MARTÍRIO COTIDIANO NA PALESTINA BRASILEIRA – Sobre o documentário “Martírio” de Vincent Carelli

MARTÍRIO COTIDIANO NA PALESTINA BRASILEIRA

Goiânia, 19 de Março: após a exibição de “Martírio”, no III Fronteira Festival, estávamos comovidos e indignados dentro do Cine Ritz, com corações e mentes transtornados pelas 2 horas e meia de imersão em uma tragédia de vastas dimensões. Tínhamos sido atingidos por um filme-furacão, daqueles que não permite que ninguém descanse no sono da omissão.

Aquele cinema, antes mero espaço para entretenimentos fúteis e blockbostas comerciais, foi transformado por algumas horas em um local de intensa conscientização social, de fecundo debate político e de expansão de conhecimentos salutares sobre nossa vida coletiva, repleta de antagonismos e desencontros. Foi uma das sessões de cinema mais memoráveis e contundentes desta minha vida de cinéfilo. O cinema está no mundo, e não apenas para refleti-lo ou representá-lo; trata-se, sim, de transformá-lo ou mesmo de subvertê-lo. 

No debate que se seguiu à projeção do premiado documentário, o cineasta Vincent Carelli comunicou à platéia algumas noções saudavelmente subversivas sobre a resistência dos povos indígenas contra o processo de genocídio que vêm sofrendo. “Resistir até a morte não é suicídio, é martírio”, ouvimos ele argumentar, com pleno conhecimento de causa. Ele nos incita ainda a mirar-nos no exemplo da desobediência civil praticada por tanta gente aguerrida que põe-se em ação para a retomada das tekohas (territórios tradicionais ou terras sagradas), roubadas das comunidades Guarani pela ladroagem oficializada do latifúndio e do agrobiz.

Neste Março de 2017, em um momento histórico em que a operação Carne Fraca revela a imensidão das violações éticas os grandes frigoríficos, torna-se cada vez mais explícito que as megacorporações da agropecuário e seus latifúndios retiram seus vastos lucros de imensas torrentes de suor sangue popular que derramam, além de propinas que pagam a políticos corruptíveis através do famigerado financiamento empresarial de campanhas (sobre o tema, leia: Igor Fuser, Alceu Castilho, Xico Sá, BBC, Repórter Brasil).

O foco do filme é a resistência do povo Guarani-Kayowá, mesmo diante das circunstâncias mais adversas e dos perigos mais potencialmente letais, e não o suicídio. O suicídio, aliás, é muitas vezes conectado pelo senso comum a uma espécie de auto-supressão covarde, de rendição diante de desafios que o sujeito desiste de encarar. Em contraste, no caso Guarani-Kayowá, abundam exemplos de coragem extrema diante da perspectiva palpável da morte violenta, pela mão dos pistoleiros mercenários que defendem a “propriedade” dos mega-fazendeiros e latifundiários, uns cowboys fascistas que cagam e andam, imitando os rebanhos de que são donos, sobre os direitos dos povos originários e sobre os direitos humanos em geral.

Vincent Carelli, antropólogo e documentarista, realizador de “Martírio” e “Corumbiara”, além de idealizador do projeto Vídeo Nas Aldeias

Naquilo que Vincent Carelli chama de “A Palestina Brasileira”, os povos Guarani tiveram seus territórios originais surrupiados pelo Estado nacional servil aos interesses do agro-capitalismo, com áreas demarcadas minúsculas e às vezes assemelhadas a campos de concentração. Os suicídios e os homicídios misturam-se para fabricar a tétrica face contemporânea de uma carnificina sem-fim que transforma o Mato Grosso do Sul naquela “Terra Vermelha” de que fala o excelente filme de Marco Bechis (já esmiuçado em outro artigo em A Casa de Vidro). A terra é vermelha pelo sangue que sobre ela têm jorrado devido à nossa crônica incapacidade coletiva de dar solução a tão violentos antagonismos e tão cruéis injustiças.

