Trip apresenta Joe Silhueta (DF) e Clube dos Bagres (SP) na noite “Miniestéreo da Contracultura” (09/03, a partir das 20h)

Trip apresenta:
Noite Miniestéreo da Contracultura
Shows com: Joe Silhueta (Guilherme Cobelo)
e Clube Dos Bagres (Bruno Morabati)

Rua 115-e, Setor Sul, Goiânia
09 de Março, $10 de entrada, long-neck $7

Livros A Casa de Vidro na área!
Rango saboroso com Lobato Massas Artesanais!

Página do evento: https://www.facebook.com/events/145135309340456/


Saiba mais: Joe Silhueta é a alcunha musical do compositor brasiliense Guilherme Cobelo. Destaque do cenário musical de Brasília, Joe Silhueta mescla referências do rock e do folk norte-americano com a música nordestina de nomes como Elomar, Zé Ramalho e Alceu Valença. Com a banda Korina, lançou em 2009 o EP Todo Mundo Viver Reclamando da Minha Falta de Assunto. Em 2016, deu início à sua carreira solo lançando o EP Dylanescas. Produzido pelo produtor brasiliense Kelton, o disco contém cinco canções inéditas de Cobelo, com sonoridade acústica e arranjos minimalistas. Em fevereiro de 2017 lançou o EP Ritos do Leito, produzido por Kelton Gomes e Gustavo Halfeld, com arranjos mais volumosos baseados na banda que se formou para as apresentações ao vivo. Ao longo do ano de 2016, tocou em palcos importantes da cidade, como Festival Satélite 061, Festival Porão do Rock, Festival Móveis Convida, Festival Porão do Rock e Festival Picnik. Foi indicado pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) na categoria Artista revelação. Atualmente, se prepara para circular com o novo EP e produzir as canções que formarão o álbum Nas trilhas do sol, a ser lançado ainda em 2017.

ESCUTE E EXPLORE:

https://soundcloud.com/joesilhueta
https://www.youtube.com/joesilhueta
https://www.facebook.com/ojoesilhueta


O Clube dos Bagres é um trio envolvente de Franca-SP. Em 2012 o Clube lançou o EP “Histórias mal contadas em quase-canções” e está com seu primeiro disco no forno. Nesse tempo, apresentou-se ao lado de grandes influências como Alceu Valência, Otto, Porcas Borboletas, Rafael Castro, e em festivais e mostras com destaque e relevância nacional. As apresentações costumam ser recheadas de suor e atrito entre os presentes, coisa que se desfigura no formato voz e violão. O elemento surpresa está preparado para o show. Aguardem.


MINIESTÉREO DA CONTRACULTURA?!?

Conheça o catálogo do Miniestéreo da Contracultura, excelente selo virtual que disponibiliza música independente brasileira, de alta qualidade, para download gratuito. Acesse o site oficial: http://miniestereo.org/. Saiba mais no post d’ A Gambiarra: http://bit.ly/1TOsxlj.

“Nosso intuito é agregar diferentes linguagens da música “não-comercial” em uma corrente contínua de colaboração nos processos de produção musical, como um laboratório de novas idéias onde todos os participantes aprendam uns com os outros, somando aos produtos finais diferentes níveis de experiências para o enriquecimento mútuo.

Esperamos dialogar com diferentes posicionamentos estéticos-musicais, visando construir um acervo de materiais  originais, novos, audaciosos e criativos, com o propósito de unir em uma só comunidade artistas dos mais variados seguimentos, e que juntos constroem espaços democráticos de diálogo com o público, focado em lançamentos virtuais gratuitos.” – Site oficial M.d.C.

Artistas participantes: Gustavito (Gustavo Gustavito Amaral), Joe Silhueta (Guilherme Cobelo), Protofonia, LG Lopes, Orquestra Abstrata, Mersault e a Máquina de Escrever, Barra Funda Fighters, Marcos Braccini, Forró Red Light, dentre outros.


Entra na Trip! Venha conhecer a nova morada da cultura em efervescência aqui em Goiânia.

PROGRAMAÇÃO – Março de 2017

Quinta, 09/03
Noite Miniestéreo da Contracultura
Com Joe Silhueta e Clube Dos Bagres
Evento: https://www.facebook.com/events/145135309340456/

Sexta, 10/03
Noite das Minas com DJs Bárbara Novais, Gabs Reiscal, Thais Oliveira

Sábado, 11/03
DJs Daniel de Melo, Alan Honorato, Bruno Vieira Batista em “Baile Funk do Neguim”

Quinta, 16/03
Banda Mal Necessário toca Secos e Molhados

Sexta, 17/03
Show com Diego De Moraes / Diego Mascate

Sábado, 18/03
Afrikaliente com Vida Seca
DJs Igor Zargov e Bruno Caveira

Chega mais!

“AFRO-CUBAN”, de KENNY DORHAM (1957): “A first-rate recording for the under-appreciated Dorham, this one should be in every collection of all true music lovers.”

Kenny Dorham – Afro-Cuban

(1957, Blue Note)

Review by Michael G. Nastos – Considered Kenny Dorham’s finest recording of his all-too-short career, this re-reissue has been newly remastered and presumably now includes all of the takes from these nonet and sextet sessions of 1955. Considering the time period, this date remains way ahead of the Latin-tinged and hard bop music that would follow. It would be difficult to assess the sextet being a step below the larger group effort, but only because it is much less Afro-Cuban. Nonetheless the unmistakable drumming of Art Blakey powers the combo through the blisteringly swinging “La Villa” with unison horns (Hank Mobley, tenor sax; Cecil Payne, baritone sax). The other easy swinging pieces “K.D.’s Motion,” “Venita’s Dance,” and “Echo of Spring/K.D.’s Car Ride” display great group empathy and seem effortless, though they’re not. It’s the Latin-based music that really differentiates this band from all others of this era, save Dizzy Gillespie’s. Payne’s robust bari ignites the hip call-and-response motif of “Afrodisia,” while his horn in tandem with pianist Horace Silver backs the up-front horns, supplemented by trombonist J.J. Johnson, for the heated mambo-ish hard bopper “Basheer’s Dream.” Two takes of “Minor’s Holiday” are, curiously enough, exactly the same time at 4:24, both super cooking with Dorham’s clear-as-a-bell trumpet leading the other horns, which practically act as backup singers. Percussionist Carlos “Patato” Valdes is the perfect spice added to this dish. The lone ballad, “Lotus Flower,” is remarkable in that its marked tender restraint feels on the brink of wanting to cut loose, but never does. A first-rate recording for the under-appreciated Dorham, this one should be in every collection of all true music lovers.

