Garimpar Músicas: uma das maneiras de se fazer bom uso da internet || Por Tamyres Maciel

GARIMPAR MÚSICAS: UMA DAS MANEIRAS DE SE FAZER BOM USO DA INTERNET

Podemos considerar o advento da internet como a maior revolução do final do século XX e início do século XXI. Por meio dela vimos a globalização tomar forma e a sociedade humana se conectar, se informar, se divertir, enfim… absolutamente tudo que existe está registrado em sites, blogs, redes sociais, a um click de distância. A democratização da informação é tão ampla que toda e qualquer pessoa pode criar e divulgar toda e qualquer coisa da maneira que bem entender por vias virtuais, o que demonstra também a existência de uma faca de dois gumes: muito conteúdo produzido com seriedade e veracidade divide espaço com outros falaciosos e manipuladores. O uso consciente da internet é um tema bastante vasto, que certamente sempre virá à tona. Mas vamos focar aqui em apenas um dos bons usos que a ferramenta em questão nos traz: o garimpo de músicas.

Essa revolução dos meios de comunicação possibilita muitos avanços no que se refere a formas e conceitos que permeiam o universo da arte. Enquanto, num passado recente, artistas da música dependiam das gravadoras para difundir seus trabalhos e conseguir maior visibilidade, hoje em dia basta um celular para registrar o material e internet para divulga-lo. Obviamente, isso implica na qualidade da produção desses materiais, mas não deixa de ser um dos principais pontos acerca do conceito de Arte Independente.

Dentre muitas definições para esse nosso momento histórico, uma das mais legítimas é o fato de vivermos na Era Audiovisual. A produção musical e de seus clipes, por exemplo, está cada vez mais abrangente e autêntica, conta com imagens de diversas perspectivas (aéreas, por exemplo, que ilustram o avanço da tecnologia por meio dos drones), o que me faz definir alguns critérios no estudo que venho desenvolvendo acerca desse tema.

Passei a usar #MúsicaContemporâneaDaMelhorQualidade para definir músicas que têm sido lançadas de 2000 pra cá, sobretudo por artistas independentes da grande mídia. A primeira coisa a se pensar é o uso da expressão “melhor qualidade”. Sinto a necessidade de me debruçar nesse ponto porque trata-se de uma parcialidade explícita. Melhor é uma palavra de cunho avaliativo, ou seja, utilizada para apreciar ou julgar algo ou alguém que se gosta, que se admira por alguma razão. O que considero “melhor qualidade” tem determinadas características que podem não ser os mesmos critérios de “melhor qualidade” na perspectiva de outras pessoas (aviso logo e na humildade!).

Trata-se de uma seleção de musicistas compositoras de letras elaboradas, que trazem à tona diversos assuntos relacionados à nossa sociedade, além de ricas mesclas de instrumentação, guitarras com tambores, por exemplo. Existe uma tendência musical que não prevê em primeiro e absoluto lugar a comercialização em massa, mas demonstra artistas lúcidas em relação à importância da expressão como forma de reflexão do momento histórico. Sobretudo neste em que vivemos: de auge das lutas de resistências, de clamor constante por igualdades e justiças. Vejo esse momento como um tempo de ascensão da soberania Latinoamericana. Não que essas lutas sejam novas, pelo contrário. Elas já existem há um bom tempo, mas com o advento da internet elas se multiplicaram e ganham cada vez mais força.

Entre as décadas de 60 e 70 no Brasil, em que vivíamos os anos de chumbo, aconteceu um fenômeno parecido com este em que nos encontramos: artistas questionavam e apontavam os abusos da ditadura por meio de músicas e, ao mesmo tempo, outras menos comprometidas com as questões políticas da época, simplesmente não tocavam no assunto e contribuíam para a alienação do povo. A grande diferença é que hoje ainda não temos a censura explícita e declarada, além de termos a nosso favor a internet como uma importante ferramenta de difusão das produções que não ganharam espaço nos meios tradicionais de comunicação.

A meu ver, alguns dos temas atuais que melhor inspiram artistas são o empoderamento das mulheres, a urgência na preservação de comunidades indígenas e quilombolas, a ascendência do movimento negro, a liberdade de expressão e sobrevivência da comunidade LGBTQ+, e a necessidade de consciência em relação à conservação ambiental. Certamente não citei todos os temas, porque são inúmeros. Em uma sociedade tão conservadora e mal informada como a brasileira, por exemplo, esses assuntos são extremamente necessários e, enquanto existirmos, vamos falar sobre eles e espalhá-los por todos os cantos, em todas as oportunidades. Nas próximas escritas falarei especificamente de cada um desses temas, das bandas novas que têm surgido e cada vez mais sobre vanguarda contemporânea da música Latinoamericana.

