela união entre Capitalismo e Lutero para nos impedir de usufruir de qualquer tempo que não esteja sendo empregado por atividades feitas pela grana (símbolo da salvação)

O sujeito conformista acredita que é ser dever imolar sua vida, sacrificar sua autonomia, para oferecer-se como massinha-de-modelar nas mãos dos poderosos que impõe normais de viver e pertencer cujas estruturas patriarcais e machistas, racistas e segregacionistas, opressoras e dominadoras, são assim reproduzidas por rebanhos de conformados e conformadores (infelizmente dotados de porretes, palmatórias, prisões, tanques…).

As lutas identitárias emergem contestando as normas dominantes, a imposição de um jeito-de-viver único, o dogma de que a normalidade consiste na machidade, na branquitude, na heterossexualidade, na cisdade, na produtividade econômica, de modo que o pensamento reacionário, anti-moderno, agarrado a estruturas de poder elitistas (o machismo, o supremacismo racial, a heterossexualidades compulsória etc), reproduz as condições para que mulheres sejam reduzidas ao status de Segundo Sexo; negros sejam considerados como escravizáveis, torturáveis como se não fossem bois-de-carga; enquanto gays são xingados de doentes mentais e transsexuais humilhados (ou mesmo assassinados) como se fossem abomináveis aberrações.

Tal higienismo normopata tem muitas similaridades com a doutrina racista-higienista dos nazistas – o que significa que não faltam na sociedade de hoje elementos para uma re-edição tétrica da Solução Final posta em prática pelo III Reich alemão. O que José Ângelo Gaiarsa chamou de normopatia é a doença dos normais: os normais que desejam ver o nómos dominante imposto, de maneira totalitária, à sociedade inteira. É o que Laerte expressou com brilhantismo na síntese colorida que fez onde toda a multicor diversidade humana está sendo despejada sobre a fôrma estreita e confinante da Família Tradicional Brasileira.

Laerte

O livro de Bosco chega em muito boa hora, como precioso mapa para navegar pelo contexto sócio-político inédito gerado pela intensificação das lutas identitárias, no contexto de disseminação democratizada de mensagens propiciada pelas novas tecnologias digitais.

Vivemos agora em imersão cada vez mais ampla e acelerada nos mares informacionais hi-tech da rede mundial de computadores: A Internet, esta selva de bits da Aldeia Global, é a grande agente de uma “planetarização” da comunicação, nova na travessia da humanidade, como havia notado o visionário filósofo-da-comunicação canadense Marshall McLuhan.

“O homem cria a ferramenta. A ferramenta recria o homem.” – McLuhan

Pois a Galáxia de Gutemberg veio desaguar na World Wide Wide. Somos já os contemporâneos de um mundo interconectado, onde circulam os drones (de filmagens e de bombardeamento…) e as transmissões por satélite. O que ocorre hoje no Brasil pode repercutir imediatamente na China. O assassinato de Marielle Franco no Rio foi chorado, protestado, denunciado e lamentado no mesmo dia em outros centros globais, de Buenos Aires a Paris…

Neste mundo hiper-conectado, mas todo polvilhado de guerras e conflitos, as mega-empresas da informática e da comunicação digital se tornam gigantes, major players da economia global, como provam os valores de mercado de Google, Microsoft, Apple, Facebook (este, aliás, dono também do Instagram e do Whatsapp).

Neste novo contexto, posso publicar notícias falsas em um blog, que serão replicadas por 10.000 robôs programados para compartilhá-la nas timelines; posso receber e enviar nudes e vídeos XXX – até mesmo os que contêm pedofilia, zoofilia ou estupro – entre os continentes, de maneira instantânea (vide a alta frequentação de portais como RedTube e PornHub);  nos submundos do sistema circulam ainda toneladas de conteúdo cultural pirateado, de ebooks a discografias em MP3, de filmes em torrent a artigos científicos arrancados do monopólico acadêmico-editorial (vide SciHub); etc.

A Internet, em seu aspecto mais caótico e subversivo, fornece hoje um campo de atividades para a nova contracultura, favorecendo imensamente a livre circulação do conhecimento e de bens culturais, desviados de seu originários fins econômicos, que ficam boiando nas baías piratas das águas informacionais. Nunca na História Humana vivemos isto: tanto conhecimento precioso em circulação, à disposição, sendo transferido em altíssimas doses pelos mecanismos peer to peer. Cybercomunismo, como sabem bem os hackers, existe faz tempo – como ideal e como prática.

