CONFLUÊNCIAS.RECs – 50 CANÇÕES CANNÁBICAS: Download gratuito da coletânea discotecada durante o “Confluências – Festival de Artes Integradas”, 4ª Edição

50 CANÇÕES CANNÁBICAS
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O Confluências #4 – Festival de Artes Integradas contou com uma discotecagem só com a fina flor das músicas, nacionais e internacionais, devotadas à cannabis sativa ou que exploram lisergias e brisas conexas ao consumo da ganja. As 50 canções foram escolhidas – naturalmente, sob o efeito – tendo em vista seja as canções que mencionam e/ou celebram explicitamente a erva, seja as que são cheias de indiretas ou referências cifradas, seja as que causam na mente do ouvinte um efeito sensorial semelhante ao dum bom beck…

O Confluências #4 rolou na Sexta, 23/6, na Trip, logo após a realização em Goiânia da Marcha da Maconha 2017, organizada pelo Coletivo Antiproibicionista Mente Sativa. No caderno de cultura do jornal Diário da Manhã, saiu nosso release. Agradecemos ao parceiro Heitor Vilela por estar sempre antenado às empreitadas de produção cultural independente da cidade e colocar-nos neste seu Roteiro!  

No Conflu rolaram shows de Chá de Gim, Distoppia, Tião Locomotiva e Veneno, Orquestra de Laptops de Brasília; exposição fotográfica e poética O Caminho do Cerrado, projeto de Mel Melissa Maurer (com a presença da modelo Mohara); além da discotecage-fumacê que aqui compartilhamos. Quem quiser baixar a coletânea na íntegra, em MP3 de qualidade (320kps), estamos disponibilizando o ZIPão de 350 MB para download:


DOWNLOAD – 50 CANÇÕES MACONHEIRAS QUE O POVO PEDE (CANNA)BIS
http://www.mediafire.com/file/8981uy24bvkag4o/50_CANÇÕES_CANNÁBICAS_-_CONFLUÊNCIAS_SATIVA.rar

Aí vai a playlist:

  1. Amy Winehouse – Addicted (2:45)
  2. BNegão & Seletores De Frequência – Nova Visão (5:42)
  3. BNegão & Os Seletores De Frequência – Proceder/Caminhar (3:26)
  4. The Beatles – Got To Get You Into My Life (2:31)
  5. Bezerra da Silva & Marcelo D2 – Erva proibida (2:56)
  6. Bezerra da Silva – A semente (3:08)
  7. Bezerra da Silva – Maladragem dá um tempo (3:50)
  8. Big Bad Voodoo Daddy – Reefer Man (2:54)
  9. Black Sabbath – Sweet Leaf (5:05)
  10. Black Uhuru – Sinsemilla (5:11)
  11. Bob Dylan – Rainy Day Women #12 & 35 (4:36)
  12. Boogarins – Doce (4:57)
  13. Cab Calloway – Reefer Man (3:00)
  14. Criolo – Pé de Breque (4:05)
  15. Curtis Mayfield – Pusherman (5:04)
  16. Marcelo D2 – A Maldição Do Samba (2:31)
  17. Marcelo D2 – Kush (3:16)
  18. Marcelo D2 – Sessão (2:33)
  19. De Menos Crime – Fogo Na Bomba (4:55)
  20. Erasmo Carlos – Maria Joana (3:44)
  21. Gabriel O Pensador – Maresia (5:37)
  22. Gilberto Gil – Eleve-se Alto ao Céu (Lively Up Yourself).wmv (4:24)
  23. Golden Boys – fumacê (2:34)
  24. Method Man & Redman – Redman / How To Roll A Blunt (3:21)
  25. Muddy Waters – Champagne & Reefer (4:38)
  26. Neil Young – Roll Another Number (for the Road) (3:04)
  27. Neil Young LIVE – Roll Another Number (5:21)
  28. Nirvana – Moist Vagina (2013 Mix) (3:33)
  29. O Rappa – A Feira (3:57)
  30. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Os Mutantes and Gal Costa – Panis Et Circensis (3:35)
  31. Paulinho da Viola – Chico Brito (3:12)
  32. Peter Tosh – Legalize It (4:41)
  33. Planet Hemp – Contexto (3:45)
  34. Planet Hemp – Fazendo A Cabeça (3:19)
  35. Planet Hemp – Legalize Já (3:00)
  36. Planet Hemp – Queimando Tudo (2:52)
  37. Primal Scream – Movin’ on Up (3:50)
  38. Queens Of The Stone Age – Feel Good Hit Of The Summer (2:43)
  39. Quique Neira ftt Alborosie – Yo Planto (4:52)
  40. Raimundos – Nega Jurema (1:53)
  41. Raul Seixas – Como Vovó já Dizia (3:25)
  42. Ray Charles – Let’s Go Get Stoned (3:03)
  43. Rick James – Mary Jane (10:39)
  44. Steppenwolf – Don’t Step On The Grass, Sam (5:42)
  45. Sublime – Smoke Two Joints (2:53)
  46. Tagore – Vagabundo Iluminado (3:24)
  47. Tom Zé – Botaram Tanta Fumaça (2:48)
  48. Tukley – Vampiro Doidão (4:00)
  49. Weezer – Hash Pipe (3:06)
  50. Willie Nelson – Roll Me Up and Smoke Me When I Die (4:52)

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“A GUERRA ÀS DROGAS TÁ MATANDO GERAL!” – Transcendendo hipocrisias na Marcha da Maconha Goiânia 2016

— Chega de hipocrisia: a Guerra às Drogas mata pobre todo dia”; “Ei, polícia, maconha é uma delícia!”; “Dilma Rousseff, legaliza o beck!”; “Mais Conha, menos Cunha!”;  “Uh, legaliza! Uh, legaliza!”; “E se legalizar, ôlê olê olá! Eu vou plantar!” Estas e outras bandeiras e brados deram o tom dos agitos cívicos da #MarchaDaMaconha 2016, em Goiânia, tema de meu mais recente experimento na arte do Mídia Ninjismo (assista abaixo).

Organizada pelo coletivo antiproibicionista MenteSativa, a marcha dos diambeiros chegou à sua 6ª edição na capital de Goiás com significativa manifestação. Neste curta-metragem, de 10 minutos, confira um pouco do que rolou nas ruas neste dia em que a galera, cheia de rastaman vibrations, queimando tudo até a última ponta, com a cabeça ativa e a mente aguçada pelo influxo da cannabis sativa, voltou a demandar a legalização da erva em uma pacífica procissão anarco-democrática.

A GUERRA ÀS DROGAS TÁ MATANDO GERAL (2016, 10 min, #VideoJoint)

Semanas atrás, milhares de Cheechs e Chongs estiveram lá celebrando o redivivo Planet Hemp, que chaqualhou o Centro Cultural Oscar Niemeyer em estrondoso show no Bananada, mostrando toda a força quase Rage Against Machiníca desta banda que sem dúvida está entre o que o rock brasileiro produziu de mais maravilhosamente insurgente, subversivo e sagazmente informado. Acredito que um pouco da vibe de união maconheira que teve status de headliner no festival produzido pel’A Construtora Música e Cultura acabou transbordando para as ruas, emprestando vigor e ímpeto à marcha, bastante espontaneísta e imprevisível, mas sempre contundente e contestatória.

PLANET HEMP – “A Culpa é de Quem?” Live at BANANADA

Os manifestantes reuniram-se na Praça Cívica às 16h20, para oficina de cartazes e outros leros, e depois mandaram seu recado itinerante até a Praça Cívica e arredores, gritando #ForaTemer, criticando o novo ministro-proibicionista do regime Golpista (Osmar Terra) e reclamando pela desmilitarização da polícia. “Sem hipocrisia! A guerra às drogas mata pobre todo dia!” – ribombou o clamor popular pelas ruas do Centro. Na Devastolândia do regime instaurado pelo coup d’état parlamentar-empresarial-midiático em curso, o (des)governo do Mr Biônico e seu Sinistério dos Machos Mofados, as notícias são péssimas também para os maconheiros (e para quem quer que defenda uma política pública sobre drogas menos estúpida, contraproducente e genocida do que a vigente):

Ministro

OSMAR TERRA E O RETROCESSO NA POLÍTICA DE DROGAS:
Crítico ferrenho da descriminalização do uso de entorpecentes, ministro do Desenvolvimento Social e Agrário usa seu poder para frear avanços

Leia em CartaCapital – por Débora Melo

“Embora não ocupe uma posição de liderança no debate sobre a política de drogas brasileira, o ministro do Desenvolvimento Social e Agrário (MDS) do governo interino, Osmar Terra (PMDB-RS), já usa o poder do cargo para impor suas convicções a respeito do tema. Crítico contumaz da descriminalização do consumo de drogas, o médico, que estava no quinto mandato como deputado federal pelo Rio Grande do Sul, é autor de um projeto de lei que prevê aumento da pena para tráfico e internação compulsória de dependentes químicos.” SAIBA MAIS

Um dos maiores méritos do movimento social maconheiro é expressar discórdia em relação a uma lei vigente de modo criativo, construtivo, a um só tempo combativo e festivo. Na Marcha da Maconha ouve-se aquele coro poderoso de vozes, levantando-se em comum para em alto e bom som criticar o desvario do proibicionismo autoritário, demandar o direito à informação verídica sobre os efeitos psicosomáticos e bioquímicos propiciados pelo THC, apontar os possíveis benefícios terapêuticos e econômicos duma eventual regulamentação do plantio e comércio do cânhamo, entre outras pautas conexas.