Tracklist:
1) Afrodisia (5:06)
2) Lotus Flower (4:17)
3) Minor’s Holiday (4:28)
4) Basheer’s Dream (5:03)
5) K.D.’s Motion (5:29)
6) La Villa (5:24)
7) Venita’s Dance (5:22)
8) K.D.’s Cab Ride (6:12)

PLAY >>>

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EXPERIMENTE TAMBÉM:

BOB MARLEY: Guerreiro Rasta

Daniel Pereira

Um dos muitos méritos desta graphic novel dos argentinos Diego Agrimbau (roteiro) e Dante Ginevra (desenhos) está em sua capacidade de revelar a enorme dimensão social, espiritual e artística de Bob Marley. Nascido em 1945, numa Jamaica que lutava para se libertar do domínio colonial inglês, Bob Marley viveu apenas 36 anos, mas tornou-se uma figura de notoriedade e relevância mundial, a ponto de produzir milhões de seguidores. Isto não se deve somente ao seu talento como cantor, compositor e músico, mas à força e à resiliência de sua mensagem à humanidade.

Estátua no Estádio Nacional de Kingston

Reggae’s most transcendent and iconic figure, Bob Marley was the first Jamaican artist to achieve international superstardom, in the process introducing the music of his native island nation to the far-flung corners of the globe. Marley’s music gave voice to the day-to-day struggles of the Jamaican experience, vividly capturing not only the plight of the country’s impoverished and oppressed but also the devout spirituality that remains their source of strength. His songs of faith, devotion, and revolution created a legacy that continues to live on not only through the music of his extended family but also through generations of artists the world over touched by his genius. – Jason Ankeny

Guerreiro Rasta não começa ao som de ska ou reggae, mas em chave mais trágica, evocando a África, onde as caravelas invasoras do imperialismo europeu vieram sequestrar milhões de seres humanos para o destino horrendo de escravizados. Filhos da diáspora, os afrodescendentes da Jamaica lutavam por independência e autonomia enquanto Bob Marley crescia: é no período entre 1958 e 1962 que a onda descolonizadora do Caribe ganha força e triunfa contra o império inglês, não só na Jamaica, mas também em Trinidad e Tobago.

Na capital da Jamaica, Kingston, os autores evocam de modo impressionante a presença da África, seja através do mega evento cívico que foi  a visita do imperador da Etiópia, Hailê Selassiê, em abril de 1966, seja no próprio cotidiano dos cultuadores de Jah, os rastafáris da sagrada ganja, tão perseguidos pela elite branca e que com tanta frequência tinham seus dreadlocks cortados e tomavam cruéis baculejos policiais.

Bob Marley até tentou migrar para os EUA – onde trabalhou em Delaware como operário da indústria automobilística em uma fábrica da Chrysler – mas retomou o caminho de Trenchtown: em uma das imagens mais memoráveis de Dante Ginevra, o avião de Marley decola nos Estados Unidos, ascendendo rumo a um céu onde paira, cheio de garbo e poder, desenhado pelas nuvens em interação com os raios de sol, um gigantesco Leão de Judá

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 Bob Marley permitiu que a criatividade de um país periférico conquistasse o globo e tornou-se um dos luminares não só da música reggae ou da religião rastafári, mas um ídolo popular em todas as latitudes onde há luta contra a opressão e em prol da paz e do amor. Filho de uma afro-jamaicana com um branco inglês, Bob Marley foi um mulato afroamericano de profundo enraizamento na cultura africana e no sonho de um retorno à África mãe, seja na Etiópia ou na Libéria (este é um ethos ou uma constelação afetiva que assemelha Bob Marley a Nina Simone).

Apesar de estar longe de ser uma figura teórica ou acadêmica, Marley tinha postura política convicta e aliou-se ao movimento do pan-africanismo propugnado por Marcus Garvey, evidente em uma canção como “Africa Unite”. Em sua meteórica carreira musical foi um porta-voz libertário cujo teor ideológico e raio de influência sobre as massas pode ser equiparado ao de figuras como Patrice Lumumba, Malcolm X, Martin Luther King, Fela Kuti etc.

Bob Marley & the Wailers
“Concrete Jungle”
The Old Grey Whistle Test, 1973

Suas letras repletas de crítica social transcenderiam o gueto e iriam muito além das fronteiras do reggae: iriam inspirar artistas do folk, do rock, do punk, da MPB, da world music etc. Não é possível imaginar nem o The Clash, nem Gilberto Gil, nem Manu Chao, sem a seminal influência de Bob Marley. O poder de sua arte é tamanho pois conjuga o anúncio e a denúncia, para lembrar Paulo Freire: Marley fala sobre one love em vibe similar à de John Lennon imaginando a brotherhood of men, mas também denuncia a “selva de concreto” (assista a “Concrete Jungle” assista) e os mais de “400 Years” de opressão imperialista sobre aqueles que foram roubados de sua terra nos “merchant ships” evocados por “Redemption Song”:

“Velhos piratas, sim, eles me roubaram.
Me venderam para os navios mercantes, 
Minutos depois me atiraram
Num buraco sem fundo…”

Guerreiro Rasta é uma leitura rápida mas que deixa rastros na memória; uma biografia em formato graphic novel de 60 e poucas páginas, mas que ensina uma imensidão neste curto intervalo de tempo e espaço. Ganham expressão nestas páginas toda a violência política nas ruas de Kingston e todo o esforço pacifista-diplomático de Marley; toda a trajetória dos Wailers, tendo como coadjuvantes importantes Peter Tosh e Lee Perry, de estrelas musicais locais a popstars idolatrados por Eric Clapton, Mick Jagger, Joe Strummer; toda a epopéia da diáspora, todos os horrores impostos pelo imperialismo racista e supremacista, em contraste com a sabedoria naturalista, cannábica, rasta-pacifista, desse liberador de mentes e encantatório musicista que foi Bob Marley.

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No cinema, sua vida e obra já ganharam belos retratos em filmes como Rebel Music ou na biopic documental de Kevin MacDonald. Porém a linguagem dos quadrinhos, aqui utilizada com maestria pelos hermanos argentinos, fornece uma impressionante oportunidade de imersão no microcosmo Marleyano. Na página 53, por exemplo, evocam-se em 5 míseros quadrinhos e um punhado de frases pungentes o dia em que a Jamaica enterrou Bob Marley. É uma página que não se esquece mais.