Estamos entrando numa fase da história humana, e que nada indica ser reversível ou stopável, em que um novo elemento geopolítico entrou em cena: aquilo que Francisco Bosco chama de “ágora das timelines” (p. 17), que vem constituindo um “novo espaço público”, onde as lutas identitárias têm alto protagonismo. Neste novo lócus para o debate público, onde ocorrem tantas polêmicas entre diferentes perspectivas sociais, o que não falta é conflito e agressividade. É a guerra de todos contra todos, atualizada de sua velha versão Hobbesiana para o atual arranca-toco das UFCs on-line.

As lutas identitárias são, neste vale-tudo, frequentemente alvejadas por xingamentos e tiros vindos da Direita, no espectro político: há quem deslegitime as denúncias feitas pelas mulheres de casos de estupro e assédio sexual, chamando isso de “mero mimimi de feminista”, sendo que esse tipo de argumento costuma vir acompanhado pelo desejo de extinção de leis de proteção da mulher contra violência doméstica (caso da Lei Maria da Penha) e militância para que casais homoafetivos nunca possam ser reconhecidos como casal em união civil.

Identificadas como “pautas de esquerda”, as ditas “pautas identitárias”, em larga medida, praticam demandas de justiça e igualitarismo nos moldes da ética republicana iluminista e da Declaração dos Direitos Humanos de 1948, somando a isso a afirmação de um novo direito, o “direito à diferença” (que não entra em conflito com o “direito à igualdade”): como disse Joan Scott, “não se deve nem abandonar o direito à diferença, nem o direito à igualdade” (apud Bosco, p. 85).

Quando falamos em “direito à diferença”, queremos dizer também o direito ao amor dissidente, ao casal fora das normais que impõe uma heterossexualidade compulsório e uma divisão de gênero binária. “O direito à união civil entre homossexuais poderia ter seu princípio estendido a pessoas trans, a alianças diferentes do tradicional par (não há razão para o Estado impor essa lógica do dois) e assim se chegaria ao direito a qualquer tipo de união consensual”, argumenta Bosco (p. 86).

O Brasil, infelizmente, é líder global em assassinatos de ativistas dos Direitos Humanos e também em homicídios motivados por homofobia e transfobia. O caso Marielle Franco também é ilustrativo aqui: fazendo suas as bandeiras do movimento LGBT, ela atraía a fúria dos homofóbicos; fazendo suas as bandeiras do movimento anti-racista, fazia recrudescer os ímpetos de segregação e discriminação dos racistas; fazendo suas as bandeiras feministas, era alvo para o desprezo e a truculência do machismo ainda hegemônico; etc.

O livro de Bosco é precioso pois mostra o valor e a necessidade destas lutas identitárias, mas também pratica uma salutar crítica das “premissas problemáticas” e “métodos de luta que devem ser recusados” (p. 91). Bosco estuda casos emblemáticos e embrenha-se na problematização das reações da Internet e das ruas a episódios como:

  • Blocos carnavalescos no Rio de Janeiro que, no Carnaval de 2017, decidiram não tocar certas “marchinhas clássicas do cancioneiro brasileiro sob a alegação de que suas letras contêm trechos preconceituosos contra diversas minorias” (p. 93)
  • A polêmica envolvendo o video-clipe “Você Não Presta”, de Mallu Magalhães, acusado de racismo e objetificação do corpo negro (p. 129);
  • O caso da cantora Marcia Castro, acusada por suas fãs do movimento feminista de ser “fiel defensora de estupradores” (p. 135);
  • Uma polêmica viral sobre apropriação cultural no caso do debate sobre legitimidade (ou não) do uso de turbantes por mulheres brancas (p;
  • Denúncias de desvios no comportamento sexual desferidas por feministas contra artistas (como Gustavito Amaral) e intelectuais (como Idelber Avelar).

A estratégia de Bosco em dissecar estes casos concretos está plenamente justificada no livro como um modo de escapar aos perigos da generalização, das injustas formulações preconceituosas e falsas – tais como “todos os índios são preguiçosos”, “todos os homens são potenciais estupradores”, “todos os negros nasceram para ser escravos”. Para o autor, uma frase como “a vítima tem sempre razão” é tão problemática quanto as citadas, incorrendo numa petição de princípio (chamar de vítima à pessoa que denuncia, somente pelo fato de denunciar, é saltar a conclusões apressadas), de modo que “a adesão incondicional à palavra da vítima incorre em potencial injustiça quanto ao indivíduo particular que é acusado.” (p. 156)

Um dos méritos maiores da obra está na análise psicológico-filosófica apurada que ele realiza dos linchamentos, os reais e os digitais.

