Mal-educado e deseducador, governo Bolsonaro quer impor sua boçal estupidez ideológica ao país

O Brasil atual é como um pesadelo do qual não conseguimos despertar. No Ministério da Educação, o show de horrores é ininterrupto. O Ministro escolhido por Bolsonaro – que “trabalhou em cursos mal avaliados e fechados pelo MEC” (UOL) –  já declarou que o Escola Sem Partido é “providência fundamental” e que o golpe de 1964 é um “evento a ser comemorado”; disse que “é bobagem pensar na democratização da universidade”, o bom mesmo é reservar a educação superior de qualidade para uma minúscula elite a ser “formada” através do “pensamento” de grandes luminares nacionais como… Olavo de Carvalho e Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Agora, a BBC Brasil confirma que o Governo Bolsonaro não consegue descer do palanque e tem como única diretiva a repetição imbecil de seus slogans de campanha: “MEC pede que escolas toquem hino e leiam carta com slogan de Bolsonaro; advogados criticam.” De fato, é gravíssimo que o Ministério da Educação, encabeçado pelo colombiano Vélez Rodriguez, um notório Olavete que andou pregando “faxina ideológica” nas páginas amarelas de Veja, seja capaz desse nível de baixeza cognitiva e desprezo pela democracia. 


É o cúmulo do ridículo que, com tanto trabalho importante para fazer em prol da educação pública brasileira, este Senhor direitoso e delirante esteja endereçando a escolas de todo o país uma carta que contêm o slogan de campanha Bolsonarista: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!”.

O repúdio a este absurdo, por parte de todos os educadores, precisa vir com força. Marcelo Freixo e PSOL já se mobilizam neste sentido: segundo O Globo, “Parlamentar do PSOL quer que ministro da Educação responda por crime de responsabilidade após mensagem dirigida a estabelecimentos de ensino.”

O horror desta carta patética é multiforme. Primeiro, pois este lema neofascista evoca o “Deutschland über alles” tão mobilizado pelo III Reich Hitlerista para praticar seus genocídios. Depois, pois “Brasil acima de tudo”, além de chauvinismo tosco e populismo imbecil, é uma piada de mau gosto na boca dessa extrema-direita entreguista e subserviente ao Império Yankee sob a batuta do supremacista branco e troglodita xenófobo Donald Trump.

Como se não bastasse, esse “Deus acima de todos” traz o sabor amargo do fanatismo religioso mais obscurantista, violando todos os ideais de laicidade que herdamos do Iluminismo. Ideais políticos típicos de uma teocracia medieval e pregações de uma fé cristã compulsória não são elementos desejáveis em instituições dedicadas à educação autêntica.

Vélez Rodriguéz inaugura um período tenebroso do MEC, em que prega-se uma subserviência estúpida a ritos mofados: alunos perfilados diante da bandeira, cantando o hino nacional como papagaios amestrados, repetindo o slogan eleitoral tantas vezes pervertido por ter saído da boca infame  de um notório apologista de torturadores e grupos de extermínio.

Em breve, “A Verdade Sufocada” de Ustra será inserido na bibliografia básica de História? Começarão grandes fogueiras de livros em que queimarão Marx, Rosa Luxemburgo, Gramsci e Florestan Fernandes? Em breve, celebrar-se-á a instalação de estátuas em louvor a Olavo de Carvalho em nossas universidades, enquanto comemoram-se, em eventos regados a regalias, o sucesso do “extermínio” de Paulo Freire e da Pedagogia do Oprimido?

Vale lembrar que o candidato Bolsonaro, em campanha, havia dito que ia colocar alguém no MEC que lidasse com Paulo Freire e a Pedagogia do Oprimido na base do “lança-chamas”. Vélez Ródriguez é o escolhido pelo governo de extrema-direita para o deletamento do legado de um dos maiores pedagogos e intelectuais do século 20, reconhecido mundo afora por suas contribuições inestimáveis ao pensamento e às práticas sobre educação.


O Ministro solicita ainda que as escolas filmem os “espetáculos cívicos” e enviem ao Ministério. Talvez para que sejam usados em propaganda lava-cérebros em que o novo regime mente sobre seu “sucesso” enquanto nos enfie goela abaixo a nova versão da Educação Moral e Cívica.

