FLORA TRISTÁN (1803 – 1844)

FLORA (2011, 27 min)
Um filme de Lorena Stricker

Preciosidade do cinema latino-americano, o curta-metragem “Flora” de Lorena Stricker é uma linda homenagem à vida e ao pensamento de Flora Tristán (1803-1844). “Com sua voz acesa e seu pensamento desobediente e vivo”, esta mulher socialista fala-nos com senso crítico e um ideário feminista-igualitário de impressionante atualidade.

ASSISTA AO FILME COMPLETO:

Flora Tristán é autora de livros importantes da teoria social no século XIX como “Peregrinações De Uma Pária” (1838) e “A União Operária” (1843), analisados e comentados em recente obra de Eleni Varikas, o magistral “A Escória do Mundo” (Ed. Unesp).

“O padre, o legislador, o filósofo tratam a mulher como verdadeira pária. A mulher (é a metade da humanidade) foi posta fora da igreja, fora da lei, fora da sociedade. O padre lhe diz: ‘Mulher, você é a tentação, o pecado, o mal; você representa a carne – quer dizer, corrupção, podridão. Chore sua condição, cubra a cabeça com cinzas, feche-se numa clausura e, ali, macere seu coração que é feito para o amor, e suas entranhas de mulher que são feitas para a maternidade. E quando tiver mutilado seu coração e seu corpo, ofereça-os sangrentos e ressecados a seu Deus para a remissão do pecado original, cometido pela sua mãe Eva. (…) Depois, disse-lhe o legislador: ‘Mulher, por si mesma, você não é nada como membro ativo do corpo humanitário, não pode esperar um lugar no banquete social. É preciso, se quiser viver, que sirva de anexo a seu senhor e mestre, o homem.’ Em seguida, o filósofo sábio lhe disse: ‘Mulher, foi constatado pela ciência que, por sua organização, você é inferior ao homem… você é um ser fraco de corpo e espírito, pusilânime, supersticioso.’ (…) Deve ser tema profundo de dor para os sábios dos sábios pensar que descendem da raça mulher… Que vergonha para eles serem concebidos no ventre de semelhante criatura, ter sugado seu leite e permanecido sob sua tutela uma grande parte da vida. Oh! É bem provável que, se esses sábios tivessem podido colocar as mulheres fora da natureza, como as puseram fora da Igreja, fora da lei, fora da sociedade, teriam se poupado a vergonha de descender de uma mulher…” (FLORA TRISTÁN, A União Operária. Citada por VARIKAS, 2014, Unesp, p. 52 – 56)

Avó do pintor Paul Gauguin (1843 – 1908), Flora Tristán teve seu relacionamento com o neto explorado pelo romance “O Paraíso Na Outra Esquina”do Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa (compre em Estante Virtual).

Além disso, muitos historiadores do pensamento têm destacado o papel de precursora e influenciadora direta de Flora Tristán sobre os fundadores do materialismo histórico-dialético, Marx & Engels. É deste teor o comentário que dedica-lhe Michel Onfray no 5º volume da Contra-História Da Filosofia, chamado Eudemonismo Social (Ed. Martins Fontes). Resumindo a vida de Flora, Onfray evoca Flora como uma mulher

Portrait de Flora Tristan en 1839 ©Costa/Leemage

“malcasada com um marido que a brutaliza sexualmente e que ela abandona para viver sozinha com os filhos, militante a favor do divórcio, abolicionista em matéria de pena de morte, denunciadora do colonialismo americano, fica conhecendo Owen e Fourier em Paris. Na rua, seu ex-marido lhe dá um tiro: o processo público movimentado revela uma ardente feminista que reivindica o direito a uma igualdade integral com os homens. Ela deseja a união dos trabalhadores explorados e sua constituição em classe operária, invoca o fim da miséria dos povos. Durante uma longa viagem de militância pelas cidades da França, esgotada, doente, Flora Tristán falece em Bordeaux. Tinha 41 anos. Em sua descendência, por meio da filha Aline, conta-se certo Paul Gauguin…