Bosco foca no linchamento como ato de humilhação do outro, realizado por uma gangue-de-linchadores em que cada indivíduo sente um certo gozo perverso na ação de linchar. O outro, pisoteado pelo grupo, serve como bode expiatório em um rito que congrega, uma cerimônia da violência que gera, entre o clã, a gangue, a seita, a milícia de linchadores, uma espécie de cimento invisível que os faz solidários no ódio.

Decerto que esta é a pior das solidariedades possíveis – estar unido pela fúria, cimentado pelos afetos agressivos direcionados a um outro visto como inimigo que merece todos os esporros – mas é também uma das mais comuns, rotineiras. Donde provêm, é claro, a célebre “Banalidade do Mal”. Tudo isto o autor esclarece, com pensamento de fato bastante claro e iluminador, recorrendo à Psicologia de Massas, tal qual desenvolvida por Freud, Le Bon, Fromm, W. Reich, dentre outros.

“Em seu ensaio ‘Psicologia de Grupo e Análise do Ego’Freud oferece uma interpretação para o comportamento tendencial dos indivíduos quando estão agindo como parte de um grupo. (…) Essa identificação grupal é uma espécie de máquina de reconhecimento, que propicia as recompensas narcísicas decorrentes dele. Ora, os indivíduos do grupo tendem a não querer abrir mão desse reconhecimento (…) e assim apresentam uma ‘compulsão a fazer o mesmo que os outros, a permanecerem em harmonia com a maioria’. (…) Está em jogo uma dinâmica de reafirmação dos laços identitários que exige uma exclusão para se instaurar. Pois se, como observa ainda Freud, ‘o líder ou a idéia dominante poderiam também ser negativos’ – isto é, o ódio contra uma determinada pessoa ou instituição poderia funcionar exatamente da mesma maneira unificadora e evocar o mesmo tipo de laços emocionais que a ligação positiva… ” (p. 158)

Bosco, porém, esquece ou deixa de lado fenômenos que poderiam compor um quadro mais amplo das táticas de ação como os escrachos, realizados pelo Levante Popular da Juventude, que merecem ser diferenciados dos linchamentos que ele tem em mente, em especial pela direção do alvo: o cuspe sobe aí de cima para baixo, trata-se de linchar o opressor ou a classe dominante. Alguns grupos de familiares de sobreviventes e desaparecidos da Ditadura Militar também se utilizam de táticas similares ao escracho levantino diante de torturadores e algozes que estiveram em ação no Regime de Exceção (64-85).

Expressões culturais mais agressivas, como o rap, punk, heavy metal, para nos limitarmos ao âmbito da música, podem conter práticas verbais e gestuais que sugerem o linchamento de autoridades. Aí nestas manifestações culturais uma transformação de indignações sócio-políticas em arte-de-combate, às vezes explicitamente chamando ao lynching, sendo o exemplo mais óbvio a banda The Dead Kennedys, cujo vocalista Jeffo Biafra conclamava com altíssima dose de decibéis: “Let’s Lynch The Landlord”.

De todo modo, Bosco mobiliza conceitos e achados de trabalhos brilhantes de antropologia cultural (em especial Antônio Risério, José Miguel Wisnik e Hermano Vianna) e debate as várias correntes feministas. Tudo isso no contexto atualíssimo das novas redes digitais de comunicação em tempo real, onde convivem:

  • Chamadas a manifestações públicas e insurreições populares através das mídias sociais, capazes de servir de ferramenta de mobilização (como na Primavera Egípcia, em que na Praça Tahrir se pôde ler, nas faixas dos manifestantes-revolucionários, ditos como “Facebook: instrumento da revolução” – o que decerto nunca esteve nos planos de Mark Zuckerberg…);
  • Linchamentos digitais, com milícias digitais especializadas em assassinato de reputações através de uma enxurrada de fake news – vide as calúnias contra a vereadora do PSOL, Marielle Franco, que se seguiram à sua execução brutal em 14 de Março de 2018;
  • Escrachos e denúncias via Facebook que visam, por exemplo, gerar sororidade entre as mulheres para que denunciem estupradores e assediadores;
  • Renhidas estratégias dos internautas para fazer seu blog, seu canal, sua hashtag, viralizar nos trending topics do Twitter, com a utilização frequente de conteúdos apelativos, agressivos, simplistas, preconceituosos.