Pior ainda: os vídeos talvez possam servir para que o MEC possa denunciar e perseguir os “marginais vermelhos” que não cantam o Hino, ou que não dizem “Heil Bozo” ao slogan de campanha transformado em lema fascista de governo. As crianças e jovens que se mostrarem irreverentes ou rebeldes serão estigmatizadas como problemáticos e doentios, pois praticam a desobediência civil aos ditames da nova ditadura? Quem se recusar a seguir tais ditados será merecedor dos paus-de-araras do regime Bozoasnal?

Para além do absurdo que é um MEC que passa a estar lotado de militares, fanáticos da disciplina mais autoritária e interessados na militarização das escolas, agora temos um fanático da ideologia ultra-liberal na economia e ultra-conservadora nos costumes encabeçando um processo de idiotia viralizável que ameaça-nos com seu perigoso contágio.

Em um texto de título altamente sarcástico, Um aiatolá assume a educação no Brasil, Clóvis Rossi escreveu na Folha de S. Paulo:

“A ideia do escolhido para ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, de criar ‘ conselhos de ética’ para zelar ‘ ‘pela reta educação moral dos alunos’ tem todo o cheiro da polícia moral adotada no Irã (entre outros países muçulmanos, como a Arábia Saudita).
(…) Quem é que vai definir o que é ‘reta educação moral’? Um ministro que acha que se deve comemorar o golpe de 1964, aquele mesmo que prendeu, sequestrou, matou, torturou, baniu e exilou milhares de pessoas, censurou a imprensa, fechou o Congresso, cassou mandatos políticos e praticou outras barbaridades?
Os aiatolás, no Irã, fazem a mesmíssima coisa e também acham que estão apenas enquadrando a população no que consideram os bons costumes.
O problema principal para a implantação da tal Escola sem Partido passa exatamente por aí: quem vigia o comportamento dos professores para assegurar que eles não se desviem da ‘reta educação moral’? Aliás, primeiro seria preciso haver um razoável consenso na sociedade em torno do que é educação reta.
Para o meu gosto, por exemplo, educação reta é aquela que festeja a democracia, não a ditadura, como pretende o ministro indicado. Sem esse consenso – quase impossível de alcançar dada a imensa variedade de comportamentos que se encontram habitualmente em sociedades complexas –, só a implantação de uma polícia moral para vigiar professores (e alunos, claro).”

Vale lembrar que o famigerado slogan foi mobilizado em uma das campanhas eleitorais mais sórdidas de todos os tempos. As pilantragens praticadas pelo PSL (Partido Suco de Laranja) não param de abalar o início do (des)governo daquele sujeito que, em 27 anos como deputado, nada fez de bom além de enriquecer a si mesmo e a seus filhos.

O partido, que vomitou um monte de perfídias sobre o PT, já revelou-se como um partideco medíocre e sem moral, que abusou de laranjas e de caixa 2 para promover uma campanha ilegal e fraudulenta. O PSL entrará para a História como o pigmeu criminoso que é. O Partido dos Trabalhadores, com seus quase 40 anos de História, saberá sobreviver a este acintoso ataque dos laranjeiros corruptos e amicíssimos de milicianos.

Presidente ilegítimo pois eleito através de fraudes e golpes em série, Bolsonaro está onde está em virtude de vários crimes. A começar pela compra de pacotes para disparo de fake news e propaganda fascista, que foram comprados com capital ilegal, não declarado à Justiça Eleitoral, como denunciado amplamente pela imprensa após furo da Folha de S.Paulo ainda no período eleitoral (#Caixa2doBolsonaro).

Bolsonaro e seus cupinchas jogaram sujo, praticando calúnia e difamação às enxurradas para denegrir a candidatura petista. Espalhando mentiras sobre Haddad, Manu e Lula, mobilizaram através da ira e da mentira, e agora nada tem a propor senão uma catarata de retrocessos que impõe a miséria e a degradação da dignidade à imensa maioria do povo brasileiro. Ilusão crassa deles, usurpadores do poder, acreditar que os trabalhadores da Educação irão aceitar esta enxurrada de desmandos e absurdos.

Além disso, sabe-se que o ex-capitão do Exército, que fez campanha vomitando ódio e intolerância por todos os poros, dizendo que ia “metralhar a petralhada” e que MST e MTST seriam enquadrados como “organizações terroristas”, só venceu estas eleições fraudulentas pois Lula estava injustamente encarcerado pela lawfare de Moro e sua trupe.

Líder disparado em todas as pesquisar de intenção de voto, Lula hoje seria presidente da república caso não tivesse sido golpeado pelos mesmos beneficiários do Golpe de Estado que encerrou prematuramente o mandato de Dilma Rousseff.

Os “novos tempos” de que fala Vélez Rodriguez fedem à velharia: é de novo a reedição do autoritarismo fanático de homens brancos e ricos que pretendem impor ordem aos outros enquanto gozam impunes de seus privilégios injustos e riquezas roubadas.

Na Era das Mamatas, os lambe-botas de Trump querem nossos estudantes bestificados diante da bandeira brasileira, cantando hino nacional e repetindo lema fascista. Querem também uma juventude tão bestificada que se preste ao serviço de ser bucha-de-canhão da intentona golpista e da guerra petrolífera na Venezuela.

Se, no caso de Lula, inexistem provas mas sobram convicções, no caso de Bolsonaro e seu time as provas são inumeráveis de que se trata de um bando de idiotas, mau-educados e deseducadores, que querem impor sua boçal estupidez ideológica ao país. Após berrarem que “nossa bandeira jamais será vermelha”, agora tratam de sujá-la com o nosso sangue derramado. O dia da eleição de Bolsonaro merece ser tido como um dia da vergonha nacional e um preocupante sintoma do grau de insanidade e irracionalidade a que podem ser conduzidos massas de eleitores quando bestificados por um populismo violento e odioso que vomita desumanidade por todos os poros:

A esse festival de barbaridades de um dos governos mais péssimos da história da república, diremos, em coro, em massa, nas ruas e nas redes, nas greves e nas ocupas, o nosso “não!” coletivo a esta campanha grotesca de deseducação. Não passarão!

A Casa de Vidro

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ESCOLAS DE LUTA: O livro que conta a história das ocupações dos secundaristas em São Paulo, 2015

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ESCOLAS DE LUTA

por Antonia M. Campos, Jonas Medeiros, Márcio M. Ribeiro

COLEÇÃO BADERNA – EDITORA VENETA – 2016
http://www.lojaveneta.com.br/produtos/escolas-de-luta/

APRESENTAÇÃO OFICIAL DO LIVRO: No final do ano de 2015, surgiu um movimento social sem precedentes na história brasileira, tanto por sua dimensão quanto por suas táticas, quando mais de 200 escolas públicas estaduais de São Paulo foram ocupadas pelos seus alunos. Eles lutavam contra o plano do governo de fechar 94 escolas inteiras e centenas de turmas, realocando estudantes e superlotando salas. O caso das primeiras escolas ocupadas causou pânico das autoridades, que reagiram com ameaças e violência, mas foi impossível conter o movimento e o numero de ocupações cresceu em uma velocidade impressionante: Zona Leste, Norte e Sul da Capital, Jandira, Mauá, Osasco, Ribeirão Pires, Santo André, Campinas, Franca, Santa Cruz das Palmeiras, Bauru, Jundiaí…. de repente havia escolas ocupadas por todo o Estado, do interior ao litoral, dos centros às periferias. A Polícia Militar foi chamada por diretores desesperados e diversos casos de violência e sabotagem contra os estudantes foram registrados. Mas junto com a repressão também veio a solidariedade dos pais, de professores, das comunidades, de artistas, de toda a sociedade. Os estudantes paulistas foram vitoriosos – forçaram o governador a recuar, suspendendo o projeto de “reorganização escolar”, e derrubaram o secretário de educação – e, logo em seguida, a mesma tática começou a ser utilizada por estudantes de outros estados na luta pela educação pública de qualidade. Este livro é uma tentativa de reconstruir a luta contra a “reorganização” da perspectiva deles e delas.

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‘Escolas de luta’: o livro que conta a história das ocupações dos secundaristas em SP
por Débora Lopes para a Vice

Se houve alguém que riscou o fósforo e incendiou o debate sobre educação pública brasileira nas últimas décadas foram os estudantes secundaristas de São Paulo durante o segundo semestre de 2015. A pressão feita por eles com as ocupações das escolas estaduais fez com que o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) retrocedesse no plano de reorganização que pretendia cumprir, fechando unidades e transferindo alunos arbitrariamente. A luta se estendeu pelo Brasil. Exitosa, a primeira experiência política de boa parte dessa meninada serve como mote do livro Escolas de Luta, da editora Veneta (compre na Estante Virtual).

A publicação, que já se encontra nas livrarias, é assinada pelo trio acadêmico formado por Antonia M. Campos, mestre em sociologia pela Unicamp; Jonas Medeiros, doutorando em educação pela Unicamp e pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento); e Márcio M. Ribeiro, professor do bacharelado em sistemas de informação na EACH/USP e membro do GPoPAI (Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Acesso à Informação).

Na época, ainda sem a pretensão de fazer um livro, Antonia e Jonas passaram a frequentar as ocupações e entrevistar os estudantes a fim de registrar e coletar dados. “Quando um evento histórico pega os cientistas sociais de surpresa, não há tempo de ir a campo enquanto aquilo existe. E depois ficamos todos correndo atrás do prejuízo para reconstruir empiricamente determinados processos”, pondera Antonia. Na sequência, Márcio, que já possuía experiência de militância autônoma e em ocupações, se juntou à dupla.

Antonia delimita um ângulo essencial que desencadeou nas escolas ocupadas e foi pouco – ou quase nada –­ explorado pela imprensa. “Muita gente acha que as ocupações foram as primeiras medidas tomadas pelos estudantes contra a ‘reorganização’, mas, na realidade, elas foram uma última medida, quase de desespero, mas deu muito certo”, pontua a socióloga. “Antes disso eles tinham tentando de tudo, desde atos de rua até apelos ao secretário, a vereadores e aos dirigentes regionais de ensino.” A VICE, inclusive, esteve em um dos protestos organizado pelos secundaristas, que terminou com carros apedrejados e bombas de gás lacrimogêneo arremessadas pela Polícia Militar (PM) em frente ao Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, sede administrativa do governo Alckmin.

O trio de pesquisadores teve como objetivo alcançar as escolas ocupadas na periferia e na Grande São Paulo, já que o foco da imprensa eram as unidades localizadas na região central. As reações dos alunos, conta Antonia, eram das mais diversas. Em alguns momentos de desconfiança, as entrevistas foram realizadas na calçada. Já outros estudantes convidavam os pesquisadores para almoçar e fazer tours pelas ocupações.

“Ficamos impressionados tanto com a convicção no discurso quanto com a resistência na prática”, rememora a pesquisadora, que viu os jovens se organizando em comissões de limpeza, comunicação e segurança. Nas escolas, não havia hierarquia. Não havia um movimento estudantil sólido ou partidário por trás do planejamento dos próprios alunos. Cada um cumpria com suas funções. “Uma força assim, considerando que se tratou da primeira experiência de luta de muitos ali, só pode vir da concretude daquela indignação. Não foi uma indignação que veio de fora, trazida por uma ideia abstrata de educação pública, foi uma revolta que nasceu da vida escolar daqueles sujeitos, a partir dos problemas vividos ali.”

Escolas de Luta é recheado de histórias, depoimentos, informações e reproduções do que alguns veículos publicaram na época. “Não há pretensões acadêmicas ou grandes interpretações, é um livro que tenta reconstruir um processo do ponto de vista dos estudantes, com o objetivo de registrar e potencializar suas vozes”, define a socióloga.

A publicação traz a curadoria de imagens do fotojornalista Jardiel Carvalho, integrante do R.U.A Foto Coletivo e colaborador frequente da VICE. As fotos que aparecem nesta matéria estão no livro e já haviam sido publicadas por aqui. Já a imagem que ilustra a capa do livro é do fotógrafo Sérgio Silva.

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ASSISTA:

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ACABOU A PAZ
de Carlos Pronzato

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“Alguns alunos passam de ano,
outros passam à História…”

A onda de ocupações que dissemina-se pelo país afora em Outubro de 2016 talvez seja inédita na História – não só do Brasil, mas do mundo. Já houve algum país neste planeta que tivesse passado por um movimento Ocupista desta magnitude? No Chile, no auge da mobilização estudantil de 2011, o placar atingiu cerca de 600 escolas ocupadas; o Brasil têm condições plenas de, nos próximos dias, dobrar esta meta: estamos à caminho de 1.200 ocupas. A profecia que muitos manifestantes em Goiânia tem bradado nas ruas – “acabou a paz, isso daqui vai virar o Chile!” – já é realidade. Agora o movimento em prol da educação pública têm, no Brasil, uma oportunidade histórica de checar, na prática, a potência transformadora e emancipatória da tática das ocupações, tão em voga desde o Occupy Wall Street e das praças públicas tomadas pelas insurreições da Primavera Árabe. Avante, galera, até a derrubada da PEC 241, da (D)eforma do Ensino Médio via MP e do próprio (des)governo de Michel Temer! (Carli, 22 10 16)

