“ELA DESATINOU, DESATOU NÓS, VAI VIVER SÓ…” – Experiências em Confluências: Camille Claudel via Não Me Kahlo + Francisco El Hombre

Camille Claudel (1864 —1943)


Coletivo Não Me Kahlo: “Por séculos, mulheres que não se encaixavam no ideal de docilidade foram diagnosticadas com uma condição chamada histeria feminina.

A palavra histeria tem origem no termo grego para ‘útero’, órgão que era considerado a causa da patologia. Durante séculos, o desconhecimento sobre o corpo da mulher levou médicos a acreditarem que o útero se movimentava – em livro de 1609, Libaud escreveu até que ele chegava a subir aos pulmões e à cabeça. A histeria era chamada de ‘sufocação da matriz’ – a matriz sendo o útero -, e acreditava-se que o fato de a mulher ficar muito tempo sem ter filhos poderia ser uma de suas causas.

Como tratamento, sugeria-se a manipulação da vagina e do clitóris pelo marido da mulher diagnosticada ou, caso isso não desse certo, pelo médico, que devia masturbar a paciente até que ela atingisse o orgasmo – assim, acreditava-se, ela ficaria mais calma. O primeiro vibrador, patenteado em 1869, foi criado por um médico norte-americano com o objetivo de tratar a histeria e ‘aliviar’ os homens dessa tarefa.

Apesar da vinculação da histeria a causas biológicas, o que se observava, na verdade, era que usava-se a histeria, muitas vezes, como forma de tornar patológicos comportamentos femininos que fugissem às normais sociais da época, posturas consideradas indevidas para uma mulher.

Foi o que aconteceu com Camille Claudel, internada à força pela família em um manicômio, onde passou 29 anos. Segundo Daniela Lima, ela manchou a honra da família por não ter se casado nem tido filhos e por ter se dedicado à escultura, um ofício na época considerado masculino.

O que alegava seu atestado de internação? Basicamente que Camille era relapsa com a aparência, as roupas e os sapatos e que vivia sozinha com muitos gatos. Ela era, como diz Daniela, um mau exemplo para as mulheres à sua volta.

‘Mulheres eram internadas pelos mais variados motivos: engravidar indevidamente, gastar muito dinheiro, estar desempregada e – ainda mais violento – por um simples pedido da família. Na loucura, parecia caber tudo aquilo que era desviante à média ou à norma. (…) Quando Camille transgrediu os estereótipos de gênero de sua época, revelou mecanismos de poder que fabricam estes estereótipos. Era um exemplo perigoso para outras mulheres. Portanto, tentaram corrigir violentamente sua anormalidade. O que define o anormal é que ele constitui, em sua existência mesma, a transgressão de leis invisíveis da sociedade, leis que são naturalizadas.’ (LIMA, Daniela)

Embora hoje a medicina não mais reconheça a histeria feminina, as expressões de raiva das mulheres continuam a ser associadas a seu ciclo reprodutivo e à sua sexualidade. Não raro, nossa revolta diante de atitudes machistas, por exemplo, é atribuída à tensão pré-menstrual ou a uma suposta falta de sexo, a fim de desvalidar nossas críticas.”


Trechos do livro “#MeuAmigoSecreto – Feminismo Além Das Redes”, Edições de Janeiro, 2016, pg. 20-21.

COMPARTILHAR NO FACEBOOK

Leia também: http://www.hypeness.com.br/2017/04/ofuscada-por-rodin-e-pelo-machismo-finalmente-camille-claudel-ganha-seu-proprio-museu/

http://creatureandcreator.ca/?p=854



Francisco, El Hombre
Triste, Louca ou Má

Triste, louca ou má
será qualificada
ela quem recusar
seguir receita tal

a receita cultural
do marido, da família.
cuida, cuida da rotina

só mesmo rejeita
bem conhecida receita
quem não sem dores
aceita que tudo deve mudar

que um homem não te define
sua casa não te define
sua carne não te define
você é seu próprio lar

que um homem não te define
sua casa não te define
sua carne não te define

ela desatinou
desatou nós
vai viver só

eu não me vejo na palavra
fêmea: alvo de caça
conformada vítima

Prefiro queimar o mapa
traçar de novo a estrada
Ver cores nas cinzas
E a vida reinventar.

e um homem não me define
minha casa não me define
minha carne não me define
eu sou meu próprio lar

ela desatinou
desatou nós
vai viver só


SIGA VIAGEM:

CARNE DOCE
“Falo” (Salma Jô)
Do álbum Princesa (2016)

SE LIGA NO SOM! – Jazz Liberatorz, Rincon Sapiência, Seun Kuti, Lenine, Madlib, Tássia Reis, A. Nóbrega, Francisco El Hombre e muito mais… [#1]

SE LIGA NO SOM!

Por Eduardo Carli de Moraes

Sou o tipo de criatura tão fissurada em música, o mais delicioso de todos os vícios, que dou razão à hipérbole Nietzschiana: “sem música, a vida seria um erro”. É como se a existência perdesse em qualidade e deleite sempre que o ar ao redor não está animado e vivificado com o som e o sentido (para lembrar a obra do mestre Wisnik) criados pela musicalidade humana em sua infinita inventividade.

No dia a dia, além de aprendiz de músico que arranha uns instrumentos de corda (violão, guitarra e ukelele) e assopra uma gaitinha, também compartilho várias canções e videoclipes na página d’A Casa de Vidro no Facebook, pondo na roda de convivas algumas das sonzeiras que tem encantado meus dias, compartilhando os meus pet sounds como uma espécie de radialista ou DJ da web.

Na série de posts que agora se inaugura e que escolhi intitular Se Liga No Som! em homenagem ao livro de Ricardo Teperman, que adoro e com o qual muito aprendi – planejo coletar num “postzão” os vários “postzinhos” dispersos pela página do FB. Pelo menos uma vez por mês, deve pintar aqui em www.acasadevidro.com uma nova “coletânea digital” com o que mais tem encantado meus tímpanos e instigado minha reflexão em termos de produção musical. Ofereço também alguns humildes comentários e pitacos que visam contextualizar as obras e esclarecer um pouco as razões que tenho para admirá-las, curti-las e recomendá-las.

Por hora, este é um catálogo de sons de estimação e estou me abstendo daquele viés da crítica musical que consiste em descer o cacete naquilo que a gente não gosta. Em futuras edições, talvez, eu me aventure à arte de falar mal daquilo que ofende meus ouvidos e que me parece enveredar por rumos lastimáveis. Por hora, convido a todos a subirem o volume e embarcarem em viagens nas asas do som, convocando à comunhão musical na vibe de alguém que chega a um amigo, na empolgação de uma fissura vigente, e diz: “pira nesse som!” ou “cê tá ligado nesta banda?”