Muitas vezes se omite que Engels leu o livro de Flora Tristán Promenades dans Londres e de que grande número de suas informações se encontram sem remissão em A Situação Da Classe Trabalhadora Na Inglaterra, publicado em 1845, um ano depois da morte de Flora… Para escrever Promenades dans Londres, Flora Tristán não se fecha numa biblioteca, como Marx quando trabalha no capitalismo sentado à sua escrivaninha ou na sala de leitura do British Museum. Ela sai em campo, ao encontro físico da miséria…Dia após dia, vai a uma fundição para assistir ao trabalho dos operários, fala com moradores de pardieiros, encontra-se com prostitutas em prostíbulos, dialoga com prisioneiros em suas celas, convive com doentes mentais num asilo de alienados…

Quer o fim da miséria e a ‘felicidade comum’, portanto liberdade, alforria e igualdade… Nas prisões constata a correlação entre encarceramento e pobreza, delinquência e miséria social. A prisão não restitui ao convívio social, é uma escola do crime. É preciso agir sobre as causas do crime, e não punir o crime em si mesmo. Insurge-se contra a disparidade das penas, a injustiça da justiça, clemência para os poderosos e severidade para com os miseráveis… milita pela abolição da pena de morte. O que propõe é outro sistema social, que não seja o capitalismo selvagem, uma alternativa política capaz de eliminar a miséria produzida pelo mercado livre. Quer a união operária, o mutualismo, a força da coletividade,  o programa socialista radical… Em L’Union Ouvrière, de 1843, 5 anos antes do Manifesto Comunista de Marx e Engels, ela escreve “proletários, uni-vos” pois “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”…” (ONFRAY: p. 29)


SOBRE O CURTA-METRAGEM,
SAIBA MAIS: BBCLA VOZ

Diario de Los Andes:


SIGA VIAGEM – LIVRO COMPLETO (EM INGLÊS):

SUSAN GROGAN – Flora Tristan – Life Stories
(Routledge) – DOWNLOAD EBOOK

“AS SUFRAGISTAS”, um filme de Sarah Gavron -Inclui link para baixar

Sufra

SUFFRAGETTE – AS SUFRAGISTAS (2015)

Diretora: Sarah Gavron.
Com: Carey Mulligan, Helena Bonham Carter, Meryl Streep.
País: Inglaterra. Tempo: 106 min.

ASSISTA O FILME COMPLETO COM LEGENDAS EM PORTUGUÊS:

DOWNLOAD TORRENT

Sufragistas 2

“Que duas democracias supostamente gloriosas do mundo ocidental mais avançado como o Reino Unido e a França não deram o direito de voto às mulheres, nem que fossem eleitas, até 1928 e 1944, respectivamente, deveria nos enraivecer a tal ponto que o melhor resultado seria, sem dúvida, um verdadeiro exame de consciência. E não sobre o passado, mas sobre o presente. Metade da humanidade, pelo menos, ficava à margem das decisões, e As Sufragistas, filme britânico composto principalmente por mulheres, cospe na nossa cara essa vergonha. Com raiva, com delicadeza, com elegância, com justiça, com verdade, com paixão. Porque ainda resta muito a ser feito.” JAVIER OCAÑA, EL PAÍS

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“Estamos tão acostumados ao machismo, uma ideologia que educa homens e mulheres, que normalmente não somos capazes de apreciar em toda a sua enormidade o colossal abuso, a indecente e desumana injustiça do sexismo. Até um século atrás, metade da humanidade vivia submetida à escravidão mais total e aberrante; as mulheres careciam por completo de direitos, não eram proprietárias de si mesmas, de suas posses, de seus destinos. Sobre os escravos negros, felizmente foram feitos vários filmes, séries de TV e novelas. Sobre a imensa escravidão feminina não se fez praticamente nada. Com a agravante de que continua existindo em grande parte do mundo.

Nos antípodas do panfleto e da estridência, este filme contido, mas muito emocionante, nos mostra os abismos de onde nós, mulheres, viemos. É verdade que, contemplando nossa história recente com olhos de águia e de um lugar mais alto, a evolução foi tremenda. Em apenas 100 anos, cinco ou seis gerações de mulheres e de homens mudamos o mundo. Mas não é suficiente. Sim, eu sei, agora impera a acomodatícia e banal ideia de que já não existe nenhuma discriminação, que as mulheres e os homens estão completamente equiparados, e que falar destes assuntos é absurdo e antigo. Nada mais falso; as estruturas do sexismo sobrevivem inclusive no Ocidente, e, aliás, o homem também paga um preço, embora frequentemente não seja capaz de compreender isso. Mas é que, além do mais, metade do mundo continua sendo um inferno para a mulher.

