A extrema-direita fascista e nosso colapso civilizacional: sobre o delírio coletivo que se apossa do Brasil

Estamos doentes. Não sei se encontraremos a cura a tempo. A maioria dos eleitores do Brasil continua sem enxergar o horror de nossa própria desumanização.

É chocante testemunhar quando uma parcela tão grande de um povo caminha, como um rebanho de ovelhas subservientes a um pastor insano, rumo ao sacrifício grotesco de todos os valores humanos que, desde o Iluminismo, fazem parte do que se considera uma convivência civilizada.


Neste cartaz, com design de Rodrigo Nunes, temos uma coletânea de frases do candidato Jair Bolsonaro. Diante delas, em qualquer situação histórica normal, seria desnecessário explicar aos cidadãos de qualquer país que não estivesse doente, alucinado, em estado grave de “psicopatização” (Maria Rita Kehl), o porquê é uma atitude inaceitável, irracional, temerária e auto-destrutiva, para qualquer povo, escolher para si mesmo o jugo de um tirano impiedoso e sanguinário.

Mas não estamos em uma situação histórica normal, mas sim numa daqueles épocas de insanidade coletiva em que não se enxerga o óbvio, em que os lúcidos não são ouvidos, onde os alertas batem em ouvidos trancados. A disseminação de fake news plantou tanto ódio e paranóia antipetista que a capacidade de reflexão e juízo de dezenas de milhões de brasileiros está profundamente comprometida.

Hoje, há multidões inumeráveis de Bolsonaristas que estão profundamente convictos de que o melhor caminho para a pátria é entregar o leme do cargo supremo do Executivo Federal a um sujeito desequilibrado e violento, que entre suas promessas de campanha fala em “fuzilar a petralhada”.

Entre nós, isso não causa mais choque. É “normal” que um candidato prometa o genocídio de seus adversários durante uma eleição num país que ainda seria, ao menos formalmente, uma democracia. Ao invés de repúdio geral da população por suas posturas de desprezo completo pelo jogo democrático, o facínora recebe os urros de celebração de uma horda de fanáticos a cada declaração racista, truculenta, militarista, pró-chacina, que profere de maneira irresponsável e inconsequente.

No Brasil, o sadismo tornou-se um fenômeno de massas: os eleitores do Bozo gozam perversamente com o sofrimento alheio, deleitam-se com as violências racistas, homofóbicas, misóginas e belicistas proferidas por aquele que chamam Mito.

E muitos Bolsominions já agem de acordo com os ditames de seu führer – o assassinato a facadas de Moa do Catendê, mestre de capoeira, não é um caso isolado. Houve o sequestro de uma garota para impor a ela a tatoo horrenda de uma suástica. Houve espancamento de estudante pelo “crime” de vestir um boné do MST. Aonde vamos parar? Hoje, se eu sair na rua com uma camiseta vermelha com estampa Lula Livre, corro o risco de não voltar vivo para casa. É esse o país que queremos?

Nunca pensei que viveria para testemunhar meus concidadãos descendo a tal nível de baixeza ética e cognitiva a ponto de se tornarem os servis propagadores de sórdidas mentiras – como aquela, disseminada para milhões de pessoas, que afirma que Haddad iria legalizar a pedofilia. É tão evidente que isso é uma mentira deslavada, é tão explícito que se trata de uma suja difamação sem nenhum ponto de contato com a realidade, que fico me perguntando qual a motivação afetiva por trás da colaboração ativa de tantos cidadãos na disseminação de absurdos como esses.

O Bolsonarismo apela para o que há de mais ignóbil e sórdido nas pessoas: o sadismo delas, o desejo de rebaixar o outro, o gosto pela humilhação e pela sub-humanização da alteridade que difere da norma que se coloca dogmaticamente como sagrada (a norma do homem, branco, cis, hetero, rico, conservador, tradicionalista, que vai trucidar tudo que se desvie disso.)

Suspeito que só a psicologia de massas do fascismo possa lançar alguma luz sobre esta doença coletiva. Considero o fascismo um sistema político baseado numa espécie de Crueldade Organizada. As satisfações que o fascismo fornece às hordas de cidadãos que aderem a ele são da ordem da crueldade deleitosa: tratar o outro demonizado como se fosse um verme, a ser humilhado, pisoteado, privado de direitos humanos, reduzido a animal.

Nestas eleições, vi com repugnância e indignação que os Bolsonaristas circulavam memes, disseminados por milhões de pessoas, onde se dizia que os petistas eram “ratos” e que as eleições eram o momento de “exterminar as pragas”. A propagação desse tipo de discurso vinha muitas vezes acompanhada de risinhos e de “kkkkkk”s, sintoma de que o sujeito está de fato gozando com a idéia de que o outro é um rato a ser exterminado, e que uma urna de votação deve ser usada como instrumento para empoderar justamente o Estado Genocida que nos livrará dos ratos.

O antropólogo Luiz Eduardo Soares fez um diagnóstico comparativo que vale a pena citar: para ele, o antipetismo funciona hoje de maneira análoga ao antisemitismo na Alemanha da época em que o Partido Nazista subiu ao poder e produziu o Holocausto (o assassínio em massa de mais de 6 milhões de judeus europeus).

 

“O impeachment, na atmosfera envenenada por um antipetismo patológico, abriu caminho para que saíssem do armário todos os espectros do fascismo. O anti-petismo é o ingrediente que faz as vezes do anti-semitismo na Alemanha nazista. O anti-petismo identifica O CULPADO de todas as perversões, o monstro a abater, o bode expiatório, a fonte do mal. O anti-petismo gerou o inimigo e gestou a guerra político-midiática para liquidá-lo, guerra que se estende, sob outras formas (mas até quando?), às favelas e periferias, promovendo o genocídio de jovens negros e pobres, e aniquilando a vida de tantos policiais, trabalhadores explorados e tratados com desprezo pelas instituições.

(…) Ser contrário ao anti-petismo, mesmo não sendo petista, é necessário para resistir ao avanço do fascismo. Os que votaram pelo impeachment e, na mídia, incendiaram os corações contra Lula e o PT – Partido dos Trabalhadores, sem qualquer pudor, não tendo mais como recuar, avançam ao encontro da ascensão fascista, que ajudam a alimentar, voluntária e involuntariamente. Não podemos retardar a formação de ampla aliança progressista pela democracia, uma frente única anti-fascista.”

– Luiz Eduardo Soares no texto “O tweet do General”. SOBRE O AUTOR: É antropólogo, cientista político, especialista em segurança pública e escritor brasileiro. Compartilhar.

Nos dois casos, dissemina-se pelo corpo social a noção de inimigo interno: a demonização do outro – judeu ou petista – se dá através do recurso às mentiras mais sórdidas e vis; o outro é a encarnação de Satanás, de tudo que há de mais sujo e mais corrupto, de tudo o que precisa desaparecer da face da terra, de tudo que merece ser preso em campos-de-concentração ou ser fuzilado sem dó (Bolsonaro já disse: “precisamos matar uns 30 mil”).

Como professor de filosofia, estou consciente de que muitos pensadores já atentaram para estes fenômenos, a começar por Étienne de la Boétie, com seu clássico tratado “Sobre a Servidão Voluntária”, precursor de estudos realizados no século 20 por figuras como Wilhelm Reich, Erich Fromm, Hannah Arendt, Stanley Milgram. Há de fato nos seres humanos uma tendência ao sacrifício da autonomia, da liberdade, da responsabilidade, que muitas vezes são sentidas como fardos pesados demais para se carregar e que o cidadão prefere depositar, para sacrifício, no altar do tirano.

É mais simples seguir as ordens do ditador do que encarar a aventura difícil da auto-determinação. É mais fácil ser ovelha que vai com as outras, para onde quer que mandem os pastores, do que organizar as ovelhas em assembléia para que deliberem sobre os melhores rumos para a coletividade.

É mais rápido, diante das ovelhas negras, chamar o carrasco para conduzi-las ao cadafalso, onde serão decapitadas, ao invés de ouvir a voz da discórdia que tanto pode fazer para qualificar o debate público.

É com muita tristeza que vivo no Brasil de hoje diante do tamanho assustador das hordas que apoiam Bolsonaro. Pois apoia-lo é um sinal inconteste de que a pessoa está doente. Eticamente, perdeu algo de essencial: a capacidade de empatia e de solidarização. Aderiu ao ódio que fere, que mata, que segrega. Fez-se instrumento de um projeto autoritário que nos separa e nos desumaniza.

Quem adere ao Bolsonarismo, pelo gozo sádico e perverso de participar de uma horda que humilha e maltrata aqueles que são estigmatizados como “escória do mundo” (não só petistas, mas negros, feministas, comunistas, LGBTs, ativistas de movimentos sociais, sem-terras, sem-tetos etc.), está jogando no lixo uma parte preciosa de si: sua humanidade. Filia-se aos algozes que cavam a cova de nosso futuro, sem ver o perigo que corre entre nós a própria civilização democrática que com muito suor e lágrimas construímos.

Só uma sociedade em que entrou em colapso massivo o bom-senso, a lucidez e a sensibilidade poderia seguir, rumo a um abismo de onde não sei quando sairemos, este sub-Führer, grotesco e patético, que é Bolsonaro. Um psicopata completamente despreparado para uma função de tamanho poder quanto a de presidente da República. Um tirano dos mais abomináveis e que promete, entre nós, “extirpar os ativismos”, usar o “lança-chamas” contra Paulo Freire, purgar a pátria através da tortura e da guerra civil onde sejam mortos “uns 30 mil”.

Escolhendo Bolsonaro, vocês escolhem o morticínio e a carnificina. Vocês escolhem Tânatos e a necropolítica. Vocês escolhem a ignorância, a estupidez e a colheita nefasta dos massacres administrativos. Vocês escolhem o sangue derramado dos inocentes e a profanação mais grotesca de todas: a da infância. Escolhendo Bolsonaro, vocês são cúmplices de um projeto de desumanização em que crianças são ensinadas a atirar armas e a odiar as diferenças. Fazendo uma tão péssima escolha, dando um tal tiro no pé, vocês escolhem o pior opressor para nos tiranizar e enterram o sonho de um Brasil mais justo e solidário, melhor educado e mais culto, respeitado internacionalmente e capaz de propor ao globo um caminho alternativo à hecatombe que é o capitalismo neoliberal globalizado.

Ganhando Bolsonaro, perdemos todos.

#EleNão

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Um texto importante, viralizado nas redes, de Rafael Azzi, tinha como título: “Sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada.” Manipulada por fascistas. Manipulada para agir como um fascista. Com aval de Trump e o poderio da Cambridge Analytica. Com o poder de enganação massivo que há na Deep Web.

As infelizes vítimas da Lavagem Cerebral e da Programação Robótica de Subjetividades, processos perpetrados hoje pelas forças da extrema-direita no Brasil, caminham, feito um exército de zumbis lobotomizados, para o abismo. E querem arrastar o país inteiro com eles para um buraco que não temos ideia de quão fundo, nem de como dele depois sairemos. Enfim: é uma baita ideia de jerico, um trágico projeto de suicídio coletivo. É a guerra dos estúpidos contra os sensatos, e os estúpidos estão vencendo. É escolher entre um Opressor racista, machista, homofóbico, armamentista, ditador, obscurantista, e um Professor sensato, iluminista, republicano, democrático, conciliador e sádio – e a maioria tem tendido a preferir o pior. É loucura de massas num hospício a céu aberto, e logo vão mandar pro pau-de-arara ou pra cadeia justamente aqueles, dentre nós, que estão diagnosticando a “psicopatização” da sociedade brasileira, para emprestar a expressão de Maria Rita Kehl.


A turma que vomita conteúdos e slogans com a obsessão do “PT NÃO” normalmente é composta por pessoas que confundem xingamentos e memes mentirosos com argumentos, coisa que lhes falta. São pessoas que puxam o nível do debate político para o nível deles, isto é, para a baixeza dos ataques ao inimigo em que não vigora nem uma gota “fair play”. São brasileiros que desconhecem não só a História do país, como também a travessia do Partido dos Trabalhadores nestes seus 38 anos de existência. Não são capazes de fazer uma lúcida avaliação dos governos petistas, mas aderem à simplificação grotesca que consiste em atribuir todos os males do Brasil àquilo que se quer pintar como Organização Criminosa equivalente à peste bubônica. Esta criminalização e demonização do PT disseminou-se como uma doença no corpo social e o ovo da serpente é o movimento militar-teocrático que venho chamando de Bolsonazismo.

O fascismo sempre necessitou da demonização do outro, e hoje os fascistas utilizam-se do antipetismo como sua ferramenta predileta de mobilização de suas massas-de-manobra.Os Bolsominions, pagando Mico ao idolatrar tão abjeto “Mito”, estão sendo coagidos, por uma campanha lotada de fake news e que manipula os afetos de modo vil, a usar as urnas como um instrumento para autodestruição da Democracia.

Votar em um ditador: que loucura é essa, ô 49 milhões de cidadãos de meu querido Brasil? Vocês estão tentando puxar o país inteiro com vocês para a hecatombe dos direitos civis e das liberdades democráticas? Enquanto celebram, acéfalos e manipulados, este Sub-führer tropical que ameaça nos lançar ao mais completo caos e convulsionamento social?

Temos poucos dias para conseguir disseminar um “Choque de Conscientização” que consiga iluminar ao menos uma parcela destas mentes fanatizadas e estupidificadas pelas propagandas nível-Goebbels que vem sendo utilizadas para difamar e satanizar o Partido dos Trabalhadores, todos os seus quadros, todos os seus apoiadores, todos os seus eleitores, mesmo aqueles que são críticos construtivos do PT.

Os Bolsominions, aqueles que participam ativamente da campanha pró-Bolsonaro, aqueles que tem realmente convicções quanto a isso, são muitas vezes cidadãos que nos fazem lembrar daquela frase de Simone de Beauvoir: “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.” Se os considerarmos incuráveis, totalmente imunes à argumentação, indignos de diálogo, então de fato estaremos entregando de mão beijada as suas consciências sequestradas aos ideólogos da Direita.

Eu, trabalhador da educação, servidor docente da rede federal de ensino, acho que a práxis do educador só tem sentido na perspectiva de que cada um de nós é transformável pois perfectível. Jamais seremos perfeitos, mas caminhamos juntos rumo às melhores versões de nós mesmos que em comum podemos colaborar criando. Por isso, não “essencializo” o Bolsominion: ele não nasceu isso, isso tornou-se. Trata-se de tentar convencê-los de que estão equivocados, trata-se de seduzi-los para uma aliança mais humana e solidária. Missão quase impossível? Não importa, é preciso dar tudo a esta luta neste momento tão urgente de nossa história, pois como nos olharíamos no espelho sem nojo, sem repugnância, caso tivéssemos nos acovardado no momento em que o país exigia de nós a coragem, a lucidez e o amor para ir ao embate contra o fascismo e suas atrocidades?

O cyberativismo agora é um campo de batalha, e a extrema-direita está vencendo aí, neste campo, através da viralização do falso e do imoral mergulho na era da Pós-Verdade. Não se trata de jogar tão sujo quanto eles, mas sim da tentativa de fazer a Verdade falar mais alto. Provavelmente perderemos, mas estaremos estado sempre do lado da dignidade, da responsabilidade, da defesa incansável do direito de todas as pessoas humanas ao florescimento, contra a horrenda política de segregação, humilhação e extermínio das diferenças proposta pelo totalitarismo Bolsonarista.

O que hoje nos estarrece é a extensão da cumplicidade dos oprimidos com esse projeto de tirania encarnado pela teocracia militarizada do Bozonazismo. Aqueles que ainda filiam-se a Bolsonaro estão inconscientes de que agem como cúmplices de um projeto político desumano, opressor e potencialmente genocida. Acredito que só uma parcela dos eleitores de Bozo é composta de psicopatas sádicos que querem gozar perversamente com os horrores que serão cometidos contra a população negra e periférica, contra LGBTs, contra feministas, contra comunistas, contra ativistas de esquerda de todos os coloridos. Uma boa parte do eleitorado é simplesmente irresponsável e inconsequente, vê a política como uma brincadeira sem muita importância, e vai à urna para nela depositar ódios mesquinhos, implantados ali por mídia, família e pastores, que nada tem a ver com uma autêntica deliberação cidadã sobre o futuro da gestão do Bem Comum.

Política, para eles, é ferramenta para a raiva recalcada poder manifestar-se por procuração, com um certo gozo que há de cair-de-joelhos diante de um Grande Pai, que faça sofrer e berrar a “todos os vagabundos” (os outros, demonizados, que nos garantem que somos “cidadãos-de-bem”). Pobres Bolsominions, pensam que serão poupados da derrocada civilizacional que o fascismo entre nós propaga! Pensam que não perdem eles também com a desumanização e a brutalização geral de nossa sociedade! Estão perdendo todos.

Muitos dos eleitores de Bolsonaro não conseguem atingir aquele grau de reflexão e auto-crítica necessário para colocarem a questão: será que estou sendo manipulado, como uma marionete, por elites egoístas e interesseiras que só querem nos usar de trampolim para chegar ao poder? Não foram ensinados, na escola, sobre os mecanismos pelos quais as ideologias se alojam nas consciências, como parasitas, fazendo-nos achar que são “nossos” algumas idéias e afetos que nos foram inculcados e implantados por poderes externos, interessados na vantagem deles, e não na nossa.

