As tragédias sociais causadas pelo Supremacismo Branco são o foco de “Skin”, filme vencedor do Oscar de melhor curta-metragem de 2019

O filme “Skin” (Pele), de Guy Nattiv  [DOWNLOAD / TORRENT], venceu o Oscar de melhor curta-metragem (live action) de 2019 ao propor, em 20 minutos de narrativa intensa, uma fábula que desce com a delicadeza de um dedo infectado pousando sobre uma ferida aberta.

Em foco, “o ciclo vicioso da perpetuação do ódio”, como aponta a resenha em Plano Crítico. É cinema-provocação de primeira e mostra-se em sintonia com as obras recentes de Jordan Peele (Corra / Nós) e Spike Lee (Infiltrado na Klan), que também não temem confrontar tabus e escancarar feridas que muitos desejam relegar às sombras.

Skin vem para mexer na ferida do Supremacismo Branco tão em voga no EUA desgovernado pelo bilionário D. Trump – e que também dá marcas macabras de sua ascensão aqui no Brasil de Bolsonaro (teleguiado“intelectualmente” por Olavo desde Richmond, Virginia, também conhecida como a cidade-sede do Exército Escravocrata sulista durante a Guera Civil de 1861-1865). Há mais em comum entre o “ideólogo do conservadorismo paranóico” e os supremacistas brancos que praticam atos de morticínio-em-massa do que sonha nossa vã filosofia… 


É fato sociológico amplamente divulgado que segregação racista está longe de estar morta no país onde está vigente, como argumenta Michelle Alexander, um New Jim Crow – lei de apartheid que esteve vigente nos EUA e que na atualidade sobrevive no Estado Policial-Carcerário, the prison-industrial complex. E sabemos muito bem que David Duke, um dos cabeças da organização racista-supremacista Ku Klux Klan, reconheceu no “Coiso” uma espécie de irmão-em-ideologia – e obviamente isto se aplica não só ao Sr. Jair, como também ao Guru do Bolsonarismo, aquele astrólogo charlatanesco, fanático por cus e rifles.

O Bolsonarismo, portanto, expressa a re-ascensão no mundo ocidental de uma ideologia que já causou imensas catástrofes, a começar pelo nazismo alemão e seu mito do “arianismo”. Qualquer análise das frases de Bolsonaro sobre os povos indígenas e quilombolas é evidência farta de que se trata de um doentio supremacista branco.

“Skin” é um filme que mereceria ser exibido nas escolas do Brasil para alertar sobre os desrumos de nossa pátria quando se coloca subserviente e à sombra dos EUA da Era Trump – aquela terrinha boa, “land of the free and home of the brave”, onde tem massacres em massa cometidos por supremacistas brancos quase que toda semana (e às vezes, uns três por semana).

Infelizmente, por aqui as tropas do Escola Sem Partido, altamente infectadas com fanatismo ideológico-partidário, encrencariam com os professores que quisessem debater este filme com os estudantes… Falar de “racismo estrutural” e dos horrores produzidos pelo supremacismo branco significaria, na percepção destes defensores da Escola Com Mordaça, uma inaceitável prova de “doutrinação ideológica”, perpetrada por professores esquerdistas e petralhas, afastando a juventude contra os sacrossantos dogmas raciais que hoje tão sabiamente nos governam…


Uma cena boa para debate mostra o pequeno Troy, filho de um casal de supremacistas brancos, acompanhando as “diversões” da gangue branquela de seu pai. Um pai, aliás, todo tatuadão com suásticas, todo fã da SS nazista. Um pai que instiga no filhão a postura bélica que pode capacitá-lo para, crescido, ser um soldado do Exército norte-americano, invadindo com pose heróica algum rincão deste planeta rico em petróleo…

O pequeno Troy torna-se um emblema cinematográfico do processo de inculcação ideológica perpetrada pelo supremacismo branco conexo à seu parceiro ancestral: o militarismo briguento calcado num racismo visceral. O menino é ensinado a atirar com armas de fogo, e quando consegue explodir uma melancia com um tiro é celebrado como herói. O paizão vai ao delírio e ainda embolsa polpudos dólares que tinha apostado com seus camaradas.

Em uma cena-chave, num supermercado, o pequeno Troy, em toda a inocência de sua tenra idade, deixa-se entreter por um homem que seu pai considera como portador de um “defeito de cor” e que costuma tratar com a “N-word” (nigger). O supremacista branco tem um reação de brutalidade e boçalidade inconteníveis ao descobrir que seu filhão está sorrindo para as gracinhas que aquele “nigger” está fazendo com um bonequinho em mãos. Um episódio cotidiano dos mais insignificantes torna-se o estopim de uma enxurrada de sangue.

O comportamento de gangue dos supremacistas brancos que espancam o “negão” no estacionamento, enquanto a família deste assiste em desespero e engasgando nas lágrimas, expressa bem tanto o irracionalismo quanto a covardia desse pessoal (os Bolsominions da Yankeelândia).

O recurso à violência grupal contra um indivíduo isolado, por mera implicância com a cor de sua pele, faz do pai de Troy um arquétipo de uma figura infelizmente disseminada demais: o “covardão” que se acha macho pra cacete. A nossa tragédia social consiste na ideologia hegemônica tentar nos convencer que teríamos de fato um mundo mais seguro, mais livre da “delinquência”, caso permitíssemos a disseminação de armas-de-fogo nas mãos desses “covardões” que só atacam em bando e que são reféns da patologia conhecida como “masculinidade tóxica”. Um excelente documentário sobre isto, aliás, é The Mask You Live In:

É óbvio que o filme “Skin” não pode se furtar de penetrar então no ambiente temático já tão repisado da Vingança. Após ser a vítima de uma tão brutal injustiça, de uma arbitrariedade sádica, o rapaz espancado terá suas dores assumidas pelos “seus”. Entraremos no terreno conhecido: o agressor venenoso vai sentir um pouco de seu próprio veneno descendo por sua goela. Ou melhor, esparramado por sua pele.

Ao fazer a crônica da “revanche dos negros” contra este supremacista branco em específico, o filme “Skin” explora de maneira muito interessante os vínculos entre a pele e a identidade, mas puxando para o centro do foco a questão da tatuagem.


A revanche envolve, é claro, um intento de apagar as tatuagens nazistas que o agressor traz em seu corpo (similares àquelas portadas pelo personagem de Edward Norton em “American History X – A Outra História Americana”, filmaço de Tony Kaye que explora temáticas semelhantes).

Mas a revanche vai além – e é uma espécie de “revanche pedagógica”. Eles tatuam o corpo do branquelo tóxico-agressor com muita tinta negra. Fazem com ele uma espécie de Operação Michael Jackson às avessas. Uma espécie de ação performativa que leva à risca a canção “Paint It Black” dos Stones. Sem pedir sua permissão, obviamente, pegam este branquelo e o pintam de negro. E o lançam de volta ao mundo.

Uma violência, é claro, mas que não é análoga à violência brutal cometida pelos supremacistas brancos em gangue. Esta violência revanchista tem algo de “pedagógica” pois, ao invés de impor algo como a tortura ou a pena-de-morte (métodos adorados por branquelos ricos e com poder), impõe a um sujeito desacordado uma mudança-de-sua-aparência. Ele volta ao mundo com outra aparência sensível. Sentirá na pele o que significa, em uma sociedade racista, governada por um supremacista branco, com re-ascensão da KKK e grupos semelhantes, “ser” um negro.

O filme chega mesmo a sugerir que o plano revanchista-pedagógico possa ter sido urdido por uma criança, ou seja, pelo garoto que viu seu pai ser covardemente espancado e que, no poster do filme, tem metade de seu rosto dividido com Troy.

Estes dois personagens, numa espécie de reativação de belas obras de cineastas como Larry Clark ou Gus Van Sant, mostram a infância e a puberdade no meio do torvelinho dos confrontos ideológicos e raciais.

Quando Troy volta a utilizar a arma que seu pai lhe ensinara a utilizar, seu alvo não será mais uma melancia. Troy aprendeu bem demais as lições de seu paizão e talvez, ao apertar o gatilho contra aquele invasor de pele escura que se embrenhou em seu lar na calada da noite, esperava depois ser novamente alçado a status heróico e comemorado pelos seus como um grande sujeito por ter cometido a proeza de matar um “nigger”.

Na história dos parricídios, “Skin” agora merece ter um capítulo escrito em sua homenagem: Troy dá a seu pai uma lição que ele nem tem tempo de apreciar, já que sua vida se esvai, resumível naquela velha sentença moral que propõe: quem envenena o mundo com o ódio, quem perpetra o ódio como algoz, deste mesmo ódio que ajudou a disseminar pode acabar padecendo como vítima. Os gregos diriam que toda hýbris fatalmente encontra sua nêmesis.

Impossível não lembrar, ao ver este filme impressionante, do gesto que Jair Bolsonaro repetiu nos palanques do Brasil em sua campanha eleitoral repleta de apologia à violência alterofóbica: ao ensinar uma criança loirinha a fazer com as mãos o gesto de um revólver que atira, o governante neofascista do Brasil não fazia apenas um showzinho obsceno para o deleite sádico de seu gado amestrado que lhe trata como mito. Estava fornecendo um emblema de como a ideologia bélica, troglodita e supremacista busca apossar-se da infância para transformar crianças em máquinas de ódio e intolerância. Esta é a “educação” que o calhorda propõe: ensinar “arminha” pra criançada crescer sendo tão troglodita quanto ele.

Não seria lúcido esperar qualquer coisa melhor deste sujeito boçal e neanderthal que falou em rasgar o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e jogá-lo na latrina, e que recomendou ao Ministro da Educação que usasse contra Paulo Freire um extermínio com o “lança-chamas”.

Quando falamos que Bolsonaro e Trump são os exterminadores-do-futuro, não estamos de brincadeira, só inventando distopias com fraseados apocalípticos. É só atentar para o que ocorre com as crianças sob a tirania de sua estupidez militarista e supremacista para chegar à conclusão de que o extermínio do futuro se faz justamente pela inculcação de tais ideologias tóxicas naqueles que são os recém-ingressados na condição humana.

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A Casa de Vidro – Por Eduardo Carli de Moraes. Goiânia, 04 de Agosto de 2018.

Todo cidadão brasileiro que votar 17 estará mergulhando o dedo no sangue das futuras vítimas da Ditadura Bolsonazista

 

“O Brasil tem um enorme passado pela frente.”Millôr Fernandes

O que o Bolsonarismo prega para sua horda de seguidores é um programa de desumanidade institucionalizada: querem que as mulheres voltem para a Cozinha, que gays & lésbicas & trans voltem para o armário, que os negros voltem para a senzala, que os comunistas voltem pro pau-de-arara, que os pobres e os cotistas saiam da universidade, que não haja mais pés-rapados nos aeroportos… Querem ainda que os médicos solidários vindos da pátria de Martí voltem para Cuba, e que os milicos brasileiros invadam a Venezuela e derrubem Maduro, fazendo o serviço sujo que líderes da Direita dos EUA desejam encontrar algum serviçal que faça, para que depois possam se apropriar do petróleo.

Os boçais bolsonaristas, hipócritas imorais, vestem a máscara de “defensores da Família” e de “cidadãos de Bem” (nome do jornal da Ku Klux Klan), quando na verdade propõem ao país o suicídio coletivo.

A extrema-direita quer distribuir armas para que os brasileiros se matarem ainda mais do que já matam. Com o morticínio, vão querer lucrar sobre os cadáveres: vendendo petróleo do Pré-Sal para corporações gringas, liberando a Amazônia para exploração empresarial, privatizando o Aquífero Guarani.

Venho exercitando meus neurônios na tentativa de compreender o eleitorado de Bolsonaro e Mourão: o que faz com que esses brasileiros se prestem ao papel, não só ridículo mas também nefasto, de serem os lambe-botas e as marionetes de um bando de trogloditas que não tem projeto de país senão o de resolver tudo no tiro?

Como pudemos chegar a essa lamentável situação em que uma horda de crédulos e violentos adoradores se colocam de joelhos diante de um brucutu como Bolsonaro?

E aí me lembro de Nelson Rodrigues – que não pode ser acusado de ser esquerdista! – e que disse uma vez: “os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.”

A extrema-direita de hoje de fato não se preocupa nada com a educação ou com a inteligência, pois sabem que são beneficiados pelo oposto: pela falta de educação, pela desinformação e pela idiotia induzida. A prova maior disso está em uma campanha eleitoral que aposta tudo na burrice dos Bolsominions, na credulidade deles em relação às fake news que infestam o Whatsapp e outras redes sociais, na disseminação acéfala de material difamatório.

Mas a estupidez não é só risível, ela é perigosa. Como se manifesta nesta relinchante onda de ataques contra cidadãos que são xingados, agredidos ou assassinados por estarem com um boné do MST, uma camiseta Lula Livre ou por declararem voto em Haddad. É a estupidez organizada dando como frutos amargos uma disseminação incontrolável da violência. Como Eliane Brum bem apontou, não era de se esperar outra coisa desses que o próprio Mourão batizou como “os profissionais da violência”. Eles são os trogloditas da violência estatal impiedosa que vem para defender o capitalismo selvagem (Paulo Guedes aprofundando a Ditadura Patronal) e a teocracia militarizada (Edir Macedo apoiado por tanques).

O Bozonazismo, que fala tanta merda sobre o suposto plano do PT de “transformar o Brasil em uma Venezuela”, tem um plano de nos tornar algo parecido com um Afeganistão sob domínio Taleban. Com pitadas de III Reich. É só lembrar do mau gosto do slogan de campanha: “Brasil acima de tudo” é idêntico a “Deustchland Über Alles”, o mote nazi, e “Deus acima de todos”, além de ser uma violação brutal do princípio constitucional do Estado Laico, nos faz retroceder à Idade das Trevas, a uma teocracia que todas as revoluções da era iluminista pretenderam aposentar da História.

Todo esse sangue que já está sendo derramado pelos Bolsominions – como no caso do mestre de capoeira Moa do Catendê – está manchando as mãos de Bolsonaro e provando que ele é um sujeito que, em sua boçalidade, revela-se como alguém profundamente irresponsável.

Quando um ser humano sabe que suas palavras são ouvidas por milhões de outros seres humanos, sua responsabilidade ao proferi-las aumenta, já que a possibilidade de que as ideias postas em circulação acabem se tornando ações é muito alta. Mas Bolsonaro parece nunca ter levado a sério a famosa frase do “Pequeno Príncipe” de Saint-Exupéry: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

Nos últimos anos, o candidato (atualmente do PSL, mas que passou boa parte de sua vida política no PP), vem utilizando sua boca como órgão excretor de estupidez em cachoeira. Esse homem, branco, rico, pertencente às elites econômicas do país, supremacista racial e misógino doentio, consegue somar em sua pessoa toda a estupidez do racismo, da masculinidade tóxica, da cultura do estupro, da fobia à alteridade. Consegue adicionar a isso a apologia à tortura, a relativização dos crimes da Ditadura Militar e um desrespeito generalizado às minorias sociais que ele deseja ver exterminadas (como povos indígenas e quilombolas, que segundo nele “não vai ter nem um centímetro de terra demarcada”).

Além disso, adere às táticas nazi-fascistas de condenação em bloco do adversário político, demonizando o PT – Partido dos Trabalhadores​ e ameaçando “fuzilar a petralhada” – uma atitude que jamais seria aceita pelo Judiciário em um país onde as instituições do Estado Democrático de Direito ainda funcionassem, pois prometer o genocídio jamais foi um ato legítimo de campanha política, e quem promete o assassínio em massa dos apoiadores de um partido político não merece estar disputando a Presidência, mas sim ter sua candidatura impugnada por violação das regras mais elementares do jogo democrático. Mas nossa Justiça está acovardada, ou é cúmplice da ascensão do facínora, que assim sente-se mais livre e solto para de maneira imunda na campanha eleitoral.

Assim, a campanha Bolsonarista tornou-se o pior exemplo contemporâneo da reativação do mote utilizado pelo chefe de propaganda do III Reich alemão, Goebbels: “uma mentira contada mil vezes torna-se uma verdade.”

Tanto que seu candidato está amarelando e fugindo de todos os debates públicos – diz que isso é uma “estratégia”, e é mesmo: a estratégia consiste em continuar mentindo como um alucinado, sem prestar contas a ninguém. Esse atestado de covardia só prova que o arregão morre de medo do debate público. Sabe que, diante de um diálogo demorado e honesto com Haddad, iria revelar toda a extensão de sua ignorância, de seu preconceito, de sua falta de formação intelectual e sensível, de sua completa incapacidade para dar conta da missão complexa que é ser chefe-de-Estado de um país gigantesco, altamente contraditório e socialmente convulsionado como o Brasil.

É verdade: o tamanho do fã-clube Bolsonarista – em especial aquela fração dele que trata seu führer como se fosse um “mito”, sem perceber que assim paga o maior mico – nos ensina que não devemos subestimar o poder de devastação que há em pessoas estúpidas reunidas em grandes números.

Mas quero deixar claro que não considero a estupidez uma característica incurável de certos sujeitos que teriam já nascido predestinados a ela. Há uma produção social da estupidez e a este trabalho de estupidificação geral vem se consagrando muitas instituições sociais que tem interesse em um povo que não seja capaz de pensar criticamente, que tenha as possibilidade de assumir a responsabilidade de pensar com autonomia.

O grau de contaminação do fascismo Bozonazista revela a nós, educadores do Brasil, a extensão do nosso fracasso coletivo em educar nossos cidadãos para o pensamento crítico. Faltou, nas escolas, nas mídias, nas igrejas, nos botecos, nos pontos de cultura, em toda parte onde nos reunimos em conjunto, politizar nosso povo no sentido da participação social e da democracia direta. Hoje revela-se a extensão do dano que há no analfabetismo político amplamente disseminado: quase 50 milhões de pessoas votaram na Trogloditocracia retratada pelo cartum de Ribs​.

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TIVEMOS GOLPE, TEREMOS DITADURA?

Agora pende sobre nossas cabeças a ameaça de uma nova ditadura. Após o golpeachment contra Dilma Rousseff e o encarceramento injusto de Lula, que liderava com ampla margem as intenções de voto, fomos lançados à triste possibilidade de auto-destruição democrática. Seria a primeira vez na história da América Latina que, sem um golpe propriamente militar, com o crivo das urnas (apesar do processo eleitoral ferido de morte em sua legitimidade pelo processo golpista que se estende desde 2016 e que agora busca sua final consumação), de um governo de extrema-direita que recebe o aval da maioria do eleitorado.

O Chile jamais votou em Pinochet, mas sim em Allende. Se o Brasil eleger Bolsonaro, seremos um caso raro de país suicida, que escolhe a pior das tiranias e das servidões, situação abominável de assassínio das liberdades que só costuma ocorrer a um povo quando é imposta, de fora, pelos tanques e pelas tropas.

A Ditadura Bozonazista seria uma espécie de volta-da-que-não-foi. Nela, Ustra seria herói nacional, as torturas recomeçariam em novos porões do DOPS, muitos seriam assassinados e desaparecidos pelo Estado por serem socialistas, anarquistas, feministas, ativistas estudantis, anti-racistas, militantes de movimentos sociais…

O Brasil nunca de fato conseguiu enterrar os efeitos nefastos dos nossos anos-de-chumbo. Sobrou impunidade pra torturadores. Sobrou genocida de farda que pôde comprar sua impunidade e hoje é um general de pijamas postando fake news pró-Bolsonaro no Whatsapp.

Sobrou também frouxidão no trato com discursos de ódio criminosos, propagados por políticos saudosos da ditadura dos milicos. A exemplo da apologia à Ustra realizada pelo Coiso durante a sessão da Câmara dos Deputados que aprovou o impeachment de Dilma Rousseff. Uma atitude tão sádica e boçal que a resposta de Jean Wyllys foi um cuspe. Um cuspe que nos representa.

Nós, brasileiros que amam a liberdade e tem repulsa pelo fascismo, também sentimos repugnância diante de um ser humano tão desprezível e vil a ponto de fazer apologia a um crime hediondo como a tortura. Isso, saído da boca de um representante do povo que deveria zelar pelo bem público, mas cuja boca é utilizada como aparelho excretor de sadismo. Bolsonaro é um doente mental que goza com a crueldade e que excreta ódio e intolerância. Dando-lhe poder o Brasil só colherá caos e destruição.

Desde aquele lamentável episódio, naquela Câmara presidida pelo gangster golpista Eduardo Cunha, sabemos muito claramente que Jair Bolsonaro é um dos psicopatas mais perigosos que há entre os homens-brancos-e-ricos que andam sem coleira pelo Brasil.

Irresponsável e covarde, vai disseminando o ódio e a violência, preparando as chacinas do futuro, colocando as novas gerações num altar de sacrifício, onde crianças e jovens são desencaminhados do caminho justo – a escola, a cultura, o amor, a liberdade, a criação! – para serem ensinados a atirar e a matar. Este será um triste e estúpido país se fizer essa besteira e eleger esse facínora que ensina criancinha a atirar. Podemos ser sábios e eleger um Professor, um dos melhores ministros da educação que o Brasil já teve, um gestor público competente e bem-preparado como é Fernando Haddad, que possui todas as excelências éticas, cognitivas e sensíveis para realizar a contento sua função, mas o grau de irracionalidade e idiotia que dominou nosso país é tamanho que é plenamente possível que o pior dos mundos se realize e o Bolsonarismo fascista suba ao poder.

É o famoso “entulho autoritário” volta a nos agredir. É a Ditadura que não soubemos enterrar, e que agora quer se reerguer. Algo dela sempre esteve entre nós, naturalizada: como a PM que mais mata e mais morre no mundo. Sobrou dela também a estupidez tão disseminada da ideologia anti-comunista, a onda em que hoje surfa a ideologia tóxica que está sendo mobilizada pela maré fascista no Brasil: o anti-petismo alucinado e paranóide dos que querem justificar todas as atrocidades com a velha fantasia do “combate ao comunismo”. Qualquer cidadão minimamente bem informado sabe que o PT no Poder foi um excelente gestor do capitalismo, seguindo os moldes do Estado de Bem-Estar social típico das democracias liberais burguesas, seguindo a cartilha de Keynes e Roosevelt (e não de Trótsky ou Castro).

É que todo regime nazi-fascista precisa fabricar um inimigo interno e demonizá-lo, para justificar assim a perseguição aos excluídos, chegando no limite à exterminação física daqueles que se decretou como seus adversários indignos de viver.

Todo cidadão brasileiro que apertar o número 17 nas urnas em 28 de Outubro estará mergulhando o dedo na piscina de sangue das futuras vítimas da Ditadura Bozonazista que se anuncia como uma tragédia anunciada.

“Permitir que um homem desses chegue ao poder é ser co-autor de uma tragédia anunciada. Bolsonaro já deixou bem claro que apoia a ditadura, a tortura e a morte de quem lhe é diferente. O sangue de suas futuras vítimas não está somente nas mãos dele, mas nas de seus eleitores que, movidos pelo ódio às minorias e à pluralidade, e pelo anti-petismo, lavam suas mãos perante o sofrimento alheio.” – Valkirias 

Não terá sido por falta de aviso: milhares de vozes estão clamando para que cada brasileiro acorde para sua responsabilidade diante do futuro de um país que nada tem a ganhar com a re-instauração da barbárie militarista.

Muitas das vozes que hoje se levantam, num polifônico coro, para denunciar os perigos e os horrores do Bolsonarismo, estão bem longe de serem prosélitos do petismo ou filiados ao Partido dos Trabalhadores.Mesmo aqueles que souberam criticar com profundidade o “Lulismo no poder”, apontando alguns dos descaminhos do PT nestes seus 38 anos de caminhada, caso de figuras como Eliane Brum, hoje sabem que apertar 13 nas urnas é a coisa mais certa a se fazer para opor um dique à maré montante do fascismo.

Pois o que a História nos ensina de mais simples e claro sobre o fascismo é que ele pratica um interminável genocídio das populações mais vulneráveis.

Além disso, o entreguismo sempre foi o desejo secreto de figuras como Bolsonaro, que abre as pernas pra qualquer Yankee com uma conta bancária poupuda, garantindo que a brutalidade das tropas e tanques estará de prontidão para defender os lucros das empresas gringas que enriquecerem as contas das famílias de Bolsonaro, de Paulo Guedes, de Edir Macedo, de milico Mourão…

Para além do resultado das urnas, o ano de 2018 no Brasil provou o tamanho do fracasso de nosso país na tarefa, que vamos adiando irresponsavelmente, de nos livrar do entulho autoritário que é tão marcante em nossa História, mas que também mostra-se extremamente presente em nossa atualidade. Os povos indígenas e quilombolas ainda sofrem horrores com o que sobrou das políticas de extermínio étnico-racial da Ditadura, e agora estão ameaçados com uma versão da Solução Final proposta pelo Bozonazismo que tanto adora a Ditadura (ela, que a extrema-direita e seus cúmplices no Judiciário e na Mídia vem querendo rebatizar como “Movimento”).

“Movimento”, caras pálidas, uma ova! Um coup d’état como o de 1964 encaixa-se no modelo que se disseminou por toda a América Latina na Guerra Fria: a truculência dos tanques, com apoio financeiro e logístico dos EUA, derrubando um governo constitucional e democraticamente eleito, para instaurar em seu lugar um regime-fantoche, que não merece nenhum respeito do cidadão e que se faz obedecer e temer com o uso da força bruta, do Hobbesiano Leviatã. A Ditadura civil-militar, imposta pela violência, subserviente ao imperialismo anglo-saxão, entre nós se manifestou com torturas, censuras, desaparecimentos, assassinatos de opositores, violações sistemáticas dos direitos elementares do cidadão. Qualquer ser humano razoável tem que manifestar seu repúdio à política de “extirpação” de inimigos internos criminalizados e marcados como a parte sacrificável da população.

São esses os horrores que os Bozonazistas querem re-editar entre nós. E nós somos aqueles que não descansaremos, na aliança popular democrática, para barrar este horrendo plano de retrocessos. Se fere nossa existência, seremos a resistência.

Em 1979, na Praça da Liberdade em Belo Horizonte, Rachel Coelho, 5 anos, recusou o cumprimento do então presidente, General Figueiredo. O registro feito pelo fotógrafo Guinaldo Nicolaevsky transformou o gesto de Rachel em um símbolo da luta contra a Ditadura Militar. #ditaduranuncamais


Por Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro
http://www.acasadevidro.com

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Uma leitura feminista da peça “Mãe Coragem e Seus Filhos”, de Bertolt Brecht (1898 – 1956) || por Eduardo Carli

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“…a pearl on the pathway of war she was,
And a pearl all genuine, too.
Though sometimes laughable she might be,
More oft was honor her due.”

A song by Runenberg, Lotta Svärd
(From “Songs of Ensign Stal”, 
New York, G.E. Stechert, 1925)

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INTRODUÇÃO

Tenho imensa admiração por Bertolt Brecht (1898 – 1956). Como dramaturgo, poeta e pensador político, Brecht é de um brilhantismo raro. Sua arte é de alto impacto e influenciou profundamente a posteridade, algo que sente-se claramente, por exemplo, no cinema de Lars Von Trier, ou em certas fases da carreira de Chico Buarque de Hollanda, em especial “A Ópera do Malandro”, uma adaptação da “Ópera dos Três Vinténs” de Brecht e Weill.

Compartilho aqui um artigo que escrevi na tentativa de interpretar uma de suas célebres peças, “Mãe Coragem e Seus Filhos”, sob um viés feminista. Tento compreender o militarismo e o belicismo como uma patologia do patriarcado. Estabeleço conexões com filmes – como “Nascido Para Matar” de Stanley Kubrick, e “A Corrida do Ouro” de Chaplin – e canções, como “Only a Pawn In Their Game”, de Bob Dylan.

Também procuro apontar similaridades entre a dramaturgia brechtiana e a tragédia grega, em especial “Ifigênia em Áulis” de Eurípides e “Oréstia” de Ésquilo. É um texto bastante extenso, mas senti que não poderia fazer justiça a uma obra tão complexa sem entrar em explorações minuciosas da trama. “Mãe Coragem” é uma experiência teatral inesquecível – mesmo para aqueles que, como eu, nunca puderam presenciá-la encenada e só tiveram contato com o texto. Confiram!

À direita: a atriz Meryl Streep interpreta Mãe Coragem. Saiba mais sobre esta produção assistindo ao filme (altamente recomendado!) “Theather of War” (download)

I. AS MÃES E AS GUERRAS

Ela está decidida a não atirar suas pérolas aos porcos. Ou melhor: esta mãe bate o pé e diz não ao Poder. Não vai permitir, sem resistência e sem luta, que seus filhos lhe sejam sequestrados, tragados para a guerra, roubados do ninho, para virar carne moída!

Infelizmente, as guerras às vezes são mais fortes que as vontades das mães.

Para citar um exemplo da atualidade: aprenderam sua impotência, através de amargas experiências, as mães de 400 mães de Gaza que, durante a ofensiva israelense de 2014, tiveram os frutos de seus ventres trucidados pelas bombas sionistas. Que a Mãe Coragem de Brecht possa ajudar-nos a aquecer a chama da empatia, com tanta frequência adormecida no peito, e nos leve a perceber cada vida ceifada pela guerra como o aniquilamento de uma individualidade única, insubstituível, cuja extinção causa desastres afetivos e existenciais em todos aqueles que constituíam com a pessoa morte uma teia de relações.

Às vezes mães são impotentes para impedir a carniceria que lhes transforma os filhos em cannon fodder (carne de canhão). Mãe Coragem é uma pacifista por uma razão bem simples, bem menos refletida e teoricamente refinada do que as doutrinas de um Mahatma Gandhi ou de um Martin Luther King: seu pacifismo de mãe nasce mais das vísceras do que do intelecto. Ela odeia a guerra pois não quer ver seus filhos sendo assassinados nela. Mas o que ela pode fazer contra a mega-maquinaria bélica?

Os tempos são terríveis: ela olha ao seu redor e quase todo mundo está só “pele e ossos”. A fome é imensa, disseminada e sem misericórdia. Para dar uma noção dessa miséria, digamos que se assemelha àquela de Carlitos quando ele decide assar e comer sua própria bota, em uma das cenas imortais de Charlie Chaplin em A Corrida do Ouro (The Gold Rush). No primeiro ato, cena 2, Mãe Coragem declara sobre as pessoas ao seu redor: “Elas estão tão esfomeados que arrancam raízes da terra para comer. Eu poderia ferver um cinto-de-couro e faria com que suas bocas salivassem.” (pg. 35)

Carlitos janta as próprias botas em "A Corrida do Ouro" (The Gold Rush), clássico do cinema mudo.

Carlitos janta as próprias botas em “A Corrida do Ouro” (The Gold Rush), clássico do cinema mudo.

Esta feminista espontânea não precisou ler Judith Butler ou Beatriz Preciado, nem ouvir Pussy Riot ou riot girrrls, para perceber os males que faz a elefantíase de testosterona nos neurônios e nas sociedades. Até tenta rebelar-se contra o Patriarcado e sua mania de belicismo. Mas seu poder é pouco, como foi pouco o poder somado de todas as mães de Guernica, de todas as mães de Nagasaki, de todas as mães de Gaza (e assim por diante…).

Mãe Coragem não é uma pacifista de academia, de cátedra, de discursinhos na ONU. Ela é uma pacifista de sangue quente, sem rede de proteção, que atravessa um fio estendido sobre o abismo, um pouco como o tight-rope dancer de Assim Falou Zaratustra, aquele que fez do perigo sua vocação. Mãe Coragem talvez preferisse uma vida tranquila, sem preocupações, mas calhou de nascer em tempos perigosos, sombrios, fratricidas. Não pediu nem escolheu, mas a guerra a rodeia com sua fúria e sua insanidade, obrigando-a a lidar com as potências mortíferas com um rebolado improvisado, na urgência da prática cotidiana. A Guerra, como Cronos na mitologia grega, devora um a um os rebentos de Mãe Coragem.

Albert Camus chamou um de seus melhores livros  L’Homme Revolté (O Homem Revoltado), e uma das poucas falhas de livro tão magistral é sugerir em seu título que a revolta é coisa exclusivamente masculina. Mas é claro que há uma revolta feminina – Emma Goldman, Simone Weil ou Arundhati Roy exemplificam-na bem – que é digníssima de nossa atenção e admiração! Mãe Coragem, parece-me, tem também algo do espírito destas rebeldes-de-saia, mas é de uma rebeldia que parece irradiar de seu útero: em intensa angústia materna, ela suspeita que a guerra irá privá-la de seus filhos, provavelmente arrebatá-los pra sempre. Ela se levanta em resistência ao draft militar, logo na primeira cena, interpondo-se entre o Exército e seus filhos como se defendesse a prole, no ninho, contra um abutre predador.

O mais desesperador desta cena é que o leitor ou espectador percebe que Mãe Coragem é apenas uma frágil tocha de feminilidade em um oceano de macheza. É uma voz solitária clamando pela paz em meio ao barulho ensurdecedor dos tambores de guerra, das explosões de bombas e do ribombar das balas cuspidas pelos rifles.

Os próprios filhos acabam “fisgados” pela ideologia do militarismo e começam a convencer-se de que a guerra não irá matá-los. Passam a crer que vão dar um jeito de escapar dos ataques dos adversários e que vão acabar sendo aureolados com renome glorioso. A epidemia da peste bélica se esparrama pois muitos se deixam fisgar pela isca que é a promessa de Glória nos feitos militares. Fazem poses de heróis por antecipação enquanto caminham para as batalhas urrando: “é preciso bem mais do que uma guerra para me assustar!”

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Em Nascido Para Matar (Full Metal Jacket), Stanley Kubrick escancarou o quanto o militarismo está conectado com um comportamento machistóide. Os soldados do exército dos EUA, que estão sendo preparados para suas missões no Vietnã, marcham sob o comando feroz da disciplina do comandante, berrando obscenidades com voz grossa. Cotidianamente, são humilhados e judiados, inclusive com socos no saco e outras delicadezas, para que fiquem muito machos. Preparar alguém para a guerra significa aniquilar quaisquer tendências às compaixões feminis, todos ímpetos “maricas” à empatia ou à misericórdia…

O resultado desse processo de condicionamento e lavagem cerebral, que Kubrick narra magistralmente na primeira parte do filme, é simbolizado pelo soldado suicida, que explode seus miolos no banheiro. Este sistema perverso – vale sempre lembrar que o orçamento militar dos EUA é, disparado, o mais alto do mundo – gera genocídios e massacres, seja no Vietnã (outrora) ou no Oriente Médio (hoje), e a morte precoce de muitos jovens cooptados para o belicismo. Mãe Coragem, de Brecht, permanece um estandarte ainda atual que nos lembra que o ímpeto guerreiro, civilização agonística, não cessa de gerar mães, emocionalmente destroçadas, que chorarão torrentes ao receberem do governo os caixões de seus filhos, envolvidos pela bandeira da pátria, junto com uma carta de condolências assinada pelo Ministro da Guerra.

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Em muitos campos de batalha, através da história, já largaram seus defuntos, para serem comidos por aves-de-rapina, inumeráveis desses “heróis” tão “corajosos” que se cadastram e se alistam e marcham obedientes para a guerra. Às vezes quem se acha corajoso está, de olhos vendados, correndo para um túmulo precoce, desperdiçando a vida em uma contenda desnecessária, que não precisaria ser resolvida na violência. É uma das características mais bizarras da criatura humana: muitas vezes, as pessoas escolhem uma morte precoce mas que acreditam ornada de valor e significado, a uma vida prolongada mas sem nenhum heroísmo. É o que daria para chamar de O Complexo de Aquiles (o que explorei em no seguinte artigo: Do Corpo Efêmero à Glória Imorredoura – Reflexões Sobre a Bela Morte na Companhia de Jean-Pierre Vernant).

Em sua leitura sobre o filme de Stanley Kubrick, em The Pervert’s Guide to Ideology (documentário de Sophie Fiennes), Slavoj Zizek destaca bem o quanto de sadismo está presente nestes rituais militares onde se leva até o delírio a idéia de que a masculinidade é um valor inestimável, e que é possível prová-la nos campos de batalha, através de atos de bravura e temeridade, aos quais se prometem a recompensa de troféus, reputações gloriosas, quiçá até gordos cheque-de-pagamento ou permissões para a pilhagem.

Por isso julgo que aquilo que une a Guerra de Tróia e a Guerra do Vietnã, apesar de suas diferenças e do abismo de tempo que as separa, é uma mentalidade que subjaz e justifica a guerra, propagandeada e vendida como caminho para a glória. Idéia de macho – e, se me perguntarem, direi também: idéia de jerico. Idéia retardada e bárbara. Idéia de quem pensa com os testículos. Idéia das mais destrutivas que a humanidade já teve a infelicidade de parir e disseminar.

* * * *

Meryl Streep as the title character in The Public Theater 2006 production of "Mother Courage and Her Children", as featured in John Walter's documentary THEATER OF WAR.  Photo credit: The Public Theater / Michael Daniel.

Meryl Streep como personagem principal de “Mãe Coragem e Seus Filhos”, em  espetáculo de 2006, filmado em documentário por John Walter no filme “THEATER OF WAR”. Photo credit: The Public Theater / Michael Daniel.

A mãe, na peça de Brecht, percebe a insanidade do Patriarcado Briguento, que a rodeia com a força de um monstro, faminto por filhos. Infelizmente, ela é só uma mulher, que precisa sobreviver em tempos de crise, vender suas mercadorias para que não passe fome. Ela não tem os meios para revolucionar uma instituição social, muito menos uma civilização.

O filho mais velho de Mãe Coragem, Eilif, é-lhe roubado no meio da rua pelos senhores da guerra. Mãe e filho só vão se encontrar novamente dois anos depois. Dois anos em que Eilif não cessa de ouvir o comandante do exército berrar em sua orelha: “ó feliz guerreiro, você está participando de algo heróico, está servindo ao Senhor em uma Guerra Sagrada, e vai ganhar um bracelete de ouro quando nós tomarmos a cidade do inimigo!” (Cena II, p. 35) Promessas vãs, não mais que promessas mentirosas: a realidade é a fome, uma fome tamanha que os bifes que restam para alimentar a população em guerra estão fedendo de putrefação, como se a vaca tivesse morrido há um ano. O cozinheiro do exército mentir: “Que nada! Este bife aqui só tem um dia de idade, ontem mesmo era uma vaca que vi andando por aí.” Ao que Mãe Coragem, que não é desprovida de pontiagudo sarcasmo, responde: “Então essa vaca deve ter começado a feder antes mesmo de morrer.”

A guerra faz com que a atmosfera fique saturada com o fedor da putrefação. Eis um “argumento” fortíssimo que Mãe Coragem tem para seu pacifismo: além de irradiar do útero, de nascer de sua angústia materna, de seu amor umbilical aos filhos, seu pacifismo visceral é também uma reação das narinas, uma recusa em permitir que o cheiro da morte seja mais forte que o aroma das flores.

Mãe coragem “rebola”, dribla, insubordina-se, tenta escapar do jogo que lhe é imposto pelo poder, um pouco como uma personagem de Kafka, tentando se debater pra se libertar de uma opressão social sentida como tenebrosa. Em Brecht, porém, há muito mais humor do que em Kafka. Uma profusão de situações cômicas, que explodem com sua graça dionisíaca no ambinte dark desta peça-bélica, iluminam o construto Brechtiano com uma poesia cálida. É como se fosse possível ouvir o canto de um poeta lírico, entoando um hino em louvor ao Feminino, em Mãe Coragem encarnado, ainda que Brecht saiba também pintá-la em sua humanidade cheia de defeitos e em suas motivações bastante “mundanas”. Mãe Coragem não é heróica: faz o que pode para sobreviver, dá um jeito de prosseguir e atravessar os lutos, mas está longe de ser revolucionária; é vítima de poderes maiores, crushing powers. Mãe Coragem e seus filhos acabam parecendo como aqueles peões de que fala Bob Dylan em “Only a Pawn In Their Game”.

Mãe Coragem, a peça de Brecht, é um retrato da guerra como esta é vivenciada por uma mãe que tem seus filhos dela “arrancados” por uma pavorosa maquinaria, de criação e gestão masculina, que aniquila vidas humanas em contendas sangrentas, mortíferas, insanas. Ela, porém, não pode se dar ao luxo de virar uma pacifista com carteirinha de ONG, com direito à guarda-costas e carro-blindado: Mãe Coragem é pobre, desprovida, vulnerável, presa à urgência de sobreviver.

Em meio à guerra, ela tenta ser uma comerciante, com leros mercantis de convencimento:  seduz como pode para que os outros comprem seus pães, que se interessem pela carne que carrega em sua carroça. Atravessa os anos em meio à devastação da guerra, sempre carregando tudo o que possuí no mundo: a carroça que serve como loja itinerante e casa ambulante ao mesmo tempo. Como uma tartaruga, que carrega sua casa no próprio lombo, podendo adentrar em seu casco para puxar um ronco em qualquer lugar que aprecie, Mãe Coragem é tão despossuída quanto estes carregadores de papelão tão comuns em nossos centro urbanos. .

Como comerciante, Mãe Coragem é muito desconfiada: ela morde as moedas que recebe, pra checar com os dentes se são legítimas; já lhe passaram a perna algumas vezes no passado, e ela foi ficando esperta. Está bem claro que ela está acostumada a muita pilantragem rolando no comércio, mas o que pode fazer? Seu meio de vida é este e ela prossegue nele, mesmo em meio à guerra, mesmo durante o terrível processo de sentir os filhos escorregando por entre seus dedos, como grãos de areia, sugados pelo monstro feroz da belicosidade máscula.

Sua carroça, é evidente, anda lerda como tartaruga. Estamos ainda no século 17, em 1624, na Suécia. Imagino um mood similar ao das peças nórdicas de Shakespeare – o Hamlet, por exemplo – envolvendo as ocorrências que Brecht nos narra. Ademais, uma personagem como Mãe Coragem parece-me ter uma estatura trágica, assemelhando-se a uma figura como Clitemnestra, a mãe de Ifigênia. Este paralelo me parece possível pois Ifigênia, a filha de Clitemnestra, foi sacrificada pelo próprio pai Agamênon, o chefão do exército dos aqueus, lunático a ponto de crer que o sacrifício da primogênita geraria bons ventos para a campanha militar contra Tróia.

Euripides

Na peça de Eurípides, Clitemnestra é um pouco como a Mãe Coragem de Brecht: ambas são incapazes de impedir que a Máquina de Guerra – Masculina e Prepotente – arranque de seus braços os filhos, para na sequência devorá-los. No caso da mãe de Ifigênia, o delírio de dor e luto irá transformar-se em intento vingativo: em outra peça, o Agamenon de Ésquilo (publicado no Brasil pela Zahar como parte da trilogia Oréstia), Clitemnestra dá o contra-golpe contra seu tão odiado esposo, assassino da própria filha. Ao retornar cheio de poses de glória, celebrando-se como heróico vencedor após a década de carniceria em Tróia (narrada em minúcias por Homero na Ilíada), Agamênon encontra seu karma: é retalhado como um bode expiatório e morre horrendamente nas mãos de Clitemnestra e Egisto.

A peça de Brecht também lida com crimes graves, mas sem que estes sejam inter-familiares. Mãe Coragem passa por traumas-de-mãe semelhantes aos de Clitemnestra, e ambas tem um inimigo em comum, o militarismo associado ao patriarcado, esta a ideologia que faz propaganda em prol da guerra, este jogo fatal inventado pelos homens em seus ímpetos incontroláveis de agressão e domínio… Mãe Coragem implora aos próprios filhos: não caiam nesta armadilha, não se deixem enganar pelo lero-lero dos Senhores da Guerra, usem a cabeça e recusem-se a ir ao morticínio! No entanto, ela sabe do poder, devastador, invasivo, da “ideologia”: os soldados, os generais, não param de tentar convencer as crianças e os adolescentes que a glória está lá para ser colhida na guerra, e que quem se recusa a ela é um maricas, um efeminado que merece uma sova, alguém que tem o defeito de “não ser macho o suficiente”.

A jornada de Mãe Coragem em tempos de guerra multiplica-lhe as amarguras: ela não tem só seus rebentos roubados pela guerra, ela vê em ação um “mecanismo ideológico” que transforma seus filhos em assassinos. Não sofre só a amargura terrível do temor constante que um filho morra na guerra, mas a amargura suplementar de saber que o filho pode matar outros. As mães não costumam gostar quando seus rebentos tem como profissão matar filhos de outras mães. Algo de crucial se diz na peça de Brecht não somente sobre esta guerra e esta mãe em particular, mas sobre guerras e mães em geral. Aquilo que se elogia como virtude – coragem e virilidade – e aquilo que se promete como recompensa – glória e riqueza – talvez sejam embustes, falsificações grotescas, que os soldados só desvendarão como miragens quando estiverem agonizando nos campos de batalha.

Mãe Coragem adoraria se seus filhos fossem covardes vivos ao invés de corajosos mortos. Ela acha que aquilo que os militares consideram como covardia e coisa de maricas é na verdade bom senso e sabedoria prática. Mãe Coragem parece encarnar a voz da cautela, da defesa da vida, que tenta convencer aqueles a seu redor de que somos preciosos demais para nos tratarmos como açougueiros fazem nos matadouros de porcos. Só os másculos militares e seus cérebro-de-titica, que pensam com os testículos e estão inebriados por excesso de testosterona (em Grego, se não me engano, isso chama-se húbris), acreditam na conjunção entre matanças sádicas e gloriosas recompensas. A Mãe Coragem, não: em sua dor de mãe amputada, ela mantêm-se como ilha luminosa de lucidez em um oceano de cega brutalidade.

No tempo presente da peça, aliás, a Mãe Coragem cria sozinha seus filhos pois o Pai Coragem morreu na guerra há um tempão atrás. Agora os Filhos Coragem também seguem pelo mesmo caminho, sugados pelo mesmo fatal magnetismo, como se fosse um buraco negro. As gerações sucedem-se mas a sabedoria parece que não aumenta; a carnificina prossegue realizando suas ceifas fatais. A mãe tentou educá-los para o pacifismo e para a prudência, é claro, inclusive utilizando a pedagogia das canções, mas infelizmente as canções às vezes não são tão fortes quanto o barulho das bombas (mesmo John Lennon não foi ouvido quando imaginou all the people living life in peace, quando pediu “Give Peace a Chance”, e findou seus dias assassinado por um psicopata…). Eilif, o filho mais velho da Mãe Coragem, sabe de cor a cantiga ensinada pela mãe, mas ainda assim age muito mais como este soldado que, na canção, não presta atenção à sábia voz feminina e prefere caminhar correndo para o próprio túmulo:

THE SONG OF THE WISE WOMAN AND THE SOLDIER

“A shotgun will shoot and a jack-knife will knife,
If you wade in the water, it will drown you,
Keep away from the ice, if you want my advice”,
Said the wise woman to the soldier.

But that young soldier, he loaded his gun,
And he reached for his knife, and he started to run:
For marching never could hurt him!
From the north to the south, he will march through the land
With his knife at his side and his gun in his hand:
That’s what the soldier told the wise woman.

Woe to him who defies the advice of the wise!
If you wade in the water, it will drown you!…
But that young soldier, his knife at his side
And his gun in his hand, he steps into the tide:
For water never could hurt him!

The wise woman spoke: you will vanish like smoke
Leaving nothing but cold air behind you!
And the lad who defied the wise woman’s advice,
When the new moon shone, floated down with the ice:
He waded in the water and it drowned him.

The wise woman spoke, and they vanished like smoke,
And their glorious deeds did not warm us.
Your glorious deeds do not warm us!”

BERTOLT BRECHT.  Mother Courage and Her Children.
English version by Eric Bentley. New York: Grove Press, 1966.

* * * * *

Siga viagem:

Mix Instantâneo: Democracia Imperial (Compre Uma, Leve a Outra de Graça) – Por Arundhati Roy (inclui debate com Howard Zinn)

Instant-Mix Imperial Democracy
(Buy One, Get One Free)
by Arundhati Roy
https://vimeo.com/97881169

Presented in New York City at The Riverside Church
May 13, 2003
Sponsored by the Center for Economic and Social Rights
Also published by Outlook India

Photograph Tom Pietrasik for the Guardian
In these times, when we have to race to keep abreast of the speed at which our freedoms are being snatched from us, and when few can afford the luxury of retreating from the streets for a while in order to return with an exquisite, fully formed political thesis replete with footnotes and references, what profound gift can I offer you tonight?

As we lurch from crisis to crisis, beamed directly into our brains by satellite TV, we have to think on our feet. On the move. We enter histories through the rubble of war. Ruined cities, parched fields, shrinking forests, and dying rivers are our archives. Craters left by daisy cutters, our libraries.

So what can I offer you tonight? Some uncomfortable thoughts about money, war, empire, racism, and democracy. Some worries that flit around my brain like a family of persistent moths that keep me awake at night.

Some of you will think it bad manners for a person like me, officially entered in the Big Book of Modern Nations as an “Indian citizen,” to come here and criticize the U.S. government. Speaking for myself, I’m no flag-waver, no patriot, and am fully aware that venality, brutality, and hypocrisy are imprinted on the leaden soul of every state. But when a country ceases to be merely a country and becomes an empire, then the scale of operations changes dramatically. So may I clarify that tonight I speak as a subject of the American Empire? I speak as a slave who presumes to criticize her king.

Since lectures must be called something, mine tonight is called: Instant-Mix Imperial Democracy (Buy One, Get One Free).

SS Vincennes (CG-49) is a U.S. Navy Ticonderoga class AEGIS guided missile cruiser well known for shooting down Iran Air Flight 655 in July 3, 1988 killing 290 innocent civilian from six nations including 66 children.

SS Vincennes (CG-49) is a U.S. Navy Ticonderoga class AEGIS guided missile cruiser well known for shooting down Iran Air Flight 655 in July 3, 1988 killing 290 innocent civilian from six nations including 66 children.

Way back in 1988, on the 3rd of July, the U.S.S. Vincennes, a missile cruiser stationed in the Persian Gulf, accidentally shot down an Iranian airliner and killed 290 civilian passengers. George Bush the First, who was at the time on his presidential campaign, was asked to comment on the incident. He said quite subtly, “I will never apologize for the United States. I don’t care what the facts are.”

I don’t care what the facts are. What a perfect maxim for the New American Empire. Perhaps a slight variation on the theme would be more apposite: The facts can be whatever we want them to be.

When the United States invaded Iraq, a New York Times/CBS News survey estimated that 42 percent of the American public believed that Saddam Hussein was directly responsible for the September 11th attacks on the World Trade Center and the Pentagon. And an ABC News poll said that 55 percent of Americans believed that Saddam Hussein directly supported Al Qaida. None of this opinion is based on evidence (because there isn’t any). All of it is based on insinuation, auto-suggestion, and outright lies circulated by the U.S. corporate media, otherwise known as the “Free Press,” that hollow pillar on which contemporary American democracy rests.

Public support in the U.S. for the war against Iraq was founded on a multi-tiered edifice of falsehood and deceit, coordinated by the U.S. government and faithfully amplified by the corporate media.

mass deceptionApart from the invented links between Iraq and Al Qaida, we had the manufactured frenzy about Iraq’s Weapons of Mass Destruction. George Bush the Lesser went to the extent of saying it would be “suicidal” for the U.S. not to attack Iraq. We once again witnessed the paranoia that a starved, bombed, besieged country was about to annihilate almighty America. (Iraq was only the latest in a succession of countries – earlier there was Cuba, Nicaragua, Libya, Grenada, and Panama.) But this time it wasn’t just your ordinary brand of friendly neighborhood frenzy. It was Frenzy with a Purpose. It ushered in an old doctrine in a new bottle: the Doctrine of Pre-emptive Strike, a.k.a. The United States Can Do Whatever The Hell It Wants, And That’s Official.

The war against Iraq has been fought and won and no Weapons of Mass Destruction have been found. Not even a little one. Perhaps they’ll have to be planted before they’re discovered. And then, the more troublesome amongst us will need an explanation for why Saddam Hussein didn’t use them when his country was being invaded.

Of course, there’ll be no answers. True Believers will make do with those fuzzy TV reports about the discovery of a few barrels of banned chemicals in an old shed. There seems to be no consensus yet about whether they’re really chemicals, whether they’re actually banned and whether the vessels they’re contained in can technically be called barrels. (There were unconfirmed rumours that a teaspoonful of potassium permanganate and an old harmonica were found there too.)

Meanwhile, in passing, an ancient civilization has been casually decimated by a very recent, casually brutal nation.

Then there are those who say, so what if Iraq had no chemical and nuclear weapons? So what if there is no Al Qaida connection? So what if Osama bin Laden hates Saddam Hussein as much as he hates the United States? Bush the Lesser has said Saddam Hussein was a “Homicidal Dictator.” And so, the reasoning goes, Iraq needed a “regime change.”

Never mind that forty years ago, the CIA, under President John F. Kennedy, orchestrated a regime change in Baghdad. In 1963, after a successful coup, the Ba’ath party came to power in Iraq. Using lists provided by the CIA, the new Ba’ath regime systematically eliminated hundreds of doctors, teachers, lawyers, and political figures known to be leftists. An entire intellectual community was slaughtered. (The same technique was used to massacre hundreds of thousands of people in Indonesia and East Timor.) The young Saddam Hussein was said to have had a hand in supervising the bloodbath. In 1979, after factional infighting within the Ba’ath Party, Saddam Hussein became the President of Iraq. In April 1980, while he was massacring Shias, the U.S. National Security Adviser Zbigniew Brzezinksi declared, “We see no fundamental incompatibility of interests between the United States and Iraq.” Washington and London overtly and covertly supported Saddam Hussein. They financed him, equipped him, armed him, and provided him with dual-use materials to manufacture weapons of mass destruction. They supported his worst excesses financially, materially, and morally. They supported the eight-year war against Iran and the 1988 gassing of Kurdish people in Halabja, crimes which 14 years later were re-heated and served up as reasons to justify invading Iraq. After the first Gulf War, the “Allies” fomented an uprising of Shias in Basra and then looked away while Saddam Hussein crushed the revolt and slaughtered thousands in an act of vengeful reprisal.

The point is, if Saddam Hussein was evil enough to merit the most elaborate, openly declared assassination attempt in history (the opening move of Operation Shock and Awe), then surely those who supported him ought at least to be tried for war crimes? Why aren’t the faces of U.S. and U.K. government officials on the infamous pack of cards of wanted men and women?

Because when it comes to Empire, facts don’t matter.

Yes, but all that’s in the past we’re told. Saddam Hussein is a monster who must be stopped now. And only the U.S. can stop him. It’s an effective technique, this use of the urgent morality of the present to obscure the diabolical sins of the past and the malevolent plans for the future. Indonesia, Panama, Nicaragua, Iraq, Afghanistan – the list goes on and on. Right now there are brutal regimes being groomed for the future – Egypt, Saudi Arabia, Turkey, Pakistan, the Central Asian Republics.

U.S. Attorney General John Ashcroft recently declared that U.S. freedoms are “not the grant of any government or document, but….our endowment from God.” (Why bother with the United Nations when God himself is on hand?)

So here we are, the people of the world, confronted with an Empire armed with a mandate from heaven (and, as added insurance, the most formidable arsenal of weapons of mass destruction in history). Here we are, confronted with an Empire that has conferred upon itself the right to go to war at will, and the right to deliver people from corrupting ideologies, from religious fundamentalists, dictators, sexism, and poverty by the age-old, tried-and-tested practice of extermination. Empire is on the move, and Democracy is its sly new war cry. Democracy, home-delivered to your doorstep by daisy cutters. Death is a small price for people to pay for the privilege of sampling this new product: Instant-Mix Imperial Democracy (bring to a boil, add oil, then bomb).

But then perhaps chinks, negroes, dinks, gooks, and wogs don’t really qualify as real people. Perhaps our deaths don’t qualify as real deaths. Our histories don’t qualify as history. They never have.

Life After SadamSpeaking of history, in these past months, while the world watched, the U.S. invasion and occupation of Iraq was broadcast on live TV. Like Osama bin Laden and the Taliban in Afghanistan, the regime of Saddam Hussein simply disappeared. This was followed by what analysts called a “power vacuum.” Cities that had been under siege, without food, water, and electricity for days, cities that had been bombed relentlessly, people who had been starved and systematically impoverished by the UN sanctions regime for more than a decade, were suddenly left with no semblance of urban administration. A seven-thousand-year-old civilization slid into anarchy. On live TV.

Vandals plundered shops, offices, hotels, and hospitals. American and British soldiers stood by and watched. They said they had no orders to act. In effect, they had orders to kill people, but not to protect them. Their priorities were clear. The safety and security of Iraqi people was not their business. The security of whatever little remained of Iraq’s infrastructure was not their business. But the security and safety of Iraq’s oil fields were. Of course they were. The oil fields were “secured” almost before the invasion began.

On CNN and BBC the scenes of the rampage were played and replayed. TV commentators, army and government spokespersons portrayed it as a “liberated people” venting their rage at a despotic regime. U.S. Defense Secretary Donald Rumsfeld said: “It’s untidy. Freedom’s untidy and free people are free to commit crimes and make mistakes and do bad things.” Did anybody know that Donald Rumsfeld was an anarchist? I wonder – did he hold the same view during the riots in Los Angeles following the beating of Rodney King? Would he care to share his thesis about the Untidiness of Freedom with the two million people being held in U.S. prisons right now? (The world’s “freest” country has the highest number of prisoners in the world.) Would he discuss its merits with young African American men, 28 percent of whom will spend some part of their adult lives in jail? Could he explain why he serves under a president who oversaw 152 executions when he was governor of Texas?

Before the war on Iraq began, the Office of Reconstruction and Humanitarian Assistance (ORHA) sent the Pentagon a list of 16 crucial sites to protect. The National Museum was second on that list. Yet the Museum was not just looted, it was desecrated. It was a repository of an ancient cultural heritage. Iraq as we know it today was part of the river valley of Mesopotamia. The civilization that grew along the banks of the Tigris and the Euphrates produced the world’s first writing, first calendar, first library, first city, and, yes, the world’s first democracy. King Hammurabi of Babylon was the first to codify laws governing the social life of citizens. It was a code in which abandoned women, prostitutes, slaves, and even animals had rights. The Hammurabi code is acknowledged not just as the birth of legality, but the beginning of an understanding of the concept of social justice. The U.S. government could not have chosen a more inappropriate land in which to stage its illegal war and display its grotesque disregard for justice.

At a Pentagon briefing during the days of looting, Secretary Rumsfeld, Prince of Darkness, turned on his media cohorts who had served him so loyally through the war. “The images you are seeing on television, you are seeing over and over and over, and it’s the same picture, of some person walking out of some building with a vase, and you see it twenty times and you say, ‘My god, were there that many vases? Is it possible that there were that many vases in the whole country?'”

Laughter rippled through the press room. Would it be alright for the poor of Harlem to loot the Metropolitan Museum? Would it be greeted with similar mirth?

The last building on the ORHA list of 16 sites to be protected was the Ministry of Oil. It was the only one that was given protection. Perhaps the occupying army thought that in Muslim countries lists are read upside down?

Television tells us that Iraq has been “liberated” and that Afghanistan is well on its way to becoming a paradise for women-thanks to Bush and Blair, the 21st century’s leading feminists. In reality, Iraq’s infrastructure has been destroyed. Its people brought to the brink of starvation. Its food stocks depleted. And its cities devastated by a complete administrative breakdown. Iraq is being ushered in the direction of a civil war between Shias and Sunnis. Meanwhile, Afghanistan has lapsed back into the pre-Taliban era of anarchy, and its territory has been carved up into fiefdoms by hostile warlords.

Undaunted by all this, on the 2nd of May Bush the Lesser launched his 2004 campaign hoping to be finally elected U.S. President. In what probably constitutes the shortest flight in history, a military jet landed on an aircraft carrier, the U.S.S. Abraham Lincoln, which was so close to shore that, according to the Associated Press, administration officials acknowledged “positioning the massive ship to provide the best TV angle for Bush’s speech, with the sea as his background instead of the San Diego coastline.” President Bush, who never served his term in the military, emerged from the cockpit in fancy dress – a U.S. military bomber jacket, combat boots, flying goggles, helmet. Waving to his cheering troops, he officially proclaimed victory over Iraq. He was careful to say that it was “just one victory in a war on terror … [which] still goes on.”

It was important to avoid making a straightforward victory announcement, because under the Geneva Convention a victorious army is bound by the legal obligations of an occupying force, a responsibility that the Bush administration does not want to burden itself with. Also, closer to the 2004 elections, in order to woo wavering voters, another victory in the “War on Terror” might become necessary. Syria is being fattened for the kill.

It was Herman Goering, that old Nazi, who said, “People can always be brought to the bidding of the leaders.… All you have to do is tell them they’re being attacked and denounce the pacifists for a lack of patriotism and exposing the country to danger. It works the same way in any country.”

He’s right. It’s dead easy. That’s what the Bush regime banks on. The distinction between election campaigns and war, between democracy and oligarchy, seems to be closing fast.

The only caveat in these campaign wars is that U.S. lives must not be lost. It shakes voter confidence. But the problem of U.S. soldiers being killed in combat has been licked. More or less.

At a media briefing before Operation Shock and Awe was unleashed, General Tommy Franks announced, “This campaign will be like no other in history.” Maybe he’s right.

I’m no military historian, but when was the last time a war was fought like this?

After using the “good offices” of UN diplomacy (economic sanctions and weapons inspections) to ensure that Iraq was brought to its knees, its people starved, half a million children dead, its infrastructure severely damaged, after making sure that most of its weapons had been destroyed, in an act of cowardice that must surely be unrivalled in history, the “Coalition of the Willing” (better known as the Coalition of the Bullied and Bought) – sent in an invading army!

Operation Iraqi Freedom? I don’t think so. It was more like Operation Let’s Run a Race, but First Let Me Break Your Knees.

As soon as the war began, the governments of France, Germany, and Russia, which refused to allow a final resolution legitimizing the war to be passed in the UN Security Council, fell over each other to say how much they wanted the United States to win. President Jacques Chirac offered French airspace to the Anglo-American air force. U.S. military bases in Germany were open for business. German Foreign Minister Joschka Fischer publicly hoped for the “rapid collapse” of the Saddam Hussein regime. Vladimir Putin publicly hoped for the same. These are governments that colluded in the enforced disarming of Iraq before their dastardly rush to take the side of those who attacked it. Apart from hoping to share the spoils, they hoped Empire would honor their pre-war oil contracts with Iraq. Only the very naïve could expect old Imperialists to behave otherwise.

Leaving aside the cheap thrills and the lofty moral speeches made in the UN during the run up to the war, eventually, at the moment of crisis, the unity of Western governments – despite the opposition from the majority of their people – was overwhelming.

When the Turkish government temporarily bowed to the views of 90 percent of its population, and turned down the U.S. government’s offer of billions of dollars of blood money for the use of Turkish soil, it was accused of lacking “democratic principles.” According to a Gallup International poll, in no European country was support for a war carried out “unilaterally by America and its allies” higher than 11 percent. But the governments of England, Italy, Spain, Hungary, and other countries of Eastern Europe were praised for disregarding the views of the majority of their people and supporting the illegal invasion. That, presumably, was fully in keeping with democratic principles. What’s it called? New Democracy? (Like Britain’s New Labour?)

6

Protests against war in Iraq erupted around the world in March of 2003.

In stark contrast to the venality displayed by their governments, on the 15th of February, weeks before the invasion, in the most spectacular display of public morality the world has ever seen, more than 10 million people marched against the war on 5 continents. Many of you, I’m sure, were among them. They – we – were disregarded with utter disdain. When asked to react to the anti-war demonstrations, President Bush said, “It’s like deciding, well, I’m going to decide policy based upon a focus group. The role of a leader is to decide policy based upon the security, in this case the security of the people.”Democracy, the modern world’s holy cow, is in crisis. And the crisis is a profound one. Every kind of outrage is being committed in the name of democracy. It has become little more than a hollow word, a pretty shell, emptied of all content or meaning. It can be whatever you want it to be. Democracy is the Free World’s whore, willing to dress up, dress down, willing to satisfy a whole range of taste, available to be used and abused at will.

Until quite recently, right up to the 1980’s, democracy did seem as though it might actually succeed in delivering a degree of real social justice.

But modern democracies have been around for long enough for neo-liberal capitalists to learn how to subvert them. They have mastered the technique of infiltrating the instruments of democracy – the “independent” judiciary, the “free” press, the parliament – and molding them to their purpose. The project of corporate globalization has cracked the code. Free elections, a free press, and an independent judiciary mean little when the free market has reduced them to commodities on sale to the highest bidder.

To fully comprehend the extent to which Democracy is under siege, it might be an idea to look at what goes on in some of our contemporary democracies. The World’s Largest: India, (which I have written about at some length and therefore will not speak about tonight). The World’s Most Interesting: South Africa. The world’s most powerful: the U.S.A. And, most instructive of all, the plans that are being made to usher in the world’s newest: Iraq.

In South Africa, after 300 years of brutal domination of the black majority by a white minority through colonialism and apartheid, a non-racial, multi-party democracy came to power in 1994. It was a phenomenal achievement. Within two years of coming to power, the African National Congress had genuflected with no caveats to the Market God. Its massive program of structural adjustment, privatization, and liberalization has only increased the hideous disparities between the rich and the poor. More than a million people have lost their jobs. The corporatization of basic services – electricity, water, and housing-has meant that 10 million South Africans, almost a quarter of the population, have been disconnected from water and electricity. 2 million have been evicted from their homes.

Meanwhile, a small white minority that has been historically privileged by centuries of brutal exploitation is more secure than ever before. They continue to control the land, the farms, the factories, and the abundant natural resources of that country. For them the transition from apartheid to neo-liberalism barely disturbed the grass. It’s apartheid with a clean conscience. And it goes by the name of Democracy.

Democracy has become Empire’s euphemism for neo-liberal capitalism.

In countries of the first world, too, the machinery of democracy has been effectively subverted. Politicians, media barons, judges, powerful corporate lobbies, and government officials are imbricated in an elaborate underhand configuration that completely undermines the lateral arrangement of checks and balances between the constitution, courts of law, parliament, the administration and, perhaps most important of all, the independent media that form the structural basis of a parliamentary democracy. Increasingly, the imbrication is neither subtle nor elaborate.

Italian Prime Minister Silvio Berlusconi, for instance, has a controlling interest in major Italian newspapers, magazines, television channels, and publishing houses. The Financial Times reported that he controls about 90 percent of Italy’s TV viewership. Recently, during a trial on bribery charges, while insisting he was the only person who could save Italy from the left, he said, “How much longer do I have to keep living this life of sacrifices?” That bodes ill for the remaining 10 percent of Italy’s TV viewership. What price Free Speech? Free Speech for whom?

In the United States, the arrangement is more complex. Clear Channel Worldwide Incorporated is the largest radio station owner in the country. It runs more than 1,200 channels, which together account for 9 percent of the market. Its CEO contributed hundreds of thousands of dollars to Bush’s election campaign. When hundreds of thousands of American citizens took to the streets to protest against the war on Iraq, Clear Channel organized pro-war patriotic “Rallies for America” across the country. It used its radio stations to advertise the events and then sent correspondents to cover them as though they were breaking news. The era of manufacturing consent has given way to the era of manufacturing news. Soon media newsrooms will drop the pretense, and start hiring theatre directors instead of journalists.

As America’s show business gets more and more violent and war-like, and America’s wars get more and more like show business, some interesting cross-overs are taking place. The designer who built the 250,000 dollar set in Qatar from which General Tommy Franks stage-managed news coverage of Operation Shock and Awe also built sets for Disney, MGM, and “Good Morning America.”

It is a cruel irony that the U.S., which has the most ardent, vociferous defenders of the idea of Free Speech, and (until recently) the most elaborate legislation to protect it, has so circumscribed the space in which that freedom can be expressed. In a strange, convoluted way, the sound and fury that accompanies the legal and conceptual defense of Free Speech in America serves to mask the process of the rapid erosion of the possibilities of actually exercising that freedom.

The news and entertainment industry in the U.S. is for the most part controlled by a few major corporations – AOL-Time Warner, Disney, Viacom, News Corporation. Each of these corporations owns and controls TV stations, film studios, record companies, and publishing ventures. Effectively, the exits are sealed.

America’s media empire is controlled by a tiny coterie of people. Chairman of the Federal Communications Commission Michael Powell, the son of Secretary of State Colin Powell, has proposed even further deregulation of the communication industry, which will lead to even greater consolidation.

So here it is – the World’s Greatest Democracy, led by a man who was not legally elected. America’s Supreme Court gifted him his job. What price have American people paid for this spurious presidency?

Art by Shepard Fairey

Art by Shepard Fairey

In the three years of George Bush the Lesser’s term, the American economy has lost more than two million jobs. Outlandish military expenses, corporate welfare, and tax giveaways to the rich have created a financial crisis for the U.S. educational system. According to a survey by the National Council of State Legislatures, U.S. states cut 49 billion dollars in public services, health, welfare benefits, and education in 2002. They plan to cut another 25.7 billion dollars this year. That makes a total of 75 billion dollars. Bush’s initial budget request to Congress to finance the war in Iraq was 80 billion dollars.

So who’s paying for the war? America’s poor. Its students, its unemployed, its single mothers, its hospital and home-care patients, its teachers, and health workers.

And who’s actually fighting the war?

Once again, America’s poor. The soldiers who are baking in Iraq’s desert sun are not the children of the rich. Only one of all the representatives in the House of Representatives and the Senate has a child fighting in Iraq. America’s “volunteer” army in fact depends on a poverty draft of poor whites, Blacks, Latinos, and Asians looking for a way to earn a living and get an education. Federal statistics show that African Americans make up 21 percent of the total armed forces and 29 percent of the U.S. army. They count for only 12 percent of the general population. It’s ironic, isn’t it – the disproportionately high representation of African Americans in the army and prison? Perhaps we should take a positive view, and look at this as affirmative action at its most effective. Nearly 4 million Americans (2 percent of the population) have lost the right to vote because of felony convictions. Of that number, 1.4 million are African Americans, which means that 13 percent of all voting-age Black people have been disenfranchised.

For African Americans there’s also affirmative action in death. A study by the economist Amartya Sen shows that African Americans as a group have a lower life expectancy than people born in China, in the Indian State of Kerala (where I come from), Sri Lanka, or Costa Rica. Bangladeshi men have a better chance of making it to the age of forty than African American men from here in Harlem.

This year, on what would have been Dr. Martin Luther King, Jr.’s 74th birthday, President Bush denounced the University of Michigan’s affirmative action program favouring Blacks and Latinos. He called it “divisive,” “unfair,” and “unconstitutional.” The successful effort to keep Blacks off the voting rolls in the State of Florida in order that George Bush be elected was of course neither unfair nor unconstitutional. I don’t suppose affirmative action for White Boys From Yale ever is.

So we know who’s paying for the war. We know who’s fighting it. But who will benefit from it? Who is homing in on the reconstruction contracts estimated to be worth up to one hundred billon dollars? Could it be America’s poor and unemployed and sick? Could it be America’s single mothers? Or America’s Black and Latino minorities?

Operation Iraqi Freedom, George Bush assures us, is about returning Iraqi oil to the Iraqi people. That is, returning Iraqi oil to the Iraqi people via Corporate Multinationals. Like Bechtel, like Chevron, like Halliburton.

Once again, it is a small, tight circle that connects corporate, military, and government leadership to one another. The promiscuousness, the cross-pollination is outrageous.

Consider this: the Defense Policy Board is a government-appointed group that advises the Pentagon. Its members are appointed by the under secretary of defense and approved by Donald Rumsfeld. Its meetings are classified. No information is available for public scrutiny.

The Washington-based Center for Public Integrity found that 9 out of the 30 members of the Defense Policy Board are connected to companies that were awarded defense contracts worth 76 billion dollars between the years 2001 and 2002. One of them, Jack Sheehan, a retired Marine Corps general, is a senior vice president at Bechtel, the giant international engineering outfit. Riley Bechtel, the company chairman, is on the President’s Export Council. Former Secretary of State George Shultz, who is also on the Board of Directors of the Bechtel Group, is the chairman of the advisory board of the Committee for the Liberation of Iraq. When asked by the New York Times whether he was concerned about the appearance of a conflict of interest, he said, “I don’t know that Bechtel would particularly benefit from it. But if there’s work to be done, Bechtel is the type of company that could do it.”

Bechtel has been awarded a 680 million dollar reconstruction contract in Iraq. According to the Center for Responsive Politics, Bechtel contributed hundreds of thousands of dollars to Republican campaign efforts.

Arcing across this subterfuge, dwarfing it by the sheer magnitude of its malevolence, is America’s anti-terrorism legislation. The U.S.A. Patriot Act, passed in October 2001, has become the blueprint for similar anti-terrorism bills in countries across the world. It was passed in the House of Representatives by a majority vote of 337 to 79. According to the New York Times, “Many lawmakers said it had been impossible to truly debate or even read the legislation.”

The Patriot Act ushers in an era of systemic automated surveillance. It gives the government the authority to monitor phones and computers and spy on people in ways that would have seemed completely unacceptable a few years ago. It gives the FBI the power to seize all of the circulation, purchasing, and other records of library users and bookstore customers on the suspicion that they are part of a terrorist network. It blurs the boundaries between speech and criminal activity creating the space to construe acts of civil disobedience as violating the law.

Already hundreds of people are being held indefinitely as “unlawful combatants.” (In India, the number is in the thousands. In Israel, 5,000 Palestinians are now being detained.) Non-citizens, of course, have no rights at all. They can simply be “disappeared” like the people of Chile under Washington’s old ally, General Pinochet. More than 1,000 people, many of them Muslim or of Middle Eastern origin, have been detained, some without access to legal representatives.

Apart from paying the actual economic costs of war, American people are paying for these wars of “liberation” with their own freedoms. For the ordinary American, the price of “New Democracy” in other countries is the death of real democracy at home.

Meanwhile, Iraq is being groomed for “liberation.” (Or did they mean “liberalization” all along?) The Wall Street Journal reports that “the Bush administration has drafted sweeping plans to remake Iraq’s economy in the U.S. image.”

Iraq’s constitution is being redrafted. Its trade laws, tax laws, and intellectual property laws rewritten in order to turn it into an American-style capitalist economy.

The United States Agency for International Development has invited U.S. companies to bid for contracts that range between road building, water systems, text book distribution, and cell phone networks.

Soon after Bush the Second announced that he wanted American farmers to feed the world, Dan Amstutz, a former senior executive of Cargill, the biggest grain exporter in the world, was put in charge of agricultural reconstruction in Iraq. Kevin Watkins, Oxfam’s policy director, said, “Putting Dan Amstutz in charge of agricultural reconstruction in Iraq is like putting Saddam Hussein in the chair of a human rights commission.”

The two men who have been short-listed to run operations for managing Iraqi oil have worked with Shell, BP, and Fluor. Fluor is embroiled in a lawsuit by black South African workers who have accused the company of exploiting and brutalizing them during the apartheid era. Shell, of course, is well known for its devastation of the Ogoni tribal lands in Nigeria.

Tom Brokaw (one of America’s best-known TV anchors) was inadvertently succinct about the process. “One of the things we don’t want to do,” he said, “is to destroy the infrastructure of Iraq because in a few days we’re going to own that country.”

Now that the ownership deeds are being settled, Iraq is ready for New Democracy.

So, as Lenin used to ask: What Is To Be Done?

Well…

We might as well accept the fact that there is no conventional military force that can successfully challenge the American war machine. Terrorist strikes only give the U.S. Government an opportunity that it is eagerly awaiting to further tighten its stranglehold. Within days of an attack you can bet that Patriot II would be passed. To argue against U.S. military aggression by saying that it will increase the possibilities of terrorist strikes is futile. It’s like threatening Brer Rabbit that you’ll throw him into the bramble bush. Any one who has read the documents written by The Project for the New American Century can attest to that. The government’s suppression of the Congressional committee report on September 11th, which found that there was intelligence warning of the strikes that was ignored, also attests to the fact that, for all their posturing, the terrorists and the Bush regime might as well be working as a team. They both hold people responsible for the actions of their governments. They both believe in the doctrine of collective guilt and collective punishment. Their actions benefit each other greatly.

The U.S. government has already displayed in no uncertain terms the range and extent of its capability for paranoid aggression. In human psychology, paranoid aggression is usually an indicator of nervous insecurity. It could be argued that it’s no different in the case of the psychology of nations. Empire is paranoid because it has a soft underbelly.

Its “homeland” may be defended by border patrols and nuclear weapons, but its economy is strung out across the globe. Its economic outposts are exposed and vulnerable. Already the Internet is buzzing with elaborate lists of American and British government products and companies that should be boycotted. Apart from the usual targets – Coke, Pepsi, McDonalds – government agencies like USAID, the British DFID, British and American banks, Arthur Andersen, Merrill Lynch, and American Express could find themselves under siege. These lists are being honed and refined by activists across the world. They could become a practical guide that directs the amorphous but growing fury in the world. Suddenly, the “inevitability” of the project of Corporate Globalization is beginning to seem more than a little evitable.

It would be naïve to imagine that we can directly confront Empire. Our strategy must be to isolate Empire’s working parts and disable them one by one. No target is too small. No victory too insignificant. We could reverse the idea of the economic sanctions imposed on poor countries by Empire and its Allies. We could impose a regime of Peoples’ Sanctions on every corporate house that has been awarded with a contract in postwar Iraq, just as activists in this country and around the world targeted institutions of apartheid. Each one of them should be named, exposed, and boycotted. Forced out of business. That could be our response to the Shock and Awe campaign. It would be a great beginning.

Another urgent challenge is to expose the corporate media for the boardroom bulletin that it really is. We need to create a universe of alternative information. We need to support independent media like Democracy Now!, Alternative Radio, and South End Press.

The battle to reclaim democracy is going to be a difficult one. Our freedoms were not granted to us by any governments. They were wrested from them by us. And once we surrender them, the battle to retrieve them is called a revolution. It is a battle that must range across continents and countries. It must not acknowledge national boundaries but, if it is to succeed, it has to begin here. In America. The only institution more powerful than the U.S. government is American civil society. The rest of us are subjects of slave nations. We are by no means powerless, but you have the power of proximity. You have access to the Imperial Palace and the Emperor’s chambers. Empire’s conquests are being carried out in your name, and you have the right to refuse. You could refuse to fight. Refuse to move those missiles from the warehouse to the dock. Refuse to wave that flag. Refuse the victory parade.

You have a rich tradition of resistance. You need only read Howard Zinn’s A People’s History of the United States to remind yourself of this.

Hundreds of thousands of you have survived the relentless propaganda you have been subjected to, and are actively fighting your own government. In the ultra-patriotic climate that prevails in the United States, that’s as brave as any Iraqi or Afghan or Palestinian fighting for his or her homeland.

If you join the battle, not in your hundreds of thousands, but in your millions, you will be greeted joyously by the rest of the world. And you will see how beautiful it is to be gentle instead of brutal, safe instead of scared. Befriended instead of isolated. Loved instead of hated.

I hate to disagree with your president. Yours is by no means a great nation. But you could be a great people.

History is giving you the chance.

Seize the time.

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ARUNDATHI ROY

WATCH ON VIMEO (INCLUDES DEBATE WITH HOWARD ZINN)

Sobre segurança e terror – por Giorgio Agamben

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II Ato Contra a Copa em São Paulo é cercado pela PM (23/02/2014)

Sobre segurança e terror
de Giorgio Agamben

Segurança é o princípio básico das políticas estatais desde o nascimento do estado moderno. Hobbes já a mencionava como o oposto do medo, que compele seres humanos a se juntarem na formação de uma sociedade. Mas o pensamento da segurança (1) não se desenvolve completamente até o século XVIII. Em uma conferência ainda não publicada, proferida no Collège de France em 1978, Michel Foucault mostrou como as práticas políticas e econômicas dos fisiocratas opõe a segurança à disciplina e à lei como instrumentos de governo.

Turgot e Quesnay, assim como os oficiais fisiocratas, não estavam primariamente preocupados com a prevenção da fome ou a regulação da produção, mas queriam permitir seu desenvolvimento para então governar e “assegurar” suas consequências. Enquanto o poder disciplinar isola e encerra territórios, medidas de segurança conduzem a uma abertura e à globalização; enquanto a lei tem por objetivo prevenir e ordenar, segurança quer intervir nos processos em curso para dirigi-los. Em suma, disciplina visa produzir ordem, segurança almeja governar a desordem. Como medidas de segurança só podem funcionar inseridas em um contexto de liberdade de tráfego, comércio e iniciativa individual, Foucault demonstrou que desenvolvimento da segurança e desenvolvimento do liberalismo coincidem.

September_17_2001

Setembro de 2001, Manhattan

Hoje estamos enfrentando desenvolvimentos extremos e muito perigosos no pensamento da segurança. No curso de uma gradual neutralização de políticas e do progressivo abandono das tarefas tradicionais do estado, a segurança se torna o princípio básico de atividade estatal. O que costumava ser um amontoado de várias medidas decisivas de administração pública até a primeira metade do século XX, agora se torna o único critério de legitimação política. O pensamento da segurança acarreta um risco essencial. Um estado que tem a segurança por sua única tarefa e fonte de legitimidade é um organismo frágil; pode sempre ser levado pelo terrorismo a tornar-se, ele próprio, terrorista.

Não deveríamos esquecer que a maior organização terrorista pós-guerra, a Organisation de l’Armèe Secréte (OAS), foi estabelecida por um general francês, que se considerava um patriota e estava convencido de que o terrorismo era a única resposta ao fenômeno de guerrilha na Algéria e na Indochina. Quando política, à maneira como era entendida pelos teóricos da “ciência policial” (Polizeiwissenschaft) no século XVIII, reduz-se à polícia, a diferença entre estado e terrorismo tende a desaparecer. No final, segurança e terrorismo podem formar um único sistema mortífero, no qual eles justificam e legitimam as ações um do outro.

O risco não é meramente o do desenvolvimento de uma cumplicidade clandestina de opositores, mas o de que a obsessão por segurança conduza a uma guerra civil mundial que tornaria impossível qualquer coexistência civil. Na nova situação criada pelo fim da forma clássica de guerra entre estados soberanos, percebe-se claramente que segurança encontra seu desfecho na globalização: isso implica a ideia de uma nova ordem planetária, que é, na verdade, a pior de todas as desordens. Mas há outra ameaça. Uma vez que requerem constante referência a um estado de exceção, medidas de segurança realizam uma crescente despolitização da sociedade. A longo prazo, elas são inconciliáveis com a democracia.

Nada é mais importante que uma revisão do conceito de segurança como princípio básico das políticas estatais. Políticos europeus e americanos finalmente têm levado em consideração as consequências catastróficas de um uso generalizado e acrítico dessa imagem de pensamento. Não que as democracias devam deixar de se defender: mas talvez tenha chegado o tempo de trabalhar no sentido de prevenção de desordens e catástrofes, não simplesmente no sentido de contê-las. Hoje em dia existem planos para todos os tipos de emergências (ecológicas, médicas, militares), mas não há políticas para preveni-las. Ao contrário, podemos dizer que as políticas secretamente são responsáveis pela produção de emergências. É dever das políticas democráticas impedir o desenvolvimento de condições que resultem em ódio, terror e destruição, e não se limitarem a controlá-los, quando se fazem presentes.

Tradução: Arlandson Matheus Oliveira
(Leia em inglês)

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Manifestante na Espanha e as forças de “segurança”

V_ato_SP_14abr2014

V Ato Contra a Copa em São Paulo, 14 de Abril de 2014

POST SCRIPTUM FOUCAULTIANO

foucault“O atestado de que a prisão fracassa em reduzir os crimes deve talvez ser substituído pela hipótese de que a prisão conseguiu muito bem produzir a delinqüência, tipo especificado, forma política ou economicamente menos perigosa — talvez até utilizável — de ilegalidade; produzir os delinqüentes, meio aparentemente marginalizado mas centralmente controlado; produzir o delinqüente como sujeito patologizado. O sucesso da prisão: nas lutas em torno da lei e das ilegalidades, especificar uma “delinqüência”. Vimos como o sistema carcerário substituiu o infrator pelo “delinqüente”. E afixou também sobre a prática jurídica todo um horizonte de conhecimento possível. Ora, esse processo de constituição da delinqüência-objeto se une à operação política que dissocia as ilegalidades e delas isola a delinqüência. A prisão é o elo desses dois mecanismos; permite-lhes se reforçarem perpetuamente um ao outro, objetivar a delinqüência por trás da infração, consolidar a delinqüência no movimento das ilegalidades. O sucesso é tal que, depois de um século e meio de “fracasso”, a prisão continua a existir, produzindo os mesmos efeitos e que se têm os maiores escrúpulos em derrubá-la.” – MICHEL FOUCAULT. Vigiar e punir – nascimento da prisão. Trad.: Raquel Ramalhete. 20a. ed. Petrópolis: Vozes, 1987. IV Parte: Prisão, II Capítulo: Ilegalidade e delinquência, pp. 230-231.

NOTA DO TRADUTOR

1) Na tradução pro alemão, do Achim Bahnen, lemos “Sicherheitsdenkens”, literalmente “thought of security”, pensamento da segurança. Acho o termo “dispositivo” mais adequado.

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