Era um “funeral de chefe de estado, com uma cerimônia que misturava as tradições rastafári e católica ortodoxa etíope. O caixão seguiu  um longo trajeto até sua terra natal, Nine Mile. Toda a Jamaica chorou a partida de seu filho pródigo. Em seu túmulo, foram colocados quatro objetos que representavam o que sempre foi importante para ele… o futebol, a música, a fé rastafári e a maconha. Nessa noite, toda a ilha cantou e dançou celebrando sua vida. Foi a melhor festa funerária que um rasta poderia esperar.”

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SIGA VIAGEM:

OUÇA…

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“SURVIVAL” (1979)

“Containing what is considered Marley’s most defiant and politically charged statement to date, Survival concerns itself with the expressed solidarity of not only Africa, but of humanity at large. The album was controversial right down to the jacket, which contains a crude schematic of the stowage compartment of a typical transatlantic slave ship. Survival is intended as a wake-up call for everyman to resist and fight oppression in all of its insidious forms. From Tyrone Downie’s opening synthesizer strains on “So Much Trouble in the World” to the keyboard accents emerging throughout “Zimbabwe,” the sounds of Survival are notably modern. The overwhelming influence of contemporary African music is also cited with the incorporation of brass, á la Fela Kuti and his horn-driven Africa ’70. While “Top Rankin’,” “Ride Natty Ride,” and “Wake Up and Live” are the most obvious to benefit from this influence, there are other and often more subtle inspirations scattered throughout. Survival could rightly be considered a concept album. Marley had rarely been so pointed and persistent in his content. The days of the musical parable are more or less replaced by direct and confrontational lyrics. From the subversive “Zimbabwe” — which affirms the calls for the revolution and ultimate liberation of the South African country — to the somewhat more introspective and optimistic “Africa Unite,” the message of this album is clearly a call to arms for those wanting to abolish the subjugation and tyranny of not only Africans, but all humankind. Likewise, Survival reinforces the image of Marley as a folk hero to those suffering from oppression.” – Lindsay Planer, AllMusic [http://www.allmusic.com/album/survival-mw0000194795]

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ASSISTA:

CONFLUÊNCIAS – Festival de Artes Integradas, 2ª Edição: Bloco das Bacantes – 26/02, Evoé, Goiânia

Vem aí a 2ª edição do Confluências – Festival de Artes Integradas, uma produção A Casa de Vidro, que volta a ocupar a Evoé Café Com Livros para reunir artistas de todas as vertentes e pôr a cultura em efervescência. Em ritmo de Carnaval, convocamos o “Bloco das Bacantes” pra celebrar o domingão (26/02) com shows, performances, poesia encenada, teatro, batuques, feirão de livros, discotecagem timbrada e muito mais.

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Arte: Homenagem ao Teatro Oficina e a Iara Rennó em "Macunaíma Ópera Tupi". Hacking antropofágico por Eduardo Carli.

Arte: Homenagem ao Teatro Oficina e a Iara Rennó em “Macunaíma Ópera Tupi”. Hacking antropofágico por Eduardo Carli.

ATRAÇÕES

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Cocada Preta é uma de nossas atrações musicais, reverenciando mestres e mestras da Cultura popular com muita energia, gingado e doçura. O quinteto trará sua rica percussividade e enraizadas cantorias para o palco do Conflu. Formado em 2016, o grupo é uma das novidades do cenário artístico goianiense e tem como missão a difusão da cultura popular nordestina (coco, maracatu,ciranda, xote e baião) e do Boi do Maranhão, com algumas releituras do cancioneiro popular e algumas composições autorais. Reverenciam grandes Mestres e Mestras como Cila do Coco, Aurinha do Coco, Lia de Itamaracá, Galo Preto entre outros. É do Cerrado e do feminino que buscam inspirações para suas composições. Cocada Preta é: Flávia Carolina Almeida, Thaisa Santos, Sarah Menezes, Nathalia Kaule e Brunna Franco Balbino Rego.


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Luiza Camilo apresenta a premiada performance “Amanheçamos”, poesia encenada que une elementos da linguagem teatral e circense. Com esta obra, ela foi a vencedora do primeiro lugar no Festival Juriti de Música e Poesia Encenada em 2013. Teremos também a satisfação de receber um pocket show solo, em que Camilo (en)cantará, no formato voz-e-violão, mostrando algumas de suas canções autorais, além de interpretações de outros compositores. Atualmente, ela integra a banda Bandita Codá (assista um videoclipe da música “Destino” abaixo), que promete álbum de estréia para este ano de 2017.

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Na performance artística “Mulher Elefanta”, de Morgana Poiesis, um corpo presente deixa rastros de sua travessia entre o peso da memória e a leveza do esquecimento.  A artista é mestre pelo Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Performances Culturais da UFG (Universidade Federal de Goiás). Apresentação: 18h.


Apreciem também uma exposição dos desenhos, pinturas, tirinhas e cartazes da Lua Plaza, do projeto Cartas para Lua. A artista participará também de uma roda-de-prosa com o público, trocando altas idéias sobre seu processo de criação, suas influências e inspirações, as técnicas que utiliza, as temáticas que ela aborda em seus trampos etc. Aí vai uma pequena amostra dos trabalhos:

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Além disso, preparamos uma seleção de canções que reverenciam as grandes vozes femininas da história do samba: a playlist ficará rolando no intervalo entre as atrações e também disponibilizaremos, por módicos R$5 reais, um CD com 20 canções, totalizando 1 hora e 10 minutos de música, que fornece um passeio pela mulherada bamba no samba, da tradição à inovação. O álbum – uma antologia original, “imbaixável” na internet… – traz as seguintes faixas:

        1. Clara Nunes – Guerreira (2:24)
        2. Beth Carvalho – Agoniza Mas Não Morre (3:33)
        3. Mariene de Castro e Maria Bethânia – A Força Que Vem Da Raiz (3:34)
        4. Elza Soares & Miltinho – Com que Roupa e Se você Jurar (4:36)
        5. Elis Regina – Tiro ao Álvaro (2:42)
        6. Aracy de Almeida – Tristezas Não Pagam Dívidas (2:55)
        7. Carolina Maria de Jesus – Macumba (2:36)
        8. Ana Maria Brandão – Gosto Que Me Enrosco (2:53)
        9. Clementina de Jesus – Na Linha Do Mar (3:20)
        10. Dona Ivone Lara – Samba, minha raiz (2:56)
        11. Teresa Cristina e Grupo Semente – Viver (3:30)
        12. Jovelina Pérola Negra – Luz do repente (3:50)
        13. Mariana Aydar – O samba me persegue (4:13)
        14. Luisa Maita – Fulaninha (3:36)
        15. Mariene de Castro – Oxóssi (4:05)
        16. Cássia Eller – Na Cadência Do Samba (1:55)
        17. Zélia Duncan – Quando Esse Nego Chega (1:55)
        18. Bossacucanova e Adriana Calcanhotto – Previsão (3:02)
        19. Metá Metá – Orunmila (4:03)
        20. Tássia Reis – Da Lama/Afrontamento (6:24)

