INSURGÊNCIA FEMINISTA – Milhares de mulheres, mobilizadas em repúdio à #CulturaDoEstupro e ao Machistério do Golpe, fazem raiar um Junho potencialmente libertário


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 UM NOVO JUNHO RAIOU

Não é para contestar o ineditismo deste Junho que agora nasce que é vale a pena estabelecer as devidas analogias com as Jornadas de Junho de 2013 (confiram as análises de Ruy Braga e Marcos Nobre): estes dois Junhos, separados por 3 anos de turbulentas ocorrências, entrarão para a história recente do país como épocas de efervescência da democracia direta, da participação social turbulenta, do tsunamis anarco-democráticos que pegam as instituições de surpresa pela magnitude que tomam. Como escreveu Eliane Brum no El País em 06/06/2016:

“O levante das mulheres contra a cultura do estupro no país governado pelo interino Michel Temer (PMDB) e pelo Congresso mais retrógrado desde a redemocratização forma o retrato mais preciso desse momento histórico tão particular do Brasil. A oposição atual não é entre um governo chamado de ‘golpista’ e um governo que já foi apresentado como “popular”. Ou entre a presidente afastada pelo processo de impeachment e o vice que conspirou para afastá-la. O embate é entre o Brasil que emergiu das manifestações de junho de 2013 e o Brasil que se agarra aos privilégios de classe, de raça e de gênero. É esse o confronto político mais amplo que determina o curso dos dias.”

Se Junho de 2013 pareceu colocar o Brasil no mapa global das mega-mobilizações cidadãs, que puseram a democracia direta  e digitalmente turbinada no epicentro do mapa geopolítico, com fenômenos como a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, os Indignados espanhóis ou os conflitos na Maidan da Ucrânia, 2016 já nasce com cara de mês onde as ruas e redes, no Brasil, não cessarão de estar animadas pelo ethos e pelo ímpeto das experimentações cívicas de radicalização das mobilizações democráticas e insurgentes, com muita pela desobediência civil e contestação organizada de um governo considerado ilegítimo e golpista por uma vasta proporção da população.

A Resistência Ao Golpe de 2016 analisada pelos mais de 100 artigos reunidos em livro recém-lançado, que contou com a presença de Dilma Rousseff em seu lançamento na UnB – já ganha corpo e força com a insurgência feminista, as ocupações dos estudantes, as greves universitárias, os atos das frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular; em comícios e passeatas, em assembléias e aulas públicas, nas redes e fora delas, ferve de indignação o asfalto e o morro, o litoral e o sertão… Segundo a Ninja, neste dia Primeiro de Junho,

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“cerca de 16 estados realizaram manifestações com o tema “Por Todas Elas” em mais de 50 cidades. (…) A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil – os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Porém, como apenas de 30% a 35% dos casos são registrados, é possível que a relação seja de um estupro a cada minuto”. – NINJA

(ASSISTA O VÍDEO DE JORNALISTAS LIVRES REGISTRANDO O ATO FEMINISTA EM SAMPA)

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São Paulo, Primeiro de Junho, Av. Paulista

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Aqui em Goiânia, estive em dois atos cívicos recentes, não só expressando minha solidariedade a esta bela maré montante de mulheres #BelasLibertáriasEDaLuta, mas também para documentar em vídeo um pouco do que rolou: os vídeos Caraca – A Mulherada Chegou Forte Transmutando Dor em Luta fornecem algumas janelas de acesso a este agito democrático que vem confrontando o poderio do Patriarcado e demandando uma transformação radical nos nossos enraizados modos de convívio, ainda tão brutais e cruéis em razão da dominação masculina ainda vigente (sobre isso, recomendo Pierre Bourdieu e seu Dominação Masculina, além das obras listadas ao fim deste post).


