NO CALDEIRÃO DA CULTURA VIVA – A utopia cultural de Gilberto Gil enquanto Ministro da Cultura

I. Trechos do discurso de posse do Ministro Gilberto Gil (02/01/2003)

“O Estado não deve deixar de agir. Não deve optar pela omissão. Não deve atirar fora de seus ombros a responsabilidade pela formulação e execução de políticas públicas, apostando todas as suas fichas em mecanismos fiscais e assim entregando a política cultural aos ventos, aos sabores e aos caprichos do deus-mercado. É claro que as leis e os mecanismos de incentivos fiscais são da maior importância. Mas o mercado não é tudo. Não será nunca. Sabemos muito bem que em matéria de cultura, assim como em saúde e educação, é preciso examinar e corrigir distorções inerentes à lógica do mercado – que é sempre regida, em última análise, pela lei do mais forte. Sabemos que é preciso, em muitos casos, ir além do imediatismo, da visão de curto alcance, da estreiteza, das insuficiências e mesmo da ignorância dos agentes mercadológicos. Sabemos que é preciso suprir as nossas grandes e fundamentais carências. 

O Ministério da Cultura não pode, portanto, ser apenas uma caixa de repasse de verbas para uma clientela preferencial. Tenho, então, de fazer a ressalva: não cabe ao Estado fazer cultura, a não ser num sentido muito específico e inevitável. No sentido de que formular políticas públicas para a cultura é, também, produzir cultura. No sentido de que toda política cultural faz parte da cultura política de uma sociedade e de um povo, num determinado momento de sua existência. No sentido de que toda política cultural não pode deixar nunca de expressar aspectos essenciais da cultura desse mesmo povo. Mas, também, no sentido de que é preciso intervir. Não segundo a cartilha do velho modelo estatizante, mas para clarear caminhos, abrir clareiras, estimular, abrigar. Para fazer uma espécie de “do-in” antropológico, massageando pontos vitais, mas momentaneamente desprezados ou adormecidos, do corpo cultural do país. Enfim, para avivar o velho e atiçar o novo. Porque a cultura brasileira não pode ser pensada fora desse jogo, dessa dialética permanente entre a tradição e a invenção, numa encruzilhada de matrizes milenares e informações e tecnologias de ponta.

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O que entendo por cultura vai muito além do âmbito restrito e restritivo das concepções acadêmicas, ou dos ritos e da liturgia de uma suposta “classe artística e intelectual.” Cultura, como alguém já disse, não é apenas “uma espécie de ignorância que distingue os estudiosos”. Nem somente o que se produz no âmbito das formas canonizadas pelos códigos ocidentais, com as suas hierarquias suspeitas. Do mesmo modo, ninguém aqui vai me ouvir pronunciar a palavra “folclore”. Os vínculos entre o conceito erudito de “folclore” e a discriminação cultural são mais do que estreitos. São íntimos. “Folclore” é tudo aquilo que – não se enquadrando, por sua antiguidade, no panorama da cultura de massa – é produzido por gente inculta, por “primitivos contemporâneos”, como uma espécie de enclave simbólico, historicamente atrasado, no mundo atual. Os ensinamentos de Lina Bo Bardi me preveniram definitivamente contra essa armadilha. Não existe “folclore” – o que existe é cultura.

Lina Bo Bardi em foto de 1978

Lina Bo Bardi em foto de 1978

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Oswald e Oficina

Ou o Brasil acaba com a violência, ou a violência acaba com o Brasil. (…) O Brasil não pode continuar sendo, como dizia Oswald de Andrade, um país de escravos que teimam em ser homens livres. Temos de completar a construção da nação. De incorporar os segmentos excluídos. De reduzir as desigualdades que nos atormentam. Ou não teremos como recuperar a nossa dignidade interna, nem como nos afirmar plenamente no mundo. Como sustentar a mensagem que temos a dar ao paneta, enquanto nação que se prometeu o ideal mais alto que uma coletividade pode propor a si mesma: o ideal da convivência e da tolerância, da coexistência de seres e linguagens múltiplos e diversos, do convívio com a diferença e mesmo com o contraditório. E o papel da cultura, nesse processo, não é apenas tático ou estratégico – é central: o papel de contribuir objetivamente para a superação dos desníveis sociais, mas apostando sempre na realização plena do humano.

A multiplicidade cultural brasileira é um fato. (…) Em verdade, podemos mesmo dizer que a diversidade interna é, hoje, um dos nossos traços identitários mais nítidos. É o que faz com que um habitante da favela carioca, vinculado ao samba e à macumba, e um caboclo amazônico, cultivando carimbós e encantados, sintam-se – e, de fato, sejam – igualmente brasileiros. (…) Somos um povo mestiço que vem criando, ao longo dos séculos, uma cultura essencialmente sincrética. Uma cultura diversificada, plural – mas que é como um verbo conjugado por pessoas diversas, em tempos e modos distintos. Porque, ao mesmo tempo, essa cultura é una: cultura tropical sincrética tecida ao abrigo e à luz da língua portuguesa.