Há um “novo espaço público” surgindo, com a inserção das mídias sociais nele como fator inédito, e isto não é necessariamente uma boa notícia: se de fato vemos a disseminação louvável de comunicação descentralizada e democratizada, que tem como emblema o midiativismo da Mídia Ninja e dos Jornalistas Livres, por outro vivemos agora sob a infestação das fake news e dos assassinatos de reputação através de linchamento cibernético. Tanto que Contardo Calligaris escreveu na Folha um artigo comentando o livro de Bosco em que avançou uma hipótese histórica ousada: “A virulência das redes sociais é sucessora do totalitarismo”:

“Acaba de sair pela Todavia “A Vítima Tem sempre Razão? – Lutas Identitárias e o Novo Espaço Público Brasileiro”, de Francisco Bosco. Grande parte do livro (que é crucial e imperdível na atualidade) é dedicada a uma genealogia das redes sociais no Brasil, mostrando como se tornaram um novo espaço público em que não acontecem debates, mas linchamentos, e onde circulam não ideias, mas palavras de ordem.

Há quem diga que nesse novo espaço se revelaria a “verdadeira” natureza humana, sedenta de sangue. Talvez. Eu penso sobretudo que a virulência das redes sociais é a sucessora direta das políticas totalitárias de extermínio do século 20.

Ambos os fenômenos são filhos da razão abstrata (mas funcional) pela qual um debate é ganho quando consegue-se calar o adversário –exterminando-o ou gritando mais alto, fazendo com que a fala seja mais violenta, menos complexa e, portanto, mais facilmente apropriada, ganhando mais likes e retuítes.

Nessa dinâmica, ter razão equivale a silenciar o outro…

Tipo: Marx, Engels, Lenin, todos burgueses de classe média alta, podiam falar em nome do proletariado? Um homem pode se expressar, apoiando ou criticando, sobre o movimento feminista? E um branco, sobre o movimento negro, pode?

Pois bem, demonstrando minha tese sobre as redes sociais, os argumentos de Bosco, lá onde tentam abrir uma discussão, encontraram sobretudo argumentos silenciadores, do tipo: cala a boca macho branco, morador do Leblon etc.” (CALLIGARIS, FSP)

Francisco Bosco está alertando a todos nós – quer nos classifiquemos como Esquerda ou Direita, quer nos enxerguemos na imensa área entre estes dois extremos – sobre a re-ascensão do autoritarismo na sociedade brasileira, e que manifesta-se neste constante calar o outro, que é também um modo de castrar a diversidade humana, impedindo as dissidências e divergências de se manifestar e dialogar no mundo comum (o que é o sentido, afinal da democracia), atentando assim contra aquela pluralidade que, como dizia Hannah Arendt, é constituinte ontológico da nossa realidade social e telúrica (a sociobiodiversidade, além de valor, é fato).

A prática autoritária de calar o outro e não permitir a expressão social das diferenças manifestou-se de modo explícito no assassinato perpetrado contra Marielle Franco, seguido por aquilo que Leonardo Sakamoto diagnosticou como seu “segundo assassinato”, movido por milícias digitais que buscaram arrasar a reputação e denegrir a vida da vereadora e ativista. Tal uso bárbaro e perverso das mídias sociais, com discurso de ódio exacerbado, tão comum nos fã-clubes de Bolsonaros e MBLs, transforma o novo espaço público brasileiro, tão bem analisado por Bosco, em um ambiente tóxico e tenso.

Figuras públicas relevantes do PSOL como Marcelo Freixo e Guilherme Boulos, este último candidato à presidência, devem saber muito bem que entra em um pleito que não ocorrerá mais no lendário país cordial, da “democracia racial”, da miscigenação harmônica entre as raças que está expressa na fantasia de Stefan Zweig, daquela fraternidade fácil digna dos retratos idílico-líricos da “Aquarela do Brasil” Ary Barrosiana ou do “País Tropical” de Jorge Ben, mas sim num barril de pólvora em formato de país.

A execução de Marielle lança uma incógnita explosiva no cenário. O que explica o imenso impacto que o caso teve na opinião pública (assunto mais comentado no Twitter global, por exemplo, em 15 de Março de 2018), além da capacidade de mobilização de massas de que o episódio foi capaz, está conectado, a meu ver, com a aptidão do caso para congregar e fazer convergir os movimentos negros, feministas, socialistas, LGBT, Hip Hop, dos Direitos Humanos etc.

Na indignação, na revolta, na dor, no luto, em todos os afetos mobilizados pelo crime perpetrado contra Marielle, finalmente foi dado um salto quântico de consciência social, ao menos dos setores mais conscientes e ativos da sociedade. E ao menos por uns dias pulamos da teoria = os papos acadêmicos sobre a inter-seccionalidade em Angela Davis ou Audre Lorde – e realizamos na prática o nosso tropical ubuntu: eu sou porque nós somos, vamos do luto à luta, por um mundo em que caibam todos os mundos! Levantamos os punhos, abraçados (para usar uma bela e comovente imagem que a Mariana Lopes usou em sua fala no ato de Goiânia):

No que Antonio Martins chamou de “manifestações oceânicas”, a interseccionalidade se realizou, enfim, na prática, cimentada pela indignação compartilhada e efervescida no caldeirão das redes sociais digitais. De novo, a cibercultura invade as ruas. Os frutos desta morte-semente ainda serão muitos. Quais serão – se frutos de vida amelhorada ou de avanço ainda mais tétrico da Tanatopolítica e dos algozes do futuro, é hoje imponderável.  E nenhum jornalista ou filósofo que se preze deve se aventurar na aventura ilusória do profetismo. Quem viver, verá. O que virá será inédito, esperemos o imprevisto!

Tudo indica que as lutas identitárias entram no cenário sócio-político com tensão intensificada neste ano-chave que é 2018, com as eleições sob ameaça de não ocorrer, seja por excesso de convulsão social, por denúncias de sua ilegitimidade, ou mesmo por decreto ditatorial dos golpistas por enquanto no poder. Um contexto onde a prisão de Lula é cada vez mais iminente, com novo sequestro da soberania popular através da inviabilização, via lawfare, do candidato favorito no pleito. Um contexto onde o martírio de Marielle lança ao turbilhão das ruas e redes uma solidária aliança, à la ubuntu, entre lutas antes dispersas.

Marielle vive em seu legado e conclama: sejamos pessoas diversas, mas não dispersas! E façamos juntos um outro mundo, que começa desde já: queremos a Justiça, queremos a Verdade, e queremos que esta execução política não possa ser passível de anistia ou impunidade! Ela poderá ser, para as lutas identitárias, um martírio-trampolim, uma espécie de fundo-do-poço onde a gente pega impulso, para que possa saltar, enfim, para fora do lodaçal em que o Golpe de Estado de 2016 afundou o país.

Não se trata de simples oportunismo pragmático – utilizar uma morte como trampolim – mas sim de fidelidade pelas pautas que a falecida devotou sua vida a promover. Marielle, mártir que veio para marcar para sempre a história do ano de 2018, transforma-se em bandeira: está presente, vive, transcende a ausência de seu corpo material entre os vivos para transmutar-se numa espécie de ídolo mobilizador que reúne tantas das características de que precisamos mobilizar nas futuras batalhas contra as injustiças que se aprofundam.

No pós-golpe vivemos entre os escombros do Estado Democrático de Direito, em meio ao retrocessos brutais nos direitos sociais mais básicos, com o avanço das tendências à privatização de nossos recursos (do pré-sal entregue a preço de banana à Shell ao Aquífero Guarani, em processo de “rifa” ao capital transnacional estrangeiro). Através de reformas na legislação trabalhista, no teto de gastos públicos, no regime previdenciário, os ocupantes ilegais do poder.

Após a fraudulenta deposição da presidenta Dilma através de um impeachment sem crime de responsabilidade (um impechment usado como instrumento de putsch, meio para brutal lawfare), a Elite do Atraso vem instaurando por aqui uma das mais pavorosas Ditaduras do Dinheiro hoje em curso sobre a face da Terra. Naomi Klein poderá escrever um capítulo saboroso sobre o Brasil pós-2016 para uma nova edição do seminal A Doutrina do Choque.

Nossa luta tem mover as estruturas e ser inter-seccional: diversos, mas não dispersos, numa frente única contra o Bicho de 7 Cabeças das múltiplas opressões, inventar este outro mundo onde caibam todas as formas de viver, onde estejam mais livres as maneiras de conviver e se vincular, e onde a truculência assassina pare de trancafiar e exterminar o nosso futuro, inextricável dos grupos marginalizados, humilhados e ofendidos, que vão insistir e resistir em suas demandas de reconhecimento, participação, verdade, igualdade, justiça. Mãos à obra!

E, na conclusão de seu livro, Francisco Bosco nos endereça reflexões bastante propícias para este nosso comum obrar:

“Reafirmo, em primeiro lugar, que são justas as ações desequilibrantes em âmbito institucional, uma vez que se objetivo último é instaurar um sistema social justo, isto é, igualitário… São legítimas e desejáveis todas as ações que tenham como objetivo pressionar comportamentos institucionais a fim de que se tornem igualitários, mesmo que, para tanto, indivíduos pertencentes a segmentos privilegiados de poder tenham suas expectativas reduzidas, ou seja, suas oportunidades e acessos submetidos a um tratamento desequilibrante em seu prejuízo. Inscrevem-se nesse campo inúmeras agendas, como sistemas de cotas raciais em universidades e quaisquer órgãos públicos; exigências de composições paritárias de gênero também em quaisquer órgãos públicos; pressão em empresas privadas por representatividade de minorias em seus quadros de funcionários; exigência do fim das discriminações salariais entre homens e mulheres; exigência de legislações (como licença paternidade) com o objetivo de tornar igualitárias as funções domésticas do homem e da mulher com filhos pequenos; exigência de um funcionalismo institucional justo em casos de denúncias de estupro, assédio sexual, violência doméstica etc.

Por outro lado, não são justas as ações desequilibrantes voltadas contra indivíduos… Não são aceitáveis as práticas que denunciam comportamentos individuais e ao mesmo tempo exigem que essas denúncias sejam incondicionalmente acatadas, em deliberado prejuízo dos indivíduos acusados, que se veem, desse modo, moralmente condenados de saída… As ações, mesmo as que visam objetivos finais justos, que se autorizam a instrumentalizar indivíduos para atingir esses objetivos, essas ações são típicas de sistemas totalitários… Que os movimentos identitários  abandonem essa forma de ação e não instrumentalizem indivíduos em nome de suas justíssimas lutas, é o que defende esse livro.

Por outro lado, defende também ser preciso que o conjunto da sociedade tenha consciência quanto à justiça das reivindicações desse movimentos, sempre que se trate de lutas por igualdade. As condições sociais extremamente injustas sob as quais vivemos instauram um campo de possibilidades sujeito a todos os tipos de violência. Enquanto essas condições não forem profundamente modificadas, pedir às pessoas que sofrem graves injustiças cotidianas ‘ponderação’, ‘civilidade’ ou obediência a um imperativo categórico tem algo de inútil, e até de ridículo. Um ganho de consciência em larga escala da justiça dos pleitos identitários contribuirá para que as condições de injustiça social sejam modificadas. É pelo que eles lutam.” (p. 185 – 189)

Lutemos, pois, para que mortes injustas possam ser sementes que, cultivadas em comum, possam dar em árvores frutíferas de verdade e justiça neste mundo que roda cada vez mais distanciado destas.

Por Eduardo Carli de Moraes, Prof. de Filosofia do IFG
A Casa de Vidro – Livraria e Produtora Cultural (www.acasadevidro.com)



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DO LUTO À LUTA: “Eles podem cortar todas as flores, mas não vão deter a primavera?”

Podemos tentar nos consolar com os bálsamos da poesia. Podemos evocar Neruda e dizer que “eles podem cortar todas as flores, mas não vão deter a primavera”. Podemos invocar um batalhão de metáforas e, como os mexicanos chorando a chacina dos 43 estudantes, confortar nossas angústias diante dos caixões de Marielle e Anderson dizendo: “tentaram enterrar vocês, mas não sabiam que vocês eram sementes.”

Podemos “acender as velas”, afinal isso “já é profissão”, como diz o samba triste de Zé Keti, e no velório da companheira podemos nos instigar a acender as chamas da insurreição. Podemos pregar que o sentimento de luto deve ser elaborado, o mais rápido possível, para que seja mobilizado nas lutas que o tempo histórico que de nós exige, mas do luto à luta há um abismo – e saberemos criar esta ponte? Como se faz a travessia do luto como substantivo, e tão melancólico, ao luto como verbo, e tão aguerrido?

Podemos pegar em nossas mãos molhadas de lágrimas o destino estraçalhado de Marielle e tentar erguê-la ao pedestal dos símbolos, dos emblemas, dos mártires. Podemos até mesmo re-desenhar, pela via da arte, o Rio de Janeiro do cartão-postal, de modo a chutar o Cristo Redentor para escanteio e pôr em seu lugar uma mulher negra periférica que está crucificada em meio a uma Baía de Sangue. É o cartão-postal que o Rio merece nestes dias que se seguiram ao Dia Internacional da Mulher de 2018.

Podemos, e devemos, fazer com que esta voz que foi calada a balas possa reverberar – pois o nosso silêncio seria a vitória dos assassinos. Podemos tentar fazer esta cabeça cortada do tronco ser como a da mítica hidra. Que milhares de cabeças possam falar, em alto e bom som, o que Marielle falava com sua coragem ímpar; ecoando suas pautas, continuando suas lutas, dando sequência a seu legado, inspirando-nos em seu exemplo, faríamos com que sua morte não tivesse sido em vão.