É bem verdade que um dos auges de comoção popular diante do drama Guarani-Kayowá deu-se com a disseminação de uma carta onde uma comunidade anunciava uma espécie de rito de suicídio coletivo; a onda de empatia tomou as redes sociais, com milhares de brasileiros realizando o significativo “ativismo de sofá” que consistiu em transformar seus nomes no Twitter e no Facebook. Sobre o tema, a magistral Eliane Brum escreveu alguns artigos de imensa beleza, urgência e sensibilidade (leia: “Sobrenome Guarani-Kayowá”; “Decretem Nossa Extinção e Nos Enterrem Aqui”).

Em “Martírio”, porém, a ênfase não é na auto-aniquilação de tantos Guarani-Kayowá, nem nas taxas de suicídio que estão entre as mais altas do globo, mas sim nos processos homicidas e etnocidas impostos pelo agronegócio e suas milícias armadas, estatais ou privadas. Frisa-se a tese de que qualquer suicídio indígena é, de fato, um assassinato enrustido. Vincent Carelli, no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, frisou que o índice de homicídio nas reservas indígenas Guarani-Kaiowá chega a ser 590% maior que a média nacional. É a nossa faixa de Gaza, o pedaço de Cisjordânia em terra brasilis, e a prova de que a bancada ruralista no Congresso Nacional não é apenas retrógada, reacionária e desprovida de empatia ou compaixão; pior que isso, ela tem muito sangue sujando suas mãos.

Apesar da tristeza que tatua nosso mundo subjetivo após “Martírio”, também há algo de tonificante em assisti-lo. Ganhamos em coragem após termos assistido a inúmeros exemplos de desobediência civil legítima, praticada por aqueles que resistem contra o processo impiedoso de “modernização capitalista” que os hipócritas, com as mãos sujas de sangue, vendem no hipermercado das ideologias sob o nome de “Ordem e Progesso” ou de “Deus, Pátria e Propriedade”.

O documentário, como gênero cinematográfico, como o pratica Vincent Carelli, tem muitas funções: dar voz aos silenciados, dar visibilidade aos invisíveis, sensibilizar os apáticos, informar os desinformados, mobilizar os conformados etc. Isso só reforça a noção que venho nutrindo de que o documentário, longe de ser apenas um gênero no submundo do Cinema, pode agir como autêntica força pedagógica de conscientização social e solidarização radical. A evocação de uma linda frase de Rithy Pahn (realizador do magistral A Imagem Que Falta), ao final do filme, também indica que o caminho traçado por Carelli não é o da neutralidade, de um documentário de pretensões à “objetividade”, mas sim o filme engajado, participativo, empático.

Se há uma certa proximidade da estética de “Martírio” ou “Corumbiara” com a do documentário dito “etnográfico”, tal como praticado por um Jean Rouch por exemplo, ela diz respeito só ao desejo de transmitir através do registro audiovisual uma verdade sobre os povos retratados que é inacessível a maior parte do público que, no escurinho da sala de cinema ou da sala-de-estar, realiza uma imersão naqueles conteúdos. Porém Rouch, com sua predileção por docs que são verdadeiros road movies do real como “Jaguar” e “Monsieur Poulet”, costuma prescindir completamente de um narrador que, em voice over, contextualize e informe o espectador sobre o que está rolando.

Carelli, em contraste, é bastante didático, realizando um cinema que mescla a militância pelos direitos indígenas com algo de cine-pedagogia, com extensa e cuidadosa pesquisa histórica, vendo seu trabalho como ferramenta de conscientização e transformação social. “Martírio” recua até a Guerra do Paraguai, descreve a Ditadura Vargas no Estado Novo (1937),  retrata os horrores da Ditadura Militar em sua política indigenista, revela detalhes sobre Rondon e o SPI (depois transformado em Funai), e chega até os tempos contemporâneos e as mobilizações indígenas (com destaque, por exemplo, para a ocupação do Congresso Nacional). “Martírio”, aliás, foi financiado pela sociedade civil brasileira através de doações colaborativas via Catarse, o que reforça seu caráter de obra com preciosa função social, que foi assim reconhecida por uma miríade de colaboradores.