(…) Sobretudo temos de saber que recado o Brasil – enquanto exemplo de convivência de opostos e de paciência com o diferente – deve dar ao mundo, num momento em que discursos ferozes e estandartes bélicos se ouriçam planetariamente. Sabemos que as guerras são movidas, quase sempre, por interesses econômicos. Mas não só. Elas se desenham, também, nas esferas da intolerância e do fanatismo. (…) Sim: O Brasil tem lições a dar, no campo da paz e em outros, com as suas disposições permanentemente sincréticas e transculturativas. E não vamos abir mão disso. (..) Aqui será o espaço da experimentação de rumos novos. O espaço da abertura para a criatividade popular e para as novas linguagens. O espaço da disponibilidade para a aventura e a ousadia. O espaço da memória e da invenção.

Cultura Pela Palavra – Pgs 229 a 234

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II. Pronunciamento de Gil na Comissão de Educação e Cultura do Senado Federal (Brasília, 20 de maio de 2003)

“O espírito que anima a cidadania e o cidadão, que mantém a chama da auto-estima viva e irradiante, para dentro e para além de nós mesmos, chama-se Cultura. Na nossa língua, uma palavra feminina, insinuante, envolvente, irresistível e determinada. Como a mulher, também suporte fundamental da vida social, deslumbrante e indispensável, entretanto colocada sempre numa posição secundária e lateral pela porção masculina, machista e dominante da sociedade, que ainda insiste em vê-la apenas como ornamento floral, decorativo e de brilho efêmero. Nos tempos em que a porção mulher da sociedade cada vez mais, como na canção, impõe-se ao super-homem rendido à sua superioridade e encanto, nada mais natural do que entronizarmos a mulher Cultura no espaço central de nossas vidas.

(…) É preciso entender que a Cultura é a estrada pela qual todos os aspectos da sociedade transitam. Tudo se passa e se reflete nessa estrada. Essa é a via única que leva ao grande espetáculo da identidade singular e plural do povo brasileiro. Essa passarela tem que ser cuidada permanentemente para que o grande desfile do povo brasileiro possa sempre acontecer. Ao lado desse espetáculo, é preciso debater que país, que nação, que povo queremos ser. Novos-ricos arrogantes e deslumbrados com os últimos bombons oferecidos pela tecnologia para o conforto e o consumo supérfluo? Sádicos insaciáveis em busca de emoções cada vez mais fortes? Consumidores de drogas cada vez mais excitantes? Obesos televisivos esparramados nas poltronas flutuantes da nossa vasta ignorância ilustrada? Guerreiros poderosos prontos a desafiar qualquer povo cujo comportamento não nos agrade, ou que julgamos incapazes de explorar suas próprias riquezas? Usurpadores do patrimônio natural da humanidade posto a serviço dos nossos interesses?

Ou

Gente pacífica e alegre, voltada para sua própria beleza e diversidade e para a beleza do mundo. Consciente do seu papel de nação aberta, pacífica e fraterna, capaz de compartilhar sua fraternidade com os outros povos, especialmente os povos que contribuíram definitivamente para sua formação, como o povo africano, confinado ao continente negro, carente de tudo; ou com os remanescentes das nações indígenas, no interior do nosso próprio continente, à espera de nossa solidariedade, respeito e atenção?

(…) Nós, a Cultura, somos a língua em cujas palavras os textos que convocam para a luta são escritos. Somos a voz que entoa os hinos e as canções nas horas de conclamar e unir a nação para o momento das grandes transformações. O povo entende e atende aos chamados da sua mãe cultural. Sua mãe pátria. Sua mãe gentil. Nos estádios de futebol é a voz da cultura que se faz ouvir em todos os cantos do país. Nos seus maiores momentos de alegria, é a voz da cultura que se faz ouvir em todas as gargantas de todos os carnavais. E nos momentos de reflexão e debate é a voz dos cultos representantes do povo que clareiam as mentes e apontam caminhos para o país.

É grande a guerra a ser vencida. A guerra contra a fome, contra a ignorância e a favor da saúde. A guerra, se possível não violenta, pela salvação da espécie humana, pela sobrevivência da humanidade, enfim, pela pax desarmada. Enquanto essa guerra não for totalmente ganha, só há um único combatente que não pode sucumbir, cuja voz não pode ser emudecida, pois dela depende a vitória final. Este combatente é uma mulher e o seu nome é Cultura.”

pg. 259 a 261

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EXPERENCIE GIL COMO MÚSICO:




CONVITE


Na próxima sexta-feira (1º de Setembro), no Teatro do Instituto Federal de Goiás (IFG) – oficial, câmpus Goiânia, serão lançadas 10 publicações da Editora IFG, dentre elas um livro com o qual colaborei: “Encontros no Encontro: Participação Social da Rede Nacional de Pontos de Cultura”, aborda o cenário cultural brasileiro nos arredores do ano de 2015, época de frutificação de muitas das sementes plantadas pela gestão Gilberto Gil & Juca Ferreirano Ministério da Cultura.

A publicação busca revelar em minúcias o que ocorreu durante o XV Encontro de CulturasTradicionais da Chapada dos Veadeiros, uma realização da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, pois naquela ocasião, à celebração dos 15 anos do Encontrão, ocorreu também um encontro nacional envolvendo “ponteiros” – produtores culturais, artistas, jornalistas, trabalhadores-da-cultura de toda estirpe – que representavam Pontos de Cultura e estavam reunidos para pensar as potencialidades e os obstáculos para efervescer a utopia da Cultura Viva.

O livro, que será lançado em ebook downloadável, é uma co-autoria com o Rafael Moreira Do Carmo e a supervisão do Vinícius Ferreira (da Proex – Pró Reitoria de Extensão e Cultura do IFG), contou também com a colaboração inestimável da Maíra Cerrado.

E um grande lançamento não poderia ter menos que um belo show do lendário cantor e compositor goiano Juraildes da Cruz. Para completar a celebração, haverá uma roda de conversa com os autores das obras, seguida de uma festiva sessão de autógrafos.

Estão todos convidados!

ACESSE O EBOOK COMPLETO: ENCONTROS NO ENCONTRO

CONHEÇA O SITE DA EDITORA IFG

Eduardo Carli de Moraes
Professor de Filosofia do
Instituto Federal de Goiás – Câmpus Anápolis
e editor de A Casa de Vidro

 

“O etnocídio é a supressão das diferenças culturais julgadas inferiores e más; é a aplicação de um projeto de redução do outro ao mesmo…” (CLASTRES)

SOBRE O ETNOCÍDIO
por Pierre Clastres

“Há alguns anos o termo etnocídio não existia. A utilização da palavra ultrapassou ampla e rapidamente seu lugar de origem, a etnologia, para cair de certo modo no domínio público. No espírito de seus inventores, a palavra estava decerto destinada a traduzir uma realidade que nenhum outro termo exprimia. Se surgiu a necessidade de criar um termo novo, é porque considerava-se que uma outra palavra — genocídio — era inadequada ou imprópria para preencher esta nova exigência. 

Criado em 1946 no processo de Nuremberg [em que foram julgados criminosos nazistas], o conceito jurídico de genocídio é a consideração no plano legal de um tipo de criminalidade até então desconhecido: o extermínio sistemático dos judeus europeus pelos nazistas alemães. O delito do genocídio tem sua raiz portanto no racismo, é o seu produto lógico e, no limite, necessário: um racismo que se desenvolve livremente, como foi o caso da Alemanha nazista, só pode conduzir ao genocídio.Embora o genocídio anti-semita dos nazistas tenha sido o primeiro a ser julgado em nome da lei, não foi o primeiro a ser perpetrado. A história da expansão colonial no século XIX, a história da constituição dos impérios coloniais pelas grandes potências européias, está pontilhada de massacres metódicos de populações nativas/autóctones. No entanto, por sua extensão continental, pela amplitude da queda demográfica que provocou, é o genocídio de que foram vítimas os indígenas americanos o que mais chama a atenção. A partir da descoberta da América em 1492, pôs-se em funcionamento uma máquina de destruição dos índios. Esta máquina contínua a funcionar ao longo da grande floresta amazônica, onde subsistem as últimas tribos “selvagens”.

Se o termo genocídio remete à idéia de “raça” e ao desejo de extermínio de uma minoria racial, o termo etnocídio aponta não para a destruição física dos homens, como o genocídio, e sim para a destruição de sua cultura. O etnocídio, portanto, é a destruição sistemática de modos de vida e de pensamento de povos diferentes daquelas que empreendem essa destruição. Em suma, o genocídio assassina os povos em seus corpos e o etnocídio os mata em seu espírito.

O genocídio e o etnocídio tem em comum uma visão idêntica do Outro: o Outro é a diferença, certamente, mas é sobretudo a má diferença. O genocida quer pura e simplesmente negar a diferença; exterminam-se os outros porque eles são absolutamente maus. O etnocídio, por outro lado, admite a relatividade do mal na diferença: os outros são maus, mas pode-se melhorá-los obrigando-os a se transformar até que se tornem, se possível, idênticos ao modelo que lhes é proposto, que lhes é imposto.

Cena do filme “A Missão” (The Mission), de Roland Joffe, com Jeremy Irons e Robert DeNiro. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, 1987.

Quem são, por outro lado, os praticantes do etnocídio? Em primeiro lugar, aparecem na América do Sul, mas também em muitas outras regiões, os missionários. Propagadores militantes da fé cristã, eles se esforçam por substituir as crenças bárbaras dos pagãos pela religião do Ocidente. A atitude evangelizadora implica duas certezas: primeiro, que a diferença – o paganismo – é inaceitável e deve ser recusada; a seguir, que o mal dessa má diferença pode ser atenuado ou mesmo abolido. É nisto que a atitude etnocida é sobretudo otimista: o Outro, mau no ponto de partida, é suposto perfectível, reconhem-lhe os meios de se alçar, por identificação, à perfeição que o cristianismo representa.

O etnocídio é praticado para o bem do selvagem. O discurso leigo não diz outra coisa quando enuncia, por exemplo, a doutrina oficial do governo brasileiro quanto à política indigenista: “Nossos índios, proclamam os responsáveis, são seres humanos como os outros. Mas a vida selvagem que levam nas florestas os condena à miséria e à infelicidade. É nosso dever ajudá-los a libertar-se da servidão. Eles têm o direito de se elevar à dignidade de cidadãos brasileiros, a fim de participar plenamente do desenvolvimento da sociedade nacional e de usufruir de seus benefícios”. A espiritualidade do etnocídio é a ética do humanismo.

Denomina-se etnocentrismo a vocação para avaliar as diferenças pelo padrão da sua própria cultura. O Ocidente seria etnocida porque é etnocentrista, porque se pensa e quer ser a civilização. Surge, no entanto, uma pergunta: nossa cultura detém o monopólio do etnocentrismo? Consideremos o modo pelo qual as sociedades primitivas se denominam a si mesmas. Em geral elas se designam como “os homens, os humanos”. Os Guayaki, por exemplo, chamam a si próprios de aché, isto é, “pessoas”; os esquimós se denominam innuit, ou seja, “homens”; e assim por diante. E, inversamente, cada sociedade designa sistematicamente seus vizinhos com nomes pejorativos, desprezíveis e injuriosos. Toda cultura procede assim a uma partilha da humanidade entre ela própria, os humanos por excelência, e os outros, que só participam secundariamente da humanidade. O etnocentrismo aparece então como a coisa mais bem compartilhada do mundo e, pelo menos neste aspecto, a cultura do Ocidente não se distingue das outras.

Em outras palavras, a alteridade cultural nunca é apreendida como diferença positiva, mas sempre como inferioridade segundo um eixo hierárquico. O etnocídio é a supressão das diferenças culturais julgadas inferiores e más; é a aplicação de um projeto de redução do outro ao mesmo. O índio amazônico suprimido como outro e reduzido ao mesmo como cidadão brasileiro. Em outras palavras, o etnocídio resulta na dissolução do múltiplo em Um.

O critério clássico de distinção entre os selvagens e os civilizados, entre o mundo primitivo e o mundo ocidental, é que o primeiro reúne o conjunto das sociedades sem Estado, o segundo compõe-se de sociedades com Estado. O que significa o Estado? O Estado se quer e se proclama o centro da sociedade, o todo do corpo social, o mestre absoluto dos diversos órgãos desse corpo. Descobre-se assim, no núcleo da substância do Estado, a força atuante do Um, a vocação de recusa do múltiplo, o temor e o horror da diferença, (…) a vontade de redução da diferença e da alteridade. Toda formação estatal é etnocida.

Os Incas haviam conseguido edificar nos Andes uma máquina de governo que causou a admiração dos espanhóis. O aspecto propriamente etnocida dessa máquina estatal aparece em sua tendência a incaizar as populações recentemente conquistadas: não apenas obrigando-as a pagar tributo aos novos senhores, mas sobretudo forçando-os a celebrar prioritariamente o culto dos conquistadores, o culto do Sol. É verdade também que a pressão exercida pelos Incas sobre as tribos submetidas nunca atingiu a violência do zelo maníaco com que os espanhóis aniquilariam mais tarde a idolatria indígena.

Onde se situa a diferença que proíbe colocar no mesmo plano ou enfiar no mesmo saco os Estados bárbaros (Incas, Faraós, despotismos orientais etc.) e os Estados ditos civilizados (o mundo ocidental)? Nos Estados ocidentais a capacidade etnocida se mostra sem limites, ela é desenfreada.

O que contém a civilização ocidental, que a torna infinitamente mais etnocida que qualquer outra forma de sociedade? É o seu regime de produção econômica, o capitalismo, enquanto impossibilidade de permanecer no aquém de uma fronteira; é o capitalismo como sistema de produção para o qual nada é impossível, exceto não ser para si mesmo seu próprio fim. A sociedade industrial, a mais formidável máquina de produzir, é por isso mesmo a mais terrível máquina de destruir. Raças, sociedades, indivíduos; espaço, natureza, mares, florestas, subsolo: tudo deve ser útil, tudo é útil, tudo deve ser utilizado, tudo deve ser produtivo, de uma produtividade levada a seu regime máximo de intensidade.

Eis por que era intolerável, aos olhos do Ocidente, o desperdício representado pela não-exploração econômica de imensos recursos. A escolha deixada a essas sociedades era um dilema: ou ceder à produção ou desaparecer; ou o etnocídio ou o genocídio. No final do século XIX, os índios do pampa argentino foram totalmente exterminados a fim de permitir a criação extensiva de ovelhas e vacas, o que fundou a riqueza do capitalismo argentino. No início do século XX, centenas de milhares de índios amazônicos pereceram sob a ação dos exploradores de borracha. Atualmente, em toda a América do Sul, os últimos índios livres sucumbem sob a pressão enorme do crescimento econômico, brasileiro em particular. As estradas transcontinentais, cuja construção se acelera, constituem eixos de colonização dos territórios atravessados: azar dos índios com quem a estrada depara!”

Tradução de Paulo Neves
Prefácio de Bento Prado Jr.
Posfácio de Eduardo Viveiros de Castro

Outras leituras recomendadas:

A Libertação da Pluralidade: Nietzsche por Gianni Vattimo

“Nietzsche é um pensador decisivo para o nosso presente
e ainda repleto de futuro.”

Gianni Vattimo
,
Diálogo Com Nietzsche
 (Ed. Martins Fontes, 2010)

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INEXAURÍVEL MINA DE DINAMIETZCHE

 A radicalidade, a iconoclastia e a rebeldia do pensamento de Nietzsche talvez expliquem seu status de perpétuo outsider da Civilização Ocidental: ele prossegue uma figura maldita, sempre reprimida e reduzida ao silêncio pelos defensores da religião e da moral, mas cuja obra poderosa e inquietante resiste e persiste, inspirando todos aqueles que concordam com este sinistro diagnóstico: “o homem como existiu até agora tem em si todos os defeitos e as neuroses de um cachorro envelhecido na corrente” (Vattimo: 2010, pg. 236). Se Nietzsche ainda está tão vivo e prossegue “repleto de futuro”, como diz Vattimo, é pois existe nele um apelo intenso à libertação e muitas pistas que indicam o caminho para ela.

 “A totalidade desse pensamento”, aponta Vattimo, “entra em choque com nossos modos de pensar mais arraigados, questionando-os violentamente” (pg. 50) O que explica a impressionante repercussão do pensamento de Nietzsche, que ecoou por todo o século 20 e prossegue seu trabalho de dinamite em nosso jovem século 21, além do talento literário exorbitante de Nietzsche como escritor, talvez seja a imensa força libertária desta filosofia. Ela seduz todos os que querem romper as cadeias psíquicas, quebrar os feitiços da submissão, libertar-se de mistificações mentirosas, despertar de todas as farsas culturais, ideológicas, religiosas ou políticas que foram e continuam sendo inculcadas nos humanos rebanhos.

 Foi ele, Nietzsche, quem “exercitou mais do que qualquer outro pensador moderno a desmitificação” (p. 64), alega Vattimo, apontando que há, neste sentido, uma afinidade entre o nietzschianismo e “duas linhas de pensamento de nossa época: o marxismo e a psicanálise”. “O que aproxima esses fenômenos, para além das muitas diferenças, é a vontade desmitificante que os domina.” (p. 112)

 Mas Vattimo adiciona uma ressalva importante: Nietzsche não somente quer expor as mentiras mitificadoras, mostrando “a verdadeira face que se esconde atrás de sua máscara” (pg. 64). Acreditar em uma Verdade que se esconderia por detrás das mitificações: eis algo que Nietzsche problematiza, questiona e põe em dúvida. A ponto de Vattimo dizer que “o mito que Nietzsche mais intensamente se dedicou a destruir é precisamente a crença na verdade.” (p. 115) Para compreender o que isso quer dizer, creio que é preciso relembrar da batalha feroz que Nietzsche empreende contra seu inimigo maior: a filosofia socrática/platônica e o cristianismo que nela baseou-se (este não passaria, vocês se lembram bem, de “platonismo para o povo”).

 Por causa de seu rompimento radical com a tradição platônica-cristã, Nietzsche não acredita mais na contraposição ou no contraste entre um Mundo Sensível (que é tido como meramente aparente, ilusório, insubstancial…) e um Mundo Verdadeiro (onde residiriam as “coisas em si”, as ideias eternas, tudo aquilo que goza da imortalidade negada aos fenômenos…).

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CRISTIANISMO: UMA FORMA DE NIILISMO

Se Nietzsche tanto critica a “decadência” da humanidade, é pois está sempre imbuído de uma intensa nostalgia pela Grécia gloriosa dos pré-socráticos, dos trágicos, dos líricos. A Civilização Cristã, em comparação com a Grécia, parece-lhe medíocre, doente, neurótica. Eis uma longuíssima ladeira abaixo, portanto, esta que estivemos descendo por uns 2.000 mil anos, à sombra da cruz e seguindo ovelhisticamente o cajado ascético dos pastores!

“Decadência, para Nietzsche, é a ciência que se desenvolve a partir do racionalismo socrático, e que se harmoniza perfeitamente com a moral cristã, para a qual o mundo real com que temos de lidar todos os dias é apenas provisório e aparente (como eram as coisas sensíveis para Platão, apenas imagens das ideias eternas), e tem sua autêntica verdade no mundo do além, prometido aos fiéis após a morte. A decadência da civilização europeia é um efeito da atitude ascética imposta tanto pelo racionalismo socrático-platônico quanto pelo cristianismo…” (304)

Nietzsche é ao mesmo tempo inimigo do niilismo e do cristianismo. Não é à toa: o cristianismo é justamente uma das formas do niilismo, uma doutrina que desvaloriza o mundo real, que calunia a natureza, que lança o valor para um “outro mundo” de conto-de-fadas. Vattimo: “Cristianismo, moral e metafísica são os componentes essenciais do niilismo; e eles são dominados pelo instinto da vingança.” (p. 35) Como aprende-se na Genealogia da Moral, o cristianismo é uma religião nascida do ressentimento dos escravos que, pisoteados pelo Império Romano, inventaram em sua impotência uma doutrina que lhes garante a vitória sobre os opressores. Estes oprimidos e desvalidos que, na origem, inventam e disseminam o cristianismo, ao mesmo tempo “criam uma tábua de imperativos em que dominam as virtudes do rebanho e da passividade.” (p. 37) Blessed are the meek. O nietzschianismo em uma pílula: “Os falsos caminhos que o homem do passado tomou para elevar-se acima de si mesmo são todos fundados na oposição de um mundo eterno ao mundo do devir. (…) Mas a fé na transcendência impede uma plena reconciliação com o mundo como ele é.” (p. 317)

 A morte de Deus, ou a perda da fé, não equivale a uma perda real: perde-se um fantasma, mas ganha-se com isso um aumento da responsabilidade humana. Deixar de crer em Deus, portanto, é uma libertação para a plena tomada do leme da barcola da vida em nossas próprias mãos:toda responsabilidade recai sobre nós. A morte de Deus, que Zaratustra anuncia, não é outra coisa que o fim das garantias de que o homem da metafísica tradicional se rodeara para se livrar da responsabilidade plena por seus atos. O homem novo que Nietzsche projeta e para o qual quer preparar o caminho com seu pensamento é o homem capaz de assumir plenamente suas próprias responsabilidades.” (p. 69)

 Compreende-se melhor, pois, que Nietzsche tenha tentado demolir também a crença na Verdade, ou seja, numa Verdade que está em Outro Mundo, ou em Deus, ou que fosse algum fundamento metafísico para os valores. Sobre este assunto, Vattimo explica:

 “O sujeito pensante que sai em busca dos ‘verdadeiros’ fundamentos dos valores em que se baseia nossa civilização, e em geral de tudo o que de humano e de digno existe no mundo, descobre ao final que até mesmo seu impulso para a verdade, sua fé na existência de uma verdade como fundo estável e certo, é ainda, por sua vez, mentira, produto cultural, meio para prolongar a grande festa teatral da existência. (…) A crítica da ideologia realizada apenas do ponto de vista da busca de uma verdade mais fundamental para apoiar os pés sempre levou, até agora, à reconstituição de castas mais ou menos sacerdotais: comitês centrais, sociedades de psicanalistas ‘autorizados’, mestres de vida e gurus de todos os tipos.” (p. 278-280)

 NIETZSCHE NÃO É SÓ DINAMITE…

 Qualquer um que se aventure a ler Nietzsche a fundo logo percebe: este iconoclasta e desmitificador, que dizia filosofar a golpes de martelo e ser menos um homem do que uma banana de dinamite, não é somente um destruidor. Ele não quer reduzir tudo a escombros e nada mais: “a desmitificação é um aspecto vinculado necessariamente à criação de novos mitos” (66). A ambição de Nietzsche não é somente lançar por terra e reduzir a pó a mitologia judaico-cristã, mas sugerir ideais alternativos, estilos-de-vida que ele julga mais dignos do futuro da humanidade do que a ancestral adoração do Crucificado. Por que não adoraríamos Dionísio ao invés de Cristo?

 Na obra de Nietzsche, portanto, mesclam-se as diatribes de um misantropo, que dá vazão a todo o seu fel e amargor contra seus medíocres contemporâneos, e as profecias poéticas de um messias de tempos novos. Diz Zaratustra (II: “Da Redenção”): “O presente e o passado aqui embaixo, meus amigos, me são insuportáveis, e eu não seria capaz de viver se não fosse um adivinho do que está por vir.” Em outro momento (III: “Do Grande Anelo”): “quem conhece como tu a volúpia das coisas por vir? Despojei-te da obediência, das genuflexões, das senilidades…”. Resta perguntar se não é possível estar de joelhos diante do futuro, obediente ao ideal dos amanhãs cantantes, e se o porvir glorioso não faz às vezes de um ópio substitutivo para aqueles que descriram dos ópios comuns…

 O Übbermensch – Super-Homem ou Além-do-Homem – é este mito novo que Nietzsche sugere como substituto para o antigo. Vattimo recomenda que convêm “não exorcizar sua carga subversiva reduzindo-o à proporção de um mito literário” (172): mais que um mero personagem literário ou ficção poética, o Além-do-Homem nietzschiano é uma sugestão de uma nova via para a humanidade:

“o super-homem de Nietzsche deve ser entendido como o anúncio de uma humanidade essencialmente diferente daquela que conhecemos e vivemos até agora; o super-homem é o homem capaz de não experimentar mais o valor como objeto separado, encarnando-o, ao contrário, totalmente na própria existência. (…) A esse enfoque se ligam outros temas interpretativos, como o da recuperação do homem total contra a fragmentação (e a divisão do trabalho), que mais diretamente sublinham a proximidade do super-homem nietzschiano com o projeto revolucionário marxista” (p. 166).

Aí se encontra uma das originalidades maiores da leitura de Vattimo: ele discorda veementemente de todas as apropriações nazi-fascistas da obra de Nietzsche e, como bom comunistão, chama Nietzsche para o time dos pensadores revolucionários, com os quais o proletariado teria muito a aprender em sua jornada rumo à libertação. Na opinião de Vattimo, encontra-se em Nietzsche “um projeto humano alternativo que, por ser mais atento às dimensões individuais, psicológicas e pulsionais da existência, pode oferecer ao movimento revolucionário do proletariado indicações válidas para a busca dos conteúdos morais alternativos que ele, por razões históricas e pelas próprias condições de exploração e de opressão, não foi capaz de elaborar.” (173)


O MUNDO DO ALÉM-DO-HOMEM É O MUNDO DA PLURALIDADE LIBERTA

Não parece despropositado nem absurdo à Vattimo falar em uma sabedoria nietzschiana. “Imaginamos espontaneamente o sábio como um velho, que no rosto encovado e nas rugas, no olhar distante e no discurso lento e solene, mostra os sinais de muitas experiências que o modificaram, ensinando-lhe, quase sempre por meio do sofrimento dos fracassos e do esforço das realizações, o verdadeiro sentido da vida. O velho lema da tragédia grega, aprende sofrendo, parece indelevelmente impresso na imagem comum da sabedoria.” (228)

 Será que o fato de Nietzsche ter morrido relativamente jovem, ou seja, de não ter atingido esta “idade das rugas” de que fala Vattimo, é o que basta para que recusemos a ele, sem mais reflexão, a qualificação de sábio? Tendo vivido uma existência profundamente sofredora, e tendo se dedicado tão visceralmente a meditar sobre a vida no próprio epicentro do furacão, não será Nietzsche um dos exemplos supremos, na filosofia dos últimos séculos, deste homem trágico que aprende sofrendo? Não é nesta direção que vai também a interessantíssima análise de Nietzsche que empreende Léon Chestov?

 Vattimo parece defender ao menos a possibilidade de que haja sabedoria em Nietzsche, contra aqueles críticos que fazem do “enlouquecimento de Nietzsche um sinal da justa punição que espera quem deseja ir muito acima, além do bem e do mal, e pretende superar os limites humanos em nome do ideal do super-homem.” (229) Ou seja: o naufrágio na loucura não prova que Nietzsche fosse insensato, mas denota que, além das causas propriamente fisiológicas que o atacaram, havia nele uma “radical impossibilidade de pertencer ao mundo a que pertencemos.” (p. 51)

 Onde estaria, pois, esta “sabedoria” que Vattimo (e tantos outros leitores e intérpretes!) julgam encontrar em profusão na obra nietzschiana? Sabe-se dos veementes protestos de Nietzsche contra o que ele chamava de “resignacionismo”, uma das razões que teve para romper com seu mestre de juventude, Schopenhauer. O ideal de Nietzsche, pois, não poderia estar na mera adaptação resignada e fatalista ao mundo. Como diz Vattimo, “o super-homem é aquele que institui com o mundo uma relação que não é o puro e simples reconhecimento da realidade como ela é, e tampouco uma ação moral referente apenas ao sujeito, mas uma verdadeira relação de recriação do próprio mundo, redimido do acaso e da brutalidade do evento numa criação poética em que vigora uma nova necessidade.” (11)

 O ideal de vida nietzschiano, portanto, varre para longe aquilo que foi entronado como virtude pela tradição judaico-cristã, e mesmo por filósofos como Platão e Schopenhauer: a ascese ascética e a resignação fatalista. “No lugar da ascese, entra um temperamento bom, uma alma segura, branda e no fundo alegre, que não tem nada do tom de resmungo e teimosia – essas características notórias e desagradáveis de cães e homens velhos que ficaram muito tempo acorrentados.” (271)

 Como um dos mais importantes filósofos a terem empreendido uma vasta e radical “crítica da cultura”, Nietzsche nos legou um trabalho sobre tudo aquilo que “marca profundamente a psicologia individual do homem moderno. Uma das características do homem contemporâneo em que Nietzsche mais insiste é a incapacidade de sair do imediato, de desejar em relação com o eterno, a restrição do desejo à esfera egoísta dos pequenos interesses… Perdida a fé em uma ordem providencial e imerso no fluxo irrefreável das coisas, o homem vive sua vida psíquica segundo um tempo que musicalmente seria possível definir como prestíssimo…”

 Estamos em território familiar: o homem individualista, consumista, mesquinho, faminto de prazeres imediatos, que não conhece seu passado e não se preocupa com seu futuro, “tipo” de que nossas metrópoles ocidentais estão repletas, é justamente o “homem” que precisa ser superado: ir além dele já é caminhar sobre este fio sobre o abismo que conduz ao Além-do-Homem. Vattimo sabe, como Nietzsche também sabia, que as civilizações são mutantes, que a roda da História não pára e que não há nada de mais insensato do que apostar que o futuro será idêntico ao presente. Estamos numa época de acelerada mutação e mudança. E Nietzsche, filósofo autenticamente heraclitiano, é um guia essencial para nós que descemos a correnteza destes tempos.

 “A vida não tem mais a estabilidade que tinha nas sociedades de desenvolvimento lento que deixamos para trás. O caso extremo das novas possibilidades que a pesquisa recente abriu para a manipulação genética, que nos coloca diante do inusitado desafio de uma modificação dos “códigos” da vida, talvez seja apenas o exemplo mais emblemático da nova condição com que nossa arte de viver tem de lidar.” (p. 229)

 Vattimo refere-se a um processo de “efetiva pluralização dos mundos” decorrente do “fim do colonialismo” e do “encontro de culturas” (234). Se Nietzsche é um pensador ainda com tanto futuro, é também pois ele nos auxilia, em plena era da globalização e da Aldeia Global, a encontrar uma sabedoria no próprio seio do multi-culturalismo. “Trata-se de um ideal de vida e de sabedoria que acaba por indicar como meta do aperfeiçoamento moral um sujeito ‘plural’ capaz de viver a própria interpretação do mundo sem necessidade de acreditar que ela seja ‘verdadeira’ no sentido metafísico da palavra, no sentido de alicerçar-se em um fundamento certo e inabalável.” (p. 235)

 O “super-homem” seria, comenta Vattimo, dotado de uma “abertura fundamental para a pluralidade das interpretações” (238) e portanto estaria nos antípodas do “fundamentalista” dogmático:

 “O fundamento último que sempre justificou os mais impiedosos fanatismos da história da violência humana não é substituído pela vontade de um eu assumido como último e indiscutível absoluto”, aponta Vattimo, involuntariamente pontuando o abismo que separa Nietzsche, por exemplo, do Marquês de Sade – este, que alça as arbitrariedades do eu ao status de um absoluto tirânico. Para Nietzsche, o ideal seria um “eu que é um centro de hospitalidade e de escuta de vozes múltiplas, um mutável arco-íris de símbolos e chamados que está tão mais próximo do ideal quanto menos se deixa encerrar em uma forma dada de uma vez por todas.” (p. 239)

[por Eduardo Carli, Goiânia, Agosto ’12]