É uma situação histórica que também traz à lembrança os ensinamentos de Hannah Arendt, que ficou estarrecida, diante do Julgamento de Eichmann em Jerusalém, com a estupidez e a irreflexão daquele ser humano que havia contribuído enormemente com o Holocausto, ou seja, com “o massacre administrativo” de milhões de pessoas pelo III Reich alemão.

Hoje, 15 de Outubro, dia do Professor, reflito com melancolia sobre a difusão assustadora da estupidez e da irreflexão entre tantos de nossos concidadãos, mas me recuso a considerá-los como causa perdido. Sei de muitos companheiros que seguem em incansável atividade: estamos trabalhando dia e noite na tentativa de alertá-los sobre o perigo que as instituições democráticas correm entre nós. Infelizmente são demasiado numerosos os atingidos pela “contaminação fascista” para que o trabalho que temos pela frente não seja sentido, dolorosamente, como um trampo de Sísifo.

Algo com gosto desesperador e absurdo. Por isso, ler Albert Camus tornou-se novamente, para mim, uma necessidade orgânica – hoje almoço arroz, feijão, ovo e “O Homem Revoltado”.

Sobre os cidadãos que votarão em Bolsonaro, cegos quanto à catástrofe que isso representa para o conjunto de nosso povo brasileiro, vale lembrar o genial poema, todo feito de neologismos, escrito por José Paulo Paes, que profeticamente descreve os males de que sofrem e os infelizes desumanizados que eles estão sendo:

“economiopia
desenvolvimentir
utopiada
consumidoidos
patriotários
suicidadãos”

CONFIRA TAMBÉM:

AS GUERRAS DA MEMÓRIA: O PASSADO EM DISPUTA – Por Caroline Bauer, Dilma Rousseff, Maria Rita Kehl, Eliane Brum (Ilustrações por Vitor Teixeira e Latuff)

Não se trata apenas de uma coincidência que Lethe, a deusa grega do esquecimento, seja filha de Éris, deusa da discórdia.”
Caroline Silveira Bauer, Como Será o Passado?, pg. 15

Os mitos gregos narram que, lá no mundo subterrâneo do Hades, zona penumbral para onde vão as almas dos mortos antes de retornarem à vida em novos corpos, há um rio chamado Lethe. Beber de suas águas significa consumir uma dose cavalar de esquecimento. Nascemos todos desmemoriados por causa da beberagem que tomamos, ainda em estado pré-natal de almas vagando no Hades, da poção da amnésia.

O que esses mito podem nos ensinar no presente? Eles podem nos servir como emblemas para pensar o passado recente do Brasil, em especial a constituição da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e sua recepção e repercussão pela sociedade brasileira? Podemos explicar nossas discórdias civis a partir de um dever de memória e de aprendizado com a história que estamos fracassando em cumprir?

“A Ninfa Aquática”, Pintura de Herbert James Draper

Para além do célebre rio do esquecimento, as lendas míticas helênicas também nos contam sobre as ninfas, divindades femininas e aquáticas. Uma delas chama-se justamente Lethe, filha de Éris, a deusa da discórdia. Sobre Éris – filha do casal olímpico supremo, Zeus e Hera – o mínimo que se pode dizer é que, tendo sido alcunhada de “A Mãe dos Males”, ela tem uma longa fila de rebentos malignos. Além de Lethe, o esquecimento, Éris pariu: “Ponos (desânimo e fadiga), Macas (batalhas), Limos (fome) e Horcos (juramento); as chorosas Algea (tristeza), Hisminas (discussões e disputas), as Fonos (dor e matança), as Androctasias (devastações e massacres), as Neikea (ódio), as Pseudólogos (palavras mentirosas), as Anfilogias (ambiguidades; dúvidas e traições), Disnomia (desrespeito) e Até (insensatez) todos eles companheiros inseparáveis. Chamados pelos gregos de Daemones; as “desgraças” para os romanos.” (WIKIPÉDIA)

Por culpa de Lethe, a filha da Discórdia, nós nos tornamos desmemoriados, amnésicos, letárgicos (outra palavra que vem de lethe). Na história da cultura grega, as explicações para os males humanos que os conectam ao esquecimento são muitas. Os discípulos de Orfeu, de Pitágoras, de Sócrates, sustentavam que a maioria de nós não se lembra de vidas passadas pois nossas almas, antes de encarnar no corpo que atualmente ocupamos, tomaram um cházinho de esquecimento no Hades. E não faltarão os filósofos que vão argumentar em prol da importância da re-memoração como uma tarefa crucial para o aspirante à sabedoria.

anamnese pitagórica-socrática por muito tempo reinou como uma das concepções hegemônicas sobre o processo de conhecimento humano: saber sobre o passado era essencial para quem quisesse gozar dos benefícios da sophia. O próprio conceito de Verdade veiculado pelo termo grego alethéia está conectado com isto: encontrar o verdadeiro seria um processo de conhecimento baseado em um des-velamento, em um des-ocultamento. 

Retirar o véu que nos separa do passado, derrubar o muro que nos impede de conhecer mais amplamente o nosso tempo pretérito e seus legados, era quintessencial ao incremento de saber que ia forjando o sábio. Sábio era aquele que vencia o império de Lethes, símbolo do esquecimento. Para além dos mitos, o que isso nos dizer sobre as urgências do tempo presente e sobre a importância, aqui e agora, de políticas públicas da memória? Poderíamos ler o evento histórico da CNV no Brasil em uma chave que recupera o vínculo feito pelos gregos entre Esquecimento e Discórdia?




Em um dos livros mais importantes publicados no Brasil recente, Caroline Silveira Bauer pergunta, de maneira poética e provocativa: Como Será o Passado?  A graça da pergunta está na formulação verbal inesperada, pois espera-se que o passado seja de tal natureza que o verbo para ele deveria estar conjugado diferente: “como foi o passado?” Ora, Carol está dizendo que, no futuro, o passado será outro… O passado histórico está em disputa: qual das múltiplas representações do tempo pretérito ganhará hegemonia e se imporá como cultura histórica dominante?

Não é apenas que o passado vá aumentando de tamanho, ou seja, tendo o seu conteúdo expandido, como um porquinho de economias, um cofrinho cada vez mais gordo conforme recebe mais moedas, em um modelo do pretérito como tesouro crescente. O passado não é aquilo que “aumenta de volume” como uma piscina que está se enchendo, conforme novas gotas – os momentos presentes que vão passando – pingam e pingam no passado.

O passado está sendo sempre re-escrito em novos presentes, e por isto está sujeito a disputas. O domínio sobre a representação do passado é também um tema bélico, de alta conflitividade social. O passado é um campo de batalha – quem vai ganhar esta guerra em que o vencedor tem o privilégio de impor (mas não sem resistência) a sua própria concepção de tempo, a sua própria narrativa da história?

São questões exploradas por Orwell em 1984, romance distópico sobre uma sociedade totalitária, cujo protagonista trabalha no Ministério da Verdade, irônica denominação para o setor do governo que reescreve o passado de acordo com os interesses do presente (e que tem como emblema histórico, também comentado na sátira A Revolução dos Bichos, a tentativa de Stálin de apagar Trótski da histórica soviética).

“A gestão da memória não é um privilégio de sociedades comprometidas com valores democráticos, igualitários, de justiça e de proteção aos direitos humanos; ao contrário, a história do século XX demonstrou que regimes autoritários e totalitários procuram impor determinadas versões sobre o passado, demonstrando a importância da história como fator de legitimação desses regimes. Desta forma, aprioristicamente, não há como afirmar se lembrar ou esquecer é bom ou ruim, dependendo dos usos ou abusos da memória…” (BAUER, p.. 145)

O livro crucial da Carol Bauer, professora de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ao colocar a pertinente questão “como será o passado?”, deseja propor uma reflexão e um debate acerca das guerras da memória, ou seja, dos combates sociais pelo controle da representação hegemônica do passado. A obra, como explicita seu subtítulo – História, Historiadores e a Comissão Nacional da Verdade –, estuda os “usos políticos do passado” nas políticas públicas brasileiras, com foco sobretudo nas ações instituídas durante o governo Dilma Rousseff, que visavam lançar luz sobre as violações dos direitos humanos ocorridas durante os períodos ditatoriais da história recente do Brasil.

Para além do conhecimento histórico, a CNV tinha seus objetivos práticos, ou seja, o desejo de intervir no futuro da convivência democrática brasileira, já que entre seus altos ideais havia a intenção de promover paz e reconciliação, além de inculpar e penalizar aqueles que perpetraram crimes contra a humanidade. Uma significativa nota da CNV, publicada no fim de Março de 2014, no marco histórico dos 50 anos do golpe de 1964, destacava que cerca de

“82 milhões de brasileiros nasceram sob o regime democrático (após 1985). Mais de 80% da população brasileira nasceu depois do golpe militar (após 1964). O Brasil que se confronta com o trágico legado de 64, passados 50 anos, é literalmente outro. O país se renovou, progrediu e busca redefinir o seu lugar no concerto das nações democráticas. Não há por que hesitar em incorporar a esta marcha para adiante a revisão de seu passado e a reparação das injustiças cometidas.”  (LEIA NOTA COMPLETA EM PDF ou NO SITE OFICIAL DA CNV)

Caroline Bauer argumenta que há um “confronto de cronosofias e culturas históricas antagônicas” (p. 115), que nos colocam numa acirrada batalha sobre a memória. Um dos modos mais simples de exemplificar as formas radicalmente opostas de representar o passado histórico está na lembrança de que, para alguns, as ocorrências do fim de Março de 1964, o fim do governo João Goulart e o início do novo regime, equivalem a uma “revolução” (gloriosa), enquanto para outros aquilo foi um desgraçado de um “golpe de Estado” (nefasto).

Quem tem razão sobre o que foi o passado? É aquela capa do jornal O Globo, que no dia seguinte aos eventos publicou, em letras garrafais, “RESSURGE A DEMOCRACIA!”, ou aqueles  que falam sobre um Período de Trevas e Barbáries iniciado naquele Dia Que Durou 21 Anos? Memória em disputa.

Inspirando-se em reflexões de pensadores como Todorov, Paul Ricoeur e Karl Jaspers, dentre outros, a Carol Bauer sondou as profundezas do passado histórico brasileiro com um olhar atentíssimo à “luta política pela imposição de determinada construção temporal” (p. 118). No caso da presidenta Dilma Rousseff, eleita em 2010 e re-eleita em 2014, houve uma elucidação importante realizada em seu discurso de posse dos integrantes da CNV, em 16 de Maio de 2012, que vale a pena rememorar:

“Ao instalar a Comissão da Verdade não nos move o revanchismo, o ódio ou o desejo de reescrever a história de uma forma diferente do que aconteceu, mas nos move a necessidade imperiosa de conhecê-la em sua plenitude, sem ocultamentos, sem camuflagens, sem vetos e sem proibições. (…) O nosso encontro, hoje, em momento tão importante para nós, é um privilégio propiciado pela democracia e pela convivência civilizada. É uma demonstração de maturidade política… O país reconhecerá nesse grupo [de membros da CNV], não tenho dúvidas, brasileiros que se notabilizaram pelo espírito democrático e pela rejeição a confrontos inúteis ou gestos de revanchismo.

Nós reconquistamos a democracia a nossa maneira, por meio de lutas e sacrifícios humanos irreparáveis, mas também por meio de pactos e acordos nacionais, muitos deles traduzidos na Constituição de 1988. Assim como respeito e reverencio os que lutaram pela democracia enfrentando bravamente a truculência ilegal do Estado, e nunca deixarei de enaltecer esses lutadores e lutadoras, também reconheço e valorizo pactos políticos que nos levaram à redemocratização.”  DILMA ROUSSEFF (BAUER, p. 118-119)

Carol Bauer reconhece neste discurso, que abre os trabalhos da CNV, a “ideologia da reconciliação”, a aposta na civilidade, o desejo de um processo de pesquisa lúcida sobre o passado que nada teria de revanchismo, de vingança odienta. Tratava-se de Justiça e não de vendeta. Dilma fala sobre uma certa cultura do medo, que teria feito do passado da ditadura uma espécie de área proibida, de zona tabu. “Eu acrescentaria”, disse Dilma, “que a força pode esconder a verdade, a tirania pode impedi-la de circular livremente, o medo pode adiá-la, mas o tempo acaba por trazer a luz. Hoje, esse tempo chegou.” (p. 129)

A Comissão Nacional da Verdade nasceu envolta em controvérsias, com muitas figuras políticas que se manifestaram contra a sua instauração, utilizando-se de argumentos como os de Arolde de Oliveira, que disse: “temo que nós estejamos mexendo numa ferida que já está cicatrizada e que poderá voltar a criar problemas sérios” (p. 152). Já o deputado Jair Bolsonaro, ex-capitão do Exército, discursou na Câmara em setembro de 2011 falando do “trabalho impecável” desenvolvido pelas Forças Armadas e criticando a CNV como um “projeto que já nasce mais do que viciado”:

“É um projeto que desborda a Lei de Anistia, permite a prisão disciplinar de militar. É um projeto que cria um trem da alegria, a partir do momento em que vão indenizar centenas e centenas de pessoas que comparecerem à Comissão e falarem que foram perseguidas… É um projeto que define, que apenas tipifica o tipo de crime que nós militares teríamos cometido para responder. Já os crimes praticados pela esquerda ficarão completamente de fora. Mais ainda: consubstancia, no final, um relatório que será imposto junto aos livros do MEC para se fazer uma nova História moderna brasileira, tendo os militares como bandidos nesse período de 1964 a 1986 [sic]. A Dilma vai ter o seu troco. (…) Fizeram curso em Cuba, na China, na Coréia, de guerrilha, de como torturar, de como sabotar, de terrorismo, e vieram aqui ao Brasil falar que combatiam uma tal de ditadura. Isso é uma piada, isso é uma piada, é uma vergonha. E eu lamento que o meu Congresso esteja aprovando essa proposta, apunhalando os militares das Forças Armadas, apunhalando!” – JAIR BOLSONARO (Bauer, p. 155 a 157)

O confronto entre duas visões radicalmente opostas se explicita neste contraste entre Dilma e Bolsonaro – que teve um de seus episódios mais macabros durante a sessão de votação do impeachment, em Abril de 2016, quando Bolsonaro elogiou o Coronel Ustra, “pavor de Dilma Rousseff”, e disse que a esquerda perdeu em 1964 e perdeu de novo em 2016.

A presidenta, que esteve presa pela ditadura militar por seu envolvimento em grupos de resistência ao regime (ver a biografia A Vida Quer É Coragem), mostrou-se visivelmente emocionada ao final dos trabalhos da CNV em 2014, quando não conteve as lágrimas ao receber o relatório final. Poucos meses antes, no dia 31 de Março daquele ano de 2014, rememorando os 50 anos do golpe civil-militar, ela disse:

“Por 21 anos, mais de duas décadas, nossas instituições, nossa liberdade, nossos sonhos foram calados. (…) Nós podemos olhar para este período e aprender com ele, porque nós o ultrapassamos. O esforço de cada um de nós, o esforço de todas as lideranças do passado, daqueles que vivem e daqueles que morreram, fizeram com que nós ultrapassássemos essa época, os 21 anos. O dia de hoje exige que nós nos lembremos e contemos o que aconteceu. Devemos isso a todos os que morreram e desapareceram, devemos aos torturados e aos perseguidos, devemos às suas famílias, devemos a todos os brasileiros. Lembrar e contar faz parte, é um processo muito humano…” (p. 120-121)

Ora, esta representação do passado ditatorial que teria sido ultrapassado, esta representação da Ditadura como algo que conseguimos superar, é algo que também está em disputa. A descrição que Dilma faz da História entre 2012 e 2014 é uma, agora que estamos em 2018 é certamente outra, já que ela vivenciou na pele todo o processo de impeachment que, em 2016, mostraram que o passado era outro do que aquilo concebido ao fim de seu primeiro mandato presidencial, quando a democracia de fato parecia mais consolidada do que agora, às beiras das eleições de Outubro de 2018, quando a condenação e o encarceramento de Lula demonstram uma aversão das elites dominantes a qualquer processo onde o sufrágio universal pudesse de fato exercer seu direito de escolha ao reconduzir ao poder o Partido dos Trabalhadores…

O passado ditatorial é mais presente e atual do que pensávamos, e é de se suspeitar que a CNV não teve força, nem capilaridade social, nem suficiente socialização de seus achados e pesquisas, que bastassem para que a população brasileira de fato aumentasse seu saber sobre o passado e aprendesse com as lições pretéritas. Voltamos a dar razão ao Millôr Fernandes, que dizia que “O Brasil é um país com um enorme passado pela frente.” Vera Paiva, filha de Rubens Paiva, célebre desaparecido político da era ditatorial, escreveu:

“Ao enfrentar a verdade sobre esse período, ao impedir que violações contra direitos humanos de qualquer espécie permaneçam sob sigilo, estamos mais perto de enfrentar a herança que ainda assombra a vida cotidiana dos brasileiros. Não falo apenas do cotidiano das famílias marcadas pelo período de exceção. Incontáveis famílias ainda hoje, em 2011, sofrem em todo o Brasil com prisões arbitrárias, sequestros, humilhação e tortura. Sem advogado de defesa, sem fiança. Não é isto que está em todos os jornais e na televisão quase todo dia, denunciando, por exemplo, como se deturpa a retomada da cidadania nos morros do Rio de Janeiro? Isso tudo continua acontecendo, Excelentíssima Presidenta. Continua acontecendo pela ação de pessoas que desrespeitam sua obrigação constitucional e perpetuam ações herdeiras do estado de exceção que vivemos de modo acirrado de 1964 a 1988.” – VERA PAIVA (Bauer, p. 168)

Quanto à Lei de Anistia promulgada em 1979, a CNV proclamou-se de maneira bem explícita contra a impunidade ainda reinante em relação aos torturadores e assassinos de farda que cometeram os atos de terrorismo de Estado durante a ditadura: “a extensão da anistia a agentes públicos que deram causa a detenções ilegais e arbitrárias, tortura, execuções, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres é incompatível com o direito brasileiro e a ordem jurídica internacional, pois tais ilícitos, dadas a escala e a sistematicidade com que foram cometidos, constituem crimes contra a humanidade, imprescritíveis e não passíveis de anistia.” (Relatório da CNV, vol. I, p. 965)

“A imposição do silenciamento por parte do Estado provinha de diversas técnicas, mas seu corolário foi a promulgação da Lei de Anistia”, opina Carol Bauer (p. 19). Uma falácia conciliatória teria lançado uma pá de cal sobre a possibilidade dos familiares das vítimas conquistarem a tão demandada justiça. O efeito concreto da lei de Anistia foi a impunidade dos agentes da repressão que cometeram crimes a mando do Estado ditatorial, ilegalmente instaurado no poder desde o golpe de 1964.

O livro de Carol Bauer nos convida a pensar sobre “um passado que não passa”, “uma expressão cunhada por Henry Rousso” que descreveria à perfeição a atualidade brasileira. O retorno do autoritarismo, o descaso pela soberania e pela legitimidade concedidas pelo sufrágio universal, o desdém pela participação popular nas decisões públicas, tudo isso recoloca na mesa de jogo, no campo de batalha, a questão dos usos políticos da memória. 

Mas tem mais: outra questão crucial que precisamos colocar é a de nossos aprendizados com o passado: a História pode ser mestra da vida? Estudar sobre o passado pode ter um efeito pedagógico, de orientação para nosso presente? Só através de um trabalho que se esforce por “melhorar o ontem”, na expressão de J. Rusen (p. 110), nos permitirá ter um futuro melhor? Disso poderia decorrer inclusive um imperativo ético, ou seja, o dever de memória? E disso decorreria também o direito à verdade como direito cívico básico? Poderíamos, para retomar o mito grego, criar políticas públicas que instituíssem a necessidade de um esforço coletivo contra sermos submergidos pelas águas de Lethe, o esquecimento, filha de Éris, a Mãe das Discórdias?

Nos mitos gregos, encontramos também uma deusa da memória, Mnemosyne, a mãe das musas (e, por conseguinte, da música). É de Mnemosyne que escorre, como de uma fonte exuberante, a capacidade humana para a mnese, a recordação, o trazer-de-volta-ao-presente de fragmentos do vivido pretérito, em um processo que os helenos chamavam de anamnese. Seria um desvio digressivo desnorneante tecer comentários sobre a importância da anamnese para filósofos gregos como Pitágoras e Platão, mas vale a pena relembrarque o próprio conceito de Verdade deles tinha a ver com a negação do esquecimento: o termo grego alethéia refere-se à negação de lethes, o olvido.

Verdade exige memória, acesso ao passado, sem os interditos que autoridades culposas desejam antepor aos museus, às bibliotecas, aos arquivos, aos fotogramas, aos documentos e documentários. Estamos, em todo e qualquer presente, em plena guerra da memória, ou seja, as narrativas sobre o passado histórico são concorrentes, antagônicas, opostas. Não faltam historiadores, por exemplo, que desejam empurrar para o olvido o fato de que agentes do Estado, durante a ditadura, praticaram crimes contra a humanidade que são, segundo a Constituição de 1988, imprescritíveis e não passíveis de anistia.

Uma possível  apologia da História – para lembrar o título do livro de Marc Bloch – veria no passado não o imutável, mas aquilo que está em disputa. E mais: aquilo que ainda não se cumpriu, aquilo que os seres humanos tentaram realizar sem sucesso, não está acabado e perdido – promessas de justiça que foram feitas outrora podem e devem ser reavivadas agora. No passado, onde jaz “o cemitério de promessas não cumpridas”, como diz Ricouer, também as sementes de utopias não desabrochadas estão largadas ao solo. Falta só abrirmos um buraco na terra e começarmos a re-cultivá-las. Rumo ao mundo possível e viável de uma sociedade da transparência – e não da vigilância; da busca comum pela verdade, e não pelos acessos restritos ao conhecimento, autoritariamente impostos pelos guardiões das Portas da Lei; de convívio filantrópico com a Outridade em sua louvável e defensável sociobiodiversidade. Ricouer e Benjamin concordam que é função do intelectual “despertar no passado a centelha de esperança”, pois:

“Não somente os homens do passado, imaginados em seu presente vivido, projetaram um determinado porvir, mas também sua ação teve consequências indesejadas que frustraram seus projetos e decepcionaram suas esperanças mais caras. O intervalo que separa o historiador desses homens do passado aparece, portanto, como um cemitério de promessas não cumpridas. Não é mais tarefa do historiador de gabinete, mas certamente daqueles que poderíamos chamar de educadores públicos, aos quais deveriam pertencer os homens políticos, despertar e reanimar essas promessas não cumpridas.” (RICOUER, Condenação, Reabilitação, Perdão. Apud BAUER, op cit, p. 21)

 

Eduardo Carli de Moraes
Abril de 2018




SIGA VIAGEM:

Eliane Brum e Maria Rita Kehl são outras das melhores pensadoras do tema no Brasil de hoje, como evidenciam os trechos abaixo:

O general Eduardo Villas Bôas afirmou, em 19 de fevereiro, que os militares que atuarão na intervenção no Rio precisam de “garantias para agir sem o risco de surgir uma nova Comissão da Verdade”. O que significa essa declaração? Que haverá torturas, sequestros e assassinatos de civis nas favelas e comunidades do Rio de Janeiro como houve na ditadura civil-militar (1964-1985)? Que o general quer “garantias” para que as tropas possam torturar, sequestrar e assassinar civis em nome do Estado, na operação do Rio, sem responder por isso? Que o general quer quebrar a lei e oficializar o Estado de exceção?

crise da democracia é global, mas há algo de particular na crise de cada país. Já escrevi em artigo anterior que acredito que as raízes da atual crise da democracia no Brasil estão no próprio processo de retomada da democracia, após 21 anos de ditadura. As raízes da atual crise brasileira estão no apagamento dos crimes do regime de exceção e na impunidade dos torturadores e assassinos a soldo do Estado.

Ao retomar a democracia sem lidar com os mortos e os desaparecidos da ditadura civil-militar, o Brasil seguiu adiante sem lidar com o trauma. Um país que, para retomar a democracia, precisa esconder os esqueletos no armário – ou em covas clandestinas – é um país com a democracia deformada, no qual as fardas são sempre um ponto de instabilidade assombrando o cotidiano. Uma democracia deformada está aberta a mais deformações, como a história recentíssima do Brasil é pródiga em provar.

A desmemória não é um traço banal na história do Brasil. Ela costuma ser defendida como um “agora não é hora”, “este não é o momento”, “depois a gente cuida disso”. Foi assim com a Lei da Anistia, de 1979, que até hoje grupos da sociedade lutam para rever com o objetivo de fazer a justa responsabilização dos torturadores e assassinos do regime. O ato mais significativo para lidar com a memória do período de exceção foi justamente a Comissão da Verdade sobre os crimes da ditadura, que tanto preocupa o general, e a série de movimentos em torno dela, como as Clínicas do Testemunho pelo Brasil afora.

Esse processo de produção e documentação da memória sobre a ditadura foi, porém, interrompido pelo atual governo. O fato de que a democracia no Brasil supera os 30 anos sem lidar com o passado autoritário é um forte fator de desestabilização que costuma ser minimizado. Os efeitos do apagamento estão visíveis hoje nas ruas.

ELIANE BRUM.
Leia o artigo completo em El País: Esquerda, Direita e o embargo da memória

Maria Rita Kehl

“Todos Estados totalitários se apóiam na supressão do direito à informação. Só assim conseguem silenciar, pelo menos por um tempo, a propagação das violações, dos abusos, das violências contra o cidadão praticadas em “nome da ordem”, a revelar que na vida social, não há direito perdido que não tenha sido usurpado por alguém. Falta de liberdades, de direitos e de acesso à informação são elementos fundamentais na consolidação do terrorismo de Estado. Se o estabelecimento da verdade histórica, nas democracias, está sujeito a permanente debate, o direito de acesso a ela deve ser incontestável. A garantia do direito à verdade opõe-se à imposição de uma versão monolítica, característica dos regimes autoritários de todos os matizes. Ela exige a restauração da memória social, estabelecida no debate cotidiano e sempre exposta a reformulações, a depender das novas evidências trazidas à luz por ativistas políticos e pesquisadores.

Este é o estatuto da verdade buscada pela CNV: além da revelação objetiva dos crimes praticados por agentes do estado contra militantes políticos, estudantes, camponeses, indígenas, jornalistas, professores, cientistas, artistas e tantos outros – cuja prova está documentada em arquivos públicos, muitos deles considerados ultra-secretos – o relatório final produzido pela Comissão da Verdade pode restaurar um importante capítulo da experiência política brasileira.

A verdade social não é ponto de chegada, é processo. Sua elaboração depende do acesso a informações, mesmo as mais tenebrosas, mesmo aquelas capazes de desestabilizar o poder, e que por isso se convencionou que deveriam ser mantidas em segredo. Se o reconhecimento dos fatos que um dia se tentou apagar não costuma trazer boas notícias, em contrapartida a supressão da verdade histórica produz sintomas sociais gravíssimos – a começar pela repetição patológica de erros e crimes passados. Melhor encarar as velhas más notícias e transformar a vivência bruta em experiência coletiva, no sentido proposto por Walter Benjamin.

Para isto é preciso construir uma narrativa forte e bem fundamentada, capaz de transformar os restos traumáticos da vivência do período ditatorial em experiência coletiva. “Para que se (re)conheça, para que nunca mais aconteça”.

MARIA RITA KEHL
LEIA O ARTIGO COMPLETO:
http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/images/pdf/mkt_direito_a_verdade.pdf



EPÍLOGO

“A luta de classes, que um historiador educado por Marx jamais perde de vista, é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não existem as refinadas e espirituais. Mas na luta de classes essas coisas espirituais não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nessa luta sob a forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos. Elas questionarão sempre cada vitória dos dominadores. Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história. O materialismo histórico deve ficar atento a essa transformação, a mais imperceptível de todas.

Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.”

Walter Benjamin (15 de julho de 1892 — 27 de setembro de 1940)

Leia o texto “Artigos Sobre História” em A Casa de Vidro:

https://acasadevidro.com/2015/07/15/walter-benjamin-1892-1940-teses-sobre-a-historia/





relatorio-comissao-nacional-da-verdade

Ilustração: Carlos Latuff

COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE – Relatório completo (2014)

ACESSE JÁ – VOLUME 01: http://bit.ly/1Hhtxcz.
VOLUME 02:http://bit.ly/1GIXnbI.
VOLUME 03: http://bit.ly/1IMTBgT.

SINOPSE: Instalada em maio de 2012, a Comissão Nacional da Verdade procurou cumprir, ao longo de dois anos e meio de atividade, a tarefa que lhe foi estipulada na Lei no 12.528, de 18 de novembro de 2011, que a instituiu. Empenhou-se, assim, em examinar e esclarecer o quadro de graves violações de direitos humanos praticadas entre 1946 e 1988, a fim de efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação nacional.

Com apoio de um diligente conjunto de consultores e assessores, e de colaboradores voluntários, nós, conselheiros da Comissão, por designação presidencial, dedicamo-nos à busca de um grande volume de documentos, tomamos centenas de depoimentos, realizamos audiências públicas por todo o território nacional, dialogamos intensamente com a sociedade, buscando fazer de nossa missão fator de mobilização da sociedade brasileira na defesa e na promoção dos direitos humanos.

Agora, também em cumprimento à lei, apresentamos, em três volumes, o relatório que contém a enumeração das atividades realizadas pela Comissão, a descrição dos fatos examinados e nossas conclusões e recomendações.

Integraram a CNV: José Carlos Dias, José Paulo Cavalcanti, Maria Rita Kehl, Pedro Dallari, Paulo Sérgio Pinheiro e Rosa Cardoso.SITE OFICIAL: http://www.cnv.gov.br/



TESTEMUNHOS

Dulce Pandolfi (historiadora) e Lúcia Murat (cineasta)

ANTÍDOTOS CONTRA O MAL DE ALZHEIMER NACIONAL – Sobre o romance “K. – Relato de Uma Busca”, de Bernardo Kucinski (Cia das Letras, 2016, 176 pgs)

O MAL DE ALZHEIMER NACIONAL
E UMA TERAPIA LITERÁRIA
CONTRA A MURALHA DE SILÊNCIO

por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

Logo no primeiro capítulo de “K. – Relato de Uma Busca” (Cia das Letras, 2016, 176 pgs, compre já)Kucinski evoca o espectro de um certo “mal de Alzheimer nacional”. Escapando de ser apenas um romance autobiográfico, onde um sujeito elaboraria apenas seus traumas individuais, K. é um livro salutar por exumar os ossos de nosso passado coletivo. Um romance que se alça ao nível de retrato de uma época, mas que também visa ir além da descrição e agir como um antídoto contra o tal Alzheimer. A literatura como remédio. Nisto, seus efeitos e intenções parecem-me em sintonia com a Comissão Nacional da Verdade (2012 -2014), instituída durante a presidência de Dilma Rousseff, ou com iniciativas como o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, um dos locais mais imprescindíveis de se conhecer em Santiago do Chile.

Neste diagnóstico médico-sociológico que o livro veicula, o Brasil estaria adoentado devido a uma disseminada tendência ao esquecimento de seu passado, em especial devido ao recalque e ao pacto de silêncio que recobre boa parte do que que ocorreu de terrível e atroz nos anos da ditadura militar (1964 – 1985) no trato truculento do regime com os opositores políticos (sobretudo aqueles que aderiram à resistência armada). Ainda que já estejamos carecas de saber que “um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la” (frase atribuída a figuras tão díspares quanto Che Guevara, Edmund Burke e George Santayana), parecemos agir muito pouco, e muito mal, em prol de um autêntico trabalho de acerto-de-contas com o passado. A Lei da Anistia de 1979 sacramentou a impunidade dos perpetradores fardados de torturas e homicídios, tendo feito pouco pela tão propalada “reconciliação nacional”.

 

A esperança infrutífera pode ser uma tortura. E os torturadores que agiam nas ditaduras militares latino-americanas o sabiam bem. Adicionaram ao seu arsenal de maldades aquilo que veio a ser chamado, por eufemismo, de “desaparecimentos” de adversários políticos. Dar um chá-de-sumiço em alguém significa condenar os amigos e familiares do desaparecido ao tormento infindável de uma esperança angustiosa e quase sempre vã. É roubá-los do direito ao luto.

Todos aqueles que tinham vínculos afetivos com o morto sofrerão, às vezes por anos, em uma busca dolorosa pelo sumido, sem nunca poderem ter a satisfação mínima de seu desejo de justiça contra os perpetradores ditatoriais do sumiço. Sumiço que é sintoma de terrorismo de Estado: agentes públicos das forças de segurança praticando, contra cidadãos-ativistas, sequestros seguidos de tortura, assassinato e ocultação de cadáveres. É no epicentro de uma dessas tragédias que nos coloca o romance de Bernardo Kucinski, assim apresentado pela editora:

Ana Rosa Kucinski, assassinada e desaparecida pela ditadura militar brasileira em 1974, aos 32 anos de idade. Professora da USP, Ana Rosa era formada em Química, doutora em Filosofia e militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN)

“Em 1974, a irmã de Bernardo Kucinski, Ana Rosa Kucinski (1942 – 1974), professora de Química na Universidade de São Paulo, é presa pelos militares ao lado do marido e desaparece sem deixar rastros. O pai dela, dono de uma loja no Bom Retiro e judeu imigrante que na juventude fora preso por suas atividades políticas, inicia então uma busca incansável pela filha e depara com a muralha de silêncio em torno do desaparecimento dos presos políticos.

K. narra a história dessa busca. Lançado originalmente em 2011 pela editora Expressão Popular, em 2013 ganhou nova edição pela Cosac Naify, e finalmente, em 2016, chegou à Companhia das Letras. Ao longo desses anos, K. se firmou como um clássico contemporâneo da literatura brasileira.”

A importância história desta obra literária está muito além de uma investigação sobre o “caso Ana Rosa” e das peripécias do pai dela –  Meier Kucinski – em busca de seu paradeiro. A empatia do leitor é a todo momento instigada pelo texto em que narram-se as tentativas de K. em desvelar a verdade sobre Ana Rosa, que quase sempre bate com a cabeça em uma espessa muralha de silêncio e desinformação, e através deste processo todo um continente de memória coletiva soterrada começa a vir a toda. Não só Ana Rosa, mas centenas de vítimas do regime ressurgem das ruínas e pedem-nos que lhe concedamos a acolhida de nossa atenção, nossa compaixão, nossa indignação.

A sensação de desnorteio em que nos lança o romance é kafkiana e a inicial K., além da óbvia referência a Kucinski, também evoca a influência de Kafka guiando a pena de Bernardo. Vítima tanto do antisemitismo reinante na Praga de seu época quanto do totalitarismo familiar encabeçado por seu pai, Franz Kafka é talvez o escritor que mais marque com sua influência a escritura de Kucinski em K. Descendentes de poloneses, muitos deles mortos no Holocausto, os Kucinski estão em posição que os capacita a realizar paralelos entre os procedimentos da ditadura militar no Brasil e a do III Reich alemão em seus genocídios na Polônia. É o que dá o tom em vários trechos do livro – como nas reflexões finais do capítulo “Sorvedouro de Pessoas”:

“Até os nazistas que reduziam suas vítimas a cinzas registravam os mortos. Cada um tinha um número, tatuado no braço. A cada morte, davam baixa num livro. É verdade que nos primeiros dias da invasão houve chacinas e depois também. Enfileiravam todos os judeus de uma aldeia ao lado de uma vala, fuzilavam, jogavam cal em cima, depois terra e pronto. Mas os goim de cada lugar sabiam que os seus judeus estavam enterrados naquele buraco, sabiam quantos eram e quem era cada um. Não havia a agonia da incerteza; eram execuções em massa, não era um sumidouro de pessoas.” (p. 25 – P.S.: contestado por este trecho por alguém que trabalha no Museu do Holocausto, Kucinski sentiu-se na necessidade de escrever Os Visitantes, sequência de K., também publicado pela Cia das Letras).

O sumidouro de pessoas, sintoma de uma espécie de fascismo tupiniquim, era um dos modos forjados pela ditadura para lidar com as pessoas que aderiram à luta armada que a contestava. A repressão contra os guerrilheiros e militantes da esquerda teve por parte da repressão militar alguns episódios de genocídio (como no Araguaia), de pseudo-suicídios (como o de Vladimir Herzog), de assassinatos explícitos (como o de Carlos Marighella). Ana Rosa e seu marido Wilson Silva encarnam duas figuras que servem de ícone para centenas de outros brasileiros cujas vidas sumiram, tragadas pela máquina assassina instaurada a partir do Dia da Mentira de 1964.

Negando aos familiares os restos mortais do adversário político assassinado, a ditadura negava não só possibilidade de enterrar um ente amado com dignidade, lápides e epitáfios celebrando o falecido. A ditadura fazia algo pior: impunha a tortura psicológica a todos aqueles que conviveram com os assassinados. Além disso, o desaparecimento manifesta a prudência de facínoras que desejam permanecer impunes: sem o cadáver como prova inconteste do crime, dificilmente pode-se condenar os perpetradores. Ao impedir a despedida e o luto dos familiares pela vítima, como requinte de crueldade imposto pelos ditadores e seus funcionários, o regime militar também escondia suas atrocidades – não só aquela dos manda-chuvas, dos Fleurys, mas também a dos reles soldados e PMs obedientes, funcionários na maquinaria desumanizadora e que banaliza o mal.

Em seu trabalho Relampejos do Passado – Memória e Luto dos Familiares de Desaparecidos Políticos da Ditadura Civil-Militar Brasileira (Ed. Unifesp, 2017), Amanda Brandão Ribeiro relembra o Caso Kucinski em seu pungente capítulo “O Caminho dos Ossos”, destacando que

“o jornalista e escritor Bernardo Kucinski expressou insatisfação quanto à reparação conduzida pela USP em relação à irmã, Ana Rosa, professora de Química da universidade. Militantes da ALN, Ana Rosa e o marido Wilson Silva desapareceram em abril de 1974 no centro da cidade de São Paulo e nunca mais foram vistos. Segundo depoimento do ex-delegado Cláudio Guerra, o casal foi levado para a Casa da Morte, onde sofreu diversos tipos de sevícias, inclusive sexuais, sendo posteriormente incinerados nos fornos da usina Cambahyba. Fazia anos que a família da Ana Rosa solicitava que a USP retificasse sua demissão por “abandono” de emprego, decidida pela Congregação do Instituto de Química um ano após o desaparecimento da professora. Somente em 1995, com a lei dos mortos e desaparecidos, o reitor anulou o documento. Entretanto, em audiência pública organizada pela Comissão da Verdade – SP com intuito de debater as condições da demissão de Ana Rosa e de pressionar o Instituto a pedir desculpas oficialmente pelo ato, Bernardo expôs  suas críticas quanto à execução da reparação:

— O que me aborreceu muito aqui na USP foi que quando eu pedi a anulação da demissão da minhã irmã, a assessoria jurídica da Reitoria teve a ousadia de produzir um parecer, em linguagem jurídica, de quase 100 páginas, em que afinal concedia a anulação da demissão, mas justificava a posição anterior. Ou seja, não seja, não há autocrítica, não há reconhecimento da conivência. Não se avança em cima dos erros cometidos! Esse é o grande problema: a universidade não reconhece o grau de colaboração que seus agentes e muitos professores tiveram com o regime militar.

Na data em que se completaram 40 anos do desaparecimento de Ana Rosa, o Instituto de Química da USP pediu desculpas publicamente pela demissão da professora e inaugurou uma escultura em sua homenagem [veja reportagem do Estadão]. Contudo, o reconhecimento por parte da universidade de sua colaboração com os órgãos de repressão da ditadura não foi feito.” (RIBEIRO, Amanda Brandão: Sp, Unifesp, 2017, p. 132-133)

No país da impunidade para as elites rapinadoras, convivendo com o Estado Penal mais truculento para as chamadas “ralés”, a imensa maioria dos torturadores a serviço do regime militar jamais serão punidos: “todos eles morrerão de morte natural, rodeados de filhos, netos e amigos, homenageados seus nomes em placas de rua.” (KUCINSKI, K., p. 29 – ver também o capítulo “As ruas e os nomes”, p. 149 a 153) Sobre este tema, Vladimir Safatle escreveu contundes palavras em seu livro mais recente, Só Mais Um Esforço: 

“Nenhum outro país protegeu tanto seus torturadores, permitiu tanto que as Forças Armadas conservassem seu discurso de salvação através do porrete, integrou tanto o núcleo civil da ditadura aos novos tempos de redemocratização quanto o Brasil. Há de se lembrar que o Brasil é o único país da América Latina onde os casos de tortura aumentaram em relação à ditadura militar. Por isso, nenhum outro país latino-americano teve um colapso tão brutal de sua ‘democracia’ como o nosso, com uma polícia militar que age como manada solta de porcos contra a própria população que paga seus salários. Nenhum outro país latino-americano precisa conviver com um setor proto-fascista da classe média a clamar nas ruas por ‘intervenção militar’, a ponto de invadir o plenário do Congresso Nacional com suas bandeiras. Tudo isso demonstra algo claro: a ditadura brasileira venceu. Como um corpo latente sob um corpo manifesto, ela se conservou e a qualquer momento pode novamente emergir.” (SAFATLE, 2017. p. 65)

Por isso, como Safatle e Edson Teles vêm defendendo, a tarefa da memória é urgente para a nossa renovação política, é algo que devemos encarar sem tardar, sob o risco de na repetição de tragédias soçobrar e voltar a soçobrar. O desinteresse pela nossa história, inclusive em seus aspectos mais grotescos e horrendos, só pode gerar ao esvaziamento de nossa experiência cidadã. Sem a memória do passado e as lições que isso pode nos ensinar, somos engolfados na monstruosidade de um presente desenraizado, esvaziado de sentido, não alimentado pela sabedoria que a experiência e a sofrência de gerações pregressas nos comunica. Amnésicos de nossas tragédias coletivas, estaríamos por isso mesmo condenados a repeti-las.

É o que indicam os graves sintomas recentes: a fratura exposta no esqueleto da democracia que foi o golpe de 2016, que têm como uma de suas cenas emblemáticas o deputado Bolsonaz, por ocasião da votação do impeachment de Dilma, em Abril de 2016, fazendo o elogio do coronel Ultra, chefe do DOI-Codi entre 1970 e 1974  – o que lhe rendeu poucos dissabores além de uma cusparada na cara que lhe concedeu, em momento à la Angeli’s Bob Cuspe, o deputado Jean Wyllys (PSOL). Que o mesmo Bolsonazi esteja, ao raiar de 2018, em segunda posição nas intenções de voto para a presidência da República, é mais um triste lembrete do Alzheimer nacional de que fala Kucinski e que é nossa tarefa urgente medicar e operar.

O imediatismo reinante na sociedade de consumo capitalista talvez conspire, com poderio avassalador, contra a lentidão do trabalho de recordação. Isto não o faz menos necessário e salutar. Kucinski, recriando na ficção a tragédia de sua irmã Ana Rosa e da busca aflita de seu pai, Meir Kucinski (1904-1976), pelo paradeiro da assassinada, legou-nos o que Eric Nepomuceno descreveu como “uma narrativa de vertigem, escrita de forma pungente e avassaladora. Mais que um grito de dor e revolta, mais que um uivo inconformado, é um lento, sossegado, estonteante lamento.”

Nepomuceno & Galeano, guerrilheiros da memória

Na Argentina, a ditadura tinha por costume sumir com os corpos “atirando-os de um avião ao mar bem longe da costa” (p. 58), sepultando anonimamente e sem pompas fúnebres os inimigos do regime. No Chile, após o golpe de 11 de Setembro de 1973 que instaurou o regime fascista-liberal Pinochetista, além das chacinas sumárias do Estádio Nacional, começaram a ser vistos em Santiago os cadáveres boiando nas águas, tornadas assim mais rubras que de costume, do rio Mapocho. Sobre a situação chilena durante a conturbada derrubada de Allende e instauração da ditadura, Alfredo Sirkis deixou-nos um belo livro, Roleta Chilena, que soma-se ao seu já clássico relato em primeira mão de algumas peripécias da guerrilha brasileira em Os Carbonários.

Sobre o proceder carniceiro dos algozes brasileiros, Kucinski nos fornece detalhes assustadores, como naquele capítulo brilhante, “A Terapia” (p. 113 a 124), de teor altamente hardcore, onde dá voz à faxineira Jesuína, a serviço de Fleury. Ela relembra seu serviço em um casarão em Petrópolis, rodeado por muros altos, em bairro de gente grã-fina. Jesuína relembra:

“Quando os carros chegavam, o portão abria, automático, os carros entravam com o preso e logo levavam ele para baixo, onde estavam as celas… Lá no andar de baixo, além das celas, também tinha uma parte fechada, onde interrogavam os presos, era coisa ruim os gritos, até hoje escuto os gritos, tem muito grito nos meus pesadelos. (…) Eu servia os presos, limpava as celas, tentava me fazer de boazinha. A cara deles era de apavorar, os olhos esbugalhados; tremiam, alguns ficavam falando sozinhos, outros pareciam que já estavam mortos, ficavam assim meio desmaiados…

Lá em baixo tinha uma garagem virara para os fundos, parecendo um depósito de ferramentas; levavam os presos para lá e umas horas depois saíam com uns sacos de lona bem amarrados, colocavam os sacos numa caminhonete estacionada de frente pro portão da rua, pronta para sair, e iam embora. Acho que levavam esses sacos para muito longe, porque essa caminhonete demorava sempre um dia inteiro para voltar. Aí eles lavavam tudo lá embaixo com uma mangueira, esfregavam, esparramavam cândida. Atiravam umas roupas e outras coisas no tambor e punham fogo.

Os presos eram levados para lá, sempre um só de cada vez, e nunca mais eu via eles. Lá em cima eu via pela janela eles serem levados para dentro da tal garagem, nunca vi nenhum deles sair. Nunca vi nenhum preso sair. Nunca… Uma vez eu fiquei sozinha quase a manhã inteira, os PMs mineiros saíram bem cedo de caminhonete dizendo que tinham acabado os sacos de lona, o lugar onde compravam era longe, iam demorar. O Fleury tinha voltado para São Paulo de madrugada. Eu sozinha tomando conta. Então desci até lá embaixo, fui ver. A garagem não tinha janela, e a porta estava trancada com chave e cadeado. Uma porta de madeira. Mas eu olhei por um buraco que eles tinham feito para passar a mangueira de água. Vi uns ganchos de pendurar carne igual nos açougues, vi uma mesa grande e facas igual de açougueiro, serrotes, martelo. É com isso que tenho pesadelos, vejo esse buraco, pedaços de gente. Braços, pernas cortadas. Sangue, muito sangue.” (KUCINSKI, p. 120-123)

Este capítulo notável do livro de Kucinski focaliza uma sessão de psicoterapia em que Jesuína, elaborando seus traumas, trazendo de volta à luz suas lembranças assombradas, traz à tona também fragmentos da tragédia coletiva que interessa ao autor de K. desenterrar. O pai de Ana Rosa, assim, fica mesmo solitário no palco do romance, que divide com outros narradores, em um livro polifônico, que evoca múltiplas perspectivas em seu modo de construção fragmentário e labiríntico.

Sobre o processo de escrita dos traumas – não apenas enquanto catarse, mas também como maneira de expor feridas que dizem respeito não só ao indivíduo ferido, mas também às tragédias vivenciadas pela comunidade que ele integra – a psicanalista Maria Rita Kehl, integrante da Comissão Nacional da Verdade, em seu prefácio ao livro de contos de Kucinski Você Vai Voltar Para Mim, faz pertinentes reflexões sobre este tema:

“Passado um tempo subjetivo em que o silêncio e o estupor são as únicas reações possíveis ante o evento traumático, as vítimas e as testemunhas se põe a falar. Ou a escrever. Não é um capricho: é uma necessidade. É preciso compartilhar o acontecido com o outro, os outros. O pesadelo recorrente de Primo Levi, de que ao voltar para casa ninguém acreditaria no seu testemunho, não pode se realizar. As vítimas de todas as experiências de terror sentem a necessidade de incluir cada terrível fragmento do Real no campo coletivo da linguagem, como forma de diluir a dor individual na cadeia de sentido que recobre a vida social.” (KEHL, p. 16)

A situação aflitiva descrita em K. também dá as caras no conto “Joana”, uma das 28 narrativas curtas que integra Você Vai Voltar Para Mim. A protagonista Joana é uma senhora que costuma vagar pelas cidade conversando com moradores de rua e que, como o narrador revela, carrega o fardo de uma perda similar à de K:

“Seu marido foi preso em 1969. Era metalúrgico e se chamava Raimundo. Católico praticante como ela. Vieram do Nordeste em busca de uma vida um pouco melhor em São Paulo. Já tinham então dois filhos. Aqui Raimundo se ligou a um grupo da Ação Popular que organizava operários nas fábricas.

Um dia, bem cedo, a polícia foi à casa deles e levou Raimundo. Sem mandado de prisão, sem nada. Soube-se depois que ele foi espancado de modo tão brutal que morreu no mesmo dia. Seus gritos eram ouvidos em outras celas. Para ocultar o homicídio, no caso doloso e qualificado, pois acompanhado do crime acessório de abuso de autoridade, a polícia cometeu outro crime, o de ocultamento de cadáver. Sumiram com o corpo de Raimundo.

Tudo isso foi comprovado, depois que acabou a ditadura, por documentos e depoimentos em várias comissões. Só não se sabe, nunca se soube, para onde levaram o corpo e como se desfizeram dele. Se foi enterrado como indigente ou incinerado, ou disposto de outra forma… Embora o próprio cardeal tenha assegurado a Joana que o marido foi espancado até não restar nele sopro de vida, ela não aceitou que ele tivesse morrido. Cadê o corpo?, ela perguntou. E sempre pergunta. Diz que só vai se considerar viúva no dia em que trouxerem o atestado de óbito de Raimundo e mostrarem sua sepultura…” (KUCINSKI, 2014, Cosac Naif, p. 58-59)

O impacto emocional de K. provêm também da autenticidade com que Kucinski pinta o retrato das metamorfoses afetivas do pai, Meier, em sua epopéia em busca da verdade sobre Ana Rosa, desde os primeiros dias de seu sumiço até chegar à uma espécie de desalentada exaustão. Quando Ana Rosa desaparece, ele  “tateia como um cego o labirinto inesperado da desaparição”; “depois, quando se passaram muitos dias sem respostas, esse pai ergue a voz; angustiado, já não sussurra, aborda sem pudor os amigos, os amigos dos amigos e até desconhecidos; assim vai mapeando, ainda como um cego com sua bengala, a extensa e insuspeita muralha de silêncio que o impedirá de saber a verdade. Descobre a muralha sem descobrir a filha”; “quando as emanas viram meses, é tomado pelo cansaço e arrefece, mas não desiste. O pai que procura a filha desaparecida nunca desiste. Esperanças já não tem, mas não desiste. Agora quer saber como aconteceu. Onde? Quando exatamente? Precisa saber, para medir sua própria culpa.” (p. 83-85)

Um dos tormentos de K., depois do desaparecimento da filha, está em sentir-se culpado por estar demasiado submerso em seus estudos de íidiche e seus debates intelectuais, a ponto de ter prestado pouca atenção às atitudes da filha, sua escolha pela luta armada via ALN, seu relacionamento com Wilson (retratado de modo divertido no capítulo “Livros e Expropriação”, p. 49 a 52). K. sente o peso de uma culpa que não é estranha aos sobreviventes de pogroms, genocídios, holocaustos – a culpa por ter sobrevivido. Em um dos capítulos mais reflexivos e filosóficos da obra, Kucinski tecerá uma rica meditação que evoca as obras de Milan Kundera e Franz Kafka – dois mestres em retratar na literatura as densas vidas de tchecos em meio às tempestades históricas – além de um debate pertinente sobre o filme A Escolha de Sofia, de Alan J. Pakula (já dissecado em A Casa de Vidro neste artigo):

Meir Kucinski (1904-1976), o pai de Ana Rosa e Bernardo, inspiração para o personagem K. Foto via Ateliê.

“Embora cada história de vida seja única, todo sobrevivente sofre em algum grau o mal da melancolia. Por isso, não fala de suas perdas a filhos e netos; quer evitar que contraiam esse mal antes mesmo de começarem a construir suas vidas. Também aos amigos não gosta de mencionar suas perdas e, se são eles que as lembram, a reação é de desconforto. K. nunca revelou a seus filhos a perda de suas duas irmãs na Polônia, assim como sua mulher evitava falar aos filhos da perda da família inteira no Holocausto.

O sobrevivente só vive o presente por algum tempo; vencido o espanto de ter sobrevivido, superada a tarefa da retomada da vida normal, ressurgem com força inaudita os demônios do passado. Por que eu sobrevivi e eles não? É comum esse transtorno tardio do sobrevivente, décadas depois dos fatos.

No filme A Escolha de Sofia, uma polonesa é obrigada pelo ocupante nazista a escolher qual dos seus dois filhos ela prefere que sobreviva: o menino ou a menina? Se fosse judia não teria escolha, iriam os dois para o crematório; sendo polaca o guarda inventa um novo jogo, que a mãe faça a escolha, caso contrário as duas crianças serão mortas. A Escolha de Sofia tornou-se expressão de uma escolha impossível, na qual todas as opções são igualmente dolorosas.

Mas a pergunta a ser feita é: por que o soldado alemão decidiu submeter a mão ao tormento da escolha quando era mais simples matar logo as duas crianças e também a mãe, ou ele próprio decidir qual delas matar e qual poupar? Sadismo? Talvez. Mas um sadismo funcional, porque através desse mecanismo o criminoso transferiu à mãe a culpa pelo filho morto. Não foi ela quem escolheu? Esse sentimento de culpa vai se apossando da alma da mãe no decorrer dos anos até que já anciã, sobrevivente de guerra vivendo na América, Sofia se suicida, não suportando mais a carga de uma culpa que nunca foi dela.

A culpa. Sempre a culpa. A culpa de não ter percebido o medo em certo olhar. De ter agido de uma forma e não de outra. De não ter feito mais. A culpa de ter herdado sozinho os parcos bens do espólio dos pais, de ter ficado com os livros que eram do outro. De ter recebido a miserável indenização do governo, mesmo sem a ter pedido. No fundo a culpa de ter sobrevivido.

Milan Kundera diz que Kafka não se inspirou nos regimes totalitários, embora seja essa a interpretação usual, e sim na sua experiência familiar, no medo que tinha de ser julgado negativamente pelo seu pai. Em O Processo, Joseph K. examina seu passado até os ínfimos detalhes, em busca do erro escondido, da razão de estar sendo processado. No conto O Veredito, o pai acusa o filho e ordena-lhe que se afogue. O filho aceita a culpa fictícia e vai se atirar ao rio tão docilmente quanto mais tarde Joseph K. vai se deixar executar, acreditando que de fato errou, pois disso era acusado pelo sistema. Como Sofia, no fim se matou.

Também os sobreviventes daqui estão sempre a vasculhar o passado em busca daquele momento em que poderiam ter evitado a tragédia e por algum motivo falharam. Milan Kundera chamou de ‘totalitarismo familiar’ o conjunto de mecanismos de culpabilização desvendados por Kafka. Nós poderíamos chamar o nosso de ‘totalitarismo institucional’.

Porque é óbvio que o esclarecimento dos sequestros e execuções, de como e quando se deu cada crime, acabaria com a maior parte daquelas áreas sombrias que fazem crer que, se tivéssemos agido diferentemente do que agimos, a tragédia teria sido abortada.

Por isso, também as indenizações às famílias dos desaparecidos – embora mesquinhas – foram outorgadas rapidamente, sem que eles tivessem que demandar, na verdade antecipando-se a uma demanda, para enterrar logo cada caso. Enterrar os casos sem enterrar os mortos, sem abrir espaço para uma investigação. Manobra sutil que tenta fazer de cada família cúmplice involuntária de uma determinada forma de lidar com a história.

O ‘totalitarismo institucional’ exige que a culpa, alimentada pela dúvida e opacidade dos segredos, e reforçada pelo recebimento das indenizações, permaneça dentro de cada sobrevivente como drama pessoal e familiar e não como a tragédia coletiva que foi e continua sendo, meio século depois.” (BERNARDO KUCINSKI, p. 154-156)

A evocação da escolha impossível de Sofia (interpretada por Meryl Streep), no filme de Pakula, serve-nos também como alerta contra aqueles que, ainda hoje, tentam justificar as atrocidades da ditadura militar com a repetição do argumento vil: foram mortos pois eram guerrilheiros, ou seja, terroristas, ou seja, bandidos – e “bandido bom é bandido morto”.

Contra este acintoso argumento, que lança o estigma e a culpa sobre os assassinados, precisamos resgatar em minúcias as histórias de vida, e os exemplos de bravura e auto-sacrifício, de todos os que pereceram na luta contra o regime sanguinário e açougueiro instaurado pelo golpe de 1964. É preciso celebrar a memória de centenas de Anas Rosas e Herzogs. É preciso afrontar a muralha de silêncio que deseja-nos apartados da verdade sobre o que se passou com nosso povo. É preciso, agora e no futuro, afastar de nós este “cale-se” amargo, “de vinho tinto, de sangue”.

Kucinski legou-nos, através de sua terapia literária, de sua escrita impregnada de autenticidade, de sua busca pelo desvelamento do passado, um indispensável remédio contra o “mal de Alzheimer nacional”. Engulamos esta medicina em altas doses, antes que o tropel da ditadura volta a cavalgar sobre nós, fazendo de nós mera carne a ser estripada em seus açougues da desumanidade. Os esquecidiços, os amnésicos, os desenraizados, serão sempre os vetores da Banalidade do Mal desvendada por Arendt, os servis funcionários do “totalitarismo institucional” que ainda está longe de ter sido aposentado da História.

E.C.M., Goiânia, Dezembro de 2017

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AS VIDAS QUE QUASE NINGUÉM VÊ: Como o jornalirismo de Eliane Brum visibiliza a diversidade humana e a unicidade dos destinos [A CASA DE VIDRO.COM]

AS VIDAS QUE QUASE NINGUÉM VÊ

Como o jornalirismo de Eliane Brum visibiliza a diversidade humana e a unicidade dos destinos

por Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro

I. ENSAIO SOBRE A INVISIBILIDADE E SUA SUPERAÇÃO

Eliane Brum devota-se a visibilizar os invisíveis. É uma professora do olhar que ensina a enxergar aquilo que cotidianamente passa desapercebido. Apesar de escrever sempre em prosa, dá a sensação de ser uma poetisa de mão cheia, com similaridades de percepção e visão de mundo com um Manoel de Barros (1916 – 2014), o “apanhador de desperdícios” e autor do Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo.

Ambos, Brum e Barros, buscam dar importância ao desimportante, transvendo o mundo, em uma operação que supera as saramaguianas cegueiras que nos cobrem de cataratas a mente, tornando invisíveis os mistérios e maravilhas do cotidiano. Fazendo-nos cegos às unicidades irrepetíveis dos destinos de cada um e de todos.

Encantadora em seu uso da palavra pois capaz de encantar-se com tudo o que de extraordinário pode-se descobrir por trás das névoas da cotidianidade cinza, esta é Eliane Brum, uma das escritoras em atividade que melhor consegue conjugar a sensibilidade mais apurada com o senso crítico mais mordaz.

Ela parece ter também como mantra algo semelhante ao “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”, célebre canto do poeta Vinícius de Moraes. Cada reportagem de Eliane Brum é toda uma universidade do encontro, toda uma aula magna sobre a aventura de conhecer o outro. E ela tem o dom da contadora de histórias, que conquista o interesse do leitor-ouvinte com firmes garras, talento desenvolvido por um longo e fecundo convívio com os livros, desde a primeira infância como devoradora de Monteiro Lobato.

Eliane Brum têm revolucionado o jornalismo justamente pois subverte seus cânones, recusa seus clichês, revolta-se contra os estereótipos e realiza uma nova aventura no campo daquilo que convencionou-se chamar de jornalismo literário. Ela não refaz caminhos já pisados por um Gay Talese, um Tom Wolfe, um Eduardo Galeano, um Eric Nepomuceno, mas forja uma travessia própria, refulgente de originalidade.

Em seus textos, ainda que nunca percamos a sensação forte de que aquilo que está escrito tem forte ancoragem e enraizamento em um real vivenciado de corpo e alma, é vigorosa também a presença de um ímpeto de honestidade, de boa-fé, de autenticidade, que torna explícito novamente aquilo que o jornalismo institucionalizado, carcomido pelo capitalismo emporcalhante, esforça-se em esquecer: jornalismo é compromisso com a verdade.

capa_coluna_prestesEliane Brum é alguém que se recusa a mentir, a dourar a pílula, a semear ilusões. Tem pacto de compromisso com a realidade que ela desvela mas não inventa, que ela descreve mas não falsifica, que ela poetiza mas não transforma em quimera. Alguém que caminha pelo mundo em busca do avesso da lenda – nome, aliás, de seu livro-reportagem realizado ao seguir os rastros da Coluna Prestes.

Como relembra Marcelo Rech, uma das vivências de maturação mais cruciais na travessia da talentosa repórter gaúcha deu-se em 1993:

“Eliane havia ensaiado sua vida que ninguém vê numa histórica série de reportagens sobre a Coluna Prestes – ou melhor, sobre a Coluna Prestes que ninguém via. Ao percorrer 25 mil quilômetros empoeirados do Brasil, Eliane nutriu suas anotações com a matéria-prima das melhores reportagens: a gente comum. Das testemunhas anciãs da passagem da Coluna, a quem passou chamar de “o povo do caminho”, obteve o mais surpreendente e fiel relato sobre a marcha de homens que a parte do país com voz – 70 anos depois – considerava heroica mas que, na verdade da repórter, se delineava também como uma procissão de roubos e atrocidades. Ao contrapor seu “povo do caminho” à história oficial da esquerda, Eliane despertou a ira de quem erguia mitos com pés de barro, mas fez deitar em paz o maior patrimônio de um jornalista: sua própria consciência.” (RECH, prefácio à A Vida Que Ninguém Vê) [1]

A empatia que emana de Eliane Brum como uma aura invisível, nestes tempos em que é vigente uma persistente e onipenetrante crisis of perception (Fritjof Capra), é preciosa e inestimável para acelerarmos rumo ao ponto de mutação com alguma chance de que, desta vez, mutemos rumo ao melhor. Que mutemos na direção alguma possível evolução, ao invés de degringolarmos mais uma vez na fossa coletiva do pesadelo e do desespero, da discórdia e da guerra, da incompreensão e da incapacidade de diálogo e encontro.

A inestimável escola de humanidade que são os textos de Brum é uma que muito bem faríamos em frequentar mais e mais, em peregrino e perene aprendizado, aprendendo com esta aprendiz – ela que nunca se recusa a deixar-se ensinar por alguém (nem mesmo por um bicho detrás das grades de uma jaula de zoo).

Pois Eliane vê a miséria e a glória da vida, qualquer que esta seja, que com frequência demasiada não enxergamos. Ela vê o que pra quase todo mundo passa batido, e por isso ela – sua obra e sua práxis – é tão socialmente imprescindível quanto os médicos que operam cataratas e devolvem a visão aos olhos doentes. Aonde qualquer um de nós, num dia banal, no dissabor da sobriedade e do tédio, encontra somente um macaco na jaula ou um pedinte na rua, Brum encontra muito mais: encontra destinos. Entretecidos com outros destinos. Numa teia de acachapante complexidade – e beleza, e horror, e fascínio, e asco…

Ela sabe que cada indivíduo é parte de um todo, que não há pessoa desvinculável de um contexto. Pintora pertinaz e detalhista, sensível e empática, daquilo que eu chamei, em outro artigo, de Fios na Teia da Vida,  texto onde a defendo que a obra de Eliane Brum é um dos exemplos supremos de como o jornalismo pode ser uma práxis em prol da defesa e do incremento de nossa ameaçada sociobiodiversidade.

Há muita sabedoria a colher, como um néctar, nos textos de Brum. Ela parece veicular uma sophia que diz: apesar de todo o horror e injustiça que macula a vida humana em todas as latitudes e longitudes, algo reluz de sublime e misterioso nas vidas, até na mais aparentemente mísera; até um filhote de barata tem sua dignidade ontológica, por exemplo, como aquela baratinha que a criança Eliane matou e que lhe deu tais tormentos internos que ela precisou exorcizá-los escrevendo sua micro-versão d’A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector (como narrado no posfácio de A Vida Que Ninguém Vê).

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“Sempre gostei das histórias pequenas. Das que se repetem, das que pertencem à gente comum. Das desimportantes. O oposto, portanto, do jornalismo clássico. Usando o clichê da reportagem, eu sempre me interessei mais pelo cachorro que morde o homem do que pelo homem que morde o cachorro – embora ache que essa seria uma história e tanto. O que esse olhar desvela é que o ordinário da vida é o extraordinário. E o que a rotina faz com a gente é encobrir essa verdade, fazendo com que o milagre do que cada vida é se torne banal. Esse é o encanto de A vida que ninguém vê: contar os dramas anônimos como os épicos que são, como se cada Zé fosse um Ulisses, não por favor ou exercício de escrita, mas porque cada Zé é um Ulisses. E cada pequena vida uma Odisseia.” – ELIANE BRUM [2]

Leiam, por exemplo, “O Cativeiro” e “O Sapo”: no primeiro, ela transforma uma reportagem sobre os bichos no zoológico em uma profunda reflexão sobre o ser humano em sua relação com o restante do reino animal; na segunda, revela quem é aquele pedinte, sempre grudado ao chão da rua como um sapo (o que rendeu-lhe o apelido), por quem os transeuntes passam, com ligeiros olhares de pena ou desdenhosas desatenções, alguns deixando cair alguns moedinhas de esmola, restituído pela reportagem à dignidade intrínseca e à unicidade de destino que, de verdade, são dons de nossa comum humanidade, tão espezinhadas por nós humanos…

eliane-brum-a-vida-que-ninguem-ve-capa“Celebradas pelo Prêmio Esso de Jornalismo – Regional Sul de 1999, Eliane e suas A vida que ninguém vê foram como o encontro do cálice com o vinho. Fenômeno de percepção jornalística, Eliane iluminou um mundo recluso, obscurecido pela emergência da notícia ou pela máxima de que, em jornalismo, a história só existe quando o homem é quem morde o cachorro. A série provou o contrário. Ao extrair reportagens antológicas de onde outros só enxergariam a mesmice, Eliane deu a zés e marias do sul do Brasil a envergadura de personagens de literatura tolstoiana e reverteu um dos mais arraigados dogmas da imprensa. Um dia, quem sabe, algum desses acadêmicos da comunicação que se debruçam sobre aquelas teses herméticas deslocadas da vida real das redações também encare a tarefa de trazer à luz como Eliane traçou uma parte da história do jornalismo brasileiro ao escrever notáveis reportagens (ou seriam crônicas?) extirpadas das ruas anônimas.” (MARCELO RECH, prefácio.) [3]

Eliane Brum, nestas magistrais reportagens que perfazem as páginas deste papador-de-Esso-e-Jabuti que é  A Vida Que Ninguém Vêescritas em Porto Alegre, em 1999, para coluna homônima do Zero Hora, foi atrás de conhecer aqueles que não costumamos julgar dignos de ser conhecidos. Descobriu tesouros de humanidade e humor, de resiliência e resistência, de tragédia e drama, nas vidas que nunca aparecem na TV. F

az-nos conhecer o colecionador de refugos urbanos, que infunde beleza àquilo que outros legaram à lixeira. Expõe trabalhadores em situações bizarras, como o funcionário do aeroporto, carregador de malas por mais de 3 décadas, mas que nunca havia voado – até que, enfim, perde a virgindade em matéria de avião (“Alair Quer Voar”).

Também vai perseguir histórias reais bem longe dos palácios e das coletivas de imprensa, vai aos fossos, vê as crianças saindo do poço do esgoto, frequenta os velórios e as UTIs. Em sua obra não há escassez de reflexões forjadas em cemitérios ou diante de cadáveres. Extraí daí não a morbidez, algum tipo de niilismo de desistente, mas sim a lição de que até diante da morte a multiplicidade de manifestações da vida humana embasbaca quem não é babaca e sabe abrir o olho pra enxergar. Ver a maravilhosa reflexão filosófica que vai de contrabando com a narrativa sobre o chorador profissional da aldeia ou no pungente Enterro de Pobre (click e leia na íntegra).

Nada nem ninguém lhe parece indigno de atenção. Histórias de vida dignas de serem contadas pululam por aí como pequeninos grilos saltitantes que não notamos pois estamos demasiado afundados, como avestruzes, na areia de nossos celulares e telas de PC. Eliane Brum, animada por sua estrela-guia íntima, sua irrefreável curiosidade em relação à multiplicidade da vida, habita um mundo polvilhado de prodígios narráveis que encontram-se largados pelo pó dos caminhos.

Mas não é só isso: seu olhar é tão penetrante, profundo, revelador, pois é um olhar todo mergulhado na história. E sua pena não é a de alguém que registra o presente, mas de alguém que sabe conectar-se ao passado, ao percurso transcorrido, de modo que sua prosa é a de uma memorialista. Isto é, de um combatente em franca insurgência contra as potências do esquecimento. Por isso, sua obra alinha-se ao formidável esforço jornalístico-memorialístico da Dani Arbex no livro Holocausto Brasileiro (click e saiba muito mais).

Ela está ciente de que muita glória, que pôde um dia ter parecido imorredoura, revela-se com o andar da carruagem do tempo como perecedoura, mera vanitas que se desfaz em névoa: diante da estátua do Conde de Porto Alegre, ela evoca alguém que foi glorioso outrora, alguém que quis ser celebrado em epopéias como um Aquiles ou Ulisses, reduzido a limada pedra onde mijam os mendigos e de quem às vezes comenta-se: “quem foi esse cara?!? o que será que ele fez na vida?”

Eliane Brum, ao invés de fazer-se memorialista dos grandes e privilegiados, parece sempre preferir aproximar-se daqueles de destino mais vulnerável, justamente aqueles que estão mais ameaçados por um olvido que não demora. Um olvido que chega a preceder a morte. Um olvido que se confunde com suas vidas. São as vidas que ninguém vê, as vidas dos esquecidos, cada um deles uma manifestação irrepetível e única da vida neste universo.

* * * * *

Eliane Brum em território Ianomâmi, em Roraima, em 2001. A reportagem é "A Guerra do Começo do Mundo", está em O Olho da Rua.

Eliane Brum em território Ianomâmi, em Roraima, em 2001. A reportagem é “A Guerra do Começo do Mundo”, está em O Olho da Rua.

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II. JORNALIRISMO REVELADOR DA POESIA POR TRÁS DA POEIRA COTIDIANA

O jornalismo e o lirismo dançam tão juntos no palco dos escritos de Eliane Brum que estes talvez mereçam o título de inauguradores do “Jornalirismo” brasileiro. Um professor ensinou-lhe que “jornalista era o homem (ou mulher) que estava lá, pessoalmente (e não por telefone ou por e-mail), com os dois pés enfiados na lama dos acontecimentos.” [4] A discípula seguiu a receita à risca: sem pudores, pôs seus pés nas agruras da realidade, na convicção de que “repórter de verdade atravessa a rua de si mesmo para olhar a realidade do outro lado de sua visão de mundo. Só assim pode chegar mais perto da verdade – ou das verdades – da história que se propôs a contar.” [5]

ebrum-0474Jornalista não é o papagaio de uma ideologia que a empresa que lhe emprega manda-lhe disseminar (e que ele, como cão amestrado e submisso, acata). Jornalista não é também aquele que brada “eu! eu! eu!” e quer ser a estrela da reportagem (argumento anti-gonzo que a obra de Brum discute e problematiza, já que ela também tem um texto que às vezes carrega alta carga confessional e “subjetivista”).

Jornalista é um bicho que, tal como Brum compreende este ofício (que ela hoje exerce no Brasil com raro e refulgente brilhantismo!), deve servir às verdades plurais, pôr-se a serviço daqueles que não são ouvidos, amplificar as vozes que são esmagadas ou silenciadas pelos poderes hegemônicos. Eliane Brum escuta a sinfonia da vida em todo seu desconcerto e polifonia; depois pinta em suas páginas alguns retratos, profundamente humanos, de gente que briga para criar sentido e graça em meio ao tsunami de nonsense, violência e descalabro.

Eliane Brum vai buscar seus personagens nas periferias, nos presídios, nas aldeias indígenas, nas estradas de terra distantes dos grandes centros urbanos, nas florestas repletas de bichos exóticos e parteiras xamânicas. Seu interesse etnográfico e sua disposição para escutar as diferenças torna-a assemelhada a Eduardo Coutinho, falecido documentarista brasileiro, que sabia fazer cinema – vejam Edifício Master, Jogo de Cena ou O Fim e o Princípio – com um lirismo que também encontramos às mancheias nas palavras de Brum. 

Escritora de talento comparável ao de Rubem Alves ou Lya Luft em seu manejo audaz do dom expressivo, Eliane Brum sabe pôr chama no verbo. Aquilo que ela escreve está simultaneamente animado com emoções intensas e diversas, de um lado, e ao mesmo tempo dotado de lucidez e clareza em seus diagnósticos críticos, de outro. Para o Brasil traz muito benefício ler, compreender, digerir, disseminar a obra (em processo, atualíssima!) de Eliane Brum. Eis um “remédio” – pharmakon de primeira qualidade! – que sugiro a todos que experimentem: serve para curar cataratas psíquicas, cegueiras do cérebro, preconceitos arraigados, dogmas imobilizantes. Oswald de Andrade recomendava “ver com olhos livres”. A obra de Brum indica o rumo para os que querem ver com olhos livres, e sem prescindir da indignação e da força criadora da união e da compaixão.

Além de repórter de rara capacidade de escuta, além de descomunais poderes de expressão verbal, Eliane Brum é uma pensadora – apesar d’eu suspeitar que ela talvez prefira um termo um tanto mais lúdico, como pensadeira. Seu texto carrega reflexões que a tornam digníssima de ser considerada uma das melhores filósofas brasileiras em atividade (na companhia de Marilena Chauí, Márcia Tiburi, Maria Rita Kehl, Maria Cristina Franco Ferraz, Viviane Mosé, dentre outras).

Brum é uma buscadora de respostas para alguns dos problemas que mais a solicitam e empolgam: em especial, ela busca descobrir, em cada pessoa que ela ouve e conhece, a maneira através da qual  a pessoa tenta criar sentido para sua vida. Pois Eliane é intensamente consciente da mortalidade que nos constitui, inescapavelmente, e sobre a qual realiza tantas de suas reportagens e investigações. Um de seus “nortes” na existência é conseguir o dom búdico de, diante de dores e prazeres, possuir a “serenidade de quem sabe que é efêmero.” [6] No trecho seguinte, ela revela alguns detalhes do que pesquisou sobre o tema do morte, citando o historiador Philippe Ariès, além do grande Rubem Alves:

História_da_morteA história humana pode ser contada pela maneira como cada sociedade, em diferentes períodos, lidou com a morte. O historiador francês Philippe Ariès escreveu uma das obras mais completas sobre o tema, primeiro num pequeno livro chamado História da Morte no Ocidente e depois em 2 volumes intitulados O Homem Diante da Morte. ‘A morte no hospital, eriçado de tubos, está prestes a se tornar hoje uma imagem popular mais terrífica que o trespassado ou o esqueleto das retóricas macabras’, afirmou.

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Rubem Alves

O psicanalista Rubem Alves deu um tom confessional à impotência do homem contemporâneo  diante da medicalização da morte: ‘Tenho muito medo de morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte. Muitos dos chamados ‘recursos heroicos’ para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da ‘reverência pela vida’, Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: ‘Liberta-me’.

Começamos a morrer no exato instante em que começamos a viver. E hoje estamos mais mortos do que estávamos ontem. Mas, neste momento, mais que em qualquer outro período histórico, nós, homens e mulheres do Ocidente, vivemos a morte como uma experiência marginal. Ela se passa, de preferência, oculta dentro do hospital. E, quando perdemos alguém, nossa dor deve ser superada rapidamente, de forma asséptica como um procedimento cirúrgico, sem muito barulho e sem perturbar os amigos.

Pela lei, se perdemos um parente direto, temos direito a nos ausentar por 3 dias do trabalho. Quem casa, tem 5. Quando nasce um filho, a licença é de 120 dias para a mãe. Como se chegou à conclusão de que três dias de luto é suficiente? Por que dois é pouco e quatro é demasiado? Seria o primeiro dia usado para enterrar o morto, o segundo para limpar os armários e o terceiro para chorar? E, depois, a vida continua?” [BRUM, 7]

Eliane Brum faz coro com outra das maiores pensadoras brasileiras – Maria Rita Kehl, em seu estudo sobre a depressão O Tempo e o Cão – na recusa da “solução medicamentosa”, ou seja, a resolução dos problemas por decreto bioquímico fornecido pela tecnociência hi-tech. Ambas – Brum e Kehl – põem em questão a medicalização excessiva da vida, que tanto agrada à multimilionária indústria farmacêutica. A consciência de nossa mortalidade, a percepção de nossa finitude, as angústias e temores que podem assolar a psiquê diante do reconhecimento pleno de nossa efemeridade, não são fenômenos que mereçam ser tratados como doença, nem “curados” com doses cavalares de Prozac. Um ente querido faleceu e o mundo só nos concede 3 dias de licença no trabalho; pior: “se sofremos além do período considerado socialmente aceitável, tornamo-nos um caso patológico. Os amigos mais queridos nos dão o telefone de um psiquiatra. O que nos falta não é um ombro humano, mas antidepressivo.” [8]

Contra este ideário, Brum fala da morte como de uma escola. Ela nos ensina, a morte, sobre “como lidar com dois fatos intrínsecos à vida humana: impotência e falta de controle. (…) Ela nos lembra do que gostaríamos de esquecer. Em nossa época vende-se a ilusão de que é possível controlar com pílulas sentimentos tão intangíveis como a melancolia e a tristeza, prender a juventude à força de bisturis e cosméticos, prescindir da tradição e construir-se a si mesmo sem dever nada a ninguém. A morte nos lembra que há algo de errado nessa equação. Podemos transformar o corpo, mas não evitamos que ele morra. Podemos decidir entre marcas na prateleira, mas não decidimos deixar de morrer. Podemos fazer nossas próprias regras, mas entre elas não está viver para sempre. A morte nos confronta com a questão fundamental de nossos limites.” [9]


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III. A CIDADE PARTIDA

Vivemos em cidades partidas, e o estranho é que nas selvas de concreto tão acostumados estamos a isso que quase nada nos estarrece, que as mais abomináveis injustiças não atiçam nossa “morna rebeldia” (Criolo). Eliane Brum, em A Vida Que Ninguém Vê, fez-se a cronista de uma Porto Alegre toda cindida. Cidade partida entre os privilégios e os andrajos, entre o morro e o asfalto, entre os popstars e os esquecidos. O destino da infância massacrada pela miséria no seio da megalópole – aquilo que o sociólogo José de Souza Martins chamou, em um livro que organizou, de O Massacre dos Inocentes – é um de seus temas recorrentes. Vejam, por exemplo, a reportagem-manifesto “Sinal fechado para Camila”, o tipo de texto que assombra o leitor muito tempo depois dele atingir a última linha. Ei-lo na íntegra:

“Sinal fechado para Camila 

– Tio lindo, tia linda do meu coração. Eu pergunto a você se não tem um trocadinho ou uma fichinha pra essa pobre garotinha

Quase com certeza você ouviu esse hino em algum cruzamento de Porto Alegre. Debaixo de um sinal vermelho, o som entrando pelo vidro fechado, ameaçador como um Alien. O som entrando pela janela que você cerrou para se defender do ataque à sua consciência. Você rezando para que o sinal mude de cor, fique verde, não de esperança, mas verde de fuga. Sinal livre para escapar do rosto da menina grudado na janela. Sujando seu patrimônio. Obrigando-o a tomar conhecimento da miséria dela. Você, que paga seus impostos em dia, colabora com a campanha do agasalho, que até é um cara bacana. Subitamente transformado em réu no tribunal do sinal fechado por um rosto ranhento de criança.

Você, quase com certeza, ouviu esse hino. Pois saiba. A menina que o compôs morreu no domingo. Nunca mais ela assombrará a sua janela. A menina se chamava Camila. Camila Velasquez Xavier. Tinha dez anos. Mas os dez anos dela equivalem a cem dos seus. Camila viveu muito, até. No bairro onde ela nasceu, o Bom Jesus, 17 como ela morreram antes de completar um ano em 1997. Camila nasceu na Fátima, uma vila da Grande Bom Jesus. Vila, modo de dizer. Becos e mais becos de barracos amontoados sobre o cimento. Lá, o controle da população é feito ao natural. Só em janeiro, já tombaram quatro. Assassinatos citados em notinhas de canto de página.

Camila nasceu na Fátima, num barraco de uma peça. Quando chovia, havia tanta água fora quanto dentro. Em dez anos a família progrediu. Conseguiu um barraco de duas peças. Camila dormia com os quatro irmãos num sofá esburacado ou no chão de tábuas podres porque não havia lugar para todos. Pai e mãe desempregados, o pai um homem triste, de olhos injetados, que descia o braço sobre a mãe sempre que bebia além da conta.

Aos seis anos Camila foi enviada aos sinais para ganhar a vida da família. Logo descobriu que a concorrência era enorme. Que as janelas dos carros eram a versão moderna das muralhas medievais. Camila começou a embelezar sua tragédia. Inventou versinhos que venciam fossos e arriavam pontes levadiças, arrancando um sorriso perplexo dos motoristas. Eu não posso ficar sem você, meu trocadinho. Essa tia, esse tio queridinho vai me dar um trocadinho. Camila conquistou a sua diferença nos cruzamentos da cidade. Seus hinos se espalharam pelas sinaleiras e, mesmo depois de sua morte, seguem ecoando pela boca de outras Camilas.

Aos seis anos, flagrada na rua, Camila entrou pela primeira vez no prédio sem cor da Febem. Entraria ainda outras duas vezes. Na sexta-feira, 15 de janeiro, ela e outras cinco meninas jogaram suas trouxinhas pela janela do prédio. Um ursinho Puff de segunda mão e algumas camisetas compunham o espólio coletivo. Quando a porta se abriu para brincarem na pracinha – uma ficção de armações de ferro que há muito perdeu os balanços e as gangorras, uma ficção como a infância de todas elas – iniciaram sua jornada rumo à liberdade. Que passou na forma de um ônibus lotado para o centro de Porto Alegre.

No dia seguinte, a direção da casa informou ao plantão do Conselho Tutelar. Que anotou. Estava cumprido o trâmite burocrático. Por todo o final de semana, Camila e suas cúmplices de desamparo vagaram pelas pontes da cidade sem que ninguém as buscasse. Crianças sob a tutela do Estado vagando ao léu sem que ninguém chorasse a sua falta. Fazia calor no domingo, todo mundo lembra. Um calor tão pesado que quase se podia tocá-lo. Às 14h, de calcinha e camiseta, Camila e duas das fugitivas mergulharam no Guaíba na altura do parque Marinha do Brasil. Camila não sabia nadar. Debatendo-se como fez durante toda a vida, Camila, a senhora dos cruzamentos, submergiu.

Às 8h de segunda-feira, a notícia da fuga e da morte de Camila despertou a família. Vai ter que esperar porque ainda não abrimos a menina, informou o funcionário do Departamento Médico Legal à mãe quando ela foi recolher o corpo da filha. Camila foi enterrada na manhã de terça-feira, no caixão branco dos inocentes. A Febem pagou o enterro, pagou até uma capela funerária com ar-condicionado. Que lugar mais lindo, repetiam os familiares, assombrados com o espaço tão grande e tão verde da morte. Acompanhada por um séquito de parentes de rostos derrotados, Camila foi enterrada no Jardim da Paz. No cortejo, um único terno. Puído e manchado, envergado por um homem em quem o sofrimento abriu sulcos no rosto. Um homem tentando agarrar a dignidade que escapava como o cós da calça maior do que ele. No cortejo, nenhuma flor para Camila.

Talvez você lembre de Camila. Talvez não. Sua marca registrada, além da cantoria dos cruzamentos, eram os dedos indicador e médio eternamente na boca. Sua imagem desvalida não voltará a assombrar as janelas sob os sinais. Camila morreu. Mas os versinhos de Camila cruzaram o ar e semearam as esquinas. Não se iluda. Você não vai escapar. Há um exército de Camilas pela cidade. Haverá sempre uma delas tentando arrombar o vidro do carro com a urgência de sua fome. Camila morreu. Você, e eu também, somos cúmplices de sua morte. Nós todos a assassinamos. A questão é saber quantas Camilas precisarão morrer antes de baixarmos o vidro de nossa inconsciência. Você sabe? E agora, tio lindo, tia linda, o que você vai fazer? [23 de janeiro de 1999] [10]

Na “cidade partida”, Eliane busca chaqualhar a apatia dos conformados ao reconstruir um fio narrativo que empreste ao menos farrapo de sentido às vidas destas vidas mutiladas, atropeladas, relegadas, abandonadas, sequeladas, invisibilizadas – e que tudo isso sofreram sem nenhum merecimento, sem nenhuma culpa que justificasse tal via-crúcis. Eliane Brum sabe escrever textos trágicos, pungentes de tragicidade sem açúcar nem consolo. Semelhante à reportagem “Sinal fechado para Camila” é “O Menino do Alto”, que foca a atenção no garoto que mora no topo do morro e acaba perdendo as pernas, tornando-se uma espécie de prisioneiro na torre da favela. Incapaz de transpor o fosso social entre o alto e o asfalto, torna-se protagonista de um texto-revelação, de uma reportagem-poema, onde iluminam-se os claros e escuros de uma existência que parecia destinada ao esconderijo e ao esquecimento.

A insurgência jornalística de Eliane Brum dirige-se contra o destino de serem esquecidos que parece ser imposto por forças superiores aos milhões de esquecidos da Terra – aqueles que Franz Fanon batizou de the wretched of the earth, les damnés de la terre. Dentre eles, Brum descobre um heroísmo secreto e nada ostensivo, lutas invisíveis e sem promessa de glória, de um pai que é um “Hércules subnutrido” e de moradores sofridos de uma comunidade obrigada a ser composta por “alpinistas da miséria”.

Na cidade das iniquidades solidificadas e da solidariedade na UTI, ela atenta para as “massas de crianças desvalidas”, mas sempre busca o delineamento de individualidades, com suas idiossincrasias, nunca decaindo no cinzeiro das abstrações pálidas e descarnadas. Todas as teses sociológicas ou filosóficas, psicológicas e existenciais, que Eliane Brum veicula através de seus escritos, parecem ancoradas firmemente em sua experiência vivida e em seus encontros reais com uma multiplicidade de outros. De cada outro ela constrói um emblema para uma de suas teses essenciais: a da unicidade de destino, ou seja, a noção de que cada um de nós é irrepetível, é uma travessia efêmera ímpar por esta rocha girante no cosmos pluridimensional.

Como aquele garoto, ladrãozinho de cavalos, destemido bandido mirim que parece saído de um faroeste. O menino rouba o pangaré do carroceiro, sai galopando por Porto Alegre em pleno delírio heróico, mas não tardam até que “os cascos da realidade esmaguem os sonhos do menino” (“O Encantador de Cavalos”). Com sua cabeça posta à prêmio por ser ladrão de equinos, poderia ser relegado a uma nota de pé de página no noticiário policial do Zero Hora. Poderia ter sido tratado com manchete de imprensa marrom, Recompensa-se pela cabeça do pequeno vândalo que rouba cavalos. 

Mas Eliane Brum nunca contenta-se com o beabá do jornalismo policialesco e proto-fascista que tanto pratica-se no Brasil. Ela quer ir atrás de um passado que ilumine o presente, e assim mergulha no destino do outro, desvelando no reles ladrãozinho um personagem digno de um romance infanto-juvenil de Charles Dickens ou Mark Twin. Após uma tragédia incendiária, em que uma vela acendida para iluminar sua casinha acabou por sepultar em trevas sua vidinha tão jovem, o pequeno perdeu sua companheira de infância, a égua Sabonete. O ladrãozinho, na verdade, era animado por sonhos de re-encontro com o cavalo perdido, e Brum transforma sua saga numa “busca por Pégasus” similar à de Alexandre, o Grande. A odisséia mirim de um audaz e temerário garoto que gostaria de ter asas para transpor o terrível fosso que separa, na cidade partida, o luxo da miséria, a vida fácil da via-crúcis dos esquecidos.

20080717 / Marcelo Min / Agência Fotogarrafa / Revista Época / Hospital Servidor Público Estadual Reportagem sobre o Cuidado Paliativo do Hospital dirigido pela Dra Maria Goretti Maciel. Internação de Ailce no Hospital do Servidor. Sedação paliativa. Eliane Brum.

Eliane Brum em ação na reportagem com a Sra Ailce, que acompanhou em seus últimos dias de vida.

Sabe-se também que Eliane Brum é uma das pessoas que melhor reflete sobre a loucura neste país, e não apenas como prefaciadora da magnum opus de Daniela Arbex sobre o hospício de Colônia (MG). Sondando a lucidez que há na loucura, o método que há na fantasia e mesmo a beleza que se esconde por trás de certos crimes, Eliane faz-nos estarrecidos cúmplices de uma reflexão a um só tempo psicológica, sociológica, filosófica, que se fosse resumível em uma frase lapidar talvez pudesse ser esta: “sempre que alguém não se encaixa no mundo da maioria, é logo chamado de maluco.” (“Frida”) Sobre empatia pelos malucos na prosa poética de Eliane Brum, que por vezes até escreve com sabor de humor Raul Seixista (vejam, por exemplo, a divertidíssima crônica “A Voz”).

Os rotulados como loucos, delinquentes, imprestáveis, merecem dela sempre a atitude mais demorada do que a rapidez estúpida dos preconceitos. Ela ensina a ver para além dos rótulos e a acolher a diferença “num mundo que se especializou em esmagar, eliminar e encarcerar a diferença” (“Frida”). Através de sua prosa, multifacetada como o caleidoscópio caótico-cósmico da Vida, ela comunica a revolta contra aqueles que agem como se destinos pudessem ser destinados à lixeira. E solidariza-se com tantas Evas – pobres negras mulheres cheias de cicatrizes – que recusam-se ao destino de meras coitadas.

Uma brilhosa chama de ativo ideário ético anima os escritos de Brum, problematizadora da caridade vendida como panacéia: “a mão da caridade”, escreve ela com pena pontiaguda de provocação, é “irmã da pena, prima da hipocrisia”, e é isto que Eva renega. Em textos que ainda não tiveram toda a sua potência enfatizada pela crítica literária feminista, Eliane Brum inaugura uma galeria de revoltosas que insurgem-se muito além dos limites delineados por Albert Camus. Poderiam integrar um futuro livro chamado La Femme Revolté, a merecer lugar nas livrarias e bibliotecas lado a lado com O Segundo Sexo de Beauvoir.

Brum revela no cerne de todos nós, pulsando junto com as sístoles e diástoles do coração, um pavor que não é somente da morte física, mas da amnésia dos que ficam, os sobreviventes, sempre tão mortais e esquecidiços. Frase emblemática, em “O Exílio”: “temeu que seu mundo fosse sepultado com ela”. Emerge destes escritos a imagem impressionante, pungente, avassaladora, de um mundo que é a um só tempo viveiro e morredouro. Onde nós, viventes-mortais, “seguimos nosso combate silencioso contra o naufrágio da vida.”  (“O Exílio”)

De acordo com ela, “a maior de todas as dores” é a “invisibilidade” (“O Homem Que Comia Vidro). E o que ela escreve sobre Venise e seu “talento singular” poderia ser dito da própria Eliane Brum: “tem o dom de dar importância ao desimportante, de dar significado ao insignificante.” (“O Álbum”) Cheia de tanto som e fúria, às vezes parecendo significar nada além de caótica cacofonia, nossa vida até parece fazer um fiapinho de sentido quando tecida na fina tapeçaria verbal desta magistral artista-da-palavra. Com as palavras que ela encerra A Vida Que Ninguém Vê, encerro também este breve percurso, na esperança de que tenha despertado apetite e curiosidade para que mais e mais leitores mergulhem nesta obra tão preciosa de Eliane Brum, alguém que sempre buscou

“estimular um olhar que rompesse com o vício e o automatismo de se enxergar apenas a imagem dada, o que era do senso comum, o que fazia com que se acreditasse que a minha, a sua vida fossem bestas. A hipótese era a de que o nosso olhar fosse sendo cegado, confundido por uma espécie de catarata, causada por camadas de rotinas, decepções e aniquilamentos, que nos impedisse de ver. Vemos o que todos veem e vemos o que nos programaram para ver. Era, com toda a pretensão que a vida merece, uma proposta de insurgência. Porque nada é mais transformador do que nos percebermos extraordinários – e não ordinários como toda a miopia do mundo nos leva a crer.

(…) Esse olhar que olha para ver, que se recusa a ser enganado pela banalidade e que desconfia do óbvio é o primeiro instrumento de trabalho do repórter. Só pode ser exercido sem a mediação de máquinas. Não pretendo fazer aqui uma análise sobre as razões dessa mudança que faz com que muitos repórteres só vejam a vida – e os fatos, as pessoas – pela tela do computador. Só diria ainda que aqueles que se dobram à nova regra não-escrita são tão facilmente substituíveis – porque descartáveis – quanto os componentes eletrônicos das máquinas que elegeram para intermediar seu olhar sobre o mundo. E os primeiros a ser deletados numa das cíclicas crises das empresas de comunicação – porque deletaram antes a sua singularidade.

(…) Olhar dá medo porque é risco. Se estivermos realmente decididos a enxergar não sabemos o que vamos ver. Quando saio da redação, tenho uma ideia de para onde devo olhar e o que pretendo buscar, mas é uma ideia aberta, suficiente apenas para partir. Tenho pena dos repórteres das teses prontas, que saem não com blocos, mas com planilhas para preencher aspas predeterminadas. Donos apenas da ilusão de que a vida pode ser domesticada, classificada e encaixotada em parágrafos seguros. Tudo o que somos de melhor é resultado do espanto. Como prescindir da possibilidade de se espantar? O melhor de ir para a rua espiar o mundo é que não sabemos o que vamos encontrar. Essa é a graça maior de ser repórter. (Essa é a graça maior de ser gente.)

Se de perto ninguém é normal, de perto ninguém é herói. Essa mania de mitificar gente, alçar fulano ou beltrano ao Olimpo porque supostamente fez algo sobre-humano, empata a vida. Faz com que os supostamente pobres mortais se sintam exatamente isso: pobres mortais. Ou losers, na expressão do que a cultura americana tem de pior. Um ser humano, qualquer um, é infinitamente mais complexo e fascinante do que o mais celebrado herói. Mesmo os super, dos quadrinhos e do cinema, pode reparar: o Homem-Aranha só consegue duas horas de filme por causa do atrapalhado Peter Parker e até o Super-Homem, que veio de outro planeta, só tem atenção por conta de suas fraquezas bem terráqueas (ou quantas voltas ao redor da Terra ele precisaria dar até todo mundo roncar?). Inclusive demônios como o Hellboy só são interessantes pelo que têm de humano, da ternura ao mau humor. Vou ao limite dos super-heróis para falar de uma obrigação de repórter. Meu professor de jornalismo, um baixinho-gigante chamado Marques Leonam, dizia: “Lei Leonam número um: repórter não tem o direito de ser ingênuo. Lei Leonam número dois: repórter não tem o direito de ser ingênuo…” Acho que ia até o número dez repetindo essa máxima leoniana. Eu faria alguns adendos a essa lei fundamental. Um deles é: desconfie dos heróis, dê uma boa cheirada num mito. Eles só se aproximam da verdade quando virados pelo avesso e promovidos a homens.

Somos todos mais iguais do que gostaríamos. E, ao mesmo tempo, cada um é único, um padrão que não se repete no universo, especialíssimo. Nossa singularidade só pode ser reconhecida no universal. Tudo é um jeito de olhar. Você pode olhar para o infinito, como Carl Sagan, e descobrir que é feito da poeira de estrelas. E pode olhar para o chão e acreditar que é um cocô de cachorro. É o mesmo homem que tem diante de si o infinito e o chão. Mas é nessa decisão que cada um se define. Como olhar para você mesmo é uma escolha. Um exercício da liberdade, da autodeterminação, do livre-arbítrio. Seja generoso. Arrisque. Ouse. Olhe.” – ELIANE BRUM [11]

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Fevereiro de 2017


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] RECH, Marcelo. Prefácio de A Vida Que Ninguém Vê. Porto Alegre: Arquipélago, 2012.
[2] BRUM, Eliane. Posfácio de A Vida Que Ninguém Vê.
[3] RECH, M. Op cit.
[4] BRUM, A Primeira Pessoa Sou Eu?p. 347. In: O Olho da Rua – Uma Repórter Em Busca da Literatura da Vida Real. São Paulo, Globo: 2008.
[5] Idem nota anterior.
[6] O Inimigo Sou Eu, 2008, p. 333.
[7] A Morte Envergonhada. P. 360.
[8] Op cit, p. 362.
[9] Op cit, p. 363.
[10] Sinal Fechado Para Camila. In: A Vida Que Ninguém Vê. Op cit.
[11] Posfácio de A Vida Que Ninguém Vê.


SIGA VIAGEM:

ELIANE BRUM ENTREVISTADA POR ABUJAMRA NO PROVOCAÇÕES DA TV CULTURA (3 BLOCOS / COMPLETO)maxresdefault



DOCUMENTÁRIO “UMA HISTÓRIA SEVERINA”
De Eliane Brum e Debora Diniz

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LEIA ELIANE BRUM N’A CASA DE VIDRO:
O POVO DO MEIO
A GUERRA DO COMEÇO DO MUNDO

“REVOLTA E MELANCOLIA – O Romantismo na contracorrente da modernidade”, uma obra de Michael Löwy e Robert Sayre (Boitempo, 2015)

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“REVOLTA E MELANCOLIA – O Romantismo na contracorrente da modernidade”

Uma obra de Michael Löwy e Robert Sayre. Ed. Boitempo Editorial, trad. Nair Fonseca, 2015.

“Indiquemos de pronto a essência de nossa concepção: para nós, o romantismo representa uma crítica da modernidade, isto é, da civilização capitalista, em nome de valores e ideais do passado (pré-capitalista, pré-moderno). Pode-se dizer que desde a sua origem o romantismo é iluminado pela dupla luz da estrela da Revolta e do ‘sol negro da Melancolia’ (Nerval). (…) No presente livro, a ‘modernidade” remeterá à civilização moderna engendrada pela Revolução Industrial e a generalização da economia de mercado. Como já foi constatado por Max Weber, as principais características da modernidade – o espírito de cálculo, o desencantamento do mundo, a racionalidade instrumental, a dominação burocrática – são inseparáveis do aparecimento do ‘espírito do capitalismo’.” (p. 38-39)

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“Dado que a sensibilidade romântica representa uma revolta contra a civilização criada pelo capitalismo, ela é portadora de um impulso anticapitalista. (…) O romantismo é uma crítica moderna da modernidade. Isso significa que, mesmo se revoltando contra ela, os românticos não poderiam deixar de ser profundamente influenciados por sua época. A visão romântica constitui uma autocrítica da modernidade. (…) De fato, na óptica romântica essa crítica está vinculada à experiência de uma perda; no real moderno uma coisa preciosa foi perdida, tanto no nível do indivíduo quanto no da humanidade. A visão romântica caracteriza-se pela convicção dolorosa e melancólica de que o presente carece de certos valores humanos essenciais, que foram alienados. Senso agudo de alienação, então, frequentemente vivido como exílio.

Há um desejo ardente de reencontrar o lar, retornar à pátria, no sentido espiritual, e é precisamente a nostalgia que está no âmago da atitude romântica. (…) O passado que é objeto dessa nostalgia pode ser inteiramente mitológico ou lendário, como na referência ao Éden, à Idade de Ouro, ou à Atlântida perdida. Contudo, mesmo nos inúmeros casos em que é bem real, sempre haverá uma idealização desse passado. A visão romântica toma um momento do passado real, no qual as características funestas da modernidade ainda não existiam e os valores humanos sufocados por ela ainda existiam, e transformam-no em utopia, moldam-no como encarnação das aspirações românticas… a imagem de um futuro sonhado, além do mundo atual, inscreve-se na evocação de uma era pré-capitalista.” (p. 43-44)

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“Na perspectiva orientada para uma realização futura – a de Shelley, Proudhon, William Morris e Walter Benjamin, por exemplo -, a lembrança do passado serve como arma na luta pelo futuro. (…) Repúdio à realidade social atual, experiência de perda, nostalgia melancólica e procura do que foi perdido: tais são os principais componentes da visão romântica. Mas o que se perdeu exatamente? Quais são os valores positivos do romantismo? São um conjunto de valores qualitativos, em oposição ao valor de troca… O primeiro desses grandes valores é a subjetividade do indivíduo, o desenvolvimento da riqueza do eu, em toda a profundeza e complexidade de sua afetividade, mas também em toda a liberdade de seu imaginário. (…) A exaltação romântica da subjetividade é uma das formas de resistência à reificação e (…) representa a revolta da subjetividade e da afetividade reprimidas, canalizadas e deformadas.” (47)

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“Numerosos são os românticos que sentem intuitivamente que todas as características negativas da sociedade moderna – a religião do deus Dinheiro, que Carlyle chama de ‘mamonismo’, o declínio de todos os valores e laços humanos qualitativos, (…) a morte da imaginação e do romanesco, a aborrecida uniformização da vida, a relação puramente ‘utilitária’ dos seres humanos entre si e com a natureza – decorrem desta fonte de corrupção: a quantificação mercantil. O envenenamento da vida social pelo dinheiro e o do ar pela fumaça industrial são entendidos por vários românticos como fenômenos paralelos, resultantes da mesma raiz perversa.

