Mal-educado e deseducador, governo Bolsonaro quer impor sua boçal estupidez ideológica ao país

O Brasil atual é como um pesadelo do qual não conseguimos despertar. No Ministério da Educação, o show de horrores é ininterrupto. O Ministro escolhido por Bolsonaro – que “trabalhou em cursos mal avaliados e fechados pelo MEC” (UOL) –  já declarou que o Escola Sem Partido é “providência fundamental” e que o golpe de 1964 é um “evento a ser comemorado”; disse que “é bobagem pensar na democratização da universidade”, o bom mesmo é reservar a educação superior de qualidade para uma minúscula elite a ser “formada” através do “pensamento” de grandes luminares nacionais como… Olavo de Carvalho e Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Agora, a BBC Brasil confirma que o Governo Bolsonaro não consegue descer do palanque e tem como única diretiva a repetição imbecil de seus slogans de campanha: “MEC pede que escolas toquem hino e leiam carta com slogan de Bolsonaro; advogados criticam.” De fato, é gravíssimo que o Ministério da Educação, encabeçado pelo colombiano Vélez Rodriguez, um notório Olavete que andou pregando “faxina ideológica” nas páginas amarelas de Veja, seja capaz desse nível de baixeza cognitiva e desprezo pela democracia. 


É o cúmulo do ridículo que, com tanto trabalho importante para fazer em prol da educação pública brasileira, este Senhor direitoso e delirante esteja endereçando a escolas de todo o país uma carta que contêm o slogan de campanha Bolsonarista: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!”.

O repúdio a este absurdo, por parte de todos os educadores, precisa vir com força. Marcelo Freixo e PSOL já se mobilizam neste sentido: segundo O Globo, “Parlamentar do PSOL quer que ministro da Educação responda por crime de responsabilidade após mensagem dirigida a estabelecimentos de ensino.”

O horror desta carta patética é multiforme. Primeiro, pois este lema neofascista evoca o “Deutschland über alles” tão mobilizado pelo III Reich Hitlerista para praticar seus genocídios. Depois, pois “Brasil acima de tudo”, além de chauvinismo tosco e populismo imbecil, é uma piada de mau gosto na boca dessa extrema-direita entreguista e subserviente ao Império Yankee sob a batuta do supremacista branco e troglodita xenófobo Donald Trump.

Como se não bastasse, esse “Deus acima de todos” traz o sabor amargo do fanatismo religioso mais obscurantista, violando todos os ideais de laicidade que herdamos do Iluminismo. Ideais políticos típicos de uma teocracia medieval e pregações de uma fé cristã compulsória não são elementos desejáveis em instituições dedicadas à educação autêntica.

Vélez Rodriguéz inaugura um período tenebroso do MEC, em que prega-se uma subserviência estúpida a ritos mofados: alunos perfilados diante da bandeira, cantando o hino nacional como papagaios amestrados, repetindo o slogan eleitoral tantas vezes pervertido por ter saído da boca infame  de um notório apologista de torturadores e grupos de extermínio.

Em breve, “A Verdade Sufocada” de Ustra será inserido na bibliografia básica de História? Começarão grandes fogueiras de livros em que queimarão Marx, Rosa Luxemburgo, Gramsci e Florestan Fernandes? Em breve, celebrar-se-á a instalação de estátuas em louvor a Olavo de Carvalho em nossas universidades, enquanto comemoram-se, em eventos regados a regalias, o sucesso do “extermínio” de Paulo Freire e da Pedagogia do Oprimido?

Vale lembrar que o candidato Bolsonaro, em campanha, havia dito que ia colocar alguém no MEC que lidasse com Paulo Freire e a Pedagogia do Oprimido na base do “lança-chamas”. Vélez Ródriguez é o escolhido pelo governo de extrema-direita para o deletamento do legado de um dos maiores pedagogos e intelectuais do século 20, reconhecido mundo afora por suas contribuições inestimáveis ao pensamento e às práticas sobre educação.


O Ministro solicita ainda que as escolas filmem os “espetáculos cívicos” e enviem ao Ministério. Talvez para que sejam usados em propaganda lava-cérebros em que o novo regime mente sobre seu “sucesso” enquanto nos enfie goela abaixo a nova versão da Educação Moral e Cívica.

Pior ainda: os vídeos talvez possam servir para que o MEC possa denunciar e perseguir os “marginais vermelhos” que não cantam o Hino, ou que não dizem “Heil Bozo” ao slogan de campanha transformado em lema fascista de governo. As crianças e jovens que se mostrarem irreverentes ou rebeldes serão estigmatizadas como problemáticos e doentios, pois praticam a desobediência civil aos ditames da nova ditadura? Quem se recusar a seguir tais ditados será merecedor dos paus-de-araras do regime Bozoasnal?

Para além do absurdo que é um MEC que passa a estar lotado de militares, fanáticos da disciplina mais autoritária e interessados na militarização das escolas, agora temos um fanático da ideologia ultra-liberal na economia e ultra-conservadora nos costumes encabeçando um processo de idiotia viralizável que ameaça-nos com seu perigoso contágio.

Em um texto de título altamente sarcástico, Um aiatolá assume a educação no Brasil, Clóvis Rossi escreveu na Folha de S. Paulo:

“A ideia do escolhido para ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, de criar ‘ conselhos de ética’ para zelar ‘ ‘pela reta educação moral dos alunos’ tem todo o cheiro da polícia moral adotada no Irã (entre outros países muçulmanos, como a Arábia Saudita).
(…) Quem é que vai definir o que é ‘reta educação moral’? Um ministro que acha que se deve comemorar o golpe de 1964, aquele mesmo que prendeu, sequestrou, matou, torturou, baniu e exilou milhares de pessoas, censurou a imprensa, fechou o Congresso, cassou mandatos políticos e praticou outras barbaridades?
Os aiatolás, no Irã, fazem a mesmíssima coisa e também acham que estão apenas enquadrando a população no que consideram os bons costumes.
O problema principal para a implantação da tal Escola sem Partido passa exatamente por aí: quem vigia o comportamento dos professores para assegurar que eles não se desviem da ‘reta educação moral’? Aliás, primeiro seria preciso haver um razoável consenso na sociedade em torno do que é educação reta.
Para o meu gosto, por exemplo, educação reta é aquela que festeja a democracia, não a ditadura, como pretende o ministro indicado. Sem esse consenso – quase impossível de alcançar dada a imensa variedade de comportamentos que se encontram habitualmente em sociedades complexas –, só a implantação de uma polícia moral para vigiar professores (e alunos, claro).”

Vale lembrar que o famigerado slogan foi mobilizado em uma das campanhas eleitorais mais sórdidas de todos os tempos. As pilantragens praticadas pelo PSL (Partido Suco de Laranja) não param de abalar o início do (des)governo daquele sujeito que, em 27 anos como deputado, nada fez de bom além de enriquecer a si mesmo e a seus filhos.

O partido, que vomitou um monte de perfídias sobre o PT, já revelou-se como um partideco medíocre e sem moral, que abusou de laranjas e de caixa 2 para promover uma campanha ilegal e fraudulenta. O PSL entrará para a História como o pigmeu criminoso que é. O Partido dos Trabalhadores, com seus quase 40 anos de História, saberá sobreviver a este acintoso ataque dos laranjeiros corruptos e amicíssimos de milicianos.

Presidente ilegítimo pois eleito através de fraudes e golpes em série, Bolsonaro está onde está em virtude de vários crimes. A começar pela compra de pacotes para disparo de fake news e propaganda fascista, que foram comprados com capital ilegal, não declarado à Justiça Eleitoral, como denunciado amplamente pela imprensa após furo da Folha de S.Paulo ainda no período eleitoral (#Caixa2doBolsonaro).

Bolsonaro e seus cupinchas jogaram sujo, praticando calúnia e difamação às enxurradas para denegrir a candidatura petista. Espalhando mentiras sobre Haddad, Manu e Lula, mobilizaram através da ira e da mentira, e agora nada tem a propor senão uma catarata de retrocessos que impõe a miséria e a degradação da dignidade à imensa maioria do povo brasileiro. Ilusão crassa deles, usurpadores do poder, acreditar que os trabalhadores da Educação irão aceitar esta enxurrada de desmandos e absurdos.

Além disso, sabe-se que o ex-capitão do Exército, que fez campanha vomitando ódio e intolerância por todos os poros, dizendo que ia “metralhar a petralhada” e que MST e MTST seriam enquadrados como “organizações terroristas”, só venceu estas eleições fraudulentas pois Lula estava injustamente encarcerado pela lawfare de Moro e sua trupe.

Líder disparado em todas as pesquisar de intenção de voto, Lula hoje seria presidente da república caso não tivesse sido golpeado pelos mesmos beneficiários do Golpe de Estado que encerrou prematuramente o mandato de Dilma Rousseff.

Os “novos tempos” de que fala Vélez Rodriguez fedem à velharia: é de novo a reedição do autoritarismo fanático de homens brancos e ricos que pretendem impor ordem aos outros enquanto gozam impunes de seus privilégios injustos e riquezas roubadas.

Na Era das Mamatas, os lambe-botas de Trump querem nossos estudantes bestificados diante da bandeira brasileira, cantando hino nacional e repetindo lema fascista. Querem também uma juventude tão bestificada que se preste ao serviço de ser bucha-de-canhão da intentona golpista e da guerra petrolífera na Venezuela.

Se, no caso de Lula, inexistem provas mas sobram convicções, no caso de Bolsonaro e seu time as provas são inumeráveis de que se trata de um bando de idiotas, mau-educados e deseducadores, que querem impor sua boçal estupidez ideológica ao país. Após berrarem que “nossa bandeira jamais será vermelha”, agora tratam de sujá-la com o nosso sangue derramado. O dia da eleição de Bolsonaro merece ser tido como um dia da vergonha nacional e um preocupante sintoma do grau de insanidade e irracionalidade a que podem ser conduzidos massas de eleitores quando bestificados por um populismo violento e odioso que vomita desumanidade por todos os poros:

A esse festival de barbaridades de um dos governos mais péssimos da história da república, diremos, em coro, em massa, nas ruas e nas redes, nas greves e nas ocupas, o nosso “não!” coletivo a esta campanha grotesca de deseducação. Não passarão!

A Casa de Vidro

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Fim da obrigatoriedade de filosofia e sociologia gera ensino mutilado – por Vladimir Safatle, 28/10, Folha de S.Paulo

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Fim da obrigatoriedade de filosofia e sociologia gera ensino mutilado 

por Vladimir Safatle, 28/10, Folha de S.Paulo

Na semana passada, o relator da medida provisória sobre as modificações do ensino médio, editada por aquilo que alguns chamam de “governo”, fez algumas considerações a respeito de suas preferências. Dentre elas, ele sugere que as disciplinas de filosofia e sociologia deixem de ser disciplinas de fato e se transformem em “conteúdos transversais” lecionados em aulas de história. Ou seja, mesmo que seus filhos escolham seguir uma concentração em ciências humanas, tais conteúdos não seriam mais oferecidos como disciplinas autônomas, o que vai contra todo o discurso a respeito de oferecer mais condições para os alunos aprofundarem seus interesses efetivos.

Essa consideração do senhor relator nos leva, no entanto, a colocar questões a respeito da importância do ensino de filosofia e sociologia para adolescentes. Afinal, devem nossos adolescentes aprender filosofia e sociologia? Pois é claro que a proposta de reduzi-las a “conteúdos transversais” é apenas uma maneira um pouco mais cínica de retirá-las. Um professor de história, embora possa e deva conhecer questões de filosofia e sociologia que são pertinentes a seu objeto de estudo, não teria condições de tratar de tais conteúdos com a profundidade devida à docência.

Na verdade, o que procura se colocar é que filosofia e sociologia não são tão relevantes assim e poderiam muito bem ser eliminadas como disciplinas. Seus filhos poderiam muito bem viver sem elas. Mas coloquemos a questão implícita neste debate na sua forma correta, a saber: por que há setores da sociedade brasileira que se incomodam tanto com seus filhos aprendendo filosofia e sociologia?

Poderíamos contra-argumentar dizendo não se tratar de incômodo, mas de uma simples análise de prioridades. A prioridade na formação seria garantir a empregabilidade e a qualificação técnica. Nesse sentido, há de se cortar o que é supérfluo. Por outro lado, os estudantes brasileiros são sempre mal avaliados em disciplinas básicas, como línguas e matemática. Melhor então focar o essencial.

No entanto, tais argumentos não se sustentam. Limitar nossos alunos ao básico não é o melhor caminho para levá-los a lidar com realidades complexas e em mutação, como são nossas sociedades contemporâneas. Eles não conseguirão tomar melhores decisões com uma formação mais limitada. Por outro lado, se seus conhecimentos de línguas e matemática são deficitários, não é por alguma forma de “excesso” de disciplinas, mas pela péssima qualidade de nossas escolas, pela precarização de nossos professores (só o Estado de São Paulo perdeu 44.500 professores apenas nos últimos dois anos) e pela ausência de cultura literária de muitas famílias.

Nesse sentido, há de se lembrar o que significa aprender filosofia e sociologia. O ensino da filosofia, por exemplo, pressupõe o desenvolvimento de algumas habilidades fundamentais. Lembremos de ao menos três: a capacidade de constituir problemas a partir da crítica a pressupostos aparentemente naturalizados, a capacidade de articular problemas em campos aparentemente dispersos, desenvolvendo assim um forte pensamento de relações e quebrando a tendência atual em isolar o pensamento em especialidades incomunicáveis. Isto significa ser capaz, por exemplo, de compreender como questões éticas têm relações com questões de teoria do conhecimento, de estética, de política e de lógica, entre outras.

Por fim, e esta é sua característica mais impressionante, o aprendizado da filosofia pressupõe a capacidade de pensar como um outro. Lembro-me de um professor que, ao ver muita pressa em “refutar” Descartes, olhou para mim com sua sabedoria costumeira e disse: “Veja, não é possível ler um filósofo com luvas de boxe”. Ou seja, é necessário saber, por um momento, pensar como um outro, até para poder se contrapor com mais propriedade.

Bem, é isto que alguns querem que seus filhos não aprendam. Eles sabem muito bem por que querem isso. Temo que o verdadeiro objetivo não tenha relação alguma com o futuro profissional de seus filhos. Temo que, no fundo, queira-se calar, de uma vez por todas, o projeto de alguns de nossos maiores filósofos, como Condorcet, quem dizia: “A função da educação pública é tornar o povo indócil e difícil de governar”. – Safatle, 28/10/2016 [COMPARTILHAR]

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P.S. — DO EDITOR D’A CASA DE VIDRO: A junta financeira que (des)governa o país após o golpeachment pretende agora, através de seu braço coronelizado no MEC sequestrado pelo DEM, golpear também o ensino de filosofia e sociologia no Ensino Médio. Não há interesse da Casa Grande, administrada por cleptomaníacos, de incentivar uma educação que seja emancipadora, libertária, que forme para o senso crítico, a participação política e a reflexão aprofundada. Preferem um alunado-ovelha a uma estudantada que pensa por si própria e que é capaz de aguerridas contestações das injustiças e iniquidades vigentes. Depois destas 1.000 e muitas ocupas, então, o bicho vai pegar de vez contra nós, pobres professores de sociologia e filosofia, acusados de sermos doutrinadores esquerdistas e aliciadores de menores para causas sociais rebeldes. Se depender da neo-ditadura Temerária, aniquila-se logo esta porcaria supérflua que é a Filosofia nas escolas e põe-se de volta Educação Moral e Cívica – para deleite daqueles que nos querem de joelhos diante de Autoridade, Pátria, Deus, Família e Golpes Sem Tanques.

No meu caso, vivencio a angústia de viver em um país onde um jovem professor de filosofia, aprovado em concurso público para professor efetivo no IFG, não sabe mais se será convocado para assumir um cargo que forças políticas reacionárias e estupidificantes estão tentando suprimir. Foi muito curioso, aliás, sentir na pele o tipo de atitude tecnocrática e rasteira que hoje pretende triunfar na educação brasileira quando fui sumariamente des-convocado pelo IFG de Itumbiara, após ter sido convocado para assumir o cargo, sem grandes explicações sobre os porquês de ser re-lançado ao limbo angustiante das listas-de-espera: senti claramente que a Tesoura Tecnocrática, na hora do corte, foi direto ali, naquele ponto que considera-se erroneamente como secundário ou supérfluo na formação dos estudantes, o professor de filosofia. Nós, professores de filosofia, somos tratados no Brasil como aquilo que a Tesoura merece cortar primeiro. E eles não se importam com o sangue que corre dos cortes, nem mesmo com a caridade besta de um band-aid.

Julga-se a estupidez de uma Nação pelas ações de sua Tesoura institucional que, ao invés de cortar as regalias indevidas e os privilégios injustos de nossos plutocratas, vem em cima, justamente, daqueles que têm por ofício emancipar, elucidar, esclarecer, ensinar. – Carli

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Edmilson Paschoal (PUC-PR)