CONEXÃO AFROBEAT TROPICAL

É hora da conexão Brasil / Nigéria nas Aerolíneas A Casa de Vidro: basta dar um play e viajar sônicamente na companhia do filho caçula do mito Fela Kuti, fundador e pioneiro do Afrobeat. Em “Black Woman”, cujo clipe foi inteiramente filmado em solo brasileiro, Seun Anikulapo Kuti e a banda Egypt 80 celebram o “black power” unido ao feminismo. Reverenciam não apenas suas mais célebres encarnações – Nina Simone, Angela Davis, Maya Angelou etc. -, mas também a cotidianidade do “struggle” e da “strenght” da mulher negra “comum”, que com tanta frequência encara uma vida em que é um espetáculo invisível de força, perseverança, fortitude…

ASSISTA O CLIPE:

“Black Woman”, com seus metais calientes, seus coros femininos, seu neo-Afrobeat de impecável apelo transcontinental, suas imagens de exuberância tropical e feminilidade em efervescência, parece-me que serve também para abrir novos horizontes para a arte do videoclipe filmado no Brasil no âmbito da música global.

Desde que Spike Lee subiu o morro com Michael Jackson – este último vestindo uma camiseta da Banda Olodum Samba Reggae – para filmar o clipaço de “They Don’t Care About Us”, atualmente com “apenas” 350.000.000 views no Youtube, tenho a impressão que o Brasil pode ser um “point” global para o avanço da arte da videoclipagem. Assistir aos trabalhos audiovisuais de um rapper como Rincon Sapiência (“Meu Bloco”, por exemplo) só fortalece essa impressão.

Para bombar esse cenário da afrolatinidade, resistente, em expressão transcultural e cosmopolita, como fazem Seun Kuti e Rincon Sapiência, como fez Spike Lee em seu joint-clipe, turbinemos a conexão com o Atlântico Negro (brilhantemente analisado por Paul Gilroy), seu passado, seu presente e sua futuridade! Esta aí, quem sabe, a mais fecunda fonte para a cultura brasileira seguir efervescendo e propondo caminhos inovadores para o resto do mundo. Nosso pioneirismo será estético ou não será!

“I write this song for you
(Black woman)
And I see everything you go through
(Black woman)
I see your tears and your joy and your pain and your fears
(Black woman)
And your strength to endure all the beatings and the war
(Black woman)
That’s why me respect you
and I believe in you and I see your struggle
I never fear your strength…”
Seun Kuti

BIOGRAFIA SEUN KUTI: http://www.allmusic.com/ar…/seun-kuti-mn0000999541/biography

 


LIBERTANDO O JAZZ PARA TRANSAS HIP

O trio francês Jazz Liberatorz, neste impressionante disco “Clin D’oeil” [literalmente, Pisco d’Olho] (2008), insere o jazz na era do movimento hip hop, libertando a tradição de quaisquer amarras dogmáticas e livrando o caminho para interessantes fusões. No Brasil, também tem gente explorando este casório: é só pensar em Tássia Reis e seu “Rap Jazz”  (veja o clipe abaixo) ou no radical fusion tropical do Metá Metá – Juçara Marçal pode não ser uma rapper, mas seu verbo está tão enraizado de ancestralidade que evoca, de fato, toda a história da expressão artística proveniente da diáspora pelo Atlântico Negro (cf. Gilroy).

Sobre esta bolacha do Jazz Liberatorz (dê o play abaixo), lê-se na AllMusic: “The album reclaims the brief love affair between hip-hop and jazz that took place in the U.S. in the mid-’90s, using deep basslines, sampled horns, and beat poet-styled phrasings from a slew of guest MCs. The sound is ultra-cool, combining European hip-hop’s love of slicker, more urban beats with the simplest jazz instrumentation — atomic chunks of sound and songs that are reworked to soften the edges of a rapped delivery and convert it to a strong flow through sheer musicality.” (Adam Breenberg)

COMPARTILHAR POST NO FACEBOOK


RITMO E POESIA: O VERBO QUE JOGA E DANÇA

Um artista que desponta no cenário hip hop brasileiro encarna à perfeição a união entre ritmo e poesia que, segundo a lenda, batizou o estilo musical rap (rhythm and poetry): Rincon Sapiência chega para mostrar toda a exuberância de um verbo que joga e dança, dando prosseguimento aos experimentos percussivos-linguísticos brilhantes de seus contemporâneos mais ilustres em terra brasilis, Criolo e Emicida. Rincon é de fato muito bom de rima, desliza bonito no flow e não deixa a contundência de sua mensagem impedir a manifestação de um senso de humor afiadíssimo e de uma miríade de referências. Estamos na era da música linkada e em cada uma de suas composições, repletas de fato duma Sapiência colhida em suas vivências como artista periférico e poeta dos guetos, Rincon ascende como uma das figuras que mais impressiona na nossa música. Um tiragosto:

LINHAS DE SOCO, de Rincon Sapiência [FB]