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LEIA AS COLUNAS ANTERIORES DE TAMYRES MACIEL EM A CASA DE VIDRO:

#1 – MEU AGORA ATÉ AQUI
#2 – SOBRE CONSTRUÇÃO DE REPERTÓRIOS E PRODUÇÃO MUSICAL CONTEMPORÂNEA

200 DISCOS CLÁSSICOS DA MPB NOS ANOS 60, 70 E 80 PARA OUVIR ONLINE (COMPLETOS E EM ORDEM CRONOLÓGICA) [PARTE II]

Os Mutantes

Os Mutantes

Ilustração por Daniel Gnatalli

Ilustração por Daniel Gnatalli

“Sem música a vida seria um erro.”
Nietzsche (1844-1900)

Uma das maravilhas maiores que a Internet nos proporciona é o acesso a uma imensa biblioteca musical. Este baú de tesouros está acessível a qualquer um que se conecte à grande rede digital planetária, mas as pepitas estão dispersas por toda parte e a compilação da fina flor deste acervo gigante exige todo um trampo de garimpagem e coleta. Na intenção de organizar um pouco todo este vasto material musical, A Casa de Vidro apresenta aqui uma seleção com 200 álbuns da música brasileira nas décadas de 60, 70 e 80, todos eles disponíveis para audição na íntegra no YouTube. Obras cruciais na história cultural brasileira estão aí reunidas para degustação livre. A lista vai ser expandida constantemente e as sugestões de vocês são muito bem-vindas. Subam o volume e boa viagem! Apreciem sem moderação!