Não é só que elas não possam votar na Arábia Saudita, por exemplo, como aponta ironicamente uma cartela ao final do As Sufragistas; é que as mulheres e as meninas continuam sendo sequestradas, estupradas, prostituídas, mutiladas sexualmente, encerradas em casa, lapidadas, vendidas como mercadoria, forçadas ao matrimônio, espancadas até a morte, queimadas com ácido; é que há 60 milhões de meninas não escolarizadas no mundo, e os fanáticos islâmicos queimam as escolas femininas e matam as garotas que querem estudar. É que centenas de milhões de mulheres vivem uma vida de constante abuso e tortura, e as Nações Unidas não parecem levar essa atrocidade muito a sério. Que a inexprimível dor da mulher nunca seja uma prioridade política internacional é uma amostra do nível de sexismo do Ocidente.

As Sufragistas, enfim, me fez não saber, porque já sabia, mas sentir no mais profundo do meu cérebro e do meu coração como é terrível esta luta. E também me permitiu recordar o heroísmo calado de tantíssimas mulheres que, ao longo dos dois últimos séculos (e apoiadas por alguns quantos homens), deram tudo, incluindo a vida, pela liberdade. Por nossa liberdade, leitora, a sua e a minha. E pela liberdade subsidiária dos homens, porque os verdugos também estão condenados a um destino miserável. A todas essas mulheres anônimas que foram insultadas e desprezadas; àquelas de quem arrebataram seus filhos, que apanharam e foram expulsas de casa; a todas as que foram encerradas em prisões ou nos manicômios ou que inclusive foram executadas, como Olimpia de Gouges na guilhotina; às indômitas lutadoras da dignidade que, em suma, conquistaram para mim o direito de votar, de estudar, de decidir e de viver, obrigada, irmãs, pioneiras, guerreiras admiráveis. Muito, muito obrigada.” – ROSA MONTEIRO, EL PAÍS

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Sufragette

SIMONE DE BEAUVOIR – “Uma mulher atual!” [DOCUMENTÁRIO COMPLETO + DOWNLOAD DO EBOOK “O 2º SEXO”]

[DOCUMENTÁRIO]
Simone de Beauvoir – “Uma mulher atual / Une femme actuelle”

(legendas em português)
Reblogado do Filosofia em Vídeo.com.br

“Simone de Beauvoir nasceu em Paris, em 1908. Formou-se em filosofia, em 1929, com uma tese sobre Leibniz. É nessa época que conhece o filósofo Jean-Paul Sartre, que seria o seu companheiro de toda a vida.Escritora e feminista, Simone de Beauvoir fez parte de um grupo de filósofos-escritores associados ao existencialismo, um movimento que teria uma enorme influência na cultura europeia do século XX, com repercussões no mundo inteiro.”

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SIGA VIAGEM:

Simone De Beauvoir

Simone B

SIMONE DE BEAUVOIR, “O SEGUNDO SEXO”
(Rio De Janeiro, Nova Fronteira, 2014)
DOWLOAD EBOOK DOS 2 VOLUMES NA ÍNTEGRA (8 MB)

ENTREVISTAS:

Vem aí, em Goiânia: Márcia Tiburi falando sobre “FILOSOFIA, FEMINISMO E POLÍTICA” @ “Filosofia no Centro”: No próximo Sábado, 27 de Junho, no Cine Ouro [CLICK e SAIBA MAIS]

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“FILOSOFIA, FEMINISMO E POLÍTICA”
MÁRCIA TIBURI no FILOSOFIA NO CENTRO #6
Goiânia / Go – 27 de Junho – Cine Ouro – 18h40

MOSTRA PÚBLICA DE PESQUISAS DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA UFG

O encontro foi elaborado em vista da atual discussão sobre Filosofia, Feminismo e Política.

