#CinephiliaCompulsiva: “Network” (de Sidney Lumet, 1976) – por Eduardo Carli de Moraes

CAOS NOS TELEPÚLPITOS DA PLUTOCRACIA
Um (hiper)texto da série #CinephiliaCompulsiva

por Eduardo Carli de Moraes

Eu diria que há filmes-bumerangue: você pode até lançá-los com força pra longe, mas eles voam de volta e impõem sua presença. Muitos filmes já foram feitos sobre o tema da mídia-de-massas e da indústria cultural nos EUA – no Olimpo deste cinéfilo estão A Montanha dos Sete Abutres Crepúsculo dos Deuses (de Billy Wilder)Todos os Homens do Presidente (Alan J. Pakula), O Jogador (de Robert Altman), Barton Fink (dos irmãos Coen)O Show de Truman (de Peter Weir), Cidade dos Sonhos (de David Lynch), Nightcrawler (de Dan Gilroy), dentre outros – porém talvez não haja nenhum mais impactante, mais furibundo, mais arrebatador que Network (1976), um magnum opus na filmografia do Sidney Lumet.

Sua relevância bumerânguica impõe-se no presente apesar dos 40 anos já transcorridos desde seu lançamento. Como lê-se na capa do BluRay que ajuda a re-consagrá-lo junto à nova geração, Network  – cognome no Brasil: Rede de Intrigas – ainda é um filme louco e endiabrado (still mad as hell).

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Este filme, além de formidável obra de arte, é uma intervenção no debate público, uma provocação sociológica, uma  sátira mordaz da Sociedade do Espetáculo (teorizada por Debords e McLuhans). Lumet revela, na prática, o potencial da chamada “sétima arte” para transcender a oposição entre entrenimento vs grande arte, já que cria um filme que vai muito além de ser um mero objeto estético, sendo também uma espécie de dispositivo de reflexão sobre a sociedade, fornecendo uma espécie de análise civilizacional de conjuntura.

O que Adorno e Horkheimer fizeram através de livros como Dialética do Esclarecimento, que contêm duras críticas à Indústria Cultural capitalista, Sidney Lumet realiza no âmbito cinematográfico, criando um filme quintessencial como objeto de estudos multidisciplinar: os historiadores e os sociólogos, os filósofos e os antropólogos, os que estudam comunicação social e ciências da informação, tem muito alimento-pro-pensamento (food for thought) na saga de Howard Beale, protagonista de Network.

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 Beale foi interpretado por Peter Finch, vencedor do Oscar de melhor ator por este papel. Curiosidade: o ator não viveu para pôr mãos em sua estatueta dourada: “o prêmio para Peter foi póstumo já que o ator morreu vítima de um ataque cardíaco, um mês antes da festa de entrega do Oscar.” (Wiki) Para muitos cinéfilos, o auge da carreira artística de Peter Finch foi mesmo sua memorável encarnação de Howard Beale, apresentador de telejornal, já calejado neste métier e beirando a aposentadoria, que vê seu Ibope despencar feito um elevador em queda-livre.

Beatle, deprimido, pensa no suicídio, e nestes fundos-de-poço desperta um eureka!: “vou me suicidar na frente das câmeras, ao vivo!” Matar-se em algum quartinho trancado, na obscuridade e no anonimato, não lhe anima: a morte sem fama não lhe motiva, ele quer algum suicídio espetaculoso, algo de bombástico, que dê o que falar.

O plano pode parecer mirabolante e inverossímil – onde já se viu um âncora de TV dar um tiro no cérebro em pleno jornal nacional? – mas aconteceu de fato, em 1974, dois anos antes de Network vir à luz: na Florida (EUA), a jornalista Christine Chubbuck, aos 29 anos de idade, do Canal 40, deu um tiro na sua própria nuca, ao vivo na telinha. Foi o primeiro suicídio-televisado na história da TV nos EUA e o caso voltou recentemente à tona por dois filmes que lhe foram devotados (um ficção, outro documentário):

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Uma imagem perturbadora foi ao ar, ao vivo, nas TVs de Sarasota, Flórida (EUA), na manhã de 15 de julho de 1974. “Para dar continuidade à política do Canal 40 de trazer a vocês as últimas notícias sobre sangue e miolos, vocês verão outro primor: uma tentativa de suicídio”. A jornalista de 29 anos Christine Chubbuck pronunciou essas palavras ao vivo durante seu programa dominical, para então disparar um tiro atrás da orelha. Ela morreu horas depois em um hospital local. O primeiro suicídio ao vivo da TV americana gerou comoção nacional. Quarenta anos depois, a história trágica de Chubbuck volta à tela com o filme Christine, protagonizado pela atriz inglesa Rebecca Hall, e do documentário Kate Plays Christine, ambos inspirados no perfil psicológico da jornalista. – BBC BRASIL – 29/01/2016 (Saiba mais: Indepedent – La Prensa)

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A radicalidade do ato de Christine  Chubbuck é explícita: ela chegou até mesmo a satirizar seu suicídio ao declará-lo como “algo ao gosto do patrão”, já que o dono da cadeia de TV adorava pôr no ar “sangue e entranhas”. Essa radicalidade é algo que também marca o caráter de Howard Beale no filme de Lumet: uma espécie de crise nervosa (nervous breakdown) conduz Beale a uma série de rupturas com o comportamento costumeiro de um jornalista.

mad-as-hellA máscara de neutralidade escorrega de sua face. Os bons-modos de engravatado ordeiro entram em tilt. Sua raiva, seu desespero, sua angústia, extravasam de seus limites e ele perde a polidez: começa a ser, na TV, um praticante da catarse, pública e televisionada.

E bem sabemos – por exemplo desde o movimento punk e até a explosão grunge capitaneada por Kurt Cobain – que a catharsis nos mass media pode ser pop. Pode ser uma bomba no Ibope. O convite à catarse é amplamente respondido pelo público de Beale: na cidade começam a pulular os berros de cidadãos que, instigados por Beale na TV, gritam janelas afora, para o bairro inteiro ouvir, o bordão: “I’M MAD AS HElL AND I’M NOT GONNA TAKE IT ANYMORE!”

 Beale, muito antes de Fight Club, já foi uma espécie de Tyler Durden, cometendo na TV algumas punkices (apesar da idade avançada…). Eu não me surpreenderia se descobrisse que a canção do Hüsker Dü, “Turn On The News” (Zen Arcade, 1984), teve alguma influência da rage que manifesta Beale em Network – pathos é bem parecido…


“I hear it every day on the radio:
Somebody shoots a guy he don’t even know,
Airplanes falling out of the sky,
A baby is born and another one dies,
Highways fill with refugees,
Doctors finding out about disease,
With all this uptight pushing and shoving,
That keeps us away from who we’re loving…
So turn on, turn on, turn on… the news!”
HÜSKER DÜ

 8daf40ba4366f57890bb30a98c1a5db1A diretora de programação da UBS, em Network, vivida por Faye Dunaway (que também venceu o Oscar por este papel), logo percebe o potencial daqueles surtos catárticos que fizeram a audiência subir tão significativamente. Os setores mais conservadores logo se mobilizam para demitir Beale, calá-lo como quem amordaça um louco perigoso, mas ela não: ela defende que na TV haja mais contra-cultura, mais conteúdos anti-establishment, e inaugura inclusive o programa A Hora de Mao Tsé-Tung, onde pretende documentar as atividades de guerrilhas armadas e coletivos revolucionários (nos moldes do Weather Underground) nos EUA.

Em uma era de tensões sociais exacerbadas no país, que vivia em 1975 o vigésimo e derradeiro ano da Guerra do Vietnã (1955-1975), está representada em Network a emergência de movimentos sociais fortes, que a mídia corporativa não pode ignorar e omitir, com destaque para o poderio dos negros afrodescendentes que organizaram partidos (como o Black Panther Party – Panteras Negras) e que guiam-se pelas cartilhas de líderes como Malcolm X ou Martin Luther King. Só uma mídia renovada podia dar conta de narrar a contento tempos históricos tão conturbados.

Howard Beale é como um cão raivoso que escapa da coleira. Se ele se torna um hit da TV, com audiências estratosféricas, é pois articula a raiva dos telespectadores (“articulate the anger”, aliás, é uma expressão recorrente no filme). O que predomina na fala de Beale, em termos afetivos, é um ódio que tem algo de clarividente. Uma revolta que em seu transe de fúria consegue enxergar mais claramente seus adversários, descrevendo-os aos brados como um profeta bíblico que prega na montanha, disparando imprecações. O brilhante roteiro de  Paddy Chayefsky – vencedor do Oscar – insiste no caráter quase religioso ou místico da experiência de Beale diante das câmeras: ele é descrito como “mad as Moses”, ou “doido como Moisés”.

Não quero com isso desqualificar o discurso do personagem como os delírios de um lunático que não merece ser ouvido, muito pelo contrário: o verbo-em-chama que a língua-em-fogo de Beale lança pela goela afora é um verdadeiro tratado de sociologia. É também um testemunho histórico de uma momento de crise nos EUA:

Os países árabes e sua organização petrolífera OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) ameaçam com uma alta nos preços dos combustíveis fósseis conhecidos como “ouro negro”; o país ainda vive a ressaca do “caso Watergate”, que havia culminado com o processo de impeachment contra Nixon e sua posterior renúncia; a sanguinolência no Vietnã e no Camboja ainda era ferida recente (sem falta de soldados estropiados); tanto o Black Power quanto as primeiras manifestações do movimento Hip Hop demonstram o poderio da contracultura conectada ao Atlântico Negro (Cf. Paul Gilroy); e é neste contexto que Beale destilará sua retórica enfurecida – mas autêntica e catártica – em discursos que viraram clássicos da história do cinema:

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Beale: I don’t have to tell you things are bad. Everybody knows things are bad. It’s a depression. Everybody’s out of work or scared of losing their job. The dollar buys a nickel’s worth; banks are going bust; shopkeepers keep a gun under the counter; punks are running wild in the street, and there’s nobody anywhere who seems to know what to do, and there’s no end to it.

We know the air is unfit to breathe and our food is unfit to eat. And we sit watching our TVs while some local newscaster tells us that today we had 15 homicides and 63 violent crimes, as if that’s the way it’s supposed to be!

We all know things are bad – worse than bad – they’re crazy.

It’s like everything everywhere is going crazy, so we don’t go out any more. We sit in the house, and slowly the world we’re living in is getting smaller, and all we say is, “Please, at least leave us alone in our living rooms. Let me have my toaster and my TV and my steel-belted radials, and I won’t say anything. Just leave us alone.”

Well, I’m not going to leave you alone.

I want you to get mad!

I don’t want you to protest. I don’t want you to riot. I don’t want you to write to your Congressman, because I wouldn’t know what to tell you to write. I don’t know what to do about the depression and the inflation and the Russians and the crime in the street.

All I know is that first you’ve got to get mad.

You’ve gotta say, “I’m a human being, goddammit! My life has value!”

So, I want you to get up now. I want all of you to get up out of your chairs. I want you to get up right now and go to the window, open it, and stick your head out and yell:

“- I’m as mad as hell, and I’m not going to take this anymore!”

Ao invés do demagogo cheio de promessas de um futuro lindo e promissor, Beale explicita sua postura: a de alguém que não vai mentir, não vai dourar a pílula, não vai fingir que está tudo bem. Enumera os componentes da crise: depressão econômica e quebradeira de bancos; violência urbana e ondas de assaltos; punks selvagens pelas ruas; poluição atmosférica e comida contaminada; tragédias que viram estatísticas: 15 homicídios diários, em média, além de 63 outros crimes violentos, todos os dias… Como se isso fosse normal! Diante de tal cenário distópico, como deveria agir a mídia de massas? Deve apenas oferecer entretenimento kitsch e inofensivo, transformando-se numa máquina de matar o tempo, um tubo anti-tédio?