A demanda é por conhecimento, e pelo direito a conhecer através dos métodos, arcaicos e para muitos povos sagrados, que incluem a ingestão de substância psicodelizantes e expansoras da consciência. A demanda é pelo respeito às toneladas de conhecimento científico que já se acumulou sobre os numerosos benefícios à saúde que esta medicina natural de milênios propicia tempos afora (são milênios de usufruto, apenas décadas de proibição). A demanda é por um poder público menos tacanho e truculento em sua sanha de brucutu policialesco, por uma atitude mais lúcida e sábia que tem como ícones Pepe Mujica, no Uruguai, ou o sistema de Portugal (que mereceu até as atenções de Michael Moore em seu novo documentário, Where To Invade Next, em que o documentarista fanfarrão brinca de invadir outros países a fim de roubar boas ideias que deveriam ser aplicadas back home). 

Renato Malcher-Lopes e Sidarta Ribeiro escreveram um livro extremamente meritório, a despeito de seu tamanho miúdo, para o debate público e a revolução de costumes que urge instaurar em nossa sociedade a respeito do cânhamo e um de seus produtos, a maconha. Maconha, Cérebro e Saúde tem todas as qualidades de um trabalho científico compenetrado, bem-informado, em que os dados empíricos e estatísticos são sempre refletidos em profundidade. Mas a preciosidade da obra está também no esforço de conscientização da opinião pública, um ímpeto que me convenceu que há um lume quase iluminista em muitas das mentes que hoje buscam dissipar as trevas da ignorância que mantêm tantos corações e mentes ainda presos ao obscurantismo da repressão absoluta e truculenta, do não brutal e autoritário, em relação a esta que é uma das espécies vegetais mais essenciais à história da Humanidade e às aventuras da Modernidade (que o digam as cordas de cânhamo sem as quais as caravelas dos Grandes Descobrimentos – na verdade gigantescas genocidas conquistas – não teriam vencido o oceano).

“Nunca foi tão oportuna quanto agora a discussão sobre os efeitos cerebrais e fisiológicos da Cannabis, popularmente conhecida como maconha. Se por um lado uma parcela da sociedade começa a questionar a pertinência das políticas públicas que criminalizam seu uso, por outro a ciência avança a passos largos para decifrar a enorme variedade de efeitos fisiológicos e psicológicos induzidos por seus princípios ativos. […] A maconha é uma das drogas recreativas mais usadas no mundo e está entre as mais antigas plantas domesticadas pelo homem. Esteve presente nos primórdios da agricultura, tecnologia, religiões e medicina. Testemunhos eloqüentes de seu impacto na civilização estão presentes nas escrituras sagradas e nos mais antigos documentos médicos das mais diversas culturas.

O número de artigos científicos publicados sobre o sistema canabinóide cresce linearmente a cada ano, de forma que a maconha protagoniza uma verdadeira revolução, representando uma das mais promissoras fronteiras no desenvolvimento da neurobiologia e da medicina. A descoberta dos endocanabinóides, ou seja, moléculas análogas aos princípios ativos da maconha, mas produzidas pelo próprio cérebro, é a grande novidade por trás dessa guinada científica. Neste início de século XXI, acredita-se que os canabinóides possam estar envolvidos na remodelação de circuitos neuronais, na extinção de memórias traumáticas, na formação de novas memórias e na proteção de neurônios. […] A desregulação do sistema canabinóide pode estar envolvida nas causas da depressão, dependência psicológica, epilepsia, esquizofrenia e doença de Parkinson.” (MALCHER-LOPES & SIDARTA RIBEIRO – Click para ler outros trechos de Maconha, Cérebro e Saúde)

 

Este é o segundo documentário que faço registrando uma Marcha da Maconha: alguns anos atrás, no ano que passamos em Toronto, registrei em 15 minutos os agitos da Global Marijuana March pelas ruas da metrópole canadense no documentário Cannabian Carnaval, publicado pela Mídia Ninja. Foi um dia memorável de experiência direta com o ativismo cannábico em um país que já possui uma legislação bem mais sábia do que a brasileira, sinal de que a militância pode ser cotidianizada e enxergar-se como tarefa do dia-a-dia, como se a exuberância dos sentidos e da razão propiciada pela cannabis sativa pudesse inspirar também a política a superar os cabrestos de suas ortodoxias estúpidas e ousar rumos melhores.

O Canadá foi o primeiro país do mundo a legalizar a maconha medicinal em 2001. O país também já regulamentou o plantio industrial de cânhamo (hemp), que desde 1998 é uma realidade na economia canadense. Mesmo com uma legislação relativamente avançada e tolerante, as vozes das ruas ainda são explícitas em gritar: ainda há muito chão pela frente. A política de Guerra às Drogas prossegue perseguindo e encarcerando usuários e cultivadores que não possuem prescrições médicas ou alvarás federais. Por essas e outras, mais de 10 mil pessoas tomaram as ruas da mais populosa cidade canadense no dia 03 de Maio de 2014. Mesmo debaixo de chuva e ventania, milhares se manifestaram em massa na 17ª edição anual da Marcha da Maconha de Toronto (Global Marijuana March).

Neste documentário curta-metragem, acompanhe alguns dos melhores momentos da Marcha, que concentrou-se no Queen’s Park e depois desfilou pelas ruas Bloor e Yonge, duas das mais importantes vias da metrópole. Toronto parou para ver o carnaval cannábico passar. O filme inclui entrevistas exclusivas com um ativista da organização internacional Dads for Marijuana; com uma trabalhadora de um Clube da Cannabis Medicinal (que auxilia pacientes no processo de conseguir prescrições médicas); com um cadeirante que se vale do uso da cannabis para melhorar sua condição de saúde; entre outras “figuras” que deram as caras neste mega-evento. 

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II. HISTÓRIA DA MACONHA NO BRASIL

Uma das características mais recorrentes de um proibicionista bronco, truculentaço, é a ignorância histórica quanto ao papel que jogou o cânhamo na história da humanidade nos últimos 10.000 anos ou mais. E é justamente de um historiador brasileiro uma das obras mais interessantes publicadas nos últimos anos no país sobre o tema:  falo de A História da Maconha no Brasil, de Jean Marcel Carvalho França.


FAPESP TV – Piratas: Além do Butim, por Jean Marcel Carvalho França

Jean MarcelProfessor de História do Brasil na Unesp (câmpus Franca-SP), Jean Marcel Carvalho França é autor de Piratas No Brasilde A Construção do Brasil na literatura de viagem dos séculos XVI, XVII e XVIII (José Olympio, 2012) e coautor de Três Vezes Zumbi: a construção de um herói brasileiro (Três Estrelas, 2012).

Nesta sua breve mas brilhante “biografia” da maconha em terra brasilis, ele realizou um “amplo e fascinante painel sobre o canabismo no Brasil – da Colônia ao século XXI -, composto a partir de detalhada pesquisa documental”, como destaca o texto da Editora Três Estrelas (saiba mais):

Jean Marcel 2

“Considerada no século XVIII uma planta de promissor futuro comercial, por causa da qualidade das suas fibras, a cannabis não vingou aqui como matéria-prima de cordas e tecidos, mas, sim, como um meio de relaxamento e devaneio. Associada, porém, aos hábitos dos escravos e aos vícios das ‘franjas da sociedade’, passou a ser atacada por médicos, juristas e políticos. Ópio dos pobres, veneno verde, cocaína do caboclo, erva maldita… Foram muitos os nomes pejorativos que a maconha recebeu ao longo da história brasileira até que, nos anos 1970, se iniciasse uma progressiva disposição para discriminalizar o seu uso e esvaziar o estigma que paira sobre seus consumidores.”

O livro traz curiosidades saborosas, como o fato de que a inovadora aventura de conhecimento coletivo que foi a Enciclopédia (1751 – 80) dos iluministas franceses, com editores-chefe em Diderot e D’Alembert, “consagra dois verbetes à cannabis” (FRANÇA: 2014, p. 23); que escreveram sobre experiências com haxixe figuras como Charles Baudelaire e Walter Benjamin; que a literatura de François Rabelais, autor de Gangântua e Pantagruel, inclui capítulos inteiros marcados pela presença do cânhamo, planta que é batizada pelo narrador de pantagruelion e é marcante na 3ª parte das narrações sobre os feitos de Pantagruel; que a palavra maconha surge como anagrama de cânhamo, uma origem etimológica  muito graciosamente lúdica! (OBS: anagrama = transposição de letras de palavra ou frase para formar outra palavra ou frase diferente – Natércia, de Caterina; amor, de Roma ; Célia, de Alice etc. Na literatura brasileira um exemplo célebre é Iracema, de José de Alencar, anagrama de América.); dentre outros curiosos achados, fruto da pesquisa sagaz do autor.

Anagrama

ANAGRAMA

Mas o foco de Jean Marcel Carvalho França não é nem o enciclopedismo nem o anedotário: ele faz crítica historiográfica, de primeira linha. Foca no fato sociológico de que os maconheiros foram estigmatizados por razões classistas e racistas, já que “a erva era supostamente apreciada pelos ‘pretos’ e pela gente pobre, que precisava, digamos, relaxar, pois, afinal, eram os pés e as mãos do senhor de engenho. Da tradicional cachaça e do apreciado tabaco o passado colonial legou-nos muitas informações” (p. 24) – já sobre a maconha, nosso saber é mais ralo, o que só torna mais meritório e relevante este livro. “Os homens de letras daqui, que não viam o canabismo como um exotismo importado do Oriente, pleno de mistérios, mas como hábito caseiro e vulgar, comum entre escravos e a gente dita de má vida, julgaram-nos indigno de ser relacionado entre as práticas de um intelectual ou de um artista de respeito.” Preconceito de letrados, racismo da elite cultural e econômica, estão na raiz do estigma contra a maconha e o maconheiro.

“Foram sem dúvida os africanos e seus descendentes que consolidaram o hábito do canabismo na sociedade local. Foi a eles que os brasileiros gradativamente associaram o gosto pela ‘diamba’ (bangue, maconha, fumo de Angola, pito de pango, riamba, liamba etc.) e seu consumo regular, recreativo e relaxante; e foram eles que os ‘doutores’ (psiquiatras e juristas) do início do século XX, ao promoverem um combate feroz ao canabismo, resolveram culpar por propagar o ‘nefando vício’ pela sociedade brasileira.” (FRANÇA. op cit, p. 28)

No Brasil do século 19 já se conheciam, em certos círculos, os potenciais terapêuticos da cannabis, tanto era assim que “remédios importados à base de cânhamo abundavam nas farmácias” e “feira e boticas vendiam montes de erva para combater um sem-número de males (de soluços a impotência).” (p. 32) Até Carlota Joaquina (1775 – 1830), já cinebiografada por Carla Camurati em filme de 1995, tendo que enfrentar, como todo e qualquer mortal, a aproximação da indesejada das gentes,  recorreu à diamba, em 1830, como lenitivo no desfecho de seus dias:

“A Rainha, agonizante, chamou o seu fidelíssimo criado, o crioulo Felisbino, e lhe disse: Meu mal é de morte. Velha, doente e pobre, eu quero sucumbir com o orgulho da minha raça. Não quero morrer deitada. Uma rainha deve apresentar-se diante da morte com dignidade de soberana. Feito o desabafo, arrematou: Me traga aquele pacotinho de fibras de diamba com que mandamos para o inferno tantos inimigos. Lançando mão, então, de um chá que misturava diamba e arsênico, ‘a rainha morreu sem dor alguma’.” (p. 34) (Cf. romance histórico Os escândalos de Carlota Joaquina, de Assis Cintra.)

Eduardo Carli de Moraes – Goiânia – Junho ’16

Confira um trecho do livro História da maconha no Brasil

 LEIA TB EM A CASA DE VIDRO:
A Revolução Verde Em Marcha  (2013)

100 DISCOS BACANAS DA MÚSICA BRASILEIRA NO SÉCULO 21 – Ouça todos na íntegra: Criolo, Pitty, Emicida, Planet Hemp, Nação Zumbi, Lenine, Tom Zé, Elza Soares, Boogarins etc.

Subam o volume, abram os tímpanos e façam recurso aos expansores de consciência prediletos! Eis aqui um banquete musical farto e diverso que serve como um passeio turístico pela produção musicográfica no Brasil de 2000 pra cá. Os mais de 100 álbuns completos aqui reunidos pretendem ofertar portais de entrada para alguns dos mais significativos e expressivos álbuns gravados desde que o atual século raiou e a lista inteira pode ser acessada também em nossa playlist no Youtube (shortlink: http://bit.ly/1Z9c2Ef). A imagem que ilustra o post (acima) é uma obra do estúdio de ilustração goiano Bicicleta Sem Freio.

Voilà alguns dos artistas que vale a pena acompanhar no cenário musical brazuca contemporâneo: Criolo; Emicida; Pitty; Planet Hemp; Elza Soares; Los Hermanos; Siba; Lenine; Juçara Marçal e Metá Metá; Céu; Curumin; Apanhador Só; Karina Buhr; Móveis Coloniais de Acaju; Vivendo do Ócio; Cidadão Instigado; Tom Zé;  etc.

OBS: Algumas ausências importantes deste listão devem-se simplesmente à indisponibilidade atual do álbum no Youtube: é o caso, por exemplo, de obras excelentes – que esperamos poder adicionar à lista em breve – como: ModeHuman do Far From AlaskaCorpura, do Aláfia; A Dança da Canção Incerta, da Pó de Ser; a estréia do Carne Docedo Hellbenders, do Overfuzz; além dos discos de Mariana Aydar, Ceumar, Luiz Tatit etc.

(P.S. – Vocês podem sugerir álbuns ausentes desta playlist pelos comentários ou via msg de Facebook! Compartilhe no FB e no Tumblr.)

criolo

CRIOLO – “Convoque Seu Buda”


CRIOLO – “Nó Na Orelha”


PAULO CÉSAR PINHEIRO, “Capoeira de Besouro”


SABOTAGE – “Rap É Compromisso”


EMICIDA – “O Glorioso Retorno…”


CÍCERO – “Canções de Apartamento”


NAÇÃO ZUMBI – “Fome de Tudo”


PLANET HEMP – “A Invasão do Sagaz Homem Fumaça”


B NEGÃO – “Sintoniza Lá”


ELZA SOARES – “A Mulher Do Fim Do Mundo”


CÉU – “Vagarosa”


RODRIGO AMARANTE – “Cavalo”


TULIPA RUIZ – “Efêmera”


JUÇARA MARÇAL – “Encarnado”


JUÇARA MARÇAL E KIKO DINUCCI – “Padê”


RACIONAIS MCS – “Nada Como Um Dia”


CÉU – “Catch a Fire” (Live)


LITTLE JOY


B NEGÃO – “Enxugando Gelo”


RUSSO PASSAPUSSO – “Paraíso da Miragem”


PITTY – “Anacrônico”


PITTY – “Sete Vidas”


PITTY, “Admirável Chip Novo”


NÔMADE ORQUESTRA


KAMAU – “Non Ducor Duco”


CURUMIN – “Japan Pop Show”


BOOGARINS – “Manual”


BOOGARINS – “Plantas Que Curam”


KARINA BUHR – “Eu Menti Pra Você”


B NEGÃO – “Transmutação”


O TERNO (2014)


MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU (2005)


AVA ROCHA – Ava Patrya Yndia Yracema (2015)


MACUMBIA – Carne Latina


TÁSSIA REIS


ACADEMIA DA BERLINDA (2007)


MACACO BONG – “Artista Igual Pedreiro”


ANELIS ASSUMPÇÃO E OS AMIGOS IMAGINÁRIOS


DINGO BELLS – “Maravilhas da Vida Moderna”


VIVENDO DO ÓCIO – “O Pensamento É Um Ímã”


BAIANA SYSTEM – “Duas Cidades”


CIDADÃO INSTIGADO – “Fortaleza”


CIDADÃO INSTIGADO E O MÉTODO TUFO DE EXPERIÊNCIAS


TOM ZÉ – “Vira Lata na Via Láctea”


ELO DA CORRENTE – “Cruz”


ÑANDE REKO ARANDU – Memória Viva Guarani  (2000)


ESTRILINSKI E OS PAULERA – “Leminskanções”


NOÇÃO DE NADA – “Sem Gelo” (2006)


MOMBOJÓ – “Nada de Novo” (2004)


FINO COLETIVO (2007)


PITTY – “Ciaroescuro”


MATEUS ALELUIA – “Cinco Sentidos” (2010)


LOS HERMANOS – “Ventura” (2003)


ABAYOMY AFROBEAT ORCHESTRA – “Abra Sua Cabeça”


SIBA – “Avante”


SIBA E A FULORESTA – “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar” (2007)


MUNDO LIVRE S/A – O outro mundo de Manuela Rosário (2004)


NÁ OZZETTI E ZÉ MIGUEL WISNIK – Ná e Zé (2015)


CAETANO VELOSO – Cê (2006)


HURTMOLD – Mestro


INSTITUTO – Coleção Nacional


CORDEL DO FOGO ENCANTADO


RODRIGO CAMPOS – “Conversas com Toshiro”


DUDA BRACK – “É”


CURUMIN – “Achados e Perdidos” (2005)


LUISA E OS ALQUIMISTAS – “Cobra Coral”  (2016)


A TROÇA HARMÔNICA (2015)


MAHMED – Sobre a Vida em Comunidade


LETUCE – Estilhaça


FILARMÔNICA DE PASÁRGADA – “O Hábito da Força” (2013)


LENINE – “Chão” (2011)


LENINE – “Labiata” (2008)


MUÑOZ – “Nebula” (2014)


JARDS MACALÉ – “Amor, Ordem e Progresso”


OTTO – “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos” (2009)


TOM ZÉ – “Jogos de Armar”


SARA NÃO TEM NOME – “Ômega III”


FORGOTTEN BOYS – “Stand by the DANCE”


GUSTAVITO – “Só o Amor Constrói”


BLUBELL – “Eu sou do Tempo…”


THALMA E GADELHA – “Mira”


NOÇÃO DE NADA – “Trajes e Comportamentos”


MUNDO LIVRE S/A vs NAÇÃO ZUMBI


ZULUMBI (2014)


IAN RAMIL – Derivacilização (2014)


CAMARONES ORQUESTRA GUITARRÍSTICA – Rytmus Alucynantis


CAMARONES ORQUESTRA GUITARRÍSTICA – Espionagem…


ABAYOMY (2012)


LOS HERMANOS – “Bloco do Eu Sozinho”


VOLVER – “Acima da Chuva”


ORQUESTRA IMPERIAL – “Carnaval Só Ano Que Vem”


SUPERCORDAS – “Terceira Terra” (2015)


CÉREBRO ELETRÔNICO – “Pareço Moderno”


PATA DE ELEFANTE – “Um Olho no Fósforo…”


GUIZADO – “Calavera”


SIBA E A FULORESTA – “Fuloresta do Samba”


LURDEZ DA LUZ – Ep


RED BOOTS – “Touch the Void”


SUBA – SP Confessions


DIEGO E O SINDICATO – “Parte de Nós”


DIEGO MASCATE


APANHADOR SÓ


APANHADOR SÓ – “Antes Que Tu Conte Outra”


BIXIGA 70 III (2015)


BIXIGA 70 (2013)


HELLBENDERS – “Peyote”


BERIMBROWN (2000)


RENATA ROSA, “Zunido da Mata” (2012)


RENATA ROSA, “Encantações” (2015)


SERENA ASSUMPÇÃO, “Ascensão” (2016)


METÁ METÁ – “MM3” (2016)


METÁ METÁ (2011)


JULIANO GAUCHE – “Nas Estâncias de Dzyan” (2016)


JULIANO GAUCHE (2013)


THE BAGGIOS – Brutown (2016)


Abayomy Afrobeat Orquestra

Abayomy Afrobeat Orquestra

DESLACRANDO A LIBERDADE: O Festival Bananada em meio ao caos da Republiqueta de Bananas

DESLACRANDO A LIBERDADE

O Bananada em meio ao caos da Republiqueta de Bananas

por Eduardo Carli de Moraes

“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta,
não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”
CECÍLIA MEIRELLES (1901-1964)

PRELÚDIO ETIMOLÓGICO

DESLACRANDO = gerúndio do verbo deslacrar
DESLACRAR = abrir o que está lacrado

I. A BLITZKRIEG LIBERTÁRIA DE LINIKER E OS CARAMELOWS

Quiseram os rumos da História que o Festival Bananada 2016, em sua 18ª edição anual consecutiva, acontecesse logo nos primeiros dias do (des)governo interino de Michel Temer. Com o punho direito no alto – um gesto típico do Black Power e celebrizado nas Olimpíadas do México em 1968 pelos atletas afroamericanos Tommie Smith e John Carlos, Liniker começou seu show no Bananada garantindo: “estamos aqui pela liberdade, sempre!” Quando a música começou a rolar, como uma maná de frescor e vida que caía em exuberância, era difícil resistir à blitzkrieg libertária, mezzo Dzi Croquettes e mezzo Itamar Assumpção e Isca de Polícia, que tomou conta do recinto.

Para o jovem multi-artista de Araraquara (SP), liberdade tem tudo a ver com a afirmação jubilante do empoderamento. Quando despontou com vídeos que viralizaram na Internet – “Zero” já tem mais de 2 milhões e 500 mil views – o Liniker apareceu para confrontar todos os códigos do politicamente correto: quando ele canta “deixa eu bagunçar você”, está pondo em prática um programa anarco-estético ousado, que tem na ruptura das ortodoxias um dos seus principais nortes. Deixe-se bagunçar! Pois o atual discurso de “salvação nacional” da “Ponte Para o Futuro”, baseada na recuperação do “ordem e progresso”, não merece nada mais que ser caotizado por nossas energias ingovernáveis e nossa desobediência civil.

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A “atitude lacradora” que Liniker e sua banda de apoio, os açúcarados e cheios-do-groove Caramelows, propagaram em seus dois shows no Bananada (o primeiro, no teatro Sesi, e o segundo, no Centro Cultural Oscar Niemeyer) mostraram a perfeita conjunção entre música e atitude, relembrando que a revolução comportamental pode ter como uma de suas melhores aliadas a cultura, renovada, que têm nascido. Calcados na melhor tradição da black music nativa e gringa, mesclando a gafieira Black Rio com a funkeira à la Sly and the Family Stone, Liniker demonstrou ser um dos nomes mais magistrais da nova música brasileira.

Sua empatia com a multidão, sua capacidade de comandar a massa, sua performance exuberante e sem pudores beatos, fez dele o grande destaque do Bananada. Contra todo tipo de racismo, homofobia, machismo ou apartheid, Liniker e seus asseclas provaram que há sim plena possibilidade de congregação entre gente diferente e que não foi inventado nada melhor que a música como agente catalisador da fraternidade imediata entre desconhecidos (uma lição que os gregos, em seu dionisismo, já conheciam muito bem!).

Com um carisma fora de série, um senso de humor delicioso, uma expressão corporal livre e desinibida, Liniker demonstrou ser um band leader daqueles que surge muito raramente na música popular de qualquer país. A platéia foi ao transe diante da ousada confrontação de todas as carolices. Congregar-se é isso, justamente: agregar amorosamente as diferenças, permitir o convívio alegre do dissonante. Faltam palavras suficientes para descrever o sopro de vida e esperança desta celebração artística da liberdade em nosso tempo de tenebrosos fascismos, que saem do armário tacando suas pedras sobre negros, bichas, índios, ateus, petistas, comunistas, secundaristas e “vândalos”, num triunfo grotesco do discurso do ódio.

LinikerNum país onde Bolsonazi faz apologia da tortura, elogiando o carrasco de Dilma na ditadura em uma sessão da Câmara comandada por um delinquente contumaz (Cunha) e em que um sindicato de ladrões cagou em gangue sobre o sufrágio universal, foi uma injeção de vida na veia poder testemunhar a simbiose artistas-público no Bananada, com o ódio acéfalo e o golpismo segregador sendo confrontados lindamente pela amorosidade  contagiante dos Caramelows. Mostraram que ainda há a coragem de sobra, neste país, de afirmar toda a nossa diversidade e colorido – com o volume no talo e sem medo de porra nenhuma.

Num intervalo entre as músicas, a platéia, galvanizada, berrava a plenos pulmões e com insistência: “não vai ter golpe! não vai ter golpe!” Ao sabor da hora, Liniker retorquiu com palavras de fraternidade na resistência, clamando pra que a gente não deixe que arranquem nossa democracia e conclamando à união: “não vai ter golpe, o que vai ter é lacre!” Acompanhado pelas duas deslumbrantes backing vocals, Liniker deu um show de humanidade (este valor fora-de-moda em nossa época desumana). Foi isso que busquei sintetizar no vídeo abaixo que, em 20 minutos, tenta transmitir um pouco das razões (e das emoções) que me levam a considerar este o show mais emblemático daquele que talvez tenha sido, como disse a Noisey da Vice Brasil, o melhor Bananada destes 18 anos de vida do festival goiano.

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* * * * *

II. #FUCK TEMER E OUTRAS SUBVERSÕES E RESISTÊNCIAS

ethos da resistência aos Podres Poderes marcou o palco do Bananada em vários momentos, numa ironia histórica notável: numa época em que a Republiqueta de Bananas se manifesta em todo o seu desprezo pela democracia, golpeando o sufrágio popular em prol de um complô plutocrático das elites, coube ao Bananada ser uma ruidosa voz resistente contra os desmandos da corja delinquente chefiada por Cunha, Temer, Serra, P.I.G., Fiesp e demais escrotos golpeadores.

Vários artistas se apresentaram numa vibe de indignação política, com várias manifestações sobre o tema: Siba brincou com a linguagem – “teve goipe e teve goipada!”, disse o genial músico e poeta pernambuco, clamando para que sigamos Avante com nossos ideais e não deixemos o país ir, de vez, para o fundo do poço. A folia na galera foi ao auge com canções inesquecíveis como “Toda Vez Que Eu Dou Um Passo O Mundo Sai Do Lugar”. O talento como letrista de Siba é explícito e acachapou-nos quando, no encerramento do show, com veia de repentista somada a um certo sabor de Ariano Suassuna, ele inventou na hora, de improviso, uma série de estrofes rimadas que provaram mais uma vez a maestria deste nosso queridíssimo gênio do cancioneiro popular.

 O indie rock a um só tempo ruidoso e psicodelizante dos Supercordas também agradou. De cima do palco, Bonifrate e companhia bradaram em cartazes: “Não vai ter governo” e “Vai ter luta”.

Superchords

Super

Helio Sequence

The Helio Sequence (USA), foto de Ramon Ataide

O grupo de rock psicodélico Bike, que homenageia em seu disco de estréia, 1943, o químico Albert Hoffmann, sintetizador do LSD e primeiro ser humano a dar um rolê de bicicleta pela Holanda após consumir acido lisérgico, também clamou para que a gente “desça da montanha” pra lutar contra o governo usurpador, “se não a gente tá fudido”.

Mesmo as estrelas do stoner local, os Hellbenders, fizeram pela primeira vez um discurso político, criticando os retrocessos na cultura anunciados pelo presidente biônico. Até os gringos (estadunidenses) do The Helio Sequence juntaram-se ao coro e lacraram: “#FuckTemer!”.

As guitarradas comeram soltas, dando fuel pra indignação e pras rodas de pogo, com o Riviera Gaz – o excelente power-trio estrelado por Gustavo Riviera (vocalista e guitarrista, do Forgotten Boys) e o batera do Sonic Youth, Steve Shelley. O Killing Chainsaw tentou cortar cabeças com serra elétrica com seu indie-punk raivoso, ensurdecedor. E quando o Planet Hemp chegou, precedido de um DJ Set na vibe “Killing in the Name”, o poderio contestatório e revolucionário do rock estava flamejando em toda a sua fulminância, com Marcelo D2 e BNegão, neste revival em boa hora, mostrando porque esta é uma das bandas mais foda da história deste país.

É uma delícia ouvir, berrado, “adivinha, doutor, quem tá de volta na praça: Planet Hemp, esquadrilha da fumaça!”. Ainda mais considerando a atualidade da mensagem Hempiana, dada a continuidade grotesca do proibicionismo contra-producente, da política de encarceramento em massa, do racismo institucionalizado em nossas prisões e polícias, das Tropas de Choque e de Elite que defendem o tope repleto de bandidos de colarinho-branco. Diante desta situação, graças ao Planet Hemp temos artistas sem rabo preso, com consciência social, devotados ao protesto construtivo em prol de maior justiça social, que nos ajudam a questionar e com quem é preciso sempre re-perguntar, diante de todo o sangue que derrubam e de toda a injustiça que cometem os nossos “líderes” do controle e da repressão, se não é o caso de pararem de apontar o dedo acusador para maconheiros, como se fossem parte do problema, quando são, na real, parte da solução! Avante, rumo ao Planeta Maconha!

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Foto por Ariel Martini.

Foto por Ariel Martini.

A CULPA É DE QUEM?
“Portugueses escravizaram e mataram nosso irmão
Militares torturaram e não foram pra prisão
Eu fumo minha erva, me chamam de ladrão
Os negros já fumavam a erva antes da África deixar
Mas os senhores proibiram por não querer nos libertar
E os senhores de hoje em dia estão proibindo também
Se o pobre começa a pensar parece que incomoda alguém
Crianças crescem nas ruas, não confiam em ninguém
Escondem nossa cultura, referência ninguém tem
O país tá uma merda e a culpa é de quem?

A culpa é de quem? A culpa é de quem?

Eles roubam no planalto e não pensam em ninguém
Manipulam as leis e vêm com papo furado
Tudo que incomoda eles, eles dizem estar errado
Então quem é o marginal?
Crianças morrem por sua culpa e eu que vivo ilegal
Tenho que me esconder por uma coisa natural
Enquanto eles metem a mão na maior cara de pau
Não vou ficar calado porque está tudo errado
Políticos cruzam os braços e o país está uma merda
Trabalho pra caralho e fumo a minha erva, aí eu te pergunto:

A culpa é de quem? A culpa é de quem?”

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III. O “PACOTE DE MALDADES” DO GOLPISMO vs A CULTURA EM MARCHA CONTRA A BARBÁRIE

O festival ocorreu em meio a um clima político de estarrecimento geral, e muitas vezes revolta incontida, diante do “pacote de maldades” que o PMDB batizou (seria irônico, caso não fosse trágico!) de “Ponte Para O Futuro”, e que é o novo nome para uma velharia: a proposta, útil só aos 1% no tope, da Privataria Generalizada somada às brutais “Austeridades Para O Povo”. Uma farsa elitista que já foi “gloriosamente” instalada entre nós, nos anos 1990, pelo sociólogo transmutado em parceiraço do capital transnacional oni-privatizante, o FHC [Fumando Henrique de Cardoso].

Como prova empírica do caráter elitista, misógino e plutocrático do regime golpista instalado às pressas nesta republiqueta-de-bananas, a “nova” Esplanada dos Ministérios não tem como ministro nenhuma mulher, nenhum negro, nenhum representante dos povos indígenas. É um Ministério para agradar o P.I.G.: para que a Veja se satisfaça com a reiteração maldita do dogma machista-patriarcal que obriga a mulher a ficar restrita a subalterna e serviçal: “bela, recatada e do lar”. 

O golpe é engomadinho, tem visual de quem vai aparecer na TV: veste terno-e-gravata, faz discursos na Globo, dirige BMWs comprados por lavagem de dinheiro pela Suíça ou pelo Panamá. Os golpistas são olimpicamente desdenhosos da vida dura dos reles mortais que vivem em favelas, ou estão no desemprego, ou das mulheres que querem abortar, ou de todos os que não aceitam o molde familiar da heterossexualidade compulsória, ou dos mortos e feridos pela brutalidade banalizada de nosso complexo policial-carcerário e da conexa e absurda Guerra às Drogas.

O ministério do golpe é todo de velhos homens brancos, fedendo a mofo e à interesses egocêntricos, boa parte deles réus em processos de corrupção e enriquecimento ilícito, com nada menos que 7 deles na mira da Lava Jato. Todos eles representantes de elites que já estão demasiado bem-bancadas, no Parlamento, pelas Bancadas BBB (Boi, Bala e Bíblia). O que significa que a Cultura perdeu muitas batalhas para a Barbárie nos últimos tempos!

O último golpe, desferido dias antes do Bananada, foi o fim da existência independente do MinC: Temer decretou a fusão do ministério da Cultura e da Educação, entregou de mão beijada o Ministério a um partido da direita-grotesca (o DEM), com um desdém inimaginável pelo trabalho de Juca Ferreira, Ivana Bentes e de tantos outros guerreiros que têm lutado, ultimamente, em prol de nossa Cultura Viva. Uma ameaçadora espada de Dâmocles pendia sobre o pescoço do MinC durante o festival, enquanto dezenas de ocupações de prédios e escolas se multiplicavam pelo Brasil, exigindo do governo usurpador o respeito devido à cultura e à arte. Com as cabeças desabrigadas de teto, sob as estrelas do Goiás, nós nos movíamos (uns 5 mil humanos por noite!) entre a monumental arquitetura de Oscar Niemeyer na inquietude destes tempos caóticos.

Donde a importância, para além do entretenimento social e da venda lucrativa de espetáculos pela “Indústria Cultural” nacional – que, devido às minguadas verbas públicas para a cultura, hoje para bancar-se não está tendo como escapar dos conluios de patrocínio com as corporações de cerveja (a Skol é a patrocinadora oficial do festival) – o Bananada foi um sopro de vida muito bem-vindo. Ainda que o conteúdo político não estivesse no script oficial do evento, produzido com competência ímpar pela Construtora de Fabrício Nobre, este foi o Bananada de maior impacto político dentre os 6 ou 7 que já testemunhei.

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O Bananada reafirmou enfaticamente a potência da cultura nestes nossos tempos tão bárbaros, mostrando a quem lá esteve que este país, para além da crise política e econômica estraçalhante, tem vocação para driblar adversidades com muita capoeira, tem o dom da criatividade sem freios, tem a disponibilidade para as mestiçagens e hibridismos mais livres, tem propensão para a genialidade rítmica e melódica absolutamente ímpares. O Brasil autêntico que vive e resiste longe das cúpulas, não se preocupem, sempre foi ingovernável e de uma genialidade selvagem!

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“Teve goipe sim, teve goipada!” – Siba

Se a política institucional é um lamaçal de podridão que nos envergonha diante do mundo, podemos muito bem nos orgulhar, isto é, dar um boost na auto-estima e um chega-pra-lá no “complexo de vira-latas”, por sermos os felizes e gratos conterrâneos de figuras de tão adorável musicalidade e poiésis: Jorge Ben Jor, Siba, Juçara Marçal, Liniker, Planet Hemp, Carne Doce, Pó de Ser etc. Junto deles é que estamos em boa companhia.

IV. CONTRAGOLPES DA LUZ EM TEMPOS DE TREVAS

A experiência me deixou matutando que não há época de trevas que não seja também repleta de contragolpes da luz. Sem A.I.5 não haveriam nascido as “É Proibido Proibir” e as “Cálices” que fizeram com que nossa MPB, mesmo sob as mordaças e os horrores da Ditadura, florescesse resistindo. E que luz brilha com mais esplendor, nas trevas impostas pelas elites, que a da liberdade cantada e da dançada de um povo que constrói na união e na fraternidade seu próprio empoderamento?

Liberdade de afirmarmos a nossa diversidade e celebrarmos o pluralismo de nossa criatividade. Liberdade também de demolir paradigmas de bom comportamento, destroçar imposições autoritárias de conduta, ir além da jaula estreita do politicamente correto, do imposto pelas caretices reinantes. Liberdade para ser absolutamente anárquico (no bom sentido!) na bagunça de gênero, número e cor que dá o tom no Liniker e os Caramelows, com toda a maravilhosidade sem culpa de um protagonista que é ao tempo negão, bicha e lacradora, demolindo a golpes de genialidade qualquer idiotice racistóide ou puritanismo teocrático.

Liberdade para defender, com impacto expressivo e estético de intenso vigor e verve, um “Planeta Maconha” de cannabis livre e Estado policial-carcerário aposentado de vez da história, como fez o Planet Hemp em show arrebatador (os caras são de um poderio ao vivo que os equipara a Rage Against The Machine ou MC5!).

Liberdade para quem é careca, é gordo, é feio, é veado, é de esquerda, é vesgo, tem pele com mais melanina, é ativista do socialismo, é anarquista libertário, é feminista e lésbica, é o que diabo for, de ser quem é, sem ter que tomar pedradas ou sofrer discriminações ofensivas. Os festivais de Goiânia – em especial o Bananada, o Vaca Amarela e o Grito Rock – parecem Zonas Autônomas Temporárias onde a lei do amor prevalece sobre a do ódio e ninguém fica “tacando pedra e bosta na Geni”. Locais onde damos razão à Hannah Arendt quando escreveu, em A Vida do Espírito, que “a pluralidade é a lei da terra.”

Nestes pavorosos tempos de fascismo em ascensão e de golpes de Estado financiados pelo capital transnacional, sempre com seus bem-pagos serviçais na elite nativa, é um sopro de esperança e vitalidade um festival assim, tão bom e tão vivo. Um sopro – ou melhor, para citar os Hellbenders, um hurricane! – de um outro mundo possível onde artistas empunhem, não só guitarras e baixos, tambores e baquetas, mas que também levantem bandeiras libertárias.

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O festival ficou marcado na carne pelas urgências da época histórica, e até mesmo as bandas estrangeiras envolveram-se com o “clima de golpe de Estado”, como fez o vocalista do The Helio Sequence quando disse: “here’s something I guess most of you will relate to!”, disse o antes de erguer um cartaz branco onde se lia, em letras garrafais negras ali grafadas com spray: FUCK TEMER”.

As duas palavrinhas impertinentes que mandavam um foda-se ao usurpador também decoraram um dos palcos, no último dia de festival (15/05), e marcaram o background para a passagem do furacão goiano Hellbenders. Para onde quer que se olhasse naquele palco, o stoner-grungy da banda tinha por acompanhamento fuck Temers e fuck Malafaias às mancheias.

Hell

 Lançando seu segundo álbum, Peiote, gravado na Califórnia no Rancho de La Luna, os Hellbenders pela primeira vez desvelaram uma faceta politizada, como no prelúdio a “Hurricane”, em que o vocalista Diogo Fleury convocou para uma mega roda de pogo após dizer que um governo que nos seus primeiros passos comete atentados contra a cultura e a arte já começa bem mal.

Para além de teorias e debates sobre ela, a tal da Liberdade manifestou-se na práxis em corpos bailantes, coros de vozes em uníssono, cabelos e penteados de todas as cores e tipos (confesso predileção e carinho pelos cabelos azuis, que propagam ecos do filme Azul É A Cor Mais Quente). A variedade, além de estética e temática, foi também vista no colorido do público e na diversidade dos espaços que podíamos explorar – do point do skate ao das tatoos, da praça gastronômica deliciosa às projeções nos prédios (que recuperaram a obra do Bicicleta Sem Freio no prédio do CCON que foi censurada no ano passado). Como bem explorou a matéria da Noisey:

“Em sua 18ª edição, o Festival Bananada vem há tempos buscando transcender a esfera musical e proporcionar uma experiência completa ao público. Não estamos falando apenas de algumas bancas com comida — apesar do Circuito Gastronômico promovido pelo evento ter sido uma das experiências mais agradáveis do rolê —, mas sim de estúdios de tattoo, cabeleireiro, lojinhas das mais variadas bugingangas, merch dos artistas, tabacaria, espaço para as crianças (pode ser cedo demais para levar o bacuri a um show do Planet Hemp), campeonato de skate e até mesmo uma rinha de bartenders valendo prêmio para o melhor drink.

O excesso de opções no espaço, claro, tornou necessário um certo planejamento envolvendo o que assistir e o que fazer durante o festival, mas nada que comprometesse seriamente a chapação envolvida em três dias principais o festival (que ao todo se desenrolou entre os dias 9 e 15 de maio) de encontros com os brothers e muita música foda no Centro Cultural Oscar Niemeyer, o CCON, em Goiânia.

(…) Em 18 anos de existência, talvez o festival tenha nos proporcionado sua versão mais acertada. Com uma estrutura inédita e muito bem planejada, grande parte dos perrengues de se ir a um evento deste porte passou em branco. Apesar da variedade de gêneros musicais presente na programação, ficou uma leve sensação de que faltou uma ou outra banda mais bombada no evento e — como a própria plateia disse durante o show do Rodrigo Ogi — faltou rap no Bananada.

Para muitos que residem em Goiânia, Brasília e região o Bananada funciona como a única forma de reencontrar alguns amigos, o que torna todo o rolê mais essencial a cada ano que passa. A tônica política também foi forte: praticamente todos os artistas que se apresentaram nos três dias do festival no CCON se posicionaram contra o golpe — e alguns até discursaram para o público. Considerando a situação cívica caótica que estamos vivendo nos últimos tempos, o Festival Bananada foi um pontinho reconfortante de esperança e descontração no meio do Cerrado.” – NOISEY

Salma Jô por Ariel Martini

Salma Jô, vocalista do Carne Doce – Fotografia por Ariel Martini

V. TODA A FORÇA DA DOÇURA DA CARNE

Naquele tenebroso 17 de Abril do golpe parlamentar de Cunha e sua corja – confrontado pela maré vermelha de ativismo que registrei no documentário O Céu e o Condor – Jean Wyllys acusou o processo de impeachment contra Dilma de ser uma “farsa sexista”. O caráter patriarcal, retrógado e machista se confirmou com o ministério de Temer, sem nenhuma presença feminina, colocando mais lenha na fogueira das insurgências feministas, mais necessárias do que nunca diante do atentado à democracia que é também um ataque à figura da mulher em figura de proeminência e protagonismo na política. Neste contexto, não economizo palavras para adorar uma banda como o Carne Doce, que já faz por merecer a posição dentre as melhores bandas do Brasil.

Com apenas um EP (Dos Namorados) e um álbum (Carne Doce), o quinteto goianiense já consagrou-se pelo brilhantismo e pela lindeza de sua arte e de suas performances. Nasceu em Goiânia nos últimos anos, em especial com os Boogarins, o Pó de Ser e o Carne Doce, uma espécie de vertente do indie rock brasileiro que prima pela originalidade, pela experimentação, pela ousadia estética e comportamental, em contraste com o hype do cenário stoner (Black Drawing Chalks, Hellbenders, Overfuzz), que é um furacão de potência mas está ainda bem apegado a modelos estrangeiros, às letras em inglês e ao desejo de ser como o Queens of the Stone Age.

A emergência das bandas com letras em português e autenticidade estonteante – no caso do Boogarins, capaz de transcender as fronteiras nacionais e tornar-se fenômeno global – torna este um dos momentos mais geniais da história de Goiânia Rock City. E não há dúvida de que Salma Jô e seu comparsas de banda estão no centro deste protagonismo – e com todo o mérito, já que a qualidade do trabalho Carne Dociano é algo de deixar boquiaberto o crítico musical, que se transmuta logo em outra coisa: fã em estado de adoração. O modo como acabou o show do Carne Doce neste Bananada 2016 é a maior prova disso: na cena mais inesquecível do festival, numa imitação de Eddie Vedder (Pearl Jam) em seus dias de loucão grungy, o Dan Pimentel escalou a estrutura do palco, fugindo do guardinha da segurança, e enlouqueceu total dependurado no topo, num headbanging xamânico ao som de “Adoração”.

SalmaNão se trata de um caso isolado: o Carne Doce é capaz de despertar reações extremas no público, em especial pela capacidade descomunal de Salma Jô em interpretar as suas canções de modo visceral, com expressão corporal de uma autenticidade e uma liberdade que são muito raras e admiráveis, agindo sempre como se estivesse curtindo imensamente o som produzido por Macloys, Aderson, Ricardo e João Vitor. Apesar de soar prematura uma profecia diante de uma banda tão nova, eu diria que Salma tem o potencial para tornar-se uma das mais importantes cantoras do Brasil – no nível de uma Cássia Eller ou uma Elis Regina – e já pode ser elencada, dentre as vozes contemporâneas, na companhia de Juçara Marçal ou Ceumar como uma de nossas mais incríveis intérpretes.

No Bananada, houve aula magna de liberdade com a refulgência do Carne Doce, uma banda que tematiza sexualidade e sensualidade indo ao cerne do coração selvagem de que nos fala Clarice Lispector. Numa música nova, que eu desconhecia e que muito me impressionou, o eu-lírico da Salma adota a perspectiva em primeira pessoa de uma mulher que decide-se, ao descobrir-se grávida, que o filho “não vai nascer”. Salma Jô canta-nos e convence-nos com uma encarnação (a um só tempo teatral e autêntica!) dos dilemas femininos como são sentidos por dentro. É um antídoto empoderador contra os discursos obscurantistas e fanáticos daqueles que desejam subtrair da mulher seu poder de decidir sobre o seu próprio corpo.

Ava Rocha e Salma Jô

Ava Rocha e Salma Jô

A participação tempestuosa de Ava Rocha, pela primeira vez dividindo o palco com o Carne Doce, foi uma lição a mais de empoderamento e excentricidade. No “Auto das Bacantes”, cantada em dueto com Salma, o chamado é para “tomar os espaços”: “tome espaço do Estado, da polícia, da NSA / da mulher maravilha / e meta um grelo na geopolítica!Ava – responsável por um dos álbuns mais inadjetiváveis da nova música brasileira, Ava Patrya Yndia Yracema (2015), trouxe ao transe carne-dociano um elemento transgressor a mais, subvertendo todos os paradigmas de beleza, como naquele estranho ritual bacântico em que Salma foi “coroada”, não como a crística coroa de espinhos, mas com uma coroa de facas. O público, extasiado, só agradecia às loucuras maravilhosas que via no palco e que provavam a maravilha das rebeldias estéticas e comportamentais. Nossa arte e nossa política só tem a ganhar com o talento e o carisma inestimáveis de mulheres como Salma e Ava.

Foram momentos momento de re-afirmação coletiva da capacidade de dizer não: no caso, não ao retrocesso, não à barbárie, não ao golpismo, não ao capitalismo destroçador de dignidade. Uma ocasião de dizer nãos produtivos e criativos, muito para além da negatividade, numa afirmação de que “eu grito sim / é pra você escutar / que eu quero ver / você fazer / eu me calar!”

Cito a letra de “Passivo”, do Carne Doce, tanto por considerá-la emblemática da qualidade estética estonteante da banda, mas também para destacar outras camadas de sentido que podem ser desveladas na canção. O “não se calar” desta canção, onde o foco narrativo é uma relação amorosa interpessoal, na performance vocal visceral de Salma transita para outro domínio, para outra vibe, e que me parece ter potencial de ser pura dinamite política: é uma voz de autonomia e rebeldia. É o som da lindeza inestimável da insubmissão. É o som que faz o empoderamento do desejo que afirma-se sem pudor nem culpa pois se sabe digno de auto-afirmação plena.

É esplendorosamente subversivo, em especial com a explosão de uma sexualidade indomável dos versos “vem me fuuuuder”“vem me fazer daaaaaaaar!” Ainda que possa soar a alguns ouvidos como pornografia letrística, aos meus ouvidos soa como uma das manifestações mais impressionantes, na nossa música contemporânea, dum brado libertário do Corpo que demanda o seu direito de gozar, que quer dignificar o gozo e desculpabilizar a carne, em insurgência (necessária e urgente) contra todos os estigmas caretas e condenações pias que aniquilam nosso deleite por sermos quem somos e por nos amarmos como nos amamos.

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VI. O ESPLENDOR DA LUTA: JUÇARA MARÇAL EM CARNE VIVA

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Para terminar este relato, não posso deixar de me derreter em adoração pelo esplendor que foi a performance da Juçara Marçal, uma das mais lindas vozes deste nosso Brasil, no Festival Bananada 2016. Um dos momentos mais comoventes do show foi uma interpretação do samba “Opinião”, de Zé Keti, que caiu como uma luva no contexto da crise política brasileira: “Podem me prender / Podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião!”

Estes versos, com um prelúdio em que Juçara alertava que cantaria algo “sobre o Golpe”, ganharam uma nova gama de significados que insuflaram vida nova a esta imorredoura pérola do cancioneiro popular em que o protagonista é a “voz do povo” e a “sabedoria da quebrada”. A visceralidade e a graça que emanam do gogó da Ju Marçal despertaram em mim esperanças de que, mesmo com este grotesco atentado contra o MinC, mesmo com um crápula do DEM tendo recebido o ministério da Educação e Cultura, mesmo com o rolo compressor de esmagar cidadania com que o golpismo galopante já nos atropela, o nosso presente já é de florescimento exuberante de uma “arte-de-resistência”. A cultura autêntica não vai se calar.

Anos atrás, eu tinha visto um show do Metá Metá no CCUFG que havia deixado meus sentidos acachapados de admiração diante de uma bandas mais inovadoras e originais que surgiram no país nos últimos anos. Depois, o “Encarnado”, álbum solo da Juçara, tornou-se um dos meus álbuns prediletos da música brasileira contemporânea, com suas versões ousadas e criativas de Tom Zé, Itamar Assumpção, Siba, dentre outros. Depois do Bananada 2016, não tenho mais dúvidas: Juçara é uma das artistas mais expressivas, inteligentes e sábias que temos entre os vivos. E é em fontes assim que preencho com um bocadinho de esperança um coração e uma mente que, às vezes, diante das escabrosas atrocidades de nossas elites e das castas políticas plutocráticas, ameaçam soçobrar no completo desespero.

Raia a esperança, emanada de João do Vale ou Zé Keti, de Wilson das Neves ou do Aláfia, de Jorge Ben em modo “Záfrica Brasil” ou Juçara Marçal dando vida à pluridiversidade de nossa cultura popular, de que, apesar dos pesares, Nelson Cavaquinho ainda terá a última palavra: “O Sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de voltar aos corações / Do mal será queimada a semente / O amor… será eterno novamente.”

 A “ponte para o futuro” (na real um atalho para o abismo!) que está sendo imposta por aquilo que Noam Chomsky chamou de “golpe brando” (mas que entre nós já recebeu a denominação mais humorística de golpe à paraguaia) é fruto de uma obscurantista e retrógrada elite econômica e política que, sistematicamente derrotada nas urnas nas 4 últimas eleições presidenciais, não conteve seu mandonismo, seu coronelismo, e tomou de assalto o poder de modo fraudulento e ilegítimo.

Algumas das inteligências mais refulgentes e brilhantes da nossa vida política, como o ministro Juca Ferreira e a secretária Ivana Bentes, foram “despedidos” de seus cargos no MinC, como prova cabal de quão deturpado é o juízo dos Temerianos e o quanto eles querem sangrar o Cultura Viva até que se torne um zumbi. Emblemático disso foi que no Rio de Janeiro o monumento na Cinelândia em homenagem a Gilberto Gil, muso tropicalista que tão esplêndidas contribuições fez à nossa cultura popular e um dos mais revolucionários e visionários dos Ministros da Cultura que já tivemos, foi “deletado” do cenário urbano: a tinta cinza dos censores apagou o colorido de Gil horas antes de uma manifestação contra o golpe marcada para aquele local.

Com a nossa cara coletiva toda gotejante depois de tantas cusparadas (há cuspes e cuspes: o de Jean Wyllys é digno de aplausos, pois seria sórdido e grotesco permitir que a apologia da tortura e a prática cruel da homofobia, por parte do Bolsonazista, fosse aceita em silêncio, sem que protestássemos com escarro!), fomos ao Bananada 2016 pra ver se a música lavava a alma de toda esta sujeira. E lavou. O vigor, o poderio, o ruído ensurdecedor feito pelo Bananada 2016, em sua 18a edição, no coração do Cerradão onde repousa a cidade de Brasília, foi um contragolpe à altura das urgências históricas de que somos contemporâneos. A Cultura resiste. O pulso ainda pulsa. Não estamos derrotados. “E eu quero ver / Você fazer / Eu me calar!”

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Maio de 2016

CONFIRA OS VÍDEOS FILMADOS NO BANANADA 2016:







Eles também estão disponíveis no YOUTUBE.

Fotos: ARIEL MARTINI | RAMON ATAIDE E EDUARDO CARLI | PEDRO MARGHERITO

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EM BREVE: DOC COMPLETO: DESLACRANDO A LIBERDADE NO BANANADA 2016

O BLOCO DAS BACANTES – 2ª EDIÇÃO (► COLETÂNEA MUSICAL):

01. GILBERTO GIL CANTA TORQUATO NETO,
“Geléia Geral”

02. JORGE BEN,
“Zumbi” (do álbum Tábua de Esmeralda)

03. BEZERRA DA SILVA,
“Quando o Morcego Doar Sangue e o Saci Cruzar as Pernas”

04. MARCELO D2 E JOVELINA PÉROLA NEGRA,
“Catatau”

05. B NEGÃO E OS SELETORES DE FREQUÊNCIA,
“Proceder / Caminhar”

06. NELSON SARGENTO,
“De Boteco em Boteco”

07. ROBERTO PAIVA,
“Frankenstein” (do álbum Noel Rosa vs Wilson Batista)

08. ITAMAR ASSUMPÇÃO,
“Nego Dito”

09. TAGORE,
“Vagabundo Iluminado” (do álbum Movido a Vapor)

10. GRAVEOLA E O LIXO POLIFÔNICO + GUSTAVITO,
“Canina Intuição”

11. LENINE,
“É Fogo” (do Labiata)

12. SARAVAH SOUL
“Fire” (Jimi Hendrix cover)

13.  PORCAS BORBOLETAS [MG]
“Tudo Que Eu Tentei Falhou”

14. CURUMIN,
“Guerreiro”

15. UMBANDO [GO],
“Filhos da Terra”

DÊ O PLAY!

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BLOCO DO EVOÉ! >>> “Eu só acreditaria em um deus que soubesse dançar.” (Nietzsche em Assim Falou Zaratustra)

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“Eu só acreditaria em um deus que soubesse dançar.”
(Nietzsche em Assim Falou Zaratustra)

EVOÉ >>> Interjeição. Do grego εύοϊ.
Expressa entusiasmo, exaltação, intensa alegria.
Brado de evocação a Baco nas orgias.
Exemplo: “Eram evoés e brindes a ecoar em todo o recinto.”

Neste domingão (14/06), vai rolar mais um evento cultural imperdível na Evoé Café com Livros, um dos espaços artísticos e lúdicos mais bacanas de Goiânia: é a 3ª edição do Bloco do Evoé, parceria da Evoé com a Fósforo Cultural.

Incentivando a efervescência das artes integradas, botando a literatura pra transar com a música e a poesia pra dançar seus versos, o Bloco do Evoé já realizou duas edições de sucesso neste 2015, em que teve sarau da Editora Zé Ninguém, apresentações musicais com Diego Mascate, Fernando Simplista, Lorrana Santos e Luca Augusto, além de DJs tocando a fina flor do cancioneiro tupiniquim.

Desta vez, o Bloco do Evoé contará com show da Bebel Roriz, discotecagens timbradas comigo e com o Igor Zargov, além de palco aberto pra quem quiser expressar canções, poemas, danças e o que for. Bóra?!?

A partir das 18h, ingresso R$10. Rua 91, Quadra 20B, 495, Setor Sul. [Evento no Facebook]

Exalte-se sem moderação! Enxote o apolíneo e incendeie o dionisíaco! Descreia em deuses que não sabem dançar!

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Abaixo, algumas coletâneas por mim boladas com algumas das cantigas que você corre o risco de ouvir na Evoé. Suba o volume e boa viagem!

BLOCO DO EVOÉ – VOLUME #01

01) Clara Nunes – Alvorada no Morro (2:34)
02) Jorge Ben – Mas, Que Nada! (3:01)
03) Wilson Das Neves – Samba É Meu Dom e Soberana (5:07)
04) Bezerra Da Silva – Pastor Trambiqueiro (3:32)
05) Elis Regina – Tiro ao Álvaro (2:42)
06) Carmen Miranda – …E O Mundo Não Se Acabou (de A. Valente) (3:00)
07) Caetano Veloso – Um Frevo Novo (2:55)
08) Zé Keti – Opinião (2:26)
09) Elton Medeiros e Paulinho da Viola – Maioria Sem Nenhum (2:18)
10) Elis Regina – Bala Com Bala (3:02)
11) Jorge Mautner – Feitiço (2:20)
12) Dorival Caymmi – Maracangalha (2:47)
13) Caetano Veloso – Alegria, Alegria (2:50)
14) Itamar Assumpção – Dor elegante (3:28)
15) Banda Black Rio – Mr. Funky Samba (3:38)
16) Clara Nunes – Canto das 3 raças (4:21)
17) Orquestra Imperial – Ereção (3:18)
18) Criolo – Linha de Frente (4:30)
19) Marcelo D2 – Malandragem dá Um Tempo (3:37)
20) DonaZica – Jabá (2:39)
21) Thalma de Freitas – O Samba Taí (2:42)
22) Marcelo Camelo – Copacabana (2:38)
23) Marcelo D2 – A Maldicao Do Samba (2:31)
24) Dunas do Barato – Sai da Calçada (2:25)

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BLOCO DO EVOÉ – VOLUME #02

01) Wado – Ontem Eu Sambei (3:27)
02) Mundo Livre S.A. – Bolo de Ameixa (3:56)
03) Tulipa Ruiz – Megalomania (4:12)
04) Graveola e O Lixo Polifônico – Babulina’s trip (4:43)
05) Natália Matos – Beber você (3:48)
06) Rodrigo Amarante – Maná (2:39)
07) Chico Science – Manguetown (3:13)
08) Ceumar – Turbilhão (3:56)
09) Russo Passapusso – Paraquedas (4:24)
10) Metá Metá – Rainha das Cabeças (3:50)
11) Castello Branco – Tem Mais Que Eu (3:06)
12) Saravah Soul – Fire (3:35)
13) Júpiter Maçã – Beatle George (3:37)
14) Carlos Malta – Come Together (3:18)
15) Mariana Aydar – Tá? (3:00)
16) Ceumar – Segura O Coco (2:53)
17) Bruno Batista & Dandara Modesto – Pois, Zé (3:20)
18) Baleia – Motim (4:46)
19) Zulumbi feat Elo Da Corrente – Sob o signo do insano (2:12)
20) Chico Science – Maracatu Atomico (4:43)
21) Jupiter Maçã – Um Lugar Do Caralho (4:58)
22) Metá Metá, Orunmila (4:03)

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BLOCO DO EVOÉ – VOLUME #03

01) Tim Maia – Não Quero Dinheiro
02) Chico Buarque – Apesar de Você
03) Sergio Sampaio – Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua
04) Raul Seixas – Botar Pra Ferver
05) Rita Lee – Ando Jururu
06) Luiz Tatit – Baião de 4 Toques
07) Tom Zé – Tô
08) Torquato Neto cantado por G. Gil – Geléia Geral
09) Marvin Gaye e Studio Rio – Sexual Healing
10) Lenine – O Homem dos Olhos de Raio X
11) Lula Cortez – Lua Viva
12) Raul Seixas – Pra Baixo
13) Gilberto Gil – Cérebro Eletrônico
14) Os Mulheres Negras – Xarope
15) Cássia Eller – Blues da Piedade
16) Sergio Sampaio – Que Loucura
17) Tom Zé – Menina Amanhã de Manhã
18) Chico Buarque – A Banda

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BLOCO DO EVOÉ – VOLUME #04

01) Criolo + Tulipa Ruiz, “Cartão de Visita”
02) Jovelina Pérola Negra + Marcelo D2, “Catatau”
03) Curumin, “Guerreiro”
04) Bezerra da Silva, “Quando o Morcego Doar Sangue”
05) Porcas Borboletas, “Tá Todo Mundo Pensando Em Sexo”
06) Amplexos, “Sim”
07) Los Hermanos, “Paquetá”
08) B Negão e os Seletores de Frequência, “Proceder / Caminhar”
09) Carne Doce, “Fruta Elétrica”
10) Andreia Dias, “Vida Bela”
11) Os Mutantes, “Senhor F”
12) Apanhador Só, “Vila do Meio-Dia”
13) João Bosco, “Mestre Sala dos Mares”
14) Siba, “Cantando Ciranda Na Beira do Mar”
15) Lenine, “É fogo!”
16) Elizeth Cardoso toca Pixinguinha, “Tapa Buraco”
17) Silvia Torres, “Take Saravá”
18) Adriana Calcanhoto e Bossacucanova, “Previsão”
19) Martinho da Vila, “Visgo da Jaca”
20) Dom Salvador e a Abolição, “Uma Vida”

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