A relação entre Filosofia e Feminismo não é historicamente inusitada. Desde as campanhas sufragistas do século XIX, seu auge ocorreu na década de 1960, com o surgimento de verdadeiros ícones que se tornaram referência internacional na luta pela emancipação das mulheres, tais como Simone de Beauvoir e Angela Davis, e a belga Luce Irigaray com maior radicalidade. Recentemente, a estaduniense Judith Butler tem elevado a discussão a outro patamar ao elaborar noções importantes para os estudos culturais e de gênero, como a de corpos abjetos. Admitindo tratar-se de uma “contradição performativa”, Butler insere os feminismos mais tradicionais na esfera da alteridade não reconhecida, não nomeada e existente apenas pela negatividade que a caracteriza como uma das dobras de um leque maior: a dos excluídos. Como excluídos, os corpos abjetos, mais do que serem objetos da indiferença, teoricamente ignorados e irrefletidos, passam a ser inseridos em um novo domínio ontológico e discursivo.

Ao serem reconhecidos como excluídos, torna-se então possível a ação política, inseparável de seus pressupostos filosóficos.

Márcia Tiburi, filósofa e escritora, tem se ocupado desta relação há muitos anos, seja na organização de eventos em Universidades, na publicação de coletâneas de artigos e livros, na pesquisa científico- acadêmica, e, mais recentemente, ao iniciar a discussão sobre a formação de um partido político feminista: o PartidA.

Nosso diálogo com Márcia Tiburi será formado por perguntas elaboradas por professoras da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Goiás – UFG, a fim de motivar uma discussão maior com o público presente.

Convidamos a tod@s para este evento de imprescindível interesse acadêmico e público.”

PÁGINA DO EVENTO NO FACEBOOK

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Sobre o Projeto Filosofia no Centro:

“Em certas ocasiões, é importante servir ao público aquilo que ele já deseja. Em outras, porém, é necessário mostrar a existência de algo que esse mesmo público talvez não suspeitasse que também poderia desejar. A cidade de Goiânia já conta com cafés filosóficos e ciclos de palestras abertas, que discutem temas solicitados pela vida cotidiana nas sociedades contemporâneas. Todavia, ainda restava vazio um espaço no qual a filosofia comparecesse, não tanto para atender a tais solicitações, mas principalmente para apresentar-se como atividade de pesquisa, para mostrar-se em seus modos de produção e, nessa medida, colocar a si própria no centro da atividade. É no intuito de dar início à ocupação desse espaço que pesquisadores, docentes e convidados da Faculdade de Filosofia da UFG vêm ao centro da cidade, ao Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro, para mostrar “o que fazemos, como fazemos e por que fazemos”. Oferta-se, assim, à sociedade goianiense um espaço público e gratuito de contato com a produção filosófica acadêmica, no qual, equilibrando o rigor e a seriedade com a acessibilidade exigida por uma situação pública, é dada a palavra a especialistas cujo trabalho vai muito além da mera retransmissão de um saber já constituído, porque, com suas pesquisas, originam novos conhecimentos através do incontornável diálogo com a tradição filosófica e sua história. E por ocorrerem na sala de cinema do Goiânia Ouro, as exposições poderão contar com recursos didáticos audiovisuais, desde a exibição de filmes completos até a simples projeção de textos filosóficos a serem analisados e comentados. Aproximando Universidade e Sociedade, esta mostra permanente de pesquisas filosóficas de excelência procura evidenciar que o refinamento da cultura e da civilização na região do Brasil central, bem como a defesa de que este centro geográfico não seja tratado como periférico em outros sentidos, são tarefas impossíveis sem que se retire o trabalho em filosofia da condição lateral de “serviço ancilar” para situá-lo, corretamente, no centro de uma visão de mundo que se queira ampla e cosmopolita de verdade. Sem que se coloque a filosofia no centro, perde-se, de imediato, a possibilidade da radical ampliação dos horizontes do pensamento, que se torna incapaz de pensar um universo infinito. E apenas em um universo infinito o centro estará em todas as partes.”