Aos que teimam com o discurso de que feministas são “cheias de mimimi”, talvez não haja melhor argumento do que este: “o machismo mata todos os dias,  o feminismo nunca matou ninguém.”  Alguns podem contestar a hipérbole de “o feminismo nunca matou ninguém” (Valerie Solanas, autora do Scum Manifesto, chegou perto de assassinar Andy Warhol…); já quanto ao machismo ser mortífero (além de estúpido…), isto beira o incontestável: é fato comprovado por estatísticas (obscenas) às mancheias como aquelas que, no blog da Boitempo, Flávia Biroli – co-autora do livro Feminismo e Política – oferece, dando as dimensões estarrecedoras do problema:

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Biroli

MACHISMO MATA – Precisamos falar sobre feminicídio

“A lei do feminicídio foi sancionada pela presidente Dilma Rousseff em 9 de março de 2015. O feminicídio corresponde ao assassinato de mulheres pelo fato de serem muheres. No Brasil, esse tipo de assassinato tem aumentado. Segundo os dados do Mapa da Violência de 2012, em sua atualização dos dados específicos sobre homicídio de mulheres no Brasil, há registro do assassinato de 92.100 mulheres no país entre 1980 e 2010. Em 2010, esse registro foi de 4.465 mulheres assassinadas. Um estudo mais recente do IPEA fala em 5,82 mortes a cada 100 mil mulheres entre 2009 e 2011 – reproduzindo o destaque do relatório, uma média de 5.664 mortes por ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, uma a cada hora e meia. Segundo dados presentes no Mapa da Violência, um número inferior, de 4,4 mulheres a cada 100 mil habitantes no ano de 2009, deu ao Brasil a quinta posição entre 84 países que tiveram seus índices de homicídios contra mulheres comparados pela Organização Mundial de Saúde.

A maior parte dessas mulheres é jovem e tem baixa escolaridade. Segundo o estudo do IPEA, 61% delas são negras. Dados apresentados pelo Mapa da Violência mostram que em 71,8% dos registros de atendimento, a violência ocorreu na casa das mulheres. Trata-se de um padrão fundamental para o entendimento do feminicídio: mulheres de diferentes faixas etárias são agredidas no espaço doméstico, por pessoas que lhes são próximas – pais, tios, namorados, companheiros. E apesar da enorme importância da Lei Maria da Penha, de 2006, os estudos disponíveis indicam que houve pouco avanço na prevenção do homicídio de mulheres por homens que lhes são próximos.

Não são dados novos para quem está atenta ao tema. O Brasil é uma sociedade na qual mulheres são violentadas e assassinadas rotineiramente.” (BIROLI. Leia o artigo completo)

É um muito bem-vindo sopro de vida e renovação que as mulheres brasileiras estejam se empoderando tanto e articulando esta ‪#‎InsurgênciaFeminista‬ contra o Machistério do golpe, numa “Primavera Feminista” prenunciada por Marchas das Vadias e das Margaridas, mas promete neste ‪#‎Junho2016‬ escrever páginas notáveis para a história do feminismo no país. Mobilizadas em repúdio à ‪#‎CulturaDoEstupro‬ e contra o regime ilegítimo de Michel Temer e sua corja de machos, velhos, corruptos, branquelos, destroçadores de direitos sociais, que só sabem governar para o 1% da cúpula (empresarial, midiática, jurídica etc.), as ruas em coro garantem: “machistas, golpistas, não passarão!” 

Emma Goldman, Rosa Luxemburgo e Simone Weil estariam orgulhosas de nossas “guerreiras” (não no sentido bélico e macho man, mas muito mais na vibe Clara Nunes!).

“Canto pelos sete cantos
Não temo quebrantos
Porque eu sou guerreira…”

Neste Domingo (29/05), estive no Lago das Rosas, filmando o ato cívico que ficou registrado em Transmutando Dor Em Luta (22 min): ao som dos tambores afro e com muita capoeira rolando no coreto, elas manifestaram toda a repulsa pelo (des)governo do Mr. Biônico, pai de Michel Laranjinha e da Srta Bela Recatada & do Lar. Michel Temer cuspiu na cara de mais de metade da população do país, depois do afastamento de Dilma pelo Senado, ao nomear seu Ministério da Testosterona. O #ForaTemer virou palavra-de-ordem entoada em altos brados pelas mulheres, mas também pelos movimentos negros, estudantis, LGBT, indígenas – já que nenhum deles se sente minimamente representado pelos “recém-chegados” (aqueles que jamais venceriam as eleições, com tal projeto neoliberal fundamentalista, e que chegaram ao poder só pelo atalho do golpeachment).

E que ninguém diga que o feminismo é só falação: a desobediência civil feminista já se manifestou ultimamente em episódios notáveis de ação direta. Por exemplo: em Maio, ao início da interinidade de Temer, elas acorrentaram-se às grades do Palácio do Planalto, impedindo a passagem do traíra, que teve que entrar, como bom usurpador, pela porta dos fundos. Dias depois, rolou “invasão” (com o perdão do uso deste termo maculado pelas patas do P.I.G.) do STF (cúmplice, se não co-partícipe, do golpe parlamentar-midiático).