Uma produção: A CASA DE VIDRO
www.acasadevidro.com

Arte da capa: Elifas Andreato
para o LP Clementina e Convidados (1978)


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Em matéria para o Curta Mais, Paloma Carvalho destaca “10 passeios para enxergar Goiânia além dos cartões-postais” [http://bit.ly/2lJsMr7]. Entre eles está a nossa querida Evoé Café com Livros, “um espaço muito bacana que mistura comidinhas, cafés, cerveja, livros, música, exposições e intervenções artísticas num espaço aconchegante perfeito pra relaxar em meio à correria da cidade. Tem até rede e pés de fruta no quintal!”

E é lá na Evoé, em ritmo de Carnaval, que desembarca o Confluências, 2ª edição – Bloco das Bacantes. Neste 26 de Fevereiro, a partir das 17h, bóra lá meu povo?!? 

ONDE? Rua 91, 489 – Setor Sul, Goiânia.
QUANDO? Domingo, 26/02, a partir das 17h.
QUANTO? 10 pilas reais.

RELEMBRE:
Confluências – Primeira Edição || Com Diego de Moraes, Chá de Gim, Kesley Rocha Dias, Valderundestein, Manoel Siqueira, Gabriel Uri, Gustavo Pozzatti.

AS BACANTES SEMPITERNAS – Sobre a atualidade perene da celebração comunal e do êxtase coletivo

AS BACANTES SEMPITERNAS – Sobre a atualidade perene da celebração comunal e do êxtase coletivo

I. XAMANISMO COM AMPLIFICADORES

Há um capítulo magistral de Dançando nas Ruas (Dancin’ In The Street) em que Barbara Ehrenreich fala sobre as raízes arcaicas do êxtase coletivo. “Arcaicas”, no caso, é uma palavra para referir-se não a algo de velho, mofado, já caído em desuso e aposentado da História. Arcaico – é também uma das lições fundamentais de gurus psicodélicos como Terence McKenna e Alan Watts – é aquilo que tem enraizamento em um passado muito distante, mas cuja raiz ainda hoje nutre uma árvore viva e nossa contemporânea, com sua eclosão vivificante de folhas, frutos, sementes.

O tempo arcaico segue agindo no tempo contemporâneo como um rio que flui lá do passado mais remoto e penetra com suas águas torrenciais no território do presente. É um passado que conflui com o agora, conectando-nos ao que passou, vinculados ao que foi ao invés de alienados de qualquer tradição e pertença. Unidos e solidários aos que hoje descansam seus ossos debaixo desta terra onde labutamos e dançamos, ao invés de trancados na estreiteza de um fluxo nonsense de momentos efêmeros e desconexos.

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“No antigo mundo ocidental, muitas deidades serviam como objeto de adoração extática: na Grécia, Ártemis e Deméter; em Roma, as deidades importadas: Ísis (do Egito), Cibele, a Grande Mãe ou Magna Mater (da Ásia Menor), e Mitas (da Pérsia). Mas havia um deus grego para o qual a adoração extática não era uma opção, mas uma obrigação… Esse deus, fonte de êxtase e terror, era Dioniso, ou, como era conhecido entre os romanos, Baco. Sua jurisdição mundana cobria os vinhedos, mas a responsabilidade mais espiritual era presidir aorgeia (literalmente, ritos realizados na floresta à noite, termo do qual derivamos a palavra orgia), quando os devotos dançavam até chegar a um estado de transe. 

Ainda mais do que as outras deidades, Dioniso era um deus acessível e democrático, cujo thiasos, ou elo sagrado, estava aberto tanto aos humildes como aos poderosos. Nietzsche interpretava esses ritos da seguinte maneira: ‘O escravo emerge como homem livre, todos os muros rígidos e hostis erigidos entre os homens pela necessidade ou pelo despotismo são despedaçados.’

Foi Nietzsche quem reconheceu as raízes dionisíacas do drama grego antigo, ao ver a inspiração louca e extática por trás da majestosa arte dos gregos – que, metaforicamente, ousavam levar a cabo não apenas a imortal simetria do vaso, mas as loucas figuras dançantes pintadas em sua superfície. O que o deus demandava, segundo Nietzsche, era nada menos que a alma humana, liberada pelo ritual extático do ‘horror da existência individual’ e transformada na ‘unidade mística’ do ritmo proporcionado pela dança.” (EHRENREICH, p. 48)

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Longe de ser apenas de interesse para helenistas ou estudiosos de religiões antigas, a celebração comunal, vinculada no mundo greco-romano aos cultos a Dioniso e Baco, prossegue ativa em tempos contemporâneos. O livro de Barbara Ehrenreich é uma das melhores visões panorâmicas da busca pelo êxtase coletivo através da história e tem entre seus méritos uma postura simpática aos fenômenos estudados. Ela não condena, com fúria puritana, os rituais dionisíacos, o vodu haitiano, a capoeira ou o samba afrobrasileiro, os festivais de rock da Geração Hippie etc., mas busca compreender com empatia uma necessidade humana, que existe desde tempos imemoriais, de celebração coletiva e de vitória sobre o terrível confinamento na solidão de um eu isolado.

889672Dançando Nas Ruaspois, parece-me um livro magistral, de alto potencial libertário, que une-se aos esforços de um Terence McKenna, que propugnava um revival do arcaico, ou de uma Emma Goldman, pensadora política anarquista célebre por dizer: “Não é minha revolução se eu não puder dançar”.

Além disso, Barbara Ehrenreich realizou uma obra de interesse filosófico, ou mesmo teológico, afirmando que a experiência de re-encontro com o arcaico, de re-ligação com a fonte, é descrita por muitos que a vivenciam como uma revolução em nossa percepção temporal, uma percepção imediata ou insight súbito da eternidade do aqui-agora.