Marcia Tiburi

Black Venus (Vênus Negra): a ferida exposta do racismo ‘civilizado’

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Black Venus: a ferida exposta do racismo ‘civilizado’

por Gisele Toassa

BlackVenusDVDMuitos filmes já me incomodaram. A maioria na juventude, quando a novidade nos apanha facilmente – seja por meio de um final inusitado, do desafio às nossas crenças fundamentais, a sexualidade exposta nos seus aspectos menos compreensíveis e tantos outros mistérios deste mundo opaco que constitui a vida cotidiana. Foi assim com “A lista de Schindler”, “Ken Park” e “Os Outros”. E talvez, com alguns filmes violentos que não me ocorrem agora. Mas a verdade do cinema certamente transcende o abuso dos artifícios que encantam James Cameron e Mel Gibson, vivendo em paralelo com o velho conceito de Kafka: a verdadeira arte é a que incomoda e faz sofrer. Um sofrimento que não se destina aos adeptos das práticas sexuais de Leopold von Sacher-Masoch; não é para masoquistas que gozam de sua controlada [e portanto, mais ou menos previsível] dor celebrada na alcova. É o sofrimento de uma obra de Kafka, repleta de abusos políticos que exemplificam o sofrimento de um coletivo por meio de certo indivíduo que, espremido entre as muralhas de sua própria identidade, percebe seu futuro comprometido por um nascimento deslocado de tempo e lugar.

Isso talvez torne ainda mais significativo o meu desconforto com “Black Venus” (2010) de Abdellatif Kechiche, o mesmo diretor de “Blue is the Warmest Colour” (2013), vencedor da Palma de Ouro deste ano. Linda história de amor entre duas meninas, este tremendo filme já tinha me posto em desassossego com sua estética realista – queridos leitores, eu sou analfabeta no que se refere à análise técnica do cinema, mas consigo perceber que ali tem alguma coisa estranha, distinta das convenções cinematográficas mais recentes, um catalisador de reações mais extremas do que a média da sétima arte. As cenas de sexo ‘de verdade’ entre as atrizes são passionais e longas ‘demais’. Assim é com as cenas de humilhação ‘de verdade’ infligidas a Sarah Baartman, personagem de uma história real que se tornou essa história inventada. O que aprofunda a nossa dor é, provavelmente, imaginar que tamanha série de indignidades foram infligidas publicamente a um ser humano no coração de uma civilização – Londres, Paris – tão arrogante na defesa de seus valores e sua supremacia, tão eficiente na arte de nos fazer crer na nossa própria inferioridade e na superioridade do que ela chama de ‘cultura erudita’ e ‘ciência’.

Mais do que um debate pontual sobre direitos humanos, o filme vira de trás-para-diante qualquer debate tradicional sobre cultura, barbárie, civilização, selvageria, ou todas essas categorias falidas da sociologia na qual temos atrelado as desculpas pela nossa incapacidade de imaginar uma melhor sociedade. Afinal, somos e sempre seremos ‘atrasados’ em um contexto global, mimetizando esse ouro de tolo que é a deferência ao mundo ‘branco’, ‘cultivado’ e feliz da metrópole capitalista – psiquicamente herdado pela burguesia que nos parasita há 500 anos, e no qual aprendemos a nos conhecer e nos (des)conhecer. A incapacidade de lidar com o estranho não é, certamente, exclusividade do século XIX.

O diretor Abdellatif Kechiche, diretor de Vênus Negra, O Segredo do Grão e Azul É A Cor Mais Quente.

O diretor Abdellatif Kechiche, diretor de Vênus Negra, O Segredo do Grão e Azul É A Cor Mais Quente.

Sarah é uma jovem negra sul-africana que, aos 25 anos, foi levada pelo seu patrão para Londres, onde (contra a promessa inicial de que ela iria cantar, dançar etc) é exibida em uma jaula, fustigada com um chicote, beliscada na bunda pela plateia puritana do período vitoriano. O espetáculo consiste em tratá-la como um animal adestrado, que, no entanto, continua a oferecer certo grau de perigo. O nosso incômodo talvez venha de que Kechiche nos rebaixe à condição de espectadores impotentes das longas cenas de humilhação da jovem, de cujo rosto jamais escapa um sorriso. Sarah pede para que isso mude, mas sofre violência física e verbal. Chora frente ao público, e é reprochada por deixar vazar o sofrimento que atravessa o seu ser. O artifício de seus exploradores consiste em apresentar-se como vítima da jovem, também ‘alugada’ para relações sexuais e exibições de seu corpo, amplo e obeso, que causa tanto espanto naquele mundo branco. Após seu protesto inútil, vem a resignação e Sarah afunda no alcoolismo, com o pronto incentivo do patrão – qualquer semelhança com a epidemia de drogas nos bairros negros dos EUA não é mera coincidência: resposta covarde aos movimentos negros que se organizavam nos anos 1970.

