As eleições no Brasil parecem um episódio de Black Mirror – e o documentário “Trumping Democracy” explica porquê

por Eduardo Carli de Moraes
para A Casa de Vidro

Um documentário sobre as Eleições no Brasil em 2018 poderia ficar muito parecido com um assustador episódio de Black Mirror, uma das melhores séries televisivas do século 21​. As mulheres, que se levantaram aos milhões para dizerem em alto e bom som que #EleNão, também sabem a ameaça que pende sobre nossas cabeças de virarmos algo similar à teocracia militarizada de Gilead na também excelente The Handmaid’s Tale. Nossa realidade é pura distopia.

É mesmo chocante: foram quase 50 milhões de votos para Bolsonaro no 1º turno das eleições presidenciais no Brasil, e isto só se explica a contento se incluirmos em nossa análise de conjuntura estas novidades históricas: a viralização de fake news, a “memetização” da política, o poderio de mega-empresas da comunicação digitalizada, além da completa falta de escrúpulos éticos e senso de responsabilidade que se manifesta em campanhas como a de Trump e como a do Partido Social Liberal (PSL)​ entre nós.

É a Pós-Verdade turbinada com doses cavalares de testosterona. É a elefantíase do Princípio Pinóquio. É a mentira deslavada transformada em mercadoria digital a se propagar em prol dos fins mais espúrios.

Foi assim que um partido nanico de repente se agigantou, elegendo a maior bancada de extrema-direita da história da Câmara: em 2014, o PSL possuía apenas um deputado federal, em 2018 saltou para 52; ele terá uma bancada que só será menor do que aquela do PT – Partido dos Trabalhadores​, que elegeu 56 (fonte: IG – https://bit.ly/2E7eKdC).

Se, em outros tempos, poderíamos apelar para grandes obras da Psicologia de Massas, como as Wilhelm Reich​, Stanley Milgram​ ou Erich Fromm​, para desvendar como o fascismo pode tornar-se disseminado em uma sociedade, em nossos tempos precisamos somar a isso e focar em outro elemento-chave de explicação: a Internet como território onde proliferam, muitas vezes de modo ingovernável, os boatos, as calúnias, as difamações, os assassinatos de reputação. E onde também se exploram os afetos dos cidadãos, seus medos, suas esperanças, seus ímpetos agressivos, suas ansiedades, suas frustrações – é o Circuito dos Afetos que Vladimir Safatle tão bem tem explorado em suas obras.

Ao invés de debate público autêntico sobre propostas para o país, o que vimos, vindo da Direita do espectro político, foi um show de horrores: memes agressivos, odientos, preconceituosos, sendo replicados como células de câncer.

Na véspera da eleição, nos grupos de Whatsapp, não faltavam memes comparando petistas a ratos, convocando eleitores Bolsonaristas a irem às urnas como quem vai ao extermínio das pragas munidos de inseticidas. Cheira a nazifascismo?

Também não faltou baixeza contra Manuela D’Ávila​ e Fernando Haddad​, vítimas de uma enxurrada de mentiras propagadas por um eleitorado que gosta de fazer pose de “Cidadão-de-Bem”, mas que na prática age como um cão raivoso – e mentiroso. Eleitores que acreditam no “vale-tudo” para vencer a candidatura lulopetista. O grau de respeito pela democracia demonstrado pelo eleitorado de Bolsonaro de fato faz pensar em espectadores da UFC urrando diante de ossos fraturados.

O documentário Trumping Democracy​, dirigido por Thomas Huchon, em cartaz no Canal Curta​, é essencial para incrementar nossa compreensão do processo eleitoral no Brasil e das estratégias que a extrema-direita está usando (e que, infelizmente, estão funcionando). Pois Bolsonaro é um fenômeno que só pode ser compreendido através de uma analogia com a eleição de Trump nos EUA: em ambos os casos, as campanhas investiram centenas de milhões em uma estratégia de grotesca desinformação e manipulação dos eleitores. Embarcaram de cabeça no clima da “Pós-Verdade” e abandonaram qualquer escrúpulo de “fair play”.

Vivemos em um contexto tecnológico em que as mídias sociais exercem um impacto sem precedentes nos processos eleitorais, rivalizando com as empresas midiáticas tradicionais: hoje, as rádios, as TVs e os jornais não possuem mais o predomínio sobre as consciências que já tiveram em processos eleitorais anteriores. Hoje, não se compreende uma eleição sem abordar o peso que nela têm empresas como o Facebook (dono do Instagram e do Whatsapp) e o Google.

O filme, traduzido no Brasil como “Driblando a Democracia”, revela que o triunfo de Trump envolveu estratégias encabeçadas pelos bilionários Robert Mercer e Steve Bannon, duas figuras favoráveis ao programa do Partido Republicano e que ajudaram a eleger o atual ocupante da Casa Branca. No Reino Unido, o plebiscito Brexit, que culminou com a separação do país da União Européia, envolveu as mesmas táticas. Já foi revelado que a campanha Bolsonaro vem pagando Bannon para aplicar por aqui a Tática Trump.

Funciona mais ou menos assim: empresas como a Cambridge Analytica pagam para bancos, empresas de cartão de crédito e corporações da informática para terem acesso a uma montanha imensa dos nossos dados (o que é conhecido como Big Data).

Tudo que fazemos na Web, nossos cliques, nossos likes, nossos compartilhamentos, nossas compras, nossos comentários, nossas visitas a sites, nosso tempo de navegação, tudo isso deixa “pegadas” digitais que são muito úteis àqueles que desejam nos usar de marionetes. Soma-se a isso o fenômeno dos “dark posts”, publicações dirigidas a pessoas específicas, que logo desaparecem do feed de notícias, e que não deixam rastros – de modo que, em caso de mentira ou assassinato de reputação, o responsável pela disseminação do fake, ao invés de penalizado por cometer crime eleitoral, fica impune. No caso, mega-corporações ficam impunes de todo tipo de manipulação viciosa e ilegítima do processo eleitoral.

A campanha de Trump não teria sido bem-sucedida se tivesse simplesmente mentido. Além de mentir, é preciso que a mentira seja eficaz, ou seja, que convença uma fatia considerável do eleitorado. Os Bolsonaristas, sob os auspícios do mesmo Steve Bannon que alçou Trump ao poder, aplicam por aqui a mesma tática, adicionando pitadas extras de crueldade e sadismo. Cidadãos que se informam sobretudo pelo Whatsapp estão sendo literalmente afogados debaixo de uma avalanche de fake news e de memes manipulatórios, que buscam criar um clima de furioso anti-petismo e de apoio acéfalo ao projeto direitista, autoritário, trucidador de direitos sociais, de Bolsonaro, Mourão, Guedes e o resto da trupe.

Chegamos a um impasse histórico que não estava previsto pelas visões mais róseas e utópicas da Rede Mundial de Computadores, como a Aldeia Global de McLuhan. Hoje, a Internet está sendo usada para passar a perna na democracia, dentro da pequena área, e o juiz está fingindo que não vê nada – e não apita o pênalti. No Brasil, os inúmeros crimes eleitorais cometidos pela campanha Bolsonarista – que parece não só se enxergar como portadora do direito de mentir, ofender, agredir, mas que inclui a inaceitável apologia ao genocídio dos adversários no pleito (“vamos fuzilar essa petralhada!”) – estão passando impunes diante de uma Justiça acovardada, submissa, quando não cúmplice dos abusos.

Sobre o tema, Rafael Azzi​ escreveu um texto fundamental, que vale a pena ser lido e propagado: “Sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada.” (Leia aqui: https://bit.ly/2pMW1Kl, ou no fim deste post).

Na verdade, a manipulação Trumpista e Bolsonarista, que se apropria dos ensinamentos da propaganda nazista e stalinista, coloca o totalitarismo em um novo patamar. Agora, trata-se de viralizar a mentira grotesca de que o “mito” Bolsonaro é um cidadão-de-bem que vai salvar o Brasil da peste bubônica (o petismo).

Resta por compreender – e a psicologia old scholl segue nisso inestimável – como é possível tamanho grau de credulidade e subserviência de parte do eleitorado diante de uma figura como Bolsonaro, que não cessou de manifestar sua psicopatia e seu sadismo em uma inacreditável série de discursos e práticas que revelam tudo o que de mais execrável pode animar um ser humano: o racismo, o machismo, a homofobia, a mentalidade escravocrata e colonialista, a subserviência entreguista aos interesses imperialistas, o desrespeito completo às diferenças humanas, a falta de qualquer projeto concreto de justiça social e solidariedade, a aposta na truculência armamentista, a crassa ignorância sobre assuntos econômicos e políticos, para não falar da mais lamentável de todas as suas características: tratar torturadores como heróis e elogiar um regime político ilegítimo, cruel e homicida, nascido com o golpe de Estado de 1964, e que afundou este país em mais de 20 anos de trevas e sangue. Diante das pessoas que buscavam os ossos dos seus entes queridos, sequestrados pela ditadura, torturados no pau-de-arara, mortos no DOPS ou no DOI-CODI, desaparecidos para sempre, Bolsonaro disse: “quem procura osso é cachorro”.

O Brasil dará um tiro na própria cabeça e cometerá um atentado suicida contra seu próprio futuro ao eleger uma figura que representa tão boçal desumanidade. Que tenhamos a sensatez e a sabedoria de combater o fascismo nas urnas, nas ruas, nas redes, nas escolas. Pois o preço de barbárie que já estamos pagando pela atual ascensão da extrema-direita já é altíssimo.

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A Casa de Vidro​http://www.acasadevidro.com

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ASSISTA: TRUMPING DEMOCRACY

SINOPSE – This explosive documentary follows the money to the elusive multi-billionaire Robert Mercer who bought Breitbart News and funded the effort, while inserting Steve Bannon into the presidential campaign as its manager. Using data of millions of Americans acquired from Facebook, Google, banks, credit companies, social security and more, another Mercer company, Cambridge Analytica, used tactics honed during the UK’s Brexit campaign to identify voters deemed “most neurotic or worried,” whom they believed could swing for Trump. In the days before the election, using a little-known Facebook feature, “dark posts”, they deployed highly manipulative and personalized messages, that could be seen only by the user before disappearing. In the darkness of the web, democracy was trumped by data.

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SUA TIA NÃO É FASCISTA, ELA ESTÁ SENDO MANIPULADA

Você se pergunta como um candidato com tão poucas qualidades e com tantos defeitos pode conseguir o apoio quase que incondicional de grande parte da população?

Você já tentou argumentar racionalmente com os eleitores deles, mas parece que eles estão absolutamente decididos e te tratam imediatamente como inimigo no mais leve aceno de contrariedade?

Até sua tia, que sempre foi fofa com você, agora ataca seus posts sobre política no facebook?

Pois bem, vou contar uma história.

O principal nome dessa história é um sujeito chamado Steve Bannon. Bannon tinha uma visão de extrema direita nacionalista. Ele tinha um site no qual expressava seus pontos de vista que flertavam com o machismo, com a homofobia, com a xenofobia, etc. Porém, o site tinha pouca visibilidade e seu sonho era que suas ideias se espalhassem com mais força no mundo.

Para isso, Bannon contratou uma empresa chamada Cambridge Analytica. Essa empresa conseguiu dados do facebook de milhões de contas de perfis por todo mundo. Todo tipo de dado acumulado pelo facebook: curtidas, comentários, mensagens privadas. De posse desses dados e utilizando algoritmos, essa empresa poderia traçar perfis psicológicos detalhados dos indivíduos.

Tais perfis seriam então utilizados para verificar quais indivíduos estariam mais predispostos a receber as mensagens: aqueles com disposição de acreditar em teorias conspiratórias sobre o governo, por exemplo, ou que apresentavam algum sentimento de contrariedade difuso ao cenário político atual.

A estratégia seria fazer com que esse indivíduo suscetível a essas mensagens mudasse seu comportamento, se radicalizasse. Como as pessoas passaram a receber as notícias e a perceber o mundo principalmente através das redes sociais, não é difícil manipular essas informações. Se você pode controlar as informações a que uma pessoa tem acesso, você pode controlar a maneira com que ela percebe o mundo e, com isso, pode influenciar a maneira como se comporta e age.

Posts no facebook podem te fazer mais feliz ou triste, com raiva ou com medo. E os algoritmos sabem identificar as mudanças no seu comportamento pela análise dos padrões das suas postagens, curtidas, comentários.

Assim, indivíduos com perfis de direita e seu tradicional discurso “não gosto de impostos” foram radicalizados para perfis paranóicos em relação ao governo e a determinados grupos sociais. A manipulação poderia ser feita, por exemplo, através do medo: “o governo quer tirar suas armas”. Esse tipo de mensagem estimula um sentimento de impotência e de não ser capaz de se defender. Estimula também um sentimento de “somos nós contra eles”, o que fecha a pessoa para argumentos racionais.

Sites e blogs foram fabricados com notícias falsas para bombardear diretamente as pessoas influenciáveis a esse tipo de mensagem. Além disso, foi explorado também um sentimento anti-establishment, anti-mídia tradicional e anti “tudo isso que está aí”. Quando as pessoas recebiam várias notícias de forma direta, e não viam essas notícias repercutirem na grande mídia, chegavam à conclusão de que a grande mídia mente e esconde a verdade que eles tem.

Se antes a mídia tradicional podia manipular a população, a manipulação teria que ser feita abertamente, aos olhos de todos. Agora, todos temos telas privadas que nos mandam mensagens diretamente. Ninguém sabe que tipo de informação a pessoa do lado está recebendo ou quais mensagens estão construindo sua percepção de realidade.

Com esse poder nas mãos, Bannon conseguiu popularizar a alt right (movimento de extrema direita americana) entre os jovens, que resultou nos protestos “unite de right” no ano passado em Charlottesville, Virgínia que tiveram a participação de supremacistas brancos. Bannon trabalhou na campanha presidencial de Donald Trump e foi estrategista de seu governo. A Cambridge Analytica trabalhou também no referendo do Brexit, que foi vencido principalmente por argumentos originados de fakenews.

Quando a manipulação veio à tona, Mark Zuckerberg foi chamado ao senado americano para depor. Pra quem entendeu o que houve, ficou claro que a democracia da nação mais importante do mundo havia sido hackeada. Mas os congressistas pouco entendimento tinham de mídia social; e quem estaria disposto a admitir que a democracia pode ser hackeada através da manipulação dos indivíduos?

Zuckerberg estava apenas pensando em estabelecer um modelo de negócios lucrativo com a venda de anúncios direcionados. A coleta de dados e a avaliação de perfil psicológico das pessoas tinham a intenção “inocente” de fazer as pessoas clicarem em anúncios pagos. Era apenas um modelo de negócios. Mas esse mesmo instrumento pode ser usado com finalidade política.

Ele se deu conta disso e sabia que as eleições brasileiras podiam estar em risco também. Somos uma das maiores democracias do mundo. O facebook tomou medidas ativas para evitar que as campanhas de desinformação e manipulações ocorressem em sua rede social. Muitas contas fake e páginas que compartilhavam informações falsas foram retiradas do facebook no período que antecede as eleições.

Mas não contavam com a capilarização e a popularização dos grupos de whatsapp. Whatsapp é um aplicativo de mensagens diretas entre indivíduos; por isso, não pode ser monitorado externamente. Não há como regular as fakenews, portanto. Fazer um perfil fake no whatsapp também é bem mais fácil que em outras redes sociais e mais difícil de ser detectado.

Lembram do Steve Bannon, que sonhou com o retorno de uma extrema direita nacionalista forte mundialmente? Que tinha ideias que são classificadas como anti minorias, racistas e homofóbicas? E que usou um sentimento difuso anti “tudo que está aí”, e um medo de os homens se sentirem indefesos para conquistar adeptos?

Pois bem, ele se encontrou em agosto com Eduardo Bolsonaro. Bolsonaro disse que o Bannon apoiaria a campanha do seu pai com suporte e “dicas de internet”, essas coisas. Bannon é agora um “consultor eventual” da campanha. Era o candidato ideal pra ele, por compartilhava suas ideias, no cenário ideal: um país passando por uma grave crise econômica com a população desiludida com a sua classe política.

Logo depois de manifestações de mulheres nas ruas de todo o Brasil e do mundo contra Bolsonaro, o apoio do candidato subiu, entre o público feminino, de 18 para 24 por cento. Um aumento de 6 pontos depois de grande parte das mulheres se unir para demonstrar sua insatisfação com o candidato.

Isso acontece porque, de um lado, a grande mídia simplesmente ignorou as manifestações e, por outro, houve um ataque preciso às manifestações através dos grupos de whatsapp pró-Bolsonaro. Vídeos foram editados com cenas de outras manifestações, com mulheres mostrando os seios ou quebrando imagens sacras, mas utilizadas dessa vez para desmoralizar o movimento #elenão entre as mais conservadoras.

Além disso, Eduardo Bolsonaro veio a público logo após a manifestação e declarou: “As mulheres de direita são mais bonitas que as de esquerda. Elas não mostram os peitos e nem defecam nas ruas. As mulheres de direita têm mais higiene.” Essa declaração pode parece pueril ou simplesmente estúpida mas é feita sob medida para estimular um sentimento de repulsa para com o “outro lado”.

Isso não é nenhuma novidade. A máquina de propaganda do nazismo alemão associava os judeus a ratos. O discurso era que os judeus estavam infestando as cidades alemãs como os ratos. Esse é um discurso que associa o sentimento de repulsa e nojo a uma determinada população, o que faz com que o indivíduo queira se identificar com o lado “limpo” da história. Daí os 6 por cento das mulheres que passaram a se identificar com o Bolsonaro.

Agora é possível compreender porque é tão difícil usar argumentos racionais para dialogar com um eleitor do Bolsonaro? Agora você se dá conta do nível de manipulação emocional a que seus amigos e familiares estão expostos? Então a pergunta é: “o que fazer?”

Não adiante confrontá-los e acusá-los de massa de manobra. Isso só vai fazer com que eles se fechem e classifiquem você como um inimigo “do outro lado”. Ser chamado de manipulado pode ser interpretado como ser chamado de burro, o que só vai gerar uma troca de insultos improdutiva.

Tenha empatia. Essas pessoas não são tolas ou malvadas; elas estão tendo suas emoções manipuladas e estão submetidas a uma percepção da realidade bastante diferente da sua.

Tente trazê-las aos poucos para a razão. Não ofereça seus argumentos racionais logo de cara, eles não vão funcionar com essas pessoas. A única maneira de mudar seu pensamento é fazer com que tais pessoas percebam sozinhas que não há argumentos que fundamentem suas crenças e as notícias veiculadas de maneira falsa.

Isso só pode ser feito com uma grande dose de paciência e de escuta. Peça para que a pessoa defenda racionalmente suas decisões políticas. Esteja aberto para ouvi-la, mas continue sempre perguntando mais e mais, até ela perceber que chegou num ponto em que não tem argumentos para responder.

Pergunte, por exemplo: “Por que você decidiu por esse candidato? Por que você acha que ele vai mudar as coisas? Você acha que ele está preparado? Você conhece as propostas dele? Conhece o histórico dele como político? Quais realizações ele fez antes que você aprova?”

Em muitos casos, a pessoa tentará mudar o discurso para falar mal de um outro partido ou do movimento feminista. Tal estratégia é esperada porque eles foram programados para achar que isso representa “o outro lado”, os inimigos a combater.

Nesse caso, o caminho continua o mesmo: tentar trazer a pessoa para sua própria razão: “Por que você acha que esse partido é tão ruim assim? Sua vida melhorou ou piorou quando esse partido estava no poder? Como você conhece o movimento feminista? Você já participou de alguma reunião feminista ou conhece alguém envolvido nessa luta?”

Se perceber que a pessoa não está pronta para debater, simplesmente retire-se da discussão. Não agrida ou nem ofenda, comportamento que radicalizaria o pensamento de “somos nós contra eles”. Tenha em mente que os discursos que essa pessoa acredita foram incutidos nela de maneira que houvesse uma verdadeira identificação emocional, se tornando uma espécie de segunda identidade. Não é de uma hora pra outra que se muda algo assim.

Duas das mais importantes democracias do mundo já foram hackeadas utilizando tais técnicas de manipulação. O alvo atual é o nosso país, com uma das mais importantes democracias do mundo. Não vamos deixar que essas forças nos joguem uns contra os outros, rasgando nosso tecido social de uma maneira irrecuperável.

P.S.: Por favor, pesquise extensamente sobre todo e qualquer assunto que expus aqui, e sobre o qual você esteja em dúvida. Não sou de nenhum partido. Sou filósofo e, como filósofo, me interesso pela verdade, pela ética e pelo verdadeiro debate de ideias.

Texto de Rafael Azzi

A CAVERNA – ALEGORIA FECUNDA: Da pena de Platão à era dos memes, as mutações de um mito filosófico

A Alegoria da Caverna, exposta por Sócrates no Livro VII do diálogo “A República” de Platão (leia a transcrição), é uma das mais fecundas invenções filosóficas que já vieram à luz, pela História afora.

Ela continua eficaz em inspirar inúmeros comentários, interpretações, releituras, adaptações e debates: marca presença em filmes (como “Matrix”, dos Wachowski, ou “Truman Show”, de Peter Weir) e romances (como “A Caverna” de Saramago), tirinhas da cultura pop e palestras acadêmicas, memes viralizantes e artigos no Medium (com o perdão da auto-referência explícita)…

O legado “cavernístico”, sua fortuna crítica, suas diferentes versões, é um espanto de tão gigante, vasto e multiforme. Até mesmo as polarizações políticas brasileiras acabam raptando o célebre mito, subvertido e reconfigurado memeticamente em imagens que têm sua graça e seu charme:

 

 ALEGORIA DA CAVERNA adentrando a ERA DOS MEMES

Neste grupo dos “rebentos” mais recentes do mito, podemos também mencionar os quadrinhos de Maurício de Sousa — que aborda o tema em uma das historinhas protagonizadas pelo Pithecanthropus Erectus da Silva, ou melhor, o Piteco.

O personagem pré-histórico da Turma da Mônica é o responsável, neste caso, por uma intervenção pedagógica na caverna: adentra o recinto, alertando aqueles que estavam fascinados pelas sombras dançantes no muro de que lá fora é que, de fato, estava pulsando a verdadeira vida, sob a fulgurância dos raios de Sol.

Quando o pessoal vibra diante da sombra de uma mulher, Piteco lhes garante: “vocês deviam admirar é a dona desta sombra!” Um pedagogo platônico, ainda que um tanto fanfarrão? Ou um professor de empirismo, que rompe com o platonismo e manda procurar a coisa concreta ao invés de sua mera representação?

Estes quadrinhos ignoram a primeira parte da alegoria, em que um daqueles que estava acorrentado consegue libertar-se e sai pela primeira vez da obscuridade cavernosa rumo ao mundo iluminado pelo Sol. É como se Maurício de Souza desse o start em sua historieta já no momento onde o personagem que libertou-se decide retornar à Caverna, para contar a boa-nova aos que lá ficaram, abestalhados diante do precursor da alienação televisiva.

Quando, no final da HQ, a TV faz sua aparição, o comentário irônico é bem claro: seguimos preferindo as imagens às coisas, as sombras aos entes concretos, as mentiras televisionadas às verdades da carne. Uma leitura que pode aproximar o Peteco de uma visão “Black Mirror” sobre a atualidade, mas que certamente o afastam um pouco do sentido original transmitido pela parábola socrática.

No caso da lenda narrada por Sócrates, aquilo que fascina com sedução falseadora os acorrentados na Caverna é o mundo empírico — tudo o que cotidianamente vemos com nossos olhos, escutamos com nossos ouvidos, cheiramos com nossos narizes, tocamos com nossa pele, tudo isto não passaria de ilusão, sombra, reflexo.

Originalmente, a parábola quer instaurar uma espécie de condenação da credulidade humana diante dos dados sensíveis, afirma que há uma Verdade que se esconde para além do sensível, uma Verdade só acessível à alma humana capaz de suficiente ascetismo para ascender até ela…

A Verdade, sim, está longe das imagens — como sugerem tanto a HQ do Piteco, quanto a tirinha à la Black Mirror em que o Armandinho, em plena era dos celulares, diz que “vivemos no tempo das cavernas… vivemos na caverna de Platão!” — mas no caso de Sócrates a Verdade não está nas coisas, as “donas” das sombras, os corpos carnais cujos reflexos se projetam na parede, mas sim algo muito mais ideal, impalpável: os ideais eternos, os paradigmas incorruptíveis, eternamente em morada celeste.

O mais temerário de tudo, na teoria platônica, é a suposição de que os paradigmas eternos precedem no tempo as coisas tal como aparecem na empiria. O espiritual precedeu o material — tese platônica que, História afora, será perpetuamente contestada pela escola Materialista (de Demócrito, Epicuro e Lucrécio, na Antiguidade, a Holbach, Diderot e Marx na Modernidade…)

O Sol, similarmente, não é exatamente a estrela que aparece-nos à visão como bola-de-fogo, irradiante de calor e luz, sensível à nossa pele, estarrecedora para nossas retinas, mas muito mais um símbolo: o sol platônico representa a verdade do mundo inteligível, aquele que só podemos acessar “pelo pensamento”, domínio acessível somente à alma e não ao corpo.

Longe, pois, de convidar-nos a abraçar tudo que é de carne-e-osso, tudo o que é carnal e pulsante de vida, a alegoria da Caverna convida ao ascetismo, ao racionalismo mortificador do corpo. Ao menos esta seria a interpretação mais coerente com o conjunto da doutrina filosófica hoje conhecida como idealismo, e que teve em Sócrates, em especial em sua expressão através da pena platônica, um de seus mais importantes plasmadores, forjadores, inventores.

O mito cai no mundo e não se pode controlar as interpretações dele: longe de respeitar a ortodoxia platônica, muitos artistas realizaram leituras heterodoxas da alegoria da Caverna — e a historinha do Piteco é uma delas. No cinema, o sci-fi “Matrix” (1999), dos Wachowski, que marcou época em fins de século, pretende lançar o mito para um cenário futurista e apocalíptico, em que após a rebelião das máquinas a Humanidade está sob a opressão de uma escravidão nova, condenados quase todos a uma Neo-Caverna cibernética, uma ilusão colocada diante de nossos olhos para nos cegar da verdade…

“Matrix” recupera muitos elementos da mitologia e da filosofia da Antiguidade, inclusive ingredientes pré-socráticos, e inclusive pré-filosóficos: inspira-se em certas vertentes da espiritualidade grega que estavam presentes desde muito antes da aurora da Filosofia em VI a.C. com os primeiros cosmologistas da Jônia (Tales, Anaximandro etc.). O personagem de Neo (vivido por Keanu Reeves) realiza algo análogo a uma peregrinação rumo ao Oráculo de Delfos em uma cena em que adentra a moradia oracular lendo uma inscrição, em latim, que recomenda: “conhece-te a ti mesmo”.

Neo, logo se vê, é um Sócrates pós-moderno. Quando consulta o oráculo, não está ainda cheio-de-si, arrogante, presunçoso, como depois se tornará — também à imagem e semelhança de Sócrates — quando estiver mais crédulo em seu status de Messias. A Caverna platônica e a Matrix cinematográfica envolvem ambas a noção de um Messias, um Salvador, um Libertador, o Cara Que É O Tal. E é necessário criticar os heróis construídos para nosso fascínio (e nosso consumo) — e isso deve valer tanto pra Neo quanto para o herói da alegoria (na verdade, uma figura através da qual Sócrates realiza um narcísico auto-elogio).

Neo é o “eleito” para salvar a Humanidade da Matrix assim como Sócrates havia sido eleito por Apolo — o próprio oráculo délfico o referenda!- para a missão divina que desenhava em Atenas através da práxis filosófica. O herói, aqui, através de suas peripécias deixa emanar de seu exemplo uma “moral da história” que convida, e nos confina, no individualismo: o indivíduo especial, extra-ordinário, com dons fora do comum, irá salvar-nos a todos, virá resgatar-nos de nossa estupidez, nossa ignorância, nossa violência, nosso caos social. A salvação coletiva é produto de um indíviduo salvador. O que conduz à subserviência aos ídolos que são os grandes líderes, fabrica o perigoso e fecundo em atrocidades “Complexo do Messias”.

O que hoje conhecemos por Platonismo, algo que plasmou-se tendo “A República” como um dos textos mais essenciais, pode ser lido por seus efeitos sócio-políticos, pelo tipo de ethos que recomenda, pelas consequências que traz para as relações humanas inter-subjetivas e políticas. A explícita recomendação de que o governante supremo, soberano, deve ser um filósofo-rei, faz com que se acendam os alertas: Sócrates, no texto platônico, pretende instaurar uma espécie de monarquia aristocrática onde o poder político está concentrado naquele que é “mais sábio”. Ora, cara pálida, mais sábio no juízo, no julgamento de quem?!? Quais são os critérios que nos farão definir quem é o detentor-mor de “sophia”, sendo portanto o mais legítimo dos governantes?

Naturalmente, a resposta é: o filósofo-rei é aquele que tem todas as qualidades de Sócrates. Deve reinar aquele que tem a alma mais forte que o corpo; aquele que sabe reprimir seus ímpetos sexuais e sensuais; aquele que tem o auto-controle, a moderação, a prudência, a razão controladora dos afetos; aquele que é cavaleiro firme, que doma o corcel desordenado da paixão.

Acima de tudo, deve reinar aquele que sabe da hierarquia verdadeira entre a empiria (os dados sensíveis) e o intelecto (a razão descarnada) — o filósofo-rei é, à semelhança da figura que libertou-se da Caverna, aquele que sabe que a empiria é mentira, que só o intelecto tem acesso à verdade, e que a Verdade assim desvelada (os gregos falarão de “alethéia”, desvelamento do oculto) precisa ser ensinada aos enganados. O filósofo-messias, dono da verdade, senhor das paixões, faz-se tirano esclarecido, praticando em seguida a mais totalitária das “ortopedias”: ensina seus súditos que só há uma verdade, a sua, e que serão alçados à força para fora de seu chafurdamento vergonhoso na sensualidade empírica, antro apenas de engano e depravação…

Não está longe a tirania do puritanismo que grassará pela Idade Média afora; e encontraríamos aí, no Sócrates de Platão em “A República”, o protótipo do messias autoritário, cuja condenação à morte é um sintoma do quanto incomodava as autoridades com seus acólitos e discípulos fanatizados, ensinados na escola da intolerância que só os puros se salvarão…

Hannah Arendt afirma que precisou escrever “As Origens do Totalitarismo” pois, na História pregressa, não encontrou, por exemplo nas classificações que a filosofia política greco-romana propôs para os diferentes regimes de governo, nada que se assemelhasse aos sistemas políticos surgidos sob a Alemanha nazista (o III Reich) ou na fase stalinista da URSS. Poderíamos retrucar, provocativamente, que apesar de não ser adjetivada ainda com este termo “totalitário”, “A República” de Platão é aquilo que mais se aproxima, na Antiguidade, de descrever tal regime político…

É interessante o que Arendt diz, em conversa com Octavio Paz, reproduzida no livro “A Duas Vozes” (Org: Eduardo Jardim), em que ela reflete sobre a relação dos filósofos com a política:

“Os filósofos levaram a política muito a sério, e nem poderia ter sido de outra forma, pois foram motivos políticos que justificaram a condenação de Sócrates. Um ensaio de Heidegger — A Doutrina de Platão sobre a verdade  (saiba mais) — apresenta uma proposta de interpretação da conhecida alegoria da caverna… Ela descreve o percurso do personagem que representa a alma, em dois sentidos: do interior da caverna, onde se encontrava aprisionado, em um movimento ascendente, até a contemplação do sol — o bem ou a verdade suprema — e, em seguida, em sentido descendente, do ambiente iluminado do exterior da caverna até o seu interior, para libertar os que ficaram.

Heidegger observa que estão presentes neste relato duas expressões para designar a verdade. A primeira — “alethéia” ou desvelamento — tem a ver com o modo como tradicionalmente a verdade era concebida: associada a um procedimento por meio do qual algo é arrancado da ocultação e é trazido à luz. O termo aparece na descrição do percurso ascendente do personagem, em sua ânsia por contemplar o brilho das idéias, sobretudo da mais perfeita — a do bem, representada pelo sol.

Uma segunda forma de designar a verdade é, em seguida, mencionada, ao se descrever o percurso descendente do personagem de volta ao interior da caverna… Nesse momento, a verdade não motiva mais uma experiência de contemplação estética, como ocorrera anteriormente. Agora, a idéia é tomada como um padrão cujo significado é idêntido ao do modelo percebido pelo artesão ao iniciar a execução do seu trabalho. O termo “alethéia” desaparece. Em seu lugar, o texto faz menção a “orthótes”, que quer dizer correção, indicando desse modo que o acesso à verdade depende, agora, da posição correta do olhar na direção do modelo ideal…” (HANNAH ARENDT, conversa com Octavio Paz, pg. 58–59)

O que incomoda-me, preocupa-me, irrita-me, ou mesmo revolta-me, é que a alegoria propõe que a salvação dos acorrentados não é obra dos próprios, quebrando suas correntes de alienação, mas é obra de um salvador exterior, do messias “descendente”, aquele que porta-se como “dono da verdade” e que liberta os outros à fórceps (um pouco como os EUA levando a Democracia e a Liberdade para o Iraque e o Afeganistão, hoje em dia?).

Esta “liberdade” que o herói socrático-platônico propõe é fiel a um ideal ético-político baseada no racionalismo, no puritanismo, numa vida de ascese anti-corpórea, anti-sensual, anti-gozo, que com frequência degenera numa tirania dos que se julgam os melhores. É possível propor uma política, baseada numa certa interpretação do mito socrático-platônico, que parece uma aristocracia totalitária, que deseja impor à totalidade da sociedade os seus parâmetros de comportamento e de vida — aqueles que não se corrigirem, que não se adequarem, que não se conformarem, poderão e deverão ser excluídos do convívio social, mandados ao exílio, ou, quem sabe, como farão alguns no século XX, enviados aos campos de extermínio…

Longe de propor a auto-superação ou mesmo a auto-revolução dos encavernados, que por suas próprias forças romperiam sua ingenuidade e alçariam sua consciência ao patamar superior da consciência crítica, como seria possível numa re-leitura Marxizante ou Paulo Freirezante do mito, o que ocorre em Platão é propaganda reacionária: as massas, as maiorias, os meros mortais, estão na mentira. O filósofo-rei — puritano, racionalista, ascético, capaz de ir ao céu da verdade e voltar para forjar os outros, por ortopedia, em obediência a ela! — não passa de um aristocrata mandão, crédulo demais na sua própria via e na sua posse da verdade, a ponto de torna-se o impositor de um ethos específico à imensa diversidade humana.

Ao arco-íris do desejo, de que fala Boal, ele impõe o preto-e-branco, o 8 ou 80, de seu dualismo maniqueísta (a alma vale tudo, o corpo não vale nada…) Nasce daí um tiranete, enfim, o governante despótico de um idealismo tirânico, que expulsa poetas, condena desviantes, estigmatiza diferenças e já conheça a acender as chamas de futuras Inquisições e Expurgos…

A alguns pode parecer chocante, impertinente, excessivamente vândala, a atitude de acusar o Sócrates platônico de ser um precursor do totalitarismo, quando tantos o celebram, por seus diálogos intensamente animados pelo debate inter-subjetivo, como precursor da democracia. A verdade é que Sócrates é complexo e multifacetado demais para que nele algum rótulo cole a contento. E a verdade é que Platão é um escritor, um poeta e um dramaturgo genial demais para que seja possível crer que de fato existe algo como “o platonismo”, como doutrina fechada. Aliás, Platão ama ocultar-se. O papel protagônico é todo de Sócrates em sua obra filosófica-dramatúrgica. O texto de Platão, as falas de Sócrates, a vivacidade destes diálogos e desta dramaturgia, transborda todas as represas — é um oceano, imenso, fecundo. Há ainda futuro para o mito mutante da Caverna.

O que apenas desejo enfatizar com estas mal-traçadas críticas — e nisto sinto-me acompanhado, e muito bem-acompanhado, por figuras como André Comte-Sponville (O Mito de Ícaro) e Oswald de Andrade (A Utopia Antropofágica) — que o dito platonismo, que o legado do pensamento socrático, que o próprio mito da caverna, são fecundos também em perigos, inclusive e sobretudo aquele de uma certa “apropriação totalitária” deste mito.

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Por Eduardo Carli de Moraes
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Com “A Caça”, o cinema de Vinterberg atinge a grandeza de Bergman e dialoga com Kafka e Ibsen

a caça

 

#EscritosEstéticosDeUmCinéfiloCompulsivo
por Eduardo Carli de Moraes // www.acasadevidro.com

Dizem que a mentira tem perna curta. Mas aí não se esconde uma crença um tanto otimista? A mentira pode ter perna longa, perdurar por séculos, atravessar milênios… Em A Caça, do enfant terrible dinarmarquês Thomas Vinterberg, a mentira é uma bola-de-neve. O filme explora a disseminação quase epidêmica de uma calúnia e através de uma narrativa vigorosa, que nos lembra de clássicos da literatura como O Processo de Kafka, O Inimigo do Povo de Ibsen e Reparação de Ian McEwan, crava um novo clássico no céu do cinema contemporâneo.

Logo no início do romance kafkiano, em uma primeira sentença memorável na história da literatura, Josef K. acorda de sonos intranquilos e é preso “sem ter feito nada de errado”, concluindo de imediato que alguém o deve ter caluniado. É um despertar quase tão traumático quanto aquele de Gregor Samsa na Metamorfose. No romance esplêndido de McEwan, a pequena Briony, de imaginação fértil, ignorante sobre os jogos carnais luxuriantes dos adultos, lança uma acusação de estupro que terá graves consequências para o futuro dos acusados.

Às vezes não é preciso ser condenado para ser danado por uma acusação. Como pode-se inocentar alguém completamente depois de ter sido maculado pela acusação mesma? Eis um ponto de interrogação, intrigante e inspirador, que parece ser algo comum às três obras, a de Kafka, a de McEwan e ao filme de Vinterberg. Lucas, o protagonista de A Caça, também vê-se engolfado por um processo em que acaba sendo condenado, proscrito e judiado. A acusação parte de alguém presumivelmente inocente, sem mácula: Vinterberg também faz a “acusação” partir de uma criança, como ocorre em McEwan.

A vibe do filme, vibrante de um certo grandeur trágico que Vinterberg consegue comunicar a seu filme, lembra alguns dos filmes mais perturbadores de Ingmar Bergman ou Michael Haneke. A Caça é tão bem narrado, com uma trama tão bem traçada, que torna-se um thriller com uma qualidade narrativa que beira as estratosferas, ou seja, que rivaliza com Ibsen ou Strindberg.

Na peça do grande dramaturgo norueguês Ibsen, O Inimigo do Povo, o protagonista é um médico que descobre em sua comunidade um crime ambiental, uma contaminação das águas, que transforma rios e termas em cursos d’água envenenados com tóxicos, cheios de patogênicos. O “herói” ibseniano, aquele que levanta a voz para denunciar os ecocídios, é isolado da comunidade e taxado como inimigo do povo. Torna-se um pária social. 

Vinterberg, similarmente, também faz seu protagonista Lucas ser escorraçado da comunidade, como se ele próprio fosse um doente, um perverso, um dos leprosos de que Foucault fala, na História da Loucura, e que eram varridos para os leprosários que prenunciaram os hospícios… A Caça é uma meditação sobre a crença na lepra moral. Lucas, que acaba sendo considerado por aqueles ao seu redor como detentor deste mal da lepra moral, torna-se alguém que merece ser lançado para o ermo, que deve ser proibido de conviver em meio aos homens civilizados… Uma reflexão sobre o estigma. 

 Como toda obra-de-arte poderosa e perdurável, A Caça é perturbadora nas perguntas que coloca, intrigante nas respostas que sugere, fascinante pelos silêncios e faltas-de-explicação que permite que permaneçam. O filme é polissêmico e deixa abertas muitas portas para variadas interpretações. Mas é inequívoco e explícito em sua apresentação da inocência do acusado: a câmera de Vinterberg explica com simplicidade pedagógica as ocorrências que levaram ao mau-entendido. A justiça humana aparece em toda a sua capacidade para a lambança, todo sua aptidão a tornar-se corrompida, toda a força das circunstâncias com poder de desencaminhá-la. Justiça humana, demasiado humana, e um bocado imperfeita.

Sob o signo de Saturno, possuído pelos fantasmas de Kafka e Ibsen, Bergman e Strindberg, Vinterberg realizou com a A Caça algo similar à proeza conquistada por seu filme de estréia, Festa de Família (Festen): mostrar que Lars Von Trier não é um gênio solitário no cinema nórdico da atualidade, mas que continua em ótima companhia. Que dois enfant terribles sejam muito mais supimpas para a vitalização da arte do cinema do que um enfant terrible sozinho, quem duvida? Avante, iconoclastas!

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