CLICK AQUI E CONFIRA A PRIMEIRA PARTE DESTE ESPECIAL COM OS 100 PRIMEIROS ÁLBUNS POSTADOS

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  1. Dorival Caymmi
    Eu Não Tenho Onde Morar (1960)
  2. Moacir Santos
    Coisas (1965)
  3. Elis Regina e Zimbo Trio 
    O Fino do Fino (1965)
  4. Sidney Miller (1967)
  5. Caetano Veloso (1968)
  6. Orquestra Afro-Brasileira (1968)
  7. Teatro Arena Conta Zumbi (1968)
    Texto: G. Guarnieri e A. Boal, Música: Edu Lobo (e Vinícius de Moraes)
  8. Os Brazões (1969)
  9. João Donato
    A Bad Donato (1969)
  10. Rita Lee
    Build Up (1970)
  11. Gerson King Combo
    E A Turma Do Soul (1970)
  12. Módulo 1000
    Não Fale Com Paredes (1970)
  13. Novos Baianos
    É Ferro na Boneca (1970)
  14. Vinicius De Moraes, Maria Bethânia & Toquinho
    Ao Vivo em Mar del Plata (1971)
  15. Cassiano
    Imagem e Som (1971)
  16. Erasmo Carlos
    Carlos, Erasmo… (1971)
  17. Bango (1971)
  18. Spectrum
    Geração Bendita (1971)
  19. Os Mutantes
    Jardim Elétrico (1971)
  20. Gal Costa
    Fa-Tal (1971)
  21. Clube da Esquina (1972)
  22. Os Mutantes
    E Seus Cometas No País dos Baurets (1972)
  23. Elis Regina (1972)
  24. Elza Soares
    Pede Passagem (1972)
  25. Sá, Rodrix e Guarabyra
    Passado, Presente, Futuro (1972)
  26. Hermeto Pascoal (1972)
  27. Rita Lee
    Hoje É O Primeiro Dia do Resto da Sua Vida (1972)
  28. Gilberto Gil
    Expresso 2222 (1972)
  29. Tom Zé
    Se O Caso É Chorar (1972)
  30. Paulinho da Viola
    Nervos de Aço (1973)
  31. Rita Lee & Lucinha Turnbull: Cilibrinas do Éden (1973)
  32. Nelson Cavaquinho (1973)
  33. Tim Maia (1973)
  34. Airto Moreira
    Free (1973)
  35. Milton Nascimento
    Milagre dos Peixes (1973)
  36. João Donato
    Quem É Quem (1973)
  37. Sá, Rodrix e Guarabira
    Terra (1973)
  38. Flaviola e o Bando do Sol (1974)
  39. Elis Regina e Tom Jobim (1974)
  40. Moto Perpétuo (1974)
  41. Gal Costa
    Cantar (1974)
  42. Som Nosso De Cada Dia
    Snegs (1974)
  43. Altamiro Carrilho e Carlos Poyares
    Pixinguinha De Novo (1975)
  44. Martinho da Vila
    Maravilha de Cenário (1975)
  45. João Bosco
    Caça à Raposa (1975)
  46. Jorge Ben e Gilberto Gil
    Ogum Xangô (1975)
  47. Os Tincoãs
    O Africanto dos Tincoãs (1975)
  48. Raul Seixas
    O Novo Aeon (1975)
  49. Gonzaguinha
    Plano de Vôo (1975)
  50. Hyldon
    Na Rua Na Chuva Na Fazenda (Casinha de Sapê) (1975)
  51. Jorge Ben
    África Brasil (1976)
  52. Rita Lee & Tutti Frutti
    Entradas e Bandeiras (1976)
  53. Terreno Baldio (1976)
  54. Made In Brazil
    Jack O Estripador (1976)
  55. Casa das Máquinas
    Casa de Rock
  56. Banda Black Rio 
    Maria Fumaça (1977)
  57. Os Tincoãs
    Os Tincoãs (1977)
  58. Elizeth Cardoso, Zimbo Trio e Jacob do Bandolim
    Ao Vivo (1977)
  59. João Gilberto
    Amoroso (1977)
  60. Francis Hime
    Passaredo (1977)
  61. Sônia Santos
    Crioula (1977)
  62. Caetano Veloso e Banda Black Rio
    Bicho Baile Show (1978)
  63. Olívia Byington & A Barca do Sol
    Corra o Risco (1978)
  64. João Nogueira
    Vida Boêmia (1978)
  65. Maria Bethânia
    Álibi (1978)
  66. Beto Guedes
    Amor de Índio (1978)
  67. A Barca do Sol
    Pirata (1979)
  68. Rita Lee (1979)
  69. Lourenço Baêta (1979)
  70. Ângela Ro Ro (1979)
  71. Beto Guedes
    Sol de Primavera (1979)
  72. Gilberto Gil
    Realce (1979)
  73. 14 Bis (1979)
  74. Elis Regina
    Ao vivo no Festival de Montreux (1979)
  75. Lula Côrtes
     O gosto novo da Vida  (1981)
  76. Flávio Venturini
    Nascente (1981)
  77. 14 Bis
    Além Paraíso (1982)
  78. Camisa de Vênus (1983)
  79. Nei Lisboa
    Pra Viajar No Cosmos Não Precisa Gasolina (1983)
  80. Júlio Reny
    Último Verão (1983)
  81. Bacamarte
    Depois do Fim (1983)
  82. Arrigo Barnabé
    Tubarões Voadores (1984)
  83. Ratos de Porão
    Crucificados Pelo Sistema (1984)
  84. Tributo a Torquato Neto
    Um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia (1985)
  85. Plebe Rude
    O Concreto Já Rachou (1985)
  86. Garotos Podres
    Mais Podres Do Que Nunca (1985)
  87. Arrigo Barnabé
    Cidade Oculta (1986)
  88. Os Replicantes
    O Futuro É Vórtex (1986)
  89. Cólera
    Pela Paz Em Todo Mundo (1986)
  90. Celso Blues Boy
    Marginal Blues (1986)
  91. Bezerra da Silva
    Alô Malandragem, Maloca o Flagrante! (1986)
  92. Violeta de Outono (1986)
  93. Inocentes
    Pânico em SP (1986)
  94. Ira!
    Vivendo e Não Aprendendo (1986)
  95. Os Paralamas do Sucesso
    Selvagem? (1986)
  96. Blues Etílicos (1987)
  97. TNT (1987)
  98. Picassos Falsos (1987)
  99. Ratos de Porão
    Cada Dia Mais Sujo e Agressivo (1987)
  100. Engenheiros do Hawaii
    A Revolta dos Dândis (1987)
  101. Inocentes
    Adeus Carne (1987)
  102. Os Replicantes
    Histórias de Sexo e Violência (1987)
  103. Picassos Falsos
    Supercarioca (1988)
  104. Joelho de Porco
    18 Anos Sem Sucesso (1988)
  105. Cazuza
    Ideologia (1988)
  106. Cazuza
    O Tempo Não Pára – Ao Vivo (1988)
  107. Os Cascavelletes (1988)
  108. Egberto Gismonti
    Dança de Escravos (1989)
  109. Os Cascavelletes
    Rock’a’Lua (1989)

 ACESSE MAIS 100 ÁLBUNS NA PARTE 1 DESTE POST

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Confira também os usuários do Youtube: Henrique Beira, Marcelo Mara.

Clara Nunes, Elza Soares, Tássia Reis – Dose tripla de gênio na afrobrasilidade

CLARA

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Canto Das Três Raças

Compositor: Mauro Duarte E Paulo César Pinheiro

Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil

Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou

Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou

Fora a luta dos Inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou

E de guerra em paz
De paz em guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor

ô, ô, ô, ô, ô, ô
ô, ô, ô, ô, ô, ô

ô, ô, ô, ô, ô, ô
ô, ô, ô, ô, ô, ô

E ecoa noite e dia
É ensurdecedor
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador

Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas
Como um soluçar de dor.