Talvez se possa mesmo dizer que “Martírio” não existiria se não fosse pelas décadas de trabalho prévio desenvolvido por Vincent Carrelli com o projeto “Vídeo nas Aldeias”, hoje infelizmente ameaçado de colapso por falta de recursos. O Vídeo nas Aldeias é um empreendimento que visa ao empoderamento midiático dos povos indígenas, para que possam contar suas próprias histórias, para que tenham acesso ao equipamento que lhes permita ter voz e vez também no domínio audiovisual, do qual foram historicamente e continuam sendo presentemente excluídos.

A mídia hegemônica, vendida como uma puta de luxo aos poderes econômicos capazes de comprá-la e impor-lhe uma agenda interesseira, vem agindo, com monótona frequência, como caluniadora da resistência dos povos indígenas. Ela pinta retratos satanizadores dos índios como “invasores de propriedades alheias” (assim como fala do MST como capetinhas que invadem fazendas de cidadãos-de-bem), numa sinistra inversão do real, pintando os vilões como mocinhos, e vice-versa.

Subjacente ao conflito agrário, parece-me estar um conflito de visões de mundo, com antagônicas compreensões do elemento terra. A tekoha é mais do que simplesmente um nome que designa um território, ela carrega algo de uma linguagem teológica, de uma referência explícita ao sagrado. Este é um dos temas do interessante debate que filmei entre Danilo Christidis e Giuliana Mattiazo em papos durante a X Aldeia Multiétnica do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros em 2016.

A tekoha é a terra onde um certo povo pode seguir sendo o que tem sido, é o espaço do enraizamento num passado e de conexão com a ancestralidade; designa uma conexão com aquele espaço onde estão agora enterrados os parentes, onde descansam os ossos dos ancestrais. A tekoha, em suma, é sagrada não só pois ali viveram e morreram as gerações que precederam os contemporâneos, mas pois é vista como criada por Nhanderu para usufruto coletivo, e não para privilégio privado.

A concepção ética e cosmológica por trás da noção de tekoha não tem nada a ver com a concepção “civilizada” da terra, vista muitas vezes como uma espécie de mero pó sobre o qual pode-se construir avenidas de asfalto, ou somente como um espaço rentável a ser tornado lucrativo pela modernização da produção, este ás na manga no discurso ruralista. Se a tekoha é a terra sagrada, a “propriedade” dos ruralistas é terra profana, transformada em território livremente capitalizável.

A relação dos índios com a terra aparece, na perspectiva ruralista, como algo sentimental e anacrônico, algo que precisa ser substituído pela visão “secular” da terra como reles mercadoria. A terra não passa de um “recurso”, deve servir como pasto para a boiada que um dia virará as toneladas de carne que turbinarão o PIB da nação; a terra, para o “povo da mercadoria” de que fala Davi Kopenawa em “A Queda do Céu”, é mero suporte “morto” e sem passado, livre para a execução de planos lucrativos.

Penso também que Carelli, ao realizar um filme-denúncia mais do que um filme-anúncio, para usar uma terminologia cara à “Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire, não deixa de lado uma série de sugestões que eu diria utópicas, pois são sugestões de um outro mundo possível. A denúncia do genocídio vem somada à sua sugestão de que o Brasil deveria reconhecer-se plenamente como nação pluriétnica, algo já realizado na Bolívia e no Canadá, por exemplo.

Ser oficialmente uma nação pluritétnica envolve o reconhecimento legal da diversidade humana e cultural do país, em antagonismo à visão nacionalista, tão capaz de degringolar em fascismo, que sustenta a quimera de uma alma nacional indivisa a qual todos devem se submeter. Os índios, disse Viveiros de Castro, são os “involuntários da pátria”, e podemos aprender com eles preciosas lições de combate ao patriotismo otário daqueles que invocam miragens como o Interesse Nacional para justificar o extermínio das populações originárias, expulsas de suas terras pelos tratores impiedosos e cruéis da Ordem e do Progresso.

É triste que tantos Guarani-Kayowá estejam hoje vivendo na miséria, na penúria, na humilhação, à beira de rodovias por onde transitam os caminhões do agrobiz, expulsos das tekohas onde os parentes amados hoje descansam, mas é em territórios reconquistados por sua luta aguerrida e nos acampamentos das “retomadas” que Carelli enxerga vislumbres de esperança, apesar das espessas trevas reinantes.

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Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro

Flutuando no Rio Sucuri (MS) – Diário de Bordo



deixe-me ir, preciso andar
vou por aí a procurar
sorrir pra não chorar…

cartola
“preciso me encontrar

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O Oráculo de Delfos ostentava dois estandartes, protótipos antiqüíssimos dos slogans de auto-ajuda e dos biscoitinhos-da-sorte: “nada em demasia!” e “conhece-te a ti mesmo!”  A civilização grega aí desenhava sua tábua de valores onde a prudência, a temperança e a introspecção auto-descobrinte eram vistas como alguns dos melhores ingredientes da sabedoria, especiarias no caldo deleitoso do savoir-vivre.

Já o sambista-oráculo dos morros cariocas, Cartola, canta num velho samba sobre sua vontade de “se encontrar”, mas não concebe este encontro consigo como o efeito de um olhar para dentro de si, apolíneo e socrático, mas muito mais como uma abertura ao mundo: “quero ver o Sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar… eu quero nascer, quero viver!”

Privilégio de poetas e almas cantantes: procurar-se lá fora e encontrar-se ao se perder… Estranha vontade de criaturas devaneantes: nascer depois de já ter nascido (“nascer é muito comprido”, frisa Murilo Mendes…), encontrar-se indo lançar-se em riachos e sinfonias de pássaros… Que entendam aqueles que não tem medo de poetas e paradoxos!

“Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras.” (Manoel de Barros)

Flutuar no rio Sucuri é mais uma experiência heraclítica do que platônica: é uma lição concreta, ministrada silentemente pela natureza, sobre o velho dito de Heráclito – “tudo flui… não se entra duas vezes no mesmo rio.” Nós, humanos, costumeiramente tão arrogantes diante da natureza, podemos enfim abandonarmo-nos a ela como folhas ao vento, sentir sua potência imensamente maior que a nossa, conduzindo-nos rumo a sabe-se-lá-que-mar…

Pra que nadar, bater perna, gastar energia? Basta o abandono. As águas fazem todo o trabalho. A correnteza nos conduz como se fôssemos barquinhos de carne, boiantes em seu ventre líquido e móvel… Os peixes, que eu, em minha expectativa, imaginava mais abundantes, formando vastos cardumes de seres gregários em espantosas marchas subquáticas, escasseavam. O guia explicou que é época de reprodução e que muitos se escondem para a desova. Ainda assim, pude, peeping tom de um elemento alheio, espiar estas vidas tão lisas e fluidas em estado… VIVO! E não como um cadáver no prato, um defunto no açougue, um pedaço de carne imóvel no mercado. Como não ganhar ainda mais convicção no vegetarianismo depois de uma experiência dessas?

A horinha e pouco que passei arrastado pelo rio Sucuri, lutando pra me familiarizar com o snorkel e a máscara, pasmo com o ineditismo da experiência, valeram por algo semelhante a uma experiência mística atéia.
Registrei alguns tecos da realidade fluvial que deslizava por baixo de minha carcaça flutuante com a máquina fotográfica à prova d’água que aluguei na Agência Ar (35 reais por um dia inteiro de uso). Um pouco da “entrega” à experiência fica arrefecida pela preocupação com o registro; mas, por outro lado, a vontade de levar para casa souvenirs de uma vivência tão única é agradavelmente suprida.

Eu descia o rio ciente (heracliticamente!) de que jamais entraria de novo no mesmo rio – se repetisse o passeio, eu já seria outro na segunda ocasião, enriquecido pela experiência ganha na primeira… – mas ao mesmo tempo a tecnologia me garantia que tudo aquilo que minhas retinas viam não estava peremptoriamente condenado à efemeridade de uma aparição fugaz. Trouxe comigo estilhaços, lembranças imagéticas, como que criando uma memória objetivada, fora de meu cérebro, inacessível às costumeiras podridões da carne…

No começo da tentativa de processo psicoterapêutico narrado pelo Anticristo, de Lars Von Trier, o maridão psicólogo interpretado por Willem Dafoe, após conduzir a esposa para uma cabana no meio da mata, enlutada com a trágica morte de seu primogênito, cria uma espécie de “experimento curativo”: ela deve pisar descalça na grama e caminhar nela, em meio a sei lá que formigas peçonhentas e minhocas asquerosas, vencendo assim alguma estranha fobia que ela parece ter contraído com o trauma de sua perda.

Em estado de stress pós-traumático, ainda incapaz de conviver com o sofrimento de ter-lhe sido arrancado seu bebê, a personagem de Charlotte Gainsbourg precisa reaprender o contato com o mundo concreto que tanto a feriu e do qual ela quis se desligar, tamanha a violência do golpe por ele infligido. Quanta neurose não se mistura às nossas noções habituais sobre a Natureza? Quanta cegueira psíquica é necessária para que frequentemos churrascarias sem nos lembrarmos dos matadouros, peixarias sem conectá-las com os genocídios animais que as possibilitam?

Talvez uma das heranças maiores destes dois milênios de cristianismo seja justamente uma certa tendência psicológica de considerar a Natureza como inimiga, como fonte do pecado, como antro de predadores, como lugar de doenças, como selvageria incontrolável, ou mesmo como algo que precisa ser inteiramente subjugado e domado pela soberania humana, já que o Homem é imaginado como filho predileto do Criador, feito à sua imagem e semelhança, o que daria imensos privilégios e direitos que nenhuma outra criatura animal ou vegetal teria…

Quando Platão inventou a idéia de que o corpo é apenas um invólucro desimportante protegendo uma alma imortal, criando as bases para a metafísica e a ética do cristianismo (religião que, segundo Nietzsche, não passa de “platonismo para o povo!”), assentou as bases para este grande mau-entendido sobre a Natureza que vive até hoje e nos habita em segredo – caso não tenhamos movimentado nossas forças críticas e nossa lucidez vigilante para fazer frente a ele. Parece-me perigoso e neurótico demais este desprezo do mundo típico do cristão ortodoxo, esta noção de que o “terreno” não tem valor perto dos deleites que os eleitos um dia poderão gozar nas campinas verdejantes do paraíso, onde corre lei e mel por rios de doçura e paz… Este ideal imaginário de futuro redentor, agindo retroativamente sobre o presente, faz com que o mundo concreto acabe sendo vilipendiado em nome de beatitudes imaginadas e ausentes…

O contrário de ser cristão é estar “em núpcias com o mundo”, para usar uma expressão de Albert Camus, que soube se fascinar e se mergulhar nas paisagens argelinas de Tipasa e Argel – que descreve com tanto lirismo e devoção em seu belo “Núpcias / O Verão” (livro de cabeceira!). Trata-se de restituir ao mundo sua inocência, conspurcada pelos dogmas que lançaram a culpa no mundo, que projetaram Satã da Natureza, que fizeram do ato de morder a maçã e sorver seu rico sumo… um crime punível pela eternidade afora!

Entregar-se à esta correnteza é, ao mesmo tempo, recusar o pecado original e morder o fruto, deleitar-se com seu sumo, deixar seu suco escorrer pelo corpo, sem neura de sujeira, sem paranóias punitivas, sem neuroses fóbicas. A natureza não é a inimiga; pode ser a aliada. Decerto que, se encontrássemos pelo percurso um jacaré ou uma jibóia, correríamos por nossas vidas: a Natureza também inclui a grotesquice escandalosa da Cadeia Alimentar; os peixões comem os peixinhos, as zebras são papadas pelos leões, os insetos são digeridos vivos pelas plantas carnívoras, os vírus invadem nossas células e nos põem em pane… Não adianta harmonizar e idealizar, como se a Natureza fosse puríssima harmonia. Mas também não se deve demonizá-la: ela também comporta a possibilidade do abraço, a vereda do deleite, a chance da contemplação eufórica, o transe místico da unificação temporária… A Natureza não está lá e nós aqui: estamos NELA; dela somos parte ao invés de dela estarmos apartados; ela nos carrega, barcos cósmicos na corrente…