O livro contribui assim, imensamente, para o estudo e a compreensão do misticismo, podendo iluminar e elucidar a leitura de obras cruciais como a de William James, As Variedades da Experiência Religiosa, e Heinrich Zimmer, Filosofias da Índia, que talvez sejam as mais impressionantes reuniões de testemunhos sobre a experiência mística. Para uma visão mais contemporânea, que vincula a unio mystica ao consumo de substâncias enteógenas, vale sondar as reflexões de Aldous Huxley em Moksha e de Alan Watts por sua obra afora.

Quando transcendemos a prisão do eu, a jaula do isolamento, a percepção falha que nos leva a crer na possibilidade de nossa existência independente e separada do cosmos que a circunda e a inclui, aí então podemos abraçar um aqui-agora que têm densidade temporal. Que tem peso de eternidade. Aí percebemos – ainda que para ter este insight às vezes necessitemos de muito estudo do budismo, de muita prática da meditação e do yôga, de algumas gotas de um bom ácido lisérgico ou DMT… – que a interconexão é a verdade do real.

"Wonder", uma obra de Alex Grey

“Wonder”, uma obra de Alex Grey

Não somente somos todos interconexos, ligados a toda a teia da vida; além disso, isto não se esgota no presente imediato. O rio do passado vem regar-nos o presente e vivificar nossa construção comum de um presente futurível. Somos efêmeros contemporâneos da eternidade onde estamos incluídos – a Energia no Universo, garantem os cientistas, pode se transformar, mas jamais ser nadificada; os átomos e o vazio, desde Epicuro, são tidos por indestrutíveis! Esta percepção é aquilo que bacantes e mênades buscam – e às vezes acham – em seus rituais musicais, dançantes, psicodélicos. Buscam habitar um tempo de êxtase coletivo, de joy na vivência da interconexão. É uma utopia que propõe a re-união e a comum celebração, é um hedonismo sábio que propõe que não cortemos todas conexões com o rio do “foi-se e acabou-se”, prendendo-nos em um imediatismo niilista que nos deixaria apenas vagando ao léu, como náufragos agarrados a um pedaço de madeira que flutua no mar após a embarcação ir a pique.

Arcaicas – antigas mas ainda ativas! – são as variadas “técnicas do êxtase”. Esta, aliás, era uma das expressões prediletas que Mircea Eliade usava como ferramenta conceitual crucial para a compreensão e caracterização dos misticismos, do mais variado colorido, reunidos às vezes sob o nome de “xamanismo” e outras vezes sob a alcunha de “paganismo” ou termo semelhante. No tal do xamanismo, com enorme frequência, as técnicas do êxtase – o caminho que é preciso realizarmos junto até que sejamos uma coletividade capaz de celebração extática e auto-transcendência – são inseparáveis da dança e da música.

Este é um dos argumentos centrais do livro genial de Ehrenreich: êxtase tem tudo a ver com dança, com música, com expansão da consciência, com transcender o eu e abraçar o coletivos. que atravessa a História, da tragédia grega de 25 séculos atrás até os festivais hippie à la Monterey e Woodstock, para mostrar que os laços sociais vinculados à busca humana, trans-histórica e trans-cultural, de êxtase coletivo, são umbilicalmente vinculados com música, dança e alteração da percepção intelectual-sensível através do consumo de substâncias (naturais ou sintéticas) ditas estupefacientes. Apesar de toda repressão, de todo o sangue derramado por Inquisições, de toda a perseguição autoritária, Pan, Baco, Deméter, Dioniso, Shiva e toda a trupe dos deuses dançantes e orixás bailantes que seguem vivendo e atuando nos corações e mentes de seus carnais celebrantes.

Aquilo que Ehrenreich chama de collective joy, ou que Durkheim chamava de efervescência coletiva, é aquilo que sente-se no meio da torcida em um estádio de futebol quando explode um gol; mas também o que toma conta da vivência da platéia de um show do Jimi Hendrix Experience ou de Janis Joplin e o Big Brother Co. em pleno “Verão do Amor”. É aquela vivência que nos faz transcender a jaula do ego, rumo à inenarrável e estarrecedora experiência de estar acompanhados sob as estrelas, queimando sob o Sol, “todos juntos reunidos numa pessoa só” (como canta Arnaldo Baptista em canção d’Os Mutantes).

Os viventes precários que somos, que tentam somar e solidarizar-se, porém tanto separam-se e segregam-se, podem estar boquiabertos ou apáticos diante dos mistérios do mundo e de nossos vínculos secretos, com ele, mundo, e uns com os outros; a dança, a música e os estupefacientes são o caminho, o tao, uma maneira eficiente através da qual as culturas vão em busca de fazer acontecer o êxtase comunal. São técnicas para a realização das utopias, e não sua mera espera passiva. São técnicas do êxtas que hoje tem o auxílio da eletricidade, do ciberespaço, dos mega-amplificadores, das salas de cinema digital, de todo o aparato tecnológico-científico ainda tão desperdiçado com a estupidez bélica hi-tech… Invistamos, pois, nas arcaicas técnicas do êxtase!

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“A dança grupal é a grande niveladora e conector das comunidades humanas, unindo todos os que participam no tipo de communitas que Turner encontrou nos rituais nativos do século XX. (…) Submeter-se corporalmente à música por meio da dança é ser incorporado por uma comunidade de uma maneira muito mais profunda do que o mito compartilhado ou os costumes comuns podem atingir. Nos movimentos sincronizados com o ritmo da música ou de vozes que cantam, as rivalidades mesquinhas e as diferenças de facções que podem dividir um grupo são transmutadas em uma inofensiva competição de quem é o dançarino mais hábil… “a dança”, como coloca um neurocientista, é a “biotecnologia da formação do grupo.”

Desse modo, grupos – e os indivíduos que os constituem – capazes de se manter juntos por meio da dança teriam possuído uma vantagem evolucionária em relação aos grupos ligados por laços menos fortes. (…) Nenhuma outra espécie jamais conseguiu fazer isso. Pássaros têm suas músicas características; vagalumes podem sincronizar a luz que emitem; chimpanzés às vezes podem bater os pés juntos e balançar os braços fazendo algo que os etologistas descrevem como um “carnaval”. Mas, se quaisquer outros animais conseguiram músicas e se mover em sincronia com ela, mantiveram esse talento bem escondido dos humanos.” (EHRENREICH, 2006, p. 37, trad. Julián Fuks)

A dança e a música, apesar de reduzidas, nas idéias estreitas de muitos de nossos contemporâneos, a meras mercadorias ou a reles entretenimentos, são algo que conecta-nos, hoje, à arcaica e ancestral peculiaridade humana, no seio da natureza, que é o fato de estarmos em busca de collective joy, êxtase comunal ou coletivo. Este é um fio que atravessa a história da espécie e que é inapagável, inextipável, incapaz de ser assassinado por quaisquer repressões autoritárias. É uma força resiliente, que sobrevive a todos os tiranos, e que têm como um de seus símbolos mais memoráveis, na história da arte, a batalha épico-trágica das Bacantes com o tirano de Tebas, Penteu, na peça de Eurípides.