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JOGO DE ANGOLA

No tempo em que o negro chegava fechado em gaiola,
Nasceu no Brasil, Quilombo e Quilombola.
E todo dia, negro fugia juntando a curriola.
De estalo de açoite, de ponta de faca e zunido de bala
Negro voltava pra Angola, no meio da senzala.
E ao som do tambor primitivo, berimbau, maraca e viola
Negro gritava: Abre ala! vai ter jogo de Angola

Perna de brigar, camará; Perna de brigar olê.
Ferro de furar, camará; Ferro de furar olê.
Arma de atirar camará; Arma de atirar olê olê

Dança Guerreira
Corpo do negro é de mola na capoeira
Negro embola e desembola
E a dança que era uma festa pro dono da terra
Virou a principal defesa do negro na guerra.
Pelo que se chamou libertação
E por toda força, coragem e rebeldia
Louvado será todo dia
que esse povo cantar e lembrar o jogo de Angola
da escravidão no Brasil

Perna de brigar, camará; Perna de brigar olê.
Ferro de furar, camará; Ferro de furar olê.
Arma de atirar camará; Arma de atirar olê olê!

Composição de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro.

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Ouça também:


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ELZAElza

A BANCA DO DISTINTO
de Billy Blanco

Não fala com pobre, não dá mão a preto, não carrega embrulho
Prá que tanta pose doutor?
Prá que esse orgulho?
A bruxa que é cega, esbarra na gente, a vida estanca
O infarto te pega doutor, acaba essa banca

A vaidade é assim, põe o tonto no alto, retira a escada
Fica por perto esperando sentada
Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão
Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do tonto
Afinal, todo mundo é igual, quando o tombo termina
Com terra por cima e na horizontal

Não fala com pobre, não dá mão a preto, não carrega embrulho
Prá que tanta pose doutor?
Prá que esse orgulho?
A bruxa que é cega, esbarra na gente, a vida estanca
Trombose te pega doutor, acaba essa banca

A vaidade é assim, põe o tonto no alto retira a escada
Fica por perto esperando sentada
Cedo ou tarde ele acaba no chão
Mais alto o coqueiro maior é o tombo do coco afinal
Todo mundo é igual quando o tombo termina
Com terra por cima e na horizontal.

Ouça também:

HINO À IEMANJÁ:

“BELA, RECATADA E DO LAR?”

* * * * *

TÁSSIA

Tássia

MEU RAP JAZZ de Tássia Reis

Eu fico sempre na moral
Mas sabe, más noticias abalam o meu astral
Eu tô legal, não tá ruim
Tô forte, tô viva tô bem longe do fim, acho né
Sempre levando uns toco, a vida dando uns soco
Há quem ache que é pouco mas não é
Mas nem ligo pros outro, quero chegar no topo
Loucura racha coco, sem ibope pra mané (hey)
Sem desperdiçar energia
Várias patifarias querendo me arrastar
Não dou ideia pra essas heresias
Sou de periferia tipo ruim de se enganar
Mas deixa os bicos zoar, ninguém vai assumir
Mas todos querem brilhar
Minha intuição quer cantar, tira um segundo pra ouvir
Que eu não costumo falhar

Ideia zoada nem consta, nem pago pra mostrar
Direto e na fuça e sem blá blá blá
Num flow que assusta, ie ie ie meu rapjazz

Sem mimimi, zumzumzum, zé fini aqui é clack bum
Menos enrolação e mais ação
Mais participação e mais ação
Menos falação e mais ação
Faladores falam muito, eu não
Não tenho tempo a perder, quero vencer por mim
E lutar por você
Se depender de mim, vou merecer
O respeito que aprendi que devo lutar pra ter
Isso me fez fortalecer, desenvolver
Se não fosse sagaz, tava em outro role
Pra você ver, pra você ver
Luz para o ser, que batalha, trabalha
E não falha no seu proceder
Deus sempre vê, quem é aliado e quem tá de papo furado
Querendo pagar de ser… aah
Deixa estar, deixa se crescer
O tempo é quem vai poder dizer
Não faço nada mais que respeitar meus pés
Eu vivo o meu rapjazz

Ideia zuada não consta, nem constará
Quem é é, quem não é nunca será
Conversa fiada não rola, nem rolará
Quem é é, quem não é nunca será…”

13 DOSES DE “CANÇÕES DO CONTRAGOLPE” – Criolo, Legião, Chico Buarque, Cazuza, Cássia Eller, Emicida, Bezerra, Wilson das Neves, Apanhador Só, Flicts e outros

“Num tempo…
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações

Dormia…
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações

Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais

E um dia, afinal
Tinham direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval…”

Chico Buarque,
“Vai Passar”

* * * * *

“Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade.

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã.

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
(A lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão.

Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos celebrar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror de tudo isso
Com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção.

Venha, meu coração está com pressa
Quanta esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão.

Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera –
Nosso futuro recomeça:
Venha, que o que vem é perfeição….”

LEGIÃO URBANA,
“Perfeição”
@ Descobrimento do Brasil

* * * * *


APANHADOR SÓ, 
“Mordido”
“Vídeo produzido pelo Coletivo Tatu Morto para dar as boas-vindas a Copa do Mundo.”

Do álbum “Antes Que Tu Conte Outra”:

* * * * *

“Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da américa católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?

Será, será que será, que será, que será
Será que esta minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir por mais mil anos?

(…) Ou então cada paisano e cada capataz
Com sua burrice fará jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades, caatingas e nos gerais?

Será que apenas os hermetismos pascoais
Os Toms, os Miltons, seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?”

(…) Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
Daqueles que velam pela alegria do mundo
Indo mais fundo, Tins e Bens e tais…”

CAETANO VELOSOPodres Poderes

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FlictsCanções De Batalha (True Rebel Records) [Full Album]

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CÁSSIA ELLER, Tô Na Rua (de Luiz Melodia)

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“Pátria amada
O que oferece a teus filhos sofridos
Dignidade ou jazigos?”
CRIOLOLion Man

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EMICIDA, “Samba do Fim do Mundo” (Feat. Juçara Marçal e Fabiana Cozza)

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OURO DESÇA DO SEU TRONO – Um samba de Paulo da Portela

Paulo da Portela 3

Acima: Paulo da Portela, autor do samba “Ouro Desça Do Teu Trono”; ouça na interpretação de Candeia e seus bambas:

Ouro desça do seu trono
Venha ver o abandono
De milhões de almas aflitas
(Como gritam!)

Sua majestade a prata
Mãe ingrata indiferente e fria
Sorri da nossa agonia

Diamante, safira e rubi
São pedras valiosas
Mas eu não troco por ti
Por que és mais preciosa!

De tanto ver o poder
Prevalecer na mão do mal,
O homem deixa-se vender
A honra pelo vil-metal.

Ouro desça do seu trono,
Venha ver o abandono
De milhões de almas aflitas!
(Como gritam!)

Sua majestade a prata
Mãe ingrata indiferente e fria
Sorri da nossa agonia

Nessa terra sem paz
Com tanta guerra
A hipocrisia se venera
o dinheiro é quem impera

Sinto minha alma tristonha
De tanto ver falsidade
E muitos já sentem vergonha
Do amor e honestidade.

* * * * *


#MúsicaPelaDemocracia – Mobilização de Abril ‘2016


“O morro mandou avisar”, de Flavio Renegado e Tico Santa Cruz

* * * * *

“Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára…”

CAZUZA

BONUS

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DIZ AÍ BEZERRA:



Pra tirar meu Brasil dessa baderna
Só quando o morcego doar sangue
E o saci cruzar as pernas…”

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“O dia em que o morro descer e não for carnaval
ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu
vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil
(é a guerra civil)

No dia em que o morro descer e não for carnaval
não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral
e cada uma ala da escola será uma quadrilha
a evolução já vai ser de guerrilha
e a alegoria um tremendo arsenal
o tema do enredo vai ser a cidade partida
no dia em que o couro comer na avenida
se o morro descer e não for carnaval

O povo virá de cortiço, alagado e favela
mostrando a miséria sobre a passarela
sem a fantasia que sai no jornal
vai ser uma única escola, uma só bateria
quem vai ser jurado? Ninguém gostaria
que desfile assim não vai ter nada igual

Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga
nem autoridade que compre essa briga
ninguém sabe a força desse pessoal
melhor é o Poder devolver à esse povo a alegria
senão todo mundo vai sambar no dia
em que o morro descer e não for carnaval.

WILSON DAS NEVES

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LEITURA SUGERIDA:
por Alexandre Matias

Como a crise política brasileira está fazendo a cena musical se organizar

No incerto futuro próximo brasileiro há ao menos uma certeza: a patética crise institucional que se instaurou sobre o país ajudou a mobilização política da classe musical, um movimento que vem crescendo desde que os protestos deixaram de ser focos isolados e ganharam as ruas naquele histórico junho de 2013. De lá pra cá manifestações de músicos, cantores, produtores e compositores vêm ganhando corpo pouco a pouco e a música começa a ser usada como ferramenta de mobilização popular e meio de comunicação. Protestos contra a Copa do Mundo, a favor do movimento estudantil paulista ou em solidariedade com as vítimas do crime ambiental em Mariana, em Minas Gerais, foram ganchos para diferentes artistas se expressarem politicamente.