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Um exemplo para ilustrar o ato de acusação romântica contra a modernidade capitalista é Charles Dickens, um dos autores favoritos de Karl Marx – em “Tempos Difíceis” (1854) contêm uma expressão excepcionalmente articulada da crítica romântica à sociedade industrial. O espírito frio e quantificador da era industrial é magnificamente personificado por um ideólogo utilitarista e membro do Parlamento, Mister Thomas Gradgrind (senhor Triturador-Sob-Medida); a filosofia de Gradgrind era que ‘tudo devesse ser pago. Não se podia, em hipótese alguma, dar nada a ninguém, ou oferecer ajuda gratuita. A gratidão deveria ser abolida, e as virtudes que dela brotavam deveriam deixar de existir. Cada minuto da existência humana, do nascimento até a morte, deveria ser uma barganha diante de um guichê.’

Dickens também mostra em ‘Tempos Difíceis’ como a modernidade expulsou da vida material dos indivíduos qualidades como beleza, cor e imaginação, reduzindo-a a uma rotina fastidiosa, cansativa e uniforme. A cidade industrial moderna, Coketown, é descrita como ‘uma cidade de máquinas e chaminés altas, pelas quais se arrastavam perenes e intermináveis serpentes de fumaça, (…) feia cidadela onde a Natureza era mantida firmemente do lado de fora pelas mesmas paredes de tijolos que mantinham os ares e os gases letais do lado de dentro’; suas altas chaminés, lançando suas ‘baforadas venenosas’, escondiam o céu e o sol, e este estava ‘eternamente em eclipse’.” (59-60)

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“Existe uma dimensão romântica significativa, ou até realmente dominante, em Marx e Engels – uma dimensão que não foi enfatizada com muita frequência e que, em seguida, foi eliminada pelo marxismo ‘oficial’, tanto da 2ª quanto da 3ª Internacional: nos escritos de um Kautsky, um Plekhánov, um Bukharin, para não falar de Stalin, seria inútil procurar traços de uma herança romântica.

A dimensão romântica presente nos pais fundadores do marxismo torna-se mais central em certos autores que se intitulam marxistas, mas são marginais ou excêntricos em relação à ortodoxia – como William Morris, Ernst Bloch, E.O. Thompson, Raymond Williams, Henri Lefebvre.

Aparentemente, Marx não tinha nada em comum com o romantismo. É claro que, durante a juventude, ele não foi insensível às cores rutilantes da cultura romântica. Escolheu, durante os anos de estudo na Universidade de Bonn, os cursos do velho romântico Schlegel sobre Homero. Seus primeiros escritos – poemas, dramas, peças de teatro – têm a marca visível da literatura romântica (especialmente Hoffmann) e atestam uma revolta tipicamente romântica. Enfim, sua primeira tentativa de crítica a Hegel é profundamente influenciada pela ‘Naturphilosophie’ [filosofia da natureza] de Schelling.

Marx vê o capitalismo como um sistema que ‘transforma todo progresso econômico em uma calamidade pública’. É na análise das devastações sociais provocadas pela civilização capitalista – bem como em seu interesse pelas comunidades pré-capitalistas – que ele se junta, pelo menos em certa medida, à tradição romântica.

Tanto Marx como Engels tinham em alta conta certos críticos românticos do capitalismo industrial, em relação aos quais tinham uma dívida intelectual indiscutível. A obra de ambos foi significativamente influenciada não somente por economistas românticos como Sismondi ou o populista russo Nikolai Danielson, com o qual se corresponderam por 20 anos, mas também por escritores como Dickens e Balzac, por filósofos sociais como Carlyle, por historiadores da comunidade antiga como Maurer, Niebuhr e Morgan – sem falar dos socialistas românticos como Fourier, Leroux ou Moses Hess. Na realidade, o romantismo é uma fontes esquecidas de Marx e Engels, uma fonte que talvez seja tão importante para o trabalho deles quanto o neo-hegelianismo alemão ou o materialismo francês.” (120-121)

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“O principal objeto de ‘O Capital’ é a exploração do trabalho, a extração do mais-valor (ou mais-valia) pelos proprietários capitalistas dos meios de produção. Mas inclui também uma crítica radical da própria natureza do trabalho industrial moderno. Em sua acusação contra o caráter desumanizante do trabalho industrial-capitalista, sem dúvida, há uma ligação entre essa crítica e a dos românticos. É evidente que Marx, ao contrário de Ruskin, não sonha em restabelecer o artesanato medieval; no entanto, entende o trabalho industrial como uma forma social e culturalmente degradada em relação às qualidades humanas do trabalho pré-capitalista.

Marx, citando o livro de Engels, ‘A situação da classe trabalhadora na Inglaterra’, diz que com a máquina capitalista, o trabalho se torna um ‘meio de tortura’, é reduzido ‘à morna rotina de um trabalho desgastante e sem fim’ e que ‘assemelha-se ao suplício de Sísifo – o peso do trabalho, como o da rocha, recai sempre sobre o operário exausto’ (MARX, O Capital, Livro 1).

O operário é transformado em apêndice vivo de um mecanismo morto, obrigado a trabalhar com a ‘regularidade de uma peça de máquina’. No sistema industrial moderno, toda a organização do processo de trabalho esmaga a vitalidade, a liberdade e a independência do trabalhador. A esse quadro Marx acrescenta a descrição das condições materiais nas quais o trabalho é realizado: falta de espaço, de luz ou de ar, barulho ensurdecedor, atmosfera impregnada de pó, mutilações e homicídios cometidos pela máquina e uma infinidade de doenças relacionadas à ‘patologia industrial’.

A concepção marxiana do socialismo está intimamente ligada à crítica radical da civilização burguesa moderna. Pressupõe uma mudança qualitativa, uma nova cultura social, um novo modo de vida, um tipo de civilização diferente (…) que exige a emancipação do trabalho não somente pela ‘expropriação dos expropriadores’ e pelo controle do processo de produção, mas também por uma transformação completa da própria natureza do trabalho.

Nos ‘Grundrisse’ (1857-58), Marx diz que na comunidade socialista, o progresso técnico e a maquinaria reduzirão drasticamente o tempo do ‘trabalho necessário’ – o trabalho exigido para satisfazer as necessidades fundamentais da comunidade. A maior parte do tempo cotidiano será livre para o que ele denomina, seguindo Fourier, de trabalho atraente, isto é, um trabalho realmente livre, um trabalho que seja a autorealização do indivíduo. Tal trabalho não é simplesmente passatempo, mas pode exigir grande esforço e seriedade: Marx menciona como exemplo a composição musical.” (p. 130)

LÖWY e SAYRE.
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A CASA DE VIDRO RECOMENDA TAMBÉM:
“A ESTRELA DA MANHÃ – Surrealismo e Marxismo” (Ed. Civilização Brasileira, 2002)
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Como argumenta M. Löwy, o romantismo não deve ser compreendido apenas como uma escola literária do século XIX, mas como “algo muito mais vasto e profundo: a grande corrente de protesto contra a civilização capitalista/industrial moderna, em nome de valores do passado, que começa no século XVIII com Rousseau e que persiste, passando pela Frühromantik alemã, pelo simbolismo e pelo surrealismo, até os nossos dias. Trata-se, como o próprio Marx já constatara, de uma crítica que acompanha o capitalismo como uma sombra a ser arrastada desde o seu nascimento até o dia (bendito) de sua morte. Como estrutura de sensibilidade, estilo de pensamento, visão do mundo, o romantismo atravessa todos os domínios da cultura – a literatura, a poesia, as artes, a filosofia, a historiografia, a teologia, a política. Dilacerado entre nostalgia do passado e sonho do porvir, ele denuncia as desolações da modernidade burguesa: desencantamento do mundo, mecanização, reificação, quantificação, dissolução da comunidade humana. Apesar da referência permanente à idade de ouro perdida, o romantismo não é necessariamente retrógado: no decorrer de sua longa história, ele conheceu tanto formas reacionárias quanto formas revolucionárias.” (LÖWY, 2002. pg. 83)

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Leia também:

RESISTIR É PRECISO: A imprensa alternativa e clandestina durante a ditadura – Um projeto do Instituto Vladimir Herzog

Em 1º de abril de 1964, as forças que se opunham ao aprofundamento da democracia social e econômica em curso no Brasil consumaram sua cartada mais radical, a tomada do poder pelas armas. Um mês depois, o jornalista Millôr Fernandes  lançava a revista PifPaf e indagava, na capa de um dos primeiros exemplares: “Mas afinal, o que é a liberdade?”

A pergunta pairou no ar nos vinte anos que se seguiram. Na busca por respostas, milhares de jornalistas, intelectuais e ativistas políticos acabaram por fazer da palavra impressa uma das armas mais poderosas de combate à ditadura militar, à desigualdade social, à opressão, ao discurso moralista que mascarava a hipocrisia e o autoritarismo dos que assaltaram o Estado em nome da velha ordem.

Entre 1964 e 1979, o ano em que as forças democráticas conquistaram a anistia, centenas de publicações produzidas à margem dos aparatos institucionais de comunicação deram voz à resistência política e cultural no Brasil. Disputaram palmo a palmo o campo simbólico em que os donos do poder tentavam legitimar a dominação pela força. Enfrentaram a truculência da censura e da perseguição policial. E conseguiram se impor graças à capacidade de inovar não apenas a agenda temática, mas a própria linguagem e os códigos formais com que se expressava o debate público no país.

A história dos jornais alternativos, clandestinos  e produzidos no exílio nesse período está sendo reconstruída pelos pesquisadores e jornalistas do Instituto Vladimir Herzog, no projeto “Resistir é preciso”. Aqui neste site, ela é contada pelos próprios protagonistas, em dezenas de depoimentos registrados em vídeo. E é ilustrada pelas capas das edições mais significativas de cada uma dessas publicações, acompanhadas por textos que resumem suas trajetórias.

Reunimos aqui também uma coleção de cartazes produzidos por artistas gráficos que colaboraram intensamente com a imprensa da resistência. Resgatamos ainda exemplos precursores de jornalismo combativo, como os pasquins do século 19, os jornais libertários do início do século 20, as publicações de partidos e organizações que influenciaram pela esquerda o processo político no período anterior ao golpe militar.

O que tudo isso tem em comum? A inscrição no DNA de uma convicção expressa por Millôr Fernandes, com quem abrimos e fechamos esta apresentação: “jornalismo é oposição; o resto é armazém de secos e molhados”.

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CONHEÇA OS PROTAGONISTAS DESTA HISTÓRIA

Protagonistas
A História narrada na primeira pessoa, por quem a fez e viveu com intensidade um dos períodos mais ricos e conturbados da imprensa brasileira. O projeto “Resistir é Preciso…” recolheu sessenta depoimentos de jornalistas e militantes políticos que combateram a ditadura militar armados de máquinas de escrever, mimeógrafos e impressoras offset. De quebra, ajudaram a revolucionar a linguagem, os métodos e as práticas do nosso jornalismo. Nesta página, você encontra uma breve biografia de cada um dos protagonistas. E ao clicar nos links embutidos nas fotos, você navegará por um mar de histórias saborosas, divertidas e dramáticas que registramos em vídeo. Boa viagem!

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Da ideia inicial de elaborar um livro diferenciado e pioneiro até o envio para a gráfica foram 90 dias de trabalho incansável de uma equipe que se comportou como se estivesse numa alegre e saudável linha de montagem, tal o entrosamento entre a pesquisa, as possibilidades do texto, a direção de arte e os cuidados de cada escolha para o encaixe perfeito, nas páginas duplas, das 340 ilustrações escolhidas com base em dois critérios aparentemente contraditórios: o rigor histórico e a liberdade jornalística.

Participaram diretamente desta aventura de final feliz: o editor de contexto, José Luiz Del Roio, o editor de pesquisa, Vladimir Sacchetta, o editor de texto, José Mauricio de Oliveira e o jornalista Carlos Azevedo, como consultor, Kiko Farkas e sua sofisticada direção de arte, junto com Mateus Valadares, a historiadora Juliana Sartori, a jovem jornalista Paula Sacchetta e o pesquisador Luis Zimbarg, sob a coordenação da minha eterna curiosidade.

São quatro capítulos que obedecem a uma linha editorial muito clara. É dado o justo destaque a uma publicação historicamente importante e, na página espelhada, encaixamos as capas dos jornais ou revistas que ajudam a compor um formidável caleidoscópio, suficiente para explicar aquela fração de realidade, sempre do ponto de vista do jornalismo. Ao lançar uma publicação alternativa, de oposição, no exílio ou mesmo clandestina, o jornalista cria também um caldo de cultura fundamental para entender a história recente do Brasil, sem os filtros da análise mais tradicional.

Temos até a ousadia de dizer que está todo mundo aqui, como joias raras que finalmente ganham o palco e o reconhecimento. Uma delas é o Jornal do Subiroff, editado em 1920 por um filho dileto da burguesia paulista, que surpreende em todos os quesitos: criatividade, atrevimento e humor.

Dá gosto abrir o capítulo Imprensa Alternativa com o PifPaf, ousadia de Millôr Fernandes, que colocou nas bancas a sua revista semanas depois do golpe de 64 e deu no que deu.

O capítulo sobre a imprensa clandestina deixa claro, pelos fac-similes apresentados, a enorme dificuldade de fazer e distribuir publicações que, em muitos casos, eram o único oxigênio possível para o contato entre militantes de organizações estraçalhadas pela ditadura.

No capítulo Imprensa no Exílio estão as publicações que, feitas por brasileiros exilados, correram mundo denunciando os desmandos do golpe militar.

Este material foi reunido em 34 anos de paciente trabalho de José Luiz Del Roio e é, pela primeira vez, mostrado.

E mais. A cada início de capítulo, você terá o prazer de ler uma introdução que o coloca dentro das várias histórias.

Portanto, aguce o olhar, prepare o espírito, porque chegou a hora de ter um grande prazer intelectual.

Ricardo Carvalho – Editor

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“Os Cartazes desta História” é um livro que reúne manifestações políticas da América Latina em prol dos Direitos Humanos

A obra é parte do projeto “Resistir é Preciso…”, que resgata a memória da resistência contra a ditadura no Brasil (1964-1984) e a rearticulação da sociedade civil depois da Anistia de 1979, os cartazes retratam denúncias e solidariedade dos brasileiros em face da situação no País e também nas nações vizinhas que viviam sob a intervenção militar. A obra é divida em seis capítulos: Resistências, Anistia, Movimentos, Mulheres, Trabalhadores e Estudantes, Solidariedade e Mortos e Desaparecidos.

Organizada pelo jornalista Vladimir Sacchetta e com projeto gráfico de Kiko Farkas, a edição conta com um ensaio de Chico Homem de Melo, professor da FAU-USP e autor de artigos e livros sobre design gráfico. A publicação tem o patrocínio da Sabesp, por meio da Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo.

Os Cartazes desta História é mais uma iniciativa do Instituto Vladimir Herzog no âmbito do projeto Resistir é Preciso…, idealizado pela entidade, que tem por objetivo manter viva na memória dos brasileiros a luta da imprensa contra a ditadura, período em que inúmeros profissionais do meio jornalístico foram presos, torturados e assassinados. A obra segue os padrões do livro As Capas desta História (2011), patrocinado pelo BNDES, em que o destaque foram as publicações da imprensa alternativa e clandestina brasileira, produzidas por jornalistas (muitos deles exilados) entre 1964 e 1979. Integra também o projeto a coletânea de 12 DVDs Os Protagonistas desta História, patrocinada pela Petrobras, com depoimentos de 60 jornalistas e “fazedores de jornais” que vivenciaram e enfrentaram as dificuldades da época.

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SÉRIE TV BRASIL

No primeiro episódio de Resistir é Preciso, a série recua no tempo para contar como tudo começou, dos primórdios, em 1808, até a década de 1920, quando entra em cena o Barão de Itararé.

Foram muitos jornalistas punidos, naquela época, pelos poderosos de plantão a começar com Cypriano Barata que foi, a partir de 1832, preso várias vezes e em diferentes lugares, por conta do seu implacável “Sentinela da Liberdade”.

A série ainda mostra as perseguições e mortes de Frei Caneca, em Pernambuco e Libero Badaró, em São Paulo.

Neste episódio, a série fala da Semana De Arte Moderna de 1922 e da revista “Klaxon”, porta-voz do movimento.