:: Mesmo Que o Céu Não Exista (pt 2) ::

Um dos mais ilusórios e danosos preconceitos que muitas pessoas religiosas nutrem é acreditar que a “bondade” só existe como decorrência da fé. Na vida cotidiana não é raro depararmos com pessoas que sustentam que haveria uma indissociabilidade entre “comportamento ético” e religiosidade. Assim reza seu credo: “É impossível ser bom e não crer em Deus ao mesmo tempo”. A crença seria, nesta visão, aquilo que salva a moral de desmoronar na ineficácia, aquilo sem o quê os atos morais careceriam de motivação. A ausência da fé, prossegue este argumento, conduziria ao “caos moral”, ao niilismo, à perversidade, ao “tudo é permitido” de que fala Karamazov…

As raízes históricas desta noção são muito antigas: como nos lembra Étienne Gilson, a palavra “libertino”, celebrizada no século XVII, referia-se àqueles que, após deixarem de lado a noção de um “Juiz supremo, remunerador e vingador”, tornavam-se “débauchés” (palavra francesa que designa devassos, perversos, “sem-vergonha”)[1]. A tese de que o abandono da religião equivale à “queda” na mais completa perversão moral é uma recorrente “paranóia” dos devotos que os ateus de hoje ainda penam para desfazer. Trata-se de mostrar que nem todo ateu torna-se um Marquês de Sade, do mesmo modo que nem todo crente é um Santo Agostinho.

Onfray: “Persiste a velha idéia do ateu imoral, amoral, sem fé nem lei ética. O lugar-comum segundo o qual ‘se Deus não existe, então tudo é permitido’ continua produzindo efeitos, e de fato a morte, o ódio e a miséria são associados a indivíduos que invocariam a ausência de Deus para cometer seus crimes. Essa tese equivocada merece ser bem e devidamente desmontada. Pois o inverso me parece bem mais verdadeiro: ‘Porque Deus existe, então tudo é permitido…[2]

Contra esta noção que vê a moral como dependente da religião há numerosas críticas, presentes até mesmo em autores como Kant, que afirmava a necessidade de uma moral autônoma e sustentava que qualquer ato realizado por esperança ou temor não tinha valor moral (pois aí o interesse próprio falava mais alto que o respeito ao dever). O filósofo de Königsberg sugere que imaginemos a hipótese de que a existência de Deus seja comprovada, deixando de ser uma questão de fé para tornar-se uma certeza inabalável, uma evidência indubitável para todos os humanos. Quais seriam as consequências disso?

“Deus e a eternidade, com sua majestade temível, estariam sem cessar diante de nossos olhos”, pontua Kant. “A transgressão da lei seria sem dúvida evitada, o que é ordenado seria cumprido; mas (…) a maioria das ações conformes à lei seria produzida pelo temor, somente algumas pela esperança e nenhuma por dever, e o valor moral das ações… não existiria mais.” [3]

É o que André Comte-Sponville pontua, por sua vez, que:

as ideias de recompensa e de castigo, de esperança e de temor, são radicalmente alheias à moral e, se absolutizadas, pervertem-na necessariamente. (…) Agir moralmente é agir de forma desinteressada, mostra Kant, o que supõe que cumpramos com nosso dever ‘sem nada esperar por isso’. Aplaudo enfaticamente.[4]

Outro filósofo com um ideário semelhante, e com quem Nietzsche  estabeleu um intenso diálogo, é Schopenhauer. Este sugere que “vemos a religião em sua agonia de morte agarrar-se à moralidade, querendo fingir que é sua mãe; mas isto não corresponde à verdade! A moral genuína não é dependente de nenhuma religião, apesar de toda religião as sancionar e oferecer-lhes suporte”. Schopenhauer sugere, fiel à crítica de Lucrécio e Spinoza às superstições, que “religiões são a prole da ignorância e não sobrevivem por muito tempo à morte de sua mãe”, sugerindo que a progressiva aquisição de conhecimento e sabedoria iria fazer com que “a humanidade superasse a religião como alguém que cresce e não cabe mais nas roupas da infância” [5].

A presença desta crítica de uma moralidade baseada em ameaças de punição e promessas de recompensa (aliás muito assemelhada às modernas técnicas behavioristas de controle comportamental estudadas por B.F. Skinner), é fortíssima no cenário contemporâneo. A crítica à noção de que os religiosos possuiriam o “monopólio do coração”, para usar uma expressão de Sponville, está presente no discurso de artistas (tais como Woody Allen), líderes políticos (Fidel Castro), intelectuais-ativistas (como Peter Singer) e cientistas (como o filósofo-darwinista Daniel Dennett):


Em entrevista à Eric Lax, comentando sobre seus filmes Crimes e PecadosMatch Point, o cineasta americano comentou: “Para mim, é uma grande vergonha o universo não ter nenhum Deus ou nenhum sentido, e no entanto só quando se admite isso é que se pode levar o que as pessoas chamam de uma vida cristã – isto é, uma vida moral decente. Você só leva uma vida assim se, para começar, admite o que tem diante de si e joga fora toda a casca de conto de fadas que leva a pessoa a fazer escolhas na vida não por razões morais, mas para marcar pontos no pós-vida” (LAX, Eric. Conversas com Woody Allen. Ed. Cosac e Naify).

Em entrevista à Frei Betto, em Fidel e a Religião, o líder da Revolução Cubana de 1959 diz: “a meu ver, não é inteiramente generoso, nem totalmente digno, nem merece elogio, admiração ou estima o que é feito por medo ao castigo ou em busca de um prêmio” . Criticando a educação religiosa que recebeu em sua infância, Castro aponta ainda que “dava-se muito mais ênfase ao castigo”: “Penso que essa é uma forma negativa e um método incorreto de desenvolver qualquer tipo de convicção profunda no ser humano” . (Ed. Brasiliense, 1985, p. 133)

Em sua obra Practical Ethics, Singer escreve: “religion was tought to provide a reason for doing what is right, the reason being that those who are virtuous will be rewarded by an eternity of bliss while the rest roast in hell. (…) Not all religious thinkers have accepted this argument: Kant, a most pious Christian, scorned anything that smacked of a self-interested motive for obeying the moral law. (…) Our everyday observation of our fellow human beings clearly shows that ethical behaviour does not require belief in heaven and hell.” (SINGER. Cambrigde Press, p. 4).

Todos eles concordam, portanto, que a religião não pode ser tida, de modo algum, como condição sine qua non da moralidade, o que se coaduna perfeitamente com a crítica nieztschiana da moral judaico-cristã e da “centralidade”, nesta, da noção de culpa e castigo:

Nietzsche  conclama-nos a “afastar do mundo o conceito de castigo, que se alastrou sufocando o mundo inteiro! Não há pior erva daninha! (…) Despojaram a pura contingência do acontecer de sua inocência com essa infame arte de interpretação do conceito de castigo. Sim, levaram tão longe o desatino, a ponto de mandar sentir a própria existência como castigo – é como se as fantasias de carcereiros e verdugos tivessem guiados, até agora, a educação do gênero humano!” (Aurora, §13).

 

SOLDADOS DE DEUS


Os cadernos jornalísticos de política internacional com frequência trazem como protagonistas grupos como Hamas, Hezbollah, Al-Qaeda, Taleban, IRA, ETA etc. Com preocupante recorrência, somos informados de ocorrências sangrentas envolvendo homens-bomba, kamikazes e “soldados de Deus” em jihads. Noticiam-se guerras civis entre sunitas e xiitas em países islâmicos, protestantes e católicos na Irlanda do Norte ou muçulmanos e judeus em Israel. Nas últimas décadas, inúmeros conflitos estouraram que possuem inegavelmente entre suas causas desentendimentos e sectarismos religiosos (guerra civil no Líbano, guerra Irã-Iraque, sem falar nos inúmeros conflitos na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, no Afeganistão, em Sarajevo ou no Kosovo). E como deixar de citar que, no alvorecer do século 21, aviões sequestrados por terroristas suicidas afegãos causaram catástrofes em Nova York e Washington? E como esquecer as posteriores catástrofes em Madri, na Inglaterra e nos EUA decorrentes da chamada “Guerra ao Terror”?

Lembremos ainda que o direito à liberdade de expressão é muitas vezes atacado por autoridades religiosas, como no caso do romancista indiano Salman Rushdie, que foi condenado à morte pelo aiatolá Khomeini do Irã em 1989 por ter publicado um livro (Os Versículos Satânicos) considerado “herético” pela ortodoxia muçulmana. Ou no caso do cartunista dinamaquês Kurt Westergaard que, após publicar uma série retratando o profeta Maomé, foi vítima de uma série de tentativas de homicídio por parte de extremistas islâmicos.

Os mais variados domínios da atividade humana, desde a sexualidade até a pesquisa científica, são diretamente afetados por fanatismos religiosos, que muitas vezes são fatores impeditivos na conquista de direitos civis democráticos por parte de minorias vítimas de preconceito. É só lembrar a insistência do Vaticano em considerar o uso de preservativos um pecado, manifestar-se contrário às pesquisas com células-tronco ou colocar-se absolutamente contrário à união civil de pessoas do mesmo sexo.

Citemos ainda que cristãos norte-americanos em protesto contra clínicas de aborto, declarando-se militantes do movimento “Pro-Life”, já mostraram-se bastante violentos e mortíferos; um dos mais exaltados, o reverendo Paul Hill (vinculado ao Army Of God), assassinou um médico, sendo depois condenado à morte por injeção letal pela Justiça Americana em 2003. Além disso, uma avalanche de denúncias de pedofilia foram registradas nos últimos anos contra padres católicos num escândalo em escala mundial.

Tudo isto aponta para uma “avalanche religiosa que inunda as sociedades contemporâneas”, como aponta Marilena Chauí, e que demonstra a “força do apelo religioso para, nos dias de hoje, mobilizar política e militarmente milhões de pessoas em todo o planeta”[06]. Neste contexto de “acerbamento” de fundamentalismos e fanatismos, os pensadores do “movimento” ateu contemporâneo (Sponville, Onfray, Conche…) representam uma força crítica que procura tanto denunciar os crimes cometidos em nome de religiões, quanto sugerir uma outra fundamentação para a ética que, nos moldes nieztschianos, não faça apelo ao sobre-natural e ao divino.

Eles “fluem” na mesma direção: na fundamentação filosófica de um ateísmo intensamente preocupado com as questões da ética, da “boa vida” e da organização política racional. Parece-nos que estes autores, apesar das diferenças que possuem, são todos herdeiros de uma “tarefa” que Nietzsche buscou realizar, ao mesmo tempo que a legava aos “espíritos livres” do futuro: a tarefa de, após a “demolição” do edifício do cristianismo e da moral judaico-cristã, edificar em seu lugar um novo sistema de valores que preze pela autonomia em relação à fé e pela “fidelidade” à realidade terrestre.

Na aurora do novo século, se o obscurantismo não deixa de ter seus asseclas, “soldados de deus” armados de metralhadoras, bombas e sonhos, a oposição a isto também está em franca (e necessária!) ascendência, com inúmeros pensadores engajados numa espécie de “militância filosófica” em prol da vitória do ateísmo e de uma ética irreligiosa sobre todo tipo de fundamentalismo, dogmatismo, sectarismo e fanatismo.


[1] GILSON, É. L’Athéisme Difficile. Paris: Presses Universitaires, 1979, p. 19.
[2]
ONFRAY, op. cit., p.29.
[3]
KANT. Crítica da Razão Prática. Dialética, II, 9, pp. 156-7 da edição francesa.
[4]
COMTE-SPONVILLE. O Espírito do Ateísmo. P. 96.
[5] SCHOPENHAUER. Parerga and Paliponema. Capítulo 15. §181. Tradução nossa.
[6] CHAUÍ, Marilena. “O Retorno do Teológico Político”. 2004.