O foco desta vez é a crise política no país. Músicos, produtores, intérpretes e outros artistas começaram, na segunda-feira passada, dia 10, uma ocupação de shows gratuitos no Largo da Batata, na zona oeste de São Paulo, em que dezenas de artistas apresentam-se para conscientizar a população da forma como o impeachment da presidência vem sendo conduzido. O movimento #MúsicaPelaDemocracia já teve apresentações de nomes como Chico César, KL Jay dos Racionais MCs, Aláfia, Eddie, Rodrigo Ogi, Lucas Santtana, Rafael Castro, Rashid, Iara Rennó, Marrero, Jonnata Doll e os Garotos Solventes, entre outros. O show da quinta-feira reúne as principais atrações do evento, com Tiê (às 17h), Guizado (às 18h), Anelis Assumpção (às 19h), Lira (às 20h), Tulipa Ruiz (às 21h), BNegão Trio (às 22h) e Bixiga 70 (às 23h). As apresentações continuam até sábado, com shows de Naná Rizinni, Sílvia Tape & Edgar Scandurra, Jaloo, MC Soffia, Black Alien, Felipe Cordeiro, Maurício Pereira e discotecagens de Bárbara Eugenia e Tatá Aeroplano.

“A idéia surgiu em uma reunião de produtores e artistas, em São Paulo”, explica uma das organizadoras do evento, a produtora Heloísa Aidar, dona da distribuidora Ponmello. “O foco do encontro era debater o cenário atual e pensar em formas de mobilização da classe artística, mas especificamente, da música, a favor da democracia. Alguém teve uma primeira idéia de uma vigília, e a partir daí pensamos em uma ocupação, onde poderíamos agregar outras atividades.” Também há atividades extramusicais, como oficinas, apresentações de clowns, aulas de yoga, debates, exibições de filmes, apresentações de dança, circo e leituras. Maiores informações podem ser encontradas na página do Facebook do movimento. – LEIA ARTIGO NA ÍNTEGRA

RAUL SEIXAS (1945 – 1989): DISCOGRAFIA COMPLETA

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Caixa FIlosofal

personagens em nanquim 003

RAUL SEIXAS (1945 – 1989):
DISCOGRAFIA COMPLETA

1967 – RAULZITO E OS PANTERAS

1971 – SOCIEDADE DA GRÃ-ORDEM KAVERNISTA

1973 – KRIG HA BANDOLO!

1974 – GITA

1975 – O NOVO AEON

1976 – EU NASCI HÁ 10 MIL ANOS ATRÁS

1977 – O DIA QUE A TERRA PAROU

1978 – MATA VIRGEM

1979 – POR QUEM OS SINOS DOBRAM

1980 – ABRE-TE SÉSAMO

1983 – RAUL SEIXAS

1984 – METRÔ LINHA 743

1988 – A PEDRA DO GÊNESIS

1989 – A PANELA DO DIABO (COM MARCELO NOVA)

Maluco Beleza em Metamorfose Ambulante
Um retrato do mito após “O Início, o Fim e o Meio” (Walter Carvalho)

O nome escrito no RG perdura do nascimento à morte, talvez modificado vez ou outra por casório, mudança-de-sexo ou ida-pro-estrangeiro. Já a criatura que este nome batiza é bem mais fluida e líquida do que sugere a fixidez dos documentos. Somos seres mutantes, criaturas inescapavelmente metamórficas. As barbas sucederam aos meus dentes-de-leite do mesmo modo como os cabelos alvos da velhice hão de esbranquiçar estas madeixas temporariamente morenas. E não será melhor aquiescer à roda-viva dos tempos ao invés de aspirar por impossíveis imutabilidades?

“Não se entra duas vezes no mesmo rio”, dizia Heráclito uns 2.500 anos atrás. A ancestralidade do dito, seu caráter de “clássico” sacramentado na história da filosofia, não significa que o rio de que falava o filósofo – o rio cósmico, o rio universal, o rio de Tudo o que escorre – cessou de correr. Prosseguem as marés em sua dança com a Lua. Seguem os planetas respondendo fielmente aos chamados invisíveis das gravitações planetares.