Beale não acredita na limitação da TV nem ao entertainment, nem ao jornalismo neutro e imparcial. Um pouco de seu pathos remete a mestres da comédia nos EUA, como Lenny Bruce (vivido no cinema por Dustin Hoffmann em filme de Bob Fosse em 1974) e George Carlin. Os discursos de Beale rasgam o véu do “politicamente correto” e ele fala na TV como se estivesse em comício. Mais que isso: ele torna-se um líder-de-massas, que conclama seus milhões de espectadores a agir (“mandem telegramas aos montes para a Casa Branca! Quero ver o presidente atolado até os joelhos em telegramas!”), inclusive chegando ao extremo – imperdoável, segundo os magnatas da indústria – de implorar: “desliguem essas TVs! Esses tubos estão estupidificando vocês!”

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Nada mais excêntrico do que um apelo televisionado ao boicote-em-massa à televisão… Beale vai tomar um esporro daqueles do magnata da indústria, que em cena memorável dá uma preleção sobre o capitalismo neoliberal pós-moderno como alguém que entra em transe com as idéias de Friedrich Hayek (1899-1992) e Ludwig Von Mises (1881-1973). O filme de Lumet pode até parecer visionário ao prever a proeminência tremenda que ganharia o neoliberalismo nos anos 1980, com Margareth Tatcher e Ronald Reagan nas presidências do mundo anglo-saxão e tendo como ideólogos figuras como Milton Friedman e Ayn Rand. Mas o fato é que a doutrina neoliberal já estava fazendo tremendos estragos na América Latina, em especial no Brasil depois do golpe de Estado de 1964 e no Chile após o coup Pinochetista-Yankee de 11 de Setembro de 1973. O apóstolo da distopia neoliberal – concretizada! – é outra das atrações impagáveis de Network: 

Network mostra-nos o punho autoritário dos poderes neoliberais, sua vociferante retórica em favor da liberdade dos capitais para circularem à vontade e para acumularem em poucas mãos (se assim decretar a Mão Invisível do Mercado), contraste com Beale, acanhado e um tanto aterrorizado, como uma espécie de formiga diante de um elefante desprovido de misericórdias por coisas pequenas e dispensáveis como… jornalistas. Beale, assim que voltar ao telepúlpito, será uma formiga em levante, um rebelado contra o Grande Irmão. O vociferante Beale, apesar de sua capacidade de “mobilizar” platéias, não deixa de ser, na hierarquia da instituição plutocrática-fascista em que trabalha, é visto como uma espécie de inseto, à la Gregor Samsa, que os poderes palacianos predarão sem pudor.

Se Beale começa o fim com um plano-de-suicídio, termina o filme sendo alvo de uma conspiração de assassinato: de todo modo, a profecia se cumpre. Beale, personagem fictício, junta-se à jornalista da vida real Christine  Chubbuck – ambos são “mortes transmitidas ao vivo”. Ambas mortes protestam, com a bandeira de seu sangue derramado, contra os mass media que embrutecem e emburrecem o público com besteirol e edulcorações, que praticam o jornalismo sensacionalista trash do “espreme que sai sangue”.  Beale é uma espécie de hacker do sistema, que diz na TV o que seria, em circunstâncias normais, totalmente censurado e proibido. Um âncora de TV que faça o papel que tem nos jornais o ombusdman, que dedique-se a uma auto-reflexão crítica sobre sua prática profissional, que compartilhe com o público uma análise do poder alienante da televisão, como faz Beale, está de fato condená-lo a ser silenciado com violência pelos poderes dominantes.

Após fustigar a platéia com estatísticas que mostram que apenas 3% dos norte-americanos lêem livros e apenas 15% lêem jornais, ele procura fazer seus telespectadores despertarem de uma espécie de narcose, induzida pelo “tubo”: “a única verdade que vocês sabem sai dessa caixa preta! Agora mesmo, há uma geração inteira que nunca soube nada que não saiu desse tubo! Esse tubo é o evangelho, a revelação derradeira! Esse tubo pode construir ou destruir presidentes, papas, primeiros-ministros! Esse tubo é a mais aterradora força em todo este mundo-sem-deus! E pobres de nós se esse poder cair nas mãos das pessoas erradas!”

A concentração do poderio mass-mediático nas mãos de poucas corporações – que marca não só a realidade dos EUA, mas é agudíssima também no Brasil, país apelidado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras de A Nação dos 30 Berlusconis – é outro alvo de Beale. Os mega-conglomerados que dominam a economia globalizada sob o domínio do capitalismo neoliberal – sistema finamente criticada por documentários como The Corporation – perdem a conexão com o ideal originário que anima a profissão do jornalismo, a busca pela verdade factual e sua honesta comunicação à opinião pública, tendo como télos a tomada bem-informada e lúcida de decisões pertinentes ao bem comum, ao público, ao coletivo.

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O caráter distópico de Network pode até estar latente, não tão explícito quanto em Matrix, mas o retrato de uma humanidade “presa” às ilusões de uma Neo-Caverna platônica, desta vez televisiva, marca forte presença: a TV em Network já é um protótipo de Matrix. O cinema revisitaria o tema em obras como O Show de Truman – que já esmiucei em outro artigo do projeto Cinephilia Compulsiva – ou na animação Wall-E, que retrata o que sobrou da Humanidade, após a poluição da biosfera terrestre, a perambular, no interior de uma estação espacial, em poltronas móveis, onde obesos bebedores compulsivos de refrigerantes nada fazem na vida senão ficarem de olhos grudados na telinha imbecilizante onde tudo é marketing infinito...

Network é de uma contundência que não perdeu sua força pois denuncia as mentiras interesseiras que os patrões da mídia contam através daquilo que Beale chama de “a mais fantástica força de propaganda em todo este mundo-sem-deus!”  Como um enfurecido des-mistificador, esbraveja: “a televisão não é a verdade! É um maldito parque-de-diversões! Televisão é um circo, um carnaval, um bando de acrobatas, cheia de contadores de lorotas,  de dançarinos e malabaristas, de side-show freaks, domadores-de-leões e jogadores de futebol. Estamos no negócio de matar o tédio (the boredom-killing business). Caras, vocês nunca vão ganhar nenhuma verdade de nós! Nós vamos te dizer o que você quer ouvir. Nós mentimos como o diabo. Nós te dizemos que o detetive sempre pega o assassino. E ninguém nunca pega câncer na novela das 5. E não importa em que encrencas o herói tenha se metido, não se preocupe, ao fim de uma hora – cheque seu relógio! – ele vai vencer. Nós te contaremos qualquer merda que você quiser ouvir! Nós vendemos ilusões…”

É o cinema, magistralmente manejado por Sidney Lumet, servindo à revelação de verdades sobre o mundo social, muitas delas também trazidas à tona pela obra de grandes intelectuais do século XX, como Noam Chomsky e Pierre Bourdieu. O discurso de Beale pretende despertar os zumbis, para que parem de ser papagaios do que a TV diz, para que parem de vestir-se como manda a propaganda e de comprar nos mercados o que o Tubo mandou comprar. Clama por autonomia de pensamento, auto-determinação, capacidade crítica – e nada disso é do interesse das mega-corporações. Beale está em rota de colisão com o sistema. O tope não tolerará esse rebelde em transe que ousa proclamar verdades inconvenientes no tele-púlpito. É preciso calá-lo por quaisquer meios.

O Ibope de Beale começa a cair numa espiral descendente conforme ele cessa de ser uma excitante novidade e passa a agir como um soturno filósofo Adorniano, com um desespero Kierkegaardiano, que reflete sobre a desumanização acarretada pela mídia de massas e sobre os horrores da atomização dos indivíduos. “Desliguem a TV! Desliguem-na e deixem-na desligada!” – é o conselho que ele tem ao público após uma vida devotada ao métier. A ironia suprema do filme de Lumet é fazer com que esta mensagem contracultural e subversiva seja cooptada pelo sistema televisivo: a UBS irá utilizar Beale como um títere faz com sua marionete, criando as condições para um espetaculoso – e esplendidamente lucrativo – espetáculo sangrento derradeiro.

 Howard Beale acaba por me lembrar de um dos mais notáveis personagens da ficção inglesa no século XX, Winston Smith, de 1984. George Orwell, em seu clássico da ficção-científica distópica, havia imaginado um mundo dominado por aparelhos – as teletelas (telescreens) – que podiam ter seu volume reduzido, mas “era impossível desligá-lo de vez”. A originalidade da teletela de Orwell é que ela não era apenas um tubo emissor de imagens e mensagens, mas também um dispositivo de vigilância e controle: uma mescla de TV com câmera de segurança. “Naturalmente, não havia jeito de determinar se, num dado momento, o cidadão estava sendo vigiado ou não. Impossível saber com que frequência, ou que periodicidade, a Polícia do Pensamento ligava para a casa deste ou daquele indivíduo. Tinha-se que viver – e vivia-se por hábito transformado em instinto – na suposição de que cada som era ouvido e cada movimento examinado.” (ORWELL, 1984, cap. 1)

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Tanto Howard Beale quanto Winston Smith terminam por adquirir um conhecimento íntimo do funcionamento do “Big Brother”, o Grande Irmão, em especial pois foram serviçais do sistema pela maior parte de suas vidas. Beale como telejornalista, Smith como “falsificador” profissional dos jornais do passado, ambos estiveram nas entranhas do monstrengo. A revolta de ambos é motivada pois eles estão bem-informados demais sobre o que ocorre nos bastidores, seja da corporação, seja do partido.

Em 1984, as teletelas são instrumentos utilizados pelo Partido para que conquiste as massas para seus interesses: o Grande Irmão deve ser celebrado como líder infalível e perfeito; já o inimigo público, perigoso terrorista e revolucionário sanguinário, Immanuel Goldstein, deve ser escorraçado sem fim. As teletelas orquestram o ódio das massas contra Goldstein, o traidor do Partido, o infame bandido, de modo que o público não cessa de ser condicionado a pensar em termos maniqueístas e a fazer a catarse de sua agressividade sempre contra o alvo apontado pelas telas. Soa familiar?

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O Partido totalitário que rege a sociedade onde Smith vive e trabalha – e cujo protótipo Orwell fui buscar no III Reich Nazi e na fase stalinista da URSS – é uma imensa máquina de mentir, de iludir, de re-escrever o passado conforme as necessidades do presente. É também um Partido que se utiliza amplamente da mídia de massas, transformada também num polvo de mil tentáculos, que vigia com milhões de olhos, como um super-policial hi-tech no Neo-Panópticon do amanhã…

Winston Smith é alguém que, tal qual Beale em Network, irá descobrir-se incapaz de seguir jogando o jogo dos chefes como obediente cordeirinho: “Havia momentos em que o ódio de Winston não se dirigia contra Goldstein mas, ao invés, contra o Grande Irmão, o Partido e a Polícia do Pensamento; e nesses momentos o seu coração se aproximava do solitário e ridicularizado herege da tela, o único guardião da verdade e da sanidade num mundo de mentiras.” (ORWELL, 1984, cap. 1)

Em 1984, um dos lemas do partido era: “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado.” Winston sabe muito bem, pois trabalha no Ministério da Verdade (um nome, é claro, irônico!) e ali exerce o cargo de “retocador” de jornais publicados no passado. Winston sabe muito bem que o “partido tem o poder de agarrar o passado e dizer que este ou aquele acontecimento nunca se verificou” e que pode mesmo contar mentiras deslavadas, como “o partido inventou o avião” ou “nunca estivemos em guerra com a Eurásia” (verdade promulgada um dia depois da trégua que interrompeu a guerra de 6 anos com a Eurásia…).

 Assim como para Winston, para Beale o inimigo também é o “mundo de mentiras”. Network mostra uma espécie de tele-profeta rebelde que boicota seu próprio empregador, que declara guerra à corporação midiática onde fez carreira, como Spartacus contra Roma. O cerne de seu ataque contra a TV está na falsificação do real que ela impõe e pelos efeitos de alienação que causa – tema riquíssimo para estudos de psicologia social, por exemplo. A TV, segundo Beale, foi prostituída e corrompida a ponto de tornar-se apenas um circo e um freakshow, onde vale-tudo pelo Ibope. Inclusive e sobretudo o sangue, a violência, a estigmatização de minorias, a perseguição a adversários políticos… A TV, ao invés de oferecer formação e conhecimento, cria conformismo. Condiciona as massas seja ao papel passivo de consumidores zumbi de imagens publicitárias e novelas inautênticas, seja ao papel de títeres nas mãos daqueles que precisam de massas-de-manobra para conquistarem seus fins.

No mundo fictício fabricado pelo noticiário do Partido, em 1984, a verdade sobre a economia e sobre as condições de vida da população são escondidas, escamoteadas: publica-se na imprensa, por exemplo, que a produção trimestral de botinas foi de 145 milhões, quando na verdade havia sido de 62 milhões. Quadro diante do qual o irônico narrador Orwelliano comenta: “tudo o que se sabia é que, a cada trimestre, quantidades astronômicas de botinas eram produzidas no papel, ao passo que talvez metade da população da Oceania andava descalça.” (ORWELL, 1984, cap. 4)

Network é, igualmente, o relato da insurgência de um funcionário demenciado, contra um sistema compulsivamente mentiroso (como o são, no Brasil, desde a ditadura, as alianças entre mega-empresas como Abril e Globo com os partidos da elite autoritária e mandonista). Beale e Smith, ambos, saem dos trilhos da ortodoxia, ousam pensar por si próprios, não conseguem mais viver enjaulados no conformismo. Em ambos os casos, tanto em Orwell quanto em Lumet, a jornada do herói não tem nada de triunfante e gloriosa, mas está condenada de antemão a soçobrar diante de um inimigo poderoso demais. Nisso, Network 1984 assemelham-se a Kafka.

Se as teletelas de Orwell eram o instrumento supremo de doutrinação e controle que mantinha o Sistema do Big Brother no domínio, em Network somos apresentados a uma situação quase tão distópica: massas de “vidiotas”, para usar a expressão de Márcia Tiburi, sem senso crítico desenvolvido, títeres dóceis para as ordens teleguiadas provindas do Tubo, são capazes de tudo, até mesmo dos piores fascismos, até mesmo do homicídio premeditado (a ser difundido em cadeia nacional…).

Se personagens como Howard Beale e Winston Smith comovem e tornam-se fortes presenças em nossas memórias, talvez seja porque Network 1984 não são obras totalmente deprimentes e desalentadoras. Mostram indivíduos que se insurgem em prol da expressão de uma verdade sobre a sociedade onde vivem que todos os poderes hegemônicos desejam calar, esconder, omitir, recalcar. Procuram desvelar o que não deveria ficar oculto, trazer à luz o que a tirania deseja lançar às trevas dos porões. Põe à nu um sistema desumanizador, de controle piramidal, baseado no apartheid social, e onde TVs e teletelas servem somente à imbecilização, à domesticação, ao controle. Mostram – como a História já havia feito, ou alguém imagina Hitler sem o rádio? – que é bem possível, infelizmente, uma aliança entre mídia e fascismo. As lições permanecem relevantes ao extremo em nossos tempos onde golpes de Estado são orquestrados pela televisão, “panelaços” e linchamentos públicos respondem a chamamentos de telejornais corporativos, e multidões ensandecidas são capazes de serem as ovelhas amestradas da fúria fascista, orquestrada de cima dos telepúlpitos da plutocracia.

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Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 29/03/2016

Um (hiper)texto da série #CinephiliaCompulsiva

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As mutações de David Cronenberg: um tributo a um dos maiores artistas do cinema

David and the Fly

The Creator and its Creature: Cronenberg together with Mr. Bundlefly

CRONENBERG’S MUTATIONS
Article by Eduardo Carli de Moraes

PROLOGUE

I have recently spent a whole afternoon wandering around at the Evolution exhibition, wonderfully produced by the Toronto International Film Festival (TIFF). It was such an amazing tribute to one of Canada’s greatest artists alive, David Cronenberg. I was already an admirer of his oeuvre – I’ve watched every film that Cronenberg has ever delivered, and some of them several times – but TIFF’s homage to this great creative mind took me on a thrilling “trip down memory lane” (to quote a memorable line by Ed Harris’ character in A History of Violence).

Since the late 1960s, Cronenberg has been producing some of the most tought-provoking and original films I’ve ever seen, and in this article I intend to argue that his body of work deserves our high praises for its artistic accomplishments. I don’t see why he should be confined within the limits of genres such as science fiction and horror: Cronenberg has gone way beyond the boundaries of “specialized filmmaking” and has built a cinematic legacy that bears the mark of far-sighted vision and unique imagination.

naked lunchHere is an artist that never shies away from challenging themes: he has adapted to the big screen some works of literature deemed “unfilmable” (such as William Burrough’s Naked Lunch or Don De Lillo’s Cosmopolis); he has depicted sexual perversions and car-fetishism in impacful ways (in his film on J. G. Ballard’s Crash); he has engaged in a debate with Marshall McLuhan’s theories about media and its social effects (in Videodrome); he has explored the mysteries of schizophrenia, paranoia, depression, identity crisis, among other dark corners of the mind (in films such as Dead Ringers, The Brood, Spider…). Cronenberg, to sum things up, may be understood as a philosopher of cinema, who uses his art in order to understand the world around him, to share his fears and doubts about the paths treaded by Western civilization, and to awaken us from the slumbers of conformity by sounding the alarms on some doubtful process through which the human mind and body is being transformed and mutated.

Some oversensitive people may certainly turn away from his work in disgust and horror, claiming that the guy is obsessed with disgusting creatures, nasty and monstruous mutants, scary uncontrolable viruses, and lots of bloodshed and carnage. There’s definetely a B-movie flavour to some of Cronenberg’s work, but this doesn’t mean his investigations are narrow and shallow. If some of his movies are far from being eye-candy, and if his esthetic choices have a strong tendency against kitsch, it leads us to ask: is the role of the artist to caress us and entertain us rather than to provoke us, shock us and kick us out of our comfort zones?

In the following explorations of Cronenberg’s films, I’ll attempt to throw the spotlight on the great contribution his art embodies as a reflection upon human psychology and the mysteries that underlie the mutations of our identities in the midst of our society’s ever faster techno-scientific transformations.

 Cronenberg

I. THE NEW FLESH

videodromeAt TIFF’s Evolution exhibition, it was stated that “Cronenberg demonstrates a keen interest in doctors and scientists who initiate experiments with unforeseen, often disastrous, consequences”. Very well remarked: in Cronenberg’s realm, science and technology often produces “disasters” and “monsters”. Things never seem to turn out the way they had been planned to. There’s an abyss between good intentions and the actual outcomes of the experiments – and this abyss is one that Cronenberg’s loves to explore. In many cases, it’s as if Science is being seen from the lenses of its victims, from the perspective of the abused or the deranged by it.

“History is a nightmare from which I’m trying to awake”, goes the famous saying by James Joyce in Ulysses. Watching David Cronenberg’s films I frequently get a feeling of entering a nightmarish world, where epidemics and plagues rage, and human heads suddenly explode, and brains get messed-up by medical interventions, consumption of pharmaceutical drugs, or misguided scientific manipulations.

It seems Science is a nightmare from which Cronenberg is trying to awake. And that by filming his dystopic visions he suceeds in sharing his nightmares with his perplexed audience. William Burroughs once said, later to be quoted by Kurt Cobain in a punkish Nirvana song: “just because you’re paranoid it doesn’t mean they’re not after you.” Likewise, it could be said of Cronenberg’s filmed nightmares: just because they’re pessimistic and terrifying, it doesn’t mean they can’t turn out to become reality. Just remember Chernobyl, in the past; just take a look at Fukushima, in the present; with these catastrophes in mind, Cronenberg’s phantasies will appear to our eyes as explorations of possibilities that we might unfortunely realize.

The originality of David Cronenberg cinema lies in, among other elements, the way he questions the consequences of technological “advancements” and scientific experiments: it can be a new brand of psychotherapy that relies on the un-repressed expression of rage (The Brood); it can be the evolution in video-games and artificial/digital environments (eXistenZ); it can be a new drug supposedly destined to turn life on Earth into a chemically induced Paradise (ephemerol in Shivers); it can be innovations in the fields of surgery, genetics or robotism…

David

Cronenberg’s cinema is surely dystopic, dismal, pessimistic, and one gets a “mood”, from his films, of anxiety and preocupation arising from the possible outcomes of our self-remaking, of mankind’s efforts to transform itself and to transcend its present limitations. Everyone who’s seen some of his films knows that scientific experiments – including the ones inside the field of Psychology, which interests Cronenberg very lively! – can end up going terribly wrong. And one of the thrills of watching his movies derives from the fact that we know this artist is not going to spare us, that he’s gonna make us confront some bloody and disruptive occurences.

Since the beggining of his carreer, with Stereo (1969) or Crimes of The Future (1970), Cronenberg was into description of “laboratorial environments”, but within them there were no rat labs: in his films, the rat labs are always human beings. In one interview, the director states that he never makes “monsters movies”, but rather describes the ways through which the human body is transformed into a monstruous and uncontrolable post-human organism. In Cronenberg, the illusion of safety and control almost always ends up terribly shattered to pieces with the eruption of chaos and unpredicted consequences.

TIFF’s exhibittion EVOLUTION claimed that Cronenberg must be understood as one of the greatest thinkers in the whole of Canadian culture – and I agree entirely: he’s a philosopher of the big-screen with as much to say to us as Jean Baudrillard, Pierre Lévy, Manuel Castells, or other of the thinkers of our present-day Technological Age. Cronenberg’s contribution to an interdiscilinary debate concerning genetics and eugenics, obsessions and fetishism, biotechnology and scientificism, is outstanding.

The “mood” in most of his films makes it clear that Cronenberg isn’t buying naively the ideology that says technological and scientifical progress will lead us to Paradise on Earth. It’s quite frequent, in Cronenberg’s films, that the attempt made by human scientists to reshape our bodies ends up messing things up badly. The transformations that the human body undergoes with its constant interactions with technology, the way our bodies and minds end up emboding technology, is one of Croneberg’s obssessions. The bio-ports in ExistenZ are the best example: holes in our bodys, similar to a computer’s entrance door, through which we can be plugged in to an artificial realm that cuts us off from day-to-day “natural” reality. But decades prior to that, he had already painted a gory portrait of the possible evolutions of television in his unforgetable Videodrome. There he explores the possible transformations of media, tripping on McLuhan’s ideas to end up creating a nightmarish dystopia, filled with hallucinationaty head-helmets and very weird mutations that give birth to a “new flesh”.

The effect of going through several roller-coaster rides in Cronenberg’s sci-fi park is, among other, this: skepticism about the marvels brought to us by advancements in technology and science. Cronenberg’s imagination may seem a little bit “paranoid”, in the sense that his fantasy springs from the fear that things can go horribly ashtray in human civilization while we venture into ever increasing degrees of artificiality. But there’s not a single drop of idealization of the past, or of Rousseau’s Natural Man, in Cronenberg’s work: he doesn’t seem to see any way backwards that will leads us to the way things used to be. It can be said that this cinema deeply anguised by time’s irreversibility and portraying the dangers of artificiality. It would also be unjust to say he’s condemning techno-cientific advancements; it seems to me Cronenberg’s tries to underline the ambiguity of this processes we have developed. They can have largely beneficial results for medicine and health, for example, but the other side of the coin – the nightmarish side – also deserves to be taken into account. An example: of course it would be silly to deny the importance of X-rays, for example, for the diagnosis of disease, but it would also be silly (and dangerous!) to ignore that a body that gets exposed to an excess of radiation can suffer terrible consequences.

Nothing guarantees us that the New Flesh is an evolution on the previous one – it may be a backward step. It may be the unleashing of forces we’ll be unable to control. It may be nightmares coming true.

But it would be unfair to dismiss and undervalue Cronenberg’s artistic insight if we were to treat him as a pessimist always obsessed with disasters. Of course there’s lots of bloodshed in his films – just remember the ending of A History of Violence, that rivals with the most gruesome of scenes in Tarantino’s or Sergio Leone’s oeuvre. But a debate about violence in cinema can’t leave Cronenberg out of the picture: something quite original and unique is involved in this peculiar brand of cinematic ultra-violence. I would argue that the profoundness we can find in his films, if only we delve deep enough in their secrete layers, arises from an anxious questioning of the real ways of our world.

Cronenberg is deeply concerned by what’s going on with our world, even tough sometimes he seems to be filming some future or alternative society. Cronenberg’s vision has been labeled by many as “dystopic”, and I feel that’s quite accurate: this guy ain’t filming utopias where perfection and harmony have been realized. He’s much more into letting his worst nightmares get an objetified existence as film – so many others can dream Cronenberg’s nightmares. To sum things up, I would say that he engages in an anxiety-ridden cinema, with a dystopic flavour to it, with several irruptions of ultra-violence, throught which Cronenberg acts as a critic of Western commercial-industrial society. For this reason, among many other, he deserves recognition as an artist of many merits, among them the fact that he sounds the alarms on the possible consequences of mankind’s attempt to deeply re-shape Nature – including our own.

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David Cronenberg

II. THE RE-SHAPING OF NATURE AND HUMAN ATTEMPTS AT SELF-TRANSCENDENCE

If there’s anything in our era that seems to be a shared truth, a point of conccord and no controversy, is that mankind’s been re-shaping Nature in massive scale and in various ways through technological interventions, medical innovations, advancements in genetic manipulation etc. If the artistic genre of “Science Fiction” is to survive as a culture force, relevant to the general audience, it needs to adress the dangers and anxieties that befall us all in such a world. That’s what Cronenberg’s cinema does so well. In the second part of this article, I’ll focus on the some of his films in which mutations are a central theme.

the-fly-movie-poster-1986There are lots of Gregor Samsas in Cronenberg’s films: the process by which Kafka’s character gets transformed into a giant bug is not merely repeated in cinematic form, but serves as a theme upon which Cronenberg builds several variations. Seth Bundle (Jeff Goldblum), in The Fly, is the most obvious example: the scientist who gets things messed up in his laboratory and ends up getting his genes mixed with that of an insect.

In Kafka’s masterpiece, the “mood” is of a horrific family drama that may remind the reader of Strindberg or Kleist. In Cronenberg’s case, we’re taken to a futuristic sci-fi scenario in which Bundle attempts to create a means of tele-transportation, which he deems likely to cause a whole revolution in the common limits of mankind. If he suceeds, history will rain down un-ending glory on him, and we’ll be honoured as one of the greatest scientists and innovators of all time – a new Galileo, a new Kepler, a new Einstein! But high hopes seldom live up to their promise in Cronenberg’s art.

There’s not a drop of cheap optimism in The Fly: it’s an enormously enjoyable film, well-crafted in all technical aspects, a masterpiece of narrative in cinema, but it’s message is far from being ear-candy. The Fly is actually a tragedy. For those of you who haven’t watched it, please jump to next paragraph so you won’t have your fun spoiled by my revealing of its ending. The Fly can be seen as a tragedy because it shows how a scientist goes through a terrible misfortune, having his organism monstruously transformed by the technological process he was aiming to master, and ends up having to ask the woman he loves (embodied by the gorgeous Geena Davis) to aid him in suicide. Life-conditions, for him, have been so screwed up by his experiment, that his only choice ends up to demand someone to put him off his misery. Josef K, in Kafka’s The Trial, feels he’s being killed “like a dog”; similarly, Seth Bundle’s demise is a terrible, gory and grotesque event – in which he’s murdered like a nasty fly. Things have turned out so horribly that the world needs to be rid of the monstruous human-insect he tragically became.

M. Butterfly (1993)But it would be demeaning to say that Cronenberg is a mind that can only imagine transformations in the human body there are due to techno-cientifical intervention and manipulation. In M Butterfly, for example, the transformations that René Gallimard (Jeremy Irons) goes through have nothing to do with his genetic structure, or with surgery, eugenics or laboratorial side-effects. Gallimard, a french diplomat working in China at Beijing’s embassy, starts off his metamorphosis when he watches a performance of Puccini’s opera Madama Butterfly. Cronenberg leads us, with his known talents as a compelling story-teller, in a downward spiral that shows how deeply Gallimard will have his identity changed and deranged in the life-process the film encapsulates.

At first, Gallimard is shown as an arrogant person, very ethnocentric, certain that he’s the living embodiment of civilization and finesse: he believes that Western presence in China and Indochina is cherished by the majority of the population, and he’s certain that the United States is going to suceed in the war efforts in Vietnam and Camboja. He’s a married man, and his wife (Barbara Sukowa, who recently embodied Hannah Arendt in Margareth Von Trotta’s film) would never suspect Monsieur Gallimard of being anything but a loving, faithful husband – and definetely heterossexual.

M Butterfly, among Cronenberg’s films, is one of the richest in terms of the possibility of discussion of gender matters. Sexual identity is shown as something that’s far from solid and immutable – it also undergoes changings and mutations. Gallimard thinks he’s straight, a “normal” heterossexual guy, but his experience in Beijing’s opera will call that into question when he falls in love with an opera diva (a man dressed as a woman). Gallimard ignorance of Chinese cultural reality is made obvious by the fact that he seems to be completely unaware that female characters, in China’s operatic spectacles, are played by men – a custom that has existed also in the past of West (for example in England, during Shakespeare’s epoch, something described, for example, by Richard Eyre’s brilliant film Stage Beauty).

M Butterfly is filled with Gallimard’s delusions: his beliefs doesn’t correspond to the facts. He, for example, believes he has fallen in love with a chinese woman, an opera diva, when in fact he’s been used by a Communist Party spy who’s gathering information about Western military actions in Indochina. Gallimard believes he has found true love outside the bonds of marriage, and abandons himself to the calculated seduction of the transvestite-spy. When he wakes up to what’s really going on, the whole structure of his personality will be shattered.

In Puccini’s opera, the Jananese girl kills herself after being abandoned by the american foreign; in Cronenberg’s film, the positions shift: now the Western guy is the one who’s going to kill himself because of the abandonenment he suffered. When the dream cracks and dies, when Gallimard finds out all the truth and realizes he has been used, then love’s past utopia metamorphosis into suicidal frustration and self-destruction.

The Fly, I claimed such paragraphs ago, could be seen as a tragedy; well, M. Butterfly is another. Its tragic core lies in the crack in identity’s continuity. Gallimard’s psyche gets cracked by the sudden death of his illusion. He was severely mistaken about China – and never really knew the “woman” he claimed to love. In the end of the process that the film narrates, he’s utterly confused about his own sexuality, uncertain and shaken: he lost all the prior confidence in his “straitght-ness”, his “masculine normality”. In his death trip, in the ritual in which he sacrifices himself, very Orientaly, as if attempting a hara-kiri, Gallimard has become himself the Oriental and the Transvestite.

The well-defined limits of his previous personality gets crushed by new experiences. He’s boundless and insane. He cuts his own throath in front of the audience of prisoners, as thus becomes an embodiment of Puccini’s Madama Butterfly. The brilliance of this masterpice in filmmaking, which I consider one of the most under-valued classics of the 1990s, lies in authentic description of the mutations that can occur to the human body and mind.

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Gallimard, in M Butterfly, lived through a severe “personality crisis”. Tom Stall (Viggo Mortensen), in A History of Violence, will struggle with something similar. In this film, Cronenberg focuses in his attention on an attempt at vountary change of identity. The man we get acquainted with at the beggining of the film, Tom Stall, we’ll soon discover to be a fabrication of Joey Cusack, who wanted to shed his skin like a serpent and abandon his own past behind.

Tom Stall is an idealization of the real flesh-and-bones man, Joey Cusack, who, after too much bloodshed in gangster environment during his life in his native Philadelphia, decides he’s gonna leave a life of crime behind and become a model citizen and family-man. When Cronenberg’s film starts, it seems he has suceeded: he has a beautiful wife, and they engage in very sexy affective playfulness; their two kids seem to be doing quite allright, despite the bullies at scholl and some baseball fights. But when something is going allright in a Cronenberg film, prepare yourself: it’s a clear sign that we’re headed for disaster.

Joey Cusack tried to transform his identity, tried to impersonate his fabrication of an ideal personality, but forgot something: everyone who knew in his past would lot easily permit his sliping away unto other identities. There’s a phrase in P. T. Anderson’s Magnolia that seems to be a description of his situation that fits like a hand in a glove: “We might be through with the past, but the past ain’t through with us.”

Ed Harris’ character, in the film, seems like a scary monster that sticks his head out of the abyss of the Past. Joey Cusack may have felt he had enough of his past, but well… his past hadn’t had enough of him. He’s bound to experience a dark re-awakening of the past who he mistakingly supposed he had buried. A History of Violence, despite being a very exciting thriller to watch, reveals a lot about the human condition. A man wants to throw away who he was and re-shape himself, becoming someone else: who among us haven’t felt a similar desire at some point in our lives? But the past is embodied in ourselves in such ways that we’ll never be able to discard it like a serpent does with its skin.

To sum things up, I would argue that Cronenberg’s artistic merit lies in his ability to portray and discuss humanity as a dynamic entity, changing through time, and not merely an instrument of outside forces (like a leaf in a river stream), but also in attempts at self-reshaping and self-transcendence. Throughout the history of Western philosophy in the last three millenia, some great thinkers have stressed the mutability of Nature: Heraclitus, for example, said that “everything flows” and that it’s impossible to bathe two times in the same river; his 19th century disciple, Friedrich Nietzsche, would also suggest in his visionary philosophical poem Zarathustra, the changeability of Man, depicted as a tight-rope walker that traverses the abyss whose margins are the beasts (behind us) and the Übbermensch (ahead us).

The impression I get after having travelled along with Cronenberg’s creations is that he deserves to be seem as a philosopher of cinema who’s deeply concerned in understanding mutations. Humans, for Cronenberg, never were and never will be fixed creatures: we’ll wander through Earth sheding our skin like serpents and trying to transcend out present through re-shapings both of our natural environments and our bodies and minds. In Cronenberg’s oeuvre, we get acquainted with the idea of Humanity as a mutant entity whose future glory is far from guaranteed: it may happen, his films seem to say, that History turns out to be a nightmare from which we won’t be able to awake. And simply because of this: the nightmare is real, and we ourselves are monsters of our own creation.

TO BE CONTINUED…

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 Here’s a selection of Cronenberg’s greatest works:

:: provérbios do capeta ::

Eva morde o fruto do pecado... representação de William Blake.

Volta e meia trombo por aí, nos textos de grandes mentes filosóficas e artísticas do século 20, com citações, alusões e digressões envolvendo William Blake (1757-1827), poeta-místico-pintor-vidente com fama-de-doido e admiradores de alto-quilate (Borges entre eles) que escreveu um dos monumentos poéticos mais inebriantes que conheço: O Matrimônio do Céu e do Inferno. Tudo indica que suas “viagens” ainda são atualíssimas e que a poesia, afinal de contas, é o mais excelente dos psicodélicos legalizados. Aldous Huxley mencionava Blake com frequência quando tentava descrever suas experiências sob o efeito da mescalina, citando em várias ocasiões o verso blakeano que diz: “Se as portas da percepção fossem purificadas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito”. McLuhan, guru da Aldeia Global, era outro dos que adorava citar enigmáticas idéias de Blake para sugerir que o grande artista prepara a humanidade para mudanças de percepção e consciência sofridas com o impacto das novas tecnologias e novos psicotrópicos. Sabe-se também que Jim Morrison batizou o The Doors influenciado pelo livro de Huxley que explora as ligações entre consumo de substâncias expansoras da consciência e a obtenção da Iluminação nirvanística: The Doors Of Perception.

Abaixo, compartilho 10 dos meus “provérbios infernais” prediletos. Sintéticos, provocativos, sábios, enigmáticos… Confiram, deleitem-se e reflitam!

 

The road of excess leads to the palace of wisdom. 

Drive your cart and your plow over the bones of the dead.

Eternity is in love with the productions of time. 

The hours of folly are measur’d by the clock, but of wisdom: no clock can measure.

Excess of sorrow laughs. Excess of joy weeps.

The tygers of wrath are wiser than the horses of instruction.

He who desires but acts not, breeds pestilence.

Expect poison from the standing water.
The busy bee has no time for sorrow.
The bird a nest, the spider a web, man friendship.