SARCÓFAGO ESPACIAL: Em “Aniara”, sci-fi distópico sueco, o pesadelo do ‘modus operandi’ capitalista e consumista exportado para o espaço sideral

O filme sueco de ficção científica distópica Aniara (2018) revela o que ocorre quando grandes catástrofes sócio-ambientais – tsunamis, furacões e mega-incêndios – acabam com a aventura humana neste planeta. O que restou da Humanidade tenta emigrar para Marte deixando para trás uma Terra devastada.

Ao assisti-lo, fiquei pensando no quanto a Suécia, talvez pelo impacto duradouro de Ingmar Bergman sobre a Sétima Arte do país, consegue levar a depressão pós-apocalíptica a novos níveis de desespero sem saída. Na espaço-nave Aniara (do grego “aniarós”, que significa tristeza e desespero), uma viagem que deveria durar 23 dias acaba se estendendo por vários anos em que esperanças se convertem em miragens enquanto os índices de suicídios alçam vôo como foguetes. É a Suécia nos mostrando como se faz cinema esmagador de ingenuidades com este poderoso tema do Sarcófago Espacial.

À semelhança de “Melancolia” de Lars von Trier e de “Snowpiercer – O Expresso do Amanhã” de Bong Joon-ho, “Aniara” retrata o futuro humano com cores bem sombrias. Seu tema, no fundo, é a extinção da Humanidade, ou o retrato de nosso suicídio coletivo. Pode também ser descrito como um “Wall-E” (de Andrew Stanton) bem mais deprê.

Se na animação da Pixar já se retratava uma estação espacial onde os humanos gastavam seu tempo a alienar-se diante de uma torrente de entretenimentos a serem consumido com muita Coca-Cola e marshmallows por uma população obesa e emburrecida, em “Aniara” a espaçonave também está equipada com escadas rolantes que dão acesso a shopping centers, centrais de entretenimento digital e esportivo, entre outras distrações.

Deixamos pra trás um planeta todo fudido e sem vida, mas não se preocupe: jogue baseball com uma robô que atira bolas pra que você se delicie fingindo que o estádio inteiro comemora seu home run. Sente numa falsa motocicleta e dirija em alta velocidade diante de uma tela que te faz delirar que está ziguezagueando pelas estradas de asfalto de uma Terra cada vez mais distante. Encha o bucho com hambúrguer de alga produzido a bordo pela nova versão do McDonalds.

Dirigido por Pella Kagerman e Hugo Lilja, o filme é baseado em um longo poema épico homônimo, de 1956, do prêmio Nobel de Literatura Harry Martinson (1904 – 1978).

A atriz protagonista, Emelie Jonsson, trabalha muito bem no papel de gestora de uma interessante entidade, dentro da espaçonave, chamava MIMA. Trata-se de uma espécie de Fábrica de Sonhos, um equipamento de Simulação Onírica, que permite aos seus usuários, deitados de bruços no chão abaixo de uma nuvem catódica, terem acesso a imagens bucólicas e idílicas de uma Terra esverdejante, cheia de florestas e cachoeiras, com equilíbrio ecosistêmico preservado. Mima permite que a Humanidade, saudosa de seu habitat antigo, fissure-se em fantasias do que perdeu irremediavelmente.

Mima é um símbolo poderoso que o filme ergue para que nós, humanos, olhemos nele como num espelho de verdades intragáveis. Mima poderia estar dentro de um episódio da série Black Mirror. Através de Mima, a humanidade revela sua vontade indomável de enganar a si mesma e se enfiar de propósito numa simulação enganadora que nos console de um presente onde prepondera a sensação de estarmos “doomed”.

Platão, com a Alegoria da Caverna, no livro “A República”, já havia previsto que o filósofo que se libertasse das correntes e fosse em jornada de descoberta da verdade, uma vez retornado à obscuridade da Caverna, seria rechaçado e ridicularizado por aqueles que já estão acostumados com sua ilusão cotidiana, tão comum quanto o pão. Se tentasse libertar outras pessoas da Caverna, o filósofo seria espancado por aqueles que já adoram demais suas correntes para ver com bons olhos um suposto libertador.