Mas mesmo com tudo isso que podemos fazer, e não sei se faremos, o momento histórico é desconsolador. Se a democracia já respirava por aparelhos, as 4 balas que estraçalharam o crânio de Marielle Franco já levaram o que sobrava de vida na combalida democracia brasileira para o beleléu. O nosso faro fareja fascismo neste crime hediondo. Uma execução política que besunta de sangue a linha do tempo e estabelece um marco muito visível: a partir daqui começa de vez o que Rubens Casara vem chamando, desde o golpe de 2016, de “Estado Pós-Democrático”.

A monstruosidade humana escancarou de novo sua face horrenda – esta, que de tanto se manifestar, acaba por nos parecer banal e normal. Calaram com brutalidade a vida ainda em flor de Marielle Ramos e não existe cura para a ausência no mundo que este crime acarretou. Nas manifestações oceânicas que tomaram as ruas em 15 de Março de 2018, mostramos de fato alguma força de reação e resistência, salutar contra o perigo também horrendo da apatia e da desistência.

Houve até quem nutrisse esperanças de que vinha aí uma maré de mobilização similar às Jornadas de Junho de 2013. Eis nossa velha tendência a buscar compreender um presente inédito com categorias forjadas com a experiência pretérita, sem aceitar que os Junhos de outrora não voltarão, e que o que há por vir nunca dantes esteve aqui.

E pode ser que o porvir seja pesadelo. Pode ser que a lei de Murphy que postula “nada é tão ruim que não possa piorar” vá valer aqui. As mídias sociais, se tem o potencial de articulação e ferramenta de mobilização que Manuel Castells analisou em Redes de Indignação e Esperança, também podem ser uma descida ao Hades da monstruosidade humana. Contam-se aos milhares os internautas que se manifestaram celebrando o assassinato de Marielle, dizendo que ela “merecia mesmo ser degolada”, argumentando “quem mandou defender bandidos?”, prometendo que no futuro, sob a presidência do “Bolsomito”, “não vai sobrar nenhum socialista vivo”. Nem nenhum indígena. Nem nenhuma preta metida a besta que fica se metendo em política…

De onde esta gente tira esta capacidade para o ódio mais sectário, de onde tira a sem-vergonhice de tirar seu fascismo do armário e desfilá-lo em praça pública como se fosse fantasia carnavalesca, e não uma feiúra horrenda? Como pôde uma doutrina de tamanha intolerância e desprezo pela diversidade humana tomar conta, feito uma epidemia, de uma parcela tão grande da população brasileira, a ponto de Bolsonaro estar prestes a receber alguns milhões de votos nas urnas?

Não seria tão preocupante se houvessem uma meia dúzia de políticos fascistas por aí, o que é preocupante é o tamanho dos fã-clubes. E preocupante é a estupidez atordoante desses que defendem posturas racistas, supremacistas, militaristas, machistas, homofóbicas, fundamentalistas, e que não tem o mínimo senso de decência, a ponto de cagarem palavras desumanas nas redes sociais com seus aplausos aos algozes de Marielle. Diante dessa gente, de fato vira problema filosófico a questão colocada por Márcia Tiburi: “Como Conversar Com Um Fascista?” Diante da catarata de burrice que eles manifestam, ficamos tentamos à zueira que Millôr Fernandes fazia: tem muita gente em quem “a boca é o aparelho excretor do cérebro”.

É em momentos históricos assim que podemos compreender melhor o que Hannah Arendt quis dizer quando, em seu diagnóstico sobre a Solução Final, o Holocausto, os horrores do III Reich, elencou entre as causas da catástrofe a “irreflexão”. Estes milhões que se dizem eleitores de Bolsonaro, já pararam para refletir no que significa dar seu aval a um sujeito que faz o elogio público do torturador e carrasco Ustra, “o pavor de Dilma Rousseff”? Onde foi que tantos de nós perdeu sua humanidade a ponto de somar forças com um estúpido apologista da tortura e da crueldade?

Que tipo de retumbante fracasso da Educação no país explica que existam tantos defensores do militarismo, mesmo após os inúmeros horrores perpetrados pelo terrorismo de Estado durante a noite de 21 anos inaugurada pelo golpe de 1964? Onde fracassamos tão feio a ponto da cegueira ter atingindo dimensões de Praga Saramaguiana?

A ponto de um batalhão de agentes da banalidade do mal ficarem pregando de suas cyber-bolhas que “bandido bom é bandido morto” e que “direitos humanos são para humanos direitos”, justificando assim chacinas e genocídios contra uma parcela da humanidade que é considerada desprovida do “direito a ter direitos” de que fala Hannah Arendt. E estamos em pleno horror de ascensão do fascismo sempre que uma parcela da população é considerada “matável”, estigmatizada como Escória do Mundo (ver o excelente livro de Eleni Varikas), disponibilizada para os massacres administrativos…

Já Marielle era a renovação em ação, a participação política popular em estado concreto, uma exuberante força da natureza, toda resiliência e ousadia. Uma daquelas mulheres que entrará para a história ao lado de Carolina Maria de Jesus, de Dandara, de Angela Davis, de Audre Lorde, de Nina Simone etc. Flor-afro crescida na Maré, guerreira pelo conhecimento que se formou em Ciências Sociais na PUC-RJ, pesquisadora tenaz da segurança pública, da violência urbana, das UPPs e das intervenções militares, Marielle escolheu a via da política e agora sua travessia foi brutalmente encurtada. Nunca saberemos que futuro ela poderia ter forjado se tivesse sobrevivido.

Uma pessoa iluminada por suas vivências, pelos amigos e parentes que viu sofrerem lutos e perdas, educada na escola tétrica das chacinas, a Marielle pôs mãos à obra, não quis ser espectadora, entrou de cabeça na política institucional. E triunfou nela, sem nunca se encerrar no âmbito restrito das instituições e seus muros – pouco antes de morrer, estava num encontro de Mulheres Negras Que Movem Estruturas.

Eleita com mais de 50.000 votos para a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro pelo PSOL, em 2016, em sua primeira fala naquela Casa declarou-se seguidora da Filosofia Ubuntu. Seu lema de campanha – e de vida – foi “eu sou porque nós somos”. Filiava-se a esta sabedoria africana, propagada entre ocidentais por Nelson Mandela e Desmond Tutu. Defendia uma sociedade que enterrasse o apartheid, a continuação da segregação racial e do genocídio continuada dos negros, pobres, periféricos. Lutava por construir uma sociedade do ubuntu – da partilha, da participação, da solidariedade, da generosidade, do compartilhamento, da confiança, da união fraterna, do façamos juntos. Ninguém é, todos somos.

“UBUNTU é também uma maneira de dizer: ‘minha humanidade é ligada inextricavelmente à sua’ ou ‘nós pertencemos ao mesmo ramo de vidas’. Nós temos um princípio: ‘um ser humano existe somente em função de outros seres humanos’. É muito diferente do ‘penso, logo existo’ de Descartes. Isto significa antes que: ‘eu sou humano porque faço parte, participo, partilho’.

Uma pessoa que tem o UBUNTU é aberta e disponível, valoriza os outros e não se sente ameaçada se os outros são competentes e eficazes, na medida em que ela possui uma confiança que se alimenta do sentimento de que ela pertence a um grupo e que ela se sente rebaixada quando os outros são rebaixados, humilhados, torturados, oprimidos ou tratados como menos que nada.” – DESMOND TUTU

Dirão que estou idealizando a falecida – que, aliás, não conheci pessoalmente, e cujo trabalho não acompanhava de perto antes de que esta execução a colocasse nos holofotes do Brasil e do mundo. Talvez seja verdade, mas este ideal também serve como bálsamo nestes tempos sombrios. E como disse John Lennon, “you may say I’m a dreamer, but I’m not the only one.” O oceano de gente que saiu às ruas após o assassinato de Marielle também compreendeu que era preciso que ela saísse da vida e entrasse na história – e que o faria como ideal. Ideal de mulher empoderada, de feminista negra, de defensora dos direitos humanos elementares, de ser humano engajado na vita activa e na esfera pública, jamais se calando diante das múltiplas opressões e injustiças de que o mundo está repleto.

Nestes tempos em que o Brasil parece um pesadelo do qual nos esforçamos em vão por acordar, Marielle se tornou para nós a mártir que nos inflama os afetos da indignação, da rebeldia, da ânsia transformadora, sem os quais jamais construiríamos a ponte que vai do luto à luta, nem jamais cultivaríamos os jardins que fariam florescer novas primaveras após termos tantas flores massacrados pelas fardas e pelos tanques.

Marielle Franco, presente! Hoje e sempre.

Eduardo Carli de Moraes | A Casa de Vidro | 17/03/2018

 

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