Se a própria Natureza ao nosso redor é dinâmica eterna e imparável mobilidade, seríamos loucos se quiséssemos, apegando-nos a dogmas e nos engessando em ortodoxias, sermos fixos como as “pedras que choram sozinhas no mesmo lugar”. Raul, como canta-nos em “Medo da Chuva”, “aprendeu o segredo da vida vendo essas pedras que choram sozinhas no mesmo lugar”. Conheço poucos versos mais lindos na história da poesia e da música brasileira: Raul Seixas nos comove e nos encanta tanto, me parece, pois não quis ter um destino de pedra, estagnada em sua solidez, e preferiu ser rio. “Eu prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo…”.

E isso, pra mim, é rock’n’roll até o osso. Pedras que rolam não criam limo. Melhor que ser pedra que rola é ser um autêntico homem-rio, humano escorrente. Não é à toa que Walter Carvalho inicia seu filme com um dos símbolos-mor da contracultura hippie sessentista: os dois motoqueiros de Easy Rider, encarnados por Dennis Hopper e Peter Honda. Raul Seixas, seguindo essa metáfora, teria sido um easy rider tupiniquim. Um desses que põe o pé-na-estrada ao invés de ser samambaia. Um maluco beleza sem medo de ver o misticismo misturado com a lucidez, nem o rock com o baião. Antropófago oswaldiano, comeu e mixou Jimi Hendrix com Luiz Gonzaga, Satanás com Cristo, Crowley com Shiva, a Bíblia e o Baghavad Gita… A ousadia das mesclas, a leveza desse saltar eclético em várias “ilhas” da cultura, faz de Raul um desbravador de novas sendas para a liberdade! “Faze o que tu queres… há de ser tudo da lei!”

Que esse anarquismo estético todo seja altamente subversivo eu não duvido. E é ótimo que seja. Raul Seixas permanece um remédio necessário contra o caretismo. Longe de mim bancar aqui o bully dos caretas, ainda mais considerando que tenho, com certeza, minhas próprias caretices, como todos. O problema é que o caretismo não é tão inofensivo como parece: estou convencido de que muitos “homens de poder”, muitas altíssimas autoridades políticas, militares, religiosas, policiais, enfim muitos destes que são responsáveis por criar as nossas leis e vigiar nossos comportamentos e nossas interações sociais, são caretas dogmáticos.

Um exemplo: a sangrenta Guerra às Drogas, baseada em ortodoxias proibicionistas, por exemplo, já deixou 50.000 mil mortos no México nos últimos 6 anos… A mesma guerra absurda, levada a cabo faz algumas décadas pelo DEA norte-americano, segue seguindo à risca a cartilha do czar Anslinger. O que já causou trilhões e trilhões de desperdício de verba pública e o encarceramento em massa de um imenso contingente populacional: 25% dos presos do planeta estão nos Estados Unidos da América, o maior Estado policial e militar do mundo. Quanto aos assassinados no Rio de Janeiro ou na Colômbia, bem… quem é que está contando os cadáveres? E como não perder a conta diante de um genocídio tamanho?

Não haveria um certo eufemismo no próprio termo “Guerra às Drogas”? Como se as perseguidas fossem só as substâncias, e não… as pessoas que as utilizam e comercializam! Esta guerra contra pessoas, movida por preconceitos que se agarram com a obstinação de sanguessugas às nossas legislações, tem a ver – e me arrisco agora em psicologia social raul-seixista! – com o caretismo institucionalizado dos fanáticos pela ordem. E Raul Seixas é um providencial antídoto.

O que eu quero dizer é que acho ótimo que tenha existido uma figura como Raul para ser uma mosca na sopa de tudo quanto é discursinho pró-DOPS, pró-Opus Dei, pró-Caveirão do BOPE… Raul foi, de fato, uma das maiores figuras da contracultura brasileira na segunda metade do século passado. Um artista de criatividade exuberante, que nos mostrou a beleza da ousadia, da quebra de paradigmas, do comportamento destoante. Ouvir Raul é uma cura contra a normopatia, termo que empresto do psicanalista José Ângelo Gaiarsa, talvez o mais brilhante e mais célebre dos nossos psicólogos sociais reichianos.

“Normopata” é aquele tipo de neurótico – comuníssimo aliás! – que deseja, acima de tudo, ser normal. Somos todos um pouco normopatas: em situações sociais, especialmente, modelamos nosso comportamento de acordo com o que nos foi ensinado sobre o que é normal e o que é patológico, o que aceito e o que é ilícito. Ah, esses sininhos de Pavlov que não cessam de bater, infernais e aporrinhantes, dentro de nossos cérebros!

A normopatia, neurose de massa, talvez ajude a explicar fenômenos tão atuais, e tão justamente combatidos por tantos movimentos sociais, como a homofobia, o racismo, o bullying. Pessoas que possuem uma “imagem ideal” do que seja a normalidade – por exemplo, normal é quem é branco, católico, heterossexual e “democrata” – tendem a soltar seus anátemas (e às vezes seus cachorros e sua polícia…) pra cima de quem destoa desse ideal do “Normal”. E dá-lhe pauladas e preconceitos pra cima de comunistas, negros, homossexuais, ateus, anarquistas, índios, “hippies” e tantos outros “desviantes” (na perspectiva dos fanáticos pelo normal, claro…).

No Brasil, como prova a onipresença e onirecorrência do “Toca Rauuul!” em qualquer show, boteco, pub, roda-de-samba ou concerto de música clássica, Raul Seixas virou uma espécie de mito nacional. Um neo-Macunaíma, objeto de um culto equivalente em terras de Pindorama àquele prestado à Che Guevara em outras plagas (cubanas ou argentinas, por exemplo).

Raul é muito mais que música: é um “modelo” de comportamento, um ideal de personalidade, alguém que muita gente se põe a imitar e reverenciar como se se tratasse de um novo Cristo. E bem peculiar, aliás, dadas as propensões de Raul para o satanismo e seu amor muito maior pelo escritos sagrados dos indianos e chineses do que pela Bíblia do catolicismo romano…

O pivete baiano que se encantou com Elvis Presley e Litte Richard, que puxou a gola pra cima e começou a rosnar e uivar com “Tutti Frutti” ou “Be-Bop-A-Lula”, acabou sendo, junto com os Mutantes, um dos principais agentes da mistura entre a música brasileira e o que estava na crista da onda no panorama musical internacional. Raul não tinha medo de “importar” que havia de melhor no rock gringo – e sem pagar direitos autorais ou ter que responder processos por plágio. Ele não copiava – ele expropriava. Quer dizer: apropriava-se de modo muito próprio do que suas espertas antenas captavam e acabava por realizar uma síntese absolutamente original e inaudita de elementos antes considerados imisturáveis. Um antropófago!

Com Raul, acontece na cultura brasileira um dos mais poderosos fenômenos do que eu chamaria de idolatria secular. O pop star, afinal de contas, é uma espécie de ídolo a vagar fora das igrejas. Cultuado, como outrora Dionísio e Baco, nos locais de dança e carnaval, nos agrupamentos clandestinos de entusiastas, nos locais onde emergem zonas autônomas temporárias e onde os sujeitos experimentam as “delícias do deslimite” (Rüdiger Safranki).

Como quantificar o impacto de uma figura carismática dessas nos sonhos de milhares de homens e mulheres? Como calcular quantas personalidades são moldadas, ao menos em parte, tendo o raul-seixismo como modelo e ideal? Quando John Lennon soltou aquela que deixou de cabelos em pé os fundamentalistas religiosos (“Os Beatles são mais populares do que Jesus Cristo”), estava só dando amostras de seu apuradíssimo senso social. Pois de fato, em nossas sociedades do espetáculo, pra usar a expressão consagrada por Guy Debord, os pop-stars talvez tenham mais impacto social do que alguns mofados símbolos religiosos de milênios atrás.

Raul Seixas, arauto da contracultura brasileira, padroeiro de todas as lutas anti-manicomiais e anti-dogmáticas, sátiro e palhaço de uma sociedade gerida por elites doentes, é também aquele que nos ensinou que para desafinar o coro dos contentes não é necessário ser soturnamente triste.

Com que contentamento e com que jovial audácia Raul não encarnava a ovelha negra! Esta é uma mosca risonha pousando nas intragáveis sopas dos dogmáticos, dos fanáticos, dos caretas. Como a Mafalda de Quino, Raul é um quixotesco protestador contra as sopas azedas deste mundo.

E, nos antípodas do inseto nauseante e repugnante no qual o Gregor Samsa de Kafka se viu transformado, Raul Seixas é uma mosca feliz e saltitante. Provoca e alfineta, introduz a dissonância no coro dos normais, questiona as autoridades autoritárias, abre novas vias de interpretação do mundo e da vida, escancarando portas e janelas com pontapés de poeta…

O estrago que causou, a influência que gerou e os encantamentos que despertou prosseguem agindo e ecoando, anos e anos depois que os primeiros vermes roeram as frias carnes de seu cadáver alcoólatra e de pâncreas mutilado. E hoje em dia, fantasma entre nós, frequenta nossos pesadelos e sonhos, anima nossas festas e nossos cinemas, é semente nos solos de nossa cultura e inspiração para o desabrochar de nossa criatividade. Aquele que bradava que “falta cultura pra cuspir na estrutura”, o imorrível Raul, parece uma figura que saiu da carne só para gozar, altaneiro, da notável sobrevida dos mitos.

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