A máquina Mima é cada vez mais solicitada pelas massas, cada vez mais ávidas, naquele cenário de isolamento cósmico desolador, por um pouco de enganação, por ao menos um simulacro da Terra agora destruída. Após a destruição da Teia da Vida e suas finas e refinadas tessituras, os humanos querem ficar delirando com um passado não reconstrutível, plugados na máquina de simulações Mima, máquina de sonhos também imperfeita, consumidora de energias que em Aniara são limitadas. E assim o resto da Humanidade se arrasta para cada vez mais longe de uma Casa que já destruímos.

Como escreveu o crítico no site Flickering Myth, até mesmo o consolo supremo oferecido aos passageiros de Aniara acaba entrando em colapso: “The increased pressure on the Mima – which itself begins to sicken and warp – is just the beginning of a tragic spiral that sees fake news spread, sex cults form and hope become rarer than a raindrop in the Sahara.” (Flickering Myth)

Como bem percebeu também o crítico Wilson Roberto Vieira Ferreira de Cinema Secreto: Cinegnose, ancorado numa reflexão sobre a obra de Daniel Boorstin:

“Aniara é um gigantesco shopping center espacial que leva para o espaço o mesmo ‘modus operandi’ que destruiu econômica e ambientalmente a Terra: a cultura do supérfluo, do consumismo e, principalmente, a necessidade da simulação – parques temáticos e mundos virtuais tecnologicamente desenvolvidos para embalar os passageiros de Aniara no marketing e propaganda. (…) A nave chamada Aniara leva para o espaço sideral, e depois para Marte, o estilo de vida que acabou destruindo o próprio planeta Terra: a dependência humana pelo artificial, supérfluo e o consumo de imagens que simulam uma vida que não mais existe. E o que os espera não é exatamente um paraíso: Marte é um planeta frio, árido e hostil. Mas certamente parques temáticos ao estilo Disneylândia criarão uma estrutura cenográfica de um mundo que deixou de existir.”

As atitudes do capitão da espaçonave, Chefone, revelam a recorrente demagogia de líderes políticos e religiosos em tempos de crise: ele vende esperanças falsas e, quando estas se frustram, tenta curar as frustrações com novas esperanças fraudulentas. Enquanto isso, os suicídios se disseminam. E a própria Inteligência Artificial de Mima, cansada de gerar alucinações idílicas e reconfortantes na mente semiadormecida de seus usuários, parece cometer uma espécie de suicídio maquínico, de auto-extinção amargurada.

Para cúmulo da ironia, a personagem principal, após o colapso de Mima, busca formular uma nova solução envolvendo o sacrossanto Simulacro: ela pensa em impedir que as pessoas olhem, através das janelas, a profunda escuridão cósmica que as rodeia, polvilhada pelo brilho pálido de estrelas distantes, um cenário desolador onde ninguém parece ouvir os gritos de desespero dos últimos humanos.

A solução para uma vida melhor no sarcófago espacial de Aniara seria fazer com que todas as janelas se transformassem em telas onde seriam projetadas imagens agradáveis dos lagos, cachoeiras e florestas biodiversas da Terra (uma Terra, é evidente, que já não existe mais).

Presos naquele espaço exíguo da nave, os humanos não são ameaçados por nenhum alien ou monstro. A monstruosidade é exclusividade nossa. Os inimigos somos nós mesmos, incapazes de romper com o ‘modus operandi’ que destruiu o equilíbrio dos ecosistemas planetários, carregando para o espaço sideral a insanidade auto-destrutiva do capitalismo consumista e perdulário.

Alguns podem argumentar que a “profecia” que o filme faz nunca vai se cumprir, que se trata apenas de uma obra-de-arte nascida de suecos maníaco-depressivos que leram demais as obras do movimento intelectual hoje conhecido como Catastrofismo Esclarecido. Talvez.

Eu responderia que “Aniara” decerto não quer que sua profecia fílmica se cumpra. O filme chega ao mundo com o intento de ser uma “cautionary tale”, um conto que ensina cautela aos ingênuos que hoje tentam lidar com a crise climática planetária com a fantasia perigosa de que seria possível migrarmos mais de 7 bilhões de humanos para outro planeta.