Uma interessante reportagem do El País, A Justiça no Brasil não é divina, é feminina (de Carla Jiménez), também aponta um raiar alentador de insurgência feminista em meio à perseverante barbárie do patriarcado belicista e autoritário – simbolizado, melhor que ninguém, por Dudu Cunha, o crápula teocrático que chefiou o complô golpista e agora está recebendo a bolsa-bandido para ser nosso presidente oculto, e por Bolsonazi, o apologista da tortura (a guy who has shit for brains):

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“Há um dado alentador no meio desta barbárie. À medida que a incompetência na condução das investigações no Rio [sobre o estupro perpetrado por 33 homens] foi exposta, cresceu a coragem das mulheres de se manifestar. Nas redes sociais, e até na sede do Supremo, onde calcinhas manchadas de vermelho foram exibidas e flores depositadas na estátua que representa a Justiça. As mulheres deste país já não suportam mais. Neste exato momento em que algum tarado está assistindo a cenas de estupros clandestinas no Whatsapp, há mulheres criando grupos de apoio, buscando inspiração em exemplos de ações conjuntas contra o estupro em outros países, e organizando manifestações para repudiar esta cultura selvagem.” – El País

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Marcha das Vadias 2013, São Paulo, SP. Foto: Rony Marques.

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Rio de Janeiro, 2 de Junho de 2016

Rio 03Saiba mais sobre a #CulturaDoEstupro

MV5BMjA1OTkwMjg3MF5BMl5BanBnXkFtZTgwODI4NDAwNjE@._V1_SY1000_CR0,0,713,1000_AL_O cinema e a música ajudam a pôr o cenário em chamas: Sufraggette – As Sufragistas, de Sarah Gavron, apesar de focado no movimento britânico pelo voto feminino de mais de um século atrás, é um dos filmes mais memoráveis dos últimos tempos e ainda tem muito a nos ensinar sobre a desobediência civil não-violenta – que para além de Gandhi, Luther King ou Thoreau, também tem ilustres praticantes nos movimentos feministas.

Na Rússia, o “caso Pussy Riot” revelou também possibilidades estéticas de um radicalismo louvável, excitante, como na ocasião em que as “Sex Pistols do Putin” fizeram uma desbocada performance na catedral de Moscou e depois foram em cana (tema do delicioso doc A Punk Prayer), revelando todo o autoritarismo do Estado Policial putinesco. Outro documentário que está dentre os mais excelentes dos últimos anos, Je Suis Femen (Eu Sou Femen), de Alain Margot, é um retrato cheio de empatia e verve do coletivo ucraniano-francês [FEMEN], que também pode muito bem inspirar ações das ativistas latino-americanas.

Aqui no Brasil destaco também a relevância atual da teoria-e-práxis de intelectuais orgânicas como a filósofa Márcia Tiburi, uma das idealizadoras do #PartidADjamila Ribeiro, colunista de Carta Capitalsecretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo; Ivana Bentes, exonerada do cargo de Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura do Brasil no Golpe de 2016, que escreveu um belo relato sobre a mobilização feminista, no Rio, em 02 de Junho; dentre outras figuras que vale a pena acompanhar. Nas redes sociais, recomendo: Geledés | Instituto da Mulher Negra; Não Me Kahlo; Juntas.

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CONFIRA TAMBÉM:

LIVRARIA FEMINISTA – ALGUMAS OBRAS RECOMENDADAS
PELA EDITORA VERSO BOOKS

“A landmark manifesto” — Susan Faludi, New Yorker

An international bestseller, originally published in 1970, when Shulamith Firestone was just twenty-five years old, The Dialectic of Sex was the first book of the women’s liberation movement to put forth a feminist theory of politics.

Beginning with a look at the radical and grassroots history of the first wave (with its foundation in the abolition movement of the time), Firestone documents its major victory, the expansion of the franchise in 1920, and the fifty years of ridicule that followed. She goes on to deftly synthesize the work of Freud, Marx, de Beauvoir, and Engels to create a cogent argument for feminist revolution.

Ultimately she presents feminism as the key radical ideology, the missing link between Marx and Freud, uniting their visions of the political and the personal.The Dialectic of Sex remains remarkably relevant today—a testament to Firestone’s startlingly prescient vision. The author died in 2012, but her ideas live on through this extraordinary book.

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An examination of how mainstream feminism has been mobilized in support of racist measures

Feminist Christine Delphy co-founded the journal Nouvelles questions féministes with Simone de Beauvoir in the 1970s and became one of the most influential figures in French feminism. Today, Delphy remains a prominent and controversial feminist thinker, a rare public voice denouncing the racist motivations of the government’s 2011 ban of the Muslim veil. Castigating humanitarian liberals for demanding the cultural assimilation of the women they are purporting to “save,” Delphy shows how criminalizing Islam in the name of feminism is fundamentally paradoxical.

Separate and Dominate is Delphy’s manifesto, lambasting liberal hypocrisy and calling for a fluid understanding of political identity that does not place different political struggles in a false opposition. She dismantles the absurd claim that Afghanistan was invaded to save women, and that homosexuals and immigrants alike should reserve their self-expression for private settings. She calls for a true universalism that sacrifices no one at the expense of others. In the aftermath of the Charlie Hebdo massacre, her arguments appear more prescient and pressing than ever.

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Barrett - Womens Oppression Today - PRINT

Women’s Oppression Today: The Marxist/Feminist Encounter

Women’s Oppression Today is a classic text in the debate about Marxism and feminism, exploring how gender, sexuality and the “family-household system” operate in relation to contemporary capitalism. In this updated edition, Michèle Barrett surveys the social and intellectual changes that have taken place since the book’s original publication, and looks back at the political climate in which the book was written. In a major new essay, she defends the central arguments of the book, at the same time addressing the way such an engagement would play out differently today, over thirty years later.

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Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis

During the ferment of the New Left, “Second Wave” feminism emerged as a struggle for women’s liberation and took its place alongside other radical movements that were questioning core features of capitalist society. But feminism’s subsequent immersion in identity politics coincided with a decline in its utopian energies and the rise of neoliberalism. Now, foreseeing a revival in the movement, Fraser argues for a reinvigorated feminist radicalism able to address the global economic crisis. Feminism can be a force working in concert with other egalitarian movements in the struggle to bring the economy under democratic control, while building on the visionary potential of the earlier waves of women’s liberation. This powerful new account is set to become a landmark of feminist thought.

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OUÇA TAMBÉM:

Cobain

“O estupro é um dos mais terríveis crimes na terra e isso acontece a cada poucos minutos. O problema com os grupos que lidam com o estupro é que eles tentam educar as mulheres sobre como se defender. O que realmente precisa ser feito é ensinar os homens a não violar. Vá à fonte e comece por aí.” – Kurt Cobain @ Nirvana


ESCUTA TAMBÉM NA JUKEBOX:

RIOT GIRLS & GRUNGY CHICKS – 25 músicas poderosas do “rock’n’roll das minas”

Filósofa Marcia Tiburi cria partido feminista: ‘Para mulheres, crise de representação sempre existiu’

Marcia Tiburi
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“O Brasil precisa de uma bancada feminista forte, é por isso que vamos lutar. A bancada que temos hoje não é possível, não é justa, não é decente. Não é possível aceitar a política como ela está colocada ali. Essa bancada “BBB” [bancada do Boi, da Bíblia e da Bala] não faz sentido no nosso país. Esperamos que a nossa ético-político feminista seja tão forte e acolha de tal maneira os anseios e as potências brasileiras que a gente possa mudar justamente esse cenário. Os atores desse cenário precisam ser outros.” – MÁRCIA TIBURI e suas parceiras deflagrando a ‪#‎partidA‬

SAIBA MAIS EM VOZERIO.ORG.BR

Qual o lugar da #partidA como um partido em meio à crise da representação partidária?

Marcia Tiburi: Eu entendo que existem muitos afetos em jogo na política hoje em dia. E a política sempre foi construída na base de afetos, embora ela apareça para as pessoas como uma construção puramente lógica, racional e estratégica. É claro que o caráter lógico e estratégico permeia os processos, mas a #partidA surge propondo outro afeto político, na contramão do afeto que sustenta, por exemplo, a estrutura autoritária na qual a gente vive e que faz parte da própria história do Brasil, que tem uma história bastante autoritária, escravocrata e cheia de ditaduras.

O afeto que permeia o autoritarismo brasileiro é o ódio, que em certas épocas cresce e aparece com muita força. É o rechaço do outro, a negação do outro, a incapacidade de incluir o outro. Esse ódio sempre esteve latente, e eu acredito até que ele seja de fato estrutural da ordem política conhecida no Brasil e no mundo. Por isso, quando a #partidA surge, é movida por esse afeto “revolucionário” — entre aspas, porque não pretendemos destruir nem colocar uma outra estrutura em cena — digamos assim, trocar um poder por outro.

O que eu vejo é que a gente transforma a ideia de partido numa outra coisa, a gente ressignifica a ideia de partido. E colocamos no lugar do termo poder — na história do patriarcado, da dominação masculina — a potência. Certo, vivemos numa crise de representação, mas, para as mulheres, essa crise sempre existiu. As mulheres nunca foram representadas na política. E, junto com as mulheres, todos os grupos oprimidos, toda uma população que deveria ser cidadã e que foi alienada dos seus direitos de cidadania. Chamar de feminismo já quer dizer que não somos tradicionais.

Marcha das Mulheres no último dia 08 de março, em São Paulo. Mídia Ninja
Marcha das Mulheres no último dia 08 de março, em São Paulo. Mídia Ninja

Justificativas de teor moral são muito mencionadas por quem prefere se manter fora da política tradicional, que seria “suja” e corrupta — como você mesma diz algumas vezes. Quais os problemas dessa visão? A #partidA (ou, melhor, as mulheres até agora envolvidas) não vê problemas em sujar as mãos ou não há sujeira de fato?

Criou-se no Brasil uma cultura antipolítica cujo discurso há muito tempo é: o poder corrompe, o poder é ruim, a política é um campo minado e um lugar terrível para se estar. Associamos a política à corrupção, à sujeira, ao mal. Essa ideia de política serve a quem? Serve a quem está no poder. E, no caso, o nome concreto do poder que está em jogo hoje e no qual a #partidA quer intervir é o poder enquanto governo. Por isso nós precisamos da forma “partido”. Só que, por ser um partido feminista, ele já não é um partido como os outros — porque um partido feminista não é como os outros. Os valores, as práticas, os direitos desejados pelas mulheres são bastante diferentes dos valores, das práticas e dos modos de existir dos partidos tradicionais.

Existem muitas pessoas ligadas à #partidA que convivem com instituições — seja algum partido de fato, universidades, poder judiciário ou a mídia. E essas pessoas não têm medo de viver em instituições. O partido é apenas mais uma instituição que deve nos servir como meio, e não como fim. Nisso, encontramos uma coisa muito bonita da #partidA: a ético-política feminista, um conceito que eu defendo teoricamente. E isso muda tudo, porque assim como as pessoas têm preconceito em relação a partidos, a esse “sujar as mãos”, pensam que a forma partido é a forma que fomenta essa corrupção toda. Não precisa ser assim, e é por isso que nós almejamos uma bancada feminista. E almejamos a forma partido, mesmo que nós não venhamos a formalizar a #partidA — porque é possível que a nossa #partidA se mantenha como movimento, como já é.

Pode ser que nós não formalizemos um partido porque talvez nós não precisemos da forma partido burocratizada e inscrita no TRE. Mas o que queremos é funcionar como um partido, pois o nosso movimento quer atingir a governalidade. Assim, propomos radicalmente uma democracia feminista, porque não acreditamos na existência de uma democracia que não contemple uma pauta, um projeto feminista.

Gosto de citar a Mary Wollstonecraft, que no século 18 brigava com Rousseau. Ela falava que o feminismo é uma luta pelos direitos da humanidade. Se a humanidade é de homens e as mulheres participam dela, então está errado. Queremos um feminismo que inclua todas as pessoas e singularidades. É por isso que a gente expande, aumenta, recria o feminismo — uma busca por singularidades, por uma democracia que, como escrevi esses dias, é uma democracia hard, não é a democracia de fachada.

Mas se a #partidA não se transformar num partido formalizado, como intervir no governo?

Uma das ideias que transitam hoje em certos grupos, sobretudo aqui em São Paulo (vamos ver como isso vai se constituir nas outras cidades), é que a gente apoie candidatos de outros partidos. A proposta da #partidA é empoderar mulheres e todos aqueles sujeitos que se reconhecem como mulheres e que desejam fazer política feminista. E também quem não se diz mulher, mas que é feminista. Acreditamos também no feminismo dos homens — ele é mais complicado e precisa ser mais elaborado, inscrito dentro de um contexto. Hoje, vivemos num contexto de cotas para mulheres. Na nossa #partidA, teremos cotas para homens (risos). Brincando, mas também falando sério: é importante que os sujeitos dos privilégios na nossa cultura atual tenham a experiência das cotas. É provável que a gente não seja um partido formalizado para as próximas eleições. Mas a ideia é que a gente crie uma campanha — na minha cabeça, vamos ter todas as prefeitas do Brasil, as vereadoras etc. A gente quer a eleição, é nesse patamar de luta que a gente vai se inserir.

Para superar a questão da uniformidade necessária ao conceito de partido, Carla Rodrigues, no blog do IMS, propõe que o referencial da partidA seja vazio. Como você entende essa proposta? Como levar isso para a construção do partido neste momento de sua formação?

Eu entendi que o referencial vazio é um espaço de criação da política. Acho que esse referencial vazio tem a ver com a potência de construção de uma nova história, de um novo — seja histórico, filosófico, do pensamento, político. Estamos construindo uma nova política real, concreta, hard. Então, ao mesmo tempo que a #partidA é um nome de acolhida, ela é um “lançar”, o #partiu. Partir rumo a uma aventura, no sentido de uma viagem, de explorar novas terras, o espaço desconhecido. Esse campo da política, tratado hoje em dia como uma selva cheia de monstros, é o espaço que a gente precisa atingir de maneira lendária. Entendo a #partidA como naqueles filmes de aventura, nos quais as pessoas vão para um lugar desconhecido. #partidA já virou o referencial, porque grafamos a hashtag que faz referência ao #partiu, e o A representa uma inversão, uma brincadeira. A gente leva tudo muito a sério, mas é num clima de criação.

Na Suécia, a Feminist Initiative foi o primeiro partido feminista europeu a conseguir um assento no parlamento. Em maio deste ano, a Inglaterra oficializou seu primeiro partido feminista. Também há partidos feministas na Índia e nas Filipinas. Como a #partidA se insere nesse cenário global? Quais as influências e inspirações?

Não teve essa influência direta. Eu sou muito brasileira e muito ligada no que acontece no Brasil. É claro que está todo mundo sentindo uma emoção radical desde 2013, desde os acontecimentos no Egito e na Grécia, tudo isso pegou muito a gente. Mas não há uma influência mais direta e estratégica. A #partidA é bem brasileiro, algo que vai ser construído do nosso jeito.

Num congresso brasileiro de conservadorismo inédito como o de hoje (assim como a população que o elegeu, em sua maior parte contrária à regulação do aborto), no qual pautas retrógradas têm ganhado cada vez mais espaço, como um partido feminista pode ganhar força?

Isso vai acontecer primeiramente em um nível de movimento — as coisas não são de um dia para o outro. E o Brasil precisa de uma bancada feminista forte, é por isso que vamos lutar. A bancada que temos hoje não é possível, não é justa, não é decente. Não é possível aceitar a política como ela está colocada ali. Essa bancada “BBB” [bancada do Boi, da Bíblia e da Bala] não faz sentido no nosso país. Esperamos que a nossa ético-política feminista seja tão forte e acolha de tal maneira os anseios e as potências brasileiras que a gente possa mudar justamente esse cenário. Os atores desse cenário precisam ser outros.

Marcha das Mulheres no último dia 08 de março, em São Paulo. Mídia Ninja
Marcha das Mulheres no último dia 08 de março, em São Paulo. Mídia Ninja

Muitos mencionam as disputas internas do feminismo como um problema na formação de uma organização “única”. A jornalista Yvonne Roberts disse no jornal britânico The Observer que “Uma aliança política de mulheres seria instável e eventualmente implodiria”. Alguns partidos feministas pelo mundo de fato tiveram vidas curtas (como a Austrália, Belarússia e Islândia). Como fazer durar a #partidA no jogo da política tradicional?

Isso precisa ser entendido dentro da história, da circunstância política de cada país. No caso do Brasil, também vamos precisar pensar. Qual a característica do poder patriarcal, do poder enquanto dominação masculina? A permanência no poder. O poder quer mais poder. O nosso poder é potência, é poder para fazer, para transformar — que vai servir à transformação da sociedade. Nesse sentido, se o partido realizar seu projeto e depois deixar de existir, eu não vejo mal algum. Ao mesmo tempo, enquanto as condições históricas que o obrigaram a existir não se transformarem, nós vamos querer continuar existindo.

Nosso sonho é uma sociedade em que não exista mais autoritarismo, onde os direitos de todas as pessoas estejam realizados e que a gente não precise mais viver em luta. É claro que isso é uma utopia. Assim, em termos muito práticos, vamos precisar reproduzir nossa metodologia de atuação celular nesta construção da #partidA. Não podemos atuar como partidos atuam, de cima para baixo. Precisamos construir de maneira participativa e criativa as nossas demandas e decisões. Conversar com as pessoas, reconhecer as demandas singulares e coletivas num clima de sinceridade e respeito.

Acreditamos de verdade que vamos crescer e avançar com uma operação política diferente, porque é dialógica. Existe uma afetividade que move todos os feminismos, mas não existe um feminismo como pensamento único — ele sempre foi diverso e complexo. Então não existe um feminismo que tenha mais razão do que o outro. Para mim, o feminismo é essa construção dessa diferença. O pensamento único tende ao autoritarismo, e o feminismo nunca poderia ser um autoritarismo.

E vocês pensam em se identificar com uma esquerda ou com uma direita ou isso não é importante?

Isso é muito importante, tanto quanto é desimportante. Os feminismos e a democracia feminista é uma superação da dicotomia direita/esquerda. Nós somos a superação disso. Como? A direita não reconhece a existência do feminismo. A esquerda também é conservadora perto do feminismo. Por isso eu costumo dizer que o feminismo é ainda mais à esquerda, mas na verdade ele é uma superação dessa dicotomia.

Os partidos ainda acreditam que as mulheres possam estar ali na forma de cotas, que elas possam fazer o feminismo da mesma forma subalterna, secundária e inessencial em relação ao que significa a proposta socialista, por exemplo, no caso da esquerda. Então a gente não tem nenhum partido de esquerda que seja feminista. Pois nós teremos uma #partidA feminista de maneira essencial, prioritária e fundamental. E as questões concernentes aos direitos humanos, à solidariedade, à defesa das pautas do campo da esquerda, tudo isso entra no nosso feminismo. Mas numa inversão do jogo, o que é fundamental.

Eu sou filiada ao PSOL, adoro as pessoas e as propostas, mas não é suficiente para aquilo que eu penso em termos de política. Em se propor feminista, a #partidA propõe um lugar de protagonismo das mulheres, próprio do feminismo em sua história.

Como têm sido os encontros da #partidA até agora?

Na verdade, ainda estamos no começo das nossas reuniões. Só tivemos três até agora, e o número de pessoas que aparecem nos encontros têm aumentado. As pessoas têm chegado na partidA com muita curiosidade, alegria e muito comprometimento. O desejo de fazer é muito emocionante. Uma coisa muito bonita que tem acontecido é o diálogo entre as gerações: feministas históricas e meninas mais novas que estão começando, é lindo.

Quais os próximos passos da #partidA?

Temos uma reunião marcada dia 27, sábado, em Goiânia. Mas têm sido pensadas reuniões em Curitiba — que vai acontecer no final de julho —, Belo Horizonte, Palmas, Salvador e Brasília. A #partidA tem um desejo de espontaneidade, então a gente espera as pessoas — e as pessoas vêm. A gente espera as feministas e as feministas estão chegando! (risos) Isso é lindo, porque é uma nova onda, é uma outra história que estamos construindo. As meninas mais novas, sobretudo, dizem: “eu sinto que estou fazendo história!” E o legal é que tudo isso nasceu de uma ideia muito louca, a de criar um partido feminista. O feminismo é muito anárquico, um anarquismo que deu certo. Então a ideia de um partido provoca: as feministas se sentiram convocadas porque foram provocadas a pensar uma coisa meio contraditória — o oxímoro do partido feminista. A #partidA é meio absurda, uma torção do poder tradicional.

Entrevista original publicada no site Vozerio.

RELEMBRE:

MARCIA TIBURI EM GOIÂNIA, 2013
CENTRO CULTURAL OSCAR NIEMEYER
CAFÉ DE IDEIAS

“O chador e a burca, assim como qualquer véu islâmico, funcionam sempre como uma mordaça. Com frequência como uma pedra sepulcral.” (Glucksmann)

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persepolis-livroA charge acima é da Marjane Satropi, na graphic novel “Persépolis”, já adaptada para o cinema em uma premiada animação (assista na íntegra). O livro que contêm o “romance em H.Q.” inteiro é este aqui: http://bit.ly/1baeBh5 (Ed. Cia das Letras, R$46).

Aproveitamos a ocasião para compartilhar um texto do filósofo e ensaísta francês André Glucksmann (1937- ) sobre a condição feminina e que trata, em especial, das opressões impostas a elas por governos teocráticos (como o Irã sob Komeini ou o Afeganistão dos Talibãs).

ASFIXIADAS PELO OBSCURANTISMO
André Glucksmann
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Teerã (capital do Irã), 1979. Conduzido ao poder por meio de colossais manifestações, nas quais se confundiam liberais, revolucionários e religiosos, o aiatolá Komeini imediatamente decreta o uso iminente e obrigatório do chador (o véu negro). Todas as iranianas deveriam esconder seus corpos sob véus negros. Todas, jovens e velhas, fiéis ou infiéis, deveriam cobrir-se da cabeça aos pés sob pena de prisão, flagelação, apedrejamento e outras bagatelas, inclusive a morte. Ansioso por institucionalizar sua revolução islâmica, o Guia supremo acredita que o novo regime deve se estabelecer sobre uma base sólida. Essa base é o estatuto destinado às mulheres. O véu integral deve perenizar seu poder.

As mulheres de Teerã não se deixaram enganar com isso. Longe de considerar o decreto como algo anedótico ou folclórico, saíram às ruas, romperam com a unanimidade geral e realizaram a primeira manifestação antiislâmica da história. Foram abandonadas pelos homens, todos eles… Alguns deles derramavam lágrimas de crocodilo e as chamavam de volta à razão. O lamentável destino reservado às mulheres do Irã, na opinião dos homens, não era senão o prejuízo colateral de uma liberação que seria mais generalizada. E afinal, por que tantos discursos a respeito de um pedaço de pano?…

A estratégia de Komeini se mostrou frutífera. O pedaço de tecido que as “brigadas de ordem moral” impunham em Terrã tornou-se um estandarte político universal, um instrumento de conquista, uma imposição de uniforme digna dos integrantes da SA (organização paramilitar do partido nazista alemão). Os integristas, tanto sunitas quanto xiitas, considerando-se autores do decreto, perseguiram, amputaram, apedrejaram e decapitaram todas as recalcitrantes sem véus.

O aiatolá fez escola em Argel (a capital da Argélia), e a tentativa de impor o uso do véu às jovens alunas dos liceus, sob a ameaça de uma faca no pescoço, inaugurou uma série de massacres sem precedentes…

“No Irã, as mulheres são as únicas a reivindicar publicamente, não somente por meio da palavra, mas por suas ações (tirar os véus e sair às ruas), a vontade de se afirmar como indivíduos. Nos dias atuais, elas constituem um dos componentes mais dinâmicos do devir da sociedade civil. Embora até o presente momento tenham permanecido politicamente desorganizadas, conseguiram se infiltrar em uma das cidadelas que, por longo tempo, lhes foi vetada: o saber acadêmico. Se, no Irã, os imãs vigiam de perto as mulheres, isso se deve ao fato de que, em 1986, elas constituíam 19% do quadro docente das universidades, enquanto, nesse mesmo ano, na Alemanha federal, essa taxa não passava de 17%…” (F. MERNISSI, La peur-modernité, Albin Michel, pp. 206-207).

Após a chegada de Komeini ao poder, no Afeganistão, os homens empenharam-se em intensificar ainda mais a proibição da exibição de qualquer parte do corpo, por mínima que fosse. A burca é um véu que cobre integralmente o corpo, deixando apenas uma pequena faixa em forma de grade, na altura dos olhos, sob o qual a mulher sufoca e enxerga com dificuldade. Seu uso se propagou e se tornou o emblema da ditadura dos talibãs, esses estudiosos da teologia que, pelo sabre e pelo chicote, revelam sua superioridade em matéria de religião. Os homens aplicam-se a dividir o gênero feminino em “putas” (entendam: as que não usam véu) e “submissas” (entendam: as que usam véu)…

O terrorismo do véu não priva a mulher de seu corpo, mas da possibilidade de falar (seduzir ou não) com seu corpo, ele lhe corta a palavra. O chador e a burca, assim como qualquer véu islâmico, funcionam sempre como uma mordaça. Com frequência como uma pedra sepulcral.”

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GLUCKSMANN, André.
Discurso do Ódio
(Le Discours de la Haine)

Editora Difel: Rio de Janeiro, 2007.
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