O choro de Sarah mobiliza parte da plateia e o caso vai parar num tribunal, no qual, sem abordagem adequada, ela se comporta como quase toda vítima: defende seus agressores. É quando a pequena trupe muda-se para Paris, onde, cinco anos depois, se repetem as cenas – profundamente inquietantes, horrendas na sua banalidade – do ‘espetáculo’ “Venus Hotentot”. Sarah passa quase todo o filme nua ou seminua, para o prazer ou a curiosidade particularmente dos homens, mas também das mulheres, que deixam suas exibições de violino para vê-la urrar como um animal. O aspecto perverso de sua dor talvez consista em que ela não pode ser, por completo, um ‘objeto’ (esquecendo-se nos vapores do álcool que se tornam seu consolo), mas deve ‘encenar’, para o prazeroso ‘reconhecimento’ da plateia. Talvez não custe lembrar que livros de antropologia sobre os ‘selvagens’ tinham enormes tiragens no século XIX: os civilizados queriam não só explorar, mas ver; ter a certeza de que, em suas colônias tão distantes, eles não faziam nada pior do que já faziam com seus animais, sacrificados para usufruto de um coletivo humano que acreditava sinceramente no caráter ‘elevado’ de suas ideias e práticas sociais. A maior força do filme de Kechiche talvez esteja em mostrar a cegueira, o auto-engano e a violência dessa cultura que negou a todas as demais o direito à vida e à busca por uma forma própria de metabolismo com a natureza.

Muito bem, depois de sofrer por mais de uma hora, vem à cena o Dr. Georges Cuvier, médico celebradíssimo em sua época. Ele paga ao ‘senhor’ da Venus Hotentote para poder examiná-la. Sarah é forçada a ir ao luxuoso prédio do ilustre doutor [sim, diz o seu amo, é uma honra que esses homens tão importantes se interessem por você. Sim, meus amigos, é uma honra que a Copa seja sediada no Brasil!], que tira medidas de seu corpo, comprovando, sem sombra de dúvida, que ela se assemelha a um orangotango. Má ciência, má política, má arte: é o retrato de uma Europa perversa que esse maravilhoso filme nos oferece, como uma frágil máscara prontamente quebrada pelo simples encontro com o Estranho.

Esse filme, tão fantástico para uma reflexão nos mais diversos campos das ciências humanas, talvez também mude a sua vida. Depois de vê-lo, depois de tudo que anda acontecendo no Brasil, sei que quero estudar o racismo e também repensar ideias velhas que trazemos na psicologia, sobre o que é a cultura e de que modo uma cultura é também ‘metacultura’ – ou seja, uma ‘cultura sobre a cultura’. Será que não conseguimos nos livrar desse crônico servilismo a ideias racistas que atravessam nossas relações cotidianas e leva nossa juventude negra a ser assassinada ainda hoje? Será que não?

Acima, assista ao filme Vênus Negra completo (leg. em inglês).

O Brasil segundo Ruffato: “…é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, e sim privilégios de alguns…”

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Discurso do escritor Luiz Ruffato na abertura da Feira do Livro de Frankfurt 2013:

“O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro – é a alteridade que nos confere o sentido de existir -, o outro é também aquele que pode nos aniquilar… E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, artistas plásticos, cineastas, jornalistas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania –moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade–, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém…

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios –o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais –ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, e sim privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo –amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos…

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro –seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual– como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.”

Luiz Ruffato

Luiz Ruffato

Fonte: Estadão

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“O chador e a burca, assim como qualquer véu islâmico, funcionam sempre como uma mordaça. Com frequência como uma pedra sepulcral.” (Glucksmann)

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persepolis-livroA charge acima é da Marjane Satropi, na graphic novel “Persépolis”, já adaptada para o cinema em uma premiada animação (assista na íntegra). O livro que contêm o “romance em H.Q.” inteiro é este aqui: http://bit.ly/1baeBh5 (Ed. Cia das Letras, R$46).

Aproveitamos a ocasião para compartilhar um texto do filósofo e ensaísta francês André Glucksmann (1937- ) sobre a condição feminina e que trata, em especial, das opressões impostas a elas por governos teocráticos (como o Irã sob Komeini ou o Afeganistão dos Talibãs).

ASFIXIADAS PELO OBSCURANTISMO
André Glucksmann
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Teerã (capital do Irã), 1979. Conduzido ao poder por meio de colossais manifestações, nas quais se confundiam liberais, revolucionários e religiosos, o aiatolá Komeini imediatamente decreta o uso iminente e obrigatório do chador (o véu negro). Todas as iranianas deveriam esconder seus corpos sob véus negros. Todas, jovens e velhas, fiéis ou infiéis, deveriam cobrir-se da cabeça aos pés sob pena de prisão, flagelação, apedrejamento e outras bagatelas, inclusive a morte. Ansioso por institucionalizar sua revolução islâmica, o Guia supremo acredita que o novo regime deve se estabelecer sobre uma base sólida. Essa base é o estatuto destinado às mulheres. O véu integral deve perenizar seu poder.

As mulheres de Teerã não se deixaram enganar com isso. Longe de considerar o decreto como algo anedótico ou folclórico, saíram às ruas, romperam com a unanimidade geral e realizaram a primeira manifestação antiislâmica da história. Foram abandonadas pelos homens, todos eles… Alguns deles derramavam lágrimas de crocodilo e as chamavam de volta à razão. O lamentável destino reservado às mulheres do Irã, na opinião dos homens, não era senão o prejuízo colateral de uma liberação que seria mais generalizada. E afinal, por que tantos discursos a respeito de um pedaço de pano?…

A estratégia de Komeini se mostrou frutífera. O pedaço de tecido que as “brigadas de ordem moral” impunham em Terrã tornou-se um estandarte político universal, um instrumento de conquista, uma imposição de uniforme digna dos integrantes da SA (organização paramilitar do partido nazista alemão). Os integristas, tanto sunitas quanto xiitas, considerando-se autores do decreto, perseguiram, amputaram, apedrejaram e decapitaram todas as recalcitrantes sem véus.

O aiatolá fez escola em Argel (a capital da Argélia), e a tentativa de impor o uso do véu às jovens alunas dos liceus, sob a ameaça de uma faca no pescoço, inaugurou uma série de massacres sem precedentes…

“No Irã, as mulheres são as únicas a reivindicar publicamente, não somente por meio da palavra, mas por suas ações (tirar os véus e sair às ruas), a vontade de se afirmar como indivíduos. Nos dias atuais, elas constituem um dos componentes mais dinâmicos do devir da sociedade civil. Embora até o presente momento tenham permanecido politicamente desorganizadas, conseguiram se infiltrar em uma das cidadelas que, por longo tempo, lhes foi vetada: o saber acadêmico. Se, no Irã, os imãs vigiam de perto as mulheres, isso se deve ao fato de que, em 1986, elas constituíam 19% do quadro docente das universidades, enquanto, nesse mesmo ano, na Alemanha federal, essa taxa não passava de 17%…” (F. MERNISSI, La peur-modernité, Albin Michel, pp. 206-207).

Após a chegada de Komeini ao poder, no Afeganistão, os homens empenharam-se em intensificar ainda mais a proibição da exibição de qualquer parte do corpo, por mínima que fosse. A burca é um véu que cobre integralmente o corpo, deixando apenas uma pequena faixa em forma de grade, na altura dos olhos, sob o qual a mulher sufoca e enxerga com dificuldade. Seu uso se propagou e se tornou o emblema da ditadura dos talibãs, esses estudiosos da teologia que, pelo sabre e pelo chicote, revelam sua superioridade em matéria de religião. Os homens aplicam-se a dividir o gênero feminino em “putas” (entendam: as que não usam véu) e “submissas” (entendam: as que usam véu)…

O terrorismo do véu não priva a mulher de seu corpo, mas da possibilidade de falar (seduzir ou não) com seu corpo, ele lhe corta a palavra. O chador e a burca, assim como qualquer véu islâmico, funcionam sempre como uma mordaça. Com frequência como uma pedra sepulcral.”

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GLUCKSMANN, André.
Discurso do Ódio
(Le Discours de la Haine)

Editora Difel: Rio de Janeiro, 2007.
Quem quiser comprar este livro, ei-lo:
http://bit.ly/11KAtwu (R$39,00)

 

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