Através de sua sombria pedagogia, “Aniara” ensina que a destruição da biosfera é possível, ou pior: está em curso. O filme pinta um cenário futuro possível para nos conclamar a agir no presente para que pesadelos como este não se consumem. Assim, “Aniara” parece reforçar a mensagem daquela que se tornou, no fim desta década de 2010, uma das mais célebres suecas do planeta: Greta Thunberg, que nos conclama a perder toda a esperança e propõe um novo imperativo categórico: “ajam como se nossa casa estivesse em chamas – pois está.”


Eduardo Carli de Moraes, 14/11/2019, para A Casa de Vidro.

RADIOHEAD – Ao vivo em Glastonbury, 1997 – Show Completo

radiohead glasto 97 front 2#ShowsNaÍntegra

Radiohead
Glastonbury Festival (Somerset, England)
28th June 1997

Tracklist:

01 Lucky
02 My Iron Lung
03 Exit Music (For a Film)
04 The Bends
05 Paranoid Android
06 Karma Police
07 Creep
08 No Surprises
09 Just
10 Fake Plastic Trees
11 High and Dry
12 Street Spirit (Fade Out)

Radiohead, New York, NY 1997. Photo by Danny Clinch

Radiohead, New York, NY 1997. Photo by Danny Clinch

1997: o ano de…
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RELAÇÕES ENTRE ARTE E LOUCURA, por JOEL BIRMAN (25 MINUTOS)

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“Joel Birman é filósofo e psicanalista. Formado em medicina na década de 1970 é Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo e Pós-Doutorado em Paris, no Laboratoire de Psichopathologie Fundamentale et Psychanalyse (Université Paris VII). Atualmente é professor na UFRJ e UERJ.

Nesta entrevista produzida pela TVBrasil é investigada a relação entre arte e loucura. Birman desvenda as inúmeras e complexas relações entre arte e loucura e entre arte e psicanálise. No papel de analisado, o entrevistador, Aderbal participa da sessão no divã-banheira, que, desde sempre, tem sido o centro inconsciente do cenário do programa.”

Maria Rita Kehl e Michael Löwy debatem Walter Benjamin e o capitalismo como religião

Walter_Benjamin

O sociólogo franco-brasileiro Michael Löwy, um dos maiores pesquisadores da obra de Walter Benjamin, esteve no Brasil em 2013 para debater “O capitalismo como religião”, livro de ensaios inéditos de Walter Benjamin, organizado e comentado por Löwy.

No dia 25 de outubro, ele se reuniu com a psicanalista Maria Rita Kehl, que assina a orelha do livro, para um debate intitulado “Walter Benjamin, intérprete do capitalismo como religião”, na Livraria Martins Fontes da Av.Paulista.

O livro mais recente de Maria Rita Kehl é “18 crônicas e mais algumas” (http://bit.ly/17BRJtb). Seu livro “O tempo e o cão: a atualidade das depressões” (http://bit.ly/1b6LBEJ) venceu o prêmio Jabuti de melhor livro do ano em 2010.

Leia a orelha do livro, assinada por Maria Rita Kehl:http://bit.ly/1bUpU0B. E também “As armas do futuro”, ensaio inédito de Benjamin extraído do livro e comentado por Michael Löwy: http://bit.ly/16VTdOK.

Ser pai de três bloguitos dá um trampo do danado.  Mas encaro de bom grado, feliz da vida de ter uma grande ninhada na blogosfera.  E tenho feito o possível pra manter a filharada toda bem alimentada. Em breve, pretendo criar um “Portal Depredando”, mais profissa e menos ilícito, ponto-com e tudo — mas sobre isto falo mais outro dia, quando a coisa for mais concreta. Por hora, quero convidar a meia-dúzia de hóspedes desta Casa de Vidro a darem um pulo no Depredando o Cinema, blog irmão d’Orelhão, onde venho me exercitando na crítica de cinema (ou “filosofagem viajandona em cima de filmes”) desde o começo do ano. Estes dias me debrucei sobre Into The Wild – Na Natureza Selvagem, filme queridíssimo pra mim, que narra a vida de Chris McCandless, vulgo Alexander Supertramp, rebelde-aventureiro-hippongo que embarcou numa jornada espiritual-filosófica-geográfica das mais inusitadas e comoventes. Pra mim, é o maior de todos os road movies (Easy Rider que me perdoe!) e dá pano pra muita manga filosófica… Colem lá, confiram e digam o que acharam! Abs.