Siga: A Casa de Vidrowww.acasadevidro.com

Veja também: Vídeo da manifestação em Goiânia no último dia 18-10 >>> https://www.facebook.com/blogacasadevidro/videos/1586578498035136/

#pecdofimdomundo #foratemer

“ACABOU A PAZ – ISTO AQUI VAI VIRAR O CHILE”: a saga dos estudantes secundaristas de São Paulo no documentário de Carlos Pronzato (assista na íntegra)

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Acabou a Paz – Isto aqui vai virar o Chile

Um filme de Carlos Pronzato. Documentário, 2016, 60 min.

A obra de Carlos Pronzato ganha, na atualidade, uma relevância extraordinária, que demonstra a potência do documentário como veículo de informação emancipatória e de auxílios imprescindíveis à nossa reflexão e ação. Em Outubro de 2016, quando em repúdio à PEC 241/55 e a Reforma do Ensino Médio, mais de 1.000 escolas e universidades públicas foram ocupadas, evento sem nenhum precedente histórico, a velha mídia vendida lançou sobre isto o breu de seu apagão, mas o documentário revelou-se então como muito mais que um gênero cinematográfico: revelou-se como abrigo e salvaguarda do jornalismo genuíno, do jornalismo digno desse nome. Os nossos melhores documentários servem como ferramenta para civilizar um pouco a barbárie desse nosso capitalismo ultraliberal fascistóide e repressor,que lucra com a alienação e quer obstaculizar o pensamento crítico com Escolas Sem Partido que só nos amordaçam. A arte documentário, como provam os filmes de Pronzato, é capaz de ser o antídoto necessário ao veneno asqueroso daqueles que vêem aluno politizado e mobilizado somente como arruaceiro, baderneiro e inimigo público – digno somente do cacete da polícia, da bronca dos pais, quem sabe de uma temporada no hospício… Quando, na real, é nas ocupas que a juventude brasileira têm demonstrado todo o seu imenso valor e todo o maravilhoso ímpeto de sua justa revolta. Alguns alunos querem passar de ano, outros preferem passar à História. Assistamos, juntos, com atenção e diálogo intensos e fecundos, aos filmes “Acabou a Paz – Isto Aqui Vai Virar o Chile”, “A Revolta dos Pinguins”, “A Partir de Agora – As Jornadas de Junho”, “Por Uma Vida Sem Catracas”, dentre outros, pois o cinema de Carlos Pronzato tem um bocado a ensinar-nos nestes urgentes momentos de que somos contemporâneos. (Carli, 22-10-16)
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“Argentino radicado no Brasil desde os anos 1980, Carlos Pronzato transita pela literatura, teatro e cinema. Mas é como documentarista que obtém maior reconhecimento. Seu documentário sobre as Madres de Plaza de Mayo na Argentina foi premiado internacionalmente.
Para quem acompanha os movimentos sociais e suas revoltas, sabe que Pronzato ‘está em todas’: Pinheirinho, MTST, Passe Livre. Sempre atento, é autor do filme sobre a ‘Revolta do Buzu’ que em 2003 parou Salvador contra o aumento da tarifa do transporte público. De lá pra cá o tema o aproximou do MPL, de quem já fez outros tantos documentários, como o ótimo ‘A partir de agora – as jornadas de junho’.
Em 2006 fez o registro das ocupações das escolas pelos estudantes chilenos. O material rendeu o famoso documentário ‘A Rebelião dos Pinguins’ que serviu de inspiração para os estudantes brasileiros no ano passado. E é sobre as ocupações dos alunos paulistas que trata seu mais recente filme: ‘Acabou a paz, isto aqui vai virar o Chile – Escolas ocupadas em São Paulo’.

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DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO:
Entrevista com Pronzato

DCM: O que o motivou a realizar o documentário?

O que me trouxe é o percurso que venho fazendo com o tema estudantil, que venho fazendo há muito tempo. Algo que começou com a Revolta do Buzu em Salvador em 2003, que impulsionou a criação do Movimento Passe Livre, e também em 2006 quando tem a Rebelião do Pinguins, material que foi muito utilizado pelos estudantes daqui assim como uma cartilha feita pelos estudantes chilenos para as ocupações.

É inevitável a comparação com o Chile. Que paralelo você faz?

Faltou apenas um item para serem idênticas. Claro, não se pode dimensionar identicamente Chile com Brasil, mas Alckmin é o ‘presidente’ deste país chamado São Paulo. Lá houve o recuo da presidente Bachelet, aqui houve o recuo de Alckmin. O Secretário de Educação caiu lá e o daqui também. Portanto o que faltou aqui, por ser muito complicado, por estar fortemente instalado, foi a queda do Secretário de Segurança. Lá caiu, aqui não. Quem promoveu a repressão contra os estudantes foi exonerado no Chile, mas aqui ninguém toca.

A vitória dos estudantes no Chile tem reflexos até hoje. Aqui elas foram temporárias e tudo indica que o governador inclusive esteja atuando de modo a burlar o próprio cancelamento, por quê?

A duração dos dois eventos é muito diferente. Aqui não chegou a sessenta dias enquanto no Chile a revolta durou mais de sete meses. E também tem o calendário, infelizmente pegou o final do ano. Mas tem um aspecto importante que precisa ser considerado que é a possibilidade de o movimento não ter acabado. No Chile, depois de 5 ou 6 anos da revolta houve uma refervura em 2011, e daí vieram essas outras conquistas a que você se referiu. E sobre isso é muito interessante saber que os secundaristas daqui possuem mais referências do que aconteceu no Chile em 2011, mas o filme que serviu de ‘inspiração’ é o que fiz em 2003. Foi uma soma dos dois episódios.

Então isso leva uma outra questão: não é arriscado realizar um documentário sobre algo tão recente e talvez inconcluso, que pode estar apenas em um momento de pausa?

Mas a palavra é essa mesma, eu vi que tinha uma pausa. Esse é o recorte dado até este momento, dá para fechar uma narrativa. Pode ser que as ocupações voltem, mas quando? No Chile levou quase 6 anos. Aqui, tudo depende de quando o governador irá tentar novamente. A intenção é que a divulgação deste material estimule a possibilidade de uma continuidade imediata da luta.

Documentário é uma forma de ativismo ou jornalismo?

Ativismo total. Eu não sou jornalista, estou no campo das artes. Venho do teatro, da literatura. Minha inserção no documentário é um recorte muito subjetivo. A mídia influi e molda o senso comum, contra o qual a gente luta. Porque quando se está na rua e se vê a polícia jogar bombas em estudantes, é revoltante saber que tem gente que é induzida a aplaudir isso.

Minha intenção é manter viva a memória da luta dos secundaristas.

Você está há muitos anos documentando revoltas sociais. No seu documentário sobre a revolta do Buzu em 2003, em determinado momento o então prefeito Antonio Imbassahi afirma que estava acompanhando tudo atentamente pela TV. Em junho de 2013, Dilma disse a mesma coisa. O poder público está sempre tão distante da realidade a ponto de só saber do que ocorre através da mídia?

É por isso que aconteceu o que aconteceu. À medida que movimentos sociais, mesmo os de esquerda, se inserem numa estrutura institucional, vão se perdendo. A grande armadilha é você entrar na insituição e passar a viver diariamente com ela. E esse distanciamento é que cria as revoltas populares. O que aconteceu em 2013 é preciso colocar num contexto mundial, sem dúvida, mas há uma leitura hipócrita sobre isso por parte dos governistas. Dizer que as pessoas haviam conquistado um status econômico e que estavam indo às ruas para exigir mais, é ridículo, não sei de onde surgem elucubrações sociológicas que dizem coisas como essas. O que eu vi, particularmente, foi uma recusa do Estado como uma estrutura de repressão contínua, independentemente dos gestores do capital.

Para aqueles que ainda não compreenderam a questão (como o atual Secretário de Educação que em entrevista na data de ontem demonstrou estar em dúvida ‘se’ os alunos aceitam a reorganização), o filme está disponível no canal Youtube e ao longo da semana apresentações públicas serão realizadas com a presença do diretor.

ASSISTA OS FILMES DE PRONZATO: