No filme “Kursk”, a tragédia submarina filmada por Thomas Vinterberg ilustra o conceito existencialista de “situação-limite” (Karl Jaspers)

“No one has forever… but I wanted more.”
Uma das frases na última carta antes da morte
escrita por um marinheiro no Kursk

A ninguém é concedida a eternidade. Esta verdade que soa banal – ou seja, o fato que qualquer um de nós é mortal e nunca ninguém terá um tempo infinito para viver – é diferencialmente apreendida em vários pontos do nosso fluxo de vida.

Na infância e primeira juventude, podemos ter a ilusão da imortalidade advinda da falta de experiência da morte alheia ou de vivência prévia de ameaça grave contra nossa vida própria. Mas é só um cachorro ser atropelado e morrer diante dos olhos da criança, ou o jovem ter que acompanhar a agonia senil de uma avó ou um bisavô, para que comece a raiar – frequentemente de forma traumática – a consciência da mortalidade.

Baseado no livro A Time To Die, de Robert Moore, e roteirizado por Robert Rodat (o mesmo de O Resgate do Soldado Ryan), o novo filme de Vinterberg tranforma o submarino naufragado Kursk numa espécie de palco trágico para encenar a Situação-limite daqueles marinheiros.

Situações-limite, segundo o filósofo alemão Karl Jaspers (1883 – 1969), são como “paredes com as quais nos deparamos, uma parede em que batemos e fracassamos.” (JASPERS, 1932, vol. 2, pg. 178) Situação-limite é aquela que o filme se interessa em capturar, através de uma narrativa fílmica potente e impiedosa: obrigados a encarar o fracasso, batendo os crânios contra as paredes da necessidade, sentindo na língua o sabor amargo da morte precoce, eles estão levados aos limites da condição humana e aos confins extremos do nosso sofrimento.

Confinados no fundo do mar, tremendo com o frio do Ártico, rodeados pela água que avança por todos os lados a ponto de molhar até os ossos, contemplam na cara o corte da foice iminente. A monstra invisível já afia suas lâminas para terminar de ceifar todas aquelas vidas naufragadas no nada.

Filósofo Karl Jaspers no seu lar em Basel, 1956

Em “Kursk”, filme que desembarcou nos cinemas do Brasil no início de 2020, aparentemente Vinterberg aderiu ao gênero do filme-catástrofe – já repleto de blockbusters sobre tragédias marítimas. Mas seu tom é muito mais próximo a do o clássico esplendoso Moby Dick, em que John Huston adaptou, na companhia de Ray Bradbury, o romance épico de Herman Melville em um dos grandes filmes da história da sétima arte.

Em Kursk, não há baleia em guerra contra Ahab, causando muitos rolês cheios de desventuras e que trituram toda a tripulação do Pequod, mas há sim a batalha humana contra “monstros de nossa própria criação” (como cantava Renato Russo em “Será” da Legião). Estes monstros que criamos – os submarinos bélicos lotados de torpedos e movidos a energia nuclear, por exemplo, e que podem acabar nos devorando.

Kursk é uma espécie de Titanic de teor existencialista, em que o complexo afetivo Vinterberguiano é radicalmente distinto daquele que anima o filme – melodramático e grandiloquente – do papa-bilheterias James Cameron. O filme de VInterberg se baseia em fatos reais: a catástrofe no submarino nuclear russo Kursk, em 2000, no mar de Barents, ao norte da Noruega, com 118 mortos. O submarino tinha sido batizado em homenagem a uma batalha épica da 2ª Guerra Mundial entre alemães e soviéticos.

Esse evento histórico que o filme evoca serve como ocasião para que uma poderosa narrativa fílmica nos leve a acompanhar a agonia claustrofóbica de marinheiros colocados diante da iminência da morte: “No one has forever, but I wanted more”, escreve o protagonista à sua esposa em sua carta de despedida. Um clima de Eclesiastes pulsa nesta frase que faz lembrar ditos como “ninguém é senhor do dia da própria morte, e nessa guerra não há trégua.”
Bíblia (Eclesiastes, 8-8)
Este “eu queria mais” também é prova de que o conatus pulsa mesmo em meio à agonia. Uma sabedoria que só ensinam as situações-limite?

O que é extremamente interessante nesta situação-limite em que o filme nos imerge é uma espécie de proliferação social da angústia extrema daqueles sobreviventes que no submarino, esperam por resgate enquanto agem desesperadamente para se manterem vivos. A angústia prolifera, é evidente, sobretudo sobre os parentes, que na cidade portuária preocupam-se desde as vísceras com os destinos de seus pais, de seus maridos, de seus irmãos, de seus primos. A angústia também prolifera para a hierarquia de comando da Marinha, obrigada, pela situação-limite, a tomar decisões urgentes.

O filme pode ser estudado em faculdades e cursos de relações internacionais pelo retrato realista que faz das dificultosas relações entre os russos e os britânicos – estes, com equipamento de resgate mais avançado, poderiam ter salvado a parcela dos marinheiros que sobreviveram à explosão. Não é nada louvável o retrato que se faz das autoridades russas, que teriam perdido o kairós (o momento propício) em que suas decisões poderiam ter salvado vidas, e isto em decorrência de uma reticência em admitir o despreparo tecnológico para lidar com aquela emergência.

No entanto, creio que é preciso ter uma boa dose de desconfiança em relação à crítica cinematográfica que instrumentaliza o filme para tacar pedras nos russos, ignorando os aspectos de tragicidade que esta situação-limite envolve. Isabela Boskov, da revista Veja, em uma resenha tão rasa que ocupa apenas um parágrafo, apedreja os russos com esta frase peremptória:

“Quase uma década após o fim da União Soviética, a Rússia demonstrou de maneira cruel que não perdera os velhos vícios do sigilo e da indiferença: em 12 de agosto de 2000, quando o supersubmarino nuclear Kursk sofreu uma explosão e afundou no Mar de Barents, o governo preferiu proteger seus segredos militares a dar uma chance real de resgate aos sobreviventes aprisionados na embarcação.” (BOSCOV, Veja, 2020)

O comentário de Boscov comete uma injustiça elementar: atribui à “Rússia” um equívoco de agentes públicos da Marinha deste país, num caso de generalização em que o tom condenatório parece querer abarcar todo um país (“a Rússia demonstrou de maneira cruel que não perdera os velhos vícios do sigilo e da indiferença”). Não se confunde o Estado e a população de um território; não se taca pedras na Rússia como um todo, quando os culpabilizáveis por decisões errôneas são funcionários públicos de uma entre centenas de outras instituições públicas deste Estado-nação.

O próprio filme é repleto de tensões entre os familiares dos marinheiros do Kursk e as autoridades militares e políticas responsáveis pela gestão da crise, mostrando que, se houve negligência ou indiferença pela vida humana, com os segredos de Estado sendo colocados acima da abertura imediata à colaboração internacional que poderia ter salvado algumas vidas, de modo algum se pode atribuir à “crueldade russa” (como faz Boscov em sua frase desastrada). A crueldade, caso fosse atribuída a alguns personagens, que se mostraram um tanto frios e indiferentes diante dos horríveis momentos de agonia dos marinheiros, incapazes de se colocarem na pele dos que estavam confinados naquela submarina infernaria, poderia até ser um juízo moral defensável. O que não é defensável é a atitude de Veja de veicular a ideia, em manchete sensacionalista, de que o filme fala sobre “a crueldade dos russos em meio a uma tragédia”.

É o tipo de resenha que, além de não contribuir em nada para uma apreciação mais aprofundada e nuançada da obra-de-arte, como é uma das funções do crítico, presta à produção encabeçada por Vinterberg o desserviço de atribuir a ele um intento difamatório contra toda a Rússia que não está no cineasta, mas sim na articulista da revista.

Fotografia do submarino russo Kursk – O Globo

Para explicar mais a fundo o que quero dizer, sublinho que uma das melhores cenas do filme é aquela em que o menino, após o funeral de seu pai, tem a mão a ele estendida por uma alta autoridade de hierarquia da Marinha (interpretado por Max Von Sydow) e recusa o cumprimento. Este russinho, recusando a vênia a este russão, já é prova inconteste da falácia absurda da generalização realizada por Boskov. Trata-se de um ato de desobediência civil que logo prolifera e é imitado por todos os outros órfãos que se perfilavam, no enterro de seus entes queridos, para receber os pêsames da parte daquele oficial que tinha fracassado em resgatá-los e trazê-los de volta com vida.

Lembrei-me na hora de uma das melhores cenas de The Handmaid’s Tale, episódio 10 da primeira temporada, em que a desobediência civil também é ilustrada quando as mulheres recusam-se a apedrejar uma outra mulher, a mando da mandona xerifa Tia Lydia. Pequenos gestos, grandes significados.

Além do significativo gesto de desobediência civil que o menino realiza diante do velho comandante, demonstrando uma revolta silenciosa diante da instituição que fracassou em salvar vidas resgatáveis naquela difícil situação-limite, o filme também dá o que pensar sobre o tema do sacrifício. Pouco depois da explosão, temos o exemplo de marinheiros dispostos a sacrificar seus últimos alentos e derramar suas últimas gotas de suor para evitar o que se chama, no filme, de “uma nova Chernobyl”. O filme de Vinterberg nos convida a pensar numa certa formação prévia que gerou nos marinheiros uma atitude de aceitação do sacrifício por um bem maior, ou pelo menos pela evitação de um mal pior.

 Em situações-limite, o apego tradicional do indivíduo por sua existência pode ser transcendido por um ímpeto de utilização produtiva de uma vida em iminência de acabar em prol do bem-estar de outros. Ou seja, a morte iminente não necessariamente instala um clima de egoísmo total, abjeto, brutal, mas abre a possibilidade também de atos de um heroísmo extremado, nos limites das capacidades físicas do organismo humano – como naquela cena em que os dois nadadores mergulham nas águas de frio ártico para irem resgatar os cartuchos de oxigênio que permitirão a sobrevida daquela pequena comunidade de desesperados e ofegantes sobreviventes temporários de uma catástrofe gigante.

A reflexão pós-filme que me domina é esta: quase sempre a morte vem nos pegar quando queríamos um tempo a mais para sorver a vida, por pior que ela seja. Aquele submarino serve de palco para o drama trágico da resiliência humana – e despontam ali momentos de intenso companheirismo. Mesmo que seja no singelo gesto de emprestar uma caneta ao companheiro que quer rabiscar suas últimas palavras antes de morrer. Seja no gesto heróico de não abandonar o companheiro desmaiado no mergulho e içá-lo a um patamar onde o ar seja respirável.

Até mesmo o humor se ergue na cara da morte – como a piada do ursinho polar mostra. Aqueles caras, tiritando com o gélido frio daquelas águas extremadamente geladas, aquecem-se por dentro com a graça do ursinho polar perguntando pra mãe: “se você é uma ursa polar, e meu pai também, e sou filho de vocês, isso faz de mim um ursinho polar, não? Então por que caralho estou com tanto frio?”O humor também desponta na última refeição – comida com tragos generosos da última garrafa de vodka -, onde sentir o bafo da bocarra aberta da morte já perto de nos devorar não consegue impedir o riso. É bela esta última gargalhada bêbada dos condenados. A situação-limite pode ter como consequência, se conseguirmos, um estouro de riso. Nosso fracasso é tão hilário, nossa espécie tão estúpida, nossa cooperação tão falha, nossas tecnologias tão traiçoeiras! É rir pra não chorar….

Thomas Vinterberg, o cineasta dinamarquês que iniciou o movimento estético Dogma 95 na companhia de Lars Von Trier nos anos 1990, nunca teve medo de frustrar as expectativas de uma platéia fissurada no happy end hollywoodiano (similarmente, Michael Haneke dedica-se a triturar nossas vontades de filmes leves, agradáveis e conformistas, crowd-pleasers de gostosa alienação industrializada).

Aqueles que acompanham a obra de Vinterberg já se acostumaram a esperar dele finais infelizes – que nos impactam justamente por um certo tom trágico, desesperançado. Assistir a “Submarino”, “A Caça”, “A Comunidade”, “Dear Wendy”, “Far From The Madding Crowd”, dentre outros de seus filmes, é expor-se a um artista disposto a realizar, através do cinema, um processo de provocação existencial que sacuda a apatia e a normose do espectador, fazendo-o considerar a vida através do viés meio dark, repleto de humor negro, que é uma das marcas do olhar Vinterberguiano. Se estivesse vivo, talvez o grande filósofo romeno Emil Cioran teria em Vinterberg um de seus cineastas contemporânos prediletos.

A Jasperiana situação-limite do Kursk, que envolve todos os personagens numa trama sinistra de decisões difíceis diante de mortes evitáveis, revela muito sobre a condição humana: a personagem de Léa Seydoux (que neste filme está loura e não com os cachos azuis que usou em Azul É a Cor Mais Quente, de Kechiche) é emblema das cicatrizes que os “fracassos” ocasionados pela confrontação insuficiente das situações-limite acarreta. As lágrimas que Vinterberg nos obriga a assistir caindo dos olhos desta mulher que acaba de enviuvar, com um filho pequeno para criar e um outro filho em gestação em seu ventre, é bem mais que melodrama apelativo. São lágrimas que nos convidam à reflexão sobre a precariedade, a fragilidade, o caráter radicalmente destrutível de nossas vidas e, portanto, de nossos laços afetivos. A resiliência do amor em face da catástrofe triunfal é um dos encantos maiores que reluz, como um Nabokoviano fogo pálido, na escuridão deste luto coletivo enquanto o filme se encerra.

O clima afetivo que domina Kursk, afinal de contas, é mesmo o que eu chamaria de uma vibe death-conscious, um sentimento de ciência da mortalidade, muito marcante em vários pensadores e artistas identificados com o existencialismo, e que o Nabokov sintetiza, recuperando a percepção de Lucrécio sobre os dois vazios – antes-de-nascer e depois-de-morrer – que estão nos extremos de uma vida humana: “nossa existência não é mais que um curto-circuito de luz entre duas eternidades de escuridão.” (NABOKOV)

Vladimir Nabokov

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 14/01/2020

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“No dia seguinte ninguém morreu” – José Saramago sonda a tragicomédia da existência em “As Intermitências da Morte” (2005)

Nunca houve, desde que há mundo, um único dia que tenha transcorrido sem mortes. Não há registro ou notícia, desde que há vidas nesta esfera que rodopia ao redor do sol, de um giro completo do planeta ao redor de seu próprio eixo em que não tivessem se entremesclado no Theatrum Mundi os primeiros gritos dos recém-nascidos com os últimos suspiros dos agonizantes (como já nos ensinava a poesia epicurista de Lucrécio).

Se na realidade nunca houve época em que a morte tivesse entrado em férias, na literatura pode-se fantasiar livremente sobre o inaudito, o inédito, o nunca-dantes-nos-anais-da-história: como aquela formidável época em que a gente parou de morrer. A crônica imaginária destes sucessos extraordinários foi realizada em As Intermitências da Morteromance publicado em 2005 por José Saramago e que assim se inicia:

“No dia seguinte ninguém morreu. O fato, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme… não havia notícia nos 40 volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenômeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas 24 horas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar.” (SARAMAGO – Cia das Letras, 2005, p. 11)

Na trajetória do escritor, este livro é da fase tardia, escrito após a consagração mundial de Saramago em 1998, quando o hoje defunto autor português foi laureado com o Nobel de Literatura, aquele prêmio que concede a tão poucos e seletos mortais a aura de sua glória, auréola de fama que promete a seu detentor que sua obra irá seguir ecoando, enganando a bocarra gigantesca da obscuridade do túmulo que engoliu quem esta obra pariu.

Neste livro, como de praxe, o Saramago é o cronista sagaz de nosso absurdo individual e coletivo. É o autor capaz de enxergar com profunda ironia, tingida de melancolia, todas as nossas adversidades, todas as nossas idiotices, todas as nossas incompletudes. É também o crítico mordaz das religiões instituídas, das máphias políticas, das velharias autoritárias, agindo como um iluminista tardio que age contra todos os obscurantismos que insistem em medievalizar a terra.

Saramago atua, através de sua caudalosa escrita, como um pedagogo sábio que quer nos ensinar a travessia que vai da cegueira à lucidez. Pela via régia do ateísmo, busca a emancipação do pensamento e da sensibilidade, libertos das cataratas de mentiras que nos vendam os olhos. O pior cego é o que não quer ver, o que pôs vendas em seus próprios olhos, em atitude análoga à daquele que está perecendo em uma cela de prisão sem perceber que a chave está por dentro.

Explorado em outras de suas obras, como Ensaio Sobre a Cegueira, o tema da cegueira – não literal, mas sim moral, existencial, relacional – parece estar correlacionado, na obra saramaguiana, com a condição mortal. Como se fôssemos demasiado covardes, a maioria de nós e a maior parte do tempo, para estar with eyes wide open diante de nossa condição.

Preferimos a semi-obscuridade – a falta de lucidez – de nossas fés e ideologias, que tanto contribuem para que vivamos com eyes wide shut (nome, aliás, do notável filme de despedida de Stanley Kubrick). Cegos de propósito, pois nunca suficientemente corajosos para encarar, no espelho, a caveira que nos olha de volta por detrás da pele da face. Crânio escondido por detrás da cara que é o retrato de nosso futuro incontornável.

O único animal que sabe que vai morrer inventa, através da história, os ópios e morfinas espirituais que mediquem sua angústia da finitude. A música do Morphine expressa isto à perfeição em Cure for Pain, uma das mais belas canções do finado Mark Sandman: “someday there’ll be a cure for pain, that’s the day I’ll throw my drugs away”.

Saramago sabe que as religiões instituídas, aí incluída a católica apostólica romana, sempre insistiram no tema da “morte como porta única para o paraíso celeste, onde, dizia-se, nunca ninguém entrou estando vivo, e os pregadores, no seu afã consolador, não duvidavam em recorrer a todos os métodos da mais alta retórica e a todos os truques da mais baixa catequese para convencerem os aterrados fregueses de que, no fim de contas, se podiam considerar mais afortunados que os seus ancestres, uma vez que a morte lhes havia concedido tempo suficiente para prepararem as almas com vista à ascensão do éden” (p. 133). A extinção da morte é um perigo para a sobrevivência das religiões instituídas, estas profanas criações humanas destinadas a pôr em circulação os ópios fantasiosos que acalmam os terrores e angústias do bicho que sabe que vai morrer.

Há muito tempo estou convencido – e nisto a leitura de Saramago muito contribuiu – de que as religiões e as mitologias são incompreensíveis em um horizonte onde não coloquemos, no cerne, a mortalidade humana e o nosso protesto contra ela. Diante da morte invencível, os seres humanos erguem suas catedrais e suas preces; imaginam-se triunfantes em um além-túmulo que o poeta Tennyson chamará de local do Segundo Nascimento; Idolatram a figura de um crucificado que supostamente voltou à vida depois de três dias morto. Só inventamos deuses pois morremos – e é porque morremos que “se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo.”

Pintura de Andrea Mantegna – “Lamentação de Cristo”

Mortais humanos apegam-se com esperanças fervorosas ao sonho de ressurreição, e olhando, seja de frente ou de soslaio, seus destinos de criatura temporárias, abraçando ou recusando esta ciência fatal, os seres que somos recusam-se a ir ladeira abaixo, no processo que conduz pra baixo da terra, em silêncio e resignação. Para lembrar o célebre estribilho poético: We not go quietly into that good night… We rage, rage against the dying of the light! (Dylan Thomas)

Como disse Albert Camus, “o ser humano é a única criatura que se recusa a ser o que é.” E a danada da morte tem tudo a ver com isso. Ela é, para os viventes, aquilo que Manuel Bandeira chamou de “a indesejada das gentes” – e os suicidas sempre foram minoria da humanidade, pois os que buscam com ânsia uma morte que lhes dê fim aos tormentos e angústias sempre foram menos numerosos do que aqueles que foram impelidos à sobrevivência resiliente até que o tempo os matasse com seus instrumentos do costume, como as doenças e as violências bélicas. Ainda assim, o suicídio e a eutanásia são fenômenos que nos obrigam a refletir sobre o direito de morrer, quando a vida não é mais sentida como digna de ser vivida, um tema abordado com muita sensibilidade e pungência por filmes como Mar Adentro de Amenábar ou Amor de Haneke.

Saramago, no espaço livre de seu livro, suspende as leis natural que estão por aí desde que o mundo é mundo. Mago plenipotente no espaço de seu romance, ele conta uma história fantasiosa: na alvorada de um ano novo, todos os 10 milhões de habitantes de um certo país subitamente descobrem que a morte saiu de férias. Por tempo indeterminado. Sem aviso prévio, abandonou o posto e desistiu de seu fatal ofício, há tantos milênios incansavelmente exercido.

Não se sabe os motivos de sua greve, e ninguém explicou se o fenômeno é uma casual e efêmera transformação da ordem cósmica, que logo re-entrará nos eixos costumeiros, ou se as regras da vida e da morte foram alteradas para sempre neste pequeno rincão da terra. A princípio, é o fervor patriótico e todos comemoram o privilégio. Logo depois, percebem que a morte sair de férias irá acarretar um imenso transtorno – tanto é assim que os fluxos migratórios irão se acentuar, com inúmeros nômades-peregrinos querendo chegar a outro país onde ainda se tem a possibilidade de morrer.

Tudo se transtorna com as férias que a morte resolveu tirar: os hospitais ficam repletos de doentes terminais, os asilos de velhos sofrem com o excesso dos agonizantes estão à espera de seu ocaso, os escritórios das companhias de seguros e os bancos onde elas depositam seus capitais entram em crise…

Os impactos na economia são tremendos – e não apenas no pequeno nicho que são as empresas funerárias, que fornecem aos que sobrevivem os necessários auxílios para o despojo daquelas partes do ex-vivo tão brutalmente chamados por alguns de “restos mortais”, aquilo que, abandonado pela chama da vida, apodrece logo com exalações de odores pútridos e que por isso corremos a afastar de nossas fuças e vistas.

A teledramaturgia, nos últimos anos, foi responsável pela criação de uma obra-prima das séries dramáticas com A Sete Palmos (Six Feet Under), da HBO, cujas 5 temporadas expuseram em minúcias as vidas da família Fisher e seus agregados afetivos enquanto tocam avante a difícil empreitada de gerir uma funerária.

Saramago também se interessa por todas as indústrias que lucram com a morte, mas é mais como um crítico ácido que ele atua, nunca como alguém que não enxergue a problemática complexa que envolve hospitais, asilos, funerárias e os elos que os conectam aos poderes políticos e eclesiásticos. As altas cúpulas do clero e as altíssimas autoridades do reino são alvo da pena mordaz de Saramago, que em inúmeros livros despeja sua ironia sobre o fenômeno da vinculação teologia-política (Memorial do Convento, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Caim etc.).

Em As Intermitências da Morte, o romance revela tudo o que ocorre no curto período em que a morte cessa de desempenhar suas funções.

“A igreja”, por exemplo: “saiu à arena do debate montada no cavalo-de-batalha do costume, isto é, os desígnios de deus são o que sempre foram, inescrutáveis, o que, em termos correntes e algo manchados de impiedade verbal, significa que não nos é permitido espreitar pela frincha da porta do céu para ver o que se passa lá dentro.

Dizia também a igreja que a suspensão temporária e mais ou menos duradoura de causas e efeitos naturais não era propriamente uma novidade, bastaria recordar os infinitos milagres que deus havia permitido se fizessem nos últimos 20 séculos, a única diferença do que se passa agora está na amplitude do prodígio, pois que o que antes tocava de preferência o indivíduo, pela graça da sua fé pessoal, foi substituído por uma atenção global, não personalizada, um país inteiro por assim dizer possuidor do elixir da imortalidade, e não somente os crentes, que como é lógico esperam ser em especial distinguidos, mas também os ateus, os agnósticos, os heréticos, os relapsos, os incréus de toda a espécie, os afeiçoados a outras religiões, os bons, os maus e os piores, os virtuosos e os maphiosos, os verdugos e as vítimas, os polícias e os ladrões, os assassinos e os doadores de sangue, os loucos e os sãos de juízo, todos, todos sem exceção, eram ao mesmo tempo as testemunhas e os beneficiários do mais alto prodígio alguma vez observado na história dos milagres…” (p. 75)

Descrente em milagres como bom ateu, Saramago brinca de imaginar as consequências que tomariam o mundo caso este milagre ocorresse e a “Velha da Capa Preta” parasse de trabalhar. O desemprego dos coveiros seria a menor de nossas encrencas. A editora Companhia das Letras sintetizou bem os charmes e graças do romance:

De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico logo se revela um grave problema.

Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder “passar desta para melhor”. Os empresários do serviço funerário se vêem “brutalmente desprovidos da sua matéria-prima”. Hospitais e asilos geriátricos enfrentam uma superlotação crônica, que não pára de aumentar. O negócio das companhias de seguros entra em crise. O primeiro-ministro não sabe o que fazer, enquanto o cardeal se desconsola, porque “sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja”.

Um por um, ficam expostos os vínculos que ligam o Estado, as religiões e o cotidiano à mortalidade comum de todos os cidadãos. Mas, na sua intermitência, a morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre. Então, o que vai ser da nação já habituada ao caos da vida eterna?

LEIA OUTRO TRECHO

Vale lembrar que, na arte brasileira, há também um magnum opus que se equipara a Saramago na capacidade de expressar de maneira criativa e expressiva o enrosco humano com a mortalidade: estou falando da música de Siba, depois regravada por Juçara Marçal em seu álbum Encarnado, “A Velha da Capa Preta”:

A morte anda no mundo
Vestindo a mortalha escura
Procurando a criatura
Que espera a condenação
Quando ela encontra um cristão
Sem vontade de morrer
Ele implora pra viver
Mas ela ordena que não
Quando o corpo cai no chão
Se abre a terra e lhe come
Como uma boca com fome
Mordendo a massa de um pão

A morte anda no mundo
Espalhando ansiedade
Angústia, medo e saudade
Sem propaganda ou esparro
Sua goela tem pigarro
Sua voz é muito rouca
Sua simpatia é pouca
E seu semblante é bizarro
A vida é corno um cigarro
Que o tempo amassa e machuca
E morte fuma a bituca
E apaga a brasa no barro

A morte anda no mundo
Na forma de um esqueleto
Montando um cavalo preto
Pulando cerca e cancela
Bota a cara na janela
Entra sem ter permisão
Fazendo a subtração
Dos nomes da lista dela
Com a risada amarela
É uma atriz enxerida
Com presença garantida
No fim de toda novela

Disse a morte para a foice:
Passei a vida matando
Mas já estou me abusando
Desse emprego de matar
Porque já pude notar
Que em todo lugar que eu vou
O povo já se matou
Antes mesmo d’eu chegar
Quero me aposentar
Pra gozar tranqüilidade
Deixando a humanidade
Matando no meu lugar

A personificação da morte não é novidade na história da arte – de Van Gogh (pintura acima) a Bergman (em um filme como O Sétimo Selo), artistas de várias vertentes já representaram a dita cuja de muitas maneiras, como um esqueleto que fuma um cigarro ou como uma jogadora de xadrez que oferece ao rival a oportunidade de adiar sua estadia entre os vivos, desde que consiga não tomar um xeque-mate.

No caso de Saramago, ele se deleita em imaginar as enrascadas em que a morte responsável por matar os humanos entraria caso mudasse seus métodos imemoriais. A morte, quando sai dos trilhos, acaba por descarrilhar todo o trem da vida. Primeiro, ela escolhe as férias, mas depois decide retornar à labuta, mas com outra estratégia: mandará pelo correio uma carta de cor violeta, avisando aos que estão na iminência de morrer que lhes resta apenas uma semana de vida…

Poética, a morte pensa em enviar, ao invés de cartas, borboletas – em especial a espécie acherontia atroposdotada pela natureza de um visual curiosamente fúnebre. São maneiras irônicas de Saramago nos sugerir, com muita graça, que a morte sempre fez parte da vida e que ainda bem que é assim. Esta funcionária exemplar causaria o caos caso falhasse no desempenho de suas funções. Hospitais engarrafados de tantos doentes, asilos às dúzias tendo que ser construídos às pressas, empresas de enterros indo à falência, e religiões instituídas caindo no colapso – tudo isso como resultado da temporária intermitência da morte em seu ofício.

Se a vida fosse impossível de perder, que valor teria? Não temos apreço senão por aquilo que é a um só tempo precioso e destrutível. Sabemos e sentimos que tudo de bom que vivemos é efêmero e temporário, e André Gide ensinava que quem não pensa suficientemente na morte não consegue dar o devido peso e urgência à vida: “Um pensamento insuficientemente constante sobre a morte”, escrevia Gide, “nunca deu valor suficiente ao mais ínfimo instante de vida.”

Nas páginas de Saramago, é como se a morte aparecesse como a necessária força de renovação das coisas. Sem morte, tudo estagnaria e o mundo viraria um amontoado de velharias. O fluxo cósmico perderia sua fluidez. As velharias se amontoariam, sufocando o novo. Só através da morte é que a vida pode inovar. No balé infindável de Eros e Tânatos, o palco do mundo vê a emergência sem fim de novas formas. Metamorfoses advindas interminavelmente da dialética inextirpável da vida e da morte.

Pintura de Michael Wolgemut, “A Dança dos Esqueletos”

Em seus momentos mais filosóficos, As Intermitências da Morte nos faz refletir sobre os diversos modos de findar a existência, de acordo com o organismo vivo que chega a seu ocaso, como no capítulo 6, em que um peixinho de aquário, alçando-se por sobre as águas, pergunta (perdendo seu pobre fôlego):

“Já pensaste se a morte será a mesma para todos os seres vivos, sejam eles animais, incluindo o ser humano, ou vegetais, incluindo a erva rasteira que se pisa e a sequoia giganteum com os seus 100 metros de altura, será a mesma a morte que mata um homem que sabe que vai morrer, e um cavalo que nunca o saberá. E tornou a perguntar, Em que momento morreu o bicho-da-seda depois de se ter fechado no casulo e posto a tranca à porta, como foi possível ter nascido a vida de uma da morte da outra, a vida da borboleta da morte da lagarta, e serem o mesmo diferentemente, ou não morreu o bicho-da-seda porque está na borboleta… Disse o espírito que paira sobre as águas do aquário, o bicho-da-seda não morreu, dentro do casulo não ficou nenhum cadáver depois de a borboleta ter saído, tu o disseste, um nasceu da morte do outro, Chama-se metamorfose, toda a gente sabe do que se trata, disse condescendente o aprendiz de filósofo….” (p. 72)

Morte e vida dançam o rock da metamorfose no fluido palco do universo, mas cada organismo tem seu modo de experenciar o seu próprio processo de dissolução: se é verdade que o homo sapiens é o único animal consciente de sua própria mortalidade, ainda que ele tanto se esforce para recalcar e reprimir esta ciência (através de métodos psicológicos brilhantemente iluminados por Ernest Becker em A Negação da Morte, belíssimo livro laureado com o Pulitzer), não se pode negar que outros animais dotados de sistema nervoso central e altamente sensíveis aos estímulos ambientais também batalhem com todas as forças de seu âmago contra quem quer lhes impor a morte. Ser um animal é estar animado pelo duro desejo de durar.

Um pomar não nos dá a mesma impressão de resiliência, de perseverança na existência, de manifestação concreta do conatus conceituado na filosofia de Spinoza, o que torna bastante cômicos e risíveis os argumentos de certos carnívoros que, diante da argumentação de vegetarianos em prol da libertação animal, argumentam que as cenouras e os alfaces gostam tão pouco de terem suas vidas abreviadas quanto os porcos e bois abatidos nas milhares de factory farms desde nosso mundo.

Neste debate, Jacques Derrida foi ao cerne do problema ao dizer que a questão crucial a se colocar, diante da vida de um outrem não-humano, é esta: “esta criatura pode sofrer?” E só um mentecapto seria capaz de avaliar, no termômetro da sofrência, que um porco ou uma galinha sofrem menos que uma maçã ou um brocólis com a interrupção de sua existência para fins alimentícios humanos. O apego à vida é evidente maior quanto mais ampla é a consciência que o animal possui de sua condição existencial – e, como Peter Singer argumenta, é um escândalo global chocante o quanto nossas economias ainda estão baseadas no morticínio ultra-disseminado de criaturas que sofrem imensamente com o processo mortífero que os humanos lhes impõem, ao invés de adotarmos uma cultura culinária mais sábia pois atenta aos interesses de seres sencientes semelhantes a nós mesmos.

Passando ao largo dessas questões, o romance de Saramago prefere focar nas reações humanas diante da aproximação da data fatal nas novas condições impostas pela Dona Morte, que no âmbito do romance resolveu inovar em seus métodos. O affair quase romântico da morte com um violoncelista serve como emblema saramaguiano para os poderes transformadores da arte: sob o impacto da aproximação da morte, o músico toca seu Bach, seu Chopin, seu Beethoven, com tal feeling e potência expressiva que tudo transfigura a seu redor.

Saramago imagina então que a morte, encantada com a musicalidade deste mortal que ela não consegue se decidir a matar, escolhe fazer o que nunca antes fizera – é só lembrar que ela não teve piedades, em sua ação pretérita, de gênios musicais colhidos tão cedo do jardim da vida como Schubert, Mozart ou Janis. A morte depõe suas armas diante da música, adia suas tarefas, deixa para depois o único mandamento que segue – “matarás!” Enfeitiçada pela música que fazem os vivos, a morte que nunca dorme decide-se a deixar a foice encostada e vai tirar uma soneca – afinal suas pálpebras pesam após tanto tempo de ação em completa insônia. “E no dia seguinte ninguém morreu…”

“O que à morte impressionava era ter-lhe parecido ouvir naquela música uma transposição rítmica e melódica de toda e qualquer vida humana, corrente ou extraordinária, pela sua trágica brevidade, pela sua intensidade desesperada, e também por causa daquele acorde final que era como um ponto de suspensão deixado no ar, no vago, em qualquer parte, como se, irremediavelmente, alguma cousa ainda tivesse ficado por dizer… (p. 171)

É nossa sina de seres temporários que nunca possamos abandonar o palco depois de tudo termos dito. Resta sempre muito por dizer, e o resto é silêncio. Na literatura de Saramago, este incontornável da condição humana recebe um tratamento literário que é tonificante, não só pela liberação lúdica que nos fornece, aliviando a gravidade com que costumamos tratar do assunto e polvilhando tudo com um espírito de jocosa ironia, mas também pela intensificação de nossa consciência do quão tragicômico é este clarão entre dois nadas que cada um de nós chama de vida.

A morte saramaguiana tem muita graça e lendo este romance pude me divertir a imaginá-la como um funcionária exemplar, que desde a alvorada da vida exerceu suas funções de maneira impecável, mas que enfim decide reclamar seus direitos trabalhistas e reclamar do patrão (deus ou o universo, segundo o gosto do freguês…), já que ela já labuta há milênios, sem férias nem direito a greve, matando 24 horas por dia, inclusive em feriados religiosos e nos horários mais impróprios da madrugada.

A morte é parte inextricável e incontornável da vida de que cada um de nós não detêm a posse mas somente o fugaz usufruto. E a sabedoria epicurista sempre ensinou que não há carpe diem sem memento mori. Saramago, acredito, assinaria embaixo caso a morte tivesse lhe deixado mãos para escrever. Também assinaria embaixo, provavelmente, de duas idéias filosóficas que muito aprecio: a primeira, de Montaigne, que dizia que “filosofia é aprender a morrer”, e a segunda, de André Comte-Sponville, que ensina que “é preciso pensar a morte para amar melhor a vida – em todo caso, para amá-la como ela é: frágil e passageira.”

O pensamento de Saramago, tão filiado a um certo ímpeto de lucidez iluminista que batalha contra o obscurantismo e o fanatismo, busca conduzir-nos a esta sábia apreciação de nossa existência mortal que é tão rara e preciosa. Escrevendo logo após os atentados de 11 de Setembro de 2001, Saramago soube conectar com profundidade os fatores inextricáveis mortalidade religiosidade ao escrever “O Factor Deus”, excelente provocação filosófica-política que é recomendável como posfácio às Intermitências da Morte:

“De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta dos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas sem excepção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que isto seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel.

Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os taliban, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente os textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conluio pactuado entre Religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos, o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gémeas de Nova Iorque e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela acção dos homens, cobriram e teimam em cobrir de torpor e sangue as páginas da História.

Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o “factor Deus”, esse está presente na vida como se efectivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o “factor Deus” o que se exibe nas nota de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos e não a outra…) a benção divina. E foi o “factor Deus” em que o deus islâmico se transformou que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o “factor Deus”, esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem, acabou por fazer do homem uma besta.

Ao leitor crente (de qualquer crença…) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiram, não peço que passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento se não puder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do “factor Deus”. Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.” – SARAMAGO / O FACTOR DEUS

Por Eduardo Carli de Moraes, Goiânia, Julho de 2018

 

Dobradinhas Literário-Pictóricas: Clarice Lispector & Van Gogh

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” – Escute-me, amigo, a lua está alta no céu. Você não tem medo? O desamparo vem da natureza. Esse luar, pense bem, esse luar mais branco que o rosto de um morto, tão distante e silencioso, esse luar assistiu aos gritos dos primeiros monstros sobre a terra, velou sobre as águas apaziguadas dos dilúvios e das enchentes, iluminou séculos de noites e apagou-se em seculares madrugadas… Pense, meu amigo, esse luar será o mesmo espectro tranquilo quando não mais existirem as marcas dos netos dos seus bisnetos. Humilhe-se diante dele. Você apareceu um instante e ele é sempre. Não sofre, amigo? Eu… eu por mim não suporto. Dói-me aqui, no centro do coração, ter que morrer um dia e, milhares de séculos depois, indiferenciado em húmus, sem olhos para o resto da eternidade, eu, EU, sem olhos para o resto da eternidade… e a lua indiferente e triunfante, mãos pálidas estendidas sobre novos homens, novas coisas, outros seres. E eu Morto! – respirei profundamente. – Pense, amigo. Agora mesmo ela está sobre o cemitério também. O cemitério, lá onde dormem todos os que foram e nunca mais serão. Lá, onde o menor sussurro arrepia um vivo de terror e onde a tranquilidade das estrelas amordaça nossos gritos e estarrece nossos olhos. Lá, onde não se tem lágrimas nem pensamentos que exprimam a profunda miséria de acabar… Ouça, vou dizer mais: eu queria morrer vivo, descendo ao meu próprio túmulo e eu mesmo fechá-lo, com uma pancada seca. E depois enlouquecer de dor na escuridão da terra. Mas não a inconsciência.”

Palavras de um personagem de Clarice Lispector (1920 – 1977), no conto “Mais dois bêbedos”, que integra o livro “Todos os Contos”, Editora Rocco, 2016, organização de Benjamin Moser, pg 130-132.

Pintura: “Noite Estrelada” de Vincent Willem van Gogh (1853 – 1890).

Um oferecimento: A Casa de Vidro – Portal cultural e livraria virtual || http://www.acasadevidro.com/

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A VERTIGEM DA FINITUDE ou A CONSCIÊNCIA DA MORTALIDADE- por Drauzio Varella e Fernando Pessoa

:: A Vertigem ::
por Drauzio Varella

A angústia causada pela impossibilidade de comprovar por meios racionais se existe vida depois da morte acompanha a humanidade desde seus primórdios. Imaginar que nos transformaremos em pó e que capacidades cognitivas adquiridas com tanto sacrifício se perderão irreversivelmente é a mais dolorosa das especulações existenciais.

Tamanho interesse no destino posterior à morte, entre tanto, contrasta com a falta de curiosidade em saber de onde viemos. O que éramos antes de o espermatozóide encontrar o óvulo no instante de nossa concepção?

Aceitamos com naturalidade o fato de inexistir antes desse evento inicial, em contradição com a dificuldade em admitir a volta à mesma condição no final do caminho. Como não existíamos (portanto, não fomos consultados para vir ao mundo), consideramos a vida uma dádiva da natureza, e nosso corpo, uma entidade construída à imagem e semelhança de Deus, exclusivamente para nos trazer felicidade, atender aos nossos caprichos e nos proporcionar prazer.

Essa visão egocentrada de quem “não pediu para nascer” faz de nós seres exigentes, revoltados, queixosos, permanentemente insatisfeitos com os limites impostos pelo corpo e com as imperfeições inerentes à condição humana. Assim, acordamos todas as manhãs com tal expectativa de plenitude e de funcionamento harmonioso do organismo que o desconforto físico mais insignificante, a mais banal das contrariedades, são suficientes para causar amargura, crises de irritação, explosões de agressividade e depressão psicológica, não importa que privilégios o destino tenha nos concedido até a véspera ou venha a nos conceder naquele dia.

 Ao contrário da dificuldade em nos livrarmos desses estados emocionais negativos que nos consomem parte substancial da existência, as sensações de felicidade geralmente são fugazes, varridas de nosso espírito à primeira lembrança desagradável. Seria lógico esperar, então, que o aparecimento de uma doença grave, eventualmente letal, desestruturasse a personalidade, levasse ao desespero, destruísse a esperança, inviabilizasse qualquer alegria futura. Mas não é isso que costuma acontecer: vencida a revolta do primeiro choque e as aflições da fase inicial, associadas ao medo do desconhecido, paradoxalmente a maioria dos doentes com câncer ou AIDS que acompanhei conta haver conseguido reagir e descoberto prazeres insuspeitados na rotina diária, laços afetivos que de outra forma não seriam identificados ou renovados, serenidade para enfrentar os contratempos, sabedoria para aceitar o que não pode ser mudado.

 Não me refiro exclusivamente aos que foram curados, mas também aos que tomaram consciência da incurabilidade de suas doenças. Naqueles, é mais fácil aceitar que o fato de ter sobrevivido à ameaça de perder o bem mais precioso e de ser forçado a lutar para preservá-lo confira à vida um valor antes subestimado. Quanto aos que sentem a aproximação inevitável do fim, no entanto, soa estranho ouvi-los confessar que encontraram paz e se tornaram pessoas mais relaxadas, harmoniosas, admiradoras da natureza, amistosas, agradecidas pelos pequenos prazeres, e até mais felizes.

 – Troquei as noites frenéticas, de uma boate para outra até o dia clarear, por minhas plantas, pela algazarra dos passarinhos logo cedo, por meus livros, pelo café-da-manhã com minha mãe e o jornal – disse um de meus primeiros pacientes a descobrir que estava com AIDS.

 Um colega de profissão, mais velho, tratado por mim de um câncer de próstata incurável, certa vez disse:

 – Antes de ficar doente, eu nunca estava no lugar em que me encontrava: vivia alternadamente no passado e no futuro. Quantas coisas boas desperdicei por permitir que meus pensamentos fossem invadidos por memórias tristes ou contaminados pela ansiedade de planejar o que deveria ser feito em seguida. Era tão ansioso que chegava a puxar a descarga antes de terminar de urinar. A doença me ensinou a viver o presente.

 Um rapaz de vinte e cinco anos que tratei de uma forma grave de linfoma de Hodgkin, tipo de câncer que se instala no sistema linfático, uma vez resumiu o amadurecimento prematuro que considerava ter adquirido:

 – Sempre fui explosivo: brigava no trânsito, xingava os outros, ficava irritado por qualquer bobagem, já acordava chateado sem saber por quê. Quando entendi que podia morrer, pensei: não tem cabimento desperdiçar o resto da vida. Virei Albert Einstein, o defensor da relatividade: quando alguma coisa me desagrada, procuro avaliar que importância ela tem no universo. Descobri que é possível ser feliz até quando estou triste.

 No ambulatório do Hospital do Câncer, quando perguntei a um maranhense iletrado, pai de quinze filhos e rosto marcado pelo sol, se a doença havia lhe trazido alguma coisa de bom, ele respondeu:

 – O cavalo fica mais esperto quando sente vertigem na beira do abismo.

 Custei a aceitar a constatação de que muitos de meus pacientes encontravam novos significados para a existência ao senti-la esvair-se, a ponto de adquirirem mais sabedoria e viverem mais felizes que antes, mas essa descoberta transformou minha vida pessoal: será que com esforço não consigo aprender a pensar e a agir como eles enquanto tenho saúde?

[DRAUZIO VARELLA. Por Um Fio]

* * * * *

“Quando vier a Primavera”
Alberto Caeiro (F. Pessoa)

Pessoa

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

 

NIETZSCHE & TOLSTÓI EM PARALELO – Comentários sobre o livro do filósofo existencialista russo Léon Chestov [1866-1938]

tolstoi

TOLSTÓI E NIETZSCHE:
RETRATOS PARALELOS NA PENA DE LÉON CHESTOV

Comentário sobre a obra “L’Idée Du Bien Chez Tolstoi et Nietzsche”.
Paris, 1949, Editora J. Vrin

A-Morte-de-Ivan-Ilitch

Em A Morte de Ivan Ilitch, uma das obras-primas da literatura universal, Tolstói assim pinta os últimos minutos da vida de Ivan: “Ele compreendeu que estava perdido, que não havia mais nenhum retorno possível, que o fim havia chegado, o fim derradeiro… Ele se agitava de modo desordenado dentro daquele saco negro para cujo fundo lhe empurrava uma força invisível, insuperável. Ele se debatia como um condenado à morte se debate nas mãos do carrasco, sabendo que não pode ser salvo…”

Esta “pintura” da agonia de Ivan Ilitch, de impacto estético impressionante, talvez só tenha a força que tem como obra-de-arte pois encontra um eco em cada um de nós, mortais que evitam confrontar-se com ela, “a indesejada das gentes” (na expressão de Manuel Bandeira), e de que não há gente que escape…

 A literatura em prosa tenta falar sobre a experiência de todos através do relato da experiência de alguém. O romance é o reino da singularidade do indivíduo único e irrepetível, mas que simboliza algo de universal. A morte de Ivan Ilitch não é a morte de qualquer um, não é a morte descarnada e abstrata do silogismo (“Todos os homens são mortais; Sócrates é homem; Logo, Sócrates é mortal…”); há em Ivan uma dor toda sua e que sugere que ninguém morre uma morte igual a de outrem. Mas ao mesmo tempo todos somos um pouco como Ivan, irmanados na mortalidade que nos é comum.

Tolstói, no fim de seu livro, oferece-nos uma espécie de resposta para a excessivamente angustiada e aflitiva agonia de Ivan Ilitch: Ivan atormenta-se por não conseguir olhar para sua vida e concluir que ela havia sido boa. Insatisfeito com sua vida em seu leito de morte, Ivan descobre que não poderá mudar mais uma vírgula e que o ponto final se aproxima.

O que se sublinha é a tragicidade deste fato: a morte não espera que todos se considerem “realizados” e “felizes” para fazer uso de sua foice. Os homens não morrem quando querem (com exceção dos suicidas), nem morrem só depois de poderem considerar sua existência “bem-sucedida”: eles são às vezes ceifados quando não desejam deixar a vida, e nem sempre é possível “enrolar” a Morte e adiar o momento fatal, jogando um interminável xadrez com a ceifadora, como faz o personagem de Bergman em O Sétimo Selo. O xeque-mate inelutável virá para todos nós.

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Como lembra Léon Chestov em seu comentário d’A Morte de Ivan Ilitch, todo o começo da narrativa nos explica porque a vida de Ivan Ilitch não havia sido boa: “Ele havia se economizado em demasia, ele havia preservado com muita atenção as compactuações com uma vida conveniente, ele tinha vinculado demasiado valor aos bens medíocres, e conforme foi se aproximando da tragédia, sentiu pela primeira vez que tinha deixado passar aquilo que há de melhor na vida.” (CHESTOV: p. 175) No entanto, essa angústia não durou muito: as últimas palavras que Ivan Ilitch ouve é a de alguém que diz: “A morte acabou. Ela não existe mais.” C’est fini.



Leon Chéstov (1916)

“Os horrores que Tolstói descobre quando visita, em Moscou, os asilos para as pessoas pobres e que vivem sem calefação”, como relembra Chestov, levou o escritor russo “a comover-se a ponto de não poder falar no assunto sem lágrimas e cólera” (CHESTOV: pg. 71). Tolstói, após experiências semelhantes, falará com frequência de seu “grande desgosto pela vida urbana”, a ponto de fabricar um ideal-de-vida que incluía labutar junto aos camponeses, abandonando as mordomias de letrado aristocrata para fraternizar com as penas dos mujiques. “Todos os prazeres de uma vida luxuosa”, escreve o autor de Anna Karenina, “se transformaram para mim em torturas.” (pg. 70)

Esta visita aos subúrbios empobrecidos de Moscou, esse encontro com uma multidão de humilhados, ofendidos, despossuídos e esfomeados, não foi decerto a primeira oportunidade que teve Tolstói de entrar em contato com alguns dos aspectos mais tenebrosos da existência – ele já era bastante experimentado neles: “O autor de Guerra e Paz, um pintor tão perfeito de todos os horrores de 1812, havia olhado na face milhares de mortos e de assassinatos, as mais terríveis e repugnantes manifestações da crueldade e da baixeza humanas” (pg. 70). Não era portanto um ingênuo, um desconhecedor dos males da terra, como foi um dia o super-protegido  jovem príncipe Sidarta que, “logo na primeira vez em que foge de seu palácio, encontra em seu caminho um doente, um velho e um mendigo.” (pg. 71)

Uma questão que vale a pena colocar é: teria Tolstói se transformado nesta figura tão imponente no âmbito da literatura e da ética, e teria Sidarta se convertido em Buda, se eles tivessem virado o rosto e vendado voluntariamente os olhos, recusando-se a reconhecer todos os males e todos os sofrimentos que o mundo comporta? Esquivar-se do sofrimento, procurar o comodismo da cegueira voluntária, proteger-se de conhecer as realidades que ferem, não é este o caminho que conduz certamente à mediocridade? E o que há de mais medíocre que “olhar com indiferença para o mal que reina sobre a terra”? (p. 71)

Chestov relata um episódio em que Tolstói, decidido a viver uma vida de benfeitorias ao visitar os pobres, conversar com eles e regalar-lhes com filantropias, conhece uma mulher que não comia há 10 dias. “Dei-lhe um rublo”, escreve Tolstói, “e me lembro que fiquei muito contente que outros tenham visto.” (p. 74)

 Chestov olha com suspeição para este episódio, para esta “satisfação com a própria virtude” que Tolstói confessa ter sentido com seu comovimento, este inchamento-de-ego que ele sente com sua deleitosa piedade pelos males alheios. Decerto que é humano… mas tudo que é humano é suspeito! Suspeitemos, pois, desta atitude de Tolstói, auto-congratulando-se por sua generosidade no auxílio financeiro, feliz com o elogio que recebeu dos amigos por ser um homem tão doce, tão bom, tão comovível.

Esta compaixão satisfeita-de-si, esta atitude de quem se orgulha de sua própria virtude ao demonstrar sua indignação diante do que aflige o outro, não merece também ser questionada? É o que Chestov soube realizar com brilhantismo, já que lidou com a obra e o pensamento de Tolstói depois de ter atravessado a “escola” de Nietzsche: “o que teria ocorrido se Tolstói tivesse se convencido que seus amigos tinham toda razão, que ele era mesmo bom e virtuoso, nada malévolo ou culpável? A sorte daqueles abrigados nos asilos não teria sido adoçada. As pessoas, parcialmente congeladas, se amontoariam como antes pelas ruas…” (pg. 72)

A consciência tranquila e pacificada daquele que, ao preço de compadecer-se dos outros, conquistou a agradável convicção de ser bom e virtuoso, auxiliará realmente a remediar os males daqueles cujo sofrer despertou os piedosos comovimentos? É digna do nome de “virtude” a satisfação-consigo daquele que se compadece, mas sem extinguir o mal que aflige o outro?

Em outras palavras: se o espetáculo da fraqueza, da fome e do frio do outro serve para aumentar a convicção na minha própria bondade por ser sensível e simpático ao sofrimento alheio, mas sem que eu pratique nenhuma atividade eficaz para remediar estes males, de que vale de fato esta compaixão? De que valem as lágrimas daqueles que tem “necessidade dos pobres” (CHESTOV: p. 73) para se sentirem bons e que, portanto, não tem interesse em acabar com a pobreza? Trama brechtiana!

A esmola que o rico dá ao mendigo é feita em favor de quem? É um altruísmo desinteressado que reina neste ato, ou então é o interesse do rico em mostrar-se humano e comprar com sua ação o aplauso dos outros e o sono dos justos? Quando Tolstói confessa o prazer que sentiu ao ser visto ajudando, aí se escancara o auto-interesse por trás da esmola. Pode-se suspeitar, como dirá André Comte-Sponville, que em casos semelhantes a esse não se trata de uma autêntica generosidade desinteressada, mas do “precinho de uma consciência limpa” (COMTE-SPONVILLE, Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, capítulo “A Generosidade”). Ou mesmo uma moeda com que se compra as palmas da platéia.

 A confissão de Tolstói sobre o quanto lhe era “agradável” doar é só parte da história, é claro, pois ele logo descobrirá sua própria impotência diante da imensa miséria de Moscou: se ele abandona a cidade e seus pobres, depois de tentar ajudar a dúzias de esfomeados enregelados, retornando ao campo e à sua propriedade de Iasnaia Poliana, é pois percebe que não conseguirá fazer sozinho nenhuma grande diferença em meio ao gigantismo da metrópole. Não se vence a miséria com esmolas.

tolstoi ultimosDesesperado, cheio de angústias, numa situação grave onde murmura consigo que “é impossível viver assim”, Tolstói volta para o campo em busca de prosseguir na tentativa de decifrar seus enigmas. Sabe que seus olhos se abriram para horrores tais que ele dificilmente conseguirá esquecer: “Felizes aqueles que jamais abriram os olhos a tais horrores!”, escreve Chestov. “Mas o que deve fazer aquele que os viu, que não pode esquecê-los, que não deseja e não deve esquecê-los?” (pg. 76)

Em Iasnaia Poliana, resolve pôr em prática um novo estilo de vida, convencido de que “não é de dinheiro que os miseráveis tem necessidade”, mas sim de serem “ensinados a trabalhar, a estimar e a amar o trabalho, aquele trabalho através do qual se adquire os meios de existência.” (p. 77) Em outros termos: não dê um peixe, ensine a pescar. De agora em diante, Tolstói considerará uma vergonha ter as mãos sem calos.

Tolstói agora ensinará não somente através de seus livros, mas em ato, fazendo-se exemplo em carne viva que os outros fariam bem em imitar. Convidará seus contemporâneos, através de sua eloquência impressionante, a que cessem de privar outros do necessário por paixão pelo luxo. Consagrará 8 horas diárias ao trabalho físico no campo, descobrindo que ainda assim lhe restam ainda 8 horas diárias para consagrar ao trabalho intelectual. Diz-se cheio de boa disposição, jovialidade, paz d’alma, consciência tranquila. O “ato glorioso em prol do próximo sofredor realizado para lhe servir” parece-lhe um dever santo, quase um imperativo categórico de molde kantiano. E logo Tolstói estará pregando que “encontrou o meio de curar a humanidade de todos os males de que ela sofre”, além de profetizar que “todos os males desaparecerão e os homens se tornarão felizes” (CHESTOV: pg. 81) – e essa maravilha toda ocorrerá, é claro, caso todos ajam como ele.

Apesar da intensa admiração que Chestov nutre pelo “maior escritor da terra russa”, ele não dissimula seu desconforto com a convicção tolstoiana, que ele teria mantido, obstinado, por toda a vida, de que “fora do Bem não existe salvação” (pg. 91). “A validade dos meios recomendados por ele para garantir a cura da humanidade lhe parecia incontestável” (pg. 81). Donde o diagnóstico chestoviano de que há em Tolstói elementos de “intolerância sectária” em relação à opinião dos outros, “em relação àqueles que levam uma vida diferente da sua. Quem não está com ele, está contra ele. E qualquer um que tenha reconhecido a soberania do bem é forçado a dividir seus próximos em bons e maus, isto é, amigos e inimigos.” (pg. 91)

 Esta ética que louva o altruísmo mas que descamba para o maniqueísmo, que pretende ser universal mas acaba por cindir a humanidade em dois grandes grupos, é muito aparentada com o espírito do cristianismo primitivo. Tolstói prega que os homens corram ao auxílio do próximo e isso se tornará para ele a panaceia universal: “ele se persuade mais e mais que descobriu a via que conduzirá sem nenhuma dúvida – e em pouco tempo – à felicidade universal”, e essa certeza na bondade de sua própria conduta permite que ele “avance acusações severas e aniquiladoras contra todos aqueles que não estão dispostos a enxergar a solução na via indicada por ele.” (pg. 84) O princípio moral supremo que o guia agora é: “toda a felicidade dos homens repousa unicamente em renunciar a si mesmo e servir aos outros.” (pg. 88)

Estamos diante de um exemplo paradigmático do que Nietzsche chamará de “moralidade altruísta” ou de “auto-renúncia”, e ao pregá-la Tolstói “repete em língua atual o que os profetas e apóstolos ensinam há dois mil anos”, como frisa Chestov. “Mas se os povos europeus tiveram a Bíblia por livro santo por tantos séculos e não executaram seus mandamentos, como poderia Tolstói seriamente esperar que sua palavra tivesse mais efeito que a palavra de seus mestres?” (pg. 95).

Ao contrário do esperado, os homens não seguem as predicações tolstoístas como o mestre o teria desejado; alguns lêem seus textos como mera “literatura edificante” e não vêem necessidade alguma de imitá-lo ou segui-lo; outros sentem-se deprimidos diante deste “juiz inexorável” que é Tolstói e que multiplica as acusações contra aqueles que nada fazem em prol dos necessitados; Chestov conta até que conheceu um “industrial, milionário, que emprestava dinheiro a juros e se acreditava tolstoísta…” (pg. 95).

Enfim: não é fácil a vida de um pregador. Lembremos daqueles que Kierkegaard chamava jocosamente de “cristãos de domingo de manhã”, aqueles que nada fazem de altruísta ou caridoso no cotidiano, mas seguem com enfado e gravidade os ritos prescritos na Missa semanal. Tolstói decerto revolta-se contra eles, querendo ser um cristão não somente em certos dias ou horários pré-estabelecidos, não somente durante os ritos e solenidades, mas o tempo todo. É o que destaca Jankélévitch:

JANKELEVITCH

Vladimir Jankélévitch, filósofo francês

“Tolstoi o sabe tão bem quanto Kierkegaard: ser um cristão do domingo – do domingo de manhã, entre onze horas e meio-dia… – é a única ambição dos burgueses da paróquia. Porém Tolstoi quer que sejam benditos e santificados não somente os dias feriados, mas também todos os dias úteis, e todas as horas de todos os dias, e cada minuto de cada hora, e cada instante de cada minuto; que a vida inteira em sua plenitude e nos mais humildes detalhes de sua duração seja uma festa perpétua; que a temporalidade seja inteiramente festiva em sua cotidianidade e até no infinitamente pequeno das refeições diárias e até nos vazios do sono! (…) Ora, uma festa contínua é esgotante, e uma santificação de todos os instantes é quimérica; e o desespero de Tolstói é ainda mais profundo…” (JANKÉLÉVITCH: Cursos Sobre Filosofia Moral, Ed. Martins Fontes, pg. 69).

Além dos cristãos de domingo de manhã, há os cristãos que se permitem todos os pecados pois depois se confessam e se acreditam redimidos; há os cristãos que querem empunhar espadas e ir assassinar judeus e muçulmanos; há os cristãos que apoiam os tiranos mais opressores e as moralidades mais repressoras; e há os cristãos que são tiranos opressores e repressores… Além do mais, “ser um cristão em tempo integral”, como parecia ser o ideal tolstoísta, corre outro risco, o de se transformar em maquinismo, em mecanicismo, em comportamento rotineiro e frio. “A virtude não é em nenhum caso um hábito, pois quando se torna habitual a maneira de ser moral resseca-se e se esvazia de toda intencionalidade; torna-se tique, automatismo e despautério de um papagaio virtuoso. Ela é, então, o gesto da devota que, sem mesmo olhar para o mendigo, deixa cair uma moeda na sua tijela.” (JANKÉLÉVITCH, O Paradoxo da Moral, Ed. Papirus, p. 12)

Na leitura de Chestov, o Tolstói dos últimos dias decerto é descrito como cheio de angústias íntimas, mas ao mesmo tempo alguém que as escondia de seus leitores. Portando a máscara do pregador, assumindo a pose grandiloquente do messias, é como se quisesse vencer suas próprias dúvidas ao encarnar uma figura de solenidade profética. Mas um dos problemas com os profetas é que eles tem a mania aporrinhante de, com seus discursos cheios de moralina e ressentimento, condenar comportamentos, atos e palavras que não se adequam a seus ideais. Com esta atitude condenatória espalham o veneno da culpa por todos os cantos, como se quisessem banir do mundo a própria inocência.

No caso específico de Tolstói, quando ele é possuído pelo messianismo que enche as páginas de Os Últimos Dias (Ed. Penguin Books), ele vocifera e escarra sobre tudo aquilo que desaprova – o que incluí até mesmo a obra de Shakespeare! – de um modo que recende a um certo fanatismo: “Tolstói se dá o direito”, escreve Chestov, “de fulminar os homens por sua irreligião/incredulidade” (pg. 164).

Ao mesmo tempo que ataca a Religião Ortodoxa Russa e todos os seus rituais, ridicularizando o rito da hóstia como se não passasse de uma ridícula fé em “bolachinhas abençoadas”, também não escapa daquela ateofobia que alguns homens religiosos possuem entranhada no peito como um preconceito dos mais arraigados.

Lembremos que Pascal, por exemplo, encheu seu livro mais importante, Os Pensamentos, com insistentes afirmações peremptórias sobre “a miséria do homem sem Deus”. “Pascal não cansa de vincular o ateísmo com a loucura e com a doença, como se os ateus não passassem de doentes que precisam ser “curados de um mal”, aqueles que por negarem a existência de Deus caem ao nível das “bestas selvagens”… (CARLI: Crítica da Aposta de Pascal).

Ora, um homem que tanto sofreu, vida afora, com as doenças que nunca o abandonaram, um homem que assiste na primeira infância à morte de seu pai e seu irmão caçula, um homem que presencia todos os horrores cometidos em nome de Deus ou do Reich de Bismarck, um homem que diante das tragédias da existência acaba por não conseguir crer – um homem como Nietzsche! – eis uma figura que, como Pascal e Tolstói recomendam, deveria ser tratado como uma besta selvagem? Como alguém que o profeta fulminador-dos-descrentes tem o direito de condenar, lançar na lama e prometer sua alma ao inferno?

* * * * *

PARTE II

Nietzsche: eis uma vida vivida no “grande sofrer”, que foi trágica desde os seus princípios. Eis um ateu entre muitos outros, é claro, mas o poder de sua filosofia, a beleza de sua escrita, a radicalidade e o vigor de suas idéias, tudo isso que prossegue a ecoar tanto em nossos tempos, mostra o quão complexa, multifacetada e fascinante pode ser a vida do ateu.

As provocações e críticas que a obra nietzschiana possui em tamanha profusão contra os dogmatismos e fanatismos de todo tipo tendem a provocar a fúria dos ateofóbicos e dos crentes fundamentalistas. Quem se revolta contra Nietzsche, ou quem cobre os ouvidos para não escutá-lo, quem prefere o otimismo apaziguador dos evangelhos e bíblias, corões e torás, ou de quaisquer outros escritos ditos “sagrados”, quem enfim se recusa a ouvir o que este descrente tem a dizer (e ele tem tanto!), demonstra com isso, talvez, sua resistência ao reconhecimento de verdades desagradáveis.

Esta resistência às verdades tristes talvez esteja de certo modo “implantado” no aparelho psíquico humano, sendo uma espécie de disposição inata? Como se o “princípio de prazer” a que se refere Freud também invadisse o domínio da linguagem e do mito, nos convidando a crer no que dá mais prazer e nos fazendo fugir portanto de tudo aquilo que causa dor, inclusive algumas dolorentas verdades? Quiçá as mais importantes? Sobre este tema, Ernest Becker fez a melhor das análises que conheço em seu Negação da Morte.

A suspeita que Chestov compartilha com seus leitores é a seguinte: Tolstói, através da “indignação que demonstra com os descrentes”, ou com a “receita do trabalho físico que ele nos propõem como panaceia universal” (CHESTOV, pg. 67), não estaria simplesmente fazendo uso de uma artimanha para se livrar de suas próprias dúvidas?

Os escritos de Nietzsche, por sua vez, são com frequência repletos de uma outra indignação, nos antípodas da fúria tolstoísta – aquilo que indigna a Nietzsche é a arrogância dos que se arrogam o direito de fulminar os descrentes, dentre os quais se encontram com frequências os mais livres dos espíritos livres! “Toda virtude tem seus privilégios: por exemplo, o de levar seu próprio feixezinho de lenha para a fogueira do condenado.” (NIETZSCHE).

Poderíamos dizer que a crença baseia-se em idéias que não devem ser questionadas ou mudadas (exigência de imutabilidade), e que pretendem valer para todos (pretensão de universalidade). No caso da crença monoteísta-criacionista, aquele que se acredita o filho predileto de um Pai Celeste arroga-se o direito de auto-proclamar-se “virtuoso”, pois segue os preceitos escritos nos livros que ele considera sagrados, e então se dá o direito de levar os que rotula de viciosos para a fogueira, o suplício, a excomunhão, o exílio, o opróbrio. Palavras feias para ocorrências horríveis.

Em Nietzsche há defesas explícitas da incredulidade, elogios arrebatados do ceticismo que faz desabarem os dogmas, como se crer no mais cômodo e confortável não passasse de baixeza e comodismo: e isso dito por um homem que não tinha como escapar do sofrimento vitalício que o acompanhou pela vida afora sem que ele tenha a solicitado – como uma espécie de sadismo gratuito do destino.

Isso não significa que todo “grande sofrer” conduza à incredulidade – isso ocorreu, decerto, no caso de Nietzsche, por uma série de especificidades de sua vida que talvez não seja despropositado especular que remetem à primeira infância. O pai do pequeno Fritz Nietzsche, pastor protestante, homem-de-fé bastante firme, pregador do evangelho de Lutero, quando é subitamente fulminado por uma morte precoce aos 36 anos de idade, possivelmente deixou em seu primogênito estranhas dúvidas sobre a Bondade, a Generosidade e a Justiça que eram atribuídos nos sermões ao “Criador de Todas as Coisas”.

Que Deus estranho, este, que fulmina um de seus mais devotados servidores! Um Deus fulminador de padres, que não lhes cura as doenças quando eles rezam a ele por horas, por semanas, pela vida inteira! O quanto questões desse tipo devem ter acometido, em seu luto e em sua incompreensão, essa criança órfã-de-pai que cresceria para se tornar o filósofo da “morte de Deus”, isso deixo a vocês imaginar…

Um dos interesses maiores da obra de Chestov é que ele se interessa por combater a idéia, que encontramos em Tolstói e muitos outros autores da tradição judaico-cristã, de que a descrença é causada por uma “má vontade”, quer dizer, uma vontade . Como se qualquer um tivesse a plena liberdade de crer ou não crer, e aqueles que se descobrem como incapazes de fé seriam necessariamente reprovados no exame e considerados malvados. O problema com este exame, é claro, é que ele foi criado pelos crentes para aprovarem a si mesmos! E assim, criando para si um clubinho fechado que excomunga aquele que não comunga na crença, surge este perigoso fenômeno do sectarismo e todo seu séquito de intolerâncias e perseguições, excomunhões e inquisições. Pois na maior parte das vezes o clubinho que se acha o dono da verdade  se torna imperialista e quer converter o mundo inteiro.

Grande parte da obra de Voltaire debruça-se sobre este tema, eminentemente político, da religião em operação sobre o palco da História quando, em sua pretensão de universalidade, tenta impor-se de modo imperialista sobre as outras seitas e sobre todas as diversidades de descrentes. O sangue que correu por causa disso é tão imensurável que beira o infinito.

Já Zaratustra, que no Ecce Homo é sublinhado de modo insistente por Nietzsche como não sendo nada parecido com um fundador de religião, diz a seus discípulos, a certo momento: “vocês não haviam ainda encontrado a si mesmos e então me encontraram. Assim fazem todos os crentes… Hoje, ordeno-vos que me percam e que vos encontrem!” (“Da Virtude Que Doa”) Zaratustra recomenda que eles percam a fé nesta figura de autoridade que ele mesmo, Zaratustra, se transformou diante dos seguidores, que pensem por si mesmos, que não sejam papagaios do mestre, e que só retornem depois de terem se encontrado…

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PARTE III

“Pour satisfaire la curiosité provenant de l’étonnement,
est-il si indispensable de trouver la verité?”

LÉON CHESTOV

 Se a filosofia nasce do espanto, e se este acirra a curiosidade humana, isto significa que devemos aspirar a uma Verdade que nos retire desta condição de estarrecidos buscadores de respostas para nossos enigmas? Em outras palavras: a Verdade é algo pra se achar e se guardar num cofre (ou num livro), ou simplesmente algo pra se procurar, interminavelmente? Como a Utopia para Galeano, que se afasta 10 passos a cada 5 passos avante que damos, será a Verdade isso que fica sempre no Horizonte, seduzindo o desejo e nos servindo para que caminhemos?

Pobres daqueles que, por terem concluído que já a conhecem, cessaram de busca-la! Não será o filósofo um perpétuo espantado, sempre sedento por alimento para suas miríades de dúvidas e desassossegos? Um curioso insaciável, que não se cansa de questionar suas próprias respostas e multiplicar suas próprias perguntas? O filósofo: aquele que, para cada resposta que encontra, formula 10 novas perguntas…

A crença que alguém possui de ter descoberto a Verdade, de estar em sua posse, eis o que poderíamos chamar de dogmatismo. Aquilo que os dogmáticos sacrificam no altar da certeza é nada menos que a ânsia visceral de onde emerge a filosofia: o espanto, a dúvida, a curiosidade nascida da ignorância. Estabelecer-se na crença de que a verdade já está descoberta e é possuída, cessando assim de questionar as respostas dadas, desistindo de inquirir se as perguntas não estavam mal colocadas ou eram absurdas, procurar o descanso do pensamento na cômoda cama das convicções imutáveis: eis o que assassina o livre-pensamento e faz do filósofo um dogmático papagaio de certezas imutáveis.

Segundo o retrato que Lou-Salomé pinta de Nietzsche no lindo livro que publica em 1894 sobre seu metamórfico e desassossegado amigo, o bigodudo Fritz tinha uma personalidade radicalmente anti-dogmática, como o prova reiteradas vezes a obra deste martelador de convicções e certezas, deste grande “mestre da suspeita”:

“A mudança de opinião, a obrigação de se transformar, encontram-se tão profundamente ancorados no coração da filosofia nietzschiana e são eminentemente característicos de seus métodos de investigação. (…) Sua estranha necessidade de metamorfose, no domínio do conhecimento filosófico, provinha do desejo insaciável de renovar sem cessar suas emoções intelectuais. É por isso que a clareza perfeita não era, a seus olhos, senão um sintoma de saciedade e extenuação. (…) Para Nietzsche, uma solução encontrada não era jamais um fim, mas ao contrário o sinal de uma mudança de perspectiva que o obrigava a contemplar o problema sob um ângulo novo, a fim de lhe encontrar uma nova solução. (…) Nietzsche não admitia que um problema, qualquer que ele fosse, comportasse uma solução definitiva.”[1]

A relação de Nietzsche com a verdade, portanto, é também marcada pela suspeita: ele é precavido em relação a qualquer convicção que pretenda ao status glorioso de verdade; toda solução encontrada é atravessada pelo crivo da dúvida, analisada sob outras perspectivas, compreendida não como um ponto de repouso mas como uma stepping stone que conduz a renovadas reflexões.

 Uma atitude “idealista”, como aponta Chestov, seria a de um “homem que acredita que todas as suas dúvidas, todas as suas questões, todas as suas pesquisas não são nada além de questão de tempo. Todos estes problemas já encontraram faz tempo uma solução definitiva e excelente.” (pg. 36) Um exemplo por ele citado é a tese de Hegel de que “o real é razoável”, ou seja, o credo otimista de que “deveríamos nos representar a vida como respondendo plenamente às exigências da razão” (idem, pg. 38). Crer que a verdade já foi descoberta no passado e que basta se apossar dela através do intelecto; julgar que o real é integralmente compreensível pela razão e explicável em sua inteireza por meio de idéias; e, além do mais, “ter fé no futuro feliz”, como se o progresso fosse obrigatório e estivesse ontologicamente ancorado no seio da História… eis alguns das tomadas de posição, dos parti pris, daqueles que Nietzsche considera seus antípodas.

 Caberia então uma classificação dos pensadores em duas grandes categorias, a dos céticos e a dos dogmáticos? Seria um simplismo desaconselhável instaurar mais um dualismo (como se a filosofia não estivesse já o suficiente atolada em dualismos e maniqueísmos!). Melhor dizer que há muitos pensadores que, “humanos demasiado humanos”, procuram através do pensamento se desembaraçar de suas dúvidas e encontrar um solo estável onde possam instalar-se com suas certezas: por exemplo, uma cátedra ou um púlpito, sobre o qual proclamar às massas ávidas as respostas prontas e certas que se traz na bandeja. Este não é, porém, o caminho dos espíritos livres que Nietzsche descreve como intrépidos experimentadores, inimigos da fixidez, avessos a dogmas, suspeitosos de todos os sistemas, metamórficos e oni-questionantes.


[1] ANDREAS-SALOMÉ, L. Nietzsche À Travers Ses Ouvres. Paris: Grasset, 1992. Pgs. 49 e 84.  No original : “Le changement d’opinion, l’obligation de se transformer se trouvent ainsi profondément ancrés au coeur de la philosophie nietzschéenne, et sont éminemment caractéristiques de ses méthodes d’investigation. (…) Son étrange besoin de métamorphose, dans le domaine de la connaissance philosophique, provenait du désir insatiable de renouveler sans cesse ses émotions intellectuelles. C’est pourquoi la clarté parfaite n’était, à ses yeux, qu’un symptôme de satiété et d’exténuation. (…) Pour Nietzsche, une solution trouvée n’était jamais une fin, mais au contraire le signal d’un changement de point de vue qui l’obligeait à envisager le problème sous un angle nouveau, afin de lui apporter une solution nouvelle. (…) Nietzsche n’admettait pas qu’un problème quel qu’il fût comportât une solution définitive.”

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA PRINCIPAL:

CHESTOV, L. L’Idée Du Bien Chez Tolstoi et Nietzsche. Paris, 1949, Editora J. Vrin.

Flight from Death – The Quest for Immortality [Full Documentary]

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Considero Ernest Becker – vencedor do prêmio Pulitzer de 1974 por “A Negação da Morte: Uma Abordagem Psicológica da Finitude Humana” – um dos mais profundos pensadores do século 20. A abordagem multidisciplinar de Becker, que une Psicologia, Antropologia, Filosofia, Sociologia e Crítica Cultural, permitiu que ele compreendesse a condição humana com uma extraordinária amplidão de visão. Grande leitor e comentador de Freud e Otto Rank, dos existencialistas e de Kierkegaard, de Huizinga e Norman O. Brown, dentre muitos outros autores com o qual dialoga, Ernest Becker foi um brilhante e inovador “sintetizador” do problema antiquíssimo e sempre atual da Mortalidade.

O filme “Flight From Death”, que A Casa de Vidro aqui compartilha na íntegra, é o primeiro documentário calcado na obra de Ernest Becker – e é uma excelente porta-de-entrada para os grandes temas explorados nos livros de Becker. Narrado por Gabriel Byrne e com declarações contundentes de figuras como Sam Keen, Robert Jay Lifton e Irvin Yalom, o filme é uma excelente exploração de como as mais variadas culturas inventam meios para lidar com a finitude da existência humana – e quais são as consequências disso para as relações interpessoais e interculturais.

Uma das idéias-chave do pensamento de Ernest Becker é a de que só compreenderemos a Humanidade, inclusive em suas manifestações mais horrendas (guerras, massacres e arroubos cotidianos de agressividade), quando entendermos nossa relação com o fato incontornável de nossa mortalidade, tão denegada, renegada, sublimada e mal-compreendida. A prática da negação da morte, por exemplo, que Becker descreve como uma denegação tanto psíquica quanto cultural, como prática não só individual mas coletiva, é essencial para a nossa compreensão de nós mesmos e de nossas coletividades.

Doutrinas destinadas a confortar-nos com a ideia da imortalidade estão presentes nas mais variadas culturas e atravessam a história desde os tempos mais arcaicos até a contemporaneidade, A obra de Becker procura avaliar as consequências destas crenças e destes sistemas culturais, em especial quando entram em choque. Afinal de contas, a negação-da-morte tem várias facetas (uma cultura vizinha nega a morte de modo diferente do que a minha própria cultura, assim como em tempos passados vigiam outros tipos de ideologias de negação da morte…) e quase sempre há “clashs” sangrentos entre diferentes sistemas culturais em suas práticas denegadoras da mortalidade.

Enfim, é um excelente filme! Baseado na obra de um pensador que considero muito subestimado, e que está entre os meus psicólogos e filósofos prediletos, um grande desvendador da condição humana e que merece ser muito mais lido e discutido do que é atualmente. A contribuição dele é imensa, em especial a análise de nossa tendência psíquica de fingirmos que somos imortais, agarrando-nos a doutrinas negadoras-da-morte oferecidas no supermercado das culturas. A problemática da fé religiosa é compreendida a partir dos desejos psíquicos que ela satisfaz, mas penso que Becker vai muito além do que expõe Freud em “O Futuro de Uma Ilusão” e tem um pensamento até mais multi-facetado do que o do Pai da Psicanálise.

Deixem-se provocar e refletir por este documentário crucial, que explora as idéias magistrais de Ernest Becker sobre a agressividade humana, o choque de civilizações, a repressão da consciência da mortalidade e suas consequências (tanto individuais quanto coletivas), entre outros temas suculentos, desmascarados sem medo por um filme corajoso e provocativo. É ótimo instigador de reflexões para antropólogos, sociólogos, filósofos, psicólogos e quem quer que se interesse por compreender a condição humana, esta que é tão lotada de “som e fúria”.

Coloquei o vídeo inteiro no Vimeo em 3 partes, saquem aí (em inglês, sem legendas):

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“Patrick Shen’s award-winning “Flight From Death: The Quest for Immortality” is a provocative study of “death denial” in cultures around the world. It draws upon the expertise of scholars, theologians and philosophers to examine how human behavior is influenced by the universal fear of death, especially in a post-9/11 climate of terrorism. It’s a stimulating, ultimately life-affirming film, filled with big ideas and revelatory footage.” -Seattle Times

Gabriel Byrne“Narrated by Golden Globe Winner Gabriel Byrne (Usual Suspects, HBO’s In Treatment, Miller’s Crossing), this 7-time Best Documentary award-winning film is the most comprehensive and mind-blowing investigation of humankind’s relationship with death ever captured on film. Hailed by many viewers as a “life-transformational film,” Flight from Death uncovers death anxiety as a possible root cause of many of our behaviors on a psychological, spiritual, and cultural level.

the-denial-of-death-e9b699lFollowing the work of the late cultural anthropologist, Ernest Becker, and his Pulitzer Prize-winning book Denial of Death, this documentary explores the ongoing research of a group of social psychologists that may forever change the way we look at ourselves and the world. Over the last twenty-five years, this team of researchers has conducted over 300 laboratory studies, which substantiate Becker’s claim that death anxiety is a primary motivator of human behavior, specifically aggression and violence.

Flight from Death features an all-star cast of scholars, authors, philosophers, and researchers including Sam Keen, Robert Jay Lifton, Irvin Yalom, and Sheldon Solomon culminating in a film that is “not only thought-provoking but also entertaining and put together with a lot of class” (Eric Campos, Film Threat). Three years in the making and beautifully photographed in eight different countries, Flight from Death is “a stimulating, ultimately life-affirming film, filled with big ideas and revelatory footage” (Jeff Shannon, Seattle Times).”

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P.S. A LINK TO ALL HOT DOCS PREVIOUSLY POSTED ON AWESTRUCK WANDERER CAN BE FOUND ON TOP OF THE BLOG, ABOVE THE COLLAGE OF HUMAN FACES. CHECK IT OUT!