As Bacantes, mais do que apenas uma obra-prima da dramaturgia universal, pode ser debatida como documento histórico, etnográfico, transmutado em obra-de-arte pelo engenho daquele que foi, com Ésquilo e Sófocles, um dos autores de dramas que sobreviveu a 25 séculos de transmissão histórica, da Grécia de IV a.C. até o Bixiga paulistano deste 2017 depois do Nazareno. Algo há aí, na resiliência de As Bacantes, na sua capacidade de manter-se com um monte a dizer e ensinar aos nossos próprios tempos, que explica como José Celso Martinez Côrrea pôde reativar a potência da peça nestes anos de 2016 e 2017, com os resultados acachapantes e geniais que já nos acostumamos a esperar do Teatro Oficina, Uzyna Uzona.

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O Teatro Oficina é uma pérola refulgente neste pântano esmerdeado de nossa lambança nacional. É resistência e celebração – arte reXistente – que ativa um cyber-terreiro, uma arena-dionisíaca, um microcosmo-da-utopia, onde o Brasil mostra ao mundo o que tem de melhor: a exuberância irreverente de um povo que ginga em busca de um êxtase coletivo, traçando seu próprio caminho, no ritmado enraizado que lhe infundiram séculos de miscigenação e convívio entre gente de culturas do mais pluridiverso colorido.

Nas peças do Oficina, aparece sempre – mesmo quando trata-se de adaptações de autores gringos como Antonin Artaud (Para Dar Um Fim No Juízo De Deus) ou Schiller (Os Bandidos) – dá as caras um Brasil que está sempre recaindo em antagonismos, em querelas, em ríspidas lutas e mortíferas guerras.

As bacantes brazucas nunca podem celebrar em paz, pois são, a despeito de suas vontades, empurradas para uma arena de combate (ah, tiranos! elas só queriam beber vinho, dançar, celebrar! Por que cabeças teriam que rolar?!?); as mênades, proto-hippies da paz e do amor, dançantes e cantantes, re-ativadoras da força sempiterna do conatus, chocam-se contra os poderes do autoritarismo puritano e seus braços armados. A resiliência, a capacidade de sobrevivência da peça de Eurípides – vivíssima no Brasil de 2017! – está também na persistência. no nosso processo histórico, da batalha que o aquele fight – Bacantes versus Penteu – simboliza.

A utopia que vem conectada ao trampo do Oficina ou à antropofagia de Oswald de Andrade, empreendimentos de sintonia íntima, tem a ver com um renascimento do dionisismo, ou seja, de uma cultura onde a celebração coletiva, a alegria dos vínculos estabelecidos sobre as ruínas da egolatria, seja mais potente do que a cultura, imposta de cima pra baixo com a voz grossa e bruta do Patriarcado repressor, que manda sempre postergar todos os gozos, desistir de campanhas inovadoras ou revolucionárias, conformar-se com a monocromia de uma vida cinza, de tédio e monotonia, de servil obediência aos que mandam mortificar a carne e sacrificar o presente, em nome de um tíquete de entrada prum futuro paradisíaco no além-túmulo…

As bacantes – mulheres que saem dos trilhos da cotidianidade, deixando suas posições obedientes na hierarquia de comando masculinista, machista, autoritária… – e vão para a floresta, não só para fugir por um pouco da dureza do dia-a-dia, mas para celebrar a existência e a liberdade, para buscar a força em uma imersão num coletivo que, com forças reunidas, pode muitos, mas muuito mais, do que qualquer indivíduo solitário, por mais fortão e musculoso que seja. A ética e a estética homéricas, que celebram em Aquiles ou Ulisses um heroísmo muito marcado pelas fúrias bélicas, têm nas bacantes, nas celebrantes dionisíacas, nas mênades dançantes e de cabelos esvoaçantes, a celebração da paz, não da guerra; da harmonia e da sincronia, não do antagonismo; do êxtase, não do massacre.Nietzsche

“Friedrich Nietzsche, o clássico indivíduo solitário e atormentado do século XIX, talvez tenha entendido a terapêutica do êxtase melhor do que qualquer outro. Em um tempo de celebração universal do ‘eu’, ousou falar sobre o ‘horror da existência individual’ e vislumbrou o alívio nos antigos rituais dionisíacos que só conhecia por meio de leituras – rituais em que, ele imaginava, ‘cada indivíduo não apenas se reconcilia com o outro, mas une-se a ele – como se o véu de Maya tivesse sido rasgado e só restassem retalhos flutuando ante a visão de uma Unidade mística. (…) Cada um sente a si como a um deus e caminha a passos largos com o mesmo júbilo e o mesmo êxtase dos deuses que viu em seus sonhos.” (EHRENREICH, op cit, pg. 184)

Zé Celso e sua trupe são no país aquelas forças que com mais exuberância servem como porta-vozes destas idéias, entremescla de Nietzsche com Oswald de Andrade, de Artaud com Brecht, e apesar do impiedoso tempo que nos arrasta à velhice e ao inevitável túmulo esta figuraça quintessencial de nossa cultura parece continuar em eterno verão – para citar o título de excelente reportagem e entrevista do El País:

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Um dos grandes mestres do teatro brasileiro está prestes a completar 80 anos. Lúcido, sorridente, atuante. Muitos se perguntam qual é o segredo de José Celso Martinez Corrêa (Araraquara, 1937), o Zé Celso, para preservar tamanha energia e criatividade depois de 58 anos à frente do icônico Teatro Oficina – símbolo de resistência artística (e política) cravado no Bixiga, em São Paulo. Mas a verdade é que desse “xamã do teatro”, como ele gosta de se definir, não há segredos para se arrancar. Na entrevista concedida ao El País com os pés ao alto, em meio a uma nuvem de erva queimada, o dramaturgo vestido de um branco alvo como os fios de seus cabelos mostra que não tem assuntos proibidos, respondendo a esta altura da vida com voz suave tudo o que lhe é indagado. Isso, sim: sem fim, nem começo e pelos caminhos que lhe parecem.

A um desses caminhos ele volta sempre: a encenação de Bacantes, o clássico grego de Eurípedes montado pela primeira vez no Oficina em 1995 (em versão brasileira do diretor, no gênero “tragicomédia orgia”), que reestreou no Sesc Pompeia e logo passou ao Bixiga em outubro de 2016. A peça, de quase seis horas e com 52 atuadores em cena, reconstitui o ritual de origem do teatro na Grécia em 25 cantos e cinco episódios e tem música composta por Zé Celso (que também assina autoria e direção).


Encenada como ópera de Carnaval para cantar o nascimento, morte e renascimento de Dionísio, o deus do teatro, do vinho e das festas, ela tem lotado a casa tanto com habitués, como com novos assistentes – atraídos pela nudez libertária do elenco e às vezes também do público, pela genialidade do diretor, pela história ou por tudo ao mesmo tempo. A ideia é que os espectadores se integrem ao bacanal, e alguns deles terminam despidos pelos atores. Na primeira versão, isso aconteceu com Caetano Veloso. Por causa do sucesso orgiástico de Bacantes, Zé Celso ganhou ainda mais força e voz, voltando à carga em seus temas preferidos: teatro, política e xamanismo – que para ele são um só.

Para Zé Celso, duas coisas podem salvar o país da crise política em que começou a mergulhar em 2014: o xamanismo, claro, e a arte. O que ele procura é juntar as duas coisas, rumo à “revolução cultural” que o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica prega como a única saída para esses tempos obscuros.” (MORAES, Camila. O Eterno Verão de Zé Celso. El País.)

* * * * *

II. VIVACIDADE DA ANTROPOFAGIA OSWALDIANA

Oswald e Oficina

“Todas as nossas reformas, todas as nossas reações costumam ser feitas dentro do bonde da civilização importada. Precisamos saltar do bonde, precisamos queimar o bonde.
OSWALD DE ANDRADE, “Contra Os Emboabas” (via Bia Azevedo, p. 68)

Se digo que 2016 não foi de todo um ano catastrófico neste país golpeado e achincalhado por suas escrotas elites canalhocratas, mas teve sim seus esplendores e glórias, é pois a nossa arte e nossos artistas mais relevantes e geniais não nos decepcionaram. Em 16 de Abril de 2016, na véspera da votação do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, então presidida por Eduardo Cunha, estivemos na peça do Teatro Oficina, Para Dar Um Fim No Juízo De Deus. 

Saí do teatro de alma lavada e com os ímpetos dionisíacos re-turbinados, orgulhoso dos artistas desta terra e certo de que a política, enfim, não é tudo – que um lamaçal ético sem fim, na Esplanada dos Ministérios, não impede a refulgência de uma contracultura que não se cala, que manifesta-se com exuberância, que abraça a resistência com todo a verve, todo o ímpeto, toda interconexão de uma trupe de mênades e sátiros. E, além disso, saí do teatro com a impressão de ter vivenciado uma imersão não só no universo de Artaud, mas, é claro, no de Oswald de Andrade, constantemente evocado por Zé Celso e sua trupe. Desde os anos 1960, quando encenou O Rei da Vela, o Oficina tem sido talvez o mais resiliente e fiel coletivo que honra o legado da utopia antropofágica oswaldiana.

Também em 2016, caiu no mercado um livro – Antropofagia: Palimpsesto Selvagem, de Beatriz Azevedo – que foi de imediato saudado por Eduardo Viveiros de Castro como “destinado a se tornar referência obrigatória para todo estudioso da obra deste que é, sem a menor sombra de dúvida, um dos maiores pensadores do século XX”. Viveiros de Castro pode até soar hiperbólico em seu elogio a Oswald como figura crucial no panorama do conhecimento global no século que se acabou, mas isto mostra o quanto este pensamento, longe de ser paroquial ou nacionalista, pode ser também uma espécie de produto de exportação autenticamente original gestado e gerado no solo fecundo da cultura brasileira. Queimando o bode da submissão e da subserviência às civilizações importadas e imperialistas.

Quem enxergou isso muito bem, como lembra Bia Azevedo, foi o Roger Bastide, sociólogo francês,  que lecionou na USP e publicou em 1950 o livro clássico Brasil: Terra de Contrastes: “Oswald devora as teorias estrangeiras como a cidade devora os imigrantes, transformando-os em carne e sangue brasileiros.” (BASTIDE, apud Azevedo, p. 70) O antropófago Oswald “comeu” toda a diversidade das culturas estrangeiras, mas na hora do vamos ver foi lá e criou algo de novíssimo, algo de revolucionário. “O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro afirma que ‘a Antropofagia Oswaldiana é a reflexão metacultural mais original produzida na América Latina até hoje. Era e é uma teoria realmente revolucionária.” (VIVEIROS DE CASTRO, apud Azevedo, p. 24)

A antropofagia é descrita como utopia no título de um dos livros de Oswald que a Ed. Globo recolocou no mercado e que traz textos clássicos como A Crise Da Filosofia Messiânica. Filosoficamente, Oswald tinha muitas similaridades e alianças com o pensamento de Nietzsche, e pode-se dizer que a antropofagia dialoga com o “dionisismo” como este aparece na obra do autor de Assim Falava Zaratustra. Oswald também é um crítico mordaz da civilização ocidental racionalista e repressora, que dá todas as honras a Apolo, a Sócrates, a Descartes, soltando os cachorros de sua feroz repressão contra Dioniso, contra Baco, contra mênades e bacantes, contra feiticeiras e heréticos… Oswald defende o caminho da “valorização do lúdico e da arte”, aproxima-se das teses de Huizinga em Homo Ludens no que diz respeito à presença em todas as culturas, de quaisquer latitudes e longitudes, da “constante lúdica”:

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“O inexplicável para críticos, sociólogos e historiadores, muitas vezes decorre deles ignorarem um sentimento que acompanha o homem em todas as idades e que chamamos de constante lúdica. O homem é o animal que vive entre dois grandes brinquedos – o Amor onde ganha, a Morte onde perde. Por isso, inventou as artes plásticas, a poesia, a dança, a música, o teatro, o circo e, enfim, o cinema.” – OSWALD DE ANDRADE, “A Crise da Filosofia Messiânica” (Globo, 2001, p. 144)

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por Eduardo Carli de Moraes, Goiânia, Fevereiro de 2017
A ser continuado….