“O rap me deixa alto, tipo THC
E o palco é o octógono do UFC
A batida é um soco, rap, a voz da plebe
No flow, deslancho, tipo um gancho, um jab
Na rima, Jackie Chan, na Hora do Rush
E a dama pensando em mim, bem na hora do blush
Um trato nas duas, diz que me ama, idem
Fiel e amante, aí vocês decidem
Sem teclados, mouse, tive meu panorama
Lan house, não, sou do tempo do fliperama
Bote a ficha e jogue, muito antes dos blogs
Dava a cara a tapa e batia feito Balrog
Tipo GOG, rolo compressor passando
Eles ficam grogue, vendo estrelas girando
Linhas de soco, minha poesia irônica
Microfone é que nem o coelho na mão da Mônica
Corre, Cebolinha, ataco!
Se passam por malacos, mas escrevendo linhas são flacos
Cômico, rap chapa, hidropônico
Fome de rima, overdose de Biotônico
Queremos o “faz-me-rir”, então, corra
Mas, por enquanto, é só piada do Zorra
E nóis segue, assim, na humilde
Sem aquele “faz-me-rir”, estilo Mussum, cacildis
Ó, meu dom nas ruas se exibe
Tipo rei Roberto no calhambeque, bi-bi
Tô quebrando grilhões, mesmo sem os milhões
MCs Trapalhões, Dedé e Didi
Opiniões divide, ataques, revides
Meu corpo é fechado, eu sou que nem Thaide
Ouvidos são profundos, penetro que nem Kid
Sou raro, que nem os paletós no meu cabide
Vide bula, playboy, na moral
Rap tarja preta, efeito colateral
As cores no visual, que nem graffiti do OPNI
Dois tipos de MC, eu sou que nem um OVNI
Vou passeando nos discos, marciano
É a lua e eu, que nem Cassiano
Língua afiando, línguas fatiando
Dom é como vinho, deixe que passem anos
Mando o papo quente, não levo desaforo
Rap sem calor, não passam de calouros
Cuspo fogo, Dhalsim, no Street Fighter
Rap light, mas mata que nem Marlboro
Choro, o racista de olho vermelho
Nem olha no meu olho, eu sou que nem um touro
Hip-hop é a clínica onde fui internado
Música no sangue, África no soro
Sem jaco de couro, aqui estou
Na pegada punk, que nem Sex Pistols
Batida, rima, DJ e um bom flow
Quatro integrantes clássicos, que nem os Beatles
Longe da música, saudade, eu fico como?
Inseparáveis, como Lennon e Yoko Ono
Roube a música de mim, se quiser uma guerra
Não vai ter paz pelo Papa e nem pela ONU
O mundo não tem dono, Sampa não tem sono
Microfone broca, pistas eu detono
Na ZL, rap ruim, isso eu questiono
Xis é rei e eu serei sucessor do trono
Cena rap Malhação, isso eu cancelo
Minha cena é preta, clássica, Grande Otelo
Sem estresse, trabalho só me engrandece
Que nem Super Mario, depois do cogumelo!”

VEJA TAMBÉM:


EXCURSOM DO MADLIB PELO BRASIL 

“Me vê uma viagem sonora gratuita pela multidiversa musicalidade do Brasil, DJ!” É pra já; suba o volume e embarque nesta excitante excursom turística do Madlib:

 Flight to Brazil é um incrível álbum/mixtape, lançado em 2010, de 1h 20 min, parte da série “Madlib Medicine Show” – Número #2, assim resenhado por Thom Jurek:

“Madlib goes all out — all the way out — on this platter: there are elements of MPB, early folk styles and field recordings, funk, jazz, psychedelia, tropicalia, carnival, forro, bossa nova, samba, Afoxe, and more, from Brazilian sources. In addition to the killer found sounds from his four-ton stack of vinyl, the mad mixer produces a truckload of new beats and creates wave upon wave of phased atmospheres and textures to accent what he samples. His manner of taking recordings and artists and juxtaposing them to create something new is his trademark. Examples are as rich as segments of Hermeto Pascoal’s Slaves Mass against a track by O Quarteto from 1969, then adding a bit of trippy guitar, three different rhythm tracks, a flute solo by Carlos Jimenez, and some of Moacir Santos’ Opus 3, before touching on Emilio Santiago, Maria Bethânia, and on and on and on. There are psychedelic rock groups here whose music we may never hear anywhere but here, as well as some we already know — Som Imaginario, Modulo 1000, Inferno No Mundo, and many others. The entire thing is a wild head and heart trip, saturated in gorgeous melodies, killer, slippery rhythms, and sonics that are so spaced out, they could only occur on one of Madlib’s recordings. This second volume is more of a treat than its predecessor, perhaps because of, rather than in spite of, its exotic point of departure. This is a spliffed-out joy to listen to. Fans of Madlib’s more jazz-oriented modes may dig this a bit more than those who dig the hard-edged beats, but this is an adventure to appreciate as much for its ambition as what it offers.”

TRACKLIST >>>

Rio De Janeiro 0:00
Sao Paulo 12:13
Belo Horizonte 19:19
Porto Alegre 27:31
Salvador 33:16
Recife 40:43
Fortaleza 53:23
Brasília 1:04:24
Curitiba 1:14:20

COMPARTILHAR NO FB


EN VIVANT – Grandes álbuns ao vivo

Odetta at Carnegie Hall (1960, Show Completo, 44 min)

“A towering figure of folk revival and Civil Rights Movement, the African-American singer-songwriter provided voice for the voiceless.” – AllMusic: http://www.allmusic.com/artist/odetta-mn0000888730/biography


UM SAMBA DE BOTECO

“Vou de boteco em boteco
Bebendo a valer
Na ânsia de esconder
As dores do meu coração

Conselhos não adiantam
Estou no final
Perdi o elã, perdi a moral
Meu caso não tem solução

Eu bebo demais pro meu tamanho
Arranjo brigas e sempre apanho
Isso me faz infeliz

Entro no boteco
Pra afogar a alma
As garrafas então batem palmas
Me embriago
Elas pedem bis…”

NELSON SARGENTO (FB)


“BOLSONADA”: IRREVERÊNCIAS ANTI-FASCISTAS

Duas das principais novidades do cenário musical cá de Pindorama – Francisco, el hombreLiniker e os Caramelows – juntaram suas forças irreverentes para um caliente petardo anti-fascista, “Bolsonada”. Presente no álbum Soltasbruxa, vemos nesta canção de bem-humorada contestação todo uma atitude que realiza, no campo estético, o que seria no âmbito político pura desobediência civil. Desrespeitando o “mito” da extrema-direita Brazileira, o asno vociferante Jair Bolsonaro, a música pretende reduzir a nada o discursinho de ódio, xenofobia, racismo, misoginia, armamentismo e homofobia daquele que pretende candidatar-se à presidência da República, ainda que não passe de uma caricatura grotesca de líder autoritário e desmiolado. Em um mundo em que vimos a eleição de Trump e em que a vitória da Frente Nacional de Le Pen na França é plausível, devemos ficar atentos e ativos diante da ameaça fascista que também aqui nos ronda; ao invés do militarismo do “às armas, cidadãos!”, super-estimado slogan bélico cantado na Marselhesa, sou mais um “às rimas e melodias, foliões!” Franciso El Hombre e Liniker apontam o caminho de um alegre sarcasmo, aguerrido e combativo, que faz da luta anti-fascista (por que não?) também uma festa.

“Esse cara tá com nada
sabe pouco do que diz
muito blablabla que queima quem podia ser feliz
desrespeito é o que prega
então é o que colherá!
jogo purpurina em cima
para o feio embelezar
esse cara escroto
mucho escroto!