GERAÇÃO PROZAC – Sobre “O Tempo e o Cão – A Atualidade das Depressões”, de Maria RIta Kehl

— DESAFINANDO O CORO DOS CONTENTES 
Reflexões sobre O Tempo e o Cão – A Atualidade das Depressões
de Maria Rita Kehl

Os dados são estarrecedores:

“A Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou que os ‘transtornos depressivos’ se tornaram a quarta causa mundial de morbidade e incapacitação, e atingem cerca de 121 milhões de pessoas no planeta – sem contar, evidentemente, as que nunca se fizeram diagnosticar. Até 2020, segundo a OMS, a depressão terá se tornado a segunda principal causa de morbidade no mundo industrializado, atrás apenas das doenças cardiovasculares.” (KEHL, 2009, pg. 51)

Só no Brasil, são 17 milhões de pessoas reconhecidas como depressivas; e a comercialização de Prozac no país vem crescendo numa taxa de 22% ao ano, movimentando anualmente 320 milhões de dólares.

Yves de la Taille, por sua vez, analisa outra estatística alarmante da mesma pesquisa da OMS, de 2000, que indicou que

“o que mais mata no mundo, hoje, é o suicídio. Foram 815 mil suicídios naquele ano, contra 520 mil mortes ocasionadas por crimes e 310 mil em guerras. Ou seja, seria preciso somar as mortes decorrentes de crimes e guerras para empatar com o número de suicídios. Naturalmente, isso depende da região. Em alguns países, é a guerra que ocasiona mais mortes – como no Iraque. Em outros, como o Brasil, são os crimes. Portanto,  o mal-estar moral e ético, que pode levar a pessoa ao suicídio, manifesta-se de maneira mais forte no hemisfério norte, justamente aquele cuja cultura costuma ser considerada como a mais avançada e a mais desejável do mundo ocidental.” (DE LA TAILLE, 2009, pg. 9)

Curioso e sintomático que este “aumento assombroso dos diagnósticos de depressão”, desde a década de 70, se dê paralelamente à expansão dos tentáculos do império do consumo e do espetáculo, que exigem de todos nós que gozemos sem entraves (com a condição, é claro, de que gastemos no processo muito dinheiro!). A depressão ganha dimensões de epidemia enquanto a sociedade de consumo consegue cooptar e fazer de slogan seu até mesmo um mote de Maio de 68!

A constatação desta epidemia mundial de depressão, além do aumento significativo de pacientes que se declaram deprimidos e que procuram a clínica psicanalítica, levou Maria Rita Kehl a debruçar-se sobre o tema em seu livro  O Tempo e o Cão (ed. Boitempo). Nele, a depressão é descrita como um “sintoma social”, como a expressão generalizada de um “mal-estar na civilização” muito difundido.

“Analisar as depressões como uma das expressões do sintoma social contemporâneo significa supor que os depressivos constituam, em seu silêncio e em seu recolhimento, um grupo tão incômodo e ruidoso quanto foram as histéricas no século XIX. A depressão é a expressão de mal-estar que faz água e ameaça afundar a nau dos bem adaptados ao século da velocidade, da euforia prêt-à-porter, da saúde, do exibicionismo e do consumo generalizado. A depressão é sintoma social porque desfaz, lenta e silenciosamente, a teia de sentidos e de crenças que sustenta e ordena a vida social desta 1a década do século 21. Por isso, os depressivos, além de se sentirem na contramão de seu tempo, vêem sua solidão agravar-se em função do desprestígio social de sua tristeza. Se o tédio, o spleen, o luto e outras formas de abatimento são malvistos no mundo atual, os depressivos correm o risco de ser discriminados como doentes contagiosos, portadores da má notícia da qual ninguém quer saber.  ‘Entre nós, hoje em dia, o blues não é compartilhável’, escreve Soler. ‘Uma civilização que valoriza a competitividade e a conquista, mesmo se em última análise esta se limite à conquista do mercado, uma tal civilização não pode amar seus deprimidos, mesmo que ela os produza cada vez mais, a título de doença do discurso capitalista’.” (22)

Os deprimidos, que apesar de seu imenso número são verdadeiros “proscritos” sociais, cujos discursos ninguém parece a fim de ouvir, são descritos por Maria Rita Kehl como pessoas que estão “desajustadas” em relação ao sistema econômico e cultural imperante, e que por isso são tão incômodos: não suportam o sistema ao qual os outros estão tentando se ajustar e aceitar.

“Não há, entre os discursos hegemônicos da vida contemporânea, nenhuma referência valorativa dos estados de tristeza e da dor de viver, assim como do possível saber a que eles podem conduzir. O mundo contemporâneo demonizou a depressão, o que só faz agravar o sofrimento dos depressivos com sentimentos de dívida ou de culpa em relação aos ideais em circulação” (KEHL, 16).


>>> DE HERÁCLITO A BAUDELAIRE: O BLUES ATRAVESSA OS SÉCULOS

Na Antiguidade, excêntricas teorias, hoje obviamente obsoletas, procuravam explicar a melancolia de modo puramente orgânico: a bile negra seria a causadora destes saturninos estados de espírito. E desde então já se contrastavam grandes personalidades da intelectualidade segundo sua predisposição à gravidade ou à leveza — como no célebre contraponto entre o riso de Demócrito, que “seria uma manifestação da impossibilidade de tudo saber e da falta de sentido do mundo”,  e as lágrimas de seu “antípoda” Heráclito (KEHL, pg. 72). Também muito se sugeriu que haveria uma ligação entre melancolia e criatividade, entre depressão e genialidade, tão numerosos os artistas – de Baudelaire a Pessoa, de Virginia Woolf a Clarice Lispector – que criaram em meio à abatimentos, spleens e desassossegos extremos.

Partindo da interpretação de Benjamin sobre Baudelaire, Maria Rita sustenta que

“o heroísmo de Baudelaire não consiste em se fazer defensor da multidão fascinada e consumida pelas mercadorias e pelo trabalho braçal que a aproxima e afasta do brilho das mercadorias. Consiste apenas, o que já é muito, em descrer de tal fascínio.” (KEHL, pg. 75)

Os depressivos de hoje, pois, são como pequenos Baudelaires, apesar de raramente atingirem seu gênio poético e sua potência expressiva, que também não deixam-se fascinar e conquistar pelo cortejo das coisas a consumir nem pela atração do trabalho mecanizado, monótono e mau-pago.

Por isso, do mesmo modo como há um “sentido político no dandismo” de Baudelaire, há um sentido político nos deprimidos que escondem-se debaixo de suas cobertas, como um modo de retirarem-se de um jogo social que são incapazes de jogar. Isto passa também pela Indústria Cultural, tão severamente esmiuçada e criticada por Adorno e a Escola de Frankfurt, e pela Sociedade do Espetáculo teorizada por Guy Debord —

“imagens que aparentemente se diversificam para repetir sempre o mesmo mandato”, escreve Maria Rita, “uma nova forma de discurso único, fundado sobre razões de mercado, muito mais eficaz do que a dominação da Igreja na Idade Média – já que a norma contemporânea se impõe pela sedução, não pela interdição.” (KEHL, pg. 92)

Vivemos numa sociedade radicalmente constrastante com a medieval, onde o gozo carnal e sensível era condenado e anatemizado — repressão sexual e hedônica sustentada pelo poderio opressor de uma Igreja toda-poderosa. Hoje, o ascetismo e a moderação saíram completamente de moda frente às centenas de canais de TV, a proliferação da pornografia na Internet e fora dela, as técnicas de obsolescência programada dos produtos e às técnicas publicitárias que nos convidam a consumir sem cessar. Este imperativo de gozo se articula, é claro, com os ideais de eficácia econômica:

“Tal articulação subverteu os ideais de renúncia pulsional que oprimiam os contemporâneos de Freud, convocados a sacrificar suas modestas possibilidades de prazer em favor da produtividade, no período de consolidação do capitalismo industrial.” (KEHL, pg. 92)

Passamos para a fase do “capitalismo consumista” —  sistema que adora propagandear que devemos perseguir a “felicidade”… obviamente comprando-a no hipermercado e no shopping center. Devemos sim desejar ardentemente o gozo, desde que para gozar procuremos as satisfações enlatadas pela Coca-Cola ou por Hollywood! O problema é que todos aqueles que não conseguem “amar tudo isso” ou “ser um tigre”, como pedem alguns slogan publicitários, nem ter uma família Doriana toda-fofura ou um sorriso Colgate de orelha-a-orelha, sentem-se uns fodidos na vida. E deprimem-se ao não poderem encarnar o ideal do consumidor-satisfeito-sorridente-e-saltitante que o capitalismo-consumista solicita que sejam.

“O depressivo é aquele que se retira da festa para a qual é insistentemente convidado; sua produção imaginária empobrecida não sustenta as fantasias que deveriam promover a crença na combinação aparentemente infalível entre o espetáculo e o capital. Os depressivos, cujo número parece aumentar na proporção direta dos imperativos de felicidade, são incômodos na medida em que questionam esse projeto.” (KEHL, 104)

São eles que “desafinam o coro dos contentes”, para usar o brilhante verso de Torquato Neto, e que “afundam a nau dos bem adaptados ao século da velocidade”, do entretenimento fútil e do consumo desenfreado.

* * * * *

>>>PROZAC GENERATION!

Outra hipótese que tenta explicar o exponencial crescimento de diagnósticos de depressão é a da ganância da indústria farmacêutica que, estando a fim de faturar milhões no Prozac e demais painkillers, instiga a medicalização de qualquer tristezazinha ou bode passageiro. Mas não será “teoria-da-conspiração” demais julgar que estas empresas multinacionais fabricantes de remédio tem este poder todo? Tão grande oferta de medicação não seria devida à imensa demanda? Ou as multinacionais teriam culpa na própria criação desta demanda? Decerto que já sabemos que ela é capaz de diabólicas maquinarias – escancaradas em filme por Fernando Meirelles em O Jardineiro Fiel, por exemplo, no qual o continente africano serve como fonte de cobaias para o teste de remédios de duvidosas consequências para o organismo humano.

Maria Rita Kehl critica vigorosamente a tendência “medicamentosa” que procura extirpar de modo imediato a depressão (ou algo erroneamente diagnosticado como tal) receitando remédios – sintoma de uma sociedade viciada em soluções rápidas e conflitos quimicamente desfeitos.

“O projeto pseudo-científico de subtrair o sujeito – sujeito de desejo, de conflito, de dor, de falta – a fim de proporcionar ao cliente uma vida sem perturbações acaba por produzir exatamente o contrário: vidas vazias de sentido, de criatividade e de valor. Vidas em que a exclusão medicamentosa das expressões da dor de viver acaba por inibir, ou tornar supérflua, a riqueza do trabalho psíquico – o único capaz de tornar suportável e conferir algum sentido à dor inevitável diante da finitude, do desamparo, da solidão humana.” (53)

O processo de “cura” da depressão, ao invés do apelo ao imediatismo da farmacopéia, deve ser vagaroso: o deprimido deve aprender a “viver em seu próprio tempo” ao invés de sentir-se fora dos trilhos do tempos dos outros. Isso porque a “experiência subjetiva do tempo” que possuem os depressivos, frisa com insistência Maria Rita Kehl, é extremamente empobrecida. A depressão é vista por Kehl como uma “doença do tempo”, causada por uma certa desarmonia cacofônica entre o tempo subjetivo e o tempo-dos-outros (ou ainda, o tempo imposto pelo sistema econômico atual, frenético e apressado, que não suporta perder os segundos que são centavos…).

Pois se o depressivo sente-se apático, abatido, entediado, como se vivesse num tempo estagnado e onde “nada acontece”, é principalmente devido à sua incapacidade de “distender a temporalidade” — ele encontra-se num presente desvinculado do passado (tanto o pessoal quanto o coletivo) e do futuro (dada a atrofia de sua vontade e de seu desejo). “A duração, para o depressivo, frequentemente adquire a forma insuportável de um tempo estagnado, sem apoio em nenhuma lembrança significativa do passado, sem nenhuma fantasia que torne o futuro desejável.” (KEHL, 140) Lembremos da linda idéia de Virginia Woolf, que dizia que o tempo presente flui como um rio, mas é o passado que confere profundidade às águas…

Neste sentido, a psicanálise representaria uma possibilidade, para o depressivo, de vivenciar uma “temporalidade distendida”, onde o frenêsi e a pressa do “mundo-lá-fora” fossem substituídos pela calmaria e pelo silêncio — um “lugar” onde, mediado pela escuta do analista, a pessoa pode reencontrar sua temporalidade perdida, tanto num mergulho em suas reminiscências quanto na tentativa de construção de objetivos, projetados no futuro, que encham seu horizonte com ilhas cuja conquista pode ser desejada.

“Na duração do tempo diacrônico instaurado por essa ‘magia lenta’ que é a psicanálise, os depressivos se instalam aliviados, sem pressa, seguros de que é dessa temporalidade distendida que eles precisam para se libertar da pressão aniquiladora das demandas do Outro” (KEHL, 119).

Muitas outras explicações e hipóteses sociológicas e psicológicas podem ser arroladas na tentativa de explicar tamanha difusão de depressão e suicídio neste nosso início de século. Eu aqui gostaria de rapidamente sugerir uma, aliás nada original, que a Maria Rita Kehl comenta muito de leve, sem desenvolver a idéia: o fato de que os grandes centros urbanos, além da imposição de um estilo de vida frenético e de imperativos de consumo-feliz que são metralhados de todos os lados, são também formigueiros tão super-lotados que para muitas pessoas o convívio social torna-se um horror.  O inchaço das metrópoles faz com que as pessoas, por serem muitas, acabem por se “chocar” mais, de modos desagradáveis e irritadiços, como os porcos-espinhos de Schopenhauer. Claro que o ser-humano é um animal social, que procura a companhia dos seus, mas nos grandes centros o formigamento é tamanho que a presença dos outros, tornando-se compulsória e invasiva, fere aquela película que protege o que Goethe chamava de nossa “cidadela interior”. O depressivo, se esconde-se no subsolo, como o anti-herói do livro de Dostoiévski, talvez seja para escapar do fardo de pertencer a uma imensa massa, ruidosa e apressada, muitas vezes hostil e irritada, do qual ele não passa de uma ínfima parte… Situação que faz com que ele, ao invés de se sentir “acompanhado” e “acolhido”, sinta uma desagradável anomia e angústia por estar “apagado” em meio aos outros, com um destroço que flutua inotado pelos mares da multidão indiferente… Trancado em seu quarto, ele pelo menos pode ter a revigorante sensação de ser seu próprio centro (ainda que só dor e solidão se irradiem deste centro…).

Como conheço pouquíssimo de sociologia, não posso desenvolver estes argumentos com pesquisas e estatísticas que certamente estão sendo realizadas mundo afora averiguando as relações entre a vida nas grandes metrópoles e as patologias psíquicas como a depressão; mas largo aí estas idéias por sentir que são referendadas pela minha experiência pessoal de 5 anos morando na maior cidade da América Latina, onde eu tantas vezes tenho preferido permanecer no meu “subsolo” assistindo filmes de Bergman ou com um romance russo em mãos a enfrentar este monstro de mais de 15 milhões de cabeças chamado São Paulo…

Para finalizar, deixo uma das conclusões mais marcantes que a Maria Rita tira deste seu longo estudo sobre a relação entre a depressão e nossa cultura, além de uma canção que é uma das melhores expressões de desolação na arte dos últimos anos:

“O que distingue a sociedade de consumo não é o fato de que todos comprem incessantemente os bens em oferta, acessíveis a poucos, mas que todos estejam de acordo com a idéia de que tanto o sentido da vida social como o valor dos sujeitos sejam dados pelo consumo. Dito de outra forma, o que caracteriza a sociedade de consumo é o fato de que o fetiche da mercadoria, acrescido do valor (imaginário) de gozo, seja o verdadeiro organizador do laço social.” (KEHL, 100)