SIGA VIAGEM:

CONFLUÊNCIAS - Festival de Artes Integradas. Evoé Café Com Livros, 26/02, 17 horas. Com Luiza Camilo, quinteto Cocada Preta, Lua Plaza, Morgana Poiesis, além de discotagem e feirão de livros.

CONFLUÊNCIAS – Festival de Artes Integradas. 2ª Edição: Evoé Café Com Livros, Domingo, 26/02, a partir das 17 horas. Com poesia encenada e pocket show com Luiza Camilo, show percussão-e-coral com o quinteto Cocada Preta, exposição de artes visuais da Lua Plaza, performance poética de Morgana Poiesis, além de discotagem e feirão de livros. Página do evento @ Facebook Brasil.


COMPRE NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO:
Maria Augusta Foncesa – Oswald de Andrade (Biografia)

oswald-bioA editora Globo acaba de relançar – depois de revista e atualizada pela autora – a mais importante biografia de um dos maiores nomes da cultura brasileira moderna. Oswald de Andrade: biografia é obra de Maria Augusta Fonseca, que vem se dedicando há décadas à vida e à obra do grande modernista. Um dos maiores nomes da cultura brasileira, e não somente da literatura, porque Oswald de Andrade foi um daqueles raros homens certos no lugar certo na hora certa: nas palavras de Antonio Candido, “sua personalidade excepcionalmente poderosa atulhava o meio com a simples presença.” Esse meio era o da provinciana vida cultural brasileira do começo do século XX, que Oswald de Andrade ajudaria a ir ao encontro do mundo moderno.

LIVRARIA A CASA DE VIDRO: Promoção: livros do poeta Alexei Bueno, “A Juventude dos Deuses” e “Entusiasmo” por R$9,90 cada

“Há duas definições de poesia que sempre nos pareceram, no limitado de toda definição, das melhores possíveis. Diz a primeira: a poesia é uma indecisão entre um som e um sentido. Afirma a segunda: a poesia é a arte de dizer apenas com palavras o que apenas palavras não podem dizer.” – In: Uma história da poesia brasileira, prefácio de

ALEXEI BUENO

Alexei Bueno (Rio de Janeiro, 26 de abril de 1963) é um poeta, editor e ensaísta brasileiro. Colabora em diversos órgãos de imprensa no Brasil e no exterior, é membro do PEN Clube do Brasil, e foi, de 1999 a 2002, Diretor do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC) do Rio de Janeiro, e membro do Conselho Estadual de Tombamento.

Como editor organizou, para a Nova Aguilar, a Obra completa de Augusto dos Anjos (1994), a Obra completa de Mário de Sá-Carneiro (1995), a atualização da Obra completa de Cruz e Sousa (1995), a Obra reunida de Olavo Bilac (1996), a Poesia completa de Jorge de Lima e a Obra completa de Almada Negreiros (1997), a Poesia e prosa completas de Gonçalves Dias (1998), além de uma nova edição da Poesia completa e prosa de Vinicius de Moraes, no mesmo ano, e a Obra completa de Álvares de Azevedo (2000). Publicou, pela Nova Fronteira, uma edição comentada de Os Lusíadas (1993) e Grandes poemas do Romantismo brasileiro (1994).

Traduziu para o português As quimeras, de Gérard de Nerval, editado pela Topbooks, também com edição portuguesa. Traduziu igualmente poemas de Poe, Longfellow, Mallarmé, Tasso e Leopardi, entre outros. Digna de nota sua tradução de O Corvo (The Raven) de Edgar Allan Poe, “grande desafio para os tradutores de poesia, pelo seu extremo virtuosismo formal”,[1] poema que já havia sido traduzido para o nosso idioma por “monstros sagrados” como Machado de Assis e Fernando Pessoa e que integra sua coletânea Cinco séculos de poesia. [SAIBA MAIS NA BIO @ WIKIPÉDIA]


Na Livraria A Casa de Vidro, adquira:

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A Juventude dos Deuses (1996)

Do prefácio de Antônio Carlos Secchin:

Um dos eixos de “A Juventude dos Deuses” é o desejo irrefreado de querer saber, e o alto preço a ser pago na empreitada – verdadeira convocação dos riscos de um saber vital e mortal, áspero roteiro rumo ao conhecimento: conhecer é abismar-se no real. Não se pode entrar a passeio nas páginas dessa Juventude. Elas nos demanda a aventura, o salto, a vertigem para o espaço insuportável do ignorado, armados apenas de um controle – literalmente – remoto de uma realidade que supúnhamos domesticada e constituída.


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Entusiasmo (1997)

“Tocado por Entusiasmo, proclamo: Alexei Bueno sabe que sabe helenizar o Rio de Janeiro. (…) Sem se abrigar no porto seguro dos velhos metros, demonstra uma síntese insuperável de Apolo e Dioniso (ou será Mallarmé e Rimbaud?) porque Bueno sabe se descartar da síndrome de antiquário e buscar os rugidos das altas febres e das altas inquietações. (…) Aqui advirto: Alexei, possuído por deuses diversos, identificando-se com o mendigo conspurcando as esquinas do centro do Rio, não pratica poesia-perfumaria. Paradoxal elegia e ode, agonia e euforia da perda do eu, poesia de substância espermática: Entusiasmo, o produto garante o nome.” (Waly Salomão)


ASSISTA TB:

Acesse na Estante Virtual: 

A Juventude dos Deuses (1996) [R$9,90 + frete]

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Foto do início do Post: Travessa – Alexei Bueno e Flavia Portela no lançamento da obra “Rio Belle Époque”

“PRAGA” – por Ceumar (de Luiz Tatit e Dante Ozzetti) #SeLigaNoSom!

“PRAGA”
Cantada por Ceumar
Composição de Luiz Tatit e Dante Ozzetti
Do álbum Achou

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Como que cê fala que eu tô fadada
a ser um monstro que eu não sou?
Como que cê fala que sou bruxa,
toda estrupiada, se eu não sou?
Você fala tanto que até sinto que
deu bruxa em mim, como eu sei?
Fiquei ruim

Como que cê fala que sou matraca,
grilo falante, se eu não sou?
Como que cê fala que sou praga
de urucubaca se eu não sou?
Você fala tanto que até sinto que
deu praga em mim, agora eu tô que tô assim

Vem ver: a bruxa baixou
tudo broxou, manchou a paz
Sim, o monstro mostrou
antros da dor, mantras fatais
Sim, matraca atracou
tudo entregou, falou demais
Viu, a praga pregou
E não desprega mais!