Esse já não sei se bate bem
se é um fascista concedido
cargo alto e voz viril
vai lucrar do desespero
da loucura já civil
bolso dele sempre cheio
nosso copo anda vazio…

Mesquinhez, intolerância,
Bolsonada que pariu…

Esse cara escroto
mucho escroto!!!”

(FB)

Se a “Bolsonada” é pra embalar um quente e envolvente anarco-baile, “Triste Louca Ou Má” já é de outra vibe, uma canção e um clipes lindos de chorar. 



NAÇÃO PLURI-ÉTNICA, ARCO-ÍRIS TERRESTRE DA SOCIOBIODIVERSIDADE

Dois mestres que muito reverencio na cultura brasileira, ambos vivos e operantes, revelam em suas canções o quanto esta terra é de fato pluri-étnica, manifestação visível e audível de diversidade acachapante: Lenine e Antônio Nóbrega foram capazes de encapsular em canção aquilo que Eduardo Galeano chamou de “arco-íris terrestre”. Ouçam “Tuby Tupi” (em que Lenine brinca com o mote de Oswald de Andrade, “tupi or not tupi, that’s the question” e “Chegança” (umas das obras-primas de Nóbrega) e tenham contato com duas músicas que expressam com perfeição o conceito, tão propalado nos ideais e práticas do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, de sociobiodiversidade. 

(FB)

TUBY TUPI – Lenine

Eu sou feito de restos de estrelas
Como o corvo, o carvalho e o carvão
As sementes nasceram das cinzas
De uma delas depois da explosão
Sou o índio da estrela veloz e brilhante
Que é forte como o jabuti
O de antes de agora em diante
E o distante galáxias daqui

Canibal tropical, qual o pau
Que dá nome à nação, renasci
Natural, analógico e digital
Libertado astronauta tupi
Eu sou feito do resto de estrelas
Daquelas primeiras, depois da explosão,
Sou semente nascendo das cinzas
Sou o corvo, o carvalho, o carvão

O meu nome é Tupy
Guaicuru
Meu nome é Peri
De Ceci
Sou neto de Caramuru
Sou Galdino, Juruna e Raoni

E no Cosmos de onde eu vim
Com a imagem do caos
Me projeto futuro sem fim
Pelo espaço num tour sideral
Minhas roupas estampam em cores
A beleza do caos atual
As misérias e mil esplendores
Do planeta Neanderthal

“CHEGANÇA” – A. Nóbrega

Sou Pataxó
sou Xavante e Cariri
Ianonami, sou Tupi
Guarani, sou Carajá
Sou Pancaruru
Carijó, Tupinajé
Potiguar, sou Caeté
Ful-ni-o, Tupinambá

Depois que os mares dividiram os continentes
quis ver terras diferentes
Eu pensei: “vou procurar
um mundo novo
lá depois do horizonte
levo a rede balançante
pra no sol me espreguiçar”

Eu atraquei
Num porto muito seguro
Céu azul, paz e ar puro
Botei as pernas pro ar
Logo sonhei
Que estava no paraíso
Onde nem era preciso
Dormir para se sonhar

Mas de repente
Me acordei com a surpresa:
Uma esquadra portuguesa
Veio na praia atracar
De grande-nau
Um branco de barba escura
Vestindo uma armadura
Me apontou pra me pegar

E assustado
Dei um pulo da rede
Pressenti a fome, a sede
Eu pensei: “vão me acabar”
Me levantei de borduna já na mão
Ai, senti no coração
O Brasil vai começar


LISTAS


PSICOLOGIA DE MASSAS: VISLUMBRE DO DELÍRIO COLETIVO INDUZIDO PELA MÚSICA

Impressionante e acachapante o efeito que tem a espetaculosa “De Música Ligera”, do Soda Stereo, sobre a multidão em Buenos Aires: parece que o povo vira um megaorganismo, composto por 50.000 pessoas, saltando e delirando em uníssono. Os fãs de futebol que me perdoem, mas a música é capaz de realizar façanhas em termos de psicologia de massas que você nunca verá parecido em nenhum clássico Boca Juniors vs River Plate… (FB)


RAGIN’ AGAINST THE MACHINE

Nasceu o supergrupo perfeito para confrontar furiosamente o início da Era Donald J. Trump! Mesclando membros do Rage Against The Machine, do Public Enemy e do Cypress Hilll, nasceu o crossover de thrash metal, hip hop e punk dos Prophets of Rage. Com EP de estréia já lançado, e com Tom Morello sempre endiabrado nas seis cordas, a banda promete subverter o slogan oficial daquele fascista YanKKKe que hoje dorme na Casa Branca; eles querem botar na boca do povo um outro lema: “Make America RAGE again!”

“Prophets of Rage” (Official Video, 2016, +700.000 views)

por Eduardo Carli de Moraes – Abril de 2017


LEIA TAMBÉM EM A CASA DE VIDRO – SOBRE MÚSICA: 200 clássicos da MPB nos anos 60, 70 e 80Gil Scott-HeronNina SimoneJanis JoplinSergio SampaioBob DylanVioleta ParraFestival de Jazz de Montreal –  Bananada 2016 – Björk’s Biophilia.

A REVOLUÇÃO NÃO VAI PASSAR NA TELEVISÃO: GIL SCOTT-HERON (1949 – 2011): Discografia para download

TV Gil Scott Heron

Gil Scott-Heron

A REVOLUÇÃO NÃO VAI PASSAR NA TELEVISÃO…
por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro 

 

“Gil Scott-Heron, O artista afro-americano, é simplesmente uma das figuras mais cativantes e importantes do pop mundial”, dispara Alex Antunes no prefácio ao romance Abutre (Ed. Conrad). Continua: “Se você não conhece Gil Scott-Heron, ou até conhece mas nunca ouviu isto posto com tanta convicção, não se acanhe. Nem você nem este escriba estarão errados. O fato é que o exuberante talento do cantor, compositor, poeta, pianista, ficcionista veio embalado em um contexto histórico e político convulsionado e nunca completamente, digamos, ‘dichavado’. Foi a passagem dos anos 60 para os 70, com a radicalização exponencial dos grupos negros, dos estudantes, dos ativistas antiguerra do Vietnã, das feministas…” (p. 9)

A revolução não vai passar na televisão. Nem virá com intervalos comerciais e replays. A revolução, irmão, vai ser ao vivo. Com estas palavras, declamadas no maior pique, Gil Scott-Heron marcou época com o hino de protesto setentista “The Revolution Will Not Be Televised”, perfeita síntese de sua carreira e que demonstra bem sua importância histórica, ao lado do grupo The Last Poets, como pioneiro na história do movimento hip hop.

Ele foi um MC antes de existir o rap; foi como Malcolm X cantando um soul; foi o poeta da Revolução Negra na era pós-Woodstock; foi a encarnação do espírito de confluências e subversões do Hip Hop, antes deste existir “oficialmente” como movimento cultural reconhecido e abocanhador de amplas fatias do mercado musical e audiovisual.

Gil é nativo de Chicago, terra musicalmente marcada pelo blues. Seu mamadeira, aposto, foi turbinada desde cedo com litros de Muddy Waters, B. B. King, John Lee Hooker, Lightnin’ Hopkins – e talvez mais bourbon do que leite. Inspirou-se também na fonte jorrante do jazz e do funkraiz – Roy Ayers, Isaac Hayes, Ray Charles, Smokey Robinson, Curtis Mayfield, Aretha Franklin, Nina Simone, The Coasters, eram algumas de suas “estrelas-guia” e bandas-irmãs.

Já crescido, mudou-se  para New York, mas não aquela dos cartões-postais ou dos filmes de Woody Allen. Aquela N.Y.C. dos guetos e becos flagrados pela lente de Spike Lee, onde porto-riquenhos, dealers, cafetões, putas, tiras corruptos, brancos cuzões, gangues narcotraficantes, artistas contraculturais, comerciantes e camelôs se bicam e se estropiam num cenário urbano caótico e tenso.

BLAXPLOITATION CINEMATOGRÁFICA: Um dos filmes pioneiros, de Melvin Van Peebles

Segundo Antunes, o livro Abutre (The Vulture), que o jovem poeta-MC Scott-Heron publica em 1970, “dá voz ao dilema do negro urbano imobilizado entre ir da emancipação à pacificação – na integração racial – ou à ruptura revolucionária.” (p. 10) Um dos fundadores do movimento blaxploitation, que explodiria no cinema com o filme de 1971 Sweet Sweetback’s Baadassss Song, de Melvin Van Peebles, Gil Scott-Heron prenuncia em sua arte também o cinema de Spike Lee, talvez o cineasta que melhor captou a tensão inerente aos discursos antagônicos do doutor Martin Luther King e do brother Malcolm X.

Era o fim dos anos 1960 quando o que viria a ser conhecido como rap começou a nascer: Scott-Heron e os Last Poets faziam da declamação de poesia sobre uma base percussiva a fundação estética de sua arte inovadora, puro rhythm and poethy. O Black Power não era somente um penteado afro classudo, mas todo um efervescente movimento social, com significativa mobilização sob a forma dos Panteras Negras e de ativistas como Angela Davis e Huey P. Newton.

Impulsionados pelos exemplo de Malcolm X, Martin Luther King, Franz Fanon, Marcus Garvey, dentre outros inspirados, a população afroamericana “se organizava para desorganizar”. Em protesto contra a segregação racial, o preconceito supremacista, o fascismo e o imperialismo, Nixon e a Guerra do Vietnã, dentre outras pragas sociais que eles combatiam inventando um novo som e uma nova poesia, adequadas aos combates dos tempos.

Pouco tempo antes de Scott-Heron “decolar” com o lançamento de seus primeiros álbuns — o spoken word “Small Talk at 125th and Lennox” e o soul-funk “Pieces of a Man” – Jimi Hendrix havia blasfemado lindamente contra o Hino Nacional Americano em frente a 500 mil almas embasbacadas em Woodstock. Enfiando distorção e discórdia no discurso oficial, pintando de negro ou afundando na psicodelia a “Star Spangled Banner”, Hendrix impôs sua figura icônica ao zeitgeist. Scott-Heron, menos piromaníaco, seria também Hendrixiano, voodoo child, e  é hoje reconhecido como uma presença cultural de estatura equiparável a de um Curtis Mayfield, um James Brown, um Jimi Hendrix.

Gil Scott-Heron, junto com seu truta Brian Jackson, gravaram um punhado de discos brilhantes anos 70 e 80 afora. Ao mesmo tempo louvando seus heróis culturais do passado (John Coltrane, Aretha Franklin, Isaac Hayes, Billie Holliday, Al Green…) e com os pés fincados nas problemáticas sócio-políticas da era (em que a “canção de protesto” tinha voltado aos holofotes pelos esforços de Bob Dylan nos anos 60 e a Geração Folk que seguiu seus passos), fizeram pérolas das mais preciosas daquilo que hoje chamamos black music ou rhythm’n’blues (R&B).

Se a obra deste artistaço é tão desconhecida entre nós, brasileiros, isto se deve um pouco à estupidez da “Indústria Cultural”, que não se dava muito bem com o radicalismo ideológico e a riqueza sônica da arte de Scott-Heron. No meio dos anos 70, a black music de conteúdo político-crítico-lúdico-provocativo, que tinha ainda seus paladinos no Funkadelic e no Sly & The Family Stone, viu-se lançada nas sombras pela explosão da discow e da modinha yuppie. O funk Funkadélico e rap à Scott-Heron tomaram um nocaute das vertentes mais comerciais da popdisco, tudo chefiado por um redemoinho chamado Michael Jackson.  “Gil viu sua carreira ser progressivamente eclipsada com a aproximação e a passagem dos anos 80, época em que a caretice yuppie grassou e desgraçou a cultura pop”, escreve  Alex Antunes.

Como o próprio Gil Scott-Heron diz, a galerinha da discow perdeu completamente a noção de que havia uma distinção entre a ferramenta e o objetivo — “the tool and the goal”, como ele diz. A “black music”, cooptada pelas grandes gravadoras, cessou de ser uma tool nas mãos de artistas-ativistas lutando pelo goal da transformação social e comportamental, ou até mesmo da ruptura revolucionária emancipadora, para chafurdar num hedonismo vazio e consumista. A “balada” foi sendo despolitizada e foi virando cada vez mais uma curtição frívola e sem consequências, quase um mecanismo de fuga, e demoraria alguns anos até que o Punk nascesse para chutar o rabo da Geração Discotèque e trazer de volta o inconformismo e a rebelião para o centro do quadro… O que queriam rappers e punks, é claro, é que as baladas voltassem a ser perigosas…


Gil Scott-Heron, apesar do ostracismo em que caiu por grande parte dos anos 90 e 00, principalmente por ter sido enjaulado pelos tiras duas vezes por posse de “substâncias controladas”, continuou ativo e operante até o início da década de 2010, quando lançou seu canto-do-cisne, o álbum “I’m New Here”. Suas palavras e discos ecoam dos anos 70 até hoje e “Gil sobreviveu nos samples – de Professor Griff, PM Dawn, Warren G, Chubb Rock, A Tribe Called Quest, KRS-One – para vir, finalmente, a ser entronizado como um dos pais do rap, apenas um passo atrás do coletivo nova-iorquino dos Last Poets”, diz o Antunes.

Pois é: não é à toa que Gil Scott-Heron é reconhecido por grandes figuras do Movimento Hip Hop mundial — como Chuck D ou Mos Def — como um dos Pais da Matéria, “The Godfather of Rap”. Sem ele, talvez não tivessem surgido o Public Enemy e o Outkast, a Lauryn Hill e o Ben Harper, o Rappa e o Planet Hemp. Sem falar que Gil, sendo um maconheirão prá-lá-de-gente-fina, continua sendo uma referência para todos os que curtem os efeitos de expansão da consciência, do senso-de-humor e da percepção estética gerados pela sagrada cannabis…

Pra quem curte literatura, vale frisar ainda que Gil Scott-Heron, poeta de mão cheia, escreveu ainda dois romances: The Nigger Factory e Abutre, e este último foi lançado no Brasil via Conrad e vale cada centavo. Narra a via-crúcis de um traficante de drogas de New York que não para de tretar com os porto-riquenhos e vê sua vida sempre ameaçada pelos becos escuros do Harlem, Chelsea e redondezas. Lê-se com o prazer que se tem vendo um bom filme de Spike Lee ou um clássico da blaxpoitation (tendência que Tarantino “homenageou” em Jackie Brown).

Devorem abaixo, pois, um bocado de discos deste grande Mestre do rhythm and poetry (R.A.P.!), Gil Scott-Heron – a discografia completa que aqui contrabandeamos pode ser baixada gratuitamente, mas não comercializada; o download está liberado pelo mérito cultural desta obra ainda inacessível em sua inteireza no Brasil, de modo que recomendamos aos usuários que queimem este Beck sônico no espírito do compartilhamento livre e da instrução mútua. Voilà!

DOWNLOAD DA DISCOGRAFIA COMPLETA



LIVE


BLACK WAX – 1h 41 min


Gil Scott-Heron and His Amnesia Express – Tales Of Gil (1990)
1. Three Miles Down
2. We Almost Lost Detroit
3. Angel Dust
4. Winter In America
5. Johannesburg
6. The Bottle

CONFLUÊNCIAS: Festival de Artes Integradas, 3ª Edição: Domingo, 02 de Abril, na Trip

Vem aí o Confluências: Festival de Artes Integradas, 3ª edição, chegando para unir as tribos e somar as vertentes artísticas em um mesmo caldeirão efervescente! Neste Domingão (02 de Abril), lá na Trip (Rua 115e, Setor Sul), teremos vários MCs mostrando toda a força do rap de Goiânia em shows com Tati Ribeiro, A Jay Ajhota e Subversão Feminista.

Vai rolar também uma exposição com algumas das melhores ilustrações de Heitor Vilela, da Rabiscos e Escarros, além de roda-de-prosa com o artista. Vão rolar ainda intervenções poéticas com Walacy Neto, William Trapo, Ma Ha (Siririca Poética), Goitacá Escafandrista, Kesley Rocha Dias. Complementando as artes visuais, teremos o Vinícius Yano grafitando a entrada da Trip. Além disso, discotecagens timbradas com os DJs Bruno Vieira Batista (Caveira) e Eduardo Carli de Moraes.

Não perca!

Abertura da casa: 16h. Ingresso: R$ 10. Conflua!

Endereço: Rua 115e, Setor Sul.

CONFLUÊNCIAS é uma produção d’A Casa de Vidro


Design gráfico e identidade visual: Annie Marques.

Página do evento: https://www.facebook.com/events/277267286060351/


APERITIVOS:

Ilustração: Heitor Vilela. Acesse o álbum completo.


A JAY A JHOTA
Ep de Estréia


DJ BRUNO CAVEIRA




TATI RIBEIRO




RELEMBRE: Vídeos das primeiras edições do Confluências

Trip apresenta Joe Silhueta (DF) e Clube dos Bagres (SP) na noite “Miniestéreo da Contracultura” (09/03, a partir das 20h)

Trip apresenta:
Noite Miniestéreo da Contracultura
Shows com: Joe Silhueta (Guilherme Cobelo)
e Clube Dos Bagres (Bruno Morabati)

Rua 115-e, Setor Sul, Goiânia
09 de Março, $10 de entrada, long-neck $7

Livros A Casa de Vidro na área!
Rango saboroso com Lobato Massas Artesanais!

Página do evento: https://www.facebook.com/events/145135309340456/


Saiba mais: Joe Silhueta é a alcunha musical do compositor brasiliense Guilherme Cobelo. Destaque do cenário musical de Brasília, Joe Silhueta mescla referências do rock e do folk norte-americano com a música nordestina de nomes como Elomar, Zé Ramalho e Alceu Valença. Com a banda Korina, lançou em 2009 o EP Todo Mundo Viver Reclamando da Minha Falta de Assunto. Em 2016, deu início à sua carreira solo lançando o EP Dylanescas. Produzido pelo produtor brasiliense Kelton, o disco contém cinco canções inéditas de Cobelo, com sonoridade acústica e arranjos minimalistas. Em fevereiro de 2017 lançou o EP Ritos do Leito, produzido por Kelton Gomes e Gustavo Halfeld, com arranjos mais volumosos baseados na banda que se formou para as apresentações ao vivo. Ao longo do ano de 2016, tocou em palcos importantes da cidade, como Festival Satélite 061, Festival Porão do Rock, Festival Móveis Convida, Festival Porão do Rock e Festival Picnik. Foi indicado pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) na categoria Artista revelação. Atualmente, se prepara para circular com o novo EP e produzir as canções que formarão o álbum Nas trilhas do sol, a ser lançado ainda em 2017.

ESCUTE E EXPLORE:

https://soundcloud.com/joesilhueta
https://www.youtube.com/joesilhueta
https://www.facebook.com/ojoesilhueta


O Clube dos Bagres é um trio envolvente de Franca-SP. Em 2012 o Clube lançou o EP “Histórias mal contadas em quase-canções” e está com seu primeiro disco no forno. Nesse tempo, apresentou-se ao lado de grandes influências como Alceu Valência, Otto, Porcas Borboletas, Rafael Castro, e em festivais e mostras com destaque e relevância nacional. As apresentações costumam ser recheadas de suor e atrito entre os presentes, coisa que se desfigura no formato voz e violão. O elemento surpresa está preparado para o show. Aguardem.


MINIESTÉREO DA CONTRACULTURA?!?

Conheça o catálogo do Miniestéreo da Contracultura, excelente selo virtual que disponibiliza música independente brasileira, de alta qualidade, para download gratuito. Acesse o site oficial: http://miniestereo.org/. Saiba mais no post d’ A Gambiarra: http://bit.ly/1TOsxlj.

“Nosso intuito é agregar diferentes linguagens da música “não-comercial” em uma corrente contínua de colaboração nos processos de produção musical, como um laboratório de novas idéias onde todos os participantes aprendam uns com os outros, somando aos produtos finais diferentes níveis de experiências para o enriquecimento mútuo.

Esperamos dialogar com diferentes posicionamentos estéticos-musicais, visando construir um acervo de materiais  originais, novos, audaciosos e criativos, com o propósito de unir em uma só comunidade artistas dos mais variados seguimentos, e que juntos constroem espaços democráticos de diálogo com o público, focado em lançamentos virtuais gratuitos.” – Site oficial M.d.C.

Artistas participantes: Gustavito (Gustavo Gustavito Amaral), Joe Silhueta (Guilherme Cobelo), Protofonia, LG Lopes, Orquestra Abstrata, Mersault e a Máquina de Escrever, Barra Funda Fighters, Marcos Braccini, Forró Red Light, dentre outros.


Entra na Trip! Venha conhecer a nova morada da cultura em efervescência aqui em Goiânia.

PROGRAMAÇÃO – Março de 2017

Quinta, 09/03
Noite Miniestéreo da Contracultura
Com Joe Silhueta e Clube Dos Bagres
Evento: https://www.facebook.com/events/145135309340456/

Sexta, 10/03
Noite das Minas com DJs Bárbara Novais, Gabs Reiscal, Thais Oliveira

Sábado, 11/03
DJs Daniel de Melo, Alan Honorato, Bruno Vieira Batista em “Baile Funk do Neguim”

Quinta, 16/03
Banda Mal Necessário toca Secos e Molhados

Sexta, 17/03
Show com Diego De Moraes / Diego Mascate

Sábado, 18/03
Afrikaliente com Vida Seca
DJs Igor Zargov e Bruno Caveira

Chega mais!

“AFRO-CUBAN”, de KENNY DORHAM (1957): “A first-rate recording for the under-appreciated Dorham, this one should be in every collection of all true music lovers.”

Kenny Dorham – Afro-Cuban

(1957, Blue Note)

Review by Michael G. Nastos – Considered Kenny Dorham’s finest recording of his all-too-short career, this re-reissue has been newly remastered and presumably now includes all of the takes from these nonet and sextet sessions of 1955. Considering the time period, this date remains way ahead of the Latin-tinged and hard bop music that would follow. It would be difficult to assess the sextet being a step below the larger group effort, but only because it is much less Afro-Cuban. Nonetheless the unmistakable drumming of Art Blakey powers the combo through the blisteringly swinging “La Villa” with unison horns (Hank Mobley, tenor sax; Cecil Payne, baritone sax). The other easy swinging pieces “K.D.’s Motion,” “Venita’s Dance,” and “Echo of Spring/K.D.’s Car Ride” display great group empathy and seem effortless, though they’re not. It’s the Latin-based music that really differentiates this band from all others of this era, save Dizzy Gillespie’s. Payne’s robust bari ignites the hip call-and-response motif of “Afrodisia,” while his horn in tandem with pianist Horace Silver backs the up-front horns, supplemented by trombonist J.J. Johnson, for the heated mambo-ish hard bopper “Basheer’s Dream.” Two takes of “Minor’s Holiday” are, curiously enough, exactly the same time at 4:24, both super cooking with Dorham’s clear-as-a-bell trumpet leading the other horns, which practically act as backup singers. Percussionist Carlos “Patato” Valdes is the perfect spice added to this dish. The lone ballad, “Lotus Flower,” is remarkable in that its marked tender restraint feels on the brink of wanting to cut loose, but never does. A first-rate recording for the under-appreciated Dorham, this one should be in every collection of all true music lovers.

Tracklist:
1) Afrodisia (5:06)
2) Lotus Flower (4:17)
3) Minor’s Holiday (4:28)
4) Basheer’s Dream (5:03)
5) K.D.’s Motion (5:29)
6) La Villa (5:24)
7) Venita’s Dance (5:22)
8) K.D.’s Cab Ride (6:12)

PLAY >>>

* * * *

EXPERIMENTE TAMBÉM:

BOB MARLEY: Guerreiro Rasta

Daniel Pereira

Um dos muitos méritos desta graphic novel dos argentinos Diego Agrimbau (roteiro) e Dante Ginevra (desenhos) está em sua capacidade de revelar a enorme dimensão social, espiritual e artística de Bob Marley. Nascido em 1945, numa Jamaica que lutava para se libertar do domínio colonial inglês, Bob Marley viveu apenas 36 anos, mas tornou-se uma figura de notoriedade e relevância mundial, a ponto de produzir milhões de seguidores. Isto não se deve somente ao seu talento como cantor, compositor e músico, mas à força e à resiliência de sua mensagem à humanidade.

Estátua no Estádio Nacional de Kingston

Reggae’s most transcendent and iconic figure, Bob Marley was the first Jamaican artist to achieve international superstardom, in the process introducing the music of his native island nation to the far-flung corners of the globe. Marley’s music gave voice to the day-to-day struggles of the Jamaican experience, vividly capturing not only the plight of the country’s impoverished and oppressed but also the devout spirituality that remains their source of strength. His songs of faith, devotion, and revolution created a legacy that continues to live on not only through the music of his extended family but also through generations of artists the world over touched by his genius. – Jason Ankeny

Guerreiro Rasta não começa ao som de ska ou reggae, mas em chave mais trágica, evocando a África, onde as caravelas invasoras do imperialismo europeu vieram sequestrar milhões de seres humanos para o destino horrendo de escravizados. Filhos da diáspora, os afrodescendentes da Jamaica lutavam por independência e autonomia enquanto Bob Marley crescia: é no período entre 1958 e 1962 que a onda descolonizadora do Caribe ganha força e triunfa contra o império inglês, não só na Jamaica, mas também em Trinidad e Tobago.

Na capital da Jamaica, Kingston, os autores evocam de modo impressionante a presença da África, seja através do mega evento cívico que foi  a visita do imperador da Etiópia, Hailê Selassiê, em abril de 1966, seja no próprio cotidiano dos cultuadores de Jah, os rastafáris da sagrada ganja, tão perseguidos pela elite branca e que com tanta frequência tinham seus dreadlocks cortados e tomavam cruéis baculejos policiais.

Bob Marley até tentou migrar para os EUA – onde trabalhou em Delaware como operário da indústria automobilística em uma fábrica da Chrysler – mas retomou o caminho de Trenchtown: em uma das imagens mais memoráveis de Dante Ginevra, o avião de Marley decola nos Estados Unidos, ascendendo rumo a um céu onde paira, cheio de garbo e poder, desenhado pelas nuvens em interação com os raios de sol, um gigantesco Leão de Judá

mi0003146038

 Bob Marley permitiu que a criatividade de um país periférico conquistasse o globo e tornou-se um dos luminares não só da música reggae ou da religião rastafári, mas um ídolo popular em todas as latitudes onde há luta contra a opressão e em prol da paz e do amor. Filho de uma afro-jamaicana com um branco inglês, Bob Marley foi um mulato afroamericano de profundo enraizamento na cultura africana e no sonho de um retorno à África mãe, seja na Etiópia ou na Libéria (este é um ethos ou uma constelação afetiva que assemelha Bob Marley a Nina Simone).

Apesar de estar longe de ser uma figura teórica ou acadêmica, Marley tinha postura política convicta e aliou-se ao movimento do pan-africanismo propugnado por Marcus Garvey, evidente em uma canção como “Africa Unite”. Em sua meteórica carreira musical foi um porta-voz libertário cujo teor ideológico e raio de influência sobre as massas pode ser equiparado ao de figuras como Patrice Lumumba, Malcolm X, Martin Luther King, Fela Kuti etc.

Bob Marley & the Wailers
“Concrete Jungle”
The Old Grey Whistle Test, 1973

Suas letras repletas de crítica social transcenderiam o gueto e iriam muito além das fronteiras do reggae: iriam inspirar artistas do folk, do rock, do punk, da MPB, da world music etc. Não é possível imaginar nem o The Clash, nem Gilberto Gil, nem Manu Chao, sem a seminal influência de Bob Marley. O poder de sua arte é tamanho pois conjuga o anúncio e a denúncia, para lembrar Paulo Freire: Marley fala sobre one love em vibe similar à de John Lennon imaginando a brotherhood of men, mas também denuncia a “selva de concreto” (assista a “Concrete Jungle” assista) e os mais de “400 Years” de opressão imperialista sobre aqueles que foram roubados de sua terra nos “merchant ships” evocados por “Redemption Song”:

“Velhos piratas, sim, eles me roubaram.
Me venderam para os navios mercantes, 
Minutos depois me atiraram
Num buraco sem fundo…”

Guerreiro Rasta é uma leitura rápida mas que deixa rastros na memória; uma biografia em formato graphic novel de 60 e poucas páginas, mas que ensina uma imensidão neste curto intervalo de tempo e espaço. Ganham expressão nestas páginas toda a violência política nas ruas de Kingston e todo o esforço pacifista-diplomático de Marley; toda a trajetória dos Wailers, tendo como coadjuvantes importantes Peter Tosh e Lee Perry, de estrelas musicais locais a popstars idolatrados por Eric Clapton, Mick Jagger, Joe Strummer; toda a epopéia da diáspora, todos os horrores impostos pelo imperialismo racista e supremacista, em contraste com a sabedoria naturalista, cannábica, rasta-pacifista, desse liberador de mentes e encantatório musicista que foi Bob Marley.

marley-poster1

No cinema, sua vida e obra já ganharam belos retratos em filmes como Rebel Music ou na biopic documental de Kevin MacDonald. Porém a linguagem dos quadrinhos, aqui utilizada com maestria pelos hermanos argentinos, fornece uma impressionante oportunidade de imersão no microcosmo Marleyano. Na página 53, por exemplo, evocam-se em 5 míseros quadrinhos e um punhado de frases pungentes o dia em que a Jamaica enterrou Bob Marley. É uma página que não se esquece mais.

Era um “funeral de chefe de estado, com uma cerimônia que misturava as tradições rastafári e católica ortodoxa etíope. O caixão seguiu  um longo trajeto até sua terra natal, Nine Mile. Toda a Jamaica chorou a partida de seu filho pródigo. Em seu túmulo, foram colocados quatro objetos que representavam o que sempre foi importante para ele… o futebol, a música, a fé rastafári e a maconha. Nessa noite, toda a ilha cantou e dançou celebrando sua vida. Foi a melhor festa funerária que um rasta poderia esperar.”

COMPRAR “GUERREIRO RASTA” NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO @ ESTANTE VIRTUAL


SIGA VIAGEM:

OUÇA…

burninBURNIN’ (1973)

* * * * *

bob_marley_the_wailers-survival

“SURVIVAL” (1979)

“Containing what is considered Marley’s most defiant and politically charged statement to date, Survival concerns itself with the expressed solidarity of not only Africa, but of humanity at large. The album was controversial right down to the jacket, which contains a crude schematic of the stowage compartment of a typical transatlantic slave ship. Survival is intended as a wake-up call for everyman to resist and fight oppression in all of its insidious forms. From Tyrone Downie’s opening synthesizer strains on “So Much Trouble in the World” to the keyboard accents emerging throughout “Zimbabwe,” the sounds of Survival are notably modern. The overwhelming influence of contemporary African music is also cited with the incorporation of brass, á la Fela Kuti and his horn-driven Africa ’70. While “Top Rankin’,” “Ride Natty Ride,” and “Wake Up and Live” are the most obvious to benefit from this influence, there are other and often more subtle inspirations scattered throughout. Survival could rightly be considered a concept album. Marley had rarely been so pointed and persistent in his content. The days of the musical parable are more or less replaced by direct and confrontational lyrics. From the subversive “Zimbabwe” — which affirms the calls for the revolution and ultimate liberation of the South African country — to the somewhat more introspective and optimistic “Africa Unite,” the message of this album is clearly a call to arms for those wanting to abolish the subjugation and tyranny of not only Africans, but all humankind. Likewise, Survival reinforces the image of Marley as a folk hero to those suffering from oppression.” – Lindsay Planer, AllMusic [http://www.allmusic.com/album/survival-mw0000194795]

* * * * *

ASSISTA: