A CORAGEM DA VERDADE EM NOVA TEMPORADA: Sobre Greenwald & David Miranda, #VazaJato & #LulaLivreUrgente

Orwell ensina que “quanto mais uma sociedade se afasta da verdade, mais ela vai odiar aqueles que a falam”. Ensina também que “em tempos de enganação universal, falar a verdade torna-se um ato revolucionário.” A distopia de 1984 envolve explicitamente um Partido (encabeçado pelo Grande Irmão) que deseja ser a única entidade a possuir controle total sobre toda a sociedade, e sua inspiração histórica são os partidos Nazista e a perversão do bolchevismo na URSS sob Stálin. Crítica do totalitarismo em forma de romance sci-fi, o livro mostrava a constante falsificação da História de acordo com os interesses da tirania reinante – e, é sempre bom que se lembre, 1984 não era um manual de instruções! Era um manifesto de denúncia.

Aquele contexto orwelliano tem ressonâncias em obras-de-arte posteriores que marcaram época, a exemplo da graphic novel de Alan Moore V For Vendetta, onde as viralização das vertentes anarquistas, através dos sujeitos escondidos por detrás das máscaras de Guy Fawkes, traz à baila um tema crucial: até que ponto é legítimo e direito a insurreição violenta dos oprimidos quando esta se levanta contra a violência estrutural-sistêmica dos opressores? Na HQ de Moore, depois transformada em filme com direção de James McTeigue, um dos ensinamentos principais é este: o governo é que tem que ter medo do povo, e não o povo quem deve temer seu governo.

Ousar sair do rebanho dos conformados e dos obedientes, levantar a voz para dizer uma verdade intragável aos ouvidos dos poderosos, é sempre arriscado. É práxis que tem um preço, é uma ação que suscita reações às vezes intensas, até mesmo psicopáticas e homicidas. É por isso, como Foucault ensina através do exemplo histórico de Diógenes de Sínope, que a coragem da verdade (que os gregos chamavam de parresía) sempre comporta um certo risco.

O que é bastante óbvio: a virtude da coragem exige que o sujeito encare o obstáculo do risco, que vença a ressonância interna deste risco que se manifesta nos afetos do medo. Só é corajoso quem ousa ser verídico pois ele, ao manifestar-se, corre o risco de ter sua língua, ou mesmo seu pescoço, ou até mesmo sua cabeça, cortados. Olympe de Gouges foi guilhotinada por falar contra os jacobinos revolucionários, ousando defender direitos iguais para as mulheres e para as populações dos colonizados africanos sob a opressão do Império Francês…

Hoje, é de praxe que o discurso liberal politicamente correto, conexo à defesa da “democracia capitalista” modelo-ocidental, reclame pela liberdade de expressão como direito inalienável. Desde que fique dentro de certos limites, que não viole os direitos alheios – como, por exemplo, o direito do outro de não ser humilhado em sua dignidade por discursos ofensivos por seu teor racista, misógino ou elitista. De acordo, mas esta mesma atitude liberal “moderada” enche-se de melindres quando uma insurreição popular deixa vidraças de empresas estilhaçadas e caixas eletrônicos em chamas. Aí, aqueles que outrora falavam na sacralidade da liberdade de expressão, pedem pela criminalização e aprisionamento dos “vândalos” – que em seu protesto contra um sistema estruturalmente injusto teriam atentado contra os direitos sagrados das vidraças e dos prédios de bancos.

Em 2018, “o ano em que o Brasil flertou com o Apocalipse”, para emprestar a expressão de Mário Magalhães, tivemos duas tragédias conexas ao tema que estamos discutindo: o assassinato de Marielle Franco e o encarceramento de Luiz Inácio Lula da Silva. Até mesmo os adversários de Marielle e Lula, os que se situam à direita do espectro político, hão de convir que ambos marcam época por sua lábia ousada, ou seja, pelo que ousaram expressar. 

Marielle, criada na favela da Maré, mulher negra e lésbica, teria tudo, caso tivesse respeitado o estereótipo, para não ter “lugar de fala” em nenhum espaço de poder. Ascendeu como um meteoro como agente política, elegeu-se vereadora, envolveu-se por anos nas causas do PSOL, colaborou com Marcelo Freixo, escreveu uma tese de mestrado sobre as UPPs, deliciou-se com a literatura de Chimamanda, fez planos de casar-se com Mônica, e tudo isso fez com voz altissonante, cabeça altiva, postura rebelde, ethos de quem sabe a razão que tem e a relevância do que diz. E ousa dizer, doa a quem doer.

Luiz Inácio também representa o raro caso de uma vida ascensional, que estabelece no universo uma espécie de arco de empoderamento: ele poderia ter sido só mais um zé-ninguém, um anônimo retirante nordestino que, escapando das dificuldades conexas à seca e à miséria em Pernambuco, muda-se para o centrão industrial paulista para se tornar proletário, uma das carnes mais baratas do mercado. Lula poderia ter sido um dentre muitos operários que já perderam dedos, mãos, pés e outros membros por amputação nas linhas-de-montagem.

Lula poderia ter permanecido nas sombras e longe dos holofotes, mas ousou ir além, fez-se líder sindical e estrategista da greve que confrontou a Ditadura Militar no fim dos anos 1970. Ao invés de apegar-se aos comezinhos interesses pessoais, a um restrito projeto-de-vida conservador que tivesse a família e a religião como centros absolutos (atitude sempre potencialmente idiotizante), lançou-se na aventura da transformação social coletiva. Ajudou a fundar um partido político, candidatou-se a cargos públicos, consagrou-se presidente da república eleito e re-eleito, e fica difícil negar que tudo isso tem a ver com a parresía lulista. 

Não há coragem da verdade senão no exercício de tornar público aquilo que é fato, mas muitos recusam a tomar consciência: por exemplo, a farsa da “democracia racial” brasileira, que Marielle soube tão bem denunciar, de modo recorrente, frisando que há uma cor predominante para a pessoa que é violentada, que morre prematuramente nas mãos do aparato repressor do estado, que está preso em nosso superlotado sistema carcerário. O quanto há de racismo em nossa violência sistêmica que banaliza o genocídio da juventude periférica negra fica velado, semi-mascarado, por reações excessivamente sensacionalistas diante de violências específicas perpetradas por indivíduos.

Por isso é tão importante a distinção operada por Žižek entre a violência sistêmica e a violência individual. Quem oprime mais, o capitalismo neoliberal que abandona a população de Nova Orleans após o rompimento dos diques no pós-Furacão Katrina, ou as famílias que desesperadas e famintas cometeram naquela ocasião saques contra mercados e farmácias? Quem oprime mais, o sistema policial-carcerário que fez do Brasil um dos 3 líderes globais do encarceramento em massa, e com explícitas colorações racistas, ou o revoltado mascarado que vai às ruas com vontade de incendiar carros e quebrar vitrines de bancos?

“As pessoas dormem tranquilamente à noite porque existem homens brutos dispostos a praticar violência em seu nome”, dizia Orwell. E outro grande escritor, Mark Twain, segundo Slavoj Žižek em sua obra Violência, “contesta a afirmação de que a resposta violenta das multidões é pior do que a opressão que a instiga”:

“Havia dois Reinos de Terror, se quisermos lembrar e levar em conta: um forjado na paixão quente; o outro, no insensível sangue frio… Nossos arrepios são todos em função dos horrores do Terror menor, o Terror momentâneo, por assim dizer, ao passo que podemos nos perguntar o que é o horror da morte rápida por um machado em comparação à morte contínua, que nos acompanha durante toda a vida de fome, frio, ofensas, crueldades e corações partidos?

Um cemitério poderia conter os caixões preenchidos pelo breve Terror diante do qual todos fomos tão diligentemente ensinados a tremer e lamentar, mas a França inteira dificilmente poderia conter os caixões preenchidos pelo Terror real e mais antigo, aquele indizivelmente terrível e amargo, que nenhum de nós foi ensinado a reconhecer em sua vastidão e lamentar da forma que merece.” (TWAIN, M. “Um ianque na corte do rei Artur”, São Paulo: Rideel, 2011.)

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PARTE 2 – VAZA JATO E LULA LIVRE

Nos últimos anos, esta saga épica da Coragem da Verdade ganhou novos capítulos e celebridades – como é o caso de Edward Snowden e Julian Assante. Agora, tudo indica que a Operação #VazaJato está destinada a entrar para a História da comunicação social contemporânea, a ser estudada pelos midiólogos em conjunto com os fenômenos Wikileaks e Snowden. Através de sua bem-sucedida operação de vazamento das conversas secretas entre Sergio Moro e os procuradores do Ministério Público Federal, o The Intercept Brasil fez aquilo que espera-se do bom jornalismo: que ilumine a opinião pública com informação bem contextualizada e de interesse de todos, ousando dizer o que Bolsonaro e seus cupinchas não desejam que seja revelado.

Glenn Greenwald, jornalista estadunidense do The Intercept, casado com David Miranda (deputado federal pelo PSOL, que assumiu após o exílio de Jean Wyllys), tornou-se uma espécie de símbolo da Resistência ao ilegítimo e violento desgoverno Bolsonarista. Rapidamente, Glenn e David viraram alvos das milícias digitais e dos assassinos-de-reputação on line, com direito a ofensas homofóbicas e ameaças de morte.

Assim emergiu no “xadrez do Golpe”, para emprestar a metáfora do tabuleiro tão utilizada por Luis Nassif em suas análises, um elemento novo: Glenn Greenwald e sua equipe, como intermediários midiáticos entre a sociedade civil e as antes secretas “tenebrosas transações” que conduziram à condenação e à prisão, em ano eleitoral, de Lula. Não é pouco significativo, neste contexto, que Glenn tenha sido um dos primeiros jornalistas a entrevistar Lula na prisão, em um vídeo com mais de 900.000 acessos:

Sinais de que a cultura popular já acordou para a importância histórica das revelações estão surgindo. Hackeando o samba de Chico Buarque “Quem Te Viu, Quem Te Vê”, o Roni Valk mandou uma pedrada poético-satírica bem na cara do Moro: “Glenn Te Viu, Glenn Te Vê”. Ao parir a paródia, no processo acabou por explicitar uma fenômeno que despontou neste Junho de 2019, a farsa jurídica que costuma ser descrita como um caso típico de lawfare. Confiram a música na interpretação de Leo Almeida Filho:

“Você era a mais bonita das galhofas dessa farsa
Você era o queridinho e ele era seu comparsa
Hoje a gente toda fala da verdade que está nua
Suas noites são em claro porque tem mais falcatrua
Hoje a casa caiu – laiá laiá – já vazaram você
Glenn te viu, Glenn te vê
Quem te enaltece só pode crer na TV
Glenn é do Intercept e a culpa é do PT
Quando o Telegram rolava, você era o mais brilhante
O showzinho da defesa e que in Fux we trust
Pra Deltan deu tanta dica. Juiz Investigador
Pelo que vi tudo indica que mentira é o senhor
Hoje a casa caiu – pra Dallagnol – já vazaram você
Glenn te viu, Glenn te vê
Quem te enaltece só pode crer na TV
Glenn é do Intercept e a culpa é do PT
Hoje é só esperar mais lista com sua demagogia
Quero mais que você vaze com sua conje e companhia
E pra quem tá arrependido, por favor não dê na vista
Bate palmas com vontade, faz de conta que é esquerdista
Hoje a casa caiu – desmoronou – já vazaram você
Glenn te viu, Glenn te vê
Quem te enaltece só pode crer na TV
Glenn é do Intercept e a culpa é do PT…”
(Roni Valk)

Não estava nos planos dos golpistas que fosse nascer, logo no primeiro semestre do “novo” governo, vazamentos de tal monta que explicitam as vergonhas das entranhas da Lava Jato, transformada em instrumento de luta política, pontiaguda lança de lawfare que apunhalou a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva e, por tabela, feriu de morte a legitimidade das eleições presidenciais de 2018.

Vencedor do prêmio Pulitzer de jornalismo, Glenn Greenwald participou ativamente do “Caso Snowden” – o gigantesco leak de documentos secretos da NSA (National Security Agency) que explicitou o grau e a magnitude da espionagem global dos cidadãos comuns praticada à margem da lei pela “inteligência” de Tio Sam. E por aquela mesma CIA e aquele mesmo Pentágono tão especialistas em golpes de Estado e guerras imperiais de agressão fora das suas fronteiras.

Torna-se um pouco ridículo, e extremamente desleal, o ataque bolsonarista contra Glenn, que não é apenas um jornalista de comprovada competência, um premiado agente das mídias digitais, como também já marcou até mesmo o cinema contemporâneo. No filme de Oliver Stone, baseado em fatos reais, sobre Snowden, Glenn é um dos personagens principais, auxiliando o dissidente Eddie Snowden a publicar o material que tinha em mãos em órgãos como o The Guardian, de modo a fazer com que o apito deste whistleblower não pudesse ficar ignorado. Glenn também já esteve com um Oscar nas mãos, de Melhor documentário, por sua parceria na realização de Citizenfour (2014), de Laura Poitras.


Greenwald torna-se agora uma das vozes globais com maior responsabilidade de iluminar as consciências, lá fora, sobre o que se passa aqui dentro – o que pode inclusive ser determinante para a plausível premiação de Lula com o Nobel da Paz. A cada dia que passa, Lula aparece a uma quantidade maior de consciências bem-informadas em nossa Aldeia Global como a vítima de um mecanismo de lawfare que equivale a um crime político infligido contra sua cidadania.

Nos últimos dois meses, tivemos um significativo e massivo #TsunamiDaEducação, uma greve geral em 14 de Junho e agora o maremoto da Lava Jato: sinal de que a “Bolsonada” suscita ampla resistência e rebeldia. Com a #VazaJato bombando em Junho de 2019, o xadrez ganha novos elementos e a saga épica de nossa infindável luta de classes, em acelerado processo de uma polarização que se encaminha para a tragédia (afinal, a tragédia provem do entrechoque de forças irreconciliáveis, que possuem entre elas uma contradição ou conflito que não há remédio que sane).

Aqui n’A Casa de Vidro, onde não acreditemos no mito do jornalismo imparcial, não acreditamos tampouco num jornalismo que minta por interesse. Na medida do nosso possível, estamos na blogosfera e nas mídias sociais para tomar posição na trincheira ao lado daqueles que julgamos como os mais justos e os verídicos. E isto significa, hoje, imbuídos do ethos do “ninguém segura a mão de ninguém”, estar de mãos dadas com Marielle Franco, Jean Wyllys, Débora Diniz, Glenn Greenwald, David Miranda, Luiz Inácio Lula da Silva. Os que têm a ousadia da verdade e assim não permitem que o fluxo da História fique esclerosada na estagnação em que os conservadores desejam imobilizá-la.

TRANSMISSÃO – THE INTERCEPT INTERNACIONAL

RAFINHA BASTOS ENTREVISTA GLENN GREENWALD

DEMOCRACY NOW ENTREVISTA GREENWALD

CONHEÇA ALGUNS ESCRITOS DE GLENN GREENWALD:

GLENN: POR QUE MINHA AMIGA ERA UM POÇO DE ESPERANÇA E A VOZ DOS BRASILEIROS QUE NÃO TINHAM VOZ17 DE MARÇO DE 2018 

Enquanto milhares tomam as ruas do Brasil para protestar contra esse brutal assassinato, Glenn Greenwald lembra a vida e a amizade desta formidável e destemida defensora dos mais pobres.

Original, em inglês, em Independent.

Uma das mais promissoras, carismáticas e amadas figuras políticas brasileiras foi brutalmente assassinada na noite de quarta-feira no centro do Rio de Janeiro, em um crime que as autoridades concluem que foi uma execução política. A vereadora Marielle Franco, de 38 anos, foi assassinada quando seu carro foi atingido por atiradores com nove balas, quatro nas quais em seu crânio. Seu motorista, Anderson Pedro Gomes, de 39 anos, também foi morto.

Franco foi assassinada por volta das 9h30, depois de deixar um evento intitulado “Jovens Negras movendo estruturas”. A polícia acredita que ela foi monitorada por seus assassinos desde que ela deixou o prédio, afinal, apenas assim eles saberiam onde, exatamente, ela estaria sentada no carro, que possuía vidros escuros.

O assassinato de Marielle sacode o Brasil no momento em que o país atravessa um massivo escândalo político, um crise política sem fim visível, anos de recessão econômica e ainda uma espiral de violência epidêmica.

O ousado assassinado ocorreu nas ruas do Rio de Janeiro justamente um mês depois que o presidente brasileiro, Michel Temer, ordenou uma intervenção militar na cidade com o objetivo de estabilizar a segurança. Foi a primeira ação como essa depois dos 21 anos de ditadura, que se encerraram em 1985.

Marielle denunciava veementemente a intervenção militar e recentemente foi nomeada relatora de uma comissão que iria fiscalizar possíveis abusos desta medida.

No entanto, o que é mais notável – e mais devastador – sobre o assassinato de Marielle é como sua trajetória pública é única e improvável: uma mulher negra LGBT, em um país notoriamente dominado por racismo, machismo e conservadorismo religioso, que cresceu em uma das maiores, mais pobres e mais violentas favelas do Rio, o Complexo da Maré.

Ela se tornou uma mãe solteira aos 19 anos, mas, ainda assim, cursou a faculdade de sociologia e se tornou uma das mais efetivas ativistas pelos direitos humanos do Rio de Janeiro, liderando frequentemente perigosas campanhas contra a violência policial, corrupção e execuções extra-judiciais, que atingem os cariocas pobres, negros, moradores de lugares como aquele que ela cresceu.

Assim que ela aumentou sua incidência política, Marielle aderiu ao novo partido da esquerda brasileira, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), e, rapidamente, tornou-se uma de suas estrelas.

Em 2016, ela concorreu para um cargo público pela primeira vez como candidata a vereadora e foi eleita como uma votação expressiva. O resultado atordoou a classe política da cidade: pela primeira vez, uma mulher negra da Maré tornou-se a quinta candidata mais votada (eram mais de 1.500 candidatos, dos quais 51 foram eleitos).

O sucesso solidificou o status de Marielle não apenas como uma nova força política a ser reconhecida, mas também com um sopro de esperança para os brasileiros de grupos excluídos que, historicamente, não tiveram voz: os moradores de favelas, os pobres e as mulheres.

Assim que assumiu o cargo, Marielle, imediatamente, usou a sua estrutura para focar naquilo em que sempre foi seu trabalho: investigar, denunciar e organizar campanhas contra a violência policial que incide sobre os moradores negros e pobres.

Dias antes do seu assassinato, ela esteve em Acari, uma favela plana do Rio, para protestar contra os recentes assassinatos de um dos mais conhecidos, violentos e sem-lei batalhões de polícia. O que torna difícil determinar exatamente quem matou Marielle é, precisamente, sua bravura. Ela era uma ameaça para muitas facções violentas, corruptas e poderosas. Assim, a lista de suspeitos e de motivos da morte é longa.

O assassinato de Marielle é uma terrível perda para o Brasil e para o Rio, mas também devastou a minha família. Meu marido, David Miranda (conhecido por ter sido detido, abusivamente, pelas autoridades britânicas no Aeroporto de Heathrow em 2013) foi eleito como vereador do Rio no mesmo momento que Marielle foi, como parte do mesmo partido. As histórias dos dois eram extremamente similares: como Marielle, David cresceu em uma das mais violentas favelas da cidade e, apesar de se tornar órfão, foi o primeiro homem, assumidamente gay, a ser eleito como vereador.

Eles falavam frequentemente em agregar mais candidatos como eles para o PSOL, que, assim como muitos partidos no Ocidente, tem tido dificuldades de atravessar ricos e intelectuais enclaves da esquerda e chegar até às pessoas pobres, aos trabalhadores, às minorias que reclamam para falarem e serem ouvidas. Isso se deve, em parte, porque muito poucos representantes vêm destes lugares pobres.

Os assentos de Marielle e David no plenário da Câmara eram um do lado do outro, e eles se tornaram não apenas camaradas, trabalhando nos mesmo projetos, mas melhores amigos. Assim como ela fez por muitas pessoas de todo o Rio, Marielle tornou-se uma inspiração essencial para nossos filhos, recém adotados. Ela foi uma poderosa professora para mostrar que, mesmo em um país com racismo, desigualdade econômica, preconceitos de todo o tipo que persistem como uma força tóxica, todos os muros injustos podem ser quebrados.

Qualquer um que conhecia Marielle sabia, logo na primeira vez, que falava com alguém realmente especial, uma certeza que se reforçava a cada vez que você passasse algum tempo ao seu lado.

Nesta semana, não apenas o Rio de Janeiro, mas, praticamente, cada cidade do Brasil, centenas de milhares de pessoas se reuniram no luto da perda de um símbolo de esperança tão virtuoso. Mas essas pessoas ainda registraram seu desgosto e raiva pelos reais culpados de sua morte: a elite, política e econômica, do Brasil que engoliu a si mesmo em corrupção, frutos apodrecidos da desigualdade maciça. Enquanto isso, o resto da população é obrigada a se defender em um clima de violência, ilegalidade desenfreada, abuso policial e pobreza destruidora da alma.

Mais trágico do que tudo é que Marielle era exatamente o que o Brasil, repleto de carências, mais precisa: pessoas que entendam a tragédia da maioria dos brasileiros e que estejam empenhados em melhorá-la, não explorá-la. Marielle vive em sua parceira Mônica; em sua filha Luyara Santos, de 19 anos, que escreveu ontem: “Eles mataram não apenas minha mãe, mas também seus 46 mil votos; Marielle vive em sua mãe e também em seus familiares.

Marielle vive em um país e em uma cidade que a amavam, que agora lutam para entender como isso pôde acontecer. Além do mais, o país é desafiado a encontrar uma maneira de garantir que essa morte não se torne outro episódio que reforça uma antiga realidade onde facções violentas matam qualquer um em impunidade. O desafio é para garantir, finalmente, que a morte de Marielle não foi em vão e que ela servirá para forçar milhares e dezenas de milhares de novas Marielles, inspiradas em seu potente exemplo pessoal.

Glenn Greenwald

SAIBA MAIS:

Carona com Cornel West – Trecho do filme “Examined Life” de Astra Taylor


Carona filosófica com o figuraça Cornel West!
Trecho do filme “Examined Life” de Astra Taylor

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examined-lifeASSISTA O FILME COMPLETO

“LER É VIAJAR DE GRAÇA”, por Eduardo Carli @ A Casa de Vidro.com

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“Atlas of Wander”, de Vladimir Kush

Ler é viajar de graça, no espaço e no tempo. Viajar ao epicentro sangrento da Guerra de Tróia com Homero. Ir fazer turismo em meio aos tumultos revolucionários de 1830 a 1848 em Paris embarcando n’Os Miseráveis de Victor Hugo. É visitar o litoral da Argélia e conhecer a cidade de Oran em meio à Peste, nas páginas de lucidez pontiaguda de Albert Camus (e nas quais podemos nos relacionar com os empestados em quarentena, sem risco de contágio…).

É desperdício viajar só de carro ou avião, deixando atrofiar as asas da imaginação, se trens e bikes, livros e discos, transas e amores, filmes oníricos e substâncias psicotrópicas (para me limitar a somente alguns exemplares de um vasto reino de possíveis!) também fornecem-nos oportunidades preciosas de viagem. Com O Fauno de Mármore, passeei na Itália de modo meio feérico por uma semana, na companhia encantadora da prosa de Hawthorne, testemunhando Donatello e Miriam, casal que tem seu destino interconectado pelo sangue derramado, já que foram cúmplices na produção de um cadáver esmagado contra o chão do abismo a que foi lançado…

Quem já esteve na Itália para testemunhar um crime de tal pathos trágico como pude fazer nas asas de The Marble Faun através de alguma agência de viagem usada pela Classe A? Livro, minha gente, é que é veículo. Meio de transporte espantoso em sua capacidade de nos levar também em uma viagem pelo passado, pelo ausente, presentificado pelo verbo que permanece mesmo quando seu autor já é caveira na tumba. Ó paisagens lidas, ó lugares onde nunca estive mas pude vislumbrar através da janela dos livros, evoé!

Muitos dos escritores que eu adoro eram também adoradores de viagens, deleitando-se não só em realizá-las mas também em escrevê-las: de Melville a Cervantes, de Joseph Conrad a Mark Twain, viagens de toda estirpe são legião e recheiam algumas das mais célebres páginas já produzidas por pena humana. Algumas destas viagens são sinistras: dirigem-se rumo Ao Coração das Trevas do colonialismo ou à caçada insana a uma fera mítica como Moby Dick. Lendo O Vermelho e o Negro, fui levado pela mão por Stendhal a conhecer aquela região montanhosa, entre a França e a Suíça, onde Julien Sorel têm seu mundo íntimo lançado ao caos dos ímpetos díspares: o que escolher, a ambição mundana e a ânsia por enriquecimento – idolatrar Napoleão – ou abraçar os mistérios excessivos do amor nos braços de Mademoiselle Rênal? E não há trip ao Rio de Janeiro que se compare à viajar nos contos e romances de Machado…

Às vezes convêm desconfiar do escritor, que às vezes pode estar escrevendo sobre viagens mais com a fantasia desabrida do que rigoroso em sua consulta aos mapas e aos atlas. A viagem à Amérika que Kafka descreve em seu romance de estréia não pretende ser verossímil: seu autor nunca esteve in loco nos EUA e dá-se a liberdade de subverter a realidade, como naquela cena em que a Estátua da Liberdade, na baía de Manhattan, é descrita kafkianamente empunhando uma espada (símbolo da violência, da opressão) ao invés da tocha (pretensamente iluminista… a Statue of Liberty, afinal, é presente-de-francês e deveria servir para entoar um Liberté, Egalité, Fraternité em anglo-saxonês…). 

Embarcando em livros assim, nós expandimos nossos horizontes como se tivéssemos viajado de fato pelo espaço, na companhia dos atos e destinos de Kurtz ou Ahab, Ulisses ou Quixote. Ler é viajar de graça pra conhecer gente que no mundo não há, mas que vive uma vida que atravessa as gerações através de sua proliferação temporal e espacial pelas biliotecas, livrarias, HDs repletas de ebooks. Viajar pelo tempo e pelo Espaço, pela História e pelo Cosmos, é um dos serviços maiores que a literatura pode nos prestar. Seguir o chamado e responder “sim” ao convite é o jeito melhor para seguir à risca, ainda que sob restrições orçamentárias, as injunções exploratórias tão bem expressas por Mark Twain (e dotadas de um espírito que ecoa no Walden de Thoreau ou no filme Into the Wild – Na Natureza Selvagem):

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Dito isso, posso partir para a descrição de minha última viagem gratuita, cujo bilhete custou-me a bagatela de 6 dólares (graças ao abençoado sebo de Toronto, o MBV Books da Bloor Street). Como grande admirador da prosa de Hawthorne – em especial os livraços A Letra Escarlate (publicado em 1850) e The Blithedale Romance (já resenhado por mim no blog paralelo Awestruck Wanderer), devorei em poucos dias O Fauno de Mármore. Eis o último dos grandes livros do autor, publicado em 1860, 4 anos antes da morte de Hawthorne (e que na Inglaterra saiu com outro título: Transformation). O romance é o fruto literário mais significativo que Hawthorne criou enquanto morou na Europa e é publicado em uma época em que seu país de origem (os EUA, ou “Nova Inglaterra”, cuja realidade puritana é tão belamente exposta por A Letra Escarlate) estava prestes a vivenciar as fúrias da Guerra Civil (1861-1865).

Ler O Fauno de Mármore equivale a passar uma semana intensiva de imersão na Itália. Quem nos acompanha nesta jornada é um caudaloso rio narrativo, brilhantemente tecido pelo talento de Hawthorne. É um daqueles livros que fisga o leitor com seu verbo encantador e nos força a atravessar as páginas com velocidade e voracidade, em busca da solução dos mistérios que nos são propostos (alguns deles destinados a permanecer envoltos por uma neblina indevassável, enigmas sem resposta). O livro nos carrega, como se fosse um guia turístico de lábia altamente sedutora, por uma Itália repleta de estátuas e ruínas, crimes e pecados, seduções e conflitos.

A espessura descomunal do Passado deixa o Presente com outra cara: longe de estar “desconectado” do que foi, como ocorre na experiência tão epidêmica no mundo contemporâneo e resumível no termo imediatismo, o tempo Presente de Hawthorne está a todo momento em contato com o que sobreviveu hoje das épocas já transcorridas. O palco está montado para uma reflexão ampla sobre a vida e a arte (quem imita quem?); o pecado e a redenção; o acaso e o destino; a passagem do Tempo e as caveiras e estátuas que este processo deita pelo caminho.

A Roma de Hawthorne  é um espaço no território planetário repleto das ruínas de várias civilizações; lá descansam os ossos de etruscos, romanos e cristãos; lá o poder Papal não descansa de sua rixa contra os hereges e os pagãos; lá, a multidão deleita-se com a carnificina e não cessa de agonizar o Gladiador cuja estátua tanto estarrece os personagens de O Fauno de Mármore. Na companhia dos quatro personagens principais – Miriam, Donatello, Hilda e Kenyon – o leitor tem a chance de ser levado a uma vasta exploração de alguns dos tesouros artísticos da humanidade – e isso em meio às urgências de um presente de intriga e de crise.

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Roma

As catedrais e piazzas, os museus e galerias, por onde circulam os personagens desta intricada trama, são descritas pelo narrador com tanta arte que ficamos mesmo com a impressão de que a Itália é um grande museu a céu aberto, onde estão congregadas e iluminadas pela luz do sol e das estrelas algumas das mais significativas produções artísticas já geradas pela grande (e fratricida) Família Humana. A primeira característica do livro que salta aos olhos, logo nas primeiras páginas, é a densidade temporal que a narrativa carrega; o tamanho do passado é enfaticamente exposto por Hawthorne como imenso, demasiado esmagador:

“The state of feeling which is experienced oftenest at Rome is a vague sense of ponderous remembrances; a perception of such weight and density in a by-gone life, of which this spot was the centre, that the present moment is pressed down or crowded out, and our individual affairs and interests are but half as real, here, as elsewhere. (…) Side by side with the massiveness of the Roman Past, all matters, that we handle or dream of, now-a-days, look evanescent and visionary alike.” HAWTHORNE, The Marble Faun, Oxford World Classics, Chapter I, p. 8

Diante da enormidade do passado, o presente parece oprimido por um fardo: os vivos sentem-se indignos de durar – e de criar – diante de tal grandeza dos tempos idos. É difícil, em especial, ser um artista contemporâneo em um local onde a grandeza do passado com tanta loquacidade esmaga as evanescentes pretensões dos vivos à criação de algo digno de durar. Em O Fauno de Mármore, três estrangeiros em Roma estão engajados em uma existência artística, criativa, criadora: Hilda é uma pintora que dedica-se ao estudo e à reprodução das obras dos Grandes Mestres do Passado; Kenyon é um escultor em busca do segredo para animar o mármore bruto com a chama da vida; Miriam é uma misteriosa femme fatale que carrega consigo nos subterrâneos de seu íntimo algum segredo inconfessável e trágico. Os três – Hilda, Kenyon, Miriam – estabelecem laços de amizade com um italiano misterioso, Donatello, que na primeira cena do livro é descrito por seus companheiros como quase idêntico ao Fauno esculpido por Praxíteles, na Grécia de dois milênios atrás, obra exposta no Museu do Capitólio em Roma, onde passam-se os primeiros episódios d’O Fauno de Mármore.

Em suas primeiras páginas, Hawthorne já desvela seu gênio ao situar sua narrativa simultaneamente nos terrenos histórico e mítico. O realismo estrito – como praticado pela escola naturalista de Émile Zola ou em certos romances “sociológicos” como As Vinhas da Ira de Steinbeck – é deixado para trás em prol de uma narrativa que beira o fantástico, mas que está sempre de raízes bem plantadas no solo do passado histórico da Humanidade (sobretudo o Passado que sobrevive como legado artístico).

Na estátua do Fauno, contemplada pelo quarteto de personagens, brilham certos mistérios que será o deleite de Hawthorne explorar através deste romance-viagem. Por exemplo: como é possível que uma matéria-prima bruta e sem vida, como o mármore, possa ser esculpida a ponto de parecer animada e a ponto de termos a ilusão de que ali habita o calor da vida? A obra-de-arte – representada aqui pelo Fauno de Mármore, que os personagens testemunham enquanto caminham e conversam pelo museu do Capitólio – parece estar

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“imbued with actual life. The whole statue conveys the idea of an amiable and sensual creature, easy, mirthful, apt for jollity, yet not incapable of being touched by pathos. (…) Perhaps it is the very lack of moral severity, of any high and heroic ingredient in the character of the Faun, that makes it so delightful an object to the human eye and to the frailty of the human heart. The being, here represented, is endowed with no principle of virtue… We should expect from him no sacrifice nor effort for an abstract cause; there is not an atom of martyr’s stuff in all that softned marble; he has a capacity for strong and warm attachment… and it is possible, too, that the Faun might be educated through the medium of his emotion. (…) Only a sculptor of the finest imagination, the most delicate taste, the sweetest feeling, and the rarest artistic skill – in a word, a sculptor and a poet too – could have first dreamed of a Faun in this guise, and then have suceeded in imprisoning the sportive and frisky thing in marble. Neither man nor animal, and yet no monster, but a being in whom both races meet, on friendly ground! If the spectator broods long over the statue, he will be conscious of its spell; all the pleasantness of sylvan life, all the genial and happy characteristics of creatures that dwell in woods and fields, will seem to be mingled and kneaded into one substance… After all, the idea may have been no dream, but rather a poet’s reminiscence of a period when man’s affinity with Nature was more strict, and his fellowship with every living thing more intimate and dear.” HAWTHORNE, The Marble Faun, Oxford World Classics, Chapter I, p. 10-11

O fauno é uma figura mítica, silvestre, mezzo homem e mezzo animal, que procura a companhia de sátiros e adoradores de Baco; costuma estar acompanhado por flautas ou outros instrumentos musicais portáteis, como grande apreciador que é das melodias, dos ritmos, das cadências, das danças; sua vida parece toda devotada às alegrias da carne e às jovialidades festivas e anárquicas. De bom humor, inspirados a dialogar de modo desembaraçado e poético, Miriam, Hilda e Kenyon, manifestam estarrecido sua impressão a Donatello de que este é parecidíssimo com a estátua do Fauno. Hawthorne tratará de sublinhar com recorrência este paralelismo, até mesmo para tornar mais intenso o contraste entre o Donatello que inicialmente conhecemos e aquele outro Donatello em que ele vai acabar se metamorfoseando como efeito de seu relacionamento com Miriam.

O que vale para o Fauno de Mármore, vale para sua encarnação Donatello. Este italiano, crescido em região pastoral e bucólica, é uma espécie de estrangeiro em sua própria pátria: Roma não é seu ambiente originário, o território familiar, para Donatello. Donatello, o fauno contemporâneo, representa a figura, sadia em sua simplicidade, sábia em sua gaia ciência, que aceita sem neura sua natureza híbrida, mescla de animal e de humano. Donatello encarna a aptidão para celebrar a existência em meio à natureza selvagem, não-domada, junto a companheiros de carnaval e bacanal. No romance, Donatello aparece como encarnação de um certo hedonismo, de uma tendência epicurista e pagã; é um caráter que não foi estragado por uma educação moralista, severa e puritana como aquela que forja a personagem Hilda, virginal mas severa, pura mas solitária, a Mulher Pomba devotada à Virgem Maria e ao ideal ascético….

Donatello é o bon vivant capaz de pôr regras morais em suspenso para cair na folia; é aquele capaz de fruição ampla de sua comunhão com a Natureza e com o outro. Fora do eixo em seu presente, Donatello é pintado pela pena de Hawthorne como representante de algo de ancestral, de arcaico, já quase perdido. Não seria despropósito relacionar Donatello, o Fauno redivivo, com o princípio dionisíaco de que fala Nietzsche e que era tão exuberante e potente nas obras-de-arte dos poetas trágicos gregos (em especial Sófocles e Ésquilo), sendo depois soterrado pela maré montante do racionalismo socrático e do moralismo judaico-cristão.

Hawthorne procura registrar as crises existenciais por que passa Donatello em suas experiências, algumas delas bem traumáticas, nesta Roma repleta de ruínas, acossada pelas malárias, perigosa pelo excesso de crimes que nela foram cometidos e que ainda se cometem. O que impele a narrativa avante, desde o começo, é o fascínio mútuo, cheio de pitfalls, entre Donatello e Miriam. Tanto é assim que O Fauno de Mármore contêm uma sublime descrição de relacionamento, em que Donatello e Miriam são descritos no fluxo de seus afetos, na correnteza de suas conexões e desconexões, nos precipícios da paixão e da violência.

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Pintura de Caravaggio, “Judith Decapitando Holofernes”

Se Donatello é comparado ao Fauno de Praxíteles, Miriam, por sua vez, é descrita como se pertencesse a uma linhagem de mulheres a um só tempo fortes e amaldiçoadas, oprimidas e vingativas. Miriam é equiparada à rainha egípcia Cleópatra, à lendária e bíblica Judith, ou à personagem histórica Beatrice de Cenci, executada em 1599 após ter participado, junto com as outras mulheres de sua família, do assassinato de seu pai abusivo, estuprador e incestuoso. Esta  última figura – Beatrice Cenci – estampa a capa do livro em sua edição da Oxford World Classics e, durante a narrativa, Hawthorne debruça-se sobre a pintura de Guido Reni para estabelecer vínculos misteriosos entre a Beatrice da pintura e a personagem Miriam. Pesquisando sobre o tema, descobri um artigo de  Charles Nicholl no London Review of Books que lança luz sobre o quadro (e a mulher nele representada):

Cenci

Pintura de Guido representando Beatrice Cenci (1577-1599), condenada a morte por parricídio.

 “Beatrice Cenci was – to take a sample of soundbites over the centuries – a ‘goddess of beauty’, a ‘fallen angel’, a ‘most pure damsel’. She was also a convicted murderer. This is a charismatic combination, not least here in Italy, and her name has lived on, especially in Rome, where she was born and where she was executed in 1599. The story as it comes down to us has the compactness of legend. It tells of a beautiful teenage girl who kills her brutal father to protect her virtue from his incestuous advances; who resists interrogation and torture with unswerving courage; and who goes to her execution unrepentant and borne along on a wave of popular sympathy. There have been many literary treatments of the story, the most famous of which is Shelley’s verse-drama, The Cenci, written in 1819. Other writers drawn to the subject include Stendhal, Dickens, Artaud and Alberto Moravia. The appeal of the story is partly lurid – a pungent mix of Renaissance sex and violence; a sense of dark deeds behind the closed doors of a prominent Roman family. It affords a glimpse, in Shelley’s words, of ‘the most dark and secret caverns of the human heart’. There is also the ethical conundrum it poses, its puzzle of legal guilt versus moral innocence….” – Charles Nicholl. Screaming in the Castle: The Case of Beatrice Cenci. Leia na íntegra

O tema pisado e repisado que apregoa “os opostos se atraem” aparece também em O Fauno de Mármore. Donatello e Miriam parecem sentir um magnetismo conduzindo-os à interconexão de seus destinos que é diretamente proporcional às suas radicais diferenças de caráter. Donatello, como o paralelo com a figura do Fauno insiste em nos contar, é alguém transbordante de energia animal, fisicamente vigoroso, surdo à moralidade, indiferente às leis, dizendo sim somente aos ímpetos de seu coração juvenil. “He made no impression of incompleteness, of maimed or stinted nature. In social intercourse, these familiar friends of his habitually and instinctively allowed for him, as for a child or some other lawless thing, exacting no strict obedience to conventional rules, and hardly noticing his eccentricities enough to pardon them. There was an indefinable characteristic about Donatello, that set him outside of rules.” (Chapter II, p. 13)

Já Miriam, talentosa pintora, é uma mulher que defende-se atrás de uma fortaleza, que esconde-se detrás de uma nuvem de mistério, que age como se não pudesse permitir a ninguém que lhe roube seus segredos inconfessáveis. “She kept people at a distance, without so much as letting them know that they were excluded from her inner circle. (…) Miriam, as fair as she looked, was plucked up out of a mystery, and had its roots still clinging to her. She was a beautiful and attractive woman, but based, as it were, upon a cloud, and all surrounded with misty substance…” (Chapter III, p. 20)

O mistério que envolve o passado de Miriam é uma das atrações que seduz o leitor a seguir virando as páginas de O Fauno de Mármore. Em um episódio magistral, que tem a força sinistra que encontramos na obra de um Edgar Allan Poe ou Hoffman, Miriam e Donatello vão em uma jornada subterrânea pela Catacumba de São Calixto. A obra de Hawthorne, nestas páginas, ganha uma dimensão arqueológica e antropológica: seus personagens estão em relação com um passado ainda mais antigo do que aquele representado pelo legado artístico que Roma abriga e defende. Penetrando nas entranhas da terra com suas pequeninas tochas em punho, descobrem a tenebrosa realidade que restou dos vivos de um outrora muito distante, agora reduzidos a ossos e caveiras, abrigados em sarcófagos e outros baús de restos.

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Sarcophagus of Junius Bassus, from Rome, Italy, ca. 359 CE. Marble, 3′ 10 1/2″ X 8′. Musei Storico del Tesoro della Basilica di San Pietro, Rome. SAIBA MAIS.

“Among all extinct dust, there might perchance be a thigh-bone, which crumbled at a touch, or possibly a skull, grinning at its own wretched plight, as is the ugly and empty habit of the thing. (…) They found two sorcophagi, one containing a skeleton, and the other a shrivelled body, which still wore the garments of its former lifetime.

“I hate it all!” – cried Donatello, with peculiar energy.  “Dear friends, let us hasten back into the blessed daylight!”

From the first, Donatello had shown little appetite for the expedition; for, like most Italians, and in especial accordance with the law of his own simple and physically happy nature, this young man had an infinite repugnance to graves and skulls, and to all that ghastliness in which the Gothic mind loves to associate with the idea of death. He shuddered, and looked fearfully round, drawing nearer to Miriam, whose attractive influence alone had enticed him into that gloomy region.” (CHAPTER III, p. 22)

Donatello é demasiado jovem para interessar-se pela morte, mas o magnetismo que emana de Miriam convoca o fauno a penetrar nos mistérios da mortalidade. O Fauno de Mármore está interessado a descrever os mecanismos do Destino que podem levar um amor a atingir tal intensidade de pathos que ele acaba dando como frutos ações criminosas. Como Otelo faz ao estrangular Desdêmona, ou como Clitemnestra vingando-se de Agamêmnon. Os ingredientes de uma tragédia estão postos: a vivacidade exuberante dos afetos de Donatello somam-se aos radicais mood swings de Miriam (personagem que um psiquiatra de nossos dias talvez diagnosticasse como vítima de transtorno bipolar) e o livro Fauno de Mármore logo é conduzido ao precipício do assassinato. A figura persecutória, saída das catacumbas, que passa a assombrar Miriam como uma sombra tenebrosa e malsã, será lançada ao abismo por este casal – Donatello e Miriam – que tornam seus destinos irremediavelmente entrelaçados através de sua cumplicidade no crime. Hawthorne não se apressa a aclarar os mistérios – pelo contrário, deleita-se em multiplicar os pontos de interrogação, conforme progredimos na leitura, pasmos diante das transformações radicais que acometem personagens que pensávamos conhecer bem…

O Fauno de Mármore relata-nos relacionamentos mutuamente transformadores: Donatello e Miriam, Kenyon e Miriam, são dois casais que servem à Hawthorne para exemplificar os complexos vínculos estabelecidos pelos humanos e de que modo estes forjam destinos e produzem fatalidades. Nem Donatello nem Miriam são figuras propriamente diabólicas ou malévolas, mas são conduzidos pelas circunstâncias e pelas relações humanas a uma situação onde um crime é cometido pelos dois, em cumplicidade, o que funciona no romance como uma espécie de clímax ou momento crítico. É a partir deste crime, deste pecado, que Hawthorne porá sua prosa altamente filosófica e reflexiva a meditar sobre “one of those fatalities which are among the most insoluble riddles propounded to moral comprehension; the fatal decree, by which every crime is made to be the agony of many innocent persons, as well as of the single guilty one.” (CHAPTER XI, p. 73) O que Hawthorne formulará mais adiante em termos ainda mais míticos: “Every crime destroys more Edens than our own!” (Chapter XXIII, pg. 165)

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Miriam e Donatello, unidos pelo sangue que derramaram (ele com as próprias mãos, ela com um olhar súplice), passam por altas reviravoltas íntimas. Um dos temas principais de Hawthorne é o quanto a experiência da transgressão, o cometimento do ato proibido, gera uma catarata de consequências, entre elas a vivência íntima de um remorso torturante. Donatello, que no começo do livro é descrito como jovial e alegre sátiro dançante, depois de seu crime parece perder toda sua joie de vivre. Isolado em sua torre, carrega em seu íntimo um segredo devastador, que afasta-lhe da comunidade antes vivenciada tão intensamente e impede-lhe a continuação das comunhões com os entes naturais e humanos. Torturado pelas angústias, sentindo o peso da culpa inconfessada, Donatello se metamorfoseia em um personagem aparentado com o Raskolnikóv de Dostoiévski em Crime e Castigo. Esta transmutação que acomete Donatello é uma das mais impressionantes ocorrências narradas por Hawthorne, que como um pintor que sabe contrastar a luz e as sombras, retrata mudanças radicais:

“In his sportive childhood, he had played among the little rustics, and been at once the wildest and the sweetest of them all; in his very infancy, he had plunged into the deep pools of the streamlets, and never been drowned, and had clambered to the topmost brances of tall trees without ever breaking his neck. No such mischance could happen to the sylvan child, because, handling all the elements of Nature so fearlessly and freely, nothing had either the power or the will to do him harm. He grew up, said there humble friends, the playmate not only of all mortal kind, but of creatures of the woods… It could be imagined that the valleys and hill-sides about him were a veritable Arcadia, and that Donatello was not merely a sylvan Faun, but the genial wine-god in his very person. (…) But Donatello was sadly changed, since he went to Rome. The village-girls now missed the merry smile with which he used to greet them…”(XXVI, p. 184)

Roma em 1860

Roma em 1860

De contrabando, Hawthorne também comunica toda uma crítica social, embutida em alguns dos pensamentos do personagem Kenyon, o escultor que dedica-se intensamente à criar um busto de seu amigo Donatello. A força do mito da Idade de Ouro, do Éden perdido, manifesta-se intensamente em Hawthorne – que não é escravo desta mitologia, mas sim emprega-a de modo idiossincrático e poético.  Kenyon julga que hoje o mundo é mais triste do que foi um dia. A Humanidade perdeu em alegria conforme cresceu em idade. Na era dos businessmen que papagueiam sem cessar seu time is money, na época de atrozes capitalistas que exploram a mais valia em sweatshops na Ásia e na África, encontramos nas páginas de Hawthorne uma singular defesa de uma vida mais lúdica, menos respeitadora de labutas cronometradas e jornadas de trabalho de 12 horas diárias. A impressão de Kenyon é a de que outrora a terra foi florida, hoje é mais uma wasteland repleta de ruínas, onde os vivos estão esmagados pelo Passado. Um hino à harmonia com a Natureza e a uma sábia hédonê ética parece-me emanar das seguintes palavras, que parecem, de certo modo, endereçadas a alguém no Olimpo… Quem sabe Gaia?

“…the once genial earth produces, in every successive generation, fewer flowers than used to gladden the preceding ones. (…) Mankind are getting so far beyond the childhood of their race, that they scorn to be happy any longer. A simple and joyous character can find no place for itself among the sage and sombre figures that would put his unsophisticated cheerfulness to shame. The entire system of Man’s affairs, as at present established, is built up purposely to exclude the careless and happy soul. The very children would upbraid the wretched indivual who should endeavour to take life and the world as (what might naturally suppose them meant for) a place and opportunity for enjoyment.

It is the iron rule in our days, to require an object and a purpose in life. It makes us all parts of a complicated scheme of progress, which can only result in our arrival at a colder and drearier region than we were born in. It insists upon everybody’s adding somewhat to an accumulated pile of usefulness, of which the only use will be, to burthen our posterity with even heavier thoughts and more inordinate labour than our own. No life now wanders like an unfettered stream; there is a mill-wheel for the tiniest rivulet to turn. We go all wrong, by too strenous a resolution to go all right.”

HAWTHORNE. The Marble Faun.
Chapter XXVI – The Pedigree of Monte Beni. Pg. 186.

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