A Eternidade está apaixonada pelas produções do Tempo – Sobre Van Gogh, interpretado por Willem Dafoe, no filme de Julian Schnabel

“Eternity is in love with the productions of time.”
William Blake, The Marriage of Heaven and Hell

Cambaleando pra fora do cinema após ser atropelado pelo carrossel fílmico desnorteante de Julian Schnabel, me lembrei desta frase do poeta-pintor William Blake que afirma: “a Eternidade está apaixonada pelas produções do Tempo.”

A mirada Van Goghiana sobre o mundo, tal como fica manifesto em algumas de suas obras, era de estarrecimento pela luz inexaurível que o Sol espraia sobre tudo, girassóis e gentes.

Parece ter sido também uma mirada cheia de fascínio, entremesclado de ansiedade e angústia, diante do dínamo estrelado da noite. Algo que evoca o famoso frisson que atravessava a espinha de Blaise Pascal diante do “silêncio eterno dos espaços infinitos”. Só que para Vincent, o que estarrecia não era o silêncio espacial, mas sim os fluxos cheios de potência da Luz, mãe de todas as cores.

Só alguém capaz de estar com todos os sentidos boquiabertos diante do espetáculo natural seria capaz de representar, filtrado por seu enigmático e idiossincrático eu, o devir em sua acontecência.

O filme de Schnabel (o mesmo diretor de Basquiat e O Escafandro e a Borboleta), com sua câmera propositalmente inquieta, saltitante, que nos leva numa bumpy ride como se acompanhássemos um câmera meio ébrio, procura nos colocar no cerne da vivência do pintor em seu contato íntimo com as forças do cosmo.

Em meio aos elementos, deixando-se afetar pela natureza exuberante à sua volta, este enamorado-pela-luz parecia ser também extremamente sensível às dinâmicas da energia vibratória que a tudo anima e que todos os entes, dos mais minúsculos ao mais grandiosos, exalam e emanam em consonância com as estrelas. Viver é vibrar.

O filme No Portal da Eternidade (At Eternity’s Gate) representa, em várias cenas, uma espécie de transe místico de pendor naturalista, em que um sujeito desesperadamente em busca de transcender o Pensamento se taca em um mergulho imersivo no Cosmos que o abriga e de que faz parte.

A certo momento, dando demonstração de que sua fé era panteísta, assim como tinha sido a de seu conterrâneo Baruch Spinoza, Van Gogh sentencia: “God is Nature, and Nature is Beauty”. Aos meus ouvidos, soou assim: só a Natureza é divina, e sua essência é bela. Resta que estejamos alertas e despertos o suficiente para enxergá-lo.

Atravessando seu tempo entre os vivos como uma consciência hipersensível, maravilhada com as luzes, as cores, as sombras, as formas, os fluxos, Van Gogh nos coloca o ponto de interrogação, profundo e irrespondível, do Tempo que ele habitava e que suas obras representam.

Que tipo de Tempo, subjetivamente filtrado, habitava este pintor-poeta, frequentemente estigmatizado como louco, o hoje célebre holandês Vincent Van Gogh?

N atualidade, é claro, já nos acostumamos a ele como um morto que foi transformado em uma celebridade mundial e cujos quadros valem milhões nas mãos de marchands em elegantes leilões. Um sujeito sobre quem já foram feitos muitos filmes e sobre quem já se escreveram muitos livros, mas que em seu tempo de vida passou por peculiares experiências existenciais que tornam seu destino inimitável e como que inexaurível em seus mistérios.

Enquanto viveu, frequentemente na penúria, salvo da fome apenas pelas esmolas mensais pagas por seu irmão Theo, o Van Gogh de carne-e-osso  viveu um destino onde podemos ler o emblema daquele “matrimônio do Céu e do Inferno” que William Blake evocava em um de seus maiores livros.

Van Gogh esteve no inferno das instituições psiquiátricas. Esteve preso na camisa-de-forças e foi alvo de mortificantes hidroterapias. Teve seus quadros escorraçados pelos cidadãos-de-bem respeitáveis. Teve pastores xingando pinturas suas de lixo feio e desagradável. Foi mal-compreendido e apedrejado. A professorinha das crianças da vila podia xingá-lo de pintor incompetente diante de um quadro onde representava raízes de uma árvore. Assim, forjou-se uma figura que, no isolamento sofrido, concebeu um estilo de vida que produziu como frutos algo de inimitável e único.

Seu temperamento antisocial – “passam-se dias sem que eu converse com ninguém”, confessa ele a Gauguin a certo ponto – é notório. Com frequência, Van Gogh prefere estar só em meio à Natureza Selvagem, deixando seus sentidos entrarem em transe diante do dinamismo sem parada que constitui aquilo que os filósofos chamam de “experiência empírica”. Ele não é um devoto do lógos, mas sim um praticante da stésis. Não um contemplador passivo do mundo, mas um agente expressivo que cria imagens insólitas e inéditas, de efeitos misteriosos e atordoantes sobre a percepção de seus contemporâneos e daqueles cujos olhos ainda nem nasceram…

Este, que foi chamado de louco, testemunha o quão mentecaptos são os normais, que enxergam tão pouco das belezas e horrores do mundo, perdidos em mesquinharias e vilezas. Ele, o louco de tão sábio olhar, ensina-nos sobre o ridículo e o horroroso de um olhar domesticado, como o de um cavalo sob antolhos, que é tantas vezes, e por tanto tempo repleto de desperdício de forças vitais, o nosso – nós, os medíocres.

Assim como Nietzsche, Van Gogh fugiu do rebanho, quis ser uma ovelha negra para destoar da brancura monótona dos rebanhos monocromáticos, e acabou por se tornar um subversivo, um transtornador das fronteiras e dos limites, alguém que abre caminhos novos que depois os sábios, ao menos os mais ousados, seguirão. Em um momento do filme, lhe perguntam: “todos os pintores são loucos?” Com uma quase divina ironia, ele responde: “Não, apenas os melhores.”

Tal qual Nietzsche, Van Gogh é um pedagogo de outros viveres possíveis, distanciados da mesmice em que se comprazem os tolos normais, apalermados diante de futilidades e agressividades, sem perceber tudo o que há de grandioso e cheio de mistério da vida que nos rodeia e que nos habita.

Nietzsche dizia que sua obra só seria compreendida pela posteridade, por “espíritos livres” dionisíacos que ainda estavam por nascer, e assim endereçou sua filosofia ao futuro. Afinal, “alguns homens já nascem póstumos.” O gesto de Van Gogh é semelhante. Ele prodigalizou suas forças, pôs em ação suas exuberantes energias criativas, para ser uma espécie de sementeiro de um amanhã onde os humanos estivessem com os sentidos mais abertos, onde seríamos mais vivos e conectíveis pois mais sensíveis e despertos.

Na sua luta por viver uma existência com sentido, Van Gogh se entrega ao transe criativo da pintura como um sementeiro. Van Gogh semeava imagens que um dia abririam milhares de pessoas aos espetáculos reais e concretos das luzes, das formas, das energias, tudo em eterna e móvel interação inexaurível.

Em uma conversa bem significativa com o padre, compara-se a Jesus de Nazaré: ele, Van Gogh, sentia que os contemporâneos iriam, em sua maioria, ignorá-lo tal qual fizeram com o futuro Cristo. A cena leva a supor que ele já sabia disso: de seu destino de “homem póstumo”, nietzschiano.

Só depois da morte é que ele, Van Gogh, assim como Jesus, renasceria e permaneceria entre nós como uma espécie de artista-mártir cujo destino não consegue mais cair no olvido. Pois nos fascina e nos atormenta. Estas imagens agora acompanham o andar da carruagem humana, ainda que tantos de nós ainda não tenham realmente parado de enxergá-las senti-las em toda a profundidade e em toda a maravilha sublime e difícil que contêm.

Pelo gesto desesperado de auto-mutilação com que rompeu com seu próprio corpo, pela orelha ensanguentada que endereçou a Gauguin após uma dramática cena de despedida, Van Gogh entrou também para o rol daqueles capazes de atos trágicos.

Assim como Édipo, furando seus olhos diante do cadáver de sua mãe e esposa Jocasta, Van Gogh decepa sua orelha – ação que o psicólogo que o analisa se apressa a interpretar com a mais simples das hipóteses: o pintor, apegado emocionalmente a seu amigo Gauguin, dependente do afeto deste, padecendo de uma enorme solidão e isolamento social, não se sente capaz de encarar o amargo fardo de ser deixado a sós.

No filme de Schnabel, somos convidados a observar o drama existencial de Vincent sem julgá-lo com o subterfúgio arrogante dos covardes: aquele de estigmatizar como louco alguém que colocamos abaixo de nós, os normais. Pelo contrário, os normais é que ficam parecendo ultra-medíocres diante das produções-de-vida deste artista em que confluíram genialidade e loucura. Que nos convida a pensar que não há genialidade em muitas gramas de loucura mesclada ao caldo que o artista prepara para uma humanidade ingrata.

Em outra cena adorável, Van Gogh pinta flores e filosofa: as flores reais vão murchar e desaparecer (wither and fade), mas a pintura das flores produzida por Van Gogh tem ao menos a chance de penetrar pelos umbrais da eternidade. A moça a quem este pensamento é endereçado então lhe faz um pedido, um convite: “pinte-me”. Ela parece manifestar uma recém-descoberta libido que se volta ao tempo futuro desconhecido, uma vontade de não submergir no destino de apodrecimento, desaparecimento e olvido que é o quinhão comum de todas as flores, e de quase todos os humanos entes.

Van Gogh lhe diz que ele poderia não só fazer a tentativa de inseri-la na eternidade, legando às futuras gerações uma pintura imorrível, como também poderia fazê-la parecer mais jovem do que é. Ela não gosta da idéia e reclama: “Isto não seria justo.” Fica sub-entendido que a moça desejaria ser pintada com realismo, como alguém diante da máquina fotográfica, pois seria uma violação da justiça, ou seja, da justa representação, que ela fosse retratada com uma juventude que já perdeu.

Van Gogh, pintando com todo furor, abandona a sociedade que o maltrata e adere a uma espécie de exílio interior, se faz um peregrino sem lar, um contemplador e pintor dos dinâmicos mistérios cósmicos, perdido na imensidão que seus quadros expressam. No filme de Schnabel, somos lançados ao turbilhão de suas vivências, fluímos com ele por um mundo trágico e confuso, onde orelhas decepadas e tiros no estômago nunca tem um sentido claro, unívoco, facilmente descobrível. Van Gogh é um destino-esfinge, e é assim tão misterioso pois viveu nesta intensa troca com o Eterno.

Pois o umbral da Eternidade não é outro senão o aqui-e-agora. Van Gogh diz que, diante de uma paisagem, ele enxerga o Eterno. Ele não diz o imutável, muito pelo contrário. O Eterno é móvel e mutante. O Eterno é a dança que o vento faz com o trigo, é o disparo de uma estrela cadente no céu tal qual o enxergamos, é a semeadura e a colheita abrigados no mesmo ninho que tem o tamanho de tudo.

Para o Nietzsche que pariu as estrelas cintilantes que são os discursos de Zaratustra, o instante era uma espécie de colisão de duas eternidades. Tudo que já foi, tudo o que será, amalgamado neste agora que não passa de um elo em uma corrente de um cosmo-serpente, a devorar seu próprio rabo. Ouroboros. O Tempo devorou a carne de Nietzsche e Van Gogh, as produções destas vidas atravessaram o umbral do agora para vir dialogar com nós, que somos deles os pósteros.

Estes mortos seguem tendo muito a nos dizer, e nós seguimos muito ruins de escuta e péssimos de visão. Míopes inclusive por opção. Como novos Édipos, furamos nossos próprios olhos para não enxergar as verdades que intentam nos comunicar. Como na cegueira branca de que o romance de José Saramago nos narra, há uma pandemia de cegueiras estranhas, e muitos perdidos na contemplação maníaca de pequenas telas brilhantes, seus celulares e tablets, já estão perfeitamente alienados do gigantesco acontecimento cósmico que nos circunda com sua explosão de energia infinita e onivibrante.

Van Gogh é necessário, pois, para nos re-despertar para uma experiência de stésis mais profunda, que no limite nos entrega ao perigo e ao risco do transe místico, da unio mystica, de uma imersão panteísta em que o eu individual se dilui no Todo e no Outro que o transcende e que o contêm. Fugindo do lógos como do demônio, Van Gogh quis viver na hipersensibilidade de uma consciência estética acesa e alerta a um Cosmos cuja única lei é a mudança. Um Universo que só tem uma coisa que nunca muda: o fato dele ser eternamente móvel e fluido, como a dança de uma criança cuja energia fosse inexaurível.

No canvas de Van Gogh, o que rebrilha é um fragmento desta energia inexaurível que, sob o sol que derrama-se sobre os girassóis ou debaixo das estrelas que povoam como enxames a noite, nos rodeia e nos habita, tornando possível o misterioso processo de estar vivo e ser perceptivo.

A este homem, a quem se grudou o estigma de alienado, a quem julgou-se como doido varrido por seu tresloucado gesto auto-mutilatório, que boatos dizem que suicidou-se, talvez seja um sábio disfarçado de maluco. Um professor nas vestes de um mendigo sujo de tinta e com olhos pela angústia aterrorizante marcados. Um mestre que, depois de morto, é uma fonte de onde jorra luz infindável que vem bater nas portas de nossos sentidos gritando a plenos pulmões, com suas esculturas de tinta em celebração das luzes e cores: “despertem! o espetáculo do mundo só está acessível aos mortais por pouco tempo! Não o desperdicem! Pois a Eternidade pode até ter todo o tempo do mundo, mas nós, meros mortais, não.”

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 05 de Março de 2019

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LEITURA COMPLEMENTAR SUGERIDA

SETE EXCERTOS DE
“VAN GOGH: SUICIDADO DA SOCIEDADE”
De Antonin Artaud
Seleção: A Casa de Vidro

[1]: “…o que é um autêntico alienado? É um homem que preferiu tornar-se louco, no sentido em que isto é socialmente entendido, a conspurcar uma certa idéia superior da honra humana. Foi assim que a sociedade estrangulou em seus asilos todos aqueles dos quais ela quis se livrar ou se proteger, por terem recusado a se tornar cúmplices dela em algumas grandes safadezas. Porque um alienado é também um homem que a sociedade se negou a ouvir e quis impedi-lo de dizer insuportáveis verdades. Mas, neste caso, a internação não é a única arma, e a união concertada de homens tem outros meios para vencer as vontades que ela deseja quebrar. Fora das pequenas bruxarias das feiticeiras de província, há os grandes passes de enfeitiçamentos globais dos quais toda consciência vigilante participa periodicamente. (…) É assim que algumas raras boas vontades lúcidas que se têm debatido sobre a terra encontram-se, em determinadas horas do dia ou da noite, no fundo de certos estados de pesadelo autênticos e despertos, rodeados da formidável sucção, da formidável opressão tentacular de uma espécie de magia cívica que se verá logo aparecer exposta nos costumes.”

[2]: “… uma sociedade deteriorada inventou a psiquiatria para se defender das indagações de certas mentes superiores, cuja capacidade de adivinhar a incomodava. Gérard de Nerval não era louco, porém disso foi acusado com o propósito de lançar ao descrédito certas revelações capitais que estava prestes a fazer…”

[3] – “…é crapulosamente impossível ser psiquiatra sem estar ao mesmo tempo marcado em definitivo da mais indiscutível loucura: a de não poder lutar contra este velho reflexo atávico da turba que torna qualquer homem de ciência, submetido à multidão, uma espécie de inimigo-nato e inato de todo gênio. (…) A psiquiatria nasceu da turba plebéia de seres que quiseram conservar o mal na fonte da doença e que, assim, extirparam de seu próprio nada uma espécie de guarda suíça para deter em seu nascedouro o impulso de rebelião reivindicador que está na origem do gênio. Há em todo demente um gênio incompreendido em cuja mente brilha uma idéia assustadora…”

[4] – “No fundo de seus olhos de carniceiro, que parecem depilados, Van Gogh se entregava sem interrupção a uma dessas operações de alquimia sombria, que tomam a natureza por objeto e o corpo humano por caldeirão ou cadinho.”

[5] – “Eu mesmo passei nove anos num asilo de alienados e nunca sofri da obsessão do suicídio, mas sei que, a cada conversa que tinha com um psiquiatra, de manhã, na hora da consulta, sentia vontade de me enforcar por ver que não podia estrangulá-lo.”

[6] – “Ninguém se suicida sozinho. Ninguém jamais esteve sozinho ao nascer. Ninguém tampouco esteve sozinho ao morrer. Mas, no caso do suicídio, é necessário um exército de gente má para levar o corpo a fazer o gesto contra a natureza de se privar da própria vida.”

[7] “quanto à orelha cortada, é lógica direta,
e, repito,
quanto a um mundo que, dia e noite,
e cada vez mais,
come o incomível,
para levar até o fim sua má intenção,
nada se tem a fazer, chegado a este ponto,
senão tapar-lhe a boca.”

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“Perséfone e Hades”, de Bernini

 

 

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“La Joie De Vivre”, de Matisse (1906)

 

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“The Triumph of Pan”, de Nicolas Poussin (1636)

 

POUSSIN The_dance_to_the_music_of_time_c._1640

“A Dança das Estações Com A Música Do Tempo”, de Nicolas Poussin (1640)

 

Danaides_by_John_William_Waterhouse,_1903

“As Danaides”, John William Waterhouse (1903)

 

John Roddam Spencer Stanhope - T

“The Waters of Lethe by the Plains of Elysium”, de John Roddam Spencer (1880)

 

"As Sereias e o Navio De Ulisses", de William Etty

“As Sereias e o Navio De Ulisses”, de William Etty

 

"Um Par de Botas" (1887), de VIincent Van Gogh

“Um Par de Botas” (1887), de Vincent Van Gogh

 

"Água - Origem da Vida", de Diego Rivera, na Cidade do México

“Água – Origem da Vida”, de Diego